10 de janeiro de 2018

Opinião – “O Sacrifício de um Cervo Sagrado” de Yorgos Lanthimos

Sinopse

Steven é um cardiologista conceituado, casado com Anna, com quem tem dois filhos. Já algum tempo que ele mantém contacto frequente com Martin, um adolescente cujo pai morreu na mesa de operação, justamente quando estava a ser operado por Steven. A relação entre ambos é de uma cumplicidade enorme que o médico decide apresentá-lo à família. Entretanto o jovem sente que não está a receber a mesma dedicação e por isso, decide elaborar um plano de vingança.

Opinião por Artur Neves

Em 2009 Yorgos Lanthimos torna-se notado no mundo cinematográfico com o filme “Canino” que mostrava uma forma algo estranha de educar jovens, neste caso os jovens eram filhos do próprio educador que apresentava tendências despóticas e autoritárias, provocando nos filhos, revolta e o inerente desequilíbrio de personalidade. Mas tudo bem a história continha também uma crítica implícita ao modo de educação apresentado e o filme ficou como uma referência temática.
Em 2015 este realizador Grego nascido em 1973 em Atenas apresentou-nos “A Lagosta” como sendo uma forma inovadora de tratar os desequilíbrios mentais de pessoas em qualquer idade, tendo o filme sido premiado em festivais, considerando alguma razoabilidade do argumento que embora ficcional e fantasista, mostrava coerência na ação desenrolada na história.
Agora em 2017 Yorgos apresenta-nos esta história que pretende ser um filme sobre a culpa, pois um médico faz amizade e tenta compensar o filho do homem que morreu às suas mãos quando ele o operava debaixo do efeito do álcool. Esta relação é-nos apresentada sob contornos dúbios pois mostra-nos um afeto de obrigação, sem carinho explícito mas com um desvio “subliminar” para a perversão sexual velada e nunca assumida por qualquer dos intervenientes, que sugere alguma perplexidade ao espectador.
A mulher do médico Anna (Nicole Kidman) vive com este, Steven (Colin Farrell), numa bela casa nos arredores da cidade e ambos disfrutam de um ambiente social de classe média alta em que a sua relação íntima é-nos apresentada distorcida, considerando que na preparação para um contacto amoroso de índole sexual a mulher faz-se de morta sendo nessa condição possuída pelo marido, indiciando mais fortemente uma perturbação de personalidade já aflorado anteriormente na relação com o rapaz.
Este rapaz, por seu lado, mostra descontentamento no nível de relação do médico com ele e roga-lhe uma praga de morte a toda a família a menos que um dos elementos seja sacrificado como compensação para a morte do seu pai, sem que se saiba qual é o poder que o rapaz tem sobre ele, exceto a acusação de culpa pela morte do seu pai. A partir daqui a punição (segundo a mitologia Grega) que dá o nome ao filme (em que Ifigénia é sacrificada em benefício do cervo sagrado) vai cumprir-se e o sacrifício do seu próprio filho é executado como compensação pela morte que ele infligiu ao seu paciente durante a operação falhada por sua própria responsabilidade.
É pois este imbróglio que Yorgos apresenta ao espectador com este filme, mas de uma forma algo “doutoral”, ensimesmado pela representação que deu à imputação da “culpa”, incluindo uma superioridade paternalista, através de personagens sem espessura que nunca chegamos a conhecer ou sequer a fazer um juízo concreto das suas atitudes, porque no cerne deste filme de Yorgos, ele está lá para nos dizer precisamente tudo o que precisamos de saber, cabendo ao espectador apenas ver e ouvir sem quaisquer outros comentários. Passou-se!...

Classificação: 4 numa escala de 10

8 de janeiro de 2018

Opinião – “Três Cartazes à Beira da Estrada” de Martin McDonagh

Sinopse

“Três Cartazes à Beira da Estrada” é uma comédia dramática do vencedor do Oscar Martin Mcdonagh com; “Em Bruges”. Depois de meses sem ser encontrado o culpado no caso do homicídio da sua filha, Mildred Haynes (vencedora de um Oscar Frances McDormand) faz uma jogada ousada ao alugar três cartazes à entrada da cidade com uma mensagem polémica dirigida a William Willoughby (nomeado para o Oscar Woody Harrelson), o respeitado chefe de polícia da cidade. Mas quando o seu adjunto Dixon (Sam Rockwell), um menino da mamã imaturo com uma inclinação para a violência, se envolve, a batalha entre Mildred e a lei de Ebbing, descontrola-se.

Opinião por Artur Neves

Temos de volta uma história da América profunda que neste filme acentua o caráter rural e atávico de uma comunidade fechada sobre si própria, envolvida mas em paz com os seus próprios problemas desde que eles não agitem a pacatez social e a ordem estabelecida, permitindo a cada um fazer e agir como melhor lhe aprouver e até manter uma polícia local que cultiva o que de pior a América tem em preconceito racial, homofobismo, laxismo e inépcia operacional.
A história é simples e direta (como é apanágio dos vencedores) e o ambiente criado assemelha-se ao oscarizado filme de 2007; “Este País não é para Velhos”, embora menos violento, mais mordaz e cínico do ponto de vista da crítica social que a história aborda, através de personagens fortes e bem caracterizados pelos atores acima mencionados que criam a tensão perfeita nesta “comédia negra” já galardoada na 75ª edição dos Globos de Ouro 2018 na categoria; Melhor Drama.
A utilização dos cartazes à beira da estrada para denunciar a dor de uma mãe pela perda de uma filha, num hediondo crime sexual ainda impune é o gatilho que afeta transversalmente toda a sociedade da cidade de Ebbing no estado do Missouri, provocando as mais díspares reações sociais, a favor e contra a denúncia, que põem a nu as contradições das forças vivas mais representativas e estimáveis da cidade, tais como a lei e a religião que se sentem atingidas na sua missão de ordem, a primeira, e de fé conformista, a segunda, cuja agitação em curso não lhe é favorável à sua progressão.
Como se tudo não bastasse, nos “subterrâneos” da alma de cada um dos humanos envolvidos naquele drama emergem todos os conflitos e compromissos latentes estabelecidos no passado que agora emergem e se confrontam entre si, revelando as suas naturezas, os seus pecados e a vergonha de os terem cometido em momentos de fraqueza e que atualmente colidem frontalmente com a dor do momento.
Muito bem estruturado e interpretado este filme vê-se, por vezes com um sorriso amargo, e noutras como um murro no estomago, pelas palavras contidas nas cartas do chefe da polícia William Willoughby antes do seu suicídio, tentando corrigir in extremis tudo o que de muito mau foi cometido nesta história. A ver, recomendo vivamente.

