3 de abril de 2020

Opinião – “Cloud Atlas” de Tom Tykwer e Lilly e Lana Wachowski


Sinopse

Cloud Atlas explora como as ações e as consequências das vidas individuais se afetam mutuamente no passado, no presente e no futuro. Ação, mistério e romance se entrelaçam dramaticamente ao longo da história, à medida que uma alma é transformada em assassina em herói e um único ato de bondade ondula ao longo dos séculos para inspirar uma revolução no futuro distante. Cada membro do conjunto aparece em vários papéis à medida que as histórias se movem no tempo.

Opinião por Artur Neves

Numa altura de endurecimento das medidas restritivas de movimentação e de insistente recomendação de permanência em casa recomendo um filme que areja a imaginação e nos justifica a permanência em casa por 172 minutos. É um filme de grande orçamento, US$ 100 milhões, já raro em Hollywood, mas que ainda assim foi coberto pela receita, tendo dado lucro aos produtores.
Cloud Atlas, estreado em 2012 é baseado no romance de David Mitchell com o mesmo nome e reuniu várias nomeações para prémios literários, não sem que o seu autor fosse acusado de ambição desmedida para o fim a que se propunha, abordando um tema entre o místico e o científico, muito embora a ciência nunca tenha apresentado dados, nem teses concretas sobre a reencarnação da espécie ao longo dos tempos.
O filme não vai tão longe e ainda bem. Tom Tykwer e as irmãs Wachowski que são também os autores do argumento pegaram nas seis histórias descritas no livro entre os anos de 1849 e 2321 e entreteceram eventos demarcados no tempo com personagens que se ligam por uma marca de nascença em forma de cometa que os vincula a uma referência originária, perene e continuadora de comportamentos pré estabelecidos, por uma genealogia ancestral que se renova sucessivamente.
Os eventos que compõem cada história estão remotamente relacionados e resultam muito bem em cinema pela explosão de cores e cenários que apresentam, numa imagem bem conseguida que nos transporta do sublime ao ridículo e nos prende durante todo o tempo.
O elenco é liderado por Tom Hanks e Halle Berry, coadjuvado por outros atores de primeira grandeza e por um número significativo de bandas britânicas da época que corporizam personagens que ao longo de cada segmento do filme enfatizam o tema da reencarnação e a repetição dos ciclos de vida com uma finalidade comum em cada época em que são retratados.
Não é um filme que se possa contar, ou onde se possa destacar um resumo lógico, porque a interpretação de cada imagem é propriedade de quem a vê, mas no seu todo, mostra ação, romance, investigação filosófica, cenas ridículas com sotaques tolos que macaqueiam personalidades burlescas em atitudes reais, numa vertigem sequencial que pretende confundir o espectador até o levar com ele embora sem saber bem porquê.
Pode dizer-se que é um filme indisciplinado e louco, o que todavia não constitui qualquer obstáculo para um filme épico que passa por exemplo, de uma comédia contundente num lar de idosos em Inglaterra para uma corrida de carros voadores na Coreia, ou que apresenta um assassino loiro quase branco, uma histriónica enfermeira de seios enormes segundo o modelo dos Supertramp em Breakfast in América ou o mais improvável maestro nazi.
Há reclamações de que o filme é confuso e em boa verdade não posso deixar de concordar, contudo afirmo não ser pior do que alguns, muitos, episódios da série “Game of Thrones” que tanto sucesso teve e analisando o seu conceito macro percebe-se que cada história, com o seu enredo próprio, consegue ligar-se ao longo dos tempos em que decorre sendo isso o elemento determinante do seu interesse e importância.
Está disponível amanhã, 4 de abril, pelas 21h30’ no canal NOS Stúdio, ou em qualquer altura se tiver possibilidade de “viajar no tempo”, ou então no canal Neteflix. De qualquer modo prometo que não se vai arrepender.

Classificação: 8 numa escala de 10

31 de março de 2020

Opinião – “Mistério a Bordo” de Kyle Newacheck


Sinopse

Para renovar os votos de casamento, um polícia de Nova Iorque e sua esposa embarcam numa viagem para a Europa. Durante o voo, eles conhecem um homem misterioso que os convida para passar o fim de semana no iate do bilionário Malcolm Quince. Contudo, quando o mesmo é encontrado morto, o casal americano torna-se o principal suspeito do crime. Juntos, eles tentarão a todo custo investigar o caso e provar sua inocência.

Opinião por Artur Neves

Numa altura em que o tempo e a vida se esvaem sem utilidade nem préstimo, neste confinamento domiciliário obrigatório embora prudente, seria bom conseguir parar o cérebro e para ajudar a esse objetivo nada melhor do que uma comédia de mistério e romance com um ator (Adan Sandler) que se reinventou nesse extraordinário filme, também já comentado neste blogue; “Diamante Bruto” para a mesma produtora, Netflix, que nos traz a presente proposta.
Trata-se de uma história policial na linha dos contos de Agatha Christie com o seu Poirot de pacotilha na figura de Nick Spitz (Adam Sandler) com todos os ingredientes do género incluindo a sábia exibição da dedução do crime perante todos os suspeitos do costume reunidos em plácida e atenta audição, bem como o responsável da polícia local, Inspetor de la Croix (Dany Boon) incluído na contemplativa assistência.
Só que nenhum dos personagens corresponde ao figurino da mestra, Nick e sua esposa Audrey Spitz (Jennifer Aniston) que até já foram casados na vida real, estão a bordo do iate do magnata Malcolm Quince (Terence Stamp) sempre sério e respeitável como o conhecemos, por razões avulsas e casuais, constituindo a categoria de “penetras” numa reunião familiar com a qual não têm relação alguma e assistem ao assassinato de Quince, em plena cerimónia de anúncio do casamento deste com Suzi Nakamura (Shioli Kutsuna) ex-namorada de Charles Cavendish (Luke Evans) e da comunicação da alteração do testamento, inicialmente distributivo pelos presentes a agora destinado a uma única pessoa.
Nestas condições o casal Spitz torna-se o alvo preferencial de incriminação pelo assassino e já que a polícia é incapaz de deslindar o enredo por de traz do crime, caberá a eles defenderem-se provando a sua inocência através da descoberta do verdadeiro culpado.
É a partir daqui que a paródia se desenrola, com fugas mirabolantes, assassinatos de outros intervenientes, perseguições de carros nas ruas estreitas do Mónaco ao melhor nível de James Bond, com o casal Spitz no centro das operações, ele como candidato chumbado no exame a detetive e literalmente sem pontaria na utilização de armas de fogo e ela, cabeleireira de profissão, mas arguta no raciocínio de investigação e líder da “equipa” assim formada, que tem de descobrir os culpados.
O argumento é simples e o realizador Kyle Newacheck aposta forte na capacidade interpretativa dos seus personagens, criando condições que nos fazem pensar que todos são culpados, e de facto são, se nos deixarmos arrastar pela vertigem dos gags mais ou menos comuns de um grupo bem disposto que só nos quer animar. Aniston e Sandler mostram suficiente amizade depois do divórcio que podemos ainda vislumbrar alguma química entre eles e ela dedicou-se de tal modo ao personagem que o faz brilhar uns “furos” acima do de Sandler, justificando a sua escolha.
Nesta altura, a carreira de Adan Samdler ainda está congelada nas travessuras avulsas que é comum ele mostrar nos filmes que fez até aqui. A tentativa de ser o maior e o mais corajoso, a indumentária escolhida para um jantar de cerimónia, o cartão prenda de US $50 que ele comprou para oferecer a Audrey no aniversário dos seus 10 anos de casamento.
É um filme para ver e esquecer, tal como o tempo que vivemos é igualmente para esquecer, vale enquanto dura e se durante esse tempo nos conseguirmos alhear dos problemas que nos cercam, vale completamente a classificação que lhe atribuo a seguir.

