18 de abril de 2018

Opinião – “Bullet Head – Ultimo Golpe” de Paul Solet


Sinopse

Três criminosos profissionais aceitam o que julgam ser o golpe da sua vida, mas quando chegam ao local do assalto, um remoto armazém, descobrem que caíram numa armadilha. Agora, cercados do lado de fora pela lei, apercebem-se que dentro do armazém uma ameaça maior os espera – um cão de ataque assassino que os irá obrigar a lutar pelas suas vidas.

Opinião por Artur Neves

Paul Solet, realizador e argumentista americano desde 2003, muito embora com experiencia anterior em cinema, apresenta-nos aqui uma fábula urbana sobre as ligações conturbadas entre humanos e animais, neste caso particular; cães usados em combates ilegais.
A história desenvolve-se em torno de três homens de faixas etárias significativamente diferentes, unidos pelo objetivo comum de se esconderem da polícia após um assalto realizado, com consequências trágicas para um quarto camarada que morre no início da história. O local escolhido é um armazém abandonado, que eles desconhecem possuir um ring de combate, utilizado por um gang organizado para corretagem de lutas clandestinas de cães, obtendo vantagem financeira das apostas dos donos dos contendores.
Durante a sua permanência no esconderijo eles vão trocando experiências e memórias do seu passado que nos dá a conhecer um pouco da personalidade de cada um deles e da sua relação com animais domésticos, nomeadamente cães. É neste local de espera e também de algum reencontro com as suas recordações mais fortes e objetivos futuros, que eles encontram “Blue”, um mastim de combate, ferido, muito maltratado mas ainda com capacidade física e suficiente ódio aos humanos que o utilizaram, para os perseguir e destroçar se eles não conseguirem ficar fora do alcance das suas mandíbulas.
É nesta fase que o filme nos começa a mostrar alguma ação, num jogo de fuga do perigo que os ameaça, em simultâneo com o reencontro das fragilidades e das ligações imprevistas que se formam, num caldo de empatia entre o homem e o cão que o persegue, prometendo-nos que apesar de toda a ignomínia alguns sentimentos nobres de humanidade ainda despertam.
Duma maneira geral estamos em presença de um filme que se desenrola num único local, embora ao longo de vários espaços, se trocam opiniões sobre a vida e sobre o passado de cada um, se perspetiva um futuro que não tem lugar para ocorrer, não por serem criminosos mas antes por cada um à sua maneira sentir ter chegado ao fim, independentemente dos reais motivos que os conduziram aquela situação.
A redenção e a lição de fábula, chega na parte final através de um twist que vem repor os termos como deveriam ser, indiciando que por mais profunda que seja a queda a esperança deve ser a ultima a abandonar-nos. Para uma rodagem num espaço interior a fotografia de Zoran Popovic é agradável, a montagem de Josh Ethier, utilizando flash backs, dá alguma animação à história, mas com estes atores esperar-se-ia um pouco mais, todavia o guião não lhes permite qualquer golpe de asa. Sabe a pouco!…
Classificação: 4,5 numa escala de 10

5 de abril de 2018

Opinião – “A Morte de Estaline” de Armando Iannucci


Sinopse

União Soviética, 1953. Após a morte de Josef Stalin (Adrian McLoughlin), o alto escalão do comité do Partido Comunista vê-se em momentos caóticos para decidir quem será o sucessor do líder soviético.

Opinião por Artur Neves

Numa altura em que a comunidade internacional condena a Rússia de Putin como responsável pelo atentado ao espião russo Skripal e sua filha, refugiados em Inglaterra, surge este filme, já proibido pelo Ministério da Cultura da Rússia através da suspensão da sua licença de exibição, sobre os últimos dias do ditador Josef Stalin, reconhecidamente como um dos líderes mais cruéis da história mundial recente, (em conjunto com Hitler) que ocupou o poder na Rússia entre 1922 e 1953, na sequência da Revolução Bolchevique de Outubro de 1917 que acabou com o Governo Provisório de cariz moderado que se seguiu à queda do poder imperial do czar Nicolau II, impondo o governo Socialista Soviético.
Os 31 anos de poder absoluto, autocrático e despótico de Josef Stalin não são de facto um período de que a Rússia se possa orgulhar, considerando o que o seu sucessor; Nikita Khruchshov revelou ao mundo, durante a realização do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética em 23 de Fevereiro de 1956, onde enumera a longa lista de atrocidades cometidas contra o povo pelo estalinismo, durante a sua ocupação do poder.
Armando Iannuci, Escocês de origem, realizador e coargumentista desta história, resolveu revisitar esta época através de uma abordagem crítica, com traços acentuadamente burlescos relatando os eventos ocorridos nos círculos próximos do ditador na sequência da sua inesperada morte em maio de 1953 e da luta pelo poder que se seguiu.
O resultado é este filme atrevido, ousado em todas as suas premissas, pormenorizado na identificação das personagens que são referenciados com o nome real das pessoas que representam, considerando que o secretismo do sistema e o nível de divulgação da época não permitiria o seu reconhecimento ao espetador normal, caraterizando-os ao pormenor das suas idiossincrasias e retratando-os nas suas funções e confrontos com os seus pares, entabulando intrigas, vinganças, e ódios de estimação que, pelo que sabemos hoje, não deve estar muito longe da realidade vivida naqueles anos.
A abordagem às relações entre pares do governo é feita em jeito de comédia de humor negro (doutra forma seria mais doloroso) evidenciando a total submissão de todos ao determinístico líder, sempre autoritário e desdenhoso mesmo nas questões mais comezinhas, e a total falta de ética dos seus mais próximos e despersonalizados colaboradores, (súbditos) totalmente incapazes de formularem alternativas, ou qualquer espécie de ação coordenada, quando subitamente confrontados com a sua inesperada falta.
Os diálogos estão bem concebidos, sempre proferidos segundo uma lógica jocosa que nos surpreende, diverte e nos faz pensar como foi possível tudo isto, descontando claro, o efeito de caricatura que o filme naturalmente exibe. Merece ser visto, recomendo.