Classificação: 8,5 numa escala de 10

31 de dezembro de 2017

Opinião – “Insidious: A Última Chave” de Adam Robitel

Sinopse

Os criadores da trilogia Insidious, regressam com “Insidious: A Ultima Chave”. Neste thriller sobrenatural, que traz de volta Lin Shaye, como a Dra.Elise Rainier, a brilhante parapsicóloga enfrenta na sua casa de família, a maior das assombrações.
Escrito por Leigh Whannell (Saw – Enigma Mortal), co-criador, escritor da trlogia e realizador do Capítulo 3; produzido pela equipa de Insidious, Jason Blum (A Purga, Foge), Oren Peli (Atividade Paranormal) e co-criador James Wan (The Conjuring – A Evocação, Velocidade Furiosa 7) e realizado por Adam Robitel (A Possessão)

Opinião por Artur Neves

A continuação da saga “Insidious” que se iniciou em 2010 como o melhor filme desta série (na minha opinião) continua agora com este; “A Ultima Chave”, depois de em 2013 e 2015 ter apresentado histórias menos conseguidas, com particular relevo para a sequela de 2015 poder ser classificada como a de pior memória.
Desta vez, pela mão de Adam Robitel, um realizador da nova geração, formado pela Universidade da Califórnia no curso de Arte Cinematográfica e já com antecedentes no género como argumentista, retorna ao início da história e traz nos como que uma prequela do tema, abordando a infância traumatizante de Lin Shaye (Elise Rainier) como o ”nó” a ser desatado na corporização do mal que atormenta os personagens da saga. Atormenta e vai continuar a atormentar, pois pelo final pode inferir-se que não se trata ainda o último capítulo, apesar de ter sido nomeado como “Ultima Chave”.
A demonologista Lin Shaye é chamada, pelo actual habitante, à casa onde nasceu e viveu a sua infância na área contígua á prisão onde o pai desempenhava a função de carcereiro e onde despontam os seus dotes de sensibilidade ao paranormal, fortemente contrariados pelo pai e protegidos pela mãe, por amor à filha e por compreensão pelas suas particularidades. A sua infância foi dolorosa e de tal modo infeliz, ao ponto de ela se ver motivada a abandonar a casa e o irmão e fugir sem destino definido só para se livrar do sofrimento que a presença maligna que habitava a casa lhe infligia directamente e através do seu pai, também possuído pela mesma entidade, tornando a sua existência um purgatório em vida, que consubstancia afinal a génese do universo de “Insidious”.
Nesta saga a morte não é um fim mas antes a transição para um sofrimento eterno que se propaga e multiplica por todos os seres cativos pela entidade demoníaca que subjuga os vivos tornando-os objecto dos seus desígnios e que Lin Shaye se vê finalmente forçada a enfrentar. A participação de James Wan como Produtor, tal como no primeiro filme da saga em 2010, veio repor o filme nas suas premissas iniciais de suspense, imprevisibilidade e surpresa constituindo assim um certificado de qualidade que este produtor já nos mostrou nesta área, em situações anteriores. Pode não se gostar do género pelos mais variados motivos individuais mas que esta história prende o espectador e apresenta cenas de completo sobressalto é uma realidade.

Classificação: 6 numa escala de 10

28 de dezembro de 2017

Opinião – “O Boneco de Neve” de Tomas Alfredson

Sinopse

O detetive alcoólico Harry Hole encabeça uma unidade de elite que está a investigar o caso de uma mulher que desapareceu num subúrbio de Oslo quando a neve começou a cair. Não demora muito até reparar no paralelo entre esse caso e o de um assassino em série chamado “Boneco de Neve”, com que lidou anos antes.
Realizado pelo sueco Tomas Alfredson trata-se da adaptação de mais um romance policial homónimo do norueguês Jo Nesbo publicado em 2007 e corresponde ao sétimo caso da saga do detetive Harry Hole, interpretado por Michael Fassbender. Fazem também parte do elenco: Rebecca Ferguson, Charlotte Gainsbourg, Val Kilmer e J.K.Simmons.

Opinião por Artur Neves

Mais uma vez uma adaptação ao cinema de uma obra nórdica de qualidade corre mal. Estou a lembrar-me dos filmes; “Deixa-me Entrar” em 2010 e “Os Homens que não gostam das Mulheres” em 2011, primeiro volume da saga Millenium de Stieg Larsson. Em ambos os casos houve uma primeira versão realizada por realizadores nórdicos. No presente filme a realização de Hollywood é a sua primeira adaptação cinematográfica por um realizador nórdico que não consegue pegar neste intrigante enredo e apresentá-lo de forma fluida e coerente, tendo ficado alguns furos abaixo das expectativas iniciais que esta história poderia transmitir.
O principal problema resulta da forma confusa como a intriga é transmitida ao espectador resultando numa história sem alma, embora contenha cenas fortes e dramáticas, mas que são “plantadas” sem o devido enquadramento que lhes confira espessura, drama e aquela trama policial impregnada de mistério, suspeita e pistas falsas que prendem o espectador à história e às emoções dos personagens.
Logo no início surpreendemo-nos ao constatar que o bêbado sem casa que nos apresentam caído na rua (caído do céu) é afinal o polícia de elite que vai acompanhar e desvendar todo o mistério do crime. A relação com a mulher de quem está divorciado e com o seu filho adolescente também só começa a fazer sentido lá muito para a frente. Os outros personagens são introduzidos sem se saber exatamente a sua relação entre si. A relação com a sua colega de investigação é-nos mostrada como ambígua e banal, quando no final toma um lugar e assume atitudes perfeitamente surpreendentes cuja justificação encontramos somente no fim da história.
O ambiente onde a história se passa, repleto de neve e de brancura fatal é do melhor que o filme tem decorrente do trabalho de fotografia, que por si só descreve alguma das justificações da opressão silenciosa que transparece em toda a história e que o realizador, o argumentista, ou ambos, não tiveram arte nem engenho para articular os elementos figurativos a comunicar em cada momento, tornando o filme quase incompreensível em situações fulcrais para o desenvolvimento da ação, incompleto e provocando a alienação do espectador, por se sentir incomodado com a sua própria incompreensão.
Ainda assim trata-se de um thriller que na versão de romance deve ser muito interessante, pois a história é forte, os elementos estão lá todos, e no final até se compreende toda a intriga, lamenta-se é que seja só no final. A imagem é muito boa e toda aquela frieza gélida do rigoroso inverno nórdico acentua o espírito sombrio do filme e se conseguirmos aguentar todas as perguntas que nos veem á mente até final podemos não dar o nosso tempo por completamente perdido.

