20 de junho de 2018

Opinião – “Noite de Jogo” de John Francis Daley e Jonathan Goldstein


Sinopse


Max e Annie, vêm a sua noite de jogos semanais entre casais amigos tornar-se mais entusiasmante quando o carismático irmão de Max – de nome Brooks – arranja uma festa com o tema “assassinato mistério”, que inclui ladrões e polícias falsos. Quando Brooks é subitamente raptado, é tudo parte do jogo… certo? Assim que os seis jogadores ultracompetitivos começam a preparar-se para resolver o caso e ganhar, começam a descobrir que nem o “jogo” nem Brooks são o que aparentam. No decurso de uma noite caótica, estes amigos vão encontrar-se a pisar o risco cada vez mais, pois cada nova pista leva-os a uma nova reviravolta inesperada. Sem regras, nem pontuação e sem ideia de quantos são os jogadores na realidade, esta pode ser a noite mais divertida das suas vidas… ou simplesmente o fim.

Opinião por Artur Neves

Quem disse, ou pensou, que a comédia no cinema era uma tema esgotado tem de ver este filme que constitui um “fresco” neste género, por vezes muito mal utilizado em filmes de cariz romântico que se socorrem de alguns gags, por vezes utilizados apenas como “buchas”, para animar as hostes de uma história mais ou menos lamecha. Este porém não é o caso de “Noite de Jogo” que contém todos os ingredientes para nos proporcionar um tempo de genuína diversão.
Suporta-se numa história de equívocos, bem congeminada, com momentos de verdadeiro suspense que em vez de nos assustar, empolgam-nos no sentido de apreciar se a dimensão da surpresa causada no personagem, é maior ou menor da que intuímos ao ver o desenrolar da ação, onde tudo está completamente esclarecido (e bem iluminado) para o espetador.
O enredo acompanha um grupo de amigos, normais frequentadores em conjunto de jogos sociais do tipo; trívias, jogos de tabuleiro e videogames, em que um dos elementos habituais resolve inovar nos temas propondo-lhes um “assassinato mistério”, a que todos aderem. O problema começa quando este jogo coincide com o assalto à casa feito por um grupo de malfeitores reais com a intenção de cobrança de uma dívida a Brooks (Kyle Chandler), que eles assumem por inerência pertencer ao jogo, tentando obter deles indícios e dicas, sobre os passos seguintes.
Os jogadores habituais organizam-se em equipas de pares na tentativa de obterem vantagens mas assumem objetivos ridículos e irreais considerando o absurdo da situação que eles ainda não compreenderam, conduzindo a um conjunto de erros e de surpresas onde assenta a verdadeira piada da história.
É suportado por um excelente e diversificado naipe de atores, já repetentes neste género de filmes, tais como; Max (Jason Bateman) e Annie (Rachel McAdams) como o casal principal, o vizinho Gary (Jesse Plemons) que desempenha um papel sinistro, intenso, despeitado e mal-humorado e muitos outros que compõem a história, produzindo boas cenas de humor sem espalhafato ou demasiada exuberância onde a ação funciona melhor do que as piadas e que se vê com agrado. Constitui 100 minutos de boa disposição, recomendo.

Classificação: 7,5 numa escala de 10

19 de junho de 2018

Opinião – “Mau Samaritano” de Dean Devlin


Sinopse

Dois jovens que arrumam carros num restaurante local criam um esquema inteligente para assaltar as casas dos clientes enquanto eles comem. As coisas correm bem até um deles assaltar o cliente errado e descobrir uma mulher cativa. Temendo ir para a prisão, deixa a mulher e devolve o carro no restaurante. Cheio de remorsos, faz um telefonema para a Polícia, que não encontra nada quando investiga. Agora, o arrumador tem de suportar a ira do raptor que tenta vingar-se, enquanto tenta desesperadamente arranjar maneira de salvar a mulher cativa que deixou para trás.

Opinião por Artur Neves

“Mau Samaritano” seria se Sean Falco (Robert Sheehan) tivesse abandonado à rapariga cativa que encontrou na casa, à sua sorte, mas não foi assim, impossibilitado de resgatá-la num primeiro tempo moveu céu e terra com risco da sua própria segurança e das pessoas que mais amava para a salvar, como redenção para a sua precipitada atitude inicial e cumprindo a regra básica de solidariedade em ajudar o próximo mesmo que completamente desconhecido. No limite será um “Mau Samaritano” arrependido.
A história que Dean Devlin nos conta, realizador americano nascido em Nova Iorque que tem no seu curriculum êxitos recheados de emoção e surpresa tais como; “O Dia da Independência” 1 e 2 (1996 e 2016) “Stargate” (1994) dos quais já se anunciam sequelas, “Godzila” (1998) traz-nos agora este thriller psicológico de suspense bem urdido do confronto com um psicopata totalmente fora da realidade embora muito rico e poderoso e das suas taras de dominação humana e formatação de vontade aos seus tresloucados desígnios.
Cale Erendreich (David Tennant), o psicopata, consegue transmitir-nos a personagem fria, calculista, impiedosa, exibindo raiva e desapego contra o mundo enquanto se diverte com o sofrimento infligido por ele a outros apenas para seu prazer e desfrute da destruição de um ser humano, cuja maior falta, é não se enquadrar aos seus parâmetros doentios e não se submeter aos seus aleatórios desejos de dominação e poder absoluto.
Entre as tentativas de salvamento de Sean e os maldosos ataques de Cale para o aniquilar, depois de lhe preparar diferentes armadilhas, a história desenvolve-se em ritmo crescente de emoção, numa toada de ação e de surpresa, com diferentes twists que mantêm o espetador atento e interessado. Claro que cedo se percebo que Cale tem de ser castigado e a rapariga salva, mas o caminho para lá chegar não é evidente indo-se revelando ao longo dos 110 minutos de ação do filme que se vêm com agrado.
Oportunidade ainda para se apreciar o efeito da anunciada Internet das Coisas (do Inglês; Internet of Things “IoT”) numa casa moderna, completamente assistida por software de vigilância e de realização de tarefas, comandada remotamente através de uma App instalada num telemóvel normal. Ainda é apenas uma primeira amostra da tecnologia de robotização das nossas casas, mas já nos mostra algumas das suas “maravilhosas” possibilidades. História escorreita e filme com interesse, recomendo, se não for impressionável com algumas cenas mais gore.

