13 de dezembro de 2018

Opinião – “Asiáticos Doidos e Ricos” de Jon M. Chu


Sinopse

Rachel Chu (Constance Wu) é uma professora de economia nos EUA e namora com Nick Young (Henry Golding) há algum tempo. Quando Nick convida Rachel para ir no casamento do melhor amigo, em Singapura, ele esquece de avisar à namorada que, como herdeiro de uma fortuna, ele é um dos solteiros mais cobiçados do local, colocando Rachel na mira de outras candidatas e da mãe de Nick, que desaprova o namoro.

Opinião por Artur Neves

No tema; comédia, romance, este é sem dúvida o melhor filme do ano. Porém, não se fica por aqui, pois apresenta um luxo e uma qualidade visual, quer na panorâmica urbana da cidade de Singapura, como no guarda-roupa e nos cenários onde decorre a acção que nos surpreende pela exibição explícita de riqueza neste mundo.
A República de Singapura, é uma cidade-Estado insular localizada na ponta sul da Península Malaia, no Sudeste Asiático, O país é o lar do maior número de famílias milionárias em dólares per capita do planeta. O Banco Mundial considera a cidade como o melhor lugar no mundo para se fazer negócios. O país tem o terceiro maior PIB per capita por paridade do poder de compra do mundo, tornando Singapura um dos países mais ricos do planeta e sendo seguramente a origem dos visitantes que mais frequentam as lojas da nossa Avenida da Liberdade, e que animam o comércio de luxo da cidade de Lisboa.
Quem nos apresenta esta visão do oriente é um realizador nascido nos USA em 1979, que em 2016 dirigiu; “Mestres da Ilusão II” e que agora, com uma história muito simples descrita na sinopse, nos mostra o berço dos ricos, as suas origens, ocupações e objectivos, numa história que para lá do amor e do romance, nos apresenta as raízes e o imobilismo cultural de um povo milenar que se prepara para tomar o mundo com ajuda do dragão Chinês que lentamente desperta da sua secular letargia.
O argumento é inteligente, conseguindo com uma história fácil mostrar uma cultura atávica, obediente a preconceitos em muitos sentidos, mas sem ser descortês ou faltar ao respeito pela sua vetusta idade e consegue isso com uma eficácia difícil de encontrar em filmes deste género. A história apresenta uma visão americanizada da cultura oriental, utilizando a crítica social para mostrar as diferenças sociais entre as culturas em presença, funcionando mais como homenagem ao passado histórico desta cultura milenar e constituindo uma referência formativa da maneira de estar deste povo.
O filme apresenta-nos festas luxuosas em ambientes incríveis em diferentes locais onde a loucura toma conta dos convidados num desatino de comida, bebida e de música. Todavia, constitui-se como um espectáculo agradável à vista e uma comédia divertida representante da cultura oriental mostrando ao longo dos seus 120 minutos, que com um elenco de atores Asiáticos, tem a presença de espírito e a lucidez necessária para nos mostrar como o oriente está a mudar mantendo a sua matriz cultural, adaptando-a aos novos tempos sem contudo a desvirtuar. Muito interessante, recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

6 de dezembro de 2018

Opinião – “Sei que Estás Aqui” de Scott Speer


Sinopse

Uma jovem desperta após nove anos em coma.
Durante este período, um evento apocalíptico matou milhões de pessoas e deixou o mundo habitado por pouquíssimas pessoas – um cenário de horror e escuridão.

Opinião por Artur Neves

E se, por causa de um evento desconhecido, resultante de uma falha num ensaio científico que matou um milhão de pessoas, esses mortos convivessem “alegremente” com os vivos, nas cidades, nas ruas, nas suas casas, embora sem qualquer interacção entre mortos e vivos mas apenas como uma visão etérea que se desfaz em fumo como resultado de qualquer eventual contacto.
Difícil de conceber não é?... pois é o que nos mostra esta história, com um cheirinho a “Crepúsculo”, baseada no romance de Daniel Waters que já deu origem a uma série televisiva nos USA; “Generation Dead” que em resumo, substitui zombies por vampiros e constrói romances entre adolescentes numa saga semelhante ao “Crepúsculo” que passou entre nós e que tão bons resultados de bilheteira alcançou.
Temos portanto aqui um thriller fantasia que conjuga um perfil gótico suave de cara bonita do personagem principal, Verónica Calder (Bella Thorne) com um adolescente meio desleixado, Kirk Lane (Richard Harmon) mas atento aos sinais que aquele estranho mundo emana, que o fazem inferir um perigo de morte latente contra Verónica, por estar sendo perseguida por um serial killer, vivo ou morto, representando um sério perigo que Kirk se ocupa em investigar para a proteger.
As cenas são apresentadas como sendo assuntos para adolescentes, até mesmo o professor Bittner (Dermot Mulroney) num misto de anjo demónio, como mais tarde se vem a revelar, tem diálogos descomprometidos, embora vagamente insinuantes com Verónica, mas sempre tudo em modo suave, sem medos nem surpresas e com ninfas flutuando num éter aquático como que de sereias se tratassem, provocando associações com ambientes de outras histórias também dedicadas á juventude. Tudo é calculadamente desenvolvido para embalar, para envolver espectador e personagens numa toada de fantasia um pouco desajustada ao ambiente de thriller tradicional.
Nenhum destes comportamentos conduzem á aceitação do argumento como algo verosímil ainda que remotamente. Em livro e para leitores que se deixem embalar por explicações pormenorizadas que lhes construam imagens mentais de sonho e fantasia, misturadas com alguma ação de crime e castigo, ainda é possível que funcione mas o cinema tem outra linguagem e pretende-se mais objetivo ainda que essa objetividade seja simulada e apenas válida para o ambiente criado.
Neste filme, tudo se perde e nada se transforma, constitui uma história falhada que nunca se define concretamente ao que vem. A classificação indicada a seguir vai para o que se pretende mostrar, para os meios envolvidos e para a dignidade da representação. Presumo que pretenda cativar uma população mais jovem mas mesmo nesse meio não sei se terá tido sucesso.