Classificação: 6 numa escala de 10

29 de março de 2018

Opinião – “O Ultimo Retrato” de Stanley Tucci


Sinopse

De visita a Paris, em 1964, James Lord (Armie Hammer), um escritor americano e amante das artes, é convidado pelo reconhecido artista Alberto Giacometti (Geoffrey Rush) a pousar para um retrato. Giacometti assegura a Lord que o processo demorará apenas alguns dias. Lisonjeado e curioso, Lord concorda em posar. Assim começa não só a história de uma peculiar amizade, mas também uma exploração, através do olhar de Lord, sobre a beleza, frustração, profundidade e ocasional caos do processo artístico. “O Último Retrato” é o retrato de um génio e de uma amizade entre dois homens profundamente diferentes, que vão ficando cada vez mais próximos um do outro, através de um singular e sempre mutável ato de criatividade.

Opinião por Artur Neves

Alberto Giacometti destacou-se no século XX como um escultor procurado e apreciado nas suas obras que distorciam a forma do corpo humano, estendendo-a desproporcionadamente como se quisesse ilustrar a distorção da alma humana que ele identificava no seu modelo, sempre minuciosamente observado e condicionado na sua opção de pose para modelo da sua obra. Giacometti manipulava a superfície e a textura dos materiais, profundamente deformados na constituição da sua obra de arte como a personificação material da corrente existencialista da época e do seu principal mentor, Jean-Paul Sartre com quem ele mantinha uma relação filosófica muito chegada.
Cada obra não tem qualquer relação com a seguinte, impregnando-as de uma individualidade distintiva, acentuada pelas suas deformações particulares, perseguindo obcessivamente um contínuo aperfeiçoamento nunca alcançado, conduzindo mesmo à destruição do trabalho feito, para através de um novo recomeço tentar o aperfeiçoamento da sua representação.
É esta personalidade doentiamente genial que Stanley Tucci, ator conhecido por várias interpretações de relativo sucesso, veste aqui a pele de argumentista e diretor, com base no livro do escritor James Lord, que descreve os últimos tempos da vida conturbada e caótica de Giacometti, sendo a pedido deste que ele se transforma em modelo para um retrato, durante um tempo muito para lá do inicialmente anunciado pelo artista, mas que serve de catarse para ambas as personalidades em confronto que passam a conhecer-se mais intimamente do que inicialmente esperariam.
É óbvio que não é um tema fácil para passar a filme, considerando que incide num tempo particular da vida de Giacomtti, que embora querendo refletir um resumo da sua biografia esbarra no tempo e no espaço em que a ação (monotonamente) se desenrola, 19 dias particularmente arrastados, sem qualquer rasgo dramático, repetitivo nos gestos e lugares como a essência da obra de Giacometti.
Todo o filme é pastelão, lento e previsível, provocando alguns bocejos pela espera da novidade que não acontece, mas ainda assim, para os mais interessados, permite apreciar a construção do personagem de Giacometti por Geoffrey Rush que revela o excelente trabalho do ator que aceitou esta “empreitada”, bem como, de James Lord por Armie Hammer, depois da sua intensa e competente interpretação de Oliver no recentemente oscarizado filme; “Chama-me pelo teu Nome”, já comentado neste blogue.
Apesar de todas as fraquezas apontadas rever estes dois atores é um motivo suficiente para justificar o visionamento deste filme, que decorre quase em “piloto automático” como não se pretende que seja apanágio da indústria cinematográfica.

Classificação: 4 numa escala de 10

25 de março de 2018

Opinião – “Peter Rabbit” de Will Gluck


Sinopse

Peter Rabbit, o adorado personagem das histórias infantis, chega ao cinema numa irreverente e contemporânea comédia cheia de atitude.
A disputa entre Peter Rabbit e o Sr. Gregório (Domhnall Gleanson) pela horta aumenta quando ambos passam a rivalizar pela atenção da bondosa vizinha Bea (Rose Byrne). Peter, com a ajuda do seu primo Casimiro e das suas irmãs trigémeas Flopsi, Mopsi e Rabinho-de-Algodão, vão meter-se em divertidas aventuras.

Opinião por Artur Neves

A utilização da plácida figura do coelho bravo, destemido e sagaz, nas histórias infantis não é recente, nem única. Bugs Bunny, quiçá o mais famoso coelho do cinema, (e o mais produtivo do ponto de vista de receita de bilheteira) “nasceu” em 1938 pela mão de Leon Schlesinger da Warner bros. Cartoons e fez carreira em curtas-metragens incluídas na série Looney Tunes e Merrie Melodies ainda na lembrança de muitos leitores desta crónica.
Posteriormente conciliou-se o desenho animado com figuras humanas onde se atingiu um significativo ranking com o filme “Quem tramou Roger Rabbit” de 1988, com a parceria entre a Touchtone Pictures e Amblin Entertainment de Steven Spielberg numa história de filme noir passada em 1947 e tendo obtido um significativo sucesso.
Desta feita, no caso de “Peter Rabbit”, uma versão atualizada dos personagens clássicos de Beatrix Potter, temos uma fábula tradicional bucólica, de rivalidade entre a cidade e o campo onde uma família de coelhos, encabeçada por Peter, procuram obter a sua subsistência á custa da horta do vizinho McGregor, coronel reformado, que lhes dá renhida luta, sem contudo evitar a pilhagem da sua horta por Peter Rabbit e restante pandilha, protegida e acarinhada por Bea, a vizinha defensora da natureza.
Com a morte do velho McGregor, entra em cena o seu sobrinho herdeiro Thomas McGregor, que se vê obrigado a abandonar a cidade de Londres, onde faz carreira no Harrods mas que vê a sua vida transformada ao reconhecer os benefícios da vida no campo e ao sucumbir aos encantos de Bea, pintora de tempos livres e amante da natureza, para quem Thomas, igualmente deixa de ser um estranho da cidade.
O filme é realizado em formato live action / animação computacional, utilizando meios sofisticados que permitem conciliar a confrontação entre atores humanos e animais reais sendo estes posteriormente tratados digitalmente em todas as suas ações e diálogos assegurados por atores convidados que emprestam aos coelhos a sua voz e as suas emoções.
Inicialmente o primeiro trailer do filme não foi bem aceite pela crítica, por algumas cenas contrariarem o espírito da história de Beatrix Potter, mas o segundo, mais ameno e coerente com os valores da vida ao ar livre, deu início a uma carreira mundial que até agora já arrecadou cerca de US$150 milhões e se espera que continue na senda do sucesso. Compreende-se que pode não agradar a todos, mas tem de se reconhecer que em tempo de Páscoa, coelhos e ovos, (embora sem qualquer relação entre si) são adequados à quadra e como tal podem constituir um divertimento agradável para os mais pequenos em férias escolares.

