3 de dezembro de 2020

Opinião – “Upsss! 2 – A Aventura Continua” de Toby Genkel, Sean McCormack

Sinopse

A Arca de Noé está navegando no alto mar há semanas e os géneros alimentares estão lentamente acabando. O jovem Nestrian Finny e sua melhor amiga Leah, uma Grymp, acidentalmente caem da arca e são arrastados para o mar. Finny encontra uma colónia inteira de Nestrians debaixo de água, Leah chega a uma bela ilha povoada por seres estranhos mas igualmente estranhamente familiares que vivem em harmonia, embora sob a ameaça de um vulcão ameaçador. Depois de se reencontrarem, os nossos corajosos jovens mais uma vez passam por muitas aventuras emocionantes para tentar salvar todos os animais da arca.

Opinião por Artur Neves

Este filme é a continuação de “Upsss! Lá Se Foi a Arca de 2015 que constituiu a produção Alemã de maior sucesso comercial em 2016 com uma receita de bilheteira à escala global de cerca de €25 milhões. A continuação da aventura em curso pretende atingir valores semelhantes embora o ambiente pandémico que nos rodeia, com todos os constrangimentos infligidos aos espetáculos e muito particularmente ao cinema, constitua um sério entrave a estes desígnios.

Tal como descrito na sinopse, os conflitos dentro da arca começam a surgir devido à escassez de alimentos que faz ressurgir a rivalidade entre carnívoros e herbívoros, aumentando as tensões a bordo e fazendo surgir diversos conflitos que se vão resolvendo com a magia dos meios computacionais de animação que conseguem cativar completamente o público infantil a quem se dirigem.

O argumento mistura diferentes histórias clássicas que se mais novos não as conhecerem no original vão assumi-las como inéditas, o que não é um mal em si mesmo, porque para o público alvo constituirá motivo de encantamento e de recordação que serão acertadas no futuro. Para já, o importante é a diversão e o envolvimento com uma história sempre apresentada pelo lado positivo, com uma animação suave e mais atraente do que o seu antecessor.

Se for possível vê-la em 3D então o espetáculo será mais imersivo e a diversão mais completa. É o perfeito filme de Natal que permitirá uma sã distensão ao stress escolar deste primeiro período. O público infantil agradecerá.

Classificação: 6 numa escala de 10

 

Opinião – “Superinteligência” de Ben Falcone

Sinopse

Para sua surpresa e enorme descontentamento, Carol Peters, até aí uma pessoa perfeitamente comum, é escolhida para cobaia de uma superinteligência artificial que irá decidir o que fazer com a Terra. Indecisa sobre subjugar, preservar ou destruir a Humanidade, essa entidade tecnológica quer estudar todos os aspetos da vida de Carol, para perceber se realmente os seres humanos são dignos de salvação. Ciente da enorme responsabilidade que lhe coube em sorte, Carol vai ter de provar o que vale.

Opinião por Artur Neves

A história compõe-se como uma comédia romântica em que Carol Peters (Melissa McCarthy) é escolhida por uma superinteligência, não se sabe se origem terrena ou alienígena, que pretende conhecer o modo de funcionamento da sociedade dos humanos para melhor os salvar do colapso iminente a que os próprios humanos estão inexoravelmente a ser conduzidos pelas suas atitudes e pelos seus excessos de consumo desenfreado de recursos do planeta terra.

Carol foi escolhida porque no entender da tal superinteligência correspondia ao modelo de pessoa comum que poderia constituir uma base de referência para toda a humanidade. Estão a ver, Melissa McCarthy é uma atriz americana bonitinha de cara, frequentemente convidada para desempenhar papéis de comédia devido aos muitos quilogramas a mais que possui e que lhe confere uma imagem rotunda em toda a sua aparência. Logo por aqui se pode avaliar o nível de superinteligência com que estamos a lidar que a elegeu como modelo do que se entende como o comum dos mortais.

O que se segue é o reatar de um romance interrompido de Carol com um anterior namorado George (Bobby Cannavale) que está de partida para a Irlanda na busca de melhores dias dos que tem passado nos USA. Carol porém é recatada e com os avanços e recuos do relacionamento com George não presta suficientes informações à tal superinteligência que quer aprender mais sobre a afetividade entre os humanos e a empurra para sucessivas tentativas de o cativar.

A curiosidade da história, que a diferencia de outras comédias românticas, centra-se na apresentação da comunicação global através da simulação de uma rede 5G com que a superinteligência comunica constantemente com Carol, apanhando-a nas mais variadas situações, seja através das câmaras de vigilância de rua, do automóvel sem condutor que põe à sua disposição, como da televisão em casa, ou do rádio relógio despertador, ou até da torradeira que ela se apressa a destruir à vassourada.

Em boa verdade as redes 5G ainda não existem comercialmente, estando neste momento em testes de instalação, nem tão pouco existe atualmente equipamentos que possam utilizar tão profusamente essa banda de frequências como o filme pretende ilustrar. Todavia é um futuro próximo que mesmo em apresentação simulada, dá-nos uma ideia das potencialidades dessa tecnologia com que temos de lidar nos anos que se aproximam.

Agora, utilizar este desenvolvimento tecnológico como motivo e razão para reatar um romance interrompido é no mínimo peregrino, mas enfim é o que temos. A vertente ecológica de contenção de consumo que também veicula, justifica a classificação atribuída.

Classificação: 5 numa escala de 10

 

1 de dezembro de 2020

Opinião – “Uncle Frank” de Alan Ball

Sinopse

Em 1973, quando Beth (Sophia Lillis), de 18 anos, e seu tio Frank (Paul Bettany) fizeram uma viagem de Manhattan a Creekville, Carolina do Sul para o funeral do patriarca da família, Daddy Mac (Stephen Root), eles inesperadamente se juntaram ao amante de Frank, Walid (Peter Macdissi). Uma história sobre família, perdão e sobre o nosso inerente poder de escolher quem queremos ser.

Opinião por Artur Neves

A primeira palavra que após o visionamento me surgiu para definir este filme foi: Completo!... e digo isto por se tratar de uma história que trata a opção sexual individual de uma forma sóbria, discreta, tocando em todas as faces do poliedro que pode servir de modelo abstrato do fenómeno da homossexualidade humana. No caso presente reporta-se à homossexualidade masculina que em termos conceptuais não deve diferir da homossexualidade feminina, com todos os atributos de sofrimento, solidão, sensação de ser diferente, deslocado da maioria, auto interrogação e auto comiseração, que induzem o subsequente rol de traumatismos emocionais condicionantes do comportamento social destas pessoas num meio que não os reconheça como iguais.

Sem qualquer brejeirice, vulgarmente incluída no género, a história aborda o vínculo castrador das duas religiões universalmente mais divulgadas; a cristã e a muçulmana, nas suas regras convencionais de pecado e exclusão, analisa os princípios dos sintomas da diferença e a forma como eles se desenvolvem e concretizam e confere aos seus intérpretes o direito à escolha de acordo com as suas pulsões, ilustra sem reservas a sublimação do sofrimento íntimo recalcando as mágoas e emergindo silenciosamente dos destroços, mostra o atento e incondicional amor de mãe por um filho diferente, apresenta as cumplicidades sinceras dos elementos da família que aceitam em segredo essa diferença e constituem por vezes os esteios de uma vida incompleta. Adicionalmente são também incluídos os comportamentos dos menos avisados que se surpreendem pela novidade e a encaixam por preceito de família, bem como, a liminar proibição e negação abjeta do pai, que deixa transparecer algo sobre uma homossexualidade latente constantemente reprimida durante toda a vida.