Classificação: 5 numa escala de 10

5 de dezembro de 2018

Opinião – “Colette” de Wash Westmoreland


Sinopse

Depois de se apaixonar e casar com o autor e editor Henry Gauthier-Villars (Dominic West), mais conhecido por “Willy”, Sidonie-Gabrielle Colette (Keira Knightley) troca o campo pelas ruas e salões artísticos da Paris do virar do século XIX.
Colette começa logo a trabalhar na editora de Henry, onde se torna um dos seus escritores fantasma.
Quando Colette publica a série “Claudine”, romance semiautobiográfico que definiria um novo tipo de arquétipo – o adolescente – a obra torna-se um sucesso e uma sensação cultural. Com isto, Willy e Colette tornam-se um casal celebridade da Belle Époque, mas a recusa de Willy em reconhecer a autoria de Colette leva ao fim do casamento de ambos.
Pela sua parte, Colette inicia uma série de relações com mulheres, uma das quais com Mathilde de Morny ou “Missy”, uma aristocrata que desafia os padrões da época.
Colette esforça-se por alcançar a sua liberdade e voz artística, vindo a tornar-se numa das figuras mais celebradas da literatura francesa, e escrito dezenas de obras, entre as quais Chéri (1920) e Gigi (1944), que viria a inspirar o filme de Vincente Minnelli e o musical da Broadway.
Colette seria nomeada para o Prémio Nobel da Literatura em 1948.

Opinião por Artur Neves

Através desta “biografia”, livre, de Colette, Wash Westmoreland, realizador Inglês que nos apresentou em 2014 um extraordinário documento sobre a doença de Alzheimer; “O Meu nome é Alce”, nomeado para os Oscares, brinda-nos agora com este filme, que para lá do objeto principal da vida de uma escritora, mostra-nos algo novo sobre a vida e a sociedade dos finais do século XIX e início do século XX transformando-o num retrato de época que é sempre agradável de ver quando é bem feito.
Sidonie-Gabrielle, uma menina de boas famílias do interior provincial francês, que namora em segredo dos pais o futuro marido, ruma a Paris depois do casamento e encontra um meio totalmente diferente do que ela estava habituada e conhecia. Nada se passa como ela pensou e sonhou, imbuída do espírito campestre em que cresceu e viveu até à idade adulta. Porém, não voltou as costas às circunstâncias e utilizando a velha máxima; “Se não podes vencê-los junta-te a eles”, depois de várias vicissitudes de percurso conjugal, adotou o nome de Colette e partiu para uma vida independente, cheia e de sucesso, provando que a emancipação feminina depende mais da iniciativa e da qualidade individual e menos dos decretos governamentais e das boas intenções de grupos mais ou menos encostados ao poder a viver à conta do orçamento. Continua a ser uma lição para os nossos dias.
Durante este percurso, é-nos apresentada a sociedade vigente, com as suas grandezas e misérias, desfazendo algumas ideias feitas de compostura, sobriedade, “educação” e bons costumes, para nos mostrar uma humanidade imperfeita, recheada de contrastes e de “erros” que somente agora começam a ser aceites como “normais”. Toda a caracterização de época está bem feita e é convincente. O filme acaba na altura do divórcio de Colette, o que lhe tira biografia, mas acrescenta-lhe os pormenores e a dimensão de uma personagem sensível á natureza e ao amor, que viveu o século XIX ao lado dos constrangimentos da época, não abdicando das suas pulsões e tendências naturais. Muito interessante.

Classificação: 7 numa escala de 10

28 de novembro de 2018

Opinião – “Um Desconhecido em Casa” de George Ratliff


Sinopse

Bryan e Cassie decidem alugar uma casa de campo no interior de Itália para passar um fim de semana romântico, numa última tentativa de reconciliação e de reatarem a sua relação. Mas os planos do casal serão afetados pelas intenções duvidosas do proprietário da casa que alugaram…

Opinião por Artur Neves

Este filme pode classificar-se como sendo um thriller psicológico e isso não teria qualquer relevância para além da qualidade do argumento, se não existisse um epílogo verdadeiramente perturbador apresentado nos últimos minutos que recentra toda a história na violação de privacidade, que aliás consiste em parte fundamental do argumento, mas que com este twist alarga o âmbito ao mundo da comunicação digital paga por contrato (pay TV) que é verosímil, real e pode neste momento estar a ser utilizado em alguma parte deste mundo a caminho da loucura completa.
O filme começa com a viagem dum casal para umas curtas férias no campo para recuperação da relação que se deteriorou por motivos que veremos depois e isso indicia-nos logo que a “coisa” não vai funcionar por semelhança com outros argumentos do género o que torna a história razoavelmente previsível. O ambiente é de facto sossegado, muito sossegado até, o que nos põe de alerta para o sangue que aí vem.
Dentro do género a realização de Ratliff, é competente e segura, utilizando um jogo de luz e sombra e espaços negativos para enquadrar os personagens que se perdem nos seus jogos de ternura e desespero sem contudo verificarem algum sucesso. Consegue transmitir-nos os pormenores de uma vivência constrangida entre ambos mostrando os detalhes ínfimos da infelicidade entre Bryan e Cassie (Emily Ratajkowski) que promovem os problemas que se irão seguir.
Bryan Palm (Aaron Paul) nunca se encontrou em todo o filme, encarnando um personagem hesitante e com dúvidas, que deve colidir com a personalidade do próprio ator, não transmite verossemelhança na representação. Já senti isto noutras interpretações deste ator. Contrariamente ao Federico (Riccardo Scamarcio) que tem um papel mais complicado entre o sinistro e o evasivo mas não dececiona, esperando-se dele em todo o filme uma explosão de violência que não aparece, constituindo assim um personagem particularmente perturbador e transmitindo um medo velado em quase todas as cenas onde aparece.
É compreensível a evolução deste tipo de filmes para o novo género em presença, considerando o terrorismo e a insegurança transmitida pelos atos conhecidos, que justifica a observação sistemática de todos e de cada um nos seus atos quotidianos, onde todos somos observados 24 horas por dia, 7 dias por semana e as imagens resultantes processadas para análise futura. Este comportamento e a facilidades de obter bons resultados com a atual tecnologia serve igualmente os observadores tóxicos na sua obsessão compulsiva de violação da privacidade alheia para com isso obter proventos ou vantagens, tornando isso o terror dos nossos dias. A miniaturização dos componentes, câmaras, microfones, permitem a sua dissimulação nos mais variados lugares e a internet faz o resto, permitindo a divulgação imediata das imagens tornando o mundo num enorme reality show. O problema reside em assimilarmos isso como um “novo normal”, ao que anteriormente considerava-mos como paranóia, convictos de que nada disso representa consequências reais. Interessante!...