Classificação: 5 numa escala de 10

16 de março de 2018

Opinião – “Gringo” de Nash Edgerton


Sinopse

Harold Soyinka (David Oyelowo) trabalha para a Cannabax Technologies Inc, uma empresa que desenvolveu o "Weed Pill", a maconha medicinal que foi simplificada em uma pílula. Harold conhece o rumor de que a empresa vai avançar com uma fusão, mas é negada por seu chefe, que também é seu amigo. Os chefes de Harold, Elaine Markinson (Charlize Theron) e Richard Rusk, (Joel Edgerton) viajam com ele para o México para lidar com a fabricação do produto. Ele também sabe que sua esposa o deixou enquanto está tendo um caso com Richard. Enquanto está bêbado, Harold acaba sendo sequestrado pelo cartel, que mantém reserva contra os patrões de Harold e sua empresa, por esta os eliminar dos seus planos na criação da pílula de erva daninha. Richard contrata seu irmão Mitch, (Sharlto Copley) que é um ex-mercenário, para resgatar Harold de maneira a que ambos acabem por sobreviver a uma situação ultrajante para todos inclusive para a própria empresa nos USA.

Opinião por Artur Neves

Pela leitura da anterior sinopse pode inferir-se que “Gringo” não é um filme sem surpresa, ação, história dinâmica recheada de twists no argumento, com todos os ingredientes portanto, para constituir um agradável espetáculo de fim de dia em que se precise de descansar e esquecer a pressão do trabalho. Nash Edgerton, Australiano de nascimento e irmão de um dos atores desta história constrói neste filme um enredo multifacetado, bem concebido, recheado de ação que se aceita sem esforço e com um desenlace que aponta para um romance improvável mas sincero, como que prometendo-nos que a vida real não é tão catastrófica como ele a pinta nesta aventura alucinante de 112 minutos.
Joel Edgerton, irmão do realizador, já nos ofereceu bons desempenhos noutras obras para o qual já tem uma nomeação para um Oscar, apresenta-se nesta história como o cabecilha da trama que pretende trapacear a empresa á custa no nosso herói, Harold Soyinka, trabalhador pacato, de boas maneiras e bom trato que não imagina o que se está a formar nas suas costas e à sua custa para benefício exclusivo de terceiros que só pretendem tirar disso vantagens.
A história não é previsível e mantém o espetador interessado durante todo o visionamento mantendo a expectativa em todas as situações mesmo em cenas em que se pode julgar ser o fim das surpresas mas que novo twist no argumento reacende o interesse e a expectativa para uma solução final que não se vislumbra.
A ação é suficiente, bem desempenhada sem ser demasiada ou demasiado forçada aceitando-se sem muita resistência como razoavelmente plausível. O argumento não deixa “pontas soltas” numa história sequencial que se vê com agrado e em que Charlize Theron está igual a si própria. Recomendo, como sendo quase duas horas de bom divertimento.

Classificação: 7 numa escala de 10

14 de março de 2018

Opinião – “Pequena Grande Vida” de Alexander Payne


Sinopse

Um grupo de cientistas noruegueses descobre uma forma de encolher seres humanos e assim perspetivar uma mudança global em 200 anos que poria fim à ameaça de extinção de recursos. É assim que Paul Safranek e a sua esposa Audrey decidem abandonar as suas vidas stressantes, em Omaha, para se tornarem mais pequenos e mudarem para uma comunidade encolhida – uma escolha que irá mudar as suas vidas.

Opinião por Artur Neves

Antes da apreciação desta peregrina história julgo necessário elucidar o leitor sobre um risco a que todos estamos sujeitos decorrente do aquecimento global, provocado pela acumulação nas altas camadas atmosféricas de gases de efeito estufa. Esse aquecimento tem provocado o degelo da calote gelada do Artico e com ela a redução de espessura da camada gelada subterrânea designada por permafrost, que contém no seu interior elevadas quantidades de biomassa em fase de putrefação, geradora de metano, um gás por excelência causador do efeito estufa, que se libertado na atmosfera por rutura do seu contentor iria elevar drasticamente a temperatura na terra conduzindo-nos inevitavelmente ao extermínio e ao fim da existência tal como a conhecemos.
Considerando esta ideia, Alexander Payne conta-nos uma história com objetivos ecológicos, tendente a reverter esta calamidade através da redução de dimensão da espécie humana à altura individual de cerca de 12 cm justificando que assim produziríamos em 4 anos os detritos que atualmente produzimos em cerca de uma semana, reduzindo assim a tendência de poluição ambiental que todos conhecemos. Não resisto a comparar pela negativa esta ideia com aquela frase que diz: “se todos fosse-mos mais gordos vivíamos mais unidos” numa clara referência à utopia da união através o aumento de volume físico.
Contendo ainda outras complicações do foro sentimental, para compor o ramalhete como filme a história agrupa estes “heróis” da salvação do mundo numa congregação de liberdade, paz e amor e culto ao sol, do qual se despedem para “hibernar” numa caixa guardada nas entranhas da terra à espera que o cataclismo esperado lhes restitua o tempo de redenção e de retorno como catalisadores de um novo princípio e de uma nova ordem, como seres pequenos e mais inócuos à contaminação ambiental.
O que mais me espanta é que Alexander Payne é a mesma pessoa que já nos deu obras excelentes, tais como; “Nebraska” em 2013, e “Os Descendentes” em 2011, ou “As confissões de Schmidt” em 2002 e esse magnífico road movie que é “Sideways” em 2004 e apresenta-nos aqui esta aberração mental durante 136 minutos que desde cedo me levou a pensar nas razões desta história e a concluir inevitavelmente que Alexander Payne passou-se!...
Classificação: 3 numa escala de 10

2 de março de 2018

Opinião – “Proud Mary – A Profissional” de Babak Najafi


Sinopse

Taraji P. Henson é Mary, uma assassina profissional que trabalha para uma família de crime organizado em Boston.
A vida de Mary muda radicalmente depois de conhecer um rapaz com quem se cruzou num dos seus golpes profissionais que correu mal.