Classificação: 5 numa escala de 10

22 de dezembro de 2017

Opinião – “O Grande Showman” de Michael Gracey

Sinopse

“O Grande Showman” é um musical ousado que celebra o nascimento do show business e a sensação maravilhosa que sentimos quando os sonhos ganham vida. Inspirado pela ambição e imaginação de P. T. Barnum, “O Grande Showman” conta a história de um visionário que surgiu do nada para criar um espetáculo fascinante que se tornou uma sensação mundial. “O Grande Showman” foi realizado pelo estreante Michael Gracey, com músicas dos vencedores de um Óscar, Benj Pasek e Justin Paul no filme “La La Land”. Protagonizado por Hugh Jackman e acompanhado pela candidata ao Óscar; Michelle Williams e também por; Zendaya, Zac Efron e Rebecca Ferguson.

Opinião por Artur Neves

O género musical em cinema ocupou desde o seu início uma categoria particular, tendo servido para divulgar arte e espetáculo maioritariamente só acessíveis em teatros e casas de representação. Nesta evocação de Phineas Taylor Barnum nascido em 5 de julho de 1810 nos Estados Unidos e apontado como talvez o primeiro empresário “a sério” do Show Business, só podia ter sido feita através de um filme musical com as características e esplendor de “O Grande Showman” realizado por um homem que tem nesta obra a sua primeira realização.
Tal como em todos os filmes musicais é através das canções que os personagens dos atores exprimem os seus sentimentos e emoções do papel que lhes é atribuído e que no caso, bem defendidos por extraordinárias interpretações acima mencionadas. Através das canções especialmente desenvolvidas para o argumento, exprime-se a dor através de canções ligeiras, ou a alegria através de canções calmas num ambiente exuberante, de circo, no início circo de horrores com a exibição de deformações humanas condenadas na época e de animais estranhos, como era tradição no início do século XIX na Inglaterra da rainha Victória.
Sempre ao sabor da música são mostradas as diferenças sociais impostas por uma sociedade burguesa, recentemente saída do regime esclavagista, que privava os palácios da corte e denegria o povo, inculto, trabalhador indiferenciado, ser humano sem estatuto e até condenado sem culpa formada, que o génio empreendedor de P. T. Barnum aglutina em torno das artes performativas diversificadas, do seu museu inicial que evoluiu posteriormente para a atividade circense, quase como a conhecemos hoje.
O ponto alto da vida de Barnum, bem documentado no filme, centra-se na promoção da tournée pelos USA da cantora Sueca Jenny Lind (Rebecca Ferguson) por quem Barnum se encantou ao ouvi-la cantar pela primeira vez e com ela ganhou milhares de dólares e perdeu a sua casa e também quase a sua família, subjugado ao efeito de uma voz denominada na época pelo “Rouxinol Sueco” mas que significou para ele o primeiro grande revés como empresário artístico.
É pois toda esta ação, declamada em forma de canção, dançada, representada em cenários modestos ou riquíssimos que se conta esta história, de seres humanos, com todas as suas misérias e grandezas da alma humana e que nos transportam durante 105 minutos através da fantasia, do luxo e da habilidade de um espetáculo que ainda hoje permanece com aceitação geral.

Classificação: 7,5 numa escala de 10

19 de dezembro de 2017

Opinião – “Jumanji – Bem-vindos à Selva” de Jake Kasdan

Sinopse

Quatro estudantes da escola secundária descobrem uma antiga consola de jogos de vídeo, da qual nunca tinham ouvido falar – Jumanji – e são de imediato transportados para o ambiente de selva do jogo, transformando-se, literalmente, nos seus próprios avatares.
Spencer, um viciado em gaming, transforma-se num aventureiro cerebral (Dwayne Johnson) a estrela do futebol, Fridge, perde (e são estas as suas palavras) “o primeiro meio metro do seu corpo”, transformando-se em Einstein (Kevin Hart); Bethany, uma das miúdas populares, transforma-se num professor de meia-idade (Jack Black); e a tímida Martha transforma-se numa guerreira destemida (Karen Gillian). O que eles descobrem é que não se podem limitar a jogar Jumanji – eles têm de sobreviver ao jogo… e para sobreviver e regressara ao mundo real terão de passar pela mais perigosa aventura das suas vidas, descobrir o que Alan Parrish deixou há 20 anose mudar a sua visão deles próprios – ou ficarão presos para sempre no jogo…

Opinião por Artur Neves

O que se nos apresenta hoje nesta história é um remake, tecnologicamente actualizado, dum filme de aventura e fantasia realizado em 1995, com o mesmo nome, baseado no livro infantil de histórias fantásticas escrito em 1981 por; Chris Van Allsburg e que muito embora não tenha tido uma crítica muito favorável, constituiu um sucesso de bilheteira no ano de estreia e que com mais propriedade se persegue nesta versão em 3D que nos transporta para o ambiente de selva em que decorre o jogo “inserindo-nos” completamente nas dificuldades e condições do jogo fazendo de nós mais um jogador da equipa.
Pessoalmente não sou adepto de jogos de computador porque acho que uma máquina tão poderosa como esta terá certamente melhor utilização do que o seguimento condicionado de acções e respostas programadas, impostas por qualquer jogo de computador que no limite, têm o poder de alienar os seus praticantes da realidade que os cerca. Por outro lado, do ponto de vista dos adeptos desta modalidade, através desta máquina têm a possibilidade de viver aventuras impossíveis, conhecer mundos fantásticos e sentir o poder do heroísmo virtual que o programador lhes confere através dos códigos utilizados no software produzido.
Se o leitor se insere nesta segunda categoria então este filme é lhe dedicado e pode usufruir de toda a magia implícita à tecnologia de criação do espaço tridimensional que acolhe toda a acção. Não pode ser um membro da equipa, é certo, mas pode vivenciar toda a emoção das fugas e perseguições no solo, da arrepiante viagem de helicóptero, da fuga aos rinocerontes albinos e de todos os eventos inimagináveis somente possíveis através da magia do cinema magistralmente mantida durante 119 minutos em que certamente não se aborrecerá.
Jake Kasdan realiza este filme depois de vários créditos firmados nesta industria e de muitos filmes no âmbito da comédia, emprestando ao presente argumento uma graça e uma ligeireza que se adaptam á época que atravessamos podendo constituir o complemento adequado á diversão do Natal em família pelo que o recomendo para todas as assistências.