Classificação: 6 numa escala de 10

26 de novembro de 2018

Opinião – “Depois de Tudo” de Hannah Marks, Joey Power


Sinopse

Elliott (Jeremy Allen White), um jovem de 23 anos de Nova Iorque, leva uma vida selvagem e inconsequente. Enquanto trabalha numa loja de sanduiches, projeta a próxima app de sucesso.
Após um encontro inesperado o deixar apaixonado pela enigmática e introvertida Mia (Maika Monroe), Elliott é diagnosticado com uma doença rara e potencialmente mortal. Isso leva-o a repensar a sua atitude despreocupada.
Com um sentido de urgência, Elliott e Mia apaixonam-se, apesar das dúvidas de família e amigos.
Um romance único, que conjuga drama sincero com comédia não convencional, DEPOIS DE TUDO revela como as maiores dificuldades da vida podem levar a uma surpreendente felicidade.

Opinião por Artur Neves

Temos aqui uma história de vida, quase tal como ela se apresenta atualmente; descomprometida, falível, cheia de surpresas boas e más, de felicidade e sofrimento que fazem a diferença na formação e no crescimento das pessoas, que pelos mais diferentes motivos, foram entregues a si mesmas nesta dura realidade que é crescer e viver.
É uma história muito linear que se conta neste filme embora com um drama subjacente, carregado pele inexperiência dos dois intervenientes. A expectativa da morte fá-los queimar etapas e precipitarem-se para um desfecho que só posteriormente avaliarão a sua dimensão. A vida urge e para a realizar assumem um desafio maior que eles, porque foi tomado numa situação de medo e fraqueza por um e por ignorância apaixonada pelo outro, porque não podem saber o quanto difícil será resistir e acompanhar uma doença implacável que os porá à prova enquanto durar e continuará a deixar marcas na relação mesmo que haja sucesso de cura, porque ninguém se conhece suficientemente nem consegue avaliar com justiça as atitudes do outro para inferir as suas razões mais profundas.
A história está bem contada, sem descrições supérfluas mas com todos os pormenores que precisamos saber, bem fundamentados, bem como, conseguindo elaborar uma ilustração competente das relações interpessoais num mundo em que a comunicação depende de uma aparelho que se tornou pessoal e intransmissível, embora possa ser desatendido e ignorado por vontade individual.
Hannah Marks, Joey Power, que juntos assumem a realização e a escrita do argumento, mostram-nos personagens imperfeitos, reais, tal qual nós, com todas as nossas grandezas e misérias, que nos surpreendem pela sua bonomia, pela sua liberdade espiritual, apresentando-se sempre agradáveis, mesmo nos momentos de desavença, imprimindo ao filme uma sequência de eventos rápida mas segura e convicta. Os familiares de ambos os lados são aqui os personagens mais ríspidos mas ainda assim, compreensivos e apoiantes entre duas passas de erva, dita “medicinal”, que é usada para compensar todas as frustrações insuportáveis da vida. Os amigos, colegas de quarto do casal, apresentam uma displicência de relacionamento embora sem qualquer intromissão, para o bem e para o mal, nos problemas deles. Os amigos também têm os seus próprios problemas e procuram viver com isso.
Só quando a urgência se dissipa e quando cada um pode olhar para si e descobrir o que de facto pretende, quando cada minuto não é absorvido pela angústia da cura que tarda em chegar, é que se perguntam sobre o tipo de futuro que poderão ter juntos, mas ainda assim conseguem ser simpáticos e minimamente corretos. Um filme muito interessante!...

Classificação: 6 numa escala de 10

23 de novembro de 2018

Opinião – “Parque Mayer” de António Pedro-Vasconcelos


Sinopse

Lisboa, 1933. Deolinda, uma jovem da província que tem o sonho de ser artista no Parque Mayer, apresenta-se num casting para coristas para a nova revista no teatro Maria Vitória. Durante os ensaios, apaixona-se por Mário, o encenador, mas este está fascinado por Eduardo, a estrela da revista que, por sua vez, tenta seduzir Deolinda… Ao mesmo tempo o Estado Novo começa a apertar o cerco e a liberdade está cada vez mais limitada… Uma homenagem divertida e emocionante ao teatro de revista e a todos os que no Parque Mayer lutaram pela Liberdade.

Opinião por Artur Neves

Pode dizer-se que se trata de um filme de época!… Recente, obviamente e bem próxima de muitos dos leitores desta crónica. Tem como virtude o revivalismo de um estilo de representação que fez escola em Portugal; o teatro de revista que com todas as virtudes e defeitos que lhes atribuem, constitui um meio de diversão popular, generalizadamente bem aceite e que serviu durante muitos anos como arauto e divulgador de uma certa crítica social e política impossível de outra maneira e fortemente punível pela polícia política de então. Por muito que não se aprecie o género, deve-se a este teatro uma forma de resistência que constituiu durante muitos anos o único meio de denúncia da ditadura em Portugal, á custa do risco e da segurança dos próprios intervenientes.
António-Pedro Vasconcelos, o decano dos realizadores portugueses atuais presta assim homenagem a um género de espectáculo que para além do “glamour” inerente ao espectáculo em si mesmo, suporta-se de uma intriga amorosa triptica, através da paixão da corista pelo encenador que por sua vez se apaixona pelo ator principal, conferindo assim um refrescamento nos “segredos” da época, pois a homossexualidade latente não é exclusivo dos tempos modernos e sim ancestral como a própria humanidade.
Os ambientes estão bem recriados, assim como os personagens representados no filme, para quem como eu os conheceu no seu tempo e os reconhece agora numa atmosfera credível e autentica do meio artístico do género.
Com atores novos e outros pertencentes ao meio, estão lá todos tipificados, os atores de revista, os que servem a história do filme e os figurões que apimentam a história tal como no tempo em que o Parque Mayer era um polo incontornável de diversão e convívio, sem esquecer o “tirinho ao prato” para ganhar um boneco sem valor real. Para muitos será um filme revivalista, para outros a apresentação de uma memória que os enriquecerá com a informação fornecida. Diverte, está bem feito, recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