Opinião por Artur Neves

Costuma dizer-se, numa descrição simplista da atividade cinematográfica que: “o cinema dá o que a vida tira”. No contexto da frase, “o que a vida tira”, ou melhor o que se vai perdendo ao longo da vida; é a inocência, a crença num bem maior, a beleza das pequenas coisas e dos pequenos gestos das pessoas. Ora neste filme tudo isso é recuperado através da vivência na tela durante a duração do mesmo, embora se trate duma ficção sem laivos de contacto com qualquer realidade deste mundo, exceto no que concerne á violência dos atos e atitudes dos seus personagens.
A história desenvolve-se no mundo do crime, das famílias de criminosos traficantes de droga que combatem entre si pela disputa das áreas de intervenção e de controlo de distribuição e venda do produto através dos passadores que são os seus escravos e os “donos” dos viciados que deles dependem. É pois neste meio que Mary (Taraji P. Henson) desempenha o papel de assassina profissional e agente de cobranças difíceis, a mando da família de Benny (Danny Glover) que a adotou e lhe ensinou os segredos da “arte”, e do seu filho Tom (Billy Brown) principal executivo das tarefas inerentes ao negócio da família.
Mary é portanto uma competente assassina a soldo que se sensibiliza pelo filho Danny (Jahi Di’Allo Wiston) de uma das suas vítimas, depois de sem qualquer contemplação ter morto o pai do rapaz. Segue-lhe os passos, toma conta dele, dá-lhe um sentido para a vida e protege-o, por remorso, por instinto maternal, ou por outra virtude que o leitor interprete da história, quando vir o filme.
Apesar destas contradições, a história tem ação bem desempenhada, daquelas em que muitos vilões, com muitas armas disparam sem ferir ninguém e Mary com tiros certeiros de pistola mata todos, sofrendo apenas ligeiros arranhões. Bons automóveis que depois de esburacados como um passador continuam em movimento como que saídos do stand, e cenas de pancadaria e de tortura capazes de eliminar os mais fortes mas que ali servem apenas para os neutralizar temporariamente.
Todavia, a história contém ainda outros twists que embora não sendo imprevisíveis através do desenrolar dos acontecimentos, vão tentando dar corpo e esta ficção improvável e de alguma maneira divertindo o espetador, que pode tomar para si outros pontos de vista da essência da história, diferente do que eu lhe descrevo nestas linhas, estando aí o seu mérito, embora reduzido á expressão mais simples da eterna luta entre o bem e o mal. Diverte, tem muita ação e permitirá ao espetador optar pela justificação que mais lhe agradar.

Classificação: 4 numa escala de 10

1 de março de 2018

Opinião – “Fidelidade sem Limite” de Michael R. Roskan


Sinopse

Em “Fidelidade sem Limite” quando Gino (Matthias Schoenaerts), conhece Bibi (Adèle Exarchopoulos), é a paixão. Total e incandescente. Mas Gino tem um segredo. Daqueles que colocam tanto a sua vida como a vida dos que o rodeiam em grande perigo. Gino e Bibi terão de lutar contra tudo e todos: contra a razão e contra as suas próprias famílias para se manterem fiéis ao seu amor.

Opinião por Artur Neves

Viciados que estamos no cinema de romance e aventura vindo do outro lado do Atlântico é comum à maioria do público cinéfilo alguma suspeita sobre os filmes europeus do género thriller, muito particularmente quando falados em idioma Francês, normalmente mais aceites em comédias românticas com alguma (ou mesmo muita) “pimenta” à mistura. Pois bem, temos neste filme uma história que quebra esses padrões pré-estabelecidos, com muita ação bem desempenhada, a enquadrar um caso de amor total, completo e infinito para lá da finitude do objeto desse amor.
A história desenvolve-se no ambiente abastado do desporto automóvel da fórmula 1 onde se concretiza a paixão de Gino por Bibi, uma menina de família que pilota os carros F1 do pai, com o sucesso suficiente para se destacar no meio. Esse amor improvável consuma-se em cenas de amor escaldante em que ambos estão muito bem, construindo as sementes de uma união que os vincula um ao outro para lá do que seria expectável, considerando a sua diferença de estrato social e pressão familiar de Bibi.
Gino (também conhecido por Gigi) desenvolve uma atividade paralela de assaltos a bancos e a carros de valores, com os seus companheiros de infância pobre e tumultuosa, amigos com temperamento revoltado e espírito vingativo para uma sociedade que lhes foi madrasta no princípio das suas vidas. Gigi, porém, consegue ter a sensibilidade para arrebatar o coração de Bibi pretendendo através desse amor a redenção dos seus atos e a correção do seu destino que lhe é negado mais uma vez pela sociedade que justamente não perdoa os seus anteriores atos que incluem crimes muito graves.
Só nos romances de cordel é que o amor tem o poder redentor absoluto e esta história é uma ficção sobre a vida real, seus dilemas e castigos que vêm na forma do sofrimento pessoal através do sofrimento da pessoa amada. Eles são realmente dois seres sem rumo, ela por lhe ter sido dado tudo, ele por nunca ter tido acesso a nada, nem mesmo ao amor filial durante a infância recheada de nada e de abandono.
O amor que os une empurra-os para soluções cada vez mais complicadas na faixa mais sombria da escala social e o realizador consegue dar-nos a imagem de um mundo que existe, dissimulado entre os negócios de fachada para encobrir atividades ilícitas que o dinheiro tudo compra com a crueza e o realismo adequados. No final, no fim da existência de um dos amantes, quando já nada tem valor, o outro fica, fiel ao amor (“Le Fidele” no título original). Recomendo, vê-se com agrado.
Classificação: 6,5 numa escala de 10

22 de fevereiro de 2018

Opinião – “The Post” de Steven Spielberg

Sinopse

A improvável parceria entre Katharine Graham (Meryl Streep) do Washington Post, a primeira mulher na liderança de um dos principais jornais norte-americanos e Ben Bradlee (Tom Hanks), o editor do jornal, na corrida com o New York Times para expor um dos maiores encobrimentos de segredos governamentais que durou três décadas e passou por quatro presidentes americanos. Num filme empolgante, os dois protagonistas têm de ultrapassar as suas diferenças enquanto arriscam as carreiras e a própria liberdade para desenterrar verdades há muito escondidas do público.

