3 de setembro de 2020

Opinião – “Roubaix, Misericórdia” de Arnaud Desplechin


Sinopse

Roubaix, uma noite de Natal. O comissário Daoud percorre a cidade que o viu crescer. Carros incendiados, altercações… Na esquadra, um novo elemento, Louis Coterelle, acaba de chegar. Daoud e Louis vão investigar a morte de uma idosa. Duas jovens mulheres, Claude e Marie, são interrogadas. Pobres, alcoólicas, amantes.

Opinião por Artur Neves

Este filme é cinema do Real, isto é, a história que nos é pormenorizadamente contada, aconteceu com todos os contornos que nos são apresentados no filme realizado por Arnaud Desplechin e representado por atores que interpretam os principais personagens de Claude (Léa Seydoux) e Marie (Sara Forestier), detidas para investigação de um crime ocorrido num bairro incluído na jurisdição da esquadra de Roubaix, sob a direção do comissário Daoud (Roschdy Zem).

Á semelhança do programa “Casos de Polícia” da SIC Notícias, Mosco Boucault, jornalista francês ao serviço do canal France 3, acompanhou durante o ano de 2002 uma equipa de detetives da esquadra de Roubaix, um bairro pobre de Paris habitado fundamentalmente por emigrantes magrebinos, uns legais outros ilegais, onde tomou contacto com este caso de assassínio de uma idosa, perpetrado por Stéphanie e Annie, que no filme são representadas por Claude e Marie anteriormente referidas, além de documentar com impressionante realismo a vida numa esquadra de subúrbios e os mistérios da alma humana.

As duas mulheres viviam na mesma casa, Stéphanie (Claude - Léa Seydoux) tem um filho que está institucionalizado e Annie (Marie - Sara Forestier) de sexo misto ou indefinido, nutre profundo amor carnal e forte dependência emocional por Stéphanie que por falta de melhores oportunidades se sente compelida a aceitar aquela situação que não revela a sua verdadeira tendência como mulher.

Para ambientar a história, o filme também contempla os casos de denúncia culposa de incêndio de um carro, para obter vantagens da seguradora, uma tentativa de roubo com violência, a fuga de casa dos pais de uma adolescente e uma violação, mas o “prato forte” documental centra-se nas duas mulheres, inicialmente confrontadas com um incendio num quintal próximo em que elas são interrogadas como testemunhas de acusação dos presumíveis autores por motivos criminais.

A descoberta do cadáver da senhora que habitava o apartamento contíguo ao delas volta a coloca-las sob os holofotes da polícia e desta vez, as suas declarações individuais revelam contradições de depoimento que nenhuma sabe explicar com razoabilidade. O comissário Daoud, profundamente conhecedor dos hábitos da população do bairro onde passou a infância e a juventude, começa a desconfiar dos seus depoimentos e aumenta a pressão sobre elas nos interrogatórios separados a Claude e Marie que começa a quebrar a sua resistência ao pacto de silêncio estabelecido entre as duas.

É aqui que o filme tem o seu ponto alto pela expressão do fardo de culpa do culpado que ao não aguentar a pressão da verdade que lhe é apontada, soçobra ao peso da sua culpa e começa a falar, primeiro vacilantemente e depois completamente revelador, do modo como cometeu o ato, de forma a aliviar todo o peso que já não suporta e para se sentir outra vez humano e em paz consigo mesmo. Depois dessa revelação está exausta e pede apenas que a deixem dormir.

Os interrogatórios continuam com todo o pormenor descritivo possível, primeiro na esquadra numa simulação com um boneco e depois numa reconstituição no local em que Annie reproduz sobre a cama da defunta o modo como pressionou o travesseiro sobre o rosto da vizinha, enquanto lhe apertava o pescoço e como pediu ajuda á sua namorada Stéphanie, que visivelmente mais consciente tenta atenuar as condições de realização do crime, embora revivendo no local todo o horror do ato praticado, entre duas cervejas e um cigarro fumado à pressa.

Toda a história contém uma realidade palpável, descrita minuciosamente num bairro com uma população carente mostrando uma polícia competente e conhecedora da humanidade que ainda assim existe sob a natureza destas duas criminosas, que coabitam com as misérias de uma sociedade arruinada pelo álcool, droga e pela ociosidade que lhes retira perspetivas de futuro. Este filme foi apresentado em competição oficial no festival de Cannes 2019, por somente agora ter sido autorizada a teatralização deste caso de 2002, após ter transitado em julgado. Muito bom, recomendo.

Classificação: 8 numa escala de 10

 

Opinião – “O 3º andar: Terror na rua Malasaña” de Albert Pintó


Sinopse

A família Olmedo abandona a sua aldeia, esperando que uma vida na cidade lhes traga mais prosperidade, e compra um apartamento no terceiro andar do número 32 da Rua Manuela Malasaña, em Madrid. Mas os Olmedo desconhecem que há mais uma presença no apartamento que adquiriram. Algo de cuja existência não se apercebem vai pôr em risco as suas vidas e eles vão ter de se defender. E se a coisa mais aterradora de uma vida na cidade não estiver lá fora... mas sim dentro da nossa casa?... Inspirado numa história real.

Opinião por Artur Neves

Já referi noutras crónicas, tenho apreciado o progresso do cinema espanhol, no sentido de se ter tornado mais maduro, mais consciente do seu papel de representativo divulgador do modo de estar da sociedade espanhola, como apoiante ou como crítico das suas atitudes em documentos que nos apresentam lições de vida a seguir ou a rejeitar.

No subgénero de cinema de suspense ou de terror, que tem os seus apreciadores particulares, também notei evolução na cinematografia espanhola, mas no caso presente parece que Albert Pintó reuniu uma coletânea de cenas tradicionais do género, tais como; sons, sombras, figuras fugitivas, possessões, seres deformados, levitações, exorcismos e toda mais uma série de outras caraterísticas que os efeitos especiais sabem potenciar e engendrou um argumento para ligar contínua e insistentemente as cenas coletadas.

Desde a primeira imagem até final, a história vai sucessivamente de acidente em acidente tentando provocar-nos o susto com a surpresa da sua aparição, cada uma mais dramática que a anterior até ao arremedo de exorcismo final não concretizado, porque o mal tem o poder de fazer desaparecer as letras da bíblia. Provavelmente para se eternizar e permitir uma sequela.

O mais confrangedor todavia, situa-se no facto da história não ser credível, as cenas preocupam-se somente em criar o susto gratuito, quer se verifique coerência ou não dos factos e das atitudes dos personagens em resposta aos mesmos, num completo desconchavo das sequências que nos vão sendo apresentadas, com a lógica remota de um espírito maligno habitar o 3º andar da rua Malasaña, algures em Madrid dos anos 70, sob o signo da inspiração numa história real.

Não duvido que naquela época e naquele meio social, no prédio antigo em que se situa aquele 3º andar, possa ter existido algum rumor de possessão espírita veiculado pelos moradores e vizinhos, todos eles trabalhadores em ocupações modestas. O que contesto é que a história seja contada à pressão dos eventos, em cenas risíveis de conteúdo e a resposta das personagens seja vaga ou até inexistente somente para permitir a continuada exaltação em crescendo dentro do tempo previsto para o videograma.

Num filme de terror “a sério” o medo deve ser insinuado subtilmente de forma a excitar os receios ou reservas do espectador nos seus próprios medos, que serão assim projetados nas cenas apresentadas provocando sentimentos de repulsa e negação, donde sairá a verdadeira ansiedade e a correspondente produção de adrenalina que o espectador fiel do género procura.