21 de novembro de 2018

Opinião – “Vox Lux” de Brady Corbet


Sinopse

Ainda adolescente, a jovem Celeste transforma-se numa estrela pop de sucesso com a ajuda da sua irmã (Stacy Martin) e de um produtor talentoso (Jude Law). Contudo, é na sequência de uma tragédia nacional que Celeste se torna num novo tipo de celebridade: um ídolo americano, uma divindade secular e uma superestrela global.
Passados 18 anos, Celeste (Natalie Portman) prepara o regresso à ribalta depois de um escândalo ter descarrilado a sua carreira. Durante a digressão de promoção do seu sexto álbum, VOX LUX, a inimitável e irreverente estrela pop terá de superar problemas pessoais e familiares, navegar as águas incertas da maternidade, da loucura e da fama.
Com canções compostas pela cantora e compositora australiana Sia, VOX LUX é realizado por Brady Corbet, que foca em Celeste o fenómeno da criação de símbolos, do culto da celebridade e da máquina dos media por detrás deles, ao mesmo tempo que examina a natureza da celebridade e das forças que nos moldam enquanto indivíduos, nações e deuses.

Opinião por Artur Neves

Vox Lux aparenta ser uma história de quem está de costas voltadas para a música pop, que a detesta, que só lhe encontra defeitos bem como a todos os seus principais intervenientes, mas eu penso que há mais mundo para lá do que se possa interpretar a priori do conteúdo desta história. De alguma maneira este filme reporta as transformações mais significativamente sentidas no novo milénio, (não é por acaso que o filme começa em 1999) usando para isso a metáfora de um meio mais sujeito a mudanças arbitrárias, a gostos e tendências avulsas que o caracterizam mas que também o podem desqualificar quando mostrado na sua vertente mais degradante.
O mundo mudou com a viragem do milénio. Fenómeno semelhante terá acontecido no início dos “anos loucos de 1900” e o que Brady Corbet nos trás é uma fábula visual, dura, mas recheada de excelentes interpretações dum dos meios de comunicação mais largamente difundidos e apreciados em diferentes vertentes como é a musica pop.
A história é narrada de forma sóbria pela voz grave e colocada de Willem Defoe que nos faz atentar para as suas motivações que nunca podem significar qualquer grau de ceticismo formal, considerando que se apresentam músicas e temas sólidos ao estilo de Sia, que é também responsável pela composição de alguns temas além de participar na produção. Toda a história é-nos apresentada provocando a sedução e o reconhecimento valorativo dos produtos pop, embora nos mostre as suas grandezas e misérias, sem qualquer pudor, como aliás é intrínseco em todas as realizações humanas.
Natalie Portman, que só veremos a partir de metade do filme, está fabulosa no seu desempenho de Celeste quando adulta, mostrando a evolução da Celeste que conhecemos menina mas exteriorizando a mesma fragilidade e insegurança embora mascarada com os aditivos e o álcool que lhe permitem suportar a pressão da vida corrente e a tensão da vida passada da qual nunca se libertou. O colar de tecido escondendo o pescoço todo o tempo é disso evidência e memória.
Jude Law é o manager que ninguém quer ter mas de que precisa naquele meio em que a antecipação, a previsão e a planificação, mas também o companheirismo são fundamentais e determinantes para a diferença entre uma carreira de sucesso e as outras. A história completa-se com o apoteótico e espetáculo final, com um toque apocalítico, que nos mostra todo poder do showbiz e a simbiose deste com o público que idolatra os seus ídolos. Muito interessante.

Classificação: 7 numa escala de 10

16 de novembro de 2018

Opinião – “A Vingança de Lizzie Borden” de Craig William Macneill


Sinopse

“A Vingança de Lizzie Borden” é um thriller psicológico baseado no infame assassinato à machadada da família Borden, em Fall River, no Massachusetts. O filme explora a vida de Lizzie Borden, concentrando-se no período até aos homicídios e ao seu rescaldo imediato; e revela várias camadas da mulher estranha e frágil que foi acusada deste crime atroz.
Mulher solteira com 32 anos e socialmente inadaptada, Lizzie (Chloë Sevigny) leva uma vida claustrofóbica sob o jugo frio e dominador do pai. Quando Bridget Sullivan (Kristen Stewart), uma jovem empregada, vem trabalhar para a família, Lizze encontra nela uma alma gémea e compreensiva, bem como uma oportunidade de intimidade que se transforma num plano malvado e num desfecho sombrio e perturbador.