Classificação: 6 numa escala de 10

14 de dezembro de 2017

Opinião – “Feliz dia para Morrer” de Christopher Landon

Sinopse

“Feliz Dia Para Morrer” é um thriller original e engenhoso, produzido pela Blumhouse (“Fragmentado”, “Foge”, “Whiplash - Nos Limites”), onde uma jovem estudante (Jessica Rothe, “La La Land: Melodia de Amor”) revive incessantemente o dia do seu assassinato, com todos os excecionais detalhes e aterrorizante final, até conseguir descobrir a identidade do assassino.

Opinião por Artur Neves

Á maneira de “O Feitiço do Tempo” de 1993, este filme conta-nos uma história de pretenso terror e suspense misturado com comédia, na forma de fim e recomeço sucessivos da mesma ação, com ligeiras transformações, para demonstrar que não se trata somente de repetições, numa história de descoberta do assassino da protagonista que morre e renasce no mesmo dia voltando tudo a acontecer de formas ligeiramente diferentes mas com o mesmo desfecho.
Aliás, o filme “Feitiço do Tempo” chega a ser mesmo citado por um dos personagens, como que a desculpabilizar o realizador pelo plágio de forma utilizado, para contar esta história que se arrasta ao longo de 96 minutos e em que eu me perguntei para quê e porquê, a sua apresentação deste modo absolutamente inverosímil que não acrescenta nada ao interesse do espectador e só o satura nos inevitáveis takes (trechos) de absoluta repetição.
A história em si mesma, reporta-se a um assassínio num colégio secundário que poderia tornar-se num bom caso de ficção policial, pois com todos os ingredientes periféricos construídos, permitir-se-ia a apresentação de uma multiplicidade de suspeitos, com diferentes motivações, como aliás vem de certa maneira a verificar-se embora com a nuance da sistemática repetição/inicialização da história, no mesmo dia e local, que se traduz em termos práticos numa monotonia inultrapassável do argumento.
Christopher Landon é um realizador americano, oriundo da Califórnia, rodado neste género de suspense como atestam alguns filmes anteriores tais como; “Paranoia” de 2007 sobre uma obsessão voyeurista (mixoscopia em Português) e a tetralogia de “Atividade Paranormal” entre 2010 e 2014, sem necessidade de recorrer a este efeito de retorno sistemático ao lugar do início que não acrescenta nada de útil à história que se pretende contar.
Deste modo o filme torna-se chato, enrolado no seu desenvolvimento, embora em certa medida consiga manter-nos a esperança para que a história evolua para padrões “normais” o que definitivamente não acontece e como tal deixa-nos no fim com um sentimento de frustração e de tempo perdido. Ver, só se não houver mais nada para fazer.

Classificação: 4 numa escala de 10

7 de dezembro de 2017

Opinião – “Woodshock” de Kate & Laura Mulleavy

Sinopse

Theresa (Kirsten Dunst) vive assombrada por uma profunda perda e encontra-se no precário limbo entre um estado emocional fraturado e os efeitos psicadélicos de uma potente droga derivada da canábis. Uma hipnotizante exploração do isolamento, da paranóia e da dor num mundo fantasioso de sonhos, WOODSHOCK é uma experiência imersiva, encantadora e sublime, que transcende o seu género para se tornar numa singular e empolgante experiência cinematográfica que assinala as irmãs Mulleavy como importantes emergentes vozes do cinema contemporâneo.

Opinião por Artur Neves

Estreado em 4 de setembro na 74ª edição do renascido Festival de Cinema de Veneza decorrido entre 30 de Agosto e 9 de Setembro deste ano, este filme mostra-nos a dor e a tentativa de expiação pela assunção velada de culpa, decorrente de um erro de formulação de uma droga herbácea preparada com as melhores intenções mas donde resulta a morte e o sentimento de perda daí decorrente.
Kirsten Dunst, atriz americana de ascendência germânica, não é propriamente uma novata nestas andanças, (tem um papel semelhante em “Melancolia” de 2011) particularmente no que concerne ao tipo e qualidade variável de muitas das interpretações a que dá corpo. Mostra-nos neste filme, no papel de Theresa, a desorientação alienante de quem sabe o que fez, embora sem o querer admitir na realidade dos dias, das noites sem sono, dos tempos de viagem por uma realidade alternativa em que tenta provar a si própria, não ter cometido os atos de que é suspeita.
A ação decorre nas florestas de coníferas da Califórnia, no meio da atividade de corte e preparação da madeira para construção, transmitindo-nos a rudeza do trabalho e conferindo à alienação de Theresa, nas suas fugas à realidade e refúgio entre as árvores, a entrega á natureza do seu destino, da sua punição, da sua perturbação obsessiva em sonhos de levitação, de ascendência a locais superiores da existência que compensem o sentimento de perda irrevogável que provocou, sem contudo assumir na sua consciência o erro que de facto cometeu.
As irmãs; Kate Mulleavy e Laura Mulleavy, designers de moda profissionais, decidiram desviar-se da sua zona de conforto assumindo esta sua primeira realização, nesta obra de cariz contemplativo e diálogo difícil com o espectador, na medida em que o convidam em interiorizar o drama da personagem sem todavia lhe dar outros elementos para além da solidão de Theresa, no seu constante imobilismo facial, em expressões de tristeza, interioridade ou alienação drogada, em que se vê a si própria em lugares e conversas irreais que confundem a transmissão da mensagem.
É todavia uma história de drama, de descida aos infernos da alma humana, perturbada na sua capacidade de cognição do real, despida do discernimento inerente à sanidade mental, imprescindível á compreensão dos eventos dolorosos que nos tiram a paz espiritual e a saúde. Tudo se precipita no final para continuar impune a alienação do início, difícil de ver e confuso de entender todo o esoterismo da mensagem.

Classificação: 4 numa escala de 10

30 de novembro de 2017

Opinião – “Geostorm – Ameaça Global” de Dean Devlin

Sinopse

Depois de inúmeros desastres naturais terem ameaçado o planeta, os líderes mundiais uniram-se para criar uma rede interligada de satélites para controlar o clima global e manter a humanidade a salvo. Mas agora, algo está errado o sistema construído para proteger a terra está agora a atacá-la, e é uma corrida contra o relógio para revelar o verdadeiro problema, antes que uma tempestade mundial destrua tudo...e toda a gente.