Nada disto se passa aqui, durante os 104 minutos deste equívoco que desde o início se percebe ao que vem. E é pena, porque a realização técnica do filme apresenta efeitos e recursos com potencial para contarem uma história decente.

Classificação: 4 numa escala de 10

1 de setembro de 2020

Opinião – “Regresso a Itália” de James D'Arcy


Sinopse

Robert (Liam Neeson) é um boémio artista londrino que regressa a Itália com o filho, Jack (Micheál Richardson), de quem se distanciara, com o objetivo de vender rapidamente a casa que herdaram da falecida mulher de Robert. Mas nenhum estava preparado para encontrar a outrora bela villa num estado de abandono total…

A cómica falta de competência de Robert para a bricolagem leva-o a procurar a ajuda de pitorescos habitantes locais, mas para Jack o estado da casa parece refletir a sua busca por memórias de tempos mais felizes com a sua mãe.

Enquanto Robert e Jack restauram meticulosamente a villa, começam também a reparar a sua relação. O futuro poderá ser bem diferente e surpreender ambos.

Opinião por Artur Neves

Este é um filme de memórias… dolorosas, algumas, ternas outras, mas durante todo o tempo a história sobrevoa um passado dos personagens, que se faz presente na direta medida do reconhecimento do tempo perdido ao terem encerrado o passado, como se isso fosse somente um mero resultado da vontade, da dor da recordação, ou da falta dela no caso de um deles.

James D'Arcy é um ator (em 2019 personificou Jarvis, o mordomo, em Vingadores: Endgame) que se estreia como realizador de uma longa metragem com este filme, numa história escrita por ele próprio e que tem a força emocional de um pai distante, que atende o seu filho que não vê há muito tempo, numa altura em que este precisa de dinheiro para realizar o seu sonho, que será conseguido à custa da venda da casa da família na Toscânia, abandonada desde o acidente fatal da mãe que desmembrou a relação.

Segundo as notas da produção, esta história não tem qualquer relação com a perda trágica da esposa real de Liam Neeson, em 2009, Natasha Richardson, mãe de Micheál, filho do casal, que adotou o apelido profissional de Richardson em homenagem à falecida atriz britânica tão importante na vida dos dois.

Todavia, não pode deixar de haver uma transferência de sentimentos, de memórias e de emoções, sentidos pelo ator de 68 anos e pelo seu filho de 25 ao interpretar uma história tão perto de uma realidade dolorosa, embora ocorrida noutro local, mas que assim confere honestidade e comoção a uma história simples na sua essência, que não seria vivida com tanta intensidade como o filme apresenta.

Tal como referido na sinopse tanto a casa na Toscânia, como a relação entre Robert e Jack já tiveram melhores dias, com entulho, pó, sujidade e destruição por todos os lados, sem falar na doninha que habita o que resta do armário e de um mural vermelho e negro que Robert pintou numa parede inteira, ao estilo de Jackson Pollock, para aplacar a sua fúria contra o infortúnio que o atingiu.

O plano todavia é vender a casa, Jack está à beira do divórcio e ficará sem meios de subsistência se não arranjar dinheiro para comprar a galeria de arte que dirige em Londres e que pertence à sua futura ex-mulher, portanto, embora ambos tendo pouco jeito para a bricolagem decidem por mãos à obra, com algumas ajudas extra, porque o objetivo é uma venda rápida.

Nesta situação em que a arte imita a vida, estão criadas as condições para uma catarse emocional que poderia ser mais profunda, mas que D'Arcy aborda superficialmente e polvilha de momentos de sensibilidade cómica entrelaçados com outros mais comoventes, chegando noutras alturas ao nível da farsa. Porém todo o filme é agradável e não se espere grandes surpresas das perspetivas que desde cedo são apontadas, nesta história que decorre num local de grande beleza natural, numa Itália rural com boa comida e gente boa. Representa um curto intervalo nas preocupações contra a covid-19. Recomendo.

Classificação: 6 numa escala de 10

27 de agosto de 2020

Opinião – “Radioativo” de Marjane Satrapi


 Sinopse

“Radioativo” dá-nos a conhecer o legado duradouro de Marie Curie (interpretada pela atriz nomeada para um Óscar® Rosamund Pike) – as suas relações apaixonadas, as descobertas científicas, e as consequências para ela e para o mundo. Depois de conhecer o cientista Pierre Curie (Sam Riley), os dois casam-se e mudam a ciência para sempre com a descoberta da radioatividade. A genialidade das descobertas dos esposos Curie, que mudam o mundo, e o Prémio Nobel que se segue, levam o casal à ribalta internacional.

Dos mesmo produtores de “A Hora mais Negra” e “Expiação”, a realizadora Marjane Satrapi (nomeada para um Óscar® com Persépolis) parte da novela gráfica de Lauren Redniss e apresenta um retrato visionário e ousado dos efeitos transformadores, das consequências do trabalho dos Curie e da forma como este moldou os momentos-chave do século XX.

Opinião por Artur Neves

“Radioativo” é um filme que nos mostra os benefícios e os malefícios da radiação gama, (γ) um tipo de radiação eletromagnética de alta frequência com elevado poder de penetração em todos os corpos, resultante do decaimento da evolução natural do plutónio na natureza, através duma abordagem autobiográfica aos seus descobridores, os esposos Pierre e Marie Curie na última década do século XIX.

Em 1903 essa descoberta e as suas múltiplas aplicações conferiu-lhes o mérito de serem distinguidos com o prémio Nobel que no discurso de aceitação de Pierre ele aludiu à imensa perigosidade das suas descobertas referindo em forma de pergunta; “se a humanidade se beneficia em conhecer os segredos da Natureza, se está pronta para lucrar com isso ou se esse conhecimento não será prejudicial para ela”. A resposta, como todos conhecemos, está no benefício da antecipação de diagnóstico propiciado pelo Raio X e no malefício do desastre de Chernobil, igualmente referido no filme, este porém, com causas políticas associadas à dimensão do desastre, para lá da perigosidade de utilização da energia atómica no grau de desenvolvimento atual.

Marjane Satrapi, realizadora Iraniana a viver nos USA faz uma abordagem inteligente do argumento começando com Marie Curie já consagrada e em plena atividade no laboratório sofrendo um desmaio que a levará ao hospital, cujo tempo de internamento lhe permitirá fazer o balanço da sua vida mostrando-nos toda a evolução do seu trabalho, estudos e vida familiar com Pierre Curie, do qual teve três filhas e uma vida de ativista em favor dos direitos das mulheres, da sua independência e autonomia face à sociedade patriarcal comum no século XIX decorrente da revolução industrial e posterior desenvolvimento.

Neste particular, a atriz Rosamund Pike no papel de Marie Curie é uma escolha vencedora considerando a sua teimosia, orgulho e perseverança demonstrados na construção de um personagem credível como cientista e controverso como esposa e mãe, pese embora as suas diferenças físicas com a verdadeira Marie Curie.

Pierre Curie (Sam Riley) era igualmente dado às ciências ocultas, contrariamente a Marie Curie que era fundamentalmente racional e pragmática. Essa tendência introduziu no círculo de conhecimentos familiares Loie Fuller (Drew Jacoby) uma mulher da nova era que criou em palco uma dança em que o intérprete vestia uma túnica branca esvoaçante iluminada por luzes mutantes de cores intensas. Fuller, tendo conhecimento do poder fosforescente do rádio, pediu-lhes um pouco para utilização numa fantasia. Pierre teria acedido se Marie não se opusesse determinadamente, antecipando os efeitos perniciosos da radiação continuada no corpo humano, dos quais Pierre e ela própria, viriam a falecer.