Classificação: 6 numa escala de 10

26 de março de 2020

Opinião – “Transiberiano” de Brad Andersen


Sinopse

Depois de uma missão religiosa na China, Roy (Woody Harrelson) e Jessie (Emily Mortimer) decidem fazer a viagem de regresso no célebre Expresso Transiberiano, passando por Moscovo. Durante o longo percurso de seis dias, travam conhecimento com Carlos e Abby, um estranho casal. Apesar de parecerem dois turistas como quaisquer outros, cedo revelam não ser o que aparentam. Mas quando dois detectives russos entram no comboio, Jessie compreende que algo terrível vai acontecer. Ela e Roy acabam por tornar-se alvos de uma investigação, comandada por um ex-detective do KGB (Ben Kingsley), e que envolve tráfico de drogas.

Opinião por Artur Neves

Proponho hoje a revisitação de um filme que foi estreado em Portugal em Julho de 2009 e que pode ser visto amanhã, dia 27 de Março no canal NOS – Studio às 01h:55’ ou à hora que mais lhe convier desde que possa “viajar no tempo” e assistir ao filme em diferido, durante uma semana a contar da data de projeção. Outra opção é encomendar o DVD na Fnac por €5, ou adquirir o Blu-Ray na Amazon por €6. Apesar de se tratar de um filme com 11 anos ainda é agradável e emocionante de assistir.
A história decorre numa viagem do comboio Transiberiano, que liga Pequim a Moscovo através das paisagens geladas da Sibéria acompanhando a viagem de uma casal americano jovem; Roy (Woody Harrelson, quando ainda interpretava personagens de jovem inconsciente) e Jessie que travam conhecimento com outro casal jovem, mas não inconsciente como eles; Carlos (Eduardo Noriega) e Abby (Kate Mara) e se envolvem numa relação de proximidade que posteriormente se revela comprometedora.
Roy e Jessi regressam de uma missão de caridade na China organizada pela sua igreja e utilizam aquele meio de transporte por uma questão de aventura, recusando o voo que lhes estava destinado. Vamos posteriormente descobrindo que a relação entre os dois resultou de um desastre provocado por álcool e droga e que ambos se ampararam entre si na recuperação. São dois seres em expiação de culpas passadas.
Carlos e Abby, pelo contrário são dois mochileiros que viajam por vocação à procura do seu lugar no mundo não rejeitando tarefas ilegais que lhe possam render dinheiro fácil. Todavia, Carlos procura deliberadamente o sucesso a qualquer preço, enquanto Abby apenas pretende conseguir resgatar o seu paraíso idílico, numa postura diferente da do seu companheiro.
A história complica-se quando Roy conhece Grinko (Ben Kingsley), um inspetor Russo do departamento de narcóticos que nunca mais o larga e se esforça por lhe tentar ensinar Russo em todas as situações e se insinua na vida do casal sem uma razão explicita que a suporte. Adicionado a isto, os colegas de de Grinko na investigação não aparentam a condição de polícias, sendo desculpados por este com respostas evasivas. Apenas a insistência de Grinko na envolvência com o casal provoca a subida de tensão nos diálogos e nas cenas.
Aqui chegados, temos o quadro completo do “suspense hitchcockiano", um meio confinado ao comboio em movimento, um número de personagens restrito e já conhecido, embora não completamente definido, e uma história que começa a revelar as suas mutações com todos os personagens a terem alguma coisa para esconder para conseguirem manter as premissas anteriormente assumidas. Em cada quadro do enredo, em cada insistência de Grinko, em todas as aproximações de Grinko ao casal Roy e Jessi pode sentir-se a presença velada do mestre do suspense e da emoção crescente.
O deserto árido e gelado da Sibéria reforça o isolamento dos personagens e constitui o elemento estático da tensão e da insegurança que o realizador Brad Andersen constrói lentamente desde as primeiras cenas, onde ninguém pode sentir-se seguro, porque a sugestão do desastre é iminente, todavia, quando acontece não corresponde ao que se esperava e isso é divertimento puro de cinema. Recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

23 de março de 2020

Opinião – “Contágio” de Steven Soderbergh


Sinopse

Um vírus letal, altamente contagioso e transmitido pelo contacto com pessoas infetadas ou com objetos que estas tenham tocado, espalha-se rapidamente pelo planeta, enquanto a comunidade científica tenta descobrir uma possível cura.
Contudo, a sociedade mostra-se cada vez mais vulnerável à pandemia.