Por todo este conjunto de apreciações numa mesma obra, considero este filme; completo, atrevendo-me até a compará-lo a um ensaio sobre a homossexualidade, mas apresentado em forma cinematográfica. Escrito e realizado por Alan Ball, realizador americano que já nos ofereceu esse excelente filme premiado com o Óscar de 1999 “Beleza Americana” e a igualmente excelente série “Sete Palmos de Terra” nos anos entre 2001 e 2005, entre outras boas realizações. Começa com Beth, uma adolescente de 14 anos a projetar o seu futuro no seio de uma família que não a compreende, exceto o seu “Tio Frank” de quem ela se sente próxima e que em conversas no terraço por altura de uma visita deste, lhe fala de oportunidades e de vivências na cidade de Nova Iorque onde ele é docente universitário, que ela nunca ousara antes pensar. Aqui é curioso observar o personagem interpretado por Sophia Lillis, de uma rapariga pouco atrativa, magra, baixa, embora possuidora de um rosto bonito que nos confunde com a sua identidade de género, embora explicitamente ela tenha declarado ao tio não ser gay. É ela que narra a história da sua emancipação, do seu encontro com o tio na universidade em Nova Iorque 4 anos depois e da viagem de volta à casa da família para o funeral de Daddy Mac, origem e berço do trauma definidor da vida do seu tio Frank como veremos a partir daqui.

Alan Ball reuniu um naipe de atores fabulosos e só se pode queixar de si próprio em não os envolver mais completamente na história, todavia tem uma desculpa porque Paul Bettany e Peter Macdissi, Frank e Wally respetivamente, são tão cativantes e autênticos que polarizam todo o filme numa história compartilhada de segredos e cumplicidades que ofusca o resto do enredo e dos personagens ímpares que contem, tal como, a compreensiva cunhada Kitty (Judy Greer) ou mesmo a matriarca sulista Mammaw (Margo Martindale) que não têm oportunidade ou tempo suficiente para demonstrarem todo o potencial dos seus personagens. Mesmo Beth, que nos serviu de guia e suporte para a descoberta da verdade sobre o seu tio, é praticamente abandonada quando o espírito conturbado de Frank é assaltado pela angústia turbulenta, reprimida todo aquele tempo pela frustração insanável do seu primeiro amor, passa a dominar a ação.

Atrevo-me a vaticinar que será um dos filmes nomeados em 2021, considerando que nos consegue transmitir uma imagem do que era a vida nos estados do sul dos EU na década de 70, em face de uma questão que envolve um significativo melindre moral e social, contada de forma linear e neutra, causando impacto no espectador mas sem o provocar com cenas ousadas de pornografia barata, tão ao gosto da cinematografia queer.

O filme estreou no Sundance Film Festival em Janeiro de 2020 e está disponível através da plataforma de streaming Amazon prime vídeo. Muito bom, recomendo vivamente.

Classificação: 9 numa escala de 10

 

26 de novembro de 2020

Opinião – “Missão: Vingança” de Eshom Nelms e Ian Nelms

Sinopse

Billy Wenan, um menino rico e mimado de 12 anos, mora com a avó doente e anseia pela atenção do seu pai ausente. Governando a casa com mão de ferro, não revela qualquer remorso quando é cruel para com os empregados. Na manhã de Natal, depois de encontrar um pedaço de carvão na sua meia, Billy decide contratar um assassino, conhecido por Magricela (Walton Goggins), para matar o Pai Natal.

O Pai Natal, também conhecido por Chris Cringle (Mel Gibson), está em plena crise financeira. O número crescente de crianças mal comportadas levou a uma redução do seu subsídio governamental, deixando-o abaixo do seu orçamento atual. Juntamente com a sua esposa, Ruth (Marianne Jean-Baptiste), lutam para manter a oficina aberta e os elfos empregados, mas perante a iminência de rutura, veem-se forçados a assinar um contrato de dois meses com o Exército americano.

À medida que o Magricela se aproxima de Chris, nasce naquele um distorcido sentimento pessoal de vingança pelos presentes que não recebeu na infância, e quando os mundos dos dois colidem, Chris tem de se mostrar à altura da situação para manter vivo o espírito natalício e lutar pela sua própria vida.

Opinião por Artur Neves

Este, é um filme do Natal real. Esqueçam tudo o que se lembram do Natal tradicional, com um Pai Natal gorducho e bonacheirão a viajar de trenó pelos ares (como nos anúncios da Coca-Cola) sobre as casas dos meninos que se portaram bem todo o ano, que merecem os presentes pedidos que ele enfia pela chaminé como o justo prémio do sucesso e do bom comportamento alcançados.

Como podem apreciar pela sinopse que resume a história e da qual não vou falar, não é deste Natal que trata este filme mas antes de um Pai Natal, cansado, frustrado com a evolução do mundo onde já não se encontram meninos dignos de prémio e que justifiquem o seu trabalho e da organização de elfos (???...) que o suporta na fábrica que produz os brinquedos que ele distribuirá depois.

O mundo mudou definitivamente. Durante muito tempo todo o comercio tradicional viveu à custa da imagem do Pai Natal e progrediu com a sua bonomia e boas ações, conduzindo-o ao estado atual de amargura e azedume, ao ponto de mal conseguir pagar as suas despesas e de estar em risco de faltar com o pagamento devido aos elfos (???...) que para ele trabalham e pior do que tudo, vivendo à custa de uma subvenção paga pelo governo americano que pretende reduzi-la devido á crise e à progressiva insignificância do seu trabalho, conduzindo-o à aceitação contratual de transformar a oficina de brinquedos numa fábrica de acessórios para aviões de combate do exército.

Para justificar tudo isto arranja-se um pirralho mimado, com comportamento de tiranete que por ter recebido um torrão de carvão como prenda de Natal, contrata um assassino profissional, de personalidade mal resolvida com a frustração pelo recebimento de prendas em Natais anteriores, que se presta a viajar até ao pólo norte para matar o Pai Natal Chris Cringle (Mel Gibson) que ainda assim, apesar da indigência da história, cumpre escrupulosamente o personagem que lhe incumbiram, pois em tempos de crise real não há oportunidade para recusar trabalho. Outro tanto poderei dizer da mulher do Pai Natal Ruth (Marianne Jean-Baptiste), especialista em tricô e doçaria, esforça-se por animar o espírito natalício do marido e de lhe incentivar a sua anterior vocação de generosidade e calor humano, construindo um personagem generoso e afável sempre pronta a amenizar as suas alterações de humor.

Posso até compreender o objetivo desta história absurda, sem mensagem explícita ou efeito prático objetivo, num mundo em mudança e generalizadamente perigoso… mas por favor, precisamos de férias, pelo menos que uma vez por ano que nos seja permitido sentir uma ilusão de paz, de descontração, que permita baixar as nossas defesas para usufruirmos de um sonho de inocência.

Ainda sem data anunciada para estrear.

Classificação: 3 numa escala de 10

 

19 de novembro de 2020

Opinião – “Dreamland: Sonhos e Ilusões” de Miles Joris-Peyrafitte

Sinopse

Eugene Evans (Finn Cole da série TV “Peaky Blinders”) e a sua família têm de lutar para manter a quinta em plena praga de tempestades de areia e de execuções hipotecárias no Texas. Numa cidade vizinha, cinco civis inocentes são mortos num assalto a um banco, e as autoridades locais perseguem a assaltante em fuga, Allison Wells (Margot Robbie). Com a recompensa de 10 mil dólares pela captura de Wells, Eugene espera impedir a execução hipotecária da quinta. E a tarefa torna-se mais fácil do que esperado quando Eugene a encontra escondida no celeiro da família.

No entanto, Eugene descobre que a história dos crimes de Allison é um pouco diferente do que pensava, e que entregá-la pode não ser a melhor forma de salvar a sua família. Até porque Allison é bonita e bem-falante, mas, mais do que isso, Eugene começa a apaixonar-se, pois partilham outra coisa: o sonho de fugirem das suas histórias.

Opinião por Artur Neves

Cheira a “Bonnie e Clyde” o casal de bandidos preferido da América, mas este “Dreamland” tem um caminho próprio a percorrer no âmbito da perda da inocência de Eugene Evans (Finn Cole), 17 anos, órfão de pai na década de 1930, em plena grande depressão que ele não compreende para lá dos limites da sua fazenda falida que é parte da maior catástrofe económica que assola o país. Vive com a sua mãe, Olivia Evans (Kerry Condon), com a sua meia-irmã mais nova Phoebe (Darby Camp) uma garotinha doce e corajosa que defende bem o seu personagem e já mais velha narra esta história (dobrada por Lola Kirke) que lhe pertence por completo. O padrasto, George Evans (Travis Fimmel) novo marido de sua mãe, de temperamento forte e modos rudes, é ajudante do xerife na pequena localidade do estado do Texas frequentemente assolada por tempestades de terra e poeira, muita poeira repleta de produtos tóxicos que cobrem toda a paisagem e contaminam os campos.