Classificação: 6,5 numa escala de 10

11 de junho de 2018

Opinião – “A Cada Dia” de Michael Sucsy


Sinopse

Baseado no aclamado best-seller do New York Times escrito por David Levithan, “A Cada Dia” conta a história de Rhiannon, uma rapariga de 16 anos que se apaixona por uma misteriosa alma chamada “A”, que cada dia ocupa um corpo diferente. Sentido uma ligação ímpar, Rhiannon e “A” todos os dias se esforçam para se encontrarem, desconhecendo o quê ou quem o novo dia trará. Quanto mais os dois se apaixonam, mais a realidade de amar alguém que é uma pessoa diferente a cada 24 horas começa a pesar, deixando Rhiannon e “A” perante a decisão mais difícil que alguma vez tiveram de tomar.

Opinião por Artur Neves

Esta é mais uma história que se apresente como sendo… “para ver como era, se assim fosse como seria…”. É claro que esta frase não faz muito sentido, mas o filme também não, pelo que ao ser citada serve como preparação e aviso para o resto do texto que o leitor decidirá se pretende continuar a ler.
Almas… espíritos sem corpo como a sinopse refere, pertencem a outro género cinematográfico onde este filme definitivamente não se insere. Passado numa escola americana do segundo ciclo entre jovens púberes que convivem entre si com a naturalidade e a esperança inerentes à idade, exceto para Rhiannon, (Angourie Rice, Australiana de 17 anos) que se sente ligada à tal alma nómada designada por “A”, que todos os dias ocupa um corpo diferente do qual expulsa por esse período o seu legítimo proprietário.
Depois de feitas as apresentações, (diariamente Rhiannon tem de encontrar e reconhecer “A” num novo corpo com um novo e diferente rosto) lá seguem as duas… ou “A” e ela… para o desfrute do resto do dia perfeito em sintonia de desejos, gentilezas, quereres e pensamentos coincidentes sobre a existência, sobre o futuro e sobre a vida até às 23h:59min (qual Cinderela dos tempos modernos) para no dia seguinte voltarem à mesma saga repetida naquele dia.
Embora “A” seja sempre o mesmo espírito, todos os dias o assunto em discussão vai divergindo para os diferentes aspetos afetivos, sociais e em relação aos outros, que uma relação como aquela pode propiciar, abordando-se assim diferentes vertentes do crescimento, da maturação do carater dos diferentes jovens postos em presença, premissa esta que pode resultar bem em romance (não duvido do sucesso do New York Times) mas que em filme carece da componente descritiva que o formato não comporta, tornando-se portanto repetitivo, déjà vu, expectante sobre o resultado e com pouco interesse como espetáculo, embora se possa aproveitar como válida a conclusão final veiculada na história.
Michael Sucsy, realizador americano nascido em 1973, já assinou um trabalho do tipo drama, romance, “Prometo Amar-te” de 2012 de pendor algo romântico e outros trabalhos de género diferente como assistente de realização e argumentista, tendo mesmo ganhado um Emmy como argumentista. Ao dedicar-se a esta tarefa, presumo que deve ter avaliado a qualidade do romance que a suporta, mas que todavia em linguagem cinematográfica não funciona como o blockbuster equivalente ao best-seller a que chegou o livro.

Classificação: 4 numa escala de 10

8 de junho de 2018

Opinião - "A extraordinária viagem do Faquir" de Ken Scott


Sinopse:
Um jovem indiano cumpre finalmente o seu desejo de visitar a cidade de Paris, onde conhece a bela Marie. Contudo, a sua suposta simples viagem torna-se numa aventura que o vai levar aos quatro cantos do Mundo, começando no momento em que fica preso num armário do IKEA.

Opinião por Inês Carrasqueira:
Gostavas de conhecer um pouca da Índia sem te levantares do sofá? E que tal conheceres as cores e sons não só indianos mas também franceses, no espaço de uma hora e meia? 
Agora já é possível, através do filme “A extraordinária viagem do Faquir”, realizado por Ken Scott. Ou, para quem prefere primeiro as palavras às imagens, podem também ler “A extraordinária viagem do Faquir que ficou preso num armário do IKEA”, escriro por Romain Puértolas, inspiração para este filme. O adjetivo extraordinário é aplicado ao nome do filme/livro, mas também a toda a história em si e mesmo à interpretação da personagem principal, Aja, interpretado por Dhanush, cara conhecida de muitos filmes indianos. 
Este filme conta a história de Aja, um jovem sonhador de Mumbai, Índia, que finalmente consegue fazer a sua tão desejada viagem a Paris. Contudo, chegado à cidade do amor, Aja fica preso num armário do IKEA e depara-se com uma aventura incrível que o vai levar aos quatro cantos do Mundo. Cada nova aventura ensina-lhe (e a nós também) uma nova lição e demonstra o valor das pessoas e dos sentimentos em detrimento dos bens materiais. 
Aja refere que Paris é a cidade onde o amor é mais forte e não apenas pelos seus monumentos, jardins, histórias ou romance mas sim devido a um campo eletromagnético na zona, cientificamente provado. Assim sendo, passa toda a sua aventura a querer regressar a Paris, onde conheceu a bela Marie, para provar que a sua teoria está correta. Será que consegue? Vejam e descubram! 
Eu, pessoalmente, adorei o filme por todas as boas vibrações que o mesmo me transmitiu. Não apenas pelas mensagens ou lições que estão nas entrelinhas mas também todas as imagens, sons e cores. Está tudo tão bem retratado que quase parece que sentimos os cheiros das especiarias ou das baguettes, o toque das sedas, o sabor do vinho francês, o rubor das feiras indianas. Claro que eu sou suspeita, não fosse a Índia um dos meus destinos de sonho e Paris uma das cidades que mais vezes visitei. 
“A extraordinária viagem do Faquir” é daqueles filmes que nos põe o pé a bater no chão e o sorriso na cara a maior parte do tempo. É daqueles filmes para ver e rever sem fartar. 