Opinião por Artur Neves

Não, não é por razões mórbidas que retorno a um filme estreado em Portugal em Outubro de 2011 sobre o contágio generalizado de uma população por um vírus letal, mas sim pela semelhança com os tempos que estamos vivendo agora, podendo em algumas situações aquela história tornar-se premonitória, de tão bem informada sobre os procedimentos a tomar, consequências diretas, e indiretas nas redes sociais que começavam a despontar em que Alan (Jude Law) é o seu principal dinamizador, e ações a desenvolver. Atualmente este videograma está disponível na plataforma de streaming; Amazon Prime Video.
O filme começa no segundo dia do contágio e revela, numa atitude algo moralista, que a causa foi o contacto numa relação extra matrimonial de Beth Emhoff (Gwyneth Paltrow) em Hong Kong, com o seu antigo namorado que já se encontrava contagiado, e onde ela se deslocou em trabalho. Todavia, para a história o que interessa sublinhar é que ela foi o paciente zero a contrair por contágio a nefasta doença que se propagará pelo mundo.
Por razões não explicadas na história, Mitch Emhoff (Matt Damon) marido de Beth é imune ao vírus e fica a tomar conta do filho de ambos Clark (Griffin Kane) quando Beth, pouco depois de ter chegado a casa, em completa falência física, tem necessidade de ser internada no hospital e falece da doença sem cura. Esta é principal diferença do vírus para atualidade, pois como sabemos a Covid-19 embora mate, mata lentamente e com moderação.
Steven Soderbergh, realizador americano cuja atividade de realização foi abandonada, tendo-se dedicado à produção de filmes e séries documentais, constituiu no seu tempo uma referência em Hollywood decorrente do pormenor e veracidade que impunha às suas realizações, sempre complementadas por uma noção de arte segundo um formalismo abstrato que tornava a história dos filmes direta e escorreita.
Assim, este é um filme metódico, sem câmara na mão em que o Dr. Ellis Cheever (Laurence Fishburne) epidemiologista, dirige os seus mais diretos colaboradores; Drª. Erin Mears (Kate Winslet) para o Minnesota para acompanhar a evolução da infeção e Drª. Leonora Orantes (Marion Cotillard) responsável na sede da OMS pelo departamento de virologia, voa para Hong Kong para investigar as causas da infeção, enquanto o Dr. Ian Sussman (Elliott Gould) acompanha a evolução da doença e a investigação de uma vacina em S. Francisco.
As cenas desenvolvem-se em vários “tabuleiros”, tudo muito metódico e acético como convém fazendo-nos sentir o progresso da pandemia, com diálogos rápidos, desempenhos individuais setorizados, á medida que a infeção se desenvolve sem possibilidade de retorno.
Toda a história segue uma cronologia segura da crise em desenvolvimento, Soderbergh dá-nos pistas e permite que tenhamos as nossas suspeitas. É um filme de desastre, com pânico e caos, e no final, torna-se simplista e ingénuo, apresentando o primeiro dia do contágio e a origem do vírus, como que a dizer-nos que a globalização como solução económica pode trazer-nos reveses que não previmos. Teve o seu tempo, é certo, mas ainda continua visível, nomeadamente no tempo estranho que atravessamos.

Classificação: 6 numa escala de 10

19 de março de 2020

Opinião – “Lost Girls” de Liz Garbus


Sinopse

Quando Shannan Gilbert, de 24 anos, desaparece misteriosamente certa noite, a sua mãe Mari (Amy Ryan) inicia um percurso obscuro onde tem de encarar difíceis verdades sobre a sua filha, sobre si própria e ainda a indiferença da polícia.
Determinada a encontrar a sua filha, Mari Gilbert revisita os últimos passos conhecidos de Shannan, levando a cabo a sua própria investigação que a conduz a uma comunidade fechada nos arredores de Long Island. As suas descobertas obrigam as autoridades e os meios de comunicação a revelar mais de uma dezena de homicídios de profissionais do sexo por resolver - vidas de jovens que Mari não deixará que caiam no esquecimento.
Inspirado no livro "Lost Girls: An Unsolved American Mystery", de Robert Kolker.

Opinião por Artur Neves

Nestes dias estranhos o streaming da Netflix é uma opção para a ocupação do tempo que nos resta e no caso do presente filme trata-se de mais uma teatralização da vida real com base numa história verídica, que infelizmente não é nova, ao ponto de já pertencer a um livro que não permite que estes casos caiam no esquecimento.
A história que este filme nos conta é real e sombria e relata o mistério do desaparecimento de uma profissional do sexo de 24 anos que sendo perseguida na noite do dia 1 de Maio de 2010 e apesar de conseguir realizar uma chamada para a linha de emergência e de pedir socorro, não foi atendida e a polícia demorou dias antes de organizar uma investigação, depois da comunicação de desaparecimento feita pela sua mãe e após transcorrido o prazo legal para que a sua ausência seja considerada desaparecimento, a partir da data da denúncia.
No telefonema ela ainda conseguiu gritar “eles estão tentando matar-me” mas a hora avançada e o local da chamada, indiciavam uma atividade censurável muito comum da zona que implica um estigma social. Só uma mãe lamenta a sua filha desaparecida, seja ela trabalhadora do sexo ou não, e sabe que ela nunca será considerada como; “amiga, filha, irmã” de alguém, mas sempre e só, com o estigma da sua atividade.
Embora a história reporte um caso de polícia o argumento faz da mãe de Shannan Gilbert a protagonista, com o sabor amargo de ser também corresponsável pela atividade profissional da fila decorrente do abandono a que a votou, na sequência do seu divorcio, crise de bebida e droga e abandono pessoal.
Hoje Mari já está recuperada, procura a redenção através da sua luta diária em manter a estabilidade social e suprir as necessidades das suas duas filhas mais novas, através do trabalho que desenvolve em dois empregos modestos em Ellenville, Nova York. Todavia isso não lhe alivia o remorso das muitas coisas que ela não sabia, ou que recusava saber, sempre que pedia dinheiro a Shannan Gilbert para satisfazer os seus vícios.
É também a história de uma mulher com raiva de si, que não pode aceitar sozinha o remorso da sua culpa, tentando incluir a sociedade que igualmente não lhe foi favorável. Ela acusa a polícia de inação e desinteresse, afirma que fez tudo pela filha, sem acreditar no que diz e movida pela vergonha, organiza uma manifestação de protesto com as mães das outras raparigas, cujos cadáveres foram encontrados pela polícia na mesma área, quando finalmente se decidiram iniciar uma investigação. Mari (Amy Ryan) constrói aqui um personagem credível de meia idade, com um rosto duro e sem brilho, emoldurado por uma cabeleira loura que contrasta com a sua expressão de raiva e remorso.
É pois uma história multifacetada que apresenta uma atitude defensiva e reacionária da polícia, que se opõe à angústia de mães enlutadas, em luta contra a proteção das autoridades aos ricos e poderosos que embora suspeitos, não passam dessa condição. Aliás, Richard Dormer (Gabriel Byrne) encarregado da investigação é um homem cansado, vencido pela vida e à beira da reforma que ele não pretende complicar. Interessante e emotivo, vale a pena ver.