Eugene desperdiça os seus dias em pequenos furtos com o seu amigo Jo (Stephen Dinh), ou escondido no celeiro, lendo revistas de quadradinhos com os heróis rebeldes que povoam o seu imaginário e lhe permitem sonhar acordado com um destino que deseja mas que não pode prever. A realidade “cai-lhe no colo” na pessoa de Allison Wells (Margot Robbie com estofo de estrela e co-produtora deste filme, algo distante da exuberância histriónica de Harley Quinn em “Esquadrão Suicida” que lhe trouxe notoriedade) uma foragida à justiça na sequência de um assalto a um banco que correu mal e provocou a morte do seu companheiro, mas que encontra refúgio temporário no celeiro de Eugene.

Pouco depois Eugene encontra Allison ferida no celeiro e de imediato a chispa da atração incendeia o seu coração virgem de sentimentos fortes. Ele trata-a, das feridas, ouve a sua confissão de inocência relativamente à morte acidental de uma menina durante a fuga do assalto, bebe as suas palavras com os olhos os ouvidos e o coração que quer acreditar na sua versão, estando aqui a essência da história centrada na sedução de Allison por Eugene, que se deixa envolver no seu feitiço.

A história do filme é até bastante simples não contendo alterações significativas de sequencia nem qualquer moral especial a reter, pois tudo o que pretende é desenvolver a essência deste relacionamento acidental que nos apresenta um jovem a lutar entre o certo e o errado, entre a paixão que Allison lhe sugere só por existir e a honra e os princípios ensinados em casa. A dicotomia entre a juventude de onde vai emergindo e a idade adulta que quer iniciar sem a necessária preparação para o fazer.

Esta é a segunda longa metragem de Miles Joris-Peyrafitte, que com 20 anos nos apresenta uma maneira notável de filmar ao representar o tempo presente de Eugene no ecrã total e os seus sonhos, ou os seus desejos de realização em formato caseiro de filme de 8 mm, separando objetivamente o presente do passado ou de um futuro que só existe nos seus sonhos, podendo até nunca acontecer. Outra nota que sublinho é a forma de filmar a resposta de Eugene ao chamamento de Allison no chuveiro de um quarto de motel onde pararam para passar a noite. A câmara só foca Eugene que se sente confrontado com uma situação nova e só aos poucos vai reagindo, denunciando toda a sua insegurança pela novidade.

Com estreia prevista para 26 de Novembro é um filme linear que se vê com agrado.

Classificação: 6 numa escala de 10

 

16 de novembro de 2020

Opinião – “Protótipo” de Gavin Rothery

Sinopse

2049. George Almore (Theo James), especialista em robots, está à beira de uma descoberta. Instalado num complexo remoto e secreto, tem trabalhado no modelo dum androide que é um verdadeiro equivalente humano. O mais recente protótipo deste, o J3, está praticamente terminado. J3 é o aperfeiçoamento de dois protótipos anteriores, o J1 e o J2, em que cada um dos quais é uma versão cada vez mais avançada da sua esposa, Jules (Stacy Martin), que morreu num violento desastre de viação.

Motivado pelo seu amor por Jules, George desviou secretamente o foco do seu trabalho, desenvolvendo os robots com o objetivo de criar um simulacro da falecida mulher.

Opinião por Artur Neves

O local é uma montanha coberta de neve na China, perto de Kyoto (na realidade o filme foi realizado na Hungria, num cenário igualmente severo, e digo isto, não para retirar a mística da história mas simplesmente para reposicionar o filme) onde encontramos uma instalação de investigação científica de alta segurança, em que George Almore (Theo James) assume o papel de um one man show, um lobo solitário da ciência robótica que passou quase três anos a desenvolver um androide que mais se aproximasse de um ser humano através da introdução de Inteligência Artificial na sua programação.

Embora o trabalho se encontre praticamente concluído do ponto de vista técnico, George chegou à fase mais sensível do trabalho com uma máquina que replica o livre arbítrio da condição humana, começando a formar os seus próprios desejos diferentes dos do seu criador, já notados nos protótipos anteriores J1 e J2 que apesar de possuírem uma forma quadrada, distante da forma humana e de terem ficado paralisados nos níveis; infantil e adolescente, respetivamente, já experimentam sensações de ciúme e insegurança, particularmente J2 que questiona diretamente George sobre o seu distanciamento atual, decorrente do envolvimento com J3 em fase avançada de realização.

Sendo este o tema principal da história, esta complica-se quando George mistura no seu trabalho o seu sofrimento pela perda da sua mulher num desastre de automóvel e pretende encontrar a imortalidade e a suavização da sua dor, através da programação da personalidade da sua falecida esposa Jules Almore (Stacy Martin) na consciência de J3, tornando-a no monstro ciumento de Frankenstein. Esta evolução é conseguida através de flashbacks sobre a vida de ambos antes do desastre, dos tempos felizes que passaram, que confere à história um fundo emocional que nos mostra o que ele perdeu, justificando a sua vontade de trazê-la de volta.

Gavin Rothery é também o autor do argumento que não dá respostas ao espectador e pelo contrário até levanta questões sobre os limites do controlo através da Inteligência Artificial, sem todavia ensaiar qualquer resposta e adicionar assuntos periféricos, tais como a vigilância remota do seu trabalho por uma supervisora mal humorada Simone (Rhona Mitra) e a intervenção de vilões sombrios e deslocados que presumidamente vêm inspecionar o seu trabalho mas de uma forma a todos os níveis imprópria para um trabalhador intelectual na área da investigação robótica. É uma utilização avulsa do ator Toby Jones que definitivamente não pertence a esta história nem contribui para ela.

O desenvolvimento da narrativa não é linear, mas para nos fazer entender que ele pretende recuperar a sua falecida esposa no corpo de um androide talvez isso se justifique. O ambiente do laboratório foi conseguido em tons de prata serenos que alternam com o vermelho pulsante no caso de alarme, ou em neons elétricos sempre que o mundo exterior se intromete no santuário tecnológico isolado de George. A música de Steven Price (compositor de “Gravidade”) faz o seu trabalho envolvendo a ação em cordas suaves e sintetizadores nos momentos mais agudos. O enredo prende-nos se tivermos disponibilidade para o aceitar e isso só se verifica através de um esforço de vontade durante 109 minutos. A data de estreia está prevista para 26 de novembro.

Classificação: 5,5 numa escala de 10

 

15 de novembro de 2020

Opinião – “Uma Pequena Mentira” de Julien Rappeneau

Sinopse

Theo (Maleaume Paquin) é um miúdo de 12 anos cheio de talento que joga num clube de futebol local. Tem grandes hipóteses de vir a ser profissional, mas também tem um pai que entrou numa espiral de autodestruição desde que se divorciou e começou a beber, o que o deixa ansioso e impotente. Theo recusa-se a desistir dele e quando chama a atenção de um olheiro de um clube inglês importante, vê aí uma oportunidade de dar um objetivo e alguma esperança ao pai.

No entanto, e apesar do esforço, Theo não é selecionado o que o leva a mentir ao pai, na esperança de o deixar feliz e orgulhoso, o que, de facto, acontece. Empenhado em ajudar o filho a agarrar “uma oportunidade única”, Laurent (François Damiens, o ator principal de A Família Belier) recupera o gosto pela vida e passa a acreditar no futuro feliz. Mas a mentira atinge proporções demasiado grandes e Theo perde o seu controlo…

Será que as mudanças que a vida de Theo e Laurent verificaram subsistem ao desmoronar desta pequena mentira?