Opinião por Artur Neves

Para os menos avisados informo que só no fim sabemos que se trata da representação de um caso real através da informação da situação actual de Lizzie Borden e de Bridget Sullivan, pois como thriller psicológico que é não seria novidade se se tratasse de uma ficção, mas não. Esta história aconteceu mesmo, numa pequena cidade do Massachusetts, em 1892 e já serviu de argumento para o cinema em diferentes realizações através dos tempos, tais como em: 1975; 1983; 2004; 2013 e 2015, sendo as duas ultimas versões para a TV. Todavia esta actual versão está muito bem contada, através de personagens fortes e bem estruturadas que documentam com rigor de época os tempos em que aconteceram.
Lizzie é uma mulher castrada nos seus desejos e nos seus projetos, fruto da moral da época, em que o pai, embora frágil e desequilibrado, mantém subjugada à moral convencional em que acredita para manter a sua posição de destaque. O pai, viúvo da mãe de Lizzie, assume-se como o senhor da casa, dono de tudo e de todos, incluindo de uma segunda mulher que ele não considera como legítima, embora a mantenha como a senhora da casa sem contudo lhe conferir os inerentes privilégios e apenas para representar um papel de acordo com os cânones da época que ele, a todo o custo não quer divergir.
A expressão mais clara da sua fraqueza intrínseca é a sua submissão ao escroque do tio de Lizzie, um negociante falhado em todos os negócios onde se intrometeu, mas que o pai de Lizzie ouve e segue sem reservas, contra o parecer desta que não o suporta por o conhecer suficientemente. A chegada da nova criada Bridget, vem alterar a dinâmica da casa e formular uma promessa de felicidade que Lizzie nunca antes vislumbrara.
É pois este o ambiente “normal” da casa senhorial dos abastados Borden que desencadeia o brutal assassínio do pai e da madrasta, num ato de desespero louco mas premeditado, á machadada, desferida com determinação por Lizzie, uma mulher sofrida e humilhada durante muitos anos. O realizador consegue dar-nos assim um relato tenso dos factos, não tanto pela exibição dos mesmos mas antes, pela repulsa, pelo pavor, pelos sinais que nos levam a intuir o drama que está para acontecer, oferecendo-nos um thriller raro, cujo valor assenta nas meticulosas informações que nos levam a antecipar este sangrento desfecho. Muito interessante, recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

14 de novembro de 2018

Opinião – “High Life” de Claire Denis


Sinopse

Nos confins do espaço, muito além do nosso sistema solar, Monte (Robert Pattinson) e Willow, a sua filha pequena, vivem juntos a bordo de uma nave espacial, em isolamento total.
Monte, um homem solitário cuja severa autodisciplina é uma proteção contra o desejo – o seu e o de outros – tornou-se pai contra a sua vontade. O seu esperma foi usado para inseminar Boyse (Mia Goth), uma jovem que deu à luz Willow. Ambos eram membros de uma tripulação de prisioneiros: encarcerados espaciais, condenados à pena de morte. Usados como cobaias pela perversa Dra. Dibs (Juliette Binoche) são enviados numa missão ao buraco negro mais próximo da Terra.
Agora, somente Monte e Willow permanecem. Mas Monte não é o mesmo. Através da filha, e pela primeira vez, experimenta o nascimento de um amor avassalador. Pela sua parte, Willow cresce, tornando-se numa menina e depois numa jovem mulher. Juntos e sozinhos, pai e filha aproximam-se do seu destino final – o buraco negro onde o tempo e o espaço deixam de existir.

Opinião por Artur Neves

Tive uma surpresa ao constatar a novidade de um filme de ficção científica realizado por Claire Denis e de facto, após o visionamento, confirmaram-se as minhas piores suspeitas. Isto não corresponde a que não goste dos seus trabalhos, não de forma alguma, “O Meu belo Sol Interior” de 2017, já apreciado neste blogue, ou “35 Shots de Rum” de 2008, ou ainda “Beau Travail” de 1999 nunca apresentado em Portugal, atestam a sua qualidade como autora e merecem toda a minha admiração pelo seu trabalho.
A história que este “High Life” nos conta, tanto poderia ser passada numa ilha deserta, como numa cidade e o facto de ser reportado no espaço, a caminho de um buraco negro, não tem qualquer relevância para a experiência que declaradamente se pretendia realizar, sobre procriação humana com pessoas desqualificadas socialmente, condenadas à prisão por crimes anteriores que são usadas como cobaias por uma médica assassina dos filhos e do marido e auto mutilada, (os diálogos do filme reportam que a Dra. Dibs tem uma vagina de silicone) por razões que nunca saberemos. Por outro lado, a sua farta cabeleira de Rapunzel e a sua exuberante carnalidade, são características de um personagem interpretado por uma grande atriz.
Deste conjunto distópico resulta uma criança, filha de Monte, a quem a Dra, Dibs roubara esperma, literalmente, e fecunda uma das passageiras da nave para realizar a experiência de procriação no espaço exterior, cujos resultados são os esperados (como é óbvio) mas em que não existe qualquer coleta de dados para inferência de resultados e estabelecimento de conclusões, porque no final, com todos os tripulantes mortos e com a rota traçada para o buraco negro um fim inevitável de morte inglória, espera-os!...
Pergunto-me qual a razão deste exercício!... para ser um trabalho de ficção científica, não basta vestir aos atores um fato espacial do tipo, à prova de fogo, inclui-los numa nave com a forma de uma caixa de fósforos e mandá-los para um buraco negro enquanto durante a viagem eles fazem umas macacadas pseudo científico dramáticas, ou seja lá como lhes queiram chamar. Uma absoluta perda de tempo, todavia, é sempre um prazer ver Juliette Binoche atuar e para ela vai toda a classificação a seguir indicada.

Classificação: 4 numa escala de 10

13 de novembro de 2018

Opinião – “Silvio e os Outros” de Paolo Sorrentino


Sinopse

Viveu no nosso imaginário pelo poder do seu império de Media, a sua ascensão meteórica e a capacidade de sobreviver a reveses políticos e a processos judiciais. Encarnou, durante vinte anos e após a queda do comunismo, o laboratório da Europa e o triunfo absoluto do modelo liberal.
Entre o declínio e a intimidade impossível, Silvio Berlusconi simboliza uma era que se questiona, desesperada pelo seu vazio.