Classificação: 6 numa escala de 10

10 de março de 2020

Opinião – “A Verdade” de Hirokazu Koreeda


Sinopse

Fabienne (Catherine Deneuve), um ícone do cinema, é a mãe de Lumir (Juliette Binoche), que escreve argumentos em Nova Iorque.
A publicação das memórias daquela grande atriz leva Lumir a regressar à casa da sua infância, com a família.
Mas o reencontro depressa virará confrontação: verdades abafadas, rancores inconfessados e amores impossíveis revelam-se sob os olhares espantados dos homens. Fabienne está a fazer um filme de ficção-científica onde tem o papel da filha envelhecida de uma mãe perpetuamente jovem. Realidade e ficção confundem-se, obrigando mãe e filha a reencontrar-se…
Realizado pelo japonês Hirokazu Koreeda, “A Verdade” é o primeiro filme do realizador após a nomeação de ‘Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões’ ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Opinião por Artur Neves

A primeira coisa que me surge para dizer sobre este filme é que é um filme estranho, se não vejamos: Realizado pelo japonês Hirokazu Koreeda detentor da Palme d’Or em Cannes 2018 com o filme “Shoplifters: Uma família de Pequenos Ladrões” a dirigir um filme de ficção científica em França, com Fabienne Dangeville (Catherine Deneuve), que com 73 anos é mais velha do que a mãe, Amy (Ludivine Sagnier) que não envelhece por estar a viver num outro planeta longe da Terra e deslocou-se para ver a filha.
Por seu lado Fabienne, recebeu a visita da filha, Lumir (Juliette Binoche) argumentista, que vive em Nova Yorque com seu marido Hank (Ethan Hawke – um ator que nunca valorizei mas que está francamente a melhorar) e a filha do casal, Charlotte (Clémentine Grenier) numa história de família falada em Francês e Inglês, incluindo a pequena Charlotte, um cão, mas que nem ladra e um cágado… obviamente mudo.
Confuso?... eu também fiquei, mas as coisas vão-se compondo com uma história irónica, uma Fabienne coquete que se assume como mentirosa, alegando que por ser atriz tem todo o direito para tal e uma Lumir que viaja até à Europa para assistir ao lançamento do romance autobiográfico da mãe, depois de lhe corrigir a versão final do texto, reconhecendo-lhe as inverdades que ela recorda de atenções e cuidados pela filha, mas de que ela não se lembra e os contesta.
Fabienne não liga muito ao assunto nem às correções apontadas pela filha e admite alegremente as falhas referidas por Lumir justificando-se com o facto de a verdade ser mais chata do que a versão que ela arranjou para o livro, ter querido ser melhor atriz do que realmente é, ser egoísta, frívola, sem instintos maternais e oportunista em usar os outros a seu belo prazer, fazendo-se amar apenas pelos que não a conhecem ou privam de perto com ela. Despachou o marido, pai de Lumir, e vive já com o terceiro substituto cuja principal caraterística é servir-lhe sempre o chá à temperatura que ela gosta, apesar de ser um desastre na cama.
Uma temática destas não é comum em filmes franceses, particularmente com atores tão significativos da cultura francesa, portanto só pode ser classificado como um filme estranho. Por outro lado parece ser uma imagem invertida de “Shoplifters”, onde se conta uma história de estranhos que parecem ser parentes. Aqui, conta-se a história de parentes que parecem ser estranhos e constitui o grande trunfo de Koreeda que nos “pinta” um quadro de família comovente e caloroso, com ironia e malícia suficiente que nos prende em diálogos surpreendentes.
Considerando obras anteriores deste autor, tais como; “Andando” de 2008 ou “Tal Pai Tal Filho” de 2013, pode concluir-se ser mais uma manifestação da tendência de escalpelização das relações familiares de Koreeda, que nos oferece a sua visão perspicaz e inteligente sobre a natureza dos relacionamentos entre pais e filhos e a sua evolução numa família moderna onde as coisas não acontecem como tradicionalmente deveriam acontecer, ou esperamos que aconteçam.
Por oposição, decorrem as relações entre Fabienne e Amy no filme de ficção científica que ambas estão a filmar e que tanto desagrada a Fabienne, que tem de ser forçada a voltar ao estúdio para que não seja acusada de rutura de contrato.
Trata-se portanto de uma história ousada que identifica a família como uma coisa viva, animada, onde é perigoso confiar totalmente na justeza da memória do passado, retirando-lhe a oportunidade de se renovar e de se compor com novas realidades. Algo complexo mas interessante, recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

7 de março de 2020

Opinião – “All the Bright Places” de Brett Haley


Sinopse

Baseado no romance best-seller internacional de Jennifer Niven, “All The Bright Places” conta a história de Violet Markey (Elle Fanning) e Theodore Finch (Justice Smith), que se encontram e mudam a vida, um do outro para sempre.
Enquanto lutam com as cicatrizes emocionais e físicas de seu passado, os dois adolescentes lidam com problemas pessoais e criam uma forte ligação, enquanto embarcam numa viagem para documentar os locais mais deslumbrantes do estado de Indiana.