Opinião por Artur Neves

Tal como o resumo descrito na sinopse, trata-se de uma história para toda a família visível numa altura em que não exista mesmo nada para fazer de mais dinâmico e interessante. O miúdo é um jeitoso com uma bola nos pés quando confrontado com o resto da sua equipa e da equipa adversária que o deixa jogar. Decorrente da sua baixa estatura seria fácil neutralizá-lo mas a história tem de seguir o seu curso e Theo lá consegue “botar” figura para gaudio do seu pai alcoólico, que não se cansa de lhe enaltecer as virtudes futebolísticas.

O clube é de aldeia e os adultos que o enquadram são simples, modestos e diretos à acção que os trás à cena, começando pelo treinador Claude (André Dussollier) que o trata como um filho, o chefe da equipa técnica Antoine (Sébastien Chassagne) que mostra mais interesse em apresentar os seus dotes culinários mal aprendidos num curso online, do que na situação física dos atletas e acabando no presidente do clube (Pierre Diot) que vê uma oportunidade de divulgação para o clube na mentira piedosa que Theo forjou, (sem o seu conhecimento) para não desiludir o seu pai como adepto e seu fan incondicional.

O pai de Theo, Laurent (François Damiens) é um homem desempregado, brigão, alcoólico, divorciado em guarda partilhada da custódia do filho, com a mãe que já constituiu outra família. É aqui que a história atinge algum dramatismo ao abordar um problema actual e cada vez mais frequente, gerador de conflitos emocionais nos filhos de pais divorciados e nos próprios pais como em Laurent que nunca mais foi o mesmo desde o divórcio.

A recusa do clube inglês, o Arsenal, em não contratar Theo por este ser baixo para a idade e fraco de físico, justifica a mentira de Theo que não tem coragem de dar mais esse desgosto ao pai. Todavia essa mentira é um incentivo para Laurent que na expectativa de o acompanhar em Inglaterra, deixa de beber, procura um emprego, e aluga uma casa para que o filho possa lá morar em condições adequadas á sua recente contratação pelo clube inglês. É a redenção de um homem desestruturado para mudar a sua condição de vida embora fundamentada numa mentira que ele e todos os outros, assumem como verdade.

Para manter a narrativa Theo tem de continuar a simulação com a ajuda de Max (Pierre Gommé) um miúdo com uma dependência patológica da Internet, que passa os dias em casa em jogos online e recusa-se a enfrentar o sol e o dia claro por receio de contaminação pelos ultravioletas. Theo pede-lhe ajuda ao mesmo tempo que o motiva a largar a sua clausura constituindo uma contribuição positiva para todos os casos em que esta patologia se torna incurável.

O filme esforça-se por nos mostrar o ponto de vista das crianças face a problemas que estão fora do seu alcance mas não tem força, nem motivação séria para nos empolgar ou entusiasmar com o enredo, ficando-se por uma história de bem-estar em que no final tudo se resolve.

Classificação: 4,5 numa escala de 10

 

11 de novembro de 2020

Opinião – “O Nosso Cônsul em Havana” de Francisco Manso

Sinopse

Em 1872, Eça de Queiroz é nomeado Cônsul em Havana por um novo governo português de carácter mais liberal e parte com o objetivo de enfrentar as autoridades locais em defesa dos trabalhadores chineses que são atraídos para plantações de cana-de-açúcar, mas acabam explorados e escravizados.

Opinião por Artur Neves

“O Nosso Cônsul em Havana” começou por ser uma série de 13 episódios emitida pela RTP 1 em 2019, produzida por várias entidades portuguesas e estrangeiras, que agora, na forma de filme tem estreia prevista nas salas para 19 de Novembro, que embora seja uma ficção, foi inspirada no período em que Eça de Queiroz desempenhou a função de Cônsul de Portugal de 1ª Classe nas Antilhas Espanholas, hoje Cuba, em Março de 1872.

O enquadramento histórico desta nomeação está ligado aos avanços sociais que a política portuguesa verificava na época, tais como; a abolição da escravatura em 1869, a queda do governo de então, que proibira as Conferências Democráticas do Casino Lisbonense, das quais Eça esteve presente na 4ª conferência em 1871, bem como o seu envolvimento na organização da qual resultaria no futuro a fundação do Partido Socialista Português, inicialmente designado por Partido Operário Socialista, em 1875.

A história do filme reporta-se assim à chegada de Eça (Elmano Sancho) a Cuba, onde sofre vários percalços com a receção da sua bagagem por exemplo, que desapareceu misteriosamente e só foi recuperada através dos bons ofícios de um funcionário do consulado, Esteves (Joaquim Nicolau), profundo conhecedor da vida real e dos meandros da clandestinidade na ilha.

Com o seu entrosamento social no meio e com as informações que trouxera de Lisboa, cedo Eça se vê confrontado com a atividade industrial de Cuba que utilizava mão de obra escrava chinesa, imigrada de Macau e que ele se esforçou por combater. Claro que esta ação não pode ser aceite nem bem vista pelos fazendeiros locais que se viram assim reduzidos na obtenção da sua força de trabalho que tantos e tão chorudos proventos lhes traziam, com a conivência do governo local e do governador (António Capelo) para quem Eça se tornou um empecilho.

A ação de Eça centra-se na proteção aos chineses representados na história por Lô, (Zirui Cao) uma menina chinesa que embarca clandestinamente para Cuba com destino a uma plantação de cana de açúcar mas que um tripulante a desvia e entrega aos cuidados de uma ordem monástica presidida pela Madre Filomena (Fátima Reis) que a protege enquanto pode.

O desfecho seria o previsto, não fora a intervenção de Eça, que evitou a sua entrega ao fazendeiro Zulueta (Júlio Martin) através da atribuição de nacionalidade portuguesa a Lô, que mesmo com um nome falso, fugiu ao seu destino de escrava na fazenda que a tinha comprado.

Para lá da história que é ficcional, honra seja feita ao governo português da época que através do cônsul em Havana reconheceu vários emigrantes chineses na ilha como cidadãos de pleno direito, em pé de igualdade com outros emigrantes oriundos de outras nacionalidades não destinadas à escravatura que aliás, terminou oficialmente em 1881.

O filme está bem estruturado, os personagens são credíveis e todo o ambiente circundante não destoa do que se devia verificar no arquipélago das Antilhas, constituindo mais uma peça na minha reconciliação com o cinema português e reconheça neste, o meu terceiro filme que reconheço com qualidade equivalente aos filmes de época estrangeiros que tenho visto. O guarda-roupa é completo na sua variedade masculina e elegância feminina da época e o trato entre os personagens cumpre as regras de cortesia, deferência e decoro com a necessária pitada de história de alcova com que Eça de Queiroz é reconhecido e lhe serviu para apimentar os romances que escreveu com histórias tão progressistas para a época e que ainda hoje justificam reservas em certos círculos. Gostei, não contempla qualquer choradinho amoroso ou tragédia à portuguesa, é sóbrio, progressista e merece ser visto.

Classificação: 6,5 numa escala de 10

 

10 de novembro de 2020

Opinião – “Blackbird: A Despedida” de Roger Michell

Sinopse

Lily (Susan Sarandon) e Paul (Sam Neill) convocam os seus filhos adultos para um encontro na casa de praia com a intenção de lhes comunicar uma decisão. O casal planeara um fim de semana de amor com as habituais tradições de família, mas o ambiente começa a ficar tenso quando surgem problemas mal resolvidos entre Lily e as filhas Jennifer (Kate Winslet) e Anna (Mia Wasikowska). Para além das filhas, estão o genro de Lily, a sua amiga de longa data, a companheira da filha Anna e o neto. Neste derradeiro encontro na casa de praia, e ainda na posse de todas as suas faculdades Lily partilha a sua decisão de pôr fim à sua longa batalha contra a doença. A sua história é, em última análise, um relato de esperança, amor e uma celebração da vida.

Opinião por Artur Neves

Neste filme aborda-se de modo suave a temática da eutanásia, sem conflito, sem discussão política e apenas respondendo à pergunta crucial desta questão, que impropriamente tem levantado tanta polémica e que se resume à seguinte pergunta: Afinal, de quem é a vida?...