Satrapi soube construir um ambiente adstringente e simultaneamente sentimental de Marie, em que ela, sem abandonar o seu mundo e a sua atividade de investigadora, ama infinitamente o seu marido, resolve os seus diferendos individuais após a sua morte e cuida das suas filhas com o desvelo possível, embora sempre com muito amor. Todo o filme constrói uma visão alucinatória que ilustra o terror com que Marie encara as suas descobertas, que não têm a ver só com ela, mas com muitas outras vidas que ela pode condicionar, reforçando a mensagem de que: “a ciência é invariavelmente política e, nas mãos certas, pode ser uma força para o bem, mas nas erradas, uma arma do mal”. Muito interessante, recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

26 de agosto de 2020

Opinião – “Fojos” de Anabela Moreira e João Canijo


Sinopse

Castro Laboreiro, a terra mais a Norte de Portugal, é um lugar cujos montes terminam numa rua sem saída. Chamam-lhe o buraco do fim do mundo. Ali vivem lado a lado lobos e homens. Os lobos saem dos seus covis para atacarem livres as presas dos homens trancados nas suas tocas. Uns e outros armadilhados dentro do grande fojo que é a vida e de onde não se pode sair vivo.

Opinião por Artur Neves

Considerando a sinopse anterior e o poema inscrito no poster do filme (“Os homens são como o lobo,/Só lhes falta ter rabo,/Andam de dia e de noite,/Na figura do Diabo”), bem como que; “Fojo” é uma armadilha para captura de lobos, construída em pedra e representativa de uma manifestação cultural única a nível ibérico, da convivência nem sempre amistosa entre lobos e homens. Na minha genuína paixão cinéfila, sempre recetiva á desejada evolução do cinema português, pensei tratar-se de um documentário, sim mas, em que João Canijo, autor de algumas boas obras recentes, nos quisesse oferecer um drama na paisagem agreste do Alto Minho em que homens e lobos se comportassem uma vez como eles próprios e outra como o seu contrário, conjugando uma história documental sobre a dura vida das pessoas de Castro Laboreiro e Melgaço.

Mas não… mais uma vez as minhas expectativas foram goradas e o que temos aqui é um documentário puro e duro, do quotidiano quase primitivo (apesar da existência da Internet) das gentes de Melgaço, nas suas atividades de subsistência e manutenção da vida do dia a dia, apresentadas aleatoriamente, ou pelo menos segundo uma ordem de duvidosa referenciação.

O documentário não tem atores, é feito com as pessoas da terra nos seus afazeres normais de pastar os animais, matar os porcos e defumar os presuntos, bem como conservar a carne em sal. Todas as pessoas são indiferenciadas e reportadas ao mesmo nível sendo tão destacado o “Tiro”, um cão pastor, como a “tia Benite”, ou “Benitinha”, apoiada em duas canadianas sempre que se desloca ao centro de dia para executar uma ginástica mal guiada, ou ao posto médico para tratar dos seus múltiplos achaques.

A aldeia reportada tem muitas pessoas mas o filme não nos permite conhecer qualquer delas ou as relações entre elas, os seus dramas, ou o posicionamento social relativo daquelas que a realização achou por bem destacar com a abordagem dos seus problemas específicos. O abastecimento da dispensa dos habitantes é feito pela mercearia itinerante que pára em vários lugares e atende diferentes fregueses, com dificuldades pecuniárias também diferentes, mas tudo de uma forma tão plana, tão rasa, tão elementar que ficamos sempre à espera que o próximo assunto seja mais interessante.

A abordagem espiritual dos habitantes é feita através da apresentação de uma igreja frugal e de um funeral não se sabe de quem, apenas uma procissão atrás do féretro, vista de perto e de longe quando atravessa uma ponte. Mais interessante é a mostra de uma prática religiosa cigana, com o discurso do mentor num altar improvisado e as respostas pré estabelecidas dos fiéis na assembleia, num misto de reza e cântico aos sons de acordes de música cigana.

Dos fojos apenas um nos é mostrado e a uma distância segura. Dos lobos nem um vislumbre, exceto das carcaças despojadas de carne de caçadas antigas, dos homens que viram diabos, também nem uma réstia, até porque, na sociedade matriarcal que nos é apresentada, elas são sempre determinantes em tudo o que importa e neste filme tudo o que importa é apontar a objetiva para diferentes assuntos e deixar correr a gravação para ter assunto para a edição. Ora bolas… não pode ser sempre isto o cinema português.

Classificação: 3 numa escala de 10

18 de agosto de 2020

Opinião – “O Segredo – Atreve-te a Sonhar” de Andy Tennant

 Sinopse

“O Segredo – Atreve-te a Sonhar” conta a história de Miranda Wells (Katie Holmes), uma mulher muito trabalhadora, viúva, que luta para criar três filhos sozinha. Uma forte tempestade traz para a sua vida um desafio devastador e um homem misterioso, Bray Johnson (Josh Lucas). Em poucos dias, a presença de Bray reacende o ânimo da família, mas ele transporta consigo um segredo – e esse segredo pode mudar tudo.

Este drama romântico baseia-se na obra de Rhonda Byrne, "O Segredo" publicado em 2007 em Portugal. Com mais de 30 milhões de cópias vendidas em todo o mundo, permaneceu 190 semanas na lista de livros mais vendidos do "The New York Times", sendo o livro mais vendido de sempre em Portugal, com meio milhão de exemplares. O livro apresenta a Lei da Atração, que defende que os nossos pensamentos moldam a nossa realidade e que os seres humanos podem controlar as suas vidas com a mente e alcançar os seus desejos.

Opinião por Artur Neves

A Lei da Atração mencionada na sinopse, inspirada no princípio Taoista: “Acredita e Materializas” mais não é, na tradição judaico cristã profusamente divulgada em Portugal, o conteúdo do proverbio popular “A fé move montanhas” que nos aparece divulgada até à exaustão no livro “O Segredo”, travestido de filosofia de auto ajuda escrito por Rhonda Byrne a quem propiciou uma invulgar projecção mediática com os respectivos proventos associados, posteriormente divulgado em DVD na forma de documentário.

Andy Tennant, realizador americano cujo filme mais significativo da sua obra é; “Para sempre Cinderela” de 1998, pegou no argumento de um drama romântico de Bekah Brunstetter e Rick Parks, adaptado ao formato pela própria Rhonda Byrne, que lhe empresta um vago sentido de espiritualidade, oferece-nos esta história de pensamento positivo, polvilhado de pseudo filosofia barata, através da qual, durante uma tempestade torrencial, quando as crianças da casa exprimem o seu desejo por pizza, aparece-lhes milagrosamente um entregador de pizzas na porta de frente para lhe cumprir e satisfazer os desejos. O mago da lâmpada de Aladino não faria melhor.

Tudo o resto é comum dos dramas românticos, Miranda Wells (Katie Holmes), desempregada, falida, viúva e mãe de três filhos, (só desgraças) vive atormentada pela manutenção da sua vida, que só piora, quando a tempestade causa danos consideráveis na sua casa (mais desgraça) tem um encontro “casual” com Bray Johnson (Josh Lucas) que lhe oferece incondicional ajuda no seu infortúnio, que naturalmente lhe causam surpresa e desconfiança, não só a ela como ao seu encalhado namorado de longa data Tucker (Jerry O'Connell) que começam a questionar tão generosas e oportunas ofertas.