Opinião por Artur Neves

Pretende-se demonstrar nesta história o heroísmo do jornalismo de investigação, quando ao serviço da democracia representativa denuncia em letra de forma a deturpação das regras básicas desse regime político, que embora dispendioso e falível como todas as obras humanas constitui ainda o regime mais equilibrado das relações sociais entre cidadãos.
Neste caso, trata-se da denúncia da mentira do governo americano sob a presidência de Richard Nixon, estar enganar o povo americano sobre o real estado de desenvolvimento e de perspetivas futuras da guerra em que a América estava envolvida no Vietnam. Essa fuga de informação chega ao jornal The Washington Post (The Post) e o filme de Spielberg analisa as eventuais implicações perversas que podem provocar na sociedade e no próprio jornal, considerando que se trata de divulgação de documentos classificados.
Toda a intriga da história gira em torno da decisão de publicar ou não publicar um material altamente confidencial fornecido por uma fonte secreta que segundo a deontologia jornalística não deve ser revelada. A atmosfera de indecisão é criada por dois excelentes atores; Tom Hanks e Meryl Streep em que o primeiro é o chefe de redação e a segunda a dona do jornal com ligações próximas e de amizade a figuras da primeira linha do governo em funções.
Todavia, Spilberg condena à partida o destino para aquela informação mostrando-nos como que um “destino traçado” para aquelas duas pessoas fazerem história no meio editorial americano, devido a dispensar menos importância ao processo de análise da verdade contida na informação e na fundamentação da decisão e mais tempo e texto, á gloriosa decisão de permitir a divulgação de todo aquele material escaldante que lhe caiu nos braços de proveniência “desconhecida”. Já sabemos que o jornalismo é o 4º poder e está fadado para empreender grandes mudanças sociais mas com a retórica apresentada neste filme, Spielberg dá-nos tudo de bandeja, considerando que poderia ter sido estabelecido um paralelismo entre esta América dos anos 70 e a atualidade em que mais uma vez, o inquilino da Casa Branca deturpa e fabrica a informação de acordo com as suas conveniências e com um novo aliado que são as redes sociais
Em boa verdade, Spielberg deixa alguns recados a Trump, mas toda a ação da história é frouxa, monótona, circunscrita à dicotomia da publicação e às conveniências palacianas da política que se desdobra em contactos e reuniões sempre sobre um mesmo assunto. O trabalho dos atores é realmente fabuloso e mesmo com este argumento menor, dá gosto vê-los atuar e interagir entre si através dos personagens e é para eles vai toda a classificação indicada a seguir

Classificação: 6 numa escala de 10

19 de fevereiro de 2018

Opinião – “Linha Fantasma” de Paul Thomas Anderson

Sinopse

Com o glamour da cidade de Londres do pós-guerra como pano de fundo, o renomeado costureiro Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) e a sua irmã Cyril (Lesley Manville) estão no centro da moda Britânica, vestindo realeza, estrelas de cinema, herdeiras, socialites e damas com o distinto estilo d’A Casa de Woodcock. As mulheres entram e saem da vida de Reynolds, providenciando-lhe inspiração e companhia, até que ele se cruza com uma jovem e persuasiva mulher, Alma (Vicky Krieps), que rapidamente se torna uma fixação na sua vida, como musa e amante. Antes controlada e planeada, ele vê agora a sua vida despedaçada pelo amor.

Opinião por Artur Neves

Paul Thomas Anderson conta-nos aqui a história de um amor total embora imperfeito á luz dos amores ditos “normais” que a cultura telenovelesca nos impinge diariamente em doses maciças intoxicando a eventual criatividade amorosa para lá do “politicamente correto”. A história não é propriamente edificante nem glorifica o amor nos cânones tradicionais, mas é uma ode a esse sentimento de busca universal que pode trespassar-nos a alma e levar-nos a aceitar a falência humana e até a morte em seu nome.
O argumento, igualmente escrito por Paul Thomas Anderson inspira-se vagamente na vida do estilista britânico Charles James, transmutada para o personagem costureiro Reynoldos Woodcook (Daniel Day-Lewis, soberbo no seu desempenho) homem meticuloso no seu trabalho, criativo em todo o tempo disponível, maniento em modos e comportamentos obsessivos, controlador e fiscalizador de toda a atividade em seu redor, secundado pela irmã Cyril (Lesley Manville) gestora da atividade, silenciosa, organizada, funcionalmente submissa para o génio do irmão se permitir desenvolver os modelos para a elite britânica e europeia.
Daniel Day-Lewis estabeleceu ser este o último filme da sua carreira, relativamente longa e com vários méritos decorrente do seu trabalho meticuloso em estudar os personagens que interpreta. Nada fica ao acaso no seu desempenho e isso nota-se em todos os pormenores da sua presença em cena, tantos nas suas falas estudadas de acordo com a ação, como nos seus silêncios, que nunca o são completamente, considerando a exibição duma linguagem não-verbal que exprime a complexidade dos sentimentos experimentados no momento. Neste filme ele assimilou os princípios básicos da alta-costura para melhor interpretar um costureiro fiel às suas premissas de arte.
Cyril sua irmã, é a corporização da ordem, da razão e do pragmatismo que os grandes criadores não possuem, guiando-o silenciosamente por entre os compromissos profissionais e pelos devaneios da sua paixão… direi mais!… Do seu encantamento por Alma (Vicky Krieps) que o conquista devastadoramente após um percalço furtuito no serviço de restaurante onde trabalha. Nada foi deixado ao acaso nesta história e informo que o ligeiro tropeção de Alma, precedido dos contínuos olhares, pedidos e comentários que se seguiram, bem como o serviço da refeição são bem o exemplo do meticuloso cuidado dispensado aos pormenores pelo realizador.
Depois tudo se complica, o amor, esse sentimento tão absoluto como difícil, tudo transforma até ao limite da sua própria essência. Confunde-se entrega com posse, determinismo com dádiva ao ponto dela preferir que o seu amado seja fraco e vulnerável para que os seus cuidados sejam o seu meio de subsistência. Do lado dele o seu amor leva-o a ingerir comida envenenada, subjugando-se ao seu amor sombrio, embora total. Recomendo.

Classificação: 8,5 numa escala de 10

8 de fevereiro de 2018

Opinião – “Suburbicon” de George Clooney

Sinopse

Suburbicon é o lugar perfeito para instalar uma família e no verão de 1959 a família Lodge está a fazer isso mesmo. No entanto a fachada de tranquilidade esconde uma realidade perturbadora e Gardner Lodge, o patriarca da família Lodge, terá de navegar nos bastidores sombrios dos subúrbios, as suas traições, mentiras e violência.