Na história, uma família de classe média alta convoca uma reunião que inclui três gerações para a mãe e avó desfrutar um fim de semana com todos antes de cometer suicídio acompanhado e assim usufruir do seu direito à vida que deve incluir a definição do seu termo de acordo com a sua vontade. Lily tem ELA que já lhe paralisou um braço e lhe dificulta o andar, arrastando a perna direita e provocará imenso sofrimento no futuro próximo, tal como, não poder alimentar-se, nem somente respirar sem ajuda mecânica. Ela rejeita esse sofrimento e enquanto goza das suas faculdades mentais e de um braço ativo, e quer despedir-se de todos os que lhe são mais próximos, pelo que inclui a sua amiga desde os anos de faculdade Liz (Lindsay Duncan) que sempre desempenhou um papel particular na sua vida e que vai continuar para lá da sua morte.

Para o almoço de domingo ela pede que seja um almoço de Natal (antecipado, não gosta do Dia de Ação de Graças) em que todos se empenham em recriar o ambiente Natalício, embora numa família estável existam sempre divergências, questões não resolvidas do passado e sofrimento contido que extravasa os limites em momentos de tensão como este. Sua filha mais velha; Jennifer (Kate Winslet) de temperamento nervoso, crítica absoluta, louca por controlo e impulsiva é casada com um homem, Michael (Rainn Wilson), que fala de assuntos que ninguém liga e facilmente se desliga do ambiente ou é posto de parte por este. Têm um filho; Jonathan (Anson Boon), um adolescente em plena descoberta da sua vocação e autonomia que lhes faz inusitadas revelações durante o almoço. A sua filha mais nova; Anna (Mia Wasikowska) gay, sofre de distúrbio bipolar nem sempre controlado, e vive uma relação instável com a sua namorada Chris (Bex Taylor-Klaus) que apesar de tudo vai contendo as imprevisibilidades comportamentais de Anna.

A cena do almoço que se celebra com estas pessoas é digna de ser apreciada pela cordialidade e elevação dos temas abordados, em que o sexo é comentado sem culpa nem preconceito, mas antes como a maior pulsão natural, própria de pessoas. São ditas coisas sem nota de culpa ou vergonha, incluindo as prendas que Lily destinou a cada um dos membros da família que inclui um vibrador para acalmar a impulsividade física e verbal de Jennifer que o marido é incapaz de compensar. É aqui que o cinema mais cumpre a sua função mostrando-nos eventos do quotidiano de uma forma neutra, despida de formalismo ou convenções atávicas, fazendo-nos refletir (se quisermos) sobre a nossa própria realidade.

Todo o elenco tem excelente desempenho em personagens realistas e credíveis mas Lily, Susan Sarandon, destaca-se pela sua habilidade de lidar com as inevitáveis cenas pesadas entre personalidades tão diversas, assim como em todos os momentos de humor suave criados para aliviar os momentos tensos. O seu desejo de ter um fim de semana “normal” só é conseguido depois de imprevistas revelações que ela não estava preparada para ouvir, embora isso não a afaste do seu objetivo, pois a sua decisão de morte é imposta pela progressiva degradação física provocada pela doença. Para lá das palavras, a história é enquadrada pelas árias de Johan Sebastian Bach e pela sonata para piano nº 16, de Mozart, que conferem a solenidade que o evento se reveste.

É um filme completo no aspeto da diversidade humana, importante, apesar de ser um remake de um filme dinamarquês de 2014, “Coração Silencioso”, cujos argumentos têm o mesmo autor; Christian Torpe, desta vez tendo como cenário a costa inglesa que só o valoriza. Está prevista a sua estreia em sala, sem contudo possuir ainda uma data. Recomendo sem reservas.

Classificação: 8 numa escala de 10

 

6 de novembro de 2020

Opinião – “Um Bando de vigaristas em Holywood” de George Gallo

Sinopse

O produtor Max Barber (Robert de Niro) contrai uma dívida junto do chefe da máfia Reggie Fontaine (Morgan Freeman), devido ao seu último fiasco cinematográfico. Com a vida em jogo, Max produz um novo filme apenas para matar o protagonista numa acrobacia e cobrar o prémio do seguro. Mas quando Max escolhe Duke Montana (Tommy Lee Jones), não espera que o velho alcoólico se sinta revitalizado perante as câmaras. Incapaz de matar Duke numa acrobacia básica, Max coloca-o em situações cada vez mais perigosas, das quais Duke se vai safando sempre. Até onde irá Max, o produtor falhado, para salvar a sua pele?

Opinião por Artur Neves

Com algumas semelhanças conceptuais com “Era uma vez em Hollywood”, a história deste filme, contada em tom de comédia evoca o cinema dentro do cinema na pessoa de Max Barber um produtor empedernido pelos falhanços de bilheteira das suas apostas comerciais, mas que ainda assim tem um sonho de produzir um filme que fique para a memória do cinema e o resgate a ele do secundaríssimo papel que a indústria relegou todos os seus trabalhos até agora.

Para isso, George Gallo um realizador americano que tem no seu curriculum reconhecidos êxitos no género de comédia, tais como; a saga dos “Bad Boys” (4 filmes), “Negócio para Adultos” de 2009, ou “Fuga à Meia-noite” de 1988 para o qual escreveu o argumento, todos no mesmo estilo de comédia capciosa que reúne, suspense e caraterísticas de thriller, rodeou-se de nomes sonantes de Hollywood ainda no ativo e sem copiar Tarantino, inspirou-se na sua mais recente realização pegando no tema dos westerns, que estiveram em voga nas décadas de 50, 60 e 70 e concebeu o argumento que deu origem a esta paródia que recria as cenas mais emblemáticas dos filmes ditos “de cowboys” em que estes perseguem os índios numa qualquer epopeia da conquista do oeste pelos imigrantes que aportaram a este novo mundo.

A história está concebida com graça, contendo vários momentos que nos fazem rir, num enredo velhaco em que os princípios que o norteiam não são nem por sombras, os mais nobres, mas que acaba na redenção do seu autor e na satisfação das suas dívidas aos credores que o perseguem, mas que imediatamente se associam ao êxito conquistado por este. Até os rivais reconhecem o sucesso dando-lhe oportunidade de o incluir justificadamente na galeria dos heróis da sétima arte.

Ao apreciar esta história, descrita na sinopse, que não passa de uma comédia inofensiva sem mensagem ética ou moral, pois Max Barber é largamente recompensado pelos seus instintos canalhas de pretender enriquecer à custa do seguro de vida de Duke Montana (Tommy Lee Jones), ao convidá-lo para protagonizar um filme para o qual ele manifestamente não apresenta condições físicas de resistência para as interpretar e que podem causar-lhe a morte, que aliás, ele procura porfiadamente provocar o mais rapidamente possível, pergunto-me; o que justificará o envolvimento destes atores consagrados e em fim de carreira, participar num filme como este em que os seus nomes associados à memória de êxitos passados, são maiores do que o personagem que aqui desempenham.

Será o dinheiro?... será a continuação do trabalho?... será o ambiente de camaradagem que se forma na equipa enquanto duram as filmagens?... não sei, e talvez até seja um pouco de tudo, mas para Robert de Niro significa um furos abaixo do seu desempenho em “O Irlandês” de 2019. Todavia o filme é engraçado, promove umas boas gargalhadas e todos os saudosos dos velhos “westerns” irão com certeza gostar.

Classificação: 6 numa escala de 10

 

5 de novembro de 2020

Opinião – “No Centro do Labirinto” de Donato Carrisi

Sinopse

Numa manhã de inverno, Samantha Andretti foi raptada quando ia para a escola. Quinze anos depois, acorda num quarto de hospital sem memória de onde esteve ou do que aconteceu. Ao lado dela está um 'profiler', o Dr. Green (Dustin Hoffman), que promete ajudá-la a recuperar a memória e a capturar o monstro, mas para que tal aconteça terá de ser dentro da mente de Samantha. "Isto é um jogo, certo?", repete ela, insegura.