Classificação: 7.5 numa escala de 10

7 de junho de 2018

Opinião – “Á Deriva” de Baltasar Kormákur


Sinopse

Do realizador de “Evereste” e protagonizado por Shailene Woodley (A Culpa é das Estrelas, saga Divergente) e por Sam Claflin (Viver depois de Ti, saga Jogos da Fome),”À DERIVA”é baseado na inspiradora história verídica de dois espíritos livres cujo encontro fortuito os leva ao amor e, mais tarde, à aventura de uma vida.
Quando Tami Oldham (Woodley) e Richard Sharp (Claflin), dois ávidos velejadores, se aventuram numa viagem pelo oceano fora, não se apercebem que estão a dirigir-se para um dos mais catastróficos furacões alguma vez registados. Após a tempestade, Tami acorda encontrando Richard gravemente ferido e o seu barco destruído. Sem esperança num possível resgate, Tami terá de encontrar a força e determinação para se salvar a si e ao único homem que alguma vez amou.

Opinião por Artur Neves

Este filme revela de forma dramatizada os eventos efetivamente ocorridos no oceano Índico a um casal de velejadores apanhados pelo furacão Raymond que inesperadamente muda de direção e destrói a embarcação que os transporta, fere gravemente o homem que não resiste aos ferimentos e mostra a tenacidade do espírito humano contra os elementos quando a raiva e a solidão deixadas pela perda do ser amado é mais forte do que a insuficiência causada pelas nossas próprias feridas, fome, sede e carências imprescindíveis à sobrevivência.
Para esta história essencialmente simples, o realizador Islandês, Baltasar Kormákur apresenta-nos os factos de maneira inteligente e motivadora, começando o relato fílmico nos destroços do barco após o efeito do furacão, contando-nos em flashback as razões e o modo como se chegou aquela situação.
A história destes dois espíritos livres, do seu encontro em Taiti, da formação da sua ligação amorosa, das suas motivações e das razões que os levaram a empreender aquela viagem formam uma linha de eventos que se vai cruzar com o relato do naufrágio e das vicissitudes subsequentes, formando a partir daqui uma só descrição dos 44 dias em que andaram “Á Deriva” em mar aberto, ao fim dos quais, só ela chega a terra nas costas da Califórnia.
Com este expediente, Baltasar Kormákur que conta no curriculum com filmes de sucesso como “Evereste” de 2015 e “Dois Tiros” de 2013 mantem-nos despertos e atentos ao desenrolar dos acontecimentos, complementado por um bom lote de efeitos especiais de caracterização que com grande rigor e profissionalismo simulam a degradação dos corpos curtidos pelo sol, pela fraqueza física e pelo agreste ambiente marítimo.
“De caminho” o filme também aborda a motivação dos espíritos livres, pessoas que vivem á sua maneira, sem peias nem ligações sociais tal como as conhecemos, justificando embora sem muita profundidade as razões da sua rutura com os cânones sociais. Estamos pois em presença de um filme interessante, fundamentalmente desempenhado por apenas dois personagens, interagindo constantemente mas que não nos satura, apesar de ser somente o relato de um desastre marítimo. Tami Oldman (a verdadeira) depois de recuperada e até aos dias de hoje ainda continua a velejar pelos mares deste mundo para se sentir mais próxima do amor da sua vida.

Classificação: 6,5 numa escala de 10

Opinião – “Madame” de Amanda Sthers


Sinopse

Tentando dar nova vida a um matrimónio moribundo, Anne (Toni Collette) e Bob (Harvey Keitel), um casal americano rico e bem relacionado, mudam-se para uma mansão na romântica cidade de Paris. Enquanto prepara um luxuoso jantar para um grupo de amigos sofisticados, Anne descobre que há 13 convidados à mesa. Em pânico, insiste que a sua leal criada Maria (Rossy de Palma) se disfarce de uma misteriosa aristocrata espanhola para alterar o número agoirento. No entanto, demasiado vinho e conversas divertidas levam a que Maria capte, por acidente, as atenções de um dândi britânico e comerciante de arte (Michael Smiley). O seu romance vai levar Anne a perseguir a sua criada pelas ruas de Paris e, finalmente, a planear destruir esta entusiasmada união amorosa.

Opinião por Artur Neves

“Madame” conta-nos uma história passada entre diferentes níveis sociais no sentido da parábola romântica “o príncipe e a plebeia” que vai sendo comum nos nossos dias (veja-se o recente casamento ocorrido na família real Inglesa no mês passado) todavia com as necessárias reservas considerando que em “Madame” o “príncipe” corresponde a um tosco e petulante comerciante de arte e a plebeia corresponde à criada principal de uma família com pergaminhos, mas irremediavelmente falida, que ao pretender vender um quadro famoso, organiza aquela reunião gastronómica e usa a sua empregada principal como adorno, apenas para satisfação do desejo pueril, de conseguir um número conveniente de convidados sentados à mesma mesa.
Só que, a comida, o vinho e o ambiente geral do jantar servido cerimoniosamente, têm o condão de despoletar naquele ser até então despretensioso e humilde, a assunção do papel encomendado e o lampejo de evolução da sua condição servil, através da manifestação da sua opinião relativamente aos assuntos versados no jantar. Esse pormenor não escapa ao nosso “príncipe” que numa primeira fase a vê tal como a nobre personagem criada e publicitada pela anfitriã daquele jantar, gerando-se assim um equívoco social proporcional à entrega de cada um dos intervenientes.
Maria, (Rossy de Palma, atris fetiche de Pedro Almodôvar) embora surpreendida com o nível do pretendente, vive assim o seu sonho de amor idílico, sincero, completo, com o “príncipe” que numa primeira fase também lhe devota atenções e afetos adequados à pessoa que ele pensa ela ser, e a quem corteja. É óbvio que neste contexto, isto não pode acabar bem e aqui começam os problemas desta comédia dramática.
Amanda Sthers faz o pleno neste filme; escritora, argumentista e realizadora, tem o azar de não escolher os intérpretes mais adequados ou, pior ainda, de não os saber conduzir. Anne (Tonni Collette) normalmente sempre agradável de ver noutras representações, cria aqui um personagem demasiado frívolo e competitivo com quem não está à sua altura nem tem condições para tal. Bob (Harvey Keitel) ator experiente e de qualidade comprovada, encontra-se em roda livre neste papel parecendo um estranho em todo aquele imbróglio. Daqui pode concluir-se que Amanda Sthers teve nas mãos um diamante que não soube cortar e muito menos lapidar. Para Rossy de Palma, para o seu desempenho entusiasmado no início e sofrido na hora da desilusão, vão 70% da classificação a seguir atribuída.