Opinião por Artur Neves

Este é mais um filme da plataforma Netflix que está a introduzir alguma revolução no modo de ver cinema e de encarar o próprio espetáculo em si mesmo. Se até agora o cinema de estreia só estava acessível em sala dedicada, escura e com o ambiente adequado como norma, com esta plataforma pode assistir-se aos mesmos conteúdos num pequeno ecrã de 83” e 16x9, num pequeno tablet ou smartphone apoiado no colo, ou mesmo na velhinha televisão de tubo de raios catódicos se complementada por uma TVBox equipada com saída AV.
Obviamente que em cada uma das situações não temos a mesma experiência mas é o que o futuro nos trouxe e significa uma evolução tecnológica que cabe a cada um decidir se adere, em melhores ou piores condições, com incidência direta na sua carteira.
No caso presente a Netflix renomeia este filme para Portugal como; “Fala-me de um Dia Perfeito” e trata-se de uma história de amor romântico entre dois jovens perturbados psicologicamente por eventos anteriores que vamos conhecendo ao longo da história. Eles andam na mesma escola e só falam diretamente um com o outro quando Finch encontra Violet sobre o parapeito de uma ponte com intenções de se suicidar. A razão de Finch se encontrar naquele local, aquela hora, também não é a melhor mas o facto de ter convencido Violet a voltar para um lugar seguro, dá a ambos uma perspetiva renovada dos seus próprios problemas.
Finch é um aluno problemático, frequentemente envolvido em lutas e disputas físicas com raiva violenta que o tornam sinalizado para ser acompanhado num apoio psicológico especializado que ele aceita com desinteresse e um largo sorriso de desafio. Violet que já tinha sido uma borboleta social entre as suas colegas, estava agora remetida ao mutismo de uma solidão autoimposta pelo remorso de culpa no envolvimento da morte da irmã.
Brett Haley tenta assim uma adaptação difícil do drama escrito por Jennifer Niven, envolvendo os dois candidatos a apaixonados a sucessivas camadas de tristeza, suicídio (Finch autoflagela-se em sucessivas tentativas de suspensão da respiração por longos momentos na banheira e na piscina) e doença mental ao mesmo tempo que nos conduz ao aparecimento do amor límpido entre dois jovens perturbados.
Os trabalhos escolares motivam a insistência dele para que ambos constituam um grupo de trabalho, contra a relutância dela em aceitar a proposta, porém, depois de ter aceitado a sugestão, a recolha de dados implica a deslocação de ambos para diferentes locais do estado de Indiana (“Todos os locais Brilhantes” na referencia original do nome do filme) o que aumenta o conhecimento mútuo e constitui um objetivo real para a vida, para lá de Violet se interessar por Finch e de se pretender constituir como sua salvadora, como ele inicialmente fez com ela e ela não conseguiu ser para a sua irmã falecida.
Assim, o realizador apresenta-nos uma abordagem diferente ao comum amor jovem e romântico. Existem muitas dificuldades de relacionamento entre ambos numa ligação de amor em que a inspiração de morte está sempre presente. Os acontecimentos vão-se sucedendo e a relação torna-se dúbia, colocando a história num patamar de mistura entre trevas e luz a caminho do desequilíbrio, que não vou revelar para não estragar o interesse do filme.
Tal como na vida real as coisas podem ser muito desafiadoras ou desanimadoras e até totalmente desprovidas de esperança, mas vale sempre a pena procurar os lugares claros nos tempos sombrios, (no sentido original do título) ou procurar os momentos perfeitos nos dias sombrios (no enfoque do título para Portugal) para permitir que alguém à nossa volta se sinta menos isolado, e os 107 minutos de filme justificam essa premissa.

Classificação: 6 numa escala de 10

5 de março de 2020

Opinião – “Os Melhores Anos da nossa Vida” de Claude Lelouch


Sinopse

Eles tinham-se conhecido há muitos anos, um homem e uma mulher cujo fascinante e inesperado romance, mostrado no agora icónico filme, revolucionou a forma como compreendemos o amor.
Hoje, o antigo piloto de automóveis de corrida parece incapaz de aceder às suas memórias; para o ajudar, o filho procura a mulher que o seu pai não conseguiu conservar, mas de quem não cessa de falar.
Anne volta a reunir-se com Jean-Louis e a ligação entre os dois recomeça no ponto onde eles a tinham deixado…

Opinião por Artur Neves

Claude Lelouch, atualmente com 83 anos, não se liberta da sua icónica obra-prima dos anos sessenta “Um Homem e uma Mulher” de 1966, filme largamente premiado e vencedor do Oscar desse ano, em que o jovem piloto de automóveis, Jean-Louis (Jean-Louis Trintignant) vive um tórrido caso de amor, simples mas sublime, com Anne (Anouk Aimée) e do qual já fez um remake em 1986, “Um Homem e uma Mulher: 20 anos depois” cuja aceitação crítica não pôde ter influenciado este retorno ao tema, pois esse filme ficou perdido na espuma do tempo, tal como até hoje se mantém.
Confesso que este autor já foi um dos meus preferidos naquele tempo, complementado com duas obras que reputo de muito interessantes; “Toda Uma Vida” de 1974, como introdução e “rascunho” de argumento do também icónico “Uns e os Outros” de 1981, onde ele retrata magistralmente o pós guerra europeu de 1939-45, entretecendo personagens significativos para época, numa história que contempla os sobreviventes do Holocausto e culmina na magistral interpretação do Bolero de Ravel, por Rudolf Nureyev na praça Trocadero em Paris.
Desta vez Lelouch junta novamente Anne e Jean-Louis, com 86 e 88 anos respetivamente, ela francamente mais apresentável e vibrante do que ele, que exibe uma lamentável impotência física e mental. Ele está ligado a uma cadeira de rodas, passa todo filme sentado na cadeira ou num sofá onde revê a sua antiga apaixonada e a reconhece brevemente por um movimento de remoção do cabelo dos olhos, mas toda a conversa entre os dois remete-se ao que foram, ao que sentiram e às memórias do que viveram que para Jean-Louis são sempre remotas e vagas. O único momento em pé de Jean-Louis é quando, ajudado por Anne, executa uma transição entre o sofá e a cadeira de rodas que promove a sua locomoção.
A magia do encontro é preenchida com flashbacks do passado que ambos viveram extraídos do filme de 1966, quando sentados no jardim da casa de repouso que serve de abrigo a Jean-Louis, ou em pequenos passeios no Citroen 2CV de Anne, que se vêm a revelar sonhos e devaneios da mente perturbada de Jean-Louis, enquanto sonha acordado com o amor que viveu e os fragmentos que recorda.
A velhice, a degradação física e mental das pessoas não será o elemento real mais importante para exibir num filme e por mais curioso que seja, ver Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimée representarem os personagens que os fixaram no nosso imaginário, talvez pela última vez, não terá o mesmo impacto nas novas gerações até aos 30 anos, para os quais o “amor dos avós” significa apenas um dos factos que lhes deu origem, ou para a geração até aos 60 anos, em que se consciencializa a eventual inevitabilidade daquele futuro mas que todavia desconhece e não quer partilhar, ou na geração posterior, que se assistir ao filme o olhará com indiferença, porque naturalmente a imagem refletida naquele “espelho” não é reconfortante para a consciencialização das suas capacidades perdidas.
A reunião tardia entre Anne e Jean-Louis, revivendo o amor que viveram e os lugares onde o praticaram, poderia ter acrescentado algo de novo á criação cinematográfica, mas tal não aconteceu decorrente da demasiada recorrência ao filme de 66, em confronto com uma realidade bem diversa que nada tem a ver com a desse tempo passado. O modo de Lelouch filmar é idêntico, a envolvência das emoções pela música também, mas o primeiro é vida pulsante, o segundo é o prenúncio da morte e cabe-nos a nós próprios definir o momento de sair de cena pelos nossos próprios meios.