Bruno Genko (Toni Servillo) é um detetive privado contratado há quinze anos pelos pais de Samantha para encontrar a filha deles e que, quando a menina reaparece, se sente em dívida e tenta capturar o homem sem rosto que a raptou. A busca de Genko é também uma corrida contra o tempo. O prognóstico médico prevê que só tem mais dois meses de vida, que terminarão no mesmo dia em que Samantha regressa da escuridão. Quem irá chegar à verdade primeiro: o detetive ou o traçador de perfis?

Algures lá fora, há um labirinto de portas. Atrás de cada porta esconde-se um enigma, um truque. Neste jogo, o labirinto que o mantém prisioneiro já está dentro de si.

Opinião por Artur Neves

Este é daqueles filmes pouco frequentes, em que o espectador é conduzido por uma narrativa à qual se junta uma demonstração em flashback, que ao longo do tempo somos levados a pensar que alguns dos factos mostrados talvez não pertençam ao mesmo evento, muito embora exista entre eles uma relação próxima, como uma imagem no espelho que não corresponde ao objeto colocado em frente dele.

Donato Carrisi faz aqui o plenum de escrever o romance, construir o argumento e realizar o filme, apostado em nos confundir com duas histórias paralelas que durante 130 minutos nos mantêm vivamente interessados para tentar descortinar quem é quem, para lá de levantar suspeitas sobre a identidade do verdadeiro criminoso que na realidade não é nenhum dos personagens que nos são apresentados. Ele existe, nós vemo-lo mascarado com uma mascara de coelho na cabeça, conhecemo-lo por Bunny, mas não é revelado quem seja, nem ao que vem concretamente, porque por várias vezes são-nos apresentados sinais e alusões que escondem a verdade para manter o jogo com que o filme envolve o espectador para ganhar a sua atenção.

Ambos os parágrafos da sinopse estão corretos e sumarizam todo o enredo do filme, só que pertencem a duas histórias diferentes embora entrelaçadas no seu desenvolvimento e atribuição, em que a primeira reporta-se à busca de Samantha Andretti pelo investigador arrependido, Bruno Genko que demorou 15 anos em interessar-se pelo caso que lhe foi confiado pelos pais da menina raptada e só o anúncio do seu previsível falecimento por doença o faz vencer o remorso sentido ao longo do tempo de inação.

A segunda história reporta-se ao jogo entre a falsa Samantha Andretti, Sam, (Valentina Bellè) com o Dr. Green, um profiler que pretende através da análise das memórias de Sam, construir o perfil do seu sequestrador, que o realizador nos leva a acreditar tratar-se da mesma Samantha Andretti, a menina desaparecida procurada por Bruno Genko. O elemento comum é o labirinto em que ambas as vítimas estão contidas e a verdadeira caça está dentro da nossa mente, quando somos levados a acreditar numa narrativa, quando não sabemos que não possuímos todos os dados de um problema e os que efetivamente possuímos não são totalmente claros.

Admito que talvez nem todos possam gostar de um argumento que pode ser tudo, menos linear e que está concebido para provocar uma continuada expectativa no espectador sobre qual será o verdadeiro sequestrador, através dos elementos contraditórios que nos são apresentados presumidamente para encontrarmos a verdade, mas qual verdade?... será que só existe uma verdade?... As vítimas revelam muitos medos e o medo pode ter muitas faces que a nossa mente retém em lugares inacessíveis da nossa memória para que causem o menor distúrbio possível no dia a dia da nossa vida. É tudo isto que este complexo filme nos sugere, num intrincado jogo de identidade contido num enredo em labirinto multifacetado.

Na sua essência é uma excelente história que nos prende durante todo o tempo e recomendo a todos aqueles que aceitem a complexidade como um desafio. Estreia nos cinemas em 10 de Novembro.

Classificação: 7 numa escala de 10

 

4 de novembro de 2020

Opinião – “Até às Estrelas” de Martha Stephens

Sinopse

No ambiente fechado e opressivo de uma pequena cidade do Oklahoma, durante os anos de 1960, a jovem filha de um casal de agricultores inicia uma amizade íntima com outra rapariga.

Opinião por Artur Neves

Com uma sinopse tão concisa e redutora quase que pode pensar-se que o filme veicula um manancial de erotismo lésbico, mas nada disso e muito pelo contrário a história deste filme mostra-nos com considerável rigor como era a vida social na zona rural da pequena cidade americana de Oklahoma no início da década de 1960, onde as convenções religiosas e a moral cristã convencional da época motiva as suas atenções, nos vestidos, nos penteados, no visual da saia lápis dos anos 50, generalizadamente em uso nas senhoras da terra, de vida simples, cuja principal atenção é para a fofoca e para a crítica social do vizinho, justificadamente ou não.

A família central da história é o casal Deerborne, constituída pela mãe Francie (Jordana Spiro) ocasionalmente acompanhada de outras mulheres, mas sempre de um copo com whisky que beberrica durante a solidão do seu dia, o pai Hank Deerborne (Shea Whigham) de feitio compassivo embora por vezes se mostre agressivo, mais por formatação ao ambiente que o cerca do que por convicção e Iris Deerborne (Kara Hayward) a filha de temperamento solitário e objeto de bulling no colégio pela sua postura preferencialmente isolada, óculos de aros grossos e pela sua luta constante contra a incontinência urinária, facilmente detetável pelos colegas através do cheiro que dela emana.

Iris vive com intensidade a sua vida interior de solidão, sonha com os seus desejos de futuro e foge á noite para o lago perto de sua casa onde boia sobre as águas enquanto perscruta as estrelas, confiante que o facto de ter havido um afogamento recente de uma jovem, afasta as pessoas daquele local onde ela pode sentir-se mais livre, senhora de si e dos seus pensamentos.

A sua deslocação para a escola, a pé, pela estrada de terra batida é sempre um sacrifício agravado pelos colegas que passam de carro, metem-se com ela e seguem sem lhe dar boleia. Esta saga diária é alterada com a chegada de Maggie Richmond (Liana Liberato), uma rapariga mais velha, vinda da cidade por motivo da profissão do seu pai, mais madura, conhecedora de outro tipo de relações sociais que rapidamente se faz amiga dela, sendo correspondida por Iris que vê nela o apoio que faltava para vencer a sua solidão.

O contacto inicial não é fácil, Maggie não é verdadeira em todas as revelações que divulga, criando uma aura em torno de si que esconde uma vida privada sombria e uma relação difícil com o pai Gerald (Tony Hale), um homem normalmente zangado, documentarista de profissão que foi destacado para Oklahoma com o objetivo de produzir o retrato de uma pequena cidade da América.

Com estes elementos interagindo entre si a história desenvolve-se como num sonho que inclui detalhes de uma vida bem real nem sempre favorável a todos os protagonistas. A fotografia a cargo de Andrew Reed torna autêntico o universo da história, constrói com segurança as imagens desgastadas pelo passado tornando o filme numa parábola de tolerância escolar que contrasta com a violência social dos espíritos cristãos, ofendidos pela descoberta da tendência desviante de Maggie por Hazel (Adelaide Clemens), a cabeleireira da cidade, lésbica envergonhada que usa a fotografia do irmão falecido como marido, para justificar a sua situação de viúva celibatária.

Toda a história decorre lentamente, naquela cidade profundamente conservadora, mostrando ao espectador o porquê daquela relação LGBTQ de uma garota jovem, bonita, inteligente e igualmente misteriosa e gay na sua opção sexual, descrevendo o seu passado por si mesma e pelos olhos bondosos da desajeitada Iris que a toma como modelo para um personagem que só existe nos seus pensamentos. A partir de certa altura o filme “cai” para o melodramático o que todavia não lhe fica mal, considerando que se passa na província em 1960, iniciando também uma viragem para algo mais atual, embora sombrio, que significa uma mudança de conceito na utilização do género individual com que nascemos. Muito interessante, estreia em 12 de Novembro.