Classificação: 6 numa escala de 10

5 de junho de 2018

Opinião – “EVA” de Bnoit Jaquot


Sinopse

Nada havia preparado o jovem e prometedor dramaturgo Bertrand (Gaspard Ulliel) para o seu encontro com a misteriosa e sedutora Eva (Isabel Huppert), que acabaria por se tornar uma obsessão compulsiva.
Este sensual thriller adaptado do romance britânico do mesmo nome da autoria de Hadley Chase é escrito e realizado pelo celebrado autor francês Benoit Jacquot e fez parte da seleção oficial em competição na última edição do Festival de Berlim.

Opinião por Artur Neves

Esta história tem a sua primeira apresentação em cinema em 1962, em versão P/B, pela mão de Joseph Losey, sendo estrelado por Jeanne Moreau e tendo constituído uma das suas boas interpretações. Desta vez, com Isabelle Huppert também não fica atrás, no desempenho de uma mulher, fria, calculista, organizada no seu trabalho de cortesã da classe alta, embora as suas motivações sejam muito mais nobres do que á partida se possa pensar. Aliás, o equívoco é parte fundamental do romance em que se baseia este filme, tal como da vida dos seus personagens e de todos nós na vida real, se não estivermos suficientemente atentos para o identificar.
Bertrand é na realidade um poço de equívocos e de contradições, na sua ocupação de gigolo arrependido e maldoso, na sua pretensão de escritor, embora falhado em inspiração e talento, para assumir o papel que acidentalmente usurpou de um seu eventual companheiro. Equivoco pelas portas abertas por um meio intelectual a que definitivamente não pertence por falta de condições intrínsecas. Equívoco pelo fascínio que sentiu por uma mulher inatingível, desprezando um amor real que ele nunca compreendeu nem soube corresponder mas que está determinado a abandonar por uma mulher que declaradamente lhe disse e mostrou com atos que não quer nada com ele, embora durante toda a história demonstre que sabe o que quer e pelo que luta.
Ao longo da história Eva vai-se revelando como realmente é. A prostituta preferida de um lote de homens velhos a que serve, e de quem se serve, para atingir os seus objetivos financeiros em benefício de um bem maior que é o seu verdadeiro e único amor da sua vida. Todavia, Eva é um ser cansado, que vive no seu recato sempre que pode, a quem a atividade profissional custa a desempenhar e lhe consome muitas energias que precisam ser compensadas com descansos regulares de sono prolongado que lhe propiciem um merecido apagamento.
Não obstante o real valor deste bem arquitetado romance, com todos os vetores de um thriller psicossexual em modo sensual, embora contido e com suspense, o filme parece não descolar de uma mediania monótona e previsível sem possibilidade de exibir o drama palpável que se desenvolve em segundo plano por todos os personagens, embora por motivos diferentes. Benoit Jacquot nunca nos consegue transmitir o clima de tensão crescentes em que os personagens evoluem com uma Eva discreta e sóbria e um Bertrand com um desempenho quase apático mesmo nas situações que o põem diretamente em causa e justificariam um comportamento mais expansivo e determinista. Apesar disso, são 102 minutos que não desiludem, sabem é a pouco!...

Classificação: 5 numa escala de 10

4 de junho de 2018

Opinião – “Táxi 5” de Franck Gastambide


Sinopse

Sylvain Marot (Franck Gastambide), superpolícia parisiense e motorista excecional, é transferido contra a sua vontade para a Polícia Municipal de Marselha.
O ex-comissário Gibert (Bernard Farcy), recém-eleito Presidente da Câmara da cidade, e mal cotado nas sondagens, confia-lhe a missão de parar o temível "Gang dos Italianos ", que roubam joias com o recurso a poderosos Ferraris.
No entanto, para conseguir isso, Marot terá de colaborar com o sobrinho do famoso Daniel, Eddy Maklouf (Malik Bentalha), o pior condutor de Marselha, mas o único a poder recuperar o lendário TAXI branco.

Opinião por Artur Neves

“Taxi 5” constitui a quarta sequela da saga “Taxi”, de origem francesa e sempre com o mesmo tema de diversão e comédia em ambiente descontraído onde campeiam polícias e ladrões, muita pancadaria, muitas corridas alucinantes (em cinema) de automóveis, muitos desastres mirabolantes cujo único objetivo é a pura diversão e o esquecimento das preocupações durante o tempo do visionamento considerando que após isso pouca coisa ficará do que foi visto.
O primeiro “Taxi” apareceu em 1998, ao que se seguiu “Taxi 2” em 2000, “Taxi 3” em 2003, “Táxi 4” em 2007 e quando menos se esperava eis que temos este “Táxi 5” em 2018, realizado por Franck Gastambide, nascido em França em 1978, que acumulou funções com o personagem principal do filme que também interpreta, em mais uma festa para os sentidos que podemos apreciar descansadamente pois nada daquilo é a sério ou nos toca.
Ao longo desta saga registe-se que as histórias têm acompanhado a evolução, tanto tecnológica como social que se verificou durante este tempo, com particular ênfase para a migração dos povos africanos, bem como para o veículo utilizado que embora sendo chamado de “Taxi” apresenta as inerentes atualizações de modelo e de prestações técnicas verificadas entretanto. Tal como nos outros filmes a cidade escolhida é Marselha que decorrente do seu multicuralismo é fácil estabelecer interação entre Árabes, Italianos, Gregos, e outros não europeus, bem como ainda, com os franceses, que se prestam aos mais variados trocadilhos e equívocos de tema e de contexto que justificam alguns bons gags que nos fazem sorrir e rir sem favor.
A história sumarizada na sinopse é o que é e tem como finalidade suportar as “buchas” de diálogo e os espetaculares acidentes, entre automóveis e entre pessoas sem que se torne pesado ou ofensivo sobre qualquer espécie, considerando a forma naïf como nos é contada e nos são apresentadas as cenas sobre o comportamento da Polícia Municipal de Marselha durante a investigação e captura da Máfia “fofinha” que perseguem ao longo de todo o filme.
Assim sendo caro leitor, se procura o alheamento das dificuldades reais do dia-a-dia através do desfrute de pura diversão, deixe-se levar por 102 minutos de uma história que só pretende transmitir-lhe boa disposição e divertimento. Recomendo.

Classificação: 5 numa escala de 10

24 de maio de 2018

Opinião – “Terminal” de Vaughn Stein


Sinopse

Dois assassinos de aluguel (Max Irons e Dexter Fletcher) embarcam uma missão suicída, encomendada por uma pessoa misteriosa. Até que surge uma mulher perigosa, Annie (Margot Robbie), que está mais envolvida nessa história do que aparenta.