Opinião por Artur Neves

Suburbicon, um bairro nos arredores da grande cidade apresenta-se como uma fábula de mil maravilhas na terra de todas as oportunidades, onde tudo é perfeito para uma vida bela (e amarela, digo eu) ser vivida em toda a sua plenitude, em casas iguais com relvados muito verdes, uma igreja vistosa, um supermercado privativo e os símbolos da prosperidade galopante com os últimos progressos tecnológicos à época, 1959, ao serviço das famílias e das donas de casa a tempo inteiro que esperavam, zelosas, o seu homem regressado do trabalho, árduo mas compensador.
Porém, pela cabeça do perverso Gardner Lodge (Matt Damon) fervilha uma ideia suja para se libertar da sua esposa Rose (Julianne Moore) que vive entrevada numa cadeira de rodas como resultado de um acidente de automóvel de sua responsabilidade. Com eles, para ajudar nas tarefas domésticas, também, vive a sua cunhada gémea, Margaret (Julianne Moore) com quem ele efabula pecaminosas fantasias de traição e congemina a maneira de realiza-las sem que isso lhe traga problemas futuros. O prémio esperado, será uma idílica viagem a Aruba em ambiente de lua-de-mel com o dinheiro a receber do seguro.
George Clooney recupera aqui um argumento em jeito de comédia negra, escrito por Joel e Ethan Coen em 1980 e posteriormente abandonado em benefício de outra história; “Fargo” realizado em 1996 pelos mesmos irmãos Coen, com grande sucesso na época que lhe valeu um oscar. Como tal, não é estranho que este Suburbicon, “transpire” Fargo por todos os poros, nas suas reviravoltas surpreendentes, nas cenas de puro humor negro, nos mafiosos assassinos completamente idiotas, no arquiteto de toda a trama, Gardner Lodge, convencional e patético na sua relação com os outros e extremamente violento quando se trata de salvar a pele.
Mas Clooney (Mr. Nespresso) não é homem para se ficar pelos despojos dos Coen e para reinventar a história (a sua história) cola-lhe oportunisticamente uma defesa dos direitos civis dos negros, paternalista e politicamente correta, “plantando” uma família negra na casa em frente dos Lodge, onde vão ocorrer manifestações e contramanifestações que nada têm a ver com a história principal mas que corporizam uma mensagem antirracista para a América de Trump em consonância com a ação da sua mulher Amal, que luta pela defesa das minorias. Em meu entender não era necessário este recado de consciência social, considerando que os Meyers, a família de negros, não tem a menor relevância na história principal deste filme.
Para finalizar, uma nota de apreço e elogio a Bud Cooper (Oscar Isac) que interpreta o papel do intrometido advogado da seguradora, que facilmente suspeita da tramoia e paga isso com a vida, bem como Nicky (Noah Jupe), filho dos Lodge que não herdou a estupidez anacrónica do pai e apresenta-se como um ator a ter em conta no futuro.

Classificação: 5 numa escala de 10

1 de fevereiro de 2018

Opinião – “Todo o Dinheiro do Mundo” de Ridley Scott

Sinopse

John Paul Getty III, (Charlie Plummer) um adolescente de 16 anos e neto do homem mais rico do mundo, Sr. Getty, (Christopher Plummer) é raptado enquanto passeia em Roma. Ao perceber que os raptores exigem uma quantia exorbitante de dinheiro, a sua mãe, Gail Getty (Michelle Williams) rapidamente recorre ao sogro em busca de ajuda. Quando o Sr. Getty se recusa a pagar o resgate, Gail faz de tudo para o convencer. Com a vida do seu filho em jogo, Gail alia-se ao braço direito do Sr. Getty, Fletcher Chase (Mark Wahlberg) numa corrida contra o tempo que revela a verdade sobre o valor do amor vs dinheiro, nas grandes fortunas.

Opinião por Artur Neves

Esta história relata um dos eventos mais marcantes na vida do primeiro grande magnata da exploração petrolífera americana, Jean Paul Getty, primeiro explorador do petróleo da Arábia Saudita e fundador da Getty Oil, posteriormente adquirida pela Texaco e integrada nesta em 1984. Paul Getty foi um milionário colecionador de arte e de antiguidades que estão expostas na sua mansão em Malibu, atualmente transformada em museu, na Califórnia.
Adicionalmente, este filme contém ainda outro aspeto curioso, embora externo à história, considerando que após as acusações de assédio sexual que explodiram e ainda proliferam nos USA e atingiram o ator Kevin Spacey inicialmente convidado para o papel de Paul Getty, este foi substituído por Christopher Plummer, tendo o realizador Ridley Scott refilmado todas as cenas em que intervinha Kevin Spacey, substituindo-o pela sua nova escolha.
Assim, “Todo o dinheiro do Mundo” apresenta-se como uma grande produção que mistura dados biográficos com um thriller que confere ritmo e ação ao filme, ao sabor e ao tom de um grande realizador que já nos apresentou muito boas obras neste género. E isso nota-se, considerando que os dois aspetos anteriormente mencionados, a biografia e o thriller, se rivalizam na medida que tornar factos reais, de pessoas reais, em ação e suspense não é propriamente uma tarefa linear.
David Scarpa, escritor do argumento baseado no livro de John Pearson, consegue essa proeza através da alternância narrativa entre a descrição da vida do magnata, o cativeiro do neto, a intervenção do homem de confiança do avô Fletcher Chase e o desespero angustiado de uma mãe que se vê limitada de meios para salvar o seu filho mas que não pára de lutar com todas as “armas” ao dispor, mesmo admitindo que luta contra forças inamovíveis e poderosas.
Ridley Scott confere essa dinâmica ao relato fílmico através de flashbacks sobre o magnata, sua vida profissional e familiar, dando ao espetador toda a informação que é necessária em cada momento, conduzindo-o no seu raciocínio e na sua observação dos factos, não deixando a ação descambar para a aventura fácil dos polícias bons e dos vilões maus, pois todos têm a sua posição bem demarcada naquela história, nem sempre lisonjeira para um dos lados e surpreendente de onde menos se esperava.
Corporiza assim um espetáculo que se vê com agrado durante os seus 132 minutos de duração mas em que o tempo não nos pesa, marcado por diversas voltas da narrativa que nos inspiram reflexões sobre a vida e sobre o que significa; verdadeira felicidade.