Porém não há nada de mal e somente os seus espíritos sem esperança, sem ver a luz, é que gera as suas dúvidas infundadas que serão dissipadas sempre que Bray adicione á sua ajuda pequenas pérolas de sabedoria sobre o poder das Leis da Atração e do pensamento positivo do tipo “quanto mais pensas em algo mais o atrais para ti” em que o episódio das pizzas, para além de outros, são verdadeiramente singulares.

Se descartarmos os chavões e os clichés de auto ajuda a história até se compõe razoavelmente bem como um romance maduro, uma segunda oportunidade entre dois personagens interpretados por dois atores que sabem ao que vão e sabem fazer com que secretamente desejemos que os seus personagens se encontrem, mas as manipulações emocionais do formato e as narrativas lamechas utilizadas geram situações que nos fazem querer vomitar, tais são os esforços artificiais de Rhonda Byrne para introduzir as suas recomendações e comentários no processo.

Por outro lado, os problemas financeiros de Miranda são facilmente assimiláveis por vários espectadores com dificuldades semelhantes nestes tempos difíceis e interiorizar que apenas o desejo intenso e constante de melhoria são suficientes para os ultrapassar, pode conduzir a grandes desilusões.

Classificação: 4 numa escala de 10

14 de agosto de 2020

Opinião – “A Troca das Princesas” de Marc Dugain

 

Sinopse

Em 1721, o Regente de França, numa tentativa de selar a paz com Espanha, oferece ao Rei espanhol, um casamento entre os herdeiros respectivos: Luís XV, de 11 anos, e Mariana Victoria, a infanta espanhola de 4 anos. O Regente propõe também a sua filha, Mademoiselle de Montpensier, de 12 anos, ao Príncipe das Astúrias, o herdeiro do trono de 14 anos. Madrid responde com entusiasmo às propostas. A troca das princesas realiza-se numa pequena ilha, entre os dois países. Mas nada corre como planeado.

Opinião por Artur Neves

A sinopse anterior descreve sucintamente todo e enredo da história em que baseia este filme de Marc Dugain, realizador e argumentista francês, nascido em 1957 no Senegal, que tem no seu curriculum diversas obras de caris autobiográfico e histórico referente a personalidades como Joseph Staline ou J. Edgar Woover.

A história decorre quase completamente no interior dos palácios para onde o regente do Reino da França, Philippe d'Orléans engendrou o plano de casar o futuro rei de França, Luís XV, de 11 anos, com Marie-Anne-Victoire d'Espagne, de 4. Não satisfeito com isso, ele acrescenta ao “lote” a oferta da sua filha Louise-Élisabeth d'Orléans, de 12, para desposar o príncipe herdeiro do trono espanhol, Luis, de 14 anos que nos é apresentado como um imberbe totalmente impreparado para viver, ou casar, quanto mais para reinar.

É este o mérito do filme e do argumento que o suporta, escrito por Chantal Thomas que tem provas dadas nesta área de desmontagem da convenção história sobre as monarquias europeias que até hoje se revelam pelos piores motivos.

No presente caso é o desespero de Philippe d'Orléans, (Olivier Gourmet) a sua incapacidade e impreparação para assumir as tarefas régias durante a infância de Luis XV que o leva a tentar estabelecer uma ponte e uma amarração com o futuro, através do enlace dos atuais infantes, independentemente das suas preferências. Era o normal na época, bem sei e a história também nos mostra isso, mas só a ociosidade da sua vida palaciana e a total ausência de preocupação com o povo e os destinos da nação é que o faria pensar em levar o jovem Luis XV a assumir um compromisso de casamento com uma criança de 4 anos que o filme até nos mostra ter uma presença de espírito e de premonição invulgares para a idade.

Só pela idade e pela impreparação generalizada destes quatro peões infantis, usados nesta absurda empresa de vinculação dinástica pode-se suspeitar do sucesso da ideia, mas todo o ambiente vivido na corte de França e de Espanha que o filme nos mostra, sugere-nos claramente à sua conclusão catastrófica de devolução das “encomendas” às suas origens naturais de onde não deveriam ter saído.

Rodado quase completamente no ambiente interior dos palácios, o filme apresenta uma dinâmica lenta e soturna, filmado à luz de velas, no interior de salões, onde por vezes se espera que uma acção aconteça. Porém, esta fica retida no protocolo das cerimónias da corte e nos pensamentos dos seus agentes, mostrando-nos as vidas estéreis dos detentores do poder, embora inocentes nas suas atitudes, porque ainda ingénuos nos objetivos a atingir.

Fica-nos assim uma revelação histórica, por vezes comovente, dos poderes reais e da monarquia, interpretado por atores bem escolhidos com particular destaque para Marie-Anne-Victoire (Juliane Lepoureau) que apesar da sua tenra idade obtém um excelente desempenho.

Nas salas a partir de 20 de agosto

Classificação: 5 numa escala de 10

13 de agosto de 2020

Opinião – “O Rei de Staten Island” de Judd Apatow


 Sinopse

Scott (Pete Davidson) é um caso típico de “síndrome de Peter Pan” desde a morte do seu pai, bombeiro, quando tinha 7 anos. Agora, com 20 e tal anos, e tendo alcançado pouco ou nada, ele tem o, aparentemente inalcançável, sonho de se tornar tatuador. A sua ambiciosa irmã mais nova (Maude Apatow) vai para a Universidade, mas Scott continua a viver com a sua exausta mãe (Marisa Tomei), enfermeira nos Cuidados Intensivos, passando os seus dias a fumar erva, nas ruas com os amigos e em encontros secretos com Kelsey (Bel Powley), sua amiga de infância.

Quando a sua mãe começa a namorar com Ray (Bill Burr), um bombeiro fala-barato, este relacionamento irá desencadear uma cadeia de acontecimentos que forçarão Scott a enfrentar a sua dor e andar para a frente com a vida.

O elenco do filme inclui ainda Steve Buscemi, como Papa, um bombeiro veterano que assume o papel de protetor de Scott, e Pamela Adlon como Gina, a ex-mulher de Ray.

Opinião por Artur Neves

A história deste filme é baseada na vida de Scott Davidson, pai de Pete Davidson, um bombeiro incluído no contingente de combate ao incêndio do World Trade Center em 11 de setembro de 2001 que faleceu no desempenho da sua função e que é lembrado pela National Fallen Firefighters como um homem corajoso, bom esposo e pai de família. A história contada com humor, desvelo e humanidade por Judd Apatow, realizador americano nascido em Nova Yorque pretende lembrar heróis anónimos que cuidam das nossas vidas. Pete Davidson, o filho, é um homem de temperamento sofrido e dolorosamente adorável que colaborou neste argumento semiautobiográfico em homenagem ao seu pai.

Ele já entrou na idade adulta mas continua meio perdido nos seus pensamentos e nos seus projetos de futuro. Está a meio caminho entre ser tatuador ou outra coisa qualquer que o mundo permita que ele seja. Situação semelhante é a que tem com a sua amiga de infância Kelsey (Bel Powley), com quem mantém uma relação estranha que ele próprio não sabe definir mas prefere que se mantenha assim para não ter de assumir responsabilidades que o seu complexo de “Peter Pan” não lhe recomenda.

Pete tem amigos com quem fuma maconha e faz projetos que não cumprirá porque no fundo ele tem bom íntimo e foi bem educado pela sua família que lhe inculcou os preceitos da ordem e da honestidade que ele segue sempre que pode, isto é, sempre que o medo de ser preso ou de ser admoestado pela mãe fala mais alto do que os desejos desviantes que o consomem.