Opinião por Artur Neves

Vaughn Stein, realizador e autor do argumento desta história não linear recheada de mistério, apresenta elevado ecletismo no seu curriculum cinematográfico como realizador que não o indiciaria á partida como autor completo deste filme que nos traz Annie, (e Bonnie) uma femme fatale interpretada em bom nível por Margot Robbie, atriz multifacetada de muitos recursos, atualmente muito requisitada no meio e nomeada nos Oscares de 2018 para melhor atriz no filme; “I Tonya”, embora não tendo conseguido a desejada estatueta.
A história de “Terminal” é muito simples e breve, a magia reside na forma como nos é contada num cenário de fantasia, onde uma mulher, ora sedutora, ora frágil, ora pérfida e misteriosa seduz as suas vítimas num terminal de comboios abandonado para cumprir uma vingança de sangue que só no final compreenderemos, se para tal tivermos a necessária paciência que o desenvolvimento da história requer.
A forma de contar apresentada neste filme tem semelhanças com “Sin City” de 2005, embora sem a banda desenhada que o caracterizou, apresentando diálogos bem definidos e cenas de acordo com esses mesmos diálogos criando ligações entre os personagens que o realizador deliberadamente esconde o seu verdadeiro sentido deixando ao espetador a possibilidade de criar a sua razão e fundamento para tais atitudes que não têm direta relação com o eixo da história, mas tão somente um artifício para uma vingança que quanto mais fria se servir melhor será o seu sabor.
O ambiente onde a acão decorre é sombrio e pejado de sombras, vultos, esquinas e recantos que conferem mistério pelo que ocultam em si mesmo, e menos pela sua necessidade figurativa e cénica, contrastando com outras de um brilho excessivo que literalmente nos cega pela habituação à escuridão geral. Tal como na iluminação é um filme de excessos visuais que se veem com curiosidade, suspense e alguma incredulidade por durante a maior parte do tempo andarmos em círculos em busca de um sentido. Todos os personagens são solitários e apresentam traços de uma solidão tão densa como a escuridão que os envolve.
Lenta e porfiadamente as “pontas” começam a ligar-se e então tudo será compreendido e justificado. É o tempo em que a história ganha contornos de conto infantil, embora “gore”, considerando o abandono a que as meninas foram votadas numa altura em que a infância precisa de carinho e cuidados maternos para medrar saudavelmente. Quando tal não acontece o resultado pode ser surpreendente e permanecer latente até à consumação da vingança. Não é um filme comum, contado na sequência normal dos eventos que reporta e nessa caraterística reside o seu maior interesse.

Classificação: 5 numa escala de 10

16 de maio de 2018

Opinião – “ANON” de Andrew Nicool


Sinopse

Sal Frieland (Clive Owen) é um polícia confrontado com uma série de assassinatos que parecem interligados. Como qualquer detetive, propõe-se a encontrar o assassino, mas no futuro próximo ele tem uma vantagem distinta: nesta sociedade, a vida de todos é registrada ao microssegundo e guardada numa rede chamada The Ether, não havendo espaço para o anonimato. Quando, durante a investigação, Frieland se cruza com uma jovem (Amanda Seyfried) que não está associada a qualquer identificação, encontra a primeira pista de que a segurança da The Ether foi comprometida, e que alguém conseguiu editar registros de vida e, assim, encobrir os crimes. Frieland entra assim numa missão para encontrar uma mulher que não existe e desmascarar uma conspiração que vai muito para além do esperado.

Opinião por Artur Neves

“ANON”… de ANÓNimo ou de ANONimato, conta-nos uma interessante história passada num futuro próximo, (considerando a exponencial evolução informática) em que todos os seres de uma cidade, de uma empresa, ficam ligados entre si através de implantes cerebrais que possibilitam a visualização instantânea de todos os dados identificativos de cada individuo apenas pela proximidade entre eles e pelo acesso que essa proximidade reciprocamente confere à rede neuronal de controlo centralizado nas autoridades que os “conhecem” a todos.
Numa sociedade com estas características a privacidade não existe e o sigilo individual é uma metáfora. O problema surge quando na visualização com alguém com que nos cruzamos não nos são oferecidos quaisquer dados sobre essa pessoa, o que indicia uma de duas coisas; avaria do sistema ou edição dos dados para alteração, substituindo-os por um conteúdo conveniente de acordo com as necessidades individuais, o que é estritamente reservado, constituindo uma grave violação da lei.
É pois neste ambiente futurista, incluindo a informação em tempo real sobre todas as nossas ações, que Andrew Nicool desenvolve um denso thriller policial de um detetive a tentar identificar o autor de um assassinato para o qual os elementos descritivos da sua ocorrência foram apagados da base de dados, criando com isso um novo crime e um criminoso mais letal na pele do hacker que conseguiu essa proeza. O sistema não pode permitir tal intrusão.
O filme desenrola-se num ambiente verde-escuro que contamina todas as outras cores, conferindo um secretismo grave e uma solidão a todos os intervenientes que se torna espessa e tangível em muitas situações criadas. A cidade é nua de vida como a conhecemos, organizada, severa em todos os pormenores de relação social e os personagens estão bem defendidos pelos atores a que foram confiados. Em todos os seus contactos os afetos foram banidos e a ausência de privacidade é um dado significativo da sua relação.
O realizador Neozelandês Andrew Nicool é experiente na criação de histórias “fora da caixa” tais como; “Gattaca” de 1997 sobre a procriação in vitro, “Sim0ne” de 2002 sobre a criação de uma pessoa digital, “O Senhor da Guerra” de 2005 sobre as questões morais associadas ao tráfico de armas, “Sem Tempo” de 2011, “Nómada” de 2013 e “Morte Limpa” de 2014 sobre o remorso dum piloto de drones na guerra do Afeganistão, talvez o seu filme menos criativo mas ainda assim surpreendente pala abordagem que nos apresenta. Por tudo isto, e pela perspetiva da sociedade que nos é apresentada, ANON é um filme a ver, recomendo.

Classificação: 8 numa escala de 10

4 de maio de 2018

Opinião – “O Meu Belo Sol Interior” de Claire Denis


Sinopse

Isabelle é uma artista parisiense, mãe divorciada, em busca do amor, o amor ideal por fim.