Opinião por Artur Neves

Este é mais um filme catástrofe, limitada aos estragos mínimos por um mais um herói abnegado de histórias que associam o avanço tecnológico e o futuro aos potenciais malefícios dessa mesma tecnologia que se prepara para nos aniquilar a todos. Só é pena que façam essa associação de forma tão linear, improvável e previsível, denunciando claramente o fim esperado que tira toda a “pica” que uma história destas é destinada a provocar.
Dean Devlim, estreia-se neste filme como realizador, todavia ele não é propriamente um novato nestas coisas, considerando que no seu curriculum de produtor tem obras como “Dia da Independência” de 1996 e 2016 (o primeiro melhor do que o segundo) “Godzila” de 1998 ou “Stargate” de 1994 mas a abordagem que faz neste filme, da tecnologia de controlo do clima e do seu efeito perverso no caso de provocação deliberada de mau funcionamento do sistema, é infantil e mais voltada para o sensacionalismo rasteiro, com a lágrima no canto do olho, do que uma simulação adulta de um problema relevante e atual no tempo que vivemos.
Os efeitos especiais de catástrofe são o prato forte desta história, bem como a estação espacial onde quase toda a história se desenrola mas o argumento que a suporta e a ação que que nos mostram não têm espessura, nem drama real, nem causam a emoção pretendida com tanta parafernália por manifesta falta de autenticidade.
Gerard Butler representa o herói abnegado, empenhado até ao sacrifício da própria vida para salvar o planeta mas de uma maneira que ninguém acredita porque todo o desenvolvimento da ação não conduz a esse sacrifício, não está no espírito, não faz parte dos “genes” da trama de bastidores que envolve o presidente e o vice-presidente dos USA como causadores do desastre de que eles próprios seriam também vítimas. Apesar da urgência do assunto abordado, há sempre oportunidade para a novela fácil, para a lamecha, para o brique-a-braque dos sentimentos comezinhos que induzem a pena ou a compaixão por uma fantasia.
No final, a salvação de tudo e de todos, como aliás já era esperado desde o princípio, é conseguida de uma maneira surpreendentemente pífia que a única coisa que se salva são mesmo os efeitos especiais, mas mesmo esses, têm aspetos intragáveis. Ver só se não houver mais nada de interessante para fazer.

Classificação: 4 numa escala de 10

26 de novembro de 2017

Opinião – “A Montanha entre Nós” de Hany Abu-Assad

Sinopse

Após um trágico acidente de avião, dois estranhos terão de se unir para sobreviver em condições extremas numa remota montanha.
Quando percebem que a ajuda não vai chegar, decidem embarcar numa viagem assustadora por centenas de quilómetros de terra selvagem, encorajando-se mutuamente para aguentar e abrindo espaço para uma atração inesperada. Realizado pelo nomeado Óscar da Academia Hanny Abu-Assad e interprestado pela vencedora do Óscar da Academia Kate Winslet e o vencedor do Globo de ouro Idris Elba.

Opinião por Artur Neves

Hany Abu-Assad, realizador Israelita nascido em 1961 deu-nos em 2005 “Paradise Now” que estabeleceu um marco distintivo numa carreira que prometia maiores voos do que veio a verificar-se posteriormente. O filme reporta-se à catequização dogmática dos aspirantes a mártires pelo Islão, mostrando um exemplo, bem estruturado e credível, do caminho de sofrimento por onde eles são conduzidos até carregarem no botão fatídico que os faz explodir. Porém, depois desta obra e por motivos que desconhecemos, Abu-Assad infletiu a trajetória e dedicou-se a temas bem menos fraturantes, tais como “Omar” em 2011, “O Ídolo” em 2015 e em 2017 este “A Montanha entre Nós”, na mesma toada romanesca dos anteriores, no género fácil, com laivos de épico, que de original apenas tem o ambiente gelado onde o romance se desenvolve.
Também não se percebe como dois atores com créditos firmados, “contribuem para este peditório”, emprestando o seu talento a uma historieta, barata, convencional, de moral tradicional e com um epílogo digno de novela Mexicana, que apesar de não revelarmos deixamos o aviso.
Á partida poder-se-á pensar que se trata de uma aventura de abnegação e sobrevivência, num ambiente hostil e selvagem em que a imensidão dos espaços filmados por Mandy Walker poderia emprestar uma carga de temor e solidão naquela montanha branca e gelada, mas nada disso acontece e corre tudo muito direitinho, incluindo a proverbial curiosidade feminina que seria lógico ter preocupações diferentes, considerando o risco de vida que enfrentavam, mas não, e quando as coisas têm de descambar para o chinelo, descambam mesmo.
O terceiro personagem para compor a história é um cão, de raça labrador, pertencente a Ben (Idris Elba) que este leva no fatídico voo fretado, pilotado por Walter (Beau Bridges) e que sofre um ataque cardíaco na viagem, provocando o desastre no pico de uma montanha gelada e deixando ao seu destino Ben e Alex (Kate Winslet) que entre dor e medo do ataque de animais selvagens, constroem uma relação conturbada, de apoio mútuo mas também de divergência, justificado pelo espírito de sobrevivência e pelo medo que a incapacidade de reagir contra os elementos confere.
É pois neste caldo de natureza em forma pura que se desenvolve esta história, que depois de vários eventos dolorosos mas pouco verosímeis, nos querem “vender” este enredo pouco realista que se embrenha nos seus “rodriguinhos” de cordel, num filme que tinha tudo para ser bem sucedido. Valem as interpretações dos atores, as paisagens imensas e uma fotografia competente e estimulante que se desfruta no conforto do cinema, indo para eles a classificação indicada.

Classificação: 5 numa escala de 10

24 de novembro de 2017

Opinião – “A Estrela de Natal” de Timothy Reckart

Sinopse

Neste filme da Sony Animation Studios, um pequeno mas valente burro, chamado Bo, sonha com uma vida para além da existência corriqueira na sua aldeia.
Um dia ganha coragem para se libertar e inicia a aventura dos seus sonhos. Na sua viagem junta-se a Ruth, uma adorável ovelha que se perdeu do rebanho e a Dave, um pombo com grandes ambições.
Juntamente com três camelos sábios e outros tantos excêntricos animais do estábulo, Bo e os seus novos amigos seguem a Estrela e tornam-se os improváveis heróis na maior história alguma vez contada – o primeiro Natal.