A sua saúde é fraca e a sua clarividência mental nunca tiveram melhores dias, o que lhe permite aproveitá-las como justificação para a sua inércia e para a sua incapacidade geral. Todos estes problemas se agravam quando a sua mãe Margie Carlin (Marisa Tomei) começa a namorar Ray (Bill Burr) como consequência de um problema que ele próprio gerou na sua ânsia de praticar a profissão de tatuador. Todos os seus amigos já foram tatuados por ele e não estão completamente satisfeitos com os resultados porque ele ainda está em auto aprendizagem e as suas tatuagens apresentam defeitos.

Toda a história é uma sequência de avanços e recuos da vida de Scott Carlin para a qual o ator Pete Davidson foi sem dúvida uma boa escolha com o seu corpo esguio, os olhos esbugalhados e a sua face de espanto nas situações mais vulgares. A história tem um desenvolvimento lento que nos permite interiorizar todo a confusão e sofrimento na mente daquele adulto jovem que não sabe como afirmar-se, criar o seu espaço e crescer.

O filme apresenta-nos assim um relato na primeira pessoa, muito franco e honesto do que pode acontecer à estabilidade de uma família na sequência de uma tragédia. Tem ainda a vantagem de não cair na lamechice, embora conte uma história triste e por vezes deprimente que embora não sendo inédita, está bem contada com um humor triste mergulhado em solidão.

Vale a pena assistir a partir nas salas de Lisboa a partir de 20 de agosto

Classificação: 6,5 numa escala de 10

1 de agosto de 2020

Opinião – “Força da Natureza” de Michael Polish


Sinopse

Quando um furacão de grande magnitude ameaça Porto Rico, um polícia (Emile Hirsch) tentando recuperar de uma tragédia em Nova Iorque, entra em serviço de evacuação com uma nova parceira (Stephanie Cayo).

A dupla chega a um complexo de apartamentos, quando um criminoso chamado John the Baptist (David Zayas) entra numa senda assassina para chegar a um tesouro de arte de valor inestimável. Mas quando um ex-polícia (o vencedor do Óscar, Mel Gibson) e a sua filha (Kate Bosworth) entram relutantemente em cena, a Polícia terá de subir aos andares mais altos para se manter à tona, numa armadilha mortal de cimento. À medida que as águas das cheias sobem, só a ferocidade e o poder de fogo podem domar esta Força da Natureza.

Opinião por Artur Neves

Depois de em 2018 nos ter deliciado com um thriler de mão cheia; “Na sombra da Lei” eis que Mel Gibson nos brinda com este série “B” onde desempenha o personagem de um polícia doente, velho e birrento em busca de um aparelho de hemodiálise que ele se recusa a utilizar no hospital mais próximo.

A sua filha médica Dra. Troy (Kate Bosworth), é quem o assiste em casa, tentando convencê-lo a abandonar o domicílio, decorrente da aproximação de uma tempestade grau 5 que porá em risco a manutenção da alimentação eléctrica ao edifício de apartamento, ou mesmo a toda a cidade de Porto Rico, inviabilizando o tratamento que Ray (Mel Gibson) que recusa a aceitar num hospital.

Todavia, outros condóminos do mesmo edifício igualmente se recusam a abandoná-lo embora por outros motivos, pelo que a dupla de polícias Cardillo (Emile Hirsch), longe dos dias de glória de “O Lado Selvagem” de 2007) e Jess Peña (Stephanie Cayo), uma polícia latina para facilitar a comunicação em espanhol, são encarregues de concluírem a evacuação do edifício.

Não contam é com a ideia peregrina de João Batista (David Zayas) em invadir o mesmo edifício durante o furacão para recuperar uma fortuna em arte na posse de Bergkamp (Jorge Luis Ramos), um ex-oficial alemão pertencente ao exército nazi, refugiado em Porto Rico que guardava aquela fortuna até ela lhe poder ser útil depois de uma transacção que preparava há muitos anos.

É este o argumento de “Força da Natureza” que saiu da pena de Cory Miller, um argumentista com experiência de investigação no departamento de Assuntos Internos da NYPD, cujos casos usados em cinema já nos deram boas histórias, embora a milhas desta, que apesar de tudo provocou algum furor durante as filmagens mas cujo produto final se perfila como um lamentável e confuso flop, com criminosos especialistas em arte e outros personagens com diferentes histórias de bastidores que se tentam colar numa estória coerente.

Para complicar, ainda inclui um animal selvagem, apenas visto de relance num salto, do qual não se conhecem as consequências diretas, apenas se podendo inferir que terá neutralizado João Batista e que este, ou o seu capanga armado, o matou com vários tiros. Contudo também ficamos na ignorância de qual terá sido o destino deste.

Toda a intriga aparece forçada, arrastada, pouco verosímil, nem sequer sugerindo que o realizador Michael Polish estivesse verdadeiramente interessado com o realismo da história, desenvolvida por personagens que não mostram grande talento para o suspense, incluindo Mel Gibson que nos tem apresentado coias muitos boas e muito mazinhas como esta.

É assim um série “B” de acção violenta para desviar a atenção do enredo frágil, que se distingue pela criação de ambientes particulares e especificamente coloridos em cada um dos apartamentos envolvidos, todavia isso é pouco como história e como entretenimento.

Este filme tem estreia prevista para 20 de Agosto nos cinemas NOS.

Classificação: 4 numa escala de 10

30 de julho de 2020

Opinião – “A Nota Perfeita” de Nisha Ganatra


Sinopse

No mundo deslumbrante de Los Angeles, Grace Davis (Tracee Ellis Ross), é uma diva com talento e ego imensuráveis.

Maggie (Dakota Johnson) é a sua assistente pessoal, sobrecarregada de trabalho, mas que não desiste do seu sonho de infância de se tornar produtora musical. Quando o manager de Grace, Jack (Ice Cube), lhe apresenta uma proposta que pode colocar um ponto final na sua carreira, Maggie e Grace elaboram um plano para reinventar as suas vidas...

Opinião por Artur Neves

Há vários filmes sobre os bastidores do mundo do “show bis” sendo o último que mais deu nas vistas por merecer um prémio da academia americana, o remake de “A Star is Born” em 2018 “Assim nasce uma Estrela”, em que Lady Gaga e Bradley Cooper deram corpo a um tórrido romance dentro e fora do ecrã cujos ecos ainda não se apagaram de todo. É um verdadeiro filme de multidões muito menos autêntico do mundo real por detrás do espectáculo que este nos mostra, destacando a voz poderosa de Tracee Ellis Ross (filha de Diana Ross) e recuperando Dakota Johnson, (filha de Don Johnson) cujo talento está muito para lá do que “As Cinquenta Sombras de Gray” e seus derivados, poderiam revelar e isso pode também apreciar-se neste personagem omnipresente de Maggie.

Grace Davis é a grande diva que no auge do seu sucesso sabe que está a atingir o ponto de inflexão da carreira de superstar na medida em que depende dos êxitos antigos que constituíram hits no seu percurso. Grace sabe isso e Jack, o seu manager, também sabe que a seguir virá o declínio igualmente nocivo para ambos pela redução do cash flow correspondente à diminuição dos contratos e à grandeza dos espectáculos futuros pelo que lhe propõe o princípio do fim com a segurança de um contrato fixo num casino de Vegas onde só terá de atuar alguns dias por semana dentro de um programa previamente estabelecido.