Opinião por Artur Neves

Isabelle (Juliette Binoche; em minha opinião, a Meryl Streep europeia no que concerne á qualidade de representação) apresenta-nos neste filme um personagem agitado, seguro dos seus objectivos de busca do amor e simultaneamente fraco e vacilante, embora por motivos diferentes, quando em presença dos desafios que ele mesmo procura e não consegue segurar por falta de enquadramento com as suas aspirações de pureza.
Esta atriz com 54 anos não receia as cenas de nu que a história implica, embora com um virtuosismo subtil, considerando que tudo o que nos é mostrado situa-se no âmbito do decoro e da decência que o cinema Francês de culto nos habituou, indiciando uma sensualidade moderada que remete para a normalidade duma intimidade privada, tornando assim essas cenas anti eróticas. Esta abordagem só acentua a candura da personagem nos momentos em que a acção se torna dolorosa pela brusquidão dos seus pares.
A realização é da responsabilidade de Claire Denis, francesa, nascida em 1946 em Paris e com provas dadas como o demonstram “Uma Mulher em África” de 2009 e “35 Shots de Rhum” de 2008, investe agora neste género intimista de exploração dos desejos íntimos de mulheres que não aceitam falhar na sua vida amorosa e se lançam na procura do amor, sem receios e falsos pudores, mas tão-somente apresentando-se despidas dos inerentes subterfúgios do seu género para captar o que lhes falta. Isabelle, porém não pertence a esse grupo e Claire Denis consegue transmitir-nos isso através dos mais inofensivos diálogos onde se esconde uma sombra de dor ou de genuína solidão que mantem o espetador igualmente inquieto durante todo o desenrolar da história motivando-lhe uma atenção de pormenor.
A história que nos é contada inspira-se vagamente na obra “Fragmentos de um discurso amoroso” de Roland Barthes e justifica a forma como Isabelle procura o amor duma forma mais analítica do que emocional, embora sofra o desajustamento do seu preferido em compreendê-la, aproxima este filme mais de uma reflexão literária sobre os meandros da escolha amorosa do que duma experiencia cinematográfica próxima da comédia romântica onde o filme pretende inserir-se.
Sem menosprezar todos os outros intervenientes o trunfo deste filme chama-se claramente Juliette Binoche que ao interpretar esta “Isabelle” confere-lhe uma autenticidade singular integrando em todos os seus comportamentos, falas e atitudes os conceitos de análise dos diferentes amores que nos são mostrados servindo para ilustrar questões abstractas de um modo muito concreto. O melhor exemplo desta afirmação é o dialogo de Isabella com uma amiga na casa-de-banho em que ela assume diferentes facetas do relacionamento actual passando do tom jocoso para um desespero choroso com a maestria de uma grande diva. A sua excelência performativa é significativamente digna de registo.
No final temos que reconhecer que não conhecemos Isabelle, como talvez nem ela se conheça a si própria, considerando as experiencias falhadas ao longo da história em que tudo o que vimos foi somente um intervalo fugaz e efémero na vida de uma mulher. Gostei e recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

22 de abril de 2018

Opinião – “Ilha dos Cães” de Wes Anderson


Sinopse

Ilha dos Cães conta a história de Atari, um miúdo de 12 anos sob a tutela de Kobayashi, o corrupto presidente da câmara.
Quando por decreto executivo, todos os animais de estimação caninos da cidade de Megasaki são exilados para uma vasta lixeira chamada Ilha do Lixo, Atari parte sozinho num turboélice miniatura e atravessa o rio à procura do seu cão de guarda Spots. Nessa ilha com a ajuda de uma matilha de rafeiros, começa uma jornada épica que irá decidir o destino e o futuro de toda a cidade.

Opinião por Artur Neves

Wesley Wales Anderson, realizador americano nascido em Huston no Texas, conhecido profissionalmente por Wes Anderson, tem-se dedicado nos seus filmes mais recentes a abordagens superficiais de algumas das fraquezas humanas, tal como em “O Grande Hotel Budapeste” de 2013, onde evidencia o luxo e a vaidade de uma certa classe social abastada e pueril, ou em “Moonrise Kingdom” de 2012, numa história de valorização da ingenuidade infantil, apresenta-nos agora de sua autoria um argumento e realização de uma lenda Japonesa demonstrativa do profundo apreço da cultura japonesa pelos animais domésticos em forma de animação no formato stop motion, uma fábula sobre tirania e despotismo de um governante que atenta contra as liberdades de uma parte da população.
A moral da história tanto se aplica ao nazismo de tão má memória na história recente europeia, como a todas as ditaduras que campeiam no mundo e muito particularmente na américa latina de que os USA são vizinhos. A história é forte não somente no aspeto da ditadura que evoca como na inibição do progresso científico e tecnológico que todos esperamos traga melhorias à condição de vida da humanidade.
Todavia esta bordagem apresentada por Wes Anderson é superficial, contém diálogos algo mordazes (traduzidos do japonês, segundo o autor) e uma tendência para o humor ligeiro imediato e breve, que não se coaduna com a essência da temática abordada pois não creio que possamos rir, ou sequer sorrir, com o estado de coisas que se vive na Venezuela, ou mais recentemente na Nicarágua onde regimes autocráticos submetem o povo aos desígnios dos seus benefícios exclusivos. Também não é crível que os campos de concentração nazis, durante a segunda guerra tenham algo de que se possa sorrir.
A história tem como personagens principais, cães, que devido a uma epidemia de gripe canina foram marginalizados numa ilha de lixo sem qualquer futuro, apoio ou tratamento que o ditador proíbe, apesar de a sua cura estar a ser estudada e desenvolvida. Os personagens caninos, através das suas expressões e comportamentos, não representam mais do que os espoliados humanos que sofreram os efeitos da descriminação a que foram sujeitos, mas com tanta ligeireza, desanuviamento e compreensão, quase que se pode pensar que o sofrimento não foi assim tão grande como o apregoam.
O realizador quando aborda um problema trata de seguida de o disfarçar para não tornar a revelação tão dura, todavia o filme tem o mérito de apresentar uma linguagem de animação pouco frequente que nos surpreende com a sua riqueza e complexidade de cenário, que na minha opinião não o salva da mediocridade.