Opinião por Artur Neves

A história que este filme nos trás é a figura, a vida de Silvio Berlusconi durante o tempo em que este ocupou o poder em Itália como membro da direita tradicional representada pelo partido Forza Italia onde foi líder incontestado, tendo ocupado o cargo de Primeiro-ministro por três vezes, até à dissolução do mesmo, para a criação do Polo della Libertá que o levou de novo ao poder como Presidente do Conselho de Ministros em coligação com a Liga do Norte também de extrema-direita.
Todavia, Silvio Berlusconi ficará na história pelos negócios de sucesso, embora com fumos de corrupção por ligações á Máfia e fundamentalmente pela sua conduta truculenta, recheada de escândalos sexuais em que as festas Bunga-Bunga foram o expoente máximo da sua carreira política. É precisamente neste aspeto que o filme incide, no tráfico de mulheres bonitas forçadas a tronarem-se acompanhantes de luxo para toda uma corte em torno de Silvio, mostrando-nos um mundo decadente, manipulado por um oportunista provinciano de Taranto, que se desloca para Roma, em busca da oportunidade de chegar perto de Silvio (Lore no original) à custa da satisfação das suas necessidades.
Só que, Paolo Sorrentino, realizador e argumentista Italiano nascido em 1970, digno representante de uma certa forma Feliniana de contar histórias apresenta-nos estes factos, contando os factos em si mesmo, com uma sequência remota da verificação dos eventos. Isto mesmo é descrito logo nas primeiras imagens do filme em que o realizador adverte que o filme é como que uma “biografia livre” de Silvio Berlusconi, pelo que é conveniente ter conhecimento prévio de quem foi realmente este homem para se enquadrar os factos na história que nos é apresentada.
Paolo Sorrentino é um realizador com um pendor de execução barroco nas cenas dos seus filmes, procurando através de pormenores e de cenários luxuosos transmitir-nos a realidade para lá da justificação da sua ocorrência. Aliás, qualquer justificação não cabe neste filme sendo toda a história constituída por cenas que ilustram comportamentos, pensamentos e filosofias que seguem um ténue fio condutor que só sublinham os factos que nos são mostrados. Dos seus filmes anteriores destaco “A Grande Beleza” de 2013 que lhe valeu o Óscar para o melhor filme estrangeiro em 2014, onde tal como neste filme, nos mostra o seu grande amor por Roma, enaltecendo locais onde para ele deve ser um prazer estar.
Temos portanto aqui um filme exuberante de beleza, de grande miséria, de vício, sobre um político do nosso tempo que primou pelo exagero em muitas facetas da vida e da fortuna. Um homem que se considerava quase um Deus, um César, e que por esse facto concluía ter cumprido o seu destino e que todos deveriam venerá-lo por todas as suas realizações que tinham sido feitas em proveito deles. Gostei!...

Classificação: 7,5 numa escala de 10

8 de novembro de 2018

Opinião – “Widows” de Steve McQueen


Sinopse

Do galardoado ator Steve McQueen (Vencedor do Oscar com “12 Anos Escravo”) e da autora do best-seller “Em Parte Incerta” Gilian Flynn, chega-nos um thriller intenso com o pano de fundo do crime, paixão e corrupção. “Viuvas” conta a história de quatro mulheres sem nada em comum, exceto uma dívida deixada pelas atividades criminosas dos seus maridos falecidos. Em plena Ghicago, no meio do tumulto, as tensões aumentãm quando Verónica (Viola Davis), Alice (Elizabeth Debicki), Linda (Michelle Rodriguez) e Belle (Cynthia Erivo) assumem o destino nas suas próprias mãos e planeiam construir o seu futuro nos seus próprios termos. “Viuvas” é também protagonizado por Liam Neeson, Colin Farrell, Robert Duvall, Daniel Kaluuya, Lukas Haas e Brian Tyree Henry.

Opinião por Artur Neves

Goste-se ou não de Steve McQueen, é insofismável que ele deixa uma marca de relevo no cinema americano com temas fortes e personagens ricos em sofrimento e mortificação do corpo e do espírito. Em “Fome” de 2008, “Vergonha” de 2011 ou “12 Anos Escravo” de 2013, que lhe valeu o primeiro Oscar, McQueen apresento-nos sempre personagens que sofrem a fome, os seus vícios, ou a submissão por outros à escravatura da vontade e da liberdade. Em “Viúvas”, ele como que distribui por quatro mulheres o sentimento primário de medo, numa história de sofrimento, duro, violento mas revestido de um cinismo que nos agrada e em certas situações até se torna divertida.
Elas são todas pessoas de bem, os maridos é que nem tanto e quando a carrinha de Harry (Liam Neeson) é destruída numa forte explosão e com ela, os dois milhões de dólares que ele e os seus companheiros tinham roubado tudo muda para aquelas mulheres, que são responsabilizadas pela reposição do dinheiro pelos chefes do assalto, sendo confrontadas com situações imprevistas para elas até então. Verónica (Viola Davis) está soberba, como aliás já nos habituou noutras interpretações, no sofrimento, na dor, e nos momentos de memória do seu carinhoso marido antes do assalto.
Mas é necessário sair do impasse, urge encontrar uma solução para as ações punitivas do chefe do gang e se essa solução for tanto mais completa, que de alguma maneira ainda lhes assegure a independência, tanto melhor, e é aqui que entra a trama política e a chantagem com fotografias comprometedoras para obter o que pretende, que é tão-somente a liberdade do medo sentido nos últimos tempos.
Esta história apresenta elementos que seriam mais úteis e funcionais numa série de televisão, do que nos 129 minutos de duração do videograma, mas McQueem esbanja recursos e talentos em todos os personagens criados e nós só temos de agradecer.
O enredo está bem conseguido podendo ser tomado como exemplo, de como histórias de crime e de drama podem ser também divertidas, ao mesmo tempo que nos mostram que tudo depende de nós e da nossa capacidade de raciocínio nos momentos de tensão e desespero. Muito boas interpretações de todos os personagens femininos criados que bem podem ser chamadas de “Oceans Four” com mais propriedade do que as “Oceans Eight” recentemente apresentadas nas salas do país. Estas pelo menos têm razões de sobrevivências para atuarem, recomendo.

Classificação: 8 numa escala de 10

5 de novembro de 2018

Opinião – “A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha” de Fede Alvarez



Sinopse

Lisbeth Salander, a figura de culto e protagonista da aclamada série “Millenium” criada por Stieg Larsson, volta ao cinema com A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha, do recente best-seller mundial escrito por David Lagercrantz. A vencedora do Globo de Ouro Claire Foy, atriz em “The Crown” interpreta Lisbeth Salander sob a realização de Fede Alvarez, realizador do thriller “Nem Respires” de 2016; argumento adaptado por Steven Knight, Fede Alvarez e Jay Basu.