Classificação: 4 numa escala de 10

3 de março de 2020

Opinião – “Mulheres de Armas” de Peter Cattaneo


Sinopse

Kate (Kristin Scott Thomas), é a mulher perfeita de um oficial, que suporta com elegância e estoicismo uma vida de ansiedade e solidão, quando ele se encontra ausente em missões militares.
Encontrando liberdade em cantar, ela convence um grupo de mulheres da base a formar o Coro de Mulheres de Militares.
Uma das mulheres, Lisa (Sharon Horgan) – recém-chegada, rebelde, inconformada e inicialmente cética pelo amadorismo do grupo, vê-se rapidamente convencida pela amizade, humor e coragem do coro, assumindo com Kate a sua direção.
Na busca de uma voz única, Kate, Lisa e o coro fazem frente às convenções e às suas próprias diferenças pessoais.
Entoando sucessos da pop e hinos do rock, este extraordinário grupo de mulheres acaba por transformar um hobby num sucesso inesperado, a nível nacional.
Inspirado num fenómeno global da vida real, “Mulheres de Armas” com as suas mulheres luminosas dão-nos força a todos, para – unidos – superarmos os nossos medos.

Opinião por Artur Neves

Esta história, é baseada em factos reais como nos é mostrado no fim do filme, o conjunto de coros femininos de esposas de militares em diferentes bases inglesas por todo o território da Grã-Bretanha, onde mitigam os seus medos e angustias em conjunto, ocupando o tempo em atividades de canto coral amador.
Só que, e ainda bem, a história mostra muito para lá das atividades canoras das participantes, toda a envolvência e relacionamento entre as esposas dos militares em que cada uma assume implicitamente uma posição equivalente à patente do seu marido, muito embora o seu estatuto oficial de esposa não lhe confira isso por direito.
Deste modo, mostram-se as relações entre as pessoas quando submetidas a um convívio, se não forçado, pelo menos fortemente condicionado pelas circunstancias da vida castrense e da situação de missão no exterior dos seus cônjuges.
E aqui o filme destaca-se pelos pormenores que frequentemente exibe sobre a censura velada que umas exercem sobre outras, a crítica pelas atitudes e pelos conceitos que lhes determinam o modo de estar em sociedade, muito focado no comportamento dos filhos, na solidão do seu estado, no medo do telefone ou do aviso oficial do desastre que temem em receber (nós sabemos que alguém vai morrer) vivendo um ambiente de privação sexual que as constrange e lhes motiva múltiplas referencias mais ou menos críticas à condição que envolve todas.
Neste caldo de relações sociais existe sempre alguém que se destaca e nesta história é a “coronela” Kate (Kristin Scott Thomas), fria, distante, convencionalmente organizada, mas também muito magoada pela perda do filho em combate, à qual se opõe, Lisa (Sharon Horgan) a “sargenta principal” truculenta, intuitiva, com propensão para a bebida, com pouco gosto para a casa, intransigente para com a filha adolescente e farta das repetidas ausências do marido, que protagoniza com Kate o melhor e mais completo bate-boca sobre o casamento, o sexo e as atitudes sociais que ele, ou a sua falta, provocam.
Depois claro, temos o coro, o revivalismo de canções do imaginário inglês mais comum e conhecido, desde Cyndi Lauper aos cantores clássicos que serve também como confrontação entre duas mulheres empenhadas em fazer acontecer coisas mas cada uma à sua maneira, do seu jeito e segundo as suas premissas, uma com planeamento e organização e a outra de forma mais casual e deixando as outras mulheres descobrirem as suas preferências e o seu próprio caminho, separadas dos seus parceiros.
Por entre os risos e as confrontações do grupo existe um drama latente, em suspenso em cada uma delas, que se juntam para espantar os pensamentos mais sombrios e transformar a espera no purgatório mais ameno que possam conseguir. É um filme de pormenores, de retalhos de vida, de convívio comprometido, que forma um microcosmo interessante para ser visto.

Classificação: 6 numa escala de 10

27 de fevereiro de 2020

Opinião – “Para Sama” de Waad Al-Kateab e Edward


Sinopse

Para Sama é simultaneamente uma viagem íntima e épica pela experiência feminina da guerra. Uma carta de amor de uma jovem mãe para a sua filha, o filme conta a história de vida de Waad al-Kateab durante cinco anos de revolta em Alepo, na Síria, ao mesmo tempo que se apaixona, se casa e tem a filha Sama, tudo enquanto o conflito devastador cresce à sua volta. A sua câmara captura histórias incríveis de perda, alegria e sobrevivência enquanto Waad luta com uma escolha impossível – fugir ou não da cidade para proteger a vida da filha, quando sair significa abandonar a luta pela liberdade, pela qual já sacrificou tanto.

Opinião por Artur Neves

A revolução Síria é um conflito interno que opôs a generalidade da população contra o presidente Bashar al-Assad que se arroga ao direito divino de suceder ao seu pai, Hafez al-Assad que ocupou o poder durante 30 anos, e governa o país com mão de ferro á 10 anos. A inicial luta de poder alargou-se para domínios de natureza sectária e religiosa incendiando a rivalidade entre Xiita e Sunitas. Os protestos populares começaram em Janeiro de 2011 pelo que esta guerra civil já conta mais de 9 anos de duração.
Este documentário reporta a destruição de Alepo, segunda cidade do país a seguir a Damasco, capital da nação Síria, através de mais de 500 horas de filmagens dos bombardeamentos e combates na cidade efectuados pelo exército regular sírio, apoiado pela Rússia que apoia Bashar al-Assad na sua sangrenta luta pelo poder, sem respeitar a população civil a quem acusa de terroristas.
As filmagens foram feitas por Waad al-Kateab, jornalista autodidacta que mantinha ligação com a distribuição de notícias na televisão independente da Grã-Bretanha. As filmagens foram inicialmente feitas com smartphone e posteriormente com uma Handycam Sony como pode ver-se no filme. Waad é casada com Hamza, médico no único hospital em funcionamento em Alepo e activista político numa facção resistente ao governo central.
O casal e a filha Sama já abandonaram Alepo, pouco antes da tomada da cidade pelas forças do exército regular, tendo levado consigo para o exterior os discos com todo o material filmado, vivendo actualmente em Londres onde preparou o presente documentário com a ajuda do Channel 4, moldando-o neste filme, que documenta a destruição sistemática da cidade.
O filme é narrado pela autora num tom pausado e dramático sobre as imagens e os sons da guerra e destruição a que assistiram ou que filmaram, deixando a câmara em funcionamento e ausentando-se por segurança dos locais. O filme inclui os acontecimentos até 5 anos antes da destruição de Alepo que nos são apresentados como flashbacks que contrapõem a situação actual onde se desenrola a maior parte do documentário.
Em todo o filme Waad reporta os casos individuais da morte de pessoas que chegam ao hospital com as mais variadas feridas de guerra e das condições de assistência que lhe são prestadas, por pessoal dedicado, mas sem meios suficientes para as salvar. É a parte mais dura do filme em que vemos crianças estropiadas, com feridas na cabeça, ou mesmo já mortas e que os familiares que as transportaram não identificaram.
A filha, Sama surge aqui como a depositária da esperança que os anima e o objectivo de vida futura pelo qual eles lutam e morrem todos os dias em Alepo. Sama, além de filha deles é filha do hospital, por corporizar a razão de toda a dedicação ao próximo e também a expiação pelo facto de a terem trazido para um mundo em desagregação.
Este filme foi nomeado na classe de documentário para os prémios BAFTA e embora não o tendo ganho constitui um testemunho ocular de um regime que continua em guerra com o seu povo, que mesmo sendo sujeito a um banho de sangue conserva as sementes da esperança.