O caminho não é fácil, nem existem atalhos para se cumprir o sonho. Maggie trabalha para uma diva egoísta, que ocupa o topo como se este lhe pertencesse por direito. Jake também sente a encruzilhada, entre continuar com a rotina de um trabalho que já conhece ou sair da sua zona de conforto para tentar algo novo.

Neste seu plano Jack esquece-se de Maggie que tem planos pessoais e agenda própria para se tornar num produtor musical e potenciar o talento emergente de David Cliff (Kelvin Harrison Jr.) com quem ela mantém um romance em início e um amor que crescerá na direta medida das suas capacidades de futuro. E é aqui que este filme se distingue consideravelmente de “Assim nasce uma Estrela”. Neste mundo musical anda tudo ligado; carreira, afetos, dinheiro, futuro e só se conseguem conciliar objetivos, com planos cheios de vontade, capacidade de lutar e inspiração. Os outros nem sempre são os melhores parceiros quando a experiência é escassa o os conselhos são para desistir. É a altura de excelência para acreditar.

É aqui que esta história de Flora Greeson, realizada por Nisha Ganatra realizadora canadiana descola do romance fácil e da lamecha e o filme torna-se na história de Maggie, impulsionando o aparecimento dos produtores musicais que faltam ao negócio não escondendo que as relações românticas entre o produtor e o artista que este está produzindo, ao invés de facilitarem o êxito, podem transformar-se em embaraços que conduzem a prejuízos não só financeiros como emocionais. Neste ponto o filme não ilude nem mente.

 “A Nota Perfeita” conta uma história original sobre os bastidores e o funcionamento do negócio da música e tem ainda a vantagem de nos elucidar com pormenores sobre Beach Boys, Stevie Nicks, Bruce Springsteen e outros, com reflexões sobre as carreiras e os percursos artísticos destes nomes famosos enquanto nos delicia ao som dos seus maiores êxitos, tornando-se uma história sobre música, amor e amizade constituindo a fuga perfeita ao mundo real do vírus e dos riscos da pandemia que nos assola. Se o leitor é versado em temas musicais vai ficar algum tempo a lembrar-se destas músicas, para lá da excelente voz de Tracee Ellis Ross que eu nem conhecia, por defeito próprio, obviamente. Recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

28 de julho de 2020

Opinião – “O Rececionista” de Michael Cristofer


Sinopse

Durante o turno da noite, Bart Bromley (Tye Sheridan) um jovem rececionista, testemunha o assassinato de uma mulher num dos quartos do hotel, mas os seus comportamentos suspeitos acabam por o colocar como principal suspeito. No decorrer da investigação, Bart cria uma relação próxima com uma das hóspedes, Andrea (Ana de Armas), e rapidamente percebe que tem de parar o verdadeiro assassino antes que ela seja a próxima vítima. As imagens das câmaras de vigilância, que Bart mantém em segredo para observar os hóspedes, são a única forma de conseguir provar a sua inocência e salvar Andrea.

Opinião por Artur Neves

Este “Rececionista” corporiza um estilo hitchcockiano, sem o brilho nem a sagacidade do mestre num filme que pretende ser noir sem contudo, conseguir chegar a lugar algum.

Bart Bromley é um rececionista de hotel de preços módicos e permanências curtas que sofre de síndrome de Asperger que é um distúrbio psicológico do espectro do autismo que se caracteriza por dificuldades no relacionamento interpessoal e na comunicação não verbal, exibindo para compensar essas deficiências, padrões comportamentais repetitivos que causam surpresa a quem não está familiarizado com a doença.

Todavia, Bart tenta corrigir essas deficiências através da observação do comportamento de pessoas normais, de forma a poder “aprender” os modos e as formas de comunicação e assim esbater a sua diferença relativamente aos outros com quem ele tem reserva em se relacionar e não sabe como se aproximar. A sua limitação é tal que sua mãe Ethel Bromley (Helen Hunt) lhe prepara as refeições e coloca-as à porta do quarto, de forma a ele se poder alimentar sem o esforço de partilha da sua presença com ela.

Para conseguir essa “aprendizagem” ele instalou câmaras de vigilância nos quartos do hotel e observa os hóspedes nas suas atitudes íntimas, incorrendo assim no crime de voyeurismo, com as quais ele pretende identificar-se com os seus modelos. O problema começa quando ele assiste a um assassinato num dos quartos e não revela à polícia tudo o que sabe porque não quer expor a violação de privacidade que reiteradamente comete na sua tentativa de tratamento da sua limitação comportamental.

É com esta história que Michael Cristofer, ator e escritor galardoado com o prémio Pulitzer, ensaia o seu segundo trabalho de realização depois do longínquo “Pecado Original” em 2001, podendo comprovar-se que não atingiu grande evolução. Agora, para apimentar a história inclui ainda uma Andrea (Ana de Armas) num papel de femme fatale inserida à pressão num envolvimento misterioso que faz Bart temer pela sua vida e sobressaltar a sua rotina controlada quando ela lhe envia olhares e estímulos que ele não sabe como gerir, mas que recebe com esperança de ter chegado a sua altura de construir uma vida dita normal, para os parâmetros de um deficiente de Asperger.

Ana de Armas continua impressionante como sempre e tem tido a sorte de desenvolver personagens adequados à sua habilidade de atuação que lhe assentam como uma luva e fazem Bart persegui-la em grande parte do filme onde esperamos uma surpresa, um twist, para lá das promessas não cumpridas que vemos ela fazer-lhe.

Á semelhança de outros filmes que combinam suspense e acção com voyeurismo, este também pretende trilhar esse caminho, embora por motivos menos sombrios e com um argumento sinuoso, por vezes mal concebido, só resgatado aqui e ali pelas interpretações dos atores bastante assistíveis mas rapidamente esquecíveis. No final temos uma história muito simples que só vale pela interpretação dos seus personagens.

Classificação: 4,5 numa escala de 10

22 de julho de 2020

Opinião – “Capone” de Josh Trank


Sinopse

Al Capone (Tom Hardy), um cruel empresário e contrabandista de bebidas que governou Chicago com mão de ferro, foi o gangster mais famoso e temido na história dos EUA. Aos 47 anos, após quase uma década na prisão, a demência deteriora a mente de Capone, e o seu passado torna-se presente.

Memórias angustiantes das suas origens violentas e brutais fundem-se com a sua vida real. Enquanto passa o seu último ano rodeado pela família, com o FBI à espreita, o debilitado patriarca luta para se recordar da localização dos milhões de dólares que escondeu na sua propriedade.

Baseado em factos verídicos, CAPONE conta a história nunca antes contada dos últimos dias da vida do mais famoso gangster da história.

Opinião por Artur Neves

Al Capone (Alphonse Gabriel Capone de seu nome, também conhecido por Scarface) é o biopic do seu último ano de vida que nos é apresentado por Josh Trank, um realizador americano nascido na California que foi particularmente feliz com o seu “Quarteto Fantástico” de 2012 e a sua série pata TV “The Kill Point” em 2007 mas que neste filme apresenta algumas inconsistências.

“Capone” é assim interpretado por Tom Hardy, no último ano da sua vida na sua sumptuosa propriedade em Palm Island, Flórida, desgastado pela doença contraída na juventude, a neuro sífilis, que lhe provoca alucinações mentais e memórias sombrias de festas luxuosas e visões loucas que constituem a narrativa principal do filme, já que, com um homem incontinente, fisicamente inválido, vago de cérebro e super protegido pela família mais próxima, quase nada pode acontecer que suporte a história que este filme pretende contar.