Opinião por Artur Neves

Stieg Larsson, jornalista sueco já falecido, autor da Trilogia “Millennium” já transposta para o cinema noutros tantos filmes que podem ser enquadrados no género thriller, destacaram o personagem de Lisbeth Salander, uma hacker de elevada competência (interpretado por Noomi Rapace, cujo notório desempenho a conduziu ao estrelato), foram como que “repescados” pelo escritor também sueco David Lagercrantz para continuar a anterior série de sucesso, donde resultou este 4º filme. Muito embora a história não tenha qualquer ligação com as histórias veiculadas na trilogia, exceto a personagem de Lisbeth e o seu amigo jornalista Mikael Blomqvist, que neste filme apresenta-se mais inepto do que nos mostrou na serie, o tema da violência sexual contra as mulheres continua a ser abordado, em linha portanto com o movimento #meToo.
A história que agora nos trazem é um thriller de suspense, rodado nas paisagens frias da Suécia, bem ao nível do anterior Mlennium, mostrando uma Lisbeth Salander (Claire Foy) bem ao nível punk da anterior, ornamentada de piercings, tatuagens e fatos negros, perfeitamente focada no seu objetivo de desmantelar uma organização sinistra chamada “The Spiders”, contratada por vilões que mais tarde saberemos, que pretendem obter o programa Firefall, capaz de assumir o controlo de todos os sistemas de defesa anti míssil em todo o mundo e fazer com eles o que muito bem entenderem.
Fede Alvarez, Uruguaio de nascimento, em 1978 e autor do recente filme; “Nem Respires” em 2016, utiliza aqui todos os seus talentos de bom construtor de ambientes sombrios para nos cativar neste filme tecnológico, com profusa utilização da Internet que todos conhecemos, mas levada ao extremo das suas potencialidades reais, incluindo a invasão ao computador de um agente americano da NSA que detinha o programa e que posteriormente parte em sua perseguição.
Para amenizar a história criou-se um drama familiar com a desaparecida irmã de Lisbeth na forma de uma rivalidade entre irmãos decorrente de um pai abusador, mas no geral não paira muita emoção por ali. Fede Alvarez projetou e realizou um competente filme de ação, pegou bem na atmosfera fria de Millennium, sempre em tons cinzentos azulados para acentuar a solidão dos espaços mas esqueceu-se de conferir espessura humana aos personagens que nos estimule alguma emoção diferente da tensão natural do filme de ação.
Todo o filme apresenta-se fluido e coerente, com meios técnicos de bom nível que nos mantêm a atenção e o interesse numa história de espionagem global com a segurança do mundo inteiro em jogo, embora lhe falte algo mais.

Classificação: 6 numa escala de 10

30 de outubro de 2018

Opinião – “O Quebra-Nozes e os Sete Reinos” de Lasse Hallström & Joe Johnston


Sinopse

Tudo o que Clara (Mackenzie Foy) quer é uma chave – uma chave única que irá desbloquear uma caixa que tem um presente inestimável. Um fio de ouro, que lhe foi dado na festa anual do seu padrinho, Drosselmeyer (Morgan Freeman), leva-a à tão cobiçada chave, que faz com que rapidamente desapareça para um paralelo e misterioso mundo. É lá que Clara encontra um soldado chamado Phillip (Jayden Fowora-Knight), um grupo de ratos e os regentes que governam os três Reinos: a Terra dos Flocos de Neve, a Terra das Flores e a Terra dos Doces. Clara e Phillip devem enfrentar o sinistro Quarto Reino, lar da tirana Mãe Ruiva (Helen Mirren), para recuperarem a chave de Clara e trazerem de voltar a harmonia a este mundo.

Opinião por Artur Neves

Esta é uma história de drama, fantasia e sóbrio humor contada numa grande produção a que a Disney já nos habituou. O argumento escrito por Ashleigh Powell e Tom McCarthy é baseado no conto de E.T.A. Hofman escrito em 1816; “O Quebra-nozes e o Rei dos Ratos”.
Esta história foi apresentada no teatro Mariinsky em São Petersburgo em 1892, acompanhada por um corpo de ballet ao som de uma suíte musical de 20 minutos composta por Tchaikovsky que fez carreira isolada da história que a justificou. Tendo ganho grande notoriedade a partir do final da década de 60, tem servido diferentes propósitos durante a época de Natal e “ilumina” este filme com a sua magia de sempre valorizando esta fantasia dedicada aos mais pequenos, embora não somente a eles.
A história é uma aventura de encantar, onde são utilizados grandes recursos cinematográficos em cenários, vistosos guarda-roupas, efeitos eletrónicos e de computador que nos fazem saborear cada minuto, dos 100, de duração do filme.
Quanto ao enredo da história nada mais há a dizer que a sinopse anterior não tenha revelado pelo que nos limitamos a citar o verdadeiro elenco de luxo que este filme contém e que ainda não foi mencionado, tal como; Keira Knightley como Sugar Plum Fairy, a Fada da Terra dos Flocos de Neve, Eugenio Derbez como a Flower Realm King, isto é, o Rei do Reino da Flor e reforçando a presença de Morgan Freeman como Drosselmeyer, o tio de Clara que inicia todo o processo de revelação que existe por de traz dos Sete Reinos.
É portanto um filme para toda a família viver uma grande aventura, bem apresentada, com uma história fácil de seguir, cujas personagens perdurarão no imaginário infantil para lá das luzes se acenderem no final.

Classificação: 6 numa escala de 10

Opinião – “Fahrenheit 11/9” de Michael Moore


Sinopse

Depois de apontar suas lentes para a era Bush em Fahrenheit 11 de Setembro, Michael Moore agora traz um olhar provocador sobre a eleição de Donald Trump e tenta responder como os Estados Unidos se colocaram nesta situação e o que podem fazer para mudar.
Fahrenheit 11/9 faz referência à data que o presidente se elegeu em 2016.