Classificação: 4 numa escala de 10

18 de abril de 2018

Opinião – “Bullet Head – Ultimo Golpe” de Paul Solet


Sinopse

Três criminosos profissionais aceitam o que julgam ser o golpe da sua vida, mas quando chegam ao local do assalto, um remoto armazém, descobrem que caíram numa armadilha. Agora, cercados do lado de fora pela lei, apercebem-se que dentro do armazém uma ameaça maior os espera – um cão de ataque assassino que os irá obrigar a lutar pelas suas vidas.

Opinião por Artur Neves

Paul Solet, realizador e argumentista americano desde 2003, muito embora com experiencia anterior em cinema, apresenta-nos aqui uma fábula urbana sobre as ligações conturbadas entre humanos e animais, neste caso particular; cães usados em combates ilegais.
A história desenvolve-se em torno de três homens de faixas etárias significativamente diferentes, unidos pelo objetivo comum de se esconderem da polícia após um assalto realizado, com consequências trágicas para um quarto camarada que morre no início da história. O local escolhido é um armazém abandonado, que eles desconhecem possuir um ring de combate, utilizado por um gang organizado para corretagem de lutas clandestinas de cães, obtendo vantagem financeira das apostas dos donos dos contendores.
Durante a sua permanência no esconderijo eles vão trocando experiências e memórias do seu passado que nos dá a conhecer um pouco da personalidade de cada um deles e da sua relação com animais domésticos, nomeadamente cães. É neste local de espera e também de algum reencontro com as suas recordações mais fortes e objetivos futuros, que eles encontram “Blue”, um mastim de combate, ferido, muito maltratado mas ainda com capacidade física e suficiente ódio aos humanos que o utilizaram, para os perseguir e destroçar se eles não conseguirem ficar fora do alcance das suas mandíbulas.
É nesta fase que o filme nos começa a mostrar alguma ação, num jogo de fuga do perigo que os ameaça, em simultâneo com o reencontro das fragilidades e das ligações imprevistas que se formam, num caldo de empatia entre o homem e o cão que o persegue, prometendo-nos que apesar de toda a ignomínia alguns sentimentos nobres de humanidade ainda despertam.
Duma maneira geral estamos em presença de um filme que se desenrola num único local, embora ao longo de vários espaços, se trocam opiniões sobre a vida e sobre o passado de cada um, se perspetiva um futuro que não tem lugar para ocorrer, não por serem criminosos mas antes por cada um à sua maneira sentir ter chegado ao fim, independentemente dos reais motivos que os conduziram aquela situação.
A redenção e a lição de fábula, chega na parte final através de um twist que vem repor os termos como deveriam ser, indiciando que por mais profunda que seja a queda a esperança deve ser a ultima a abandonar-nos. Para uma rodagem num espaço interior a fotografia de Zoran Popovic é agradável, a montagem de Josh Ethier, utilizando flash backs, dá alguma animação à história, mas com estes atores esperar-se-ia um pouco mais, todavia o guião não lhes permite qualquer golpe de asa. Sabe a pouco!…
Classificação: 4,5 numa escala de 10

5 de abril de 2018

Opinião – “A Morte de Estaline” de Armando Iannucci


Sinopse

União Soviética, 1953. Após a morte de Josef Stalin (Adrian McLoughlin), o alto escalão do comité do Partido Comunista vê-se em momentos caóticos para decidir quem será o sucessor do líder soviético.

Opinião por Artur Neves

Numa altura em que a comunidade internacional condena a Rússia de Putin como responsável pelo atentado ao espião russo Skripal e sua filha, refugiados em Inglaterra, surge este filme, já proibido pelo Ministério da Cultura da Rússia através da suspensão da sua licença de exibição, sobre os últimos dias do ditador Josef Stalin, reconhecidamente como um dos líderes mais cruéis da história mundial recente, (em conjunto com Hitler) que ocupou o poder na Rússia entre 1922 e 1953, na sequência da Revolução Bolchevique de Outubro de 1917 que acabou com o Governo Provisório de cariz moderado que se seguiu à queda do poder imperial do czar Nicolau II, impondo o governo Socialista Soviético.
Os 31 anos de poder absoluto, autocrático e despótico de Josef Stalin não são de facto um período de que a Rússia se possa orgulhar, considerando o que o seu sucessor; Nikita Khruchshov revelou ao mundo, durante a realização do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética em 23 de Fevereiro de 1956, onde enumera a longa lista de atrocidades cometidas contra o povo pelo estalinismo, durante a sua ocupação do poder.
Armando Iannuci, Escocês de origem, realizador e coargumentista desta história, resolveu revisitar esta época através de uma abordagem crítica, com traços acentuadamente burlescos relatando os eventos ocorridos nos círculos próximos do ditador na sequência da sua inesperada morte em maio de 1953 e da luta pelo poder que se seguiu.
O resultado é este filme atrevido, ousado em todas as suas premissas, pormenorizado na identificação das personagens que são referenciados com o nome real das pessoas que representam, considerando que o secretismo do sistema e o nível de divulgação da época não permitiria o seu reconhecimento ao espetador normal, caraterizando-os ao pormenor das suas idiossincrasias e retratando-os nas suas funções e confrontos com os seus pares, entabulando intrigas, vinganças, e ódios de estimação que, pelo que sabemos hoje, não deve estar muito longe da realidade vivida naqueles anos.
A abordagem às relações entre pares do governo é feita em jeito de comédia de humor negro (doutra forma seria mais doloroso) evidenciando a total submissão de todos ao determinístico líder, sempre autoritário e desdenhoso mesmo nas questões mais comezinhas, e a total falta de ética dos seus mais próximos e despersonalizados colaboradores, (súbditos) totalmente incapazes de formularem alternativas, ou qualquer espécie de ação coordenada, quando subitamente confrontados com a sua inesperada falta.
Os diálogos estão bem concebidos, sempre proferidos segundo uma lógica jocosa que nos surpreende, diverte e nos faz pensar como foi possível tudo isto, descontando claro, o efeito de caricatura que o filme naturalmente exibe. Merece ser visto, recomendo.

Classificação: 6 numa escala de 10

29 de março de 2018

Opinião – “O Ultimo Retrato” de Stanley Tucci


Sinopse

De visita a Paris, em 1964, James Lord (Armie Hammer), um escritor americano e amante das artes, é convidado pelo reconhecido artista Alberto Giacometti (Geoffrey Rush) a pousar para um retrato. Giacometti assegura a Lord que o processo demorará apenas alguns dias. Lisonjeado e curioso, Lord concorda em posar. Assim começa não só a história de uma peculiar amizade, mas também uma exploração, através do olhar de Lord, sobre a beleza, frustração, profundidade e ocasional caos do processo artístico. “O Último Retrato” é o retrato de um génio e de uma amizade entre dois homens profundamente diferentes, que vão ficando cada vez mais próximos um do outro, através de um singular e sempre mutável ato de criatividade.