Tom Hardy é sempre competente no seu desempenho e de acordo com o argumento constrói um personagem demente e sólido na sua loucura, permanentemente agarrado a um charuto que segura no canto da boca que posteriormente é substituído por um toco de cenoura, por recomendação médica após a ocorrência de um derrame cerebral num dos seus desvarios de loucura violenta. A caraterização faz de Hardy um homem pálido, com o rosto marcado por cicatrizes, com vários quilogramas em excesso, flácido, que mastiga charutos e balbucia palavras sem sentido com uma voz que parece de um sapo alojado na sua garganta.

Até aqui tudo bem, o pior começa no enquadramento desta figura que representa os resquícios de si própria, cada vez mais delirante, manifestando visões aterradoras que o filme recria em flashbacks sucessivos, por vezes algo confusos relativamente aos motivos, períodos de vida e aos personagens envolvidos.

Para tentar manter o suspense o argumento serve-se do esquecimento de Capone sobre o local onde terá escondido dez milhões de dólares resultantes da sua atividade criminosa, que ele cita frequentemente como objetivo e o FBI mantém agentes escutando as suas conversas telefónicas e os seus movimentos. Outro caso é o de um filho bastardo que lhe telefona algumas vezes, sem falar, deixando no ar uma promessa de revelação. Só que a história apenas os cita inconsequentemente e rapidamente para logo os abandonar deixando cair os elementos que poderiam ser reveladores de outra realidade atualmente inexistente.

Josh Trank, poderia assim abrir a história para eventos hiperbolicamente concebidos se fecharem na realidade inválida de um homem que sucumbe à sua loucura, mas em vez disso prefere investir no espetáculo que usou nos “Quatro Fantásticos”, apresentando o artifício visionário e a fúria subjetiva de um homem doente em conflito consigo próprio como o agente do vazio de razões em que a história mergulha, concebida por uma mente em colapso, segundo o qual nenhum argumento pode fazer sentido.

O real problema porém, não reside na dependência da fantasia alucinada de Capone mas na conceção estreita e limitada do realizador que ao cingir-se às suas reminiscências confusas e distorcidas sem as conotar com os seus momento anteriores de grandeza e felicidade, afoga a história nas insuficiências de um homem em declínio que só por si não é motivo suficiente para justificar o filme. É pena… Tom Hardy vê-se com gosto.

Classificação: 5 numa escala de 10

21 de julho de 2020

Opinião – “Judy & Punch – Amor e Vingança” de Mirrah Foulkes


Sinopse

Na anárquica cidade de Seaside, os marionetistas Judy e Punch tentam revitalizar o seu espetáculo de marionetes. O espetáculo torna-se um sucesso, graças à elevada mestria de Judy (Mia Wasikowska), enquanto manipuladora de marionetas, mas a desmedida ambição de Punch (Damon Herriman) e a sua propensão para abusar do whisky acabam por provocar uma inevitável tragédia, da qual Judy procurará vingar-se.

Nesta visceral e dinâmica reinterpretação em live-action da famosa peça de marionetas do século XVI, a realizadora e argumentista Mirrah Foulkes dá uma reviravolta na história tradicional de Punch e Judy, juntando-lhe uma forte componente de crítica social e criando uma história de vingança, feroz e sombria mas ao mesmo tempo cómica e épica, com Mia Wasikowska e Damon Herriman nos principais papéis.

Opinião por Artur Neves

Como primeira obra de realização e de escrita do argumento de Mirrah Foulkes, esta atriz que conta entre as suas obras de representação mais emblemáticas, a personagem de Sophie em “Beleza Oculta” de 2012, apresenta-nos aqui uma história de fantasia que recupera os “Punch and Judy” que surgiram na tradição da comédia dell’arte do século XVI em Itália, como forma de contar uma realidade da época que se cingia à supremacia do marido sobre a esposa e ao seu direito feudal sobre ela, constituindo essa prática o motivo central de diversão para gáudio de uma população inculta, com preconceitos atávicos e crenças seguras no poder da bruxaria sob qualquer forma que o feitiço lhe fosse apresentado.

Assim este filme de Mirrah Foulkes, que foi estreado no festival de Sundance traz-nos Punch e Judy os clássicos fantoches brigões que existem pelo menos desde 1600, a exibirem-se na cidade de Seaside, donde é totalmente impossível ver o mar, ou qualquer mar, numa comédia intrigante e sombria em que a alteração da justaposição dos nomes não é acidental mas antes, essa sim, a vingança de Judy sobre Punch, depois de séculos da supremacia de Punch.

É aqui, que Judy e Punch, casados, depois de Judy se ter apaixonado por Punch na sua primeira passagem na cidade, agora com uma filha e morando na casa de Judy que ficou aos cuidados do casal de servos que a criaram, que tentam restabelecer o seu show de marionetas, encenando um teatro medieval, onde uma multidão ululante de espectadores nem sempre deixava sair vivos, os atores ou performers de qualquer outra arte.

A representação não é mais do que o tradicional Punch & Judy, onde na maior parte do tempo o boneco de Punch surra desalmadamente o boneco de Judy e na realidade ele é um bêbado e um falhado querendo arvorar-se no maior marionetista do mundo, enquanto Judy é o cérebro e o talento do espetáculo que antes de fazer a apresentação tem de cuidar das necessidades da filha pequena de ambos e deixar que Punch brilhe em palco e se embebede em casa.

A história do filme oscila entre Shakespeare e Dickens, composta por rufiões, povo crédulo e inculto, vendedores de batata e um polícia incipiente Mr. Frankly (Tom Budge) que representa uma emergente ordem policial que ainda não se sabe impor naquela sociedade desordenada. Todo o filme desenrola-se num mundo próprio que nos proporciona um conto de fadas bizarro e revisionista sobre os bastidores das histórias de marionetas, brutal e elementar.

O próprio sentido humor da história alimenta-se da violência cómica que tradicionalmente está ligada a Punch e Judy, exceto nos heréticos, o povo expulso de Seaside que formou uma comunidade na floresta e que salvou Judy da morte após uma violenta tareia de Punch. A Drª Feelgood (Gillian Jones), líder da comunidade, insiste com Judy que é melhor ela fugir do que tentar combater o patriarcado reinante em Seaside, mas Judy quer vingar a morte da sua menina e como tal não desiste de fazer justiça.

Tem elementos curiosos sobre a tradição do espetáculo de marionetas e um humor sombrio sobre realidades medievais horríveis, mas para Foulkes constitui uma estreia promissora e como tal merece ser vista.

Estreia a 30 de Julho nos cinemas NOS

Classificação: 6 numa escala de 10

16 de julho de 2020

Opinião – “O Paraíso, Provavelmente…” de Elia Suleiman


Sinopse

ES escapa da Palestina em busca de uma pátria alternativa, apenas para descobrir que a Palestina está seguindo atrás dele. A promessa de uma nova vida transforma-se numa comédia de erros: por mais que ele viaje, de Paris a Nova Iorque, algo sempre o lembra de casa. Do premiado diretor palestiniano, Elia Suleiman, aparece-nos uma saga em forma de comédia que explora a identidade, nacionalidade e pertença, na qual Suleiman faz a pergunta fundamental: onde é o lugar que realmente podemos chamar de lar?...

Opinião por Artur Neves

Elia Suleiman é sem dúvida o mais famoso realizador palestiniano cujos trabalhos são reconhecidos na Europa, exibidos e premiados no festival de cinema de Cannes, que em 2019 destacou este filme num intervalo de dez anos do seu anterior, em que Suleiman mais uma vez explora a noção de nacionalidade com identidade e pertença, abordando as caraterísticas dessas expressões com um humor inexpressivo, recriando situações comuns que têm tanto de cómico como de irracional ou absurdo.