Classificação: 6 numa escala de 10

 

28 de outubro de 2020

Opinião – “A Maldição de Larry” de Jacob Chase

Sinopse

Oliver (Azhy Robertson) é um rapaz solitário que se sente diferente de toda a gente. Desesperado para arranjar um amigo, procura consolo e refúgio no telemóvel e no tablet que nunca larga. Quando uma misteriosa criatura utiliza os dispositivos de Oliver contra ele, para conseguir entrar no nosso mundo, os pais de Oliver (Gillian Jacobs e John Gallagher Jr.) têm de lutar para salvar o filho do monstro por trás dos ecrãs.

Opinião por Artur Neves

Ao vermos no genérico de abertura do filme o nome “Amblin”, a produtora criada por Steven Spielberg, podemos logo inferir que se trata de terror no seio de um drama familiar para construir uma parábola parental, confirmada logo nos primeiros instantes em que Oliver (Azhy Robertson), acorda no seu quarto e desloca-se à cozinha para beber água e observa a mãe a dormir sozinha na cama, no quarto ao lado do seu e no piso inferior o pai a dormir no sofá. É uma segura referência de que Spielberg andou a mexer os cordelinhos no sentimentalismo do drama familiar, do lar desfeito ou em degradação, tão ao gosto da população suburbana americana que imortalizou o terror de Poltergeist.

Desta vez porém a evolução tecnológica permite trocar o ecrã da televisão pelo smartphone ou pelo tablet, em que ao toque de um dedo surge o desengonçado ser desumano; Larry que procura um amigo, que procura o convívio com outras pessoas porque se sente muito só no mundo virtual em que habita.

É a partir daqui que Jacob Chase, realizador americano e também argumentista de uma curta metragem; “Larry” de 2017, expande o conceito e se estreia nesta longa metragem cujo título em português objetiva a história para o monstro, em vez de a direcionar para Oliver, um menino com uma deficiência profunda no espetro do autismo e perturbações na voz, não conseguindo articular palavras inteligíveis, o que lhe provocam solidão, afastamento dos seus colegas na escola e motivo de bulling da classe pelas suas dificuldades em aprender.

Para comunicar, Oliver serve-se de um programa instalado no smartphone, e no tablet que pronuncia as palavras que ele quer dizer ao toque de um dedo e assim entra em contacto com Larry que se revela no mundo virtual pedindo-lhe para jogar com ele (“Came Play”, no original). Larry não é maldito, é apenas desengonçado, feio, segundo os padrões normais e quer companhia, surgindo como alter ego de Oliver que sofre o afastamento dos seus colegas e os descuidos da mãe, que ao esquecer-se temporariamente da sua condição lhe pede coisas a que ele não pode corresponder.

O casal, Sarah (Gillian Jacobs) e Marty (John Gallagher Jr.), culpa-se mutuamente do não reconhecimento atempado da deficiência do seu filho Oliver e frequentemente discute causando maior sofrimento a Oliver que não os pode ouvir a discutir. Sarah sofre o facto de Oliver nunca a olhar nos olhos, tomando isso como prova do seu fracasso como mãe. Marty tem vários empregos com o objetivo de suprir as necessidades de Oliver que se sente sempre só. Este ambiente, tornando-os a todos uma família disfuncional, propicia a entrada de Larry que sobrevive como expressão da falta de tolerância, de compreensão e da solidão.

Todavia Jacob Chase comprometeu-se fazer um filme de terror, pelo que tem de construir truques de curta distancia que causem susto, iluminação interruptível sem motivo aparente, eventos somente visíveis através da câmara do tablet, sombras suspeitas no parque de estacionamento onde o Marty trabalha de noite, tempestades súbitas atravessadas por raios que revelam ameaças e produzem sons assustadores, bem como, todo o manancial de artifícios que causam expectativa e surpresa para construir o suspense. É a indústria cinematográfica a funcionar, não podemos levar a mal e até conseguem transformar Larry num maldito quando ele apenas quer companhia para não se sentir tão só, tal como o desejo de Oliver em construir uma amizade genuína para não sentir a solidão.

Em época de Halloween, qualquer susto fica bem e Chase sabe como construí-lo com eficácia, muito embora com este tema e para uma produção Amblin, que normalmente puxa para o coração, o final apresenta-se razoavelmente sombrio.

Classificação: 6 numa escala de 10

 

27 de outubro de 2020

Opinião – “As Bruxas de Roald Dahl” de Robert Zemeckis

Sinopse

O realizador Robert Zemeckis reimagina a adorada obra de Dahl para um público moderno. A sua visão inovadora conta a história emocionante e humoristicamente sombria de um jovem órfão (Bruno) que em 1967, vai viver com a sua Avó (Spencer) numa cidade rural do Alabama, Demopolis. Quando o rapaz e a Avó encontram umas bruxas encantadoras, mas diabolicamente traiçoeiras, a avó decide levar o neto para um luxuoso resort à beira-mar. Infelizmente, estes chegam exatamente na mesma altura em que a Grande Bruxa-Mor (Hathaway) decide reunir-se com todas as suas amigas bruxas – disfarçadas – para executar os seus abomináveis planos.

Opinião por Artur Neves

The Witches (As Bruxas) no seu nome original é um romance de fantasia infantil do escritor britânico Roald Dahl. Foi publicado originalmente em 1983 pela Jonathan Cape em Londres. A história passa-se em parte na Noruega e em parte no Reino Unido, mas Zemeckis recentra-as nos USA, mais precisamente no estado do Alabama, apresentando as experiências de um jovem rapaz e sua avó num mundo onde bruxas malvadas que odeiam crianças existem secretamente. Este filme é um remake de outro como o mesmo nome dirigido por Nicolas Roeg em 1990 e que não acrescenta nada de significativo à história, exceto os meios mais avançados de tecnologia digital disponível.

A história passa-se em 1967 e começa pelo trágico desastre rodoviário que motivou a morte dos pais do jovem protagonista Hero Boy (Jahzir Bruno) que depois de ficar órfão é entregue aos cuidados da sua avó Grandma (Octavia Spencer, que continua com excelentes desempenhos em todos os papeis em que participa) que vive na pequena cidade rural Demopolis no Alabama.

Grandma, para lá de ser carinhosa e cuidadora atenciosa do seu neto, reúne um conjunto de conhecimentos sobre plantas e mezinhas caseiras herdado da sua avó que a potenciam como adversária das bruxas, que ela ensina ao neto que existem e que possuem um ódio visceral aos miúdos, a todos os miúdos do mundo, tentando transformá-los em ratos, considerando que o cheiro a bebés, ou a miúdos lavados, as perturbam profundamente.

É ainda sem este conhecimento que o neto tem o seu primeiro encontro com uma bruxa, que ela reconhece depois de ele lhe contar os receios que sentiu com a presença da tal mulher. Para segurança do neto ela prefere ir viver temporariamente para um hotel, sem saber que precisamente naquele local está a organizar-se uma convenção de bruxas, presidida pela Grande Bruxa-Mor (Anne Hathaway) com o objetivo de estabelecerem o plano para transformar todos os miúdos do mundo em ratos.

Claro que o neto ao seu cuidado é descoberto pelas bruxas e transformado em rato o que a obriga a intervir com os seus conhecimentos druídicos, todavia sem sucesso para bruxas tão poderosas, numa batalha onde se utilizam os sofisticados meios técnicos do cinema moderno para transformar a ficção em realidade visível aos nossos olhos, sendo por aqui que o filme tem a sua mais valia como entretenimento, especialmente para os mais jovens, numa altura do ano em que, sucumbindo à cultura americana começa regularmente a festejar-se por cá o dia do Halloween.

Não se pode negar que o filme reúne uma produção cinematográfica extraordinária e contém desempenhos de excelência, onde podemos ver Stanley Tucci no papel de diretor do hotel, já recuperado da grave doença que o atingiu. Oportunamente, o filme tem estreia prevista para a véspera do dia de finados, em 29 de Outubro e constitui uma diversão agradável para toda a família.