Classificação: 8 numa escala de 10

25 de janeiro de 2018

Opinião – “Chama-me pelo teu Nome” de Luca Guadagnino

Sinopse

Verão de 1983, norte de Itália. Elio Perlman (Timothée Chalamet), um precoce rapaz italo-americano de 17 anos, passa as férias na casa de família, uma mansão do século XVII, a transcrever e tocar música, a ler e a nadar. Elio tem uma relação próxima com o seu pai (Michael Stuhlbarg), um famoso professor especializado em cultura greco-romana, e a sua mãe Annella (Amira Casar), tradutora. Apesar da sua educação sofisticada e talento natural, Elio continua a ser bastante inocente, principalmente em assuntos do coração.

Opinião por Artur Neves

O amor, tão profusamente abordado em cinema, tem nesta história um lugar de destaque em toda a obra, não só pela abordagem que lhe foi feita, como pela delicadeza pueril com que se conta a história do despertar da sexualidade de um jovem e do amor que este dirige para outro homem, adulto jovem, também gentil e delicado, embora com uma presença de “estrela de cinema”, por vir da América, pela sua estatura atlética, simpático, disponível e atraente logo ao primeiro contacto.
Luca Guadagnino, de origem Italiana, nascido em Palermo em 1971, apresenta-nos agora o ultimo romance da trilogia “Desejo” escrita por André Aciman, utilizada para argumento dos filmes; “Eu sou o Amor” de 2009 e “Mergulho Profundo” em 2015, também realizados por ele com assinalável êxito.
A história decorre numa quinta de uma família abastada e culta que não descura a educação de Elio embora lhe permita toda a liberdade de que ele precisa para crescer e evoluir de modo sadio e civilizado. Naquele verão Elio descobre a sua sexualidade no relacionamento com Chiara (Victoire do Bois) mas vacila na sua orientação entrando em competição com outras raparigas do lugar que se sentem atraídas por Oliver (Arnie Hammer) o charmoso investigador universitário americano que vem concluir a sua formação em cultura greco-romana com o pai de Elio, especialista na matéria.
Oliver corresponde ao chamamento de Elio e ambos vivem em segredo uma relação de amor e de desejo que começa num companheirismo afetivo e evolui para níveis superiores de pertença, permitindo-lhes viverem naquele cálido verão o amor das suas vidas. O brilhantismo do filme assenta portanto na evolução de um relacionamento “fora da caixa” contado durante 132 minutos de modo a esmiuçar os pormenores da descoberta de si, através duma paixão acidental, mas avassaladora que lhes veio revelar as suas verdades intrínsecas e provar que a nossa vida é feita por nós próprios e pelas escolhas que assumimos em determinadas alturas.
A reboque do amor também lá estão ilustrados; o ciúme, a dúvida decorrente da entrega que leva à frustração quando sentimos que o tempo muda tudo, até o grande primeiro amor das nossas vidas. Extraordinariamente bem contado é um filme que se vê sem pressa, permitindo-nos compreender as personagens nas suas expectativas e prazer mas precisa ser encarado sem convencionalismos nem ideias feitas, aceitando que o amor é um sentimento de “banda larga”. A ver recomendo

Classificação: 8,5 numa escala de 10

23 de janeiro de 2018

Opinião – “Maze Runner – A Cura Mortal” de Wes Ball

Sinopse

Em “Maze Runner: A Cura Mortal”, Thomas lidera o seu grupo de Clareirenses na sua última e mais perigosa missão. Para salvar os seus amigos, eles devem invadir a lendária Última Cidade, um labirinto controlado pela CRUEL que pode vir a ser o labirinto mais mortal de todos. Qualquer um que consiga sair de lá com vida, receberá respostas às perguntas que os Clareirenses têm feito desde que chegaram ao labirinto.

Opinião por Artur Neves

Na sequência de “Maze Runner – Correr ou Morrer” em 2014 e “Provas de Fogo” em 2015, surge agora mais este filme em 2018 que embora sem dar declaradamente continuidade às histórias anteriores cumpre o conteúdo do 3º livro desta saga de: James Dashner, escritor de histórias de ficção especulativa, histórias infantis e de fantasia para crianças e adultos.
Deste modo, este 3º filme repleto de aventura e de efeitos especiais, recheado de ação e conduzido pela mão de Wes Ball, também realizador dos dois filmes anteriores, inclui sequências de perder o fôlego quer pela sua ousadia de representação como pela impossibilidade de ocorrência real. Como o fim último é o entretenimento e a fruição de uma aventura improvável num mundo distópico, tudo é permitido e o espetador deve saber ao que vem e intuir o que o espera.
De livro para livro as histórias não apresentam propriamente uma sequência de eventos nem um fio condutor, mas são desempenhados pelos mesmos personagens que nos filmes, Wes Ball conseguiu que fossem sendo interpretados pelo mesmo lote de atores que decorrente do seu crescimento como pessoas, implica diferentes relações entre si nas ações em que estão envolvidos.
A história é muito simples, como convém em filmes que privilegiam a componente visual da ação e da aventura que neste filme toma grande dimensão potenciado pela sua realização em 3D. Trata-se de combater a instituição CRUEL, que escraviza humanos saudáveis para servirem de cobaias nos testes de desenvolvimento de uma vacina e de um antídoto para combater um vírus que transforma os humanos em zombies, mas não a disponibilizando universalmente para assim conseguir um controlo seletivo de raça e de espécie, de acordo com as suas necessidades de domínio hegemónico, efetuando uma segregação discricionária e injusta.
Tenho recebido vários comentários de pessoas que não são sensíveis às imagens estereoscópicas produzidas em filmes com tecnologia 3D e lamento que assim seja porque esta técnica está particularmente adequada a filmes de ação como este em que metade do seu interesse reside precisamente no reconhecimento da tridimensionalidade dos objetos que inserem o espetador na história, tornando o espetáculo mais imersivo do ponto de vista visual. Para além disto, o que fica é realmente muito pouco, uma história poucochinha de um amor atraiçoado, uma aliança entre machos que se entreajudam e emocionantes aventuras e batalhas que devem parte do seu fulgor à tecnologia 3D, sem a qual parecerão banais.

Classificação: 4 numa escala de 10

10 de janeiro de 2018

Opinião – “O Sacrifício de um Cervo Sagrado” de Yorgos Lanthimos

Sinopse

Steven é um cardiologista conceituado, casado com Anna, com quem tem dois filhos. Já algum tempo que ele mantém contacto frequente com Martin, um adolescente cujo pai morreu na mesa de operação, justamente quando estava a ser operado por Steven. A relação entre ambos é de uma cumplicidade enorme que o médico decide apresentá-lo à família. Entretanto o jovem sente que não está a receber a mesma dedicação e por isso, decide elaborar um plano de vingança.