Opinião por Artur Neves

De responsável pela animação de “Anomalisa” o excelente filme de animação sobre egoísmo e solidão premiado nos Óscares de 2015, Timothy Reckart assume-se agora como realizador de nova animação, dedicada à quadra natalícia de 2017, onde conta de maneira renovada a história conhecida pela generalidade dos católicos referente ao nascimento de Jesus Cristo e bem assim, ao milagre de Natal celebrado em todo o mundo católico em 25 de dezembro.
Como á fácil de intuir a história é tudo menos nova, já vai com 2017 anos, (e recomenda-se) dedicada fundamentalmente ao público infantil ainda com o encantamento da ignorância ingénua, considerando a forma linear e superficial da narrativa.
Para animar a “festa”, porque o tema central só por si não seria capaz de encher o tempo de filme, Reckart socorre-se da presença criativa dos animais que vão compor o presépio final, o burro e a vaca, acompanhados de outros parceiros de peripécias várias e aventuras de percurso, todas ingénuas e muito simples, que compõem a viagem de Maria e José até Belém da Samaria, e finalmente ao estábulo, onde tradicionalmente se atribui o nascimento de Jesus. (Não o Jorge, esse nasceu na Amadora).
O filme começa pela Anunciação do Espírito Santo a Maria, de ter sido a escolhida por Deus para mãe do seu filho homem, o que esta aceita embevecida com a notícia, sete meses antes de se casar com José, carpinteiro de profissão, ao qual só é revelada a paternidade antecipada, depois do casamento, durante a noite de núpcias em que Maria se assume como virgem grávida de Jesus e José aceita como uma dádiva de amor divino… Confuso?... Nada disso caro leitor, com certeza que já deve ter havido um tempo em que lhe contaram esta história, só que agora mostram-lha de forma animada e colorida.
“A Estrela de Natal” é assim um filme para toda a família, particularmente para os mais pequeninos, que vão delirar, com o protagonismo do burro Bo, o pombo Dave, a ovelha Ruth, três camelos e dois cães muito maus que no fim se convertem à bondade extrema. Desta forma os anjos estarão na plateia muito sossegadinhos, de olhos esbugalhados, fixos em tanta beleza ingénua durante 86 minutos em que o caro leitor poderá respirar descansado. Recomendo para esta quadra festiva.

Classificação: 5 numa escala de 10

15 de novembro de 2017

Opinião – “A Torre Negra” de Nikolaj Arcel

Sinopse

Há outros mundos para além deste. No filme A Torre Negra de Stephen King, a original história de um dos mais conceituados autores mundiais, chega ao grande ecrã. O Pistoleiro Cavaleiro, Roland Deschain (Idris Elba), encontra-se preso numa batalha eterna com Walter O’Dim, também conhecido como o Homem de Negro (Matthew McConaughey), e decidido a impedi-lo de destruir a Torre Negra que mantém a unidade do Universo. Com o destino do mundo em jogo, o bem e o mal colidem numa derradeira batalha onde apenas Roland pode defender a Torre do Homem de Negro.

Opinião por Artur Neves

Esta é uma adaptação de mais uma obra de Stephen King, autor americano com cerca de quarenta adaptações ao cinema de obras suas, sendo umas por ele próprio, outras por outros e ainda outras por ambos, devido à sua discordância com as versões resultantes da interpretação dos outros sobre as suas obras o que indicia a dificuldade da extração da essência de conteúdos escritos por Stephen King, por serem todos constituídos por personagens profundamente complexas.
Baseado numa obra complexa o filme é todavia bem simples, direi mesmo, básico, porque assenta no eterno confronto entre o bem e o mal, corporizados no temido Homem de Negro que procura destruir a dita “Torre Negra”, que representa a última linha de defesa do universo e num psicologicamente perturbado Pistoleiro, atormentado por questões existenciais relacionados com a missão para a qual se sente incapaz de concretizar e que se resume precisamente à defesa da referida “Torre Negra”. O seu improvável “ajudante” e motivador é um jovem rapaz, que a partir de determinada altura é assaltado por sonhos realistas passados num mundo paralelo para onde ele se transmuta durante o sono para servir de apoio ao perturbado Pistoleiro.
Para contar esta salganhada improvável, o filme toma a forma de uma aventura genérica de ficção/fantasia, baseada nas trivialidades do género, sem rasgo nem brilho, sem qualquer novidade digna de nota e com propensão para ser considerado um filme destinado a encantar os jovens, mais propensos a dicotomias simples, bem definidas e seguramente representadas por duas personagens que não deixam dúvidas de quem, apesar de todas as vicissitudes, vai sair vencedor do duelo.
Salvam-se os efeitos especiais de que o filme se socorre e dos dois personagens bem caracterizados e interpretados por Matthew McConaughey e Idris Elba, muito particularmente o segundo, já que ao primeiro basta-lhe ser altivo e arrogante como cabe a todos os vilões.
Considerando que Stephen King discordou da realização de Stanley Kubrick no filme; “The Shining” de 1980 e realizou uma versão de sua própria autoria, menos interessante e fastidiosa, refira-se, vejamos o que acontecerá com esta versão cinematográfica de mais um romance seu. A classificação atribuída vai direitinha para os efeitos especiais e desempenho dos atores, porque no resto da história é verdadeiramente pobre.

Classificação: 4 numa escala de 10

6 de novembro de 2017

Opinião – “Mães à Solta 2” de Jon lucas e Scott Moore

Sinopse

Mães à Solta 2 continua com as nossas três amigas que apesar de sobrecarregadas da trabalho não perdem a sua loucura e boa disposição. Nas vésperas da organização do maior evento do ano: o Natal, o feriado mais perfeito de todos para as suas famílias, elas recebem a visita das suas mães! Estas visitas tornam as suas vidas num caos, mas as três amigas unem-se para tentar voltar a ter um natal divertido!

Opinião por Artur Neves

Temos na primeira quinzena de novembro a nossa primeira história de Natal a chamar a atenção para um evento que se realizará na última semana de dezembro. Idiossincrasias da atividade comercial sempre ávida por eventos que levem ao consumo, bem ilustrado pelas múltiplas sugestões que nos são expressamente apresentadas e sugeridas sem rodeios, todavia com graça e alguma inteligência o que já nem é mau.
A história serve-se de três estereótipos maternos bem conhecidos, a saber; a mãe snob, a mãe galinha e a mãe displicente, interagindo com as suas respetivas proles, também elas do sexo feminino e também mães de outros filhos ainda em idade escolar.
Á boa maneira do cinema americano, as relações entre todas (cada uma com a sua, claro) são mais ou menos conflituosas, servindo como introdução para a componente de terapia psicológica de origem Freudiana como está bem de ver. A abordagem aos conflitos é moderna, descomplexada e francamente erótica em algumas cenas, o que apesar do tema natalício de que o argumento se serve, poderá não provocar muitos sorrisos aos mais conservadores que do Natal têm outra perspetiva.
Mas ainda assim está lá tudo; a celebração católica do Natal com todos os seus sinais distintivos, o conflito geracional mãe filha, a supremacia feminina por herança e por direito de género, numa história em que o elemento masculino é completamente decorativo seguindo aliás a tendência atual do cinema americano, até em filmes de ação, veja-se o recente “Agente Especial” (“Atomic Blond” no original) de David Leitch com todos os ingredientes de uma James Bond no feminino mas sem um Bond boy.
Não obstante, as três histórias estão bem engendradas e interligadas pela amizade das filhas que provocam a interligação das mães e através de gags bem conseguidos, diálogos sem reservas nem falsos pudores e cenas picantes, provocam sorrisos e emoção pelas verdades que se dizem e pelas razões distribuídas que são alegadas por todas, cada uma por si com a sua verdade, como aliás acontece sempre na vida real.
A realização e a autoria do argumento são feitas a quatro mãos, as mesmas que anteriormente já produziu “A Ressaca” e suas sequelas, mas desta feita com mais inteligência, graça e um peculiar espírito natalício que nos diverte, dispõe bem e nos conduz ao âmago do Natal e á reconciliação que dele esperamos. A ver por pura diversão.