Classificação: 5 numa escala de 10

 

23 de outubro de 2020

Opinião – “Um Último Golpe” de Mark Williams

Sinopse

Um assaltante de bancos decide mudar de vida e tornar-se numa pessoa honesta a partir do momento em que se apaixona por uma mulher que trabalha numa instalação de armazenamento, um lugar onde ele esconde todo o dinheiro que rouba. Mas fica cada vez mais difícil limpar o seu nome quando passa a ser investigado por um agente do FBI, corrupto.

Opinião por Artur Neves

Liam Neeson, o protagonista deste filme começou a trabalhar em 1978 e apresenta um curriculum diversificado de temas em que tem entrado, mas só se fez notado no seu primeiro “Taken” em 2008 e nas sequelas subsequentes de 2012 e 2014 em que criou uma figura de justiceiro independente para se substituir ao papel da polícia tradicionalmente ineficiente em histórias de crime. Em boa verdade o personagem criado não era muito convincente considerando que as características físicas do ator não eram as mais adequadas para o representar. Digamos para rematar que não se parece a um Charles Bronson, que era como mosca no mel para personagens do tipo vigilante.

Mas como encontrou o sucesso desta maneira há que continuar no tema, introduzindo as necessárias adaptações ao personagem, como em; "The Commuter – O Passageiro" de 2018, bem como o encontramos nesta história como um assaltantes de bancos maravilha (que no filme ele explica quais as motivações que o enredaram nessa vida) arrependido, que quer devolver o produto dos assaltos para poder viver em paz com a mulher da sua vida, encontrada acidentalmente num encontro fortuito.

Sem querer questionar as motivações de Tom Carter (Liam Neeson) não me posso esquecer de “ O Cavalheiro com Arma” de 2018, em que Robert Redford desempenhava um personagem mais credível e completo numa história parecida, de arrependimento e redenção em nome do amor.

Assim o que temos é um thriller de ação… pacato, com movimentação mais sugerida do que vista, que inclui um romance com uma mulher e um caso de corrupção na polícia desmascarado pelo nosso herói, à custa da morte de homens bons que ficam como danos colaterais, decorrentes da tentativa de auto justicialismo decidida por Tom.

Liam Neeson tem atualmente 68 anos e convenhamos, já não é para aquela idade andar à bulha com homens de 34, como Jai Courtney, e Anthony Ramos de 29, que interpretam os dois polícias corruptos Nivens e Hall respetivamente, numa história que não sendo muito rica em enredo é algo compensada pelo desenvolvimento do personagem desempenhado por Neeson, onde um homem atormentado pela sua culpa e pela incerteza sobre a sua decisão, caminha por ruas vazias e hotéis vazios que nos transmitem uma austeridade de meios pouco habitual em filmes americanos de ação. Pelo contrário Annie (Kate Walsh) respira alegria e atividade apesar de estar a passar por um divórcio que lhe trocou as voltas pensadas para a sua vida e vai agravar-se na sua ligação com Tom, num romance que cresce ao longo do filme.

Tom Carter pode ser classificado como um guerreiro em fim de ciclo, que no fundo não destoa do ator Liam Neeson, podendo continuar por este caminho, valorizando a sua graça melancólica em personagens mais sedutores e recatados e menos em histórias de ação onde já não se acredita em muitos dos factos que nos querem mostrar. Pelo menos durante 100 minutos não se pensa na Covid-19 e isso já pode constituir uma mais valia. Estreia nas salas em 29 de Outubro.

Classificação: 5,5 numa escala de 10

 

21 de outubro de 2020

Opinião – “Notre Dame de Paris” de Valérie Donzelli

Sinopse

Maud Crayon, uma arquitecta falhada e mãe solteira, com um ex-marido fraco e ainda demasiado presente na sua vida, sonha com um milagre que mude esta realidade. E é então que ganha o concurso para a renovação do adro da catedral de Notre Dame de Paris.E reencontra o charmoso ex-namorado, Bacchus. Terá que revelar os seus sentimentos a ambos os ex-companheiros para poder viver feliz para sempre.

Opinião por Artur Neves

Como sempre o cinema francês apresenta-se bem posicionado na análise social e traz-nos aqui uma história que só peca por introduzir fantasia a mais, num enredo que poderia ser mais escorreito e credível sem ela, considerando que as cenas fantásticas só desviam o espectador do tema principal que se reporta ao amor vivido em relação aberta.

Maud Crayon (Valérie Donzelli) é uma arquiteta (falhada só mesmo na opinião da sinopse), mãe lutadora para providenciar a casa e a educação dos seus filhos, divorciada de coração mole, que ainda atura o pária do seu ex-marido Martial (Thomas Scimeca) que tudo faz para continuar a viver à sua custa nos intervalos em que a sua amante o expulsa de casa. Ele, sem lugar onda cair morto, recorre à piedade de Maud para dormir na casa dela, com ela na cama (porque Martial, dorme mal no sofá) fazer sexo ocasional e consentido com ela, ao ponto de a engravidar na fase mais importante da sua vida profissional.

No atelier onde trabalha recebe a informação que o projeto que lhe está entregue foi descontinuado e o oportunista do patrão quase a despede. Constrangida com a situação mas apegada à sua obra, leva para casa a maquete do seu trabalho. Simultaneamente está a decorrer um concurso para o desenvolvimento arquitetónico da praça fronteiriça à catedral de Notre Dame que interessa a todos os arquitetos, ela incluída, mas ao qual não concorre por absoluta falta de tempo com todos os outros afazeres a seu cargo.

Valérie Donzelli, a realizadora francesa e protagonista, poderia ter utilizado múltiplos expedientes no enredo, para incluir no concurso da catedral de Notre Dame a maquete feita para o anterior projeto por Maud Crayon, mas escolheu (vá lá saber-se porquê) uma fantasista viagem da maqueta levada pelo vento e depositada docemente no local de recolha das propostas concorrentes. Quando o concurso foi apreciado, foi precisamente o projeto de Maud que foi escolhido, como aliás já todos estava-mos à espera. O público sabe que está em presença de uma ficção, não é necessário atirar-lhe também com uma fantasia (bem como com outras que se seguem mais à frente) que só desqualificam as piadas subtis e as críticas sociais incluídas na história que até aqui, se apresentava dentro de padrões regulares.

Na sequência da sua vitória ela encontra Bacchus Renard (Pierre Deladonchamps) jornalista de profissão, destacado para cobrir a cerimónia da entrega do projeto, por quem Maud nutria uma carinho especial por ter sido o seu primeiro amor dos tempos de escola e correspondido por este, sem que alguma vez tivessem declarado as suas mútuas inclinações. A partir daqui o triângulo de Maud fica completo com o amor de sempre e o pesadelo atual do seu ex-marido que ela não consegue largar por ser o pai dos seus filhos e lhe ter feito outro que já vem a caminho no interior do seu ventre.

Em sequência a história desenvolve-se no dilema do amor dual, ou outro sentimento que se lhe queiram chamar, gerando situações confusas em que esta dualidade se apresenta com avanços e recuos, mas onde a problemática das relações abertas fica bem exposta à consideração dos espectadores. A concretização material do projeto da praça também conduz a cenas divertidas, com piadas de cariz sexual que nos fazem sorrir.

Valérie Donzelli não defende a bigamia, nada na história a isso nos conduz, mas ao promover o amor platónico com Bacchus e uma piedosa complacência na coabitação com Martial, parece querer abraçar dois mundos incompatíveis e impróprios, não somente pela substancia das relações em si mesmas, como pelo modo de utilização da fantasia para abordar ambos os temas retirando-lhe profundidade e seriedade na análise duma situação invulgar mas hipoteticamente possível. Adicionalmente a realizadora introduz ainda elementos periféricos à história desgarrados do tema fulcral, bem como, a propensão de todos namorarem com todos tornando o argumento disperso e multivariado.

No final, Maud transporta Bacchus na sua bicicleta voadora sobre a catedral, fazendo lembrar o regresso de ET ao seu planeta distante, mas isso foi em 1982 e noutro contexto muito diferente. Este filme estreou no Festival de Locarno e vai estrear nas nossas salas em 29 de Outubro. Tem boas piadas e uma mensagem subtil, para a qual vai a classificação a seguir.

Classificação: 5 numa escala de 10