Classificação: 5 numa escala de 10

22 de fevereiro de 2020

Opinião – “Verdade Debaixo de Fogo” de Todd Robinson


Sinopse

William Pitsenbarger (Jeremy Irvine) foi um herói da guerra do Vietname. Paramédico da Força Aérea, salvou pessoalmente mais de 60 homens numa das batalhas mais sangrentas daquele conflito. Tendo oportunidade de fugir do campo de batalha no último helicóptero, Pitsenbarger ficou para salvar e defender os soldados feridos, acabando por ser morto por uma bala inimiga. Pelos seus atos heroicos, é proposto para a mais alta honra militar que um soldado pode alcançar - a Medalha de Honra do Congresso. No entanto, antes de ser atribuída, a medalha é-lhe retirada por razões indeterminadas.
Chamado para investigar esta questão, o Inspetor Scott Huffman (Sebastian Stan) é obrigado a investigar os obscuros e corruptos meandros políticos por detrás dessa decisão.
Com um forte elenco onde se destacam Samuel L. Jackson, William Hurt, Bradley Whitford, Ed Harris, Diane Ladd, Sebastian Stan, Verdade Debaixo de Fogo é o último filme do ator Peter Fonda.

Opinião por Artur Neves

É curioso verificar como um conflito dos anos 60 e 70 (começou em novembro de 1955 e terminou em abril de 1975) que marcou tão profundamente a sociedade americana desde 1964, ano em que os USA aumentaram significativamente os efectivos no terreno e se envolveram profundamente no conflito cujo resultado se cifrou em mais de 360 000 baixas entre; mortos, feridos e desaparecidos em combate, ainda justifica abordagens justiceiras para repor verdades históricas escondidas.
A história que este filme nos traz, muito bem escrita e contada pelo realizador Todd Robinson apresenta-nos a verdade sobre a morte em combate de William H. Pitsenbarger cuja dedicação abnegada à sua missão de médico de resgate da força aérea, foi responsável pela assistência de primeiros socorros a 60 soldados de infantaria, que por um erro de informação de localização destes efectivos, resultou numa das mais sangrentas e estúpidas batalhas desta guerra indefensável e desnecessária na história dos USA.
Quando Scott Huffman foi investido na tarefa de investigar o que realmente aconteceu e motivou o protelamento de 32 anos na atribuição do mais alto galardão de mérito militar a Pitsenbarger, estava longe de supor a grande injustiça que iria desvendar, perpetrada pela mais alta hierarquia militar para esconder a culpa e a incompetência dos seus atos na Operação Abilene, na primavera de 1966, responsável pela morte 36 soldados e 71 feridos. Todavia, a imputação de responsabilidade não é completa nem detalhada.
Este filme de guerra insere-se no género de “O Resgate do Soldado Ryan” de 1998 ou o mais recente “O Heroi de Hacksaw Ridge” de 2016, onde se reportam atos heróicos debaixo de fogo, esquecidos pela história, ou meramente apagados e escondidos, que se afirmam como um dos capítulos mais significativos que emergiram da guerra do Vietname.
O argumento é inteligente, porque alterna entre as descobertas de Scott Huffman no seguimento das revelações que ele vai colhendo, e os flashbacks com as cenas de batalha angustiantes e brutalmente intensas que ilustram os factos que ele vai compilando no desenvolvimento da tarefa que lhe foi confiada. Todos os outros personagens são bem conseguidos, com atores sólidos e experientes que agrada ver em palco.
É também um filme de encomenda onde se pretende reactivar o orgulho americano nas suas forças armadas que não têm desenvolvido as melhores performances noutros conflitos mais recentes onde têm estado envolvidas e o final é o que se esperava, em apoteose, com todos em pé prestando a homenagem merecida ao herói reconhecido. Fazer desta proposta um filme atraente para 116 minutos é difícil, mas não defrauda totalmente quem o escolhe.

Classificação: 6 numa escala de 10

20 de fevereiro de 2020

Opinião – “Fátima – O Poder da Fé” de Marco Pontecorvo


Sinopse

FÁTIMA, um filme que relata o poder da fé...
Em 1917,Lúcia, uma pastora de apenas 10 anos, e os seus dois primos mais novos, Jacinta e Francisco, têm visões de Virgem Maria, que lhes surge com uma mensagem de paz. As suas revelações inspiraram dezenas de milhares de fiéis que se deslocaram até Fátima, na esperança de testemunhar um milagre, mas não agradaram a Igreja e o Governo de Portugal, que tentaram forçá-los a recontar a sua história.
O que se viveu em Fátima mudou para sempre as suas vidas...