Classificação: 6 numa escala de 10

31 de outubro de 2017

Opinião – “O Castelo de Vidro” de Destin Daniel Creton

Sinopse

Uma jovem menina atinge a maioridade numa família disfuncional de nómadas inconformados, com uma mãe que é uma artista excêntrica e um pai alcoólatra que tenta despertar a imaginação das crianças com a esperança que elas se abstraiam da pobreza em que vivem.

Opinião por Artur Neves

Destin Daniel Creton, realizador Havaiano, nascido em 1978 em Maui nos USA, traz-nos aqui uma saga familiar real, baseada no livro de Jeannette Walls, (Brie Larson) atualmente jornalista no New York Magazine, sobre a sua própria vida e do seu irmão Brian e irmã Lori, bem como de sua mãe, Rose Mary Walls (Naomi Watts) que sofreram o despotismo do cabeça de casal, na constituição de uma família disfuncional que apesar de todas as vicissitudes sobreviveu unida.
Woody Harrelson, com a sua expressão de normal insanidade que estamos habituados a reconhecer-lhe desempenha magistralmente o papel do patriarca Rex Walls, ex-militar revoltado com o sistema e avesso a tudo o que fosse trabalho regular com horários, deveres e obrigações. Tinha frequentado engenharia durante a vida militar e esses incompletos conhecimentos, aliados a uma inteligência natural, permitiam-lhe a concepção de ideias com que ele iludia os anseios da família e as suas reais necessidades, através de promessas nunca cumpridas e de sonhos visionários de que ele se servia para sublimar a constante pressão familiar. A sua verdadeira atividade resumia-se e pequenos estratagemas e golpes entre amigos, muito álcool e um vício inveterado de fumar que o há de conduzir à morte.
Rose Mary, pintava quadros e descurava a casa, a comida que não existia e o tratamento dos filhos, cujos mais novos eram assistidos em sequência pelos mais velhos, na sua ânsia de criação da obra-prima que nunca aparecia.
Neste ambiente destacava-se Jeannette Walls, que pela sua sensatez e intuição inata era preferida pelo pai, muito embora também usada por este. Todo este clima familiar disfuncional, louco e por vezes perverso, é-nos mostrado com um realismo cru que as fantasias de Rex só acentuam, não só pela impossibilidade que encerram, como também na “cortina de fumo” que se pretendem constituir para ocultar uma enorme inaptidão para a vida e para o trabalho.
Rex Walls não é louco, nem realmente mau, é simplesmente inadaptado convicto e usa a sua inteligência para mascarar com fantasias dilatórias a sua congénita incapacidade de realização e de iniciativa, sempre voltado e inspirado para obras megalómanas de realização impossível como os meios ao dispor, dos quais “O Castelo de Vidro” ocupa o lugar principal.
O filme transmite-nos com realismo um ambiente de vida avulsa e insana para o que contribuem interpretações de personagens consistentes, com espessura e estatuto adequado ao meio rural onde vivem. Os avós de Jeannette são inenarráveis e o almoço de família alargado é digno de figurar numa galeria de aberrações. Recomendo, é interessante do ponto de vista da exuberância da diversidade humana.

Classificação: 7,5 numa escala de 10

30 de outubro de 2017

Opinião – “A Vida de Brad” de Mike White

Sinopse

Brad (Ben Stiller) tem um emprego satisfatório e uma vida confortável nos subúrbios onde mora com a sua esposa Melanie (Jenna Fisher) e o seu filho Troy (Austin Abrams). No entanto esta está longe de ter a vida com que sonhou nos tempos gloriosos da Faculdade. Quando viaja para Boston com o seu filho para uma tour pelas faculdades locais, Brad não consegue deixar de comparar-se aos amigos desses tempos e apercebe-se o quanto a vida fugiu às suas expetativas. Mas quando as circunstâncias o levam a reencontrar os amigos, começa a questionar-se sobre se de facto falhou ou não e se nos pontos essenciais as vidas dos seus amigos não serão mais imperfeitas que a sua.

Opinião por Artur Neves

Ben Stiller, que nos acostumou a personagens estereotipadas em comédias extravagantes, cada uma mais louca do que a anterior, apresenta-nos agora este “Brad” em tempo de reflexão pessoal sobre a vida vivida e a que falta viver, questionando-se sobre o seu valor e sobre os sucessos obtidos na sua atividade profissional, bem como, da utilidade e significância dessa mesma atividade para os outros e para o mundo que o cerca.
Essa reflexão, decorre durante todo o filme, em off, condicionando o seu comportamento no presente, na viajem que faz com o seu filho para escolha da universidade onde se irá formar. Brad analisa a sua situação, comparando-a com o que ele sabe, ou julga que sabe, do destino dos seus amigos de faculdade, enaltecendo os sucessos que conhece aos outros e comparando-os com a rotina e insignificância dos seus dias, da sua atividade e da sua família, que ele presa, sem dúvida, mas que que não o considera como o herói que ele queria ser considerado, projetou ser, e reconhece não ter conseguido.
Esta dicotomia, fá-lo sofrer e agir em função do estado de alma do momento que é normalmente depressivo, vencido, derrotado por ele próprio e pela autocomiseração de não ter atingido os objetivos que julga ver conseguidos nos outros.
Mike White, nascido em 1970 na Califórnia dirige este argumento de sua autoria, centrando as dúvidas e questões que todos temos acerca de nós próprios, na personagem deste Brad que oscila entre a euforia da imaginação do que gostaria de ter sido e conseguido e a depressão frequentemente apática, da sensação de insucesso e menor valia da sua vida. Normalmente somos muito severos connosco próprios, até porque, os dados com que equacionamos a nossa existência não têm o rigor, a gravidade ou a importância que lhes atribuímos, particularmente quando resultam de uma comparação avulsa e difusa com os outros. Nem sempre as coisas são o que parecem, tal como as julgamos.
Parece-me todavia que Mark White também fica aquém dos objetivos pretendidos com esta reflexão intimista de uma existência de classe média, quando, após tanto debate e tantas realidades serem apontadas não nos apresenta uma possível saída para tanta angústia. Este filme está erradamente classificado como comédia, de acordo com a minha interpretação.