Opinião por Artur Neves

Alberto Giacometti destacou-se no século XX como um escultor procurado e apreciado nas suas obras que distorciam a forma do corpo humano, estendendo-a desproporcionadamente como se quisesse ilustrar a distorção da alma humana que ele identificava no seu modelo, sempre minuciosamente observado e condicionado na sua opção de pose para modelo da sua obra. Giacometti manipulava a superfície e a textura dos materiais, profundamente deformados na constituição da sua obra de arte como a personificação material da corrente existencialista da época e do seu principal mentor, Jean-Paul Sartre com quem ele mantinha uma relação filosófica muito chegada.
Cada obra não tem qualquer relação com a seguinte, impregnando-as de uma individualidade distintiva, acentuada pelas suas deformações particulares, perseguindo obcessivamente um contínuo aperfeiçoamento nunca alcançado, conduzindo mesmo à destruição do trabalho feito, para através de um novo recomeço tentar o aperfeiçoamento da sua representação.
É esta personalidade doentiamente genial que Stanley Tucci, ator conhecido por várias interpretações de relativo sucesso, veste aqui a pele de argumentista e diretor, com base no livro do escritor James Lord, que descreve os últimos tempos da vida conturbada e caótica de Giacometti, sendo a pedido deste que ele se transforma em modelo para um retrato, durante um tempo muito para lá do inicialmente anunciado pelo artista, mas que serve de catarse para ambas as personalidades em confronto que passam a conhecer-se mais intimamente do que inicialmente esperariam.
É óbvio que não é um tema fácil para passar a filme, considerando que incide num tempo particular da vida de Giacomtti, que embora querendo refletir um resumo da sua biografia esbarra no tempo e no espaço em que a ação (monotonamente) se desenrola, 19 dias particularmente arrastados, sem qualquer rasgo dramático, repetitivo nos gestos e lugares como a essência da obra de Giacometti.
Todo o filme é pastelão, lento e previsível, provocando alguns bocejos pela espera da novidade que não acontece, mas ainda assim, para os mais interessados, permite apreciar a construção do personagem de Giacometti por Geoffrey Rush que revela o excelente trabalho do ator que aceitou esta “empreitada”, bem como, de James Lord por Armie Hammer, depois da sua intensa e competente interpretação de Oliver no recentemente oscarizado filme; “Chama-me pelo teu Nome”, já comentado neste blogue.
Apesar de todas as fraquezas apontadas rever estes dois atores é um motivo suficiente para justificar o visionamento deste filme, que decorre quase em “piloto automático” como não se pretende que seja apanágio da indústria cinematográfica.

Classificação: 4 numa escala de 10

25 de março de 2018

Opinião – “Peter Rabbit” de Will Gluck


Sinopse

Peter Rabbit, o adorado personagem das histórias infantis, chega ao cinema numa irreverente e contemporânea comédia cheia de atitude.
A disputa entre Peter Rabbit e o Sr. Gregório (Domhnall Gleanson) pela horta aumenta quando ambos passam a rivalizar pela atenção da bondosa vizinha Bea (Rose Byrne). Peter, com a ajuda do seu primo Casimiro e das suas irmãs trigémeas Flopsi, Mopsi e Rabinho-de-Algodão, vão meter-se em divertidas aventuras.

Opinião por Artur Neves

A utilização da plácida figura do coelho bravo, destemido e sagaz, nas histórias infantis não é recente, nem única. Bugs Bunny, quiçá o mais famoso coelho do cinema, (e o mais produtivo do ponto de vista de receita de bilheteira) “nasceu” em 1938 pela mão de Leon Schlesinger da Warner bros. Cartoons e fez carreira em curtas-metragens incluídas na série Looney Tunes e Merrie Melodies ainda na lembrança de muitos leitores desta crónica.
Posteriormente conciliou-se o desenho animado com figuras humanas onde se atingiu um significativo ranking com o filme “Quem tramou Roger Rabbit” de 1988, com a parceria entre a Touchtone Pictures e Amblin Entertainment de Steven Spielberg numa história de filme noir passada em 1947 e tendo obtido um significativo sucesso.
Desta feita, no caso de “Peter Rabbit”, uma versão atualizada dos personagens clássicos de Beatrix Potter, temos uma fábula tradicional bucólica, de rivalidade entre a cidade e o campo onde uma família de coelhos, encabeçada por Peter, procuram obter a sua subsistência á custa da horta do vizinho McGregor, coronel reformado, que lhes dá renhida luta, sem contudo evitar a pilhagem da sua horta por Peter Rabbit e restante pandilha, protegida e acarinhada por Bea, a vizinha defensora da natureza.
Com a morte do velho McGregor, entra em cena o seu sobrinho herdeiro Thomas McGregor, que se vê obrigado a abandonar a cidade de Londres, onde faz carreira no Harrods mas que vê a sua vida transformada ao reconhecer os benefícios da vida no campo e ao sucumbir aos encantos de Bea, pintora de tempos livres e amante da natureza, para quem Thomas, igualmente deixa de ser um estranho da cidade.
O filme é realizado em formato live action / animação computacional, utilizando meios sofisticados que permitem conciliar a confrontação entre atores humanos e animais reais sendo estes posteriormente tratados digitalmente em todas as suas ações e diálogos assegurados por atores convidados que emprestam aos coelhos a sua voz e as suas emoções.
Inicialmente o primeiro trailer do filme não foi bem aceite pela crítica, por algumas cenas contrariarem o espírito da história de Beatrix Potter, mas o segundo, mais ameno e coerente com os valores da vida ao ar livre, deu início a uma carreira mundial que até agora já arrecadou cerca de US$150 milhões e se espera que continue na senda do sucesso. Compreende-se que pode não agradar a todos, mas tem de se reconhecer que em tempo de Páscoa, coelhos e ovos, (embora sem qualquer relação entre si) são adequados à quadra e como tal podem constituir um divertimento agradável para os mais pequenos em férias escolares.

Classificação: 5 numa escala de 10