Não se pode dizer que é um filme fácil. Suleiman é um realizador e intérprete do seu personagem à maneira de Jacques Tati, mais observador do que comentador e que tal como Tatti compõe habilmente os quadros que nos apresenta para tirar o maior proveito possível de cada mordaça que exibe, através de um personagem mudo, frequentemente estático, de óculos e chapéu de palha cujo arquear de sobrancelhas constitui a sua mais poderosa ferramenta de comédia. Suleiman assume a liderança da história (uma sucessão de casos quotidianos) interpretando um personagem de si mesmo que absorve os absurdos do mundo ao seu redor e responde com o seu olhar e expressão facial que valem mais do que 100 palavras.

Suleiman pertence à comunidade ortodoxa grega Roum e para que o leitor possa formar uma ideia do conteúdo do filme vou revelar-lhe a cena de abertura. Com o ecrã negro ouvem-se vozes de várias pessoas rezando, quando aparece a imagem vemos tratar-se de uma procissão que caminha em direção a uma igreja ortodoxa de portas fechadas. Na procissão, um padre caminha no meio de um grupo de fiéis e emana preces que os fiéis respondem que a salvação está no interior da igreja. Ao chegar à porta da igreja, o padre solenemente bate três vezes e manda a porta abrir. A surpresa é geral quando do interior da igreja um voz anuncia que se recusa a abrir a porta e manda-os embora. O padre embaraçado, repete por mais três vezes a proclamação solene da cerimónia e pelas mesmas vezes a mesma voz se recusa a abrir a porta que os fiéis dizem ser da salvação. Já visivelmente zangado o padre entrega o bordão a um fiel que está próximo, tira a mitra da cabeça e entrega-a a outro, levanta as saias das vestes clericais e caminha em direção à porta lateral da igreja que arromba com um pontapé, entra na igreja e ouve-se no exterior, castigar à pancada os que no interior se recusavam a abrir a porta principal. A cena termina assim.

Depois de outras cenas significativas em Nazaré, sua cidade natal, Suleiman ruma a Paris e posteriormente a Nova Iorque transmitindo-nos a ideia de um exílio permanente, já que em qualquer das duas cidades visitadas ele não se sente mais confortável do que em Nazaré, que não corresponde ao “lar” (ao home) que ele procura, depois da morte dos seus pais, razão última para a sua demanda pelo mundo em busca de uma felicidade indefinível.

Em Paris e Nova Iorque Suleiman mostra-nos com ironia, o absurdo duma perseguição policial em patins a um suspeito só por ser estrangeiro, uma refeição familiar em Nova Iorque num restaurante de fast food em que todos estão armados, até as crianças, ou a paragem em frente de um edifício em Paris, que exibe uma placa indicadora com a frase; “a comédia humana” numa clara universalidade dessa comédia que nos atinge a todos, tornando irrelevante o sítio onde estejamos, pois nas grandes cidades campeiam os mesmos absurdos de que ele procurou fugir na sua cidade Nazaré.

Suleiman oferece-nos ainda a figura do palhaço burlesco, próxima de Buster Keaton, pela forma como se apresenta colocando-se sempre no papel do observador espantado que no fundo é o nosso próprio papel neste mundo insano que nos rodeia. É um filme subtilmente irónico, denunciador do absurdo e das incoerências existentes nas margens da realidade. Gostei e recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

14 de julho de 2020

Opinião – “Clube dos Divorciados” de Michaël Youn


Sinopse

Após 5 anos de casamento, Ben (Arnaud Ducret) continua apaixonado pela mulher. Até o dia em que descobre, em público, que a mulher anda a traí-lo: além de humilhado, é descartado! Totalmente desanimado e evitado pelos amigos, Ben luta para não soçobrar, até que um dia se cruza com um antigo amigo, Patrick (François-Xavier Demaison) que também está divorciado e lhe propõe que vá viver para sua casa. Ao contrário de Ben, Patrick pretende tirar proveito do celibato recuperado e de todos os prazeres a que renunciou durante o casamento. Aos dois amigos depressa se juntam outros divorciados (Audrey Fleurot, Michaël Youn ...) e os foliões quarentões redigem as primeiras regras do "Clube dos Divorciados", sendo que a primeira delas é viver em permanente FESTA.

Opinião por Artur Neves

O cinema francês sempre se socorreu de particularidades identitárias nas abordagens temáticas que se caraterizam pela simplificação, por vezes espetacular, com que aborda temas sérios que destroem a estabilidade emocional das pessoas envolvidas, que neste caso se reporta ao divórcio e às estratégias utilizadas para ultrapassar as sequelas emergentes.

É o caso desta história em que Ben é confrontado em público, com a traição da sua mulher em presença de amigos e desconhecidos que entre graçolas, desculpas piedosas, e censuras, estigmatizam-no com o ónus do deixado, do abandonado, do preterido por incompetência inerente no cumprimento das suas atribuições.

Numa abordagem real, isto pode ser um trauma dificilmente ultrapassável, no “Clube do Divorciados” é apenas o motivo justificativo para a desbunda, para dar a volta, para a recuperação completa do trauma, que assim se ultrapassa, sem drama nem trauma, nem sequelas de baixa auto estima, considerando que a solução encontrada é fazer tudo o que apetece, sempre que apetece, com quem apetece e está para aí virado(a).

A ideia inicial do filme fundamenta-se num caso próximo de Michaël Youn, (que interpreta na história o personagem de Tiiti) um realizador Francês que já conta com duas comédias de êxito no seu CV, que se passou na vida pessoal do produtor Clément Miserez num caso de separação conjugal, que para lá da dor sentimental lhe permitiu viver algumas situações anedóticas sobre o assunto, através dos cruzamentos que a situação teceu. Daí até ao argumento desta comédia, passaram três anos a lamber feridas e a organizar todo o elenco que de preferência deveria ter alguma “experiência” no tema.

O cinema á francesa é isto mesmo, começar com um drama e através da farsa e da comédia recuperar as motivações profundas do amor que se atenuam com do passar do tempo e permitem inserir a amizade e a ideia de perdão, compreensão, companheirismo especialmente quando há filhos partilhados completamente inocentes relativamente ao turbilhão onde caíram. Tornar o filho do casal interesseiro e ardiloso, quase déspota, já faz parte das múltiplas direções que a comédia pode adquirir.

A principal direção é contudo o regozijo em ser celibatário, estar só, não ter ninguém a criticá-lo, poder ficar duas horas na casa de banho a fazer o que quiser, jogar por exemplo, sem qualquer constrangimento de ainda não ter ido comprar o pão para o pequeno almoço. Estabelecer compromissos a qualquer hora e simplesmente divertir-se sem remorso.

E assim o filme flui durante 108 minutos intercalando cenas de verdadeira anedota e outros mais explosivos do ponto de vista comportamental e musical mas que ainda assim se aceitam pela multiplicidade de personagens que se incluem naquela casa de celibatários masculinos e femininos, todos à procura do berço de onde caíram, porque a principal cauda do divórcio é… sempre… o casamento!... essa instituição social cuja principal utilidade consiste em reduzir o número de declarações IRS entregues anualmente.

Uma história engraçada, algo espalhafatosa por vezes, que nos diverte e surpreende, em exibição nos cinemas NOS a partir de 23 de Julho.

Classificação: 6 numa escala de 10