Classificação: 6 numa escala de 10

26 de outubro de 2017

Opinião – “Tour de France” de Rachid Djaïdani

Sinopse

Far’Hook é um jovem rapper de 20 anos. Depois de um ajuste de contas é obrigado a deixar Paris durante algum tempo. O seu produtor; Bilal, pede-lhe que tome o seu lugar e que acompanhe o seu pai; Serge, a dar uma volta a França, pelos caminhos de Joseph Vernet. Apesar do choque cultural e de gerações, uma amizade improvável vai nascer no decorrer de uma peripécia que os levará a Marseille para um concerto final, o da reconciliação.

Opinião por Artur Neves

O que temos aqui é uma história de contrastes civilizacionais que se vêm forçados a conviver no mesmo espaço e num tempo, que aos mais novos lhes concede o privilégio de reivindicar e julgar os conceitos que lhes permite desfrutar dessa oportunidade.
Serge Desmoulins (Gérard Depardieu) quer seguir o seu sonho de pintar, ele próprio, os quadros do pintor da sua preferência, vistos dos locais onde o pintor os viu e pintou, como forma de identificação “umbilical” com a arte em que se fixou depois de reformado, solitário, em conflito com o único filho e de ter assumido uma atitude de “ermita” na terra e no local onde vive. Ao seu redor, tudo está mal e merece a mais veemente contestação, iniciada verbalmente e continuada fisicamente se a situação o permitir e valer o transtorno. De Gaule é o seu mentor e a França nunca deveria ter abandonado a Argélia como forma de manter os argelinos no seu território, sob pena de se ter transformado na nação atual, multicultural e permissiva a todas as ideias, credos e práticas que nada têm a ver com a sua matriz.
Far’Hook (Sadek) tem como contraponto à sua juventude o estigma da raça e da religião muçulmana que o transforma em rapper, numa terra que o tolera desde que se enquadre nos padrões permitidos que não são necessariamente os assumidos pela sua geração. O seu protesto é declamado com música sincopada que excita o ouvinte, promove a união dos seus pares e estimula a distinção para com o modo de vida da civilização ocidental, bem como entre castas, ou bandas de outros rappers, que para o escopo desta história significa o mesmo.
Rachid Djaidani, Argelino de nascimento, realizador e argumentista deste filme onde ele deve ter colocado muito da sua própria vivência, promove uma viagem através da França com estas duas personagens extremadas que só muito remotamente se envolveriam numa relação social. Á partida, nada os une nem os justifica, exceto a decisão e os meios do primeiro e a necessidade do segundo. Durante a viagem, num carro a cair de podre e depois de muitas verdades sobre a situação global vigente terem servido como arma de arremeço mútuo, depois de muito fel destilado, surge uma centelha de compreensão entre ambos, que se fosse generalizada, promoveria a união, a compreensão e a paz que conduz ao progresso.

Classificação: 4,5 numa escala de 10

24 de outubro de 2017

Opinião – “Rosalie Blum” de Julien Rappeneau

Sinopse

Vincente Machot conhece a sua vida de cor. A sua rotina divide-se entre o salão de cabeleireiro, o seu primo, o seu gato e a sua mãe demasiado intrusiva. Mas a vida reserva por vezes algumas surpresas, mesmo aos que vivem de forma mais prudente. Cruza-se por acaso com Rosalie Blum, uma mulher misteriosa e solitária, convencido de já a ter conhecido antes. Mas onde? Intrigado decide segui-la para todo o lado, na esperança de a conhecer melhor. Não tem dúvidas que esta incursão vai levá-lo a embarcar numa aventura cheia de imprevistos, onde descobrirá personagens tão extraordinárias como comoventes. Uma coisa porém é certa; a vida de Vincente Machot vai mudar…

Opinião por Artur Neves

Esta é uma história de solidão, de ensimesmento de sentimentos quando a realidade se nos afigura difícil e quando por nenhum motivo ou condicionamento mental não ousamos sair da nossa zona de conforto, não dizemos que existimos e mostramos a nós próprios e aos outros que estamos preparados para as normais vicissitudes da vida, sem receio de falhar.
Vincente Machot (Kyan Khojandi) é um homem metódico para quem os dias são isentos de surpresa e as horas antecipadamente previstas cumprem-se com a regularidade do movimento da terra. É essa previsibilidade que lhe permite reconhecer-se nos atos e nas ações que diariamente se incumbiu de cumprir e seguir um percurso sem sobressaltos. Condicionado por uma mãe austera, crítica, interesseira e castradora que evidenciando uma suposta dependência e necessidade de apoio próximo e frequente, transforma vida de Vincente no marasmo insipiente que a história nos mostra, todavia, no seu íntimo a natureza agita-se, os pensamentos fermentam e os sonhos lembram-no da outra realidade que ele não tem coragem para enfrentar.
Como sempre, é a vida que nos acorda e com ele também assim aconteceu na figura de Rosalie Blum (Noémie Lvovsky) uma mulher de sorriso perene numa cara doce, sem ser bela, mas que se torna agradável no desempenho desta personagem enigmática que Vincente julga conhecer, embora sem saber de onde nem quando. Esta “memória” porém, é suficiente para perturbar o equilíbrio da sua pacata vida, da sua rotina, fazendo-o agir de forma tendencialmente anónima, cozido com as sombras da cidade, julgando-se invisível na busca que acendeu os seus embotados sentidos.
Segue-se posteriormente uma história de enredo pueril, ao nível da personalidade de Vincente, mas que nos prende, quanto mais não seja pela curiosidade de se saber como tudo aquilo irá acabar. Porem o realizador; Jullien Rappeneau, autor de “36” de 2004 e de outros filmes menos conhecidos não nos desaponta com as diatribes por que faz passar Vincente e a sua perseguida, justificando e clarificando todas as perguntas que implantou no nosso espírito nesta comédia romântica com tons dramáticos, que se vê com agrado pela estruturação de uma história improvável com personagens ímpares.

Classificação: 6 numa escala de 10