Opinião por Artur Neves

Neste documentário sobre a presidência de Donald Trump, cujo nome faz um trocadilho com a data do maior desastre da história americana, o ataque às torres gémeas, como que referindo que a sua eleição foi o segundo maior desastre, Michael Moore usa a sua conhecida habilidade para cruzar factos e eventos registados por ele ou divulgados pelos média, para nos mostrar verdades e razões que por vezes não entendemos como tal.
Todavia, e embora o filme conte duas histórias fortes contra a democracia americana que passaram despercebidas por cá, a saber; a crise da água envenenada com chumbo na cidade de Flint, promovida pelos negócios do governador do Michigan, Rick Snyder, com os amigos e a mobilização social dos professores nos USA, com interesse insofismável de divulgação, perde-se no tema inicial de apresentação de justificações para a eleição de Donald Trump, misturando assuntos que embora de reconhecida importância não podem ser diretamente relacionados com Trump.
Aliás, o caso de Flint serve igualmente para dar uma “bicada” nos democratas e particularmente em Obama que no auge da crise se deslocou a Flint e em vez de condenar o governador republicano e denunciar o veneno, pediu um copo com água, que afinal nem chega a beber, levando-a somente aos lábios numa descarada simulação. Acusa-o também de ter sido o presidente americano que mais dinheiro recebeu da Goldman Sach.
Sobre Trump, ele apresenta os comícios que anteciparam a eleição, onde destaca o lado manipulador e mentiroso do candidato, a sua personalidade truculenta, aflora superficialmente a influência de Putin e insinua uma relação manifestamente inquietante e perturbadora com a filha que nos pereceu algo exagerada. Por outro lado reúne diversas opiniões proferidas na campanha e em comícios que pretendem estabelecer um paralelo entre a ascensão de Trump e a de Hitler, esquecendo-se todavia que os tempos agora são outros e que os múltiplos organismos de controlo do poder da democracia americana são suficientemente eficientes para moderar o ímpeto do presidente, que apesar de tudo consegue cumprir os favores prometidos aos amigos, tais como, a desregulação de Wall Street e a redução de impostos aos mais ricos.
Neste filme, Moore propõe-se “atirar” em todas as direções, pelo que os democratas também são contemplados, acusando-os de contemporizarem demasiado com a direita, estabelecendo acordos e compromissos que ultrapassam o aceitável e que justificam em parte a viragem de voto em alguns estados tradicionalmente democratas. Bernie Sanders e Hillary Clinton também não são poupados, sendo-lhes apontados diversos erros na campanha que ajudaram à “festa” Trump.
Durante os 126 minutos do filme vemos a revelação de factos importantes mas com uma sequência e um discurso confusos que se dispersam entre assuntos diversos que não apresentam a clarividência demonstrada em “Bowling for Columbine” que lhe valeu um Oscar em 2003, ou “Capitalismo – Uma História de Amor” de 2009 sobre a crise do subprime. Apesar disso não deixa de ser um filme interessante sobre o mundo dos nossos dias.

Classificação: 5 numa escala de 10

26 de outubro de 2018

Opinião – “Bohemian Rhapsody” de Bryan Singer


Sinopse

Bohemian Rhapsody é uma celebração vincada da banda Queen, da sua música e do seu extraordinário vocalista Freddie Mercury, que desafiou os estereótipos e quebrou as convenções para se tornar um dos artistas mais amados do mundo. O filme conta a história por detrás da ascensão brutal da banda através das suas canções icónicas e sons revolucionários. Relata também a quase implosão da própria banda graças ao estilo de vida corrosivo de Mercury, e da sua reunião triunfante na véspera do Live Aid, onde Mercury, lutando contra uma doença mortal, guia a banda por uma das maiores atuações da história do rock. É durante este processo, cimentando o legado de uma banda que sempre foi uma família, que se continua a inspirar sonhadores e amantes da música até hoje.

Opinião por Artur Neves

Bohemian Rhapsody, a canção, é uma referência na história dos Queen desde o início do grupo da década de 70, tendo sido finalizada em 1975, muito embora já andasse na cabeça de Freddie Mercury desde os anos 60 e tivesse tomado a forma como foi apresentada no álbum da banda britânica “A Night in the Opera”, incluindo a participação de outros membros do grupo que nela colaboraram. Como tal, é compreensivo que o seu nome figure como ex-libris de um grupo tão significativamente famoso no mundo do hard rock ou Rock progressivo como também é denominado.
Assim, o biopic que nos é apresentado neste filme que conjuga a banda com o homem que melhor a representou, suportou e constituiu a sua essência, parece-nos estranho no corpo de Rami Malek que nos mostra apenas uma silhueta menor desse grande intérprete e criador que foi Freddie Mercury com uma vida emocional sombria e complexa. O que Malek nos apresenta é um desempenho superficial, embora nos consiga galvanizar em certas passagens de concertos, devido possivelmente a uma mistura digital da voz de Mercury e da música dos Queen, mas de qualquer modo falta-lhe substancia que credibilize a sua apresentação.
Todavia, Remi Malek (que está muito bem na personagem de Louis Dega em “Papillon”) não pode ser culpado disto, pois nem todos podem ter a extraordinária voz de Mercury, só que isso significa que não será ainda agora que conseguimos ter o verdadeiro biopic desta banda que em 1985, no concerto Live Aid, galvanizou uma enorme assistência constituída por quase dois milhões de pessoas. Ainda assim, esta é a melhor parte do filme, que nos permite ouvir as músicas intemporais dos Queen e concluir que eles, com a voz de Mercury, foram os maiores do seu tempo.
Bryan Singer, que foi substituído a três semanas do final da produção por Dexter Fletcher, não trata com realidade a sexualidade de Mercury. Ele assumiu frontalmente a sua homossexualidade, tendo tido diversos parceiros sexuais masculinos, dos quais o mais permanente foi Jim Hutton que o acompanhou até à morte em 1991, vítima do vírus da SIDA, mas o filme não assume francamente essa faceta deixando para o espetador a suspeita dos factos referindo-se a eles vaga e superficialmente.
Embora com falhas é um musical grandioso que merece atenção, vê-se com agrado e permite recriar momentos inesquecíveis. Recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10