Opinião por Artur Neves

Em 2009 Yorgos Lanthimos torna-se notado no mundo cinematográfico com o filme “Canino” que mostrava uma forma algo estranha de educar jovens, neste caso os jovens eram filhos do próprio educador que apresentava tendências despóticas e autoritárias, provocando nos filhos, revolta e o inerente desequilíbrio de personalidade. Mas tudo bem a história continha também uma crítica implícita ao modo de educação apresentado e o filme ficou como uma referência temática.
Em 2015 este realizador Grego nascido em 1973 em Atenas apresentou-nos “A Lagosta” como sendo uma forma inovadora de tratar os desequilíbrios mentais de pessoas em qualquer idade, tendo o filme sido premiado em festivais, considerando alguma razoabilidade do argumento que embora ficcional e fantasista, mostrava coerência na ação desenrolada na história.
Agora em 2017 Yorgos apresenta-nos esta história que pretende ser um filme sobre a culpa, pois um médico faz amizade e tenta compensar o filho do homem que morreu às suas mãos quando ele o operava debaixo do efeito do álcool. Esta relação é-nos apresentada sob contornos dúbios pois mostra-nos um afeto de obrigação, sem carinho explícito mas com um desvio “subliminar” para a perversão sexual velada e nunca assumida por qualquer dos intervenientes, que sugere alguma perplexidade ao espectador.
A mulher do médico Anna (Nicole Kidman) vive com este, Steven (Colin Farrell), numa bela casa nos arredores da cidade e ambos disfrutam de um ambiente social de classe média alta em que a sua relação íntima é-nos apresentada distorcida, considerando que na preparação para um contacto amoroso de índole sexual a mulher faz-se de morta sendo nessa condição possuída pelo marido, indiciando mais fortemente uma perturbação de personalidade já aflorado anteriormente na relação com o rapaz.
Este rapaz, por seu lado, mostra descontentamento no nível de relação do médico com ele e roga-lhe uma praga de morte a toda a família a menos que um dos elementos seja sacrificado como compensação para a morte do seu pai, sem que se saiba qual é o poder que o rapaz tem sobre ele, exceto a acusação de culpa pela morte do seu pai. A partir daqui a punição (segundo a mitologia Grega) que dá o nome ao filme (em que Ifigénia é sacrificada em benefício do cervo sagrado) vai cumprir-se e o sacrifício do seu próprio filho é executado como compensação pela morte que ele infligiu ao seu paciente durante a operação falhada por sua própria responsabilidade.
É pois este imbróglio que Yorgos apresenta ao espectador com este filme, mas de uma forma algo “doutoral”, ensimesmado pela representação que deu à imputação da “culpa”, incluindo uma superioridade paternalista, através de personagens sem espessura que nunca chegamos a conhecer ou sequer a fazer um juízo concreto das suas atitudes, porque no cerne deste filme de Yorgos, ele está lá para nos dizer precisamente tudo o que precisamos de saber, cabendo ao espectador apenas ver e ouvir sem quaisquer outros comentários. Passou-se!...

Classificação: 4 numa escala de 10

8 de janeiro de 2018

Opinião – “Três Cartazes à Beira da Estrada” de Martin McDonagh

Sinopse

“Três Cartazes à Beira da Estrada” é uma comédia dramática do vencedor do Oscar Martin Mcdonagh com; “Em Bruges”. Depois de meses sem ser encontrado o culpado no caso do homicídio da sua filha, Mildred Haynes (vencedora de um Oscar Frances McDormand) faz uma jogada ousada ao alugar três cartazes à entrada da cidade com uma mensagem polémica dirigida a William Willoughby (nomeado para o Oscar Woody Harrelson), o respeitado chefe de polícia da cidade. Mas quando o seu adjunto Dixon (Sam Rockwell), um menino da mamã imaturo com uma inclinação para a violência, se envolve, a batalha entre Mildred e a lei de Ebbing, descontrola-se.

Opinião por Artur Neves

Temos de volta uma história da América profunda que neste filme acentua o caráter rural e atávico de uma comunidade fechada sobre si própria, envolvida mas em paz com os seus próprios problemas desde que eles não agitem a pacatez social e a ordem estabelecida, permitindo a cada um fazer e agir como melhor lhe aprouver e até manter uma polícia local que cultiva o que de pior a América tem em preconceito racial, homofobismo, laxismo e inépcia operacional.
A história é simples e direta (como é apanágio dos vencedores) e o ambiente criado assemelha-se ao oscarizado filme de 2007; “Este País não é para Velhos”, embora menos violento, mais mordaz e cínico do ponto de vista da crítica social que a história aborda, através de personagens fortes e bem caracterizados pelos atores acima mencionados que criam a tensão perfeita nesta “comédia negra” já galardoada na 75ª edição dos Globos de Ouro 2018 na categoria; Melhor Drama.
A utilização dos cartazes à beira da estrada para denunciar a dor de uma mãe pela perda de uma filha, num hediondo crime sexual ainda impune é o gatilho que afeta transversalmente toda a sociedade da cidade de Ebbing no estado do Missouri, provocando as mais díspares reações sociais, a favor e contra a denúncia, que põem a nu as contradições das forças vivas mais representativas e estimáveis da cidade, tais como a lei e a religião que se sentem atingidas na sua missão de ordem, a primeira, e de fé conformista, a segunda, cuja agitação em curso não lhe é favorável à sua progressão.
Como se tudo não bastasse, nos “subterrâneos” da alma de cada um dos humanos envolvidos naquele drama emergem todos os conflitos e compromissos latentes estabelecidos no passado que agora emergem e se confrontam entre si, revelando as suas naturezas, os seus pecados e a vergonha de os terem cometido em momentos de fraqueza e que atualmente colidem frontalmente com a dor do momento.
Muito bem estruturado e interpretado este filme vê-se, por vezes com um sorriso amargo, e noutras como um murro no estomago, pelas palavras contidas nas cartas do chefe da polícia William Willoughby antes do seu suicídio, tentando corrigir in extremis tudo o que de muito mau foi cometido nesta história. A ver, recomendo vivamente.

Classificação: 8,5 numa escala de 10