Opinião por Artur Neves

Pode parecer estranho mas o realizador Italiano Marco Pontecorvo apresenta-nos este filme que relata os acontecimentos da aparição de Maria, aos jovens pastores; Lúcia (Stephanie Gil) Jacinta (Alejandra Howard) e Francisco (Jorge Lamelas), vividos na Cova da Iria em Março/Abril de 1917, durante o período da 1ª guerra mundial em que Portugal foi representado como uma país pobre, com um povo generalizadamente inculto e a braços com uma crise de fome real.
Como teve na sua origem a intenção de distribuição internacional o filme é falado em inglês e legendado em português como convém. Segundo o anúncio nas primeiras imagens o filme é baseado nas revelações da irmã Lúcia que serviram de base para a história escrita por Barbara Nicolosi.
O argumento é portanto conhecido pela maioria dos portugueses, as aparições de Maria (Joana Ribeiro) aos três pastores que são reveladas às famílias e por estas ao povo da aldeia e do país (curiosamente, na altura, sem Internet nem meios de comunicação “decentes” mas mesmo assim isso não impediu que a mensagem fosse amplamente divulgada) justificando a peregrinação de uma multidão que se reuniu para assistir às aparições anunciadas por Maria com hora e data marcadas.
O filme começa pela entrevista do Professor Nichols (Harvey Keitel) à irmã Lúcia (Sónia Braga) já adulta e em clausura, cujo diálogo é suficientemente assético para poder dizer-se que o filme não é beato. Limita-se à representação dos factos, à intervenção do “Father” Ferreira (Joaquim de Almeida) o padre da aldeia que num primeiro tempo tenta que Lúcia se cale e confesse que estava a mentir, bem como, Artur (Goran Visnjic) o mayor da aldeia que chega a mandar fechar a igreja, seguindo ordens superiores de Lisboa, mas deixa ao espectador o livre arbítrio de assumir que se está em presença de um ato divino só acessível pela fé, de negar frontalmente o que lhe estão a apresentar se for ateu, ou pura e simplesmente observar com o distanciamento do agnóstico, que espera uma prova racional e objetiva para os acontecimentos em presença.
É pois um filme de apresentação factual, segundo a descrição da irmã Lúcia, que analfabeta como era na juventude não terá tido muita capacidade para os avaliar e descrever. Mostra também o efeito do “sol a dançar” e de seguida alguém refere que o mesmo já terá sido apreciado noutros locais, portanto milagres só para quem os quiser aceitar como tal e isso será da sua inteira responsabilidade, o que eu reputo de muito positivo pois é um elemento que poderia conduzir à transcendência fácil.
O filme foi rodado nas cenas de aldeia, na Tapada de Mafra e as aparições, nos terrenos circundantes do Santuário de Fátima, os cenários são convincentes, assim como o guarda roupa adequado à época, mas decorrente do seu conteúdo já bem conhecido pela generalidade das pessoas a história perde-se em surpresa, emoção e desfecho, por serem demasiado esperados. É um déjà vu completo, sem gerar polémica.

Classificação: 5 numa escala de 10

17 de fevereiro de 2020

Opinião – “SEBERG - Contra todos os Inimigos” de Benedict Andrews


Sinopse

Jean Seberg (Kristen Stewart) é já uma conhecida atriz e apoiante do movimento pelos direitos civis, quando se envolve por Hakim Jamal (Anthony Mackie), um carismático ativista do movimento Black Power, e o seu relacionamento rapidamente passa de político para romântico. Esse envolvimento fazem dela um alvo do FBI, e os agentes Jack Solomon (Jack O'Connell) e Carl Kowalski (Vince Vaughn) tudo fazem para documentar esta relação.
Jack torna-se obcecado e atraído pela presença luminosa de Jean, o que a leva a perceber que está a ser seguida, tornando-se cada vez mais psicologicamente instável.
Empenhados em desacreditar Jean e o próprio movimento, o FBI lança informações escandalosas que dilaceram a família de Jean e erguem uma barreira entre ela e as suas paixões. Horrorizado com o impacto desta ação e envergonhado pela sua participação nela, Jack embarca numa missão de salvação e redenção que o coloca por momentos em contacto direto com Jean. Para ele, é simultaneamente um confronto com a sua obsessão e um ponto de viragem moral. Para Jean, é a confirmação de que foi vítima de um sistema corrupto e um reflexo do papel que desempenhou no seu próprio desenlace.

Opinião por Artur Neves

Com a extensa sinopse anterior enviada pelo distribuidor, a história de Jean Dorothy Seberg fica contada pelo que a seguir ficamos com a oportunidade de nos dedicarmos ao filme que Benedict Andrews nos apresenta. Realizador australiano nascido em Adelaide em 1972, e educado no Flinders University na Austrália, que não conta no seu histórico profissional com trabalhos de relevo, para o qual este biopic de Jean Seberg poderia ser a sua rampa de lançamento.
Poderia, mas definitivamente não é!... A história é boa, apresenta potencial de desenvolvimento noutras mãos que lhe saibam conferir a denúncia pública de interferência abusiva da poderosa organização de investigação americana, FBI, na vida particular e íntima de uma cidadã americana cuja verdadeira culpa é o desejo de igualdade entre as pessoas independentemente da sua cor de pele, contribuindo para essa causa com o seu dinheiro e a sua pessoa, imbuída de um espírito de justiça ingénuo, impróprio para a luta pelo poder, pensando que toda a sua vida pode continuar igual ao que era, apesar de se ter apaixonado pelo líder da organização Black Power e de permitir que a própria organização utilize as suas doações para fins diferentes dos inicialmente anunciados; a educação de crianças e jovens com vista a um mundo melhor (já nos cruzámos com isto tantas vezes!... que até doi…).
O que Benedict Andrews nos mostra é uma narrativa sem alma, dececionante e baseada em clichés sobre a vida da atriz, fantasiando a existência de um agente “bonzinho”, Jack Solomon, que tem muita pena e sente-se muito mal com o que está fazendo sem contudo deixar de continuar a praticar o mesmo registo e que num momento de remorso insuportável subtrai clandestinamente o dossier da atriz dos arquivos e leva-o para o mostrar a Jean Seberg numa atitude de patético arrependimento que não contribui literalmente para nada, nem para a justiça, nem para a condenação do Black Power, nem para a sua redenção ao serviço da torcionária organização, nem para a sua própria vida pessoal, já parcialmente desfeita com sua esposa Linette Solomon (Margaret Qualley) que suspeita que ele tem um caso decorrente do seu mutismo, tristeza e abandono em casa. Daqui, o sobre título do filme: “Contra todos os Inimigos”. Não há evidências históricas sobre este personagem, nem tão pouco que o FBI tenha sido acometido de alguma “dose de arrependimento” depois da sua intervenção.
Quanto aos outros personagens, Benedict também não os trata bem, são figuras menores, mostrando somente a sua relação com a atriz, sem “espessura”, sem a densidade dramática que a luta contra a segregação nos USA sempre motivou. São pouco mais do que folclóricos.
Salva-se Kristen Stewart que apresenta um bom desempenho como Jean Seberg, não só constituindo uma escolha feliz considerando as suas semelhanças físicas com a atriz, como mostrando que ainda se está revelando e tem muito para dar. Depois da saga Twilight em três partes que a projetou ao estrelato do público mais jovem e da sua boa prestação em “A Vingança de Lizzie Borden” de 2018 (já comentada neste blogue) temos aqui uma representação madura que só peca pelo que a narrativa não soube explorar, para ela vai toda a classificação a seguir indicada.

Classificação: 6 numa escala de 10