18 de outubro de 2019

Opinião – “Anjo Perdido” de Kim Farrant


Sinopse

Lizzie (Noomi Rapace) é uma mulher melancólica que ainda sofre com a morte precoce da sua única filha e que tem dificuldades para interpretar a realidade.
Mas quando numa festa conhece a filha de Claire (Yvonne Strahovski), entra numa espiral de loucura e começa a acreditar que a menina continua viva e que aquela garota é a sua filha.

Opinião por Artur Neves

Este filme é um remake americano do filme "L'empreinte de l'Ange", realizado pelo francês Safy Nebbou em 2008, pela realizadora Australiana Kim Farrant que segue rigorosamente o argumento original. Apenas os intérpretes e os locais onde se desenrola a história mudam, só que o primeiro filme nunca foi apresentado nas salas Portuguesas pelo que se justifica assim a sua atual comercialização.
A história é um thriller psicológico, muito bem interpretado por Noomi Rapace que se tornou conhecida depois do seu assinalável desempenho em “Os Homens que Odeiam as Mulheres” de 2009, primeiro filme da saga “Millennium”, ao que se seguiram outros êxitos. Nesta história ela constrói o personagem de uma mulher divorciada, mãe de uma menina que morreu num incêndio ocorrido no hospital onde nasceu, poucas horas depois do parto.
Estes acontecimentos e os detalhes sobre a tristeza de Lizzie, quem ela é, como se comporta no seu desespero e por quem está de luto vão sendo lentamente revelados no desenrolar da ação, acompanhada por uma paisagem sonora melancólica e sinistra que torna a história sombria e carregada de luto.
Farrant sabe como contar uma história que não se adivinha e Noomi Rapace corresponde bem com uma personagem delicadamente maluca, obcecada pela filha perdida que ela teima em não aceitar a perda, rasgando-se a si própria, à sua identidade, ao seu respeito por si, numa completa escuridão do espirito, sem vontade para rir ou conviver fora da sua obsessão. A tragédia que ela não aceita, custou-lhe a sua sanidade mental, o divórcio do marido que apesar de compreender a sua dor, acha a vida tem de continuar e a custódia do filho mais velho, Thomas (Finn Little) que além de carente, sofre a presença de uma mãe ausente.
A transformação interior de Lizzie ocorre, quando no aniversário de um colega de escola de Thomas, ela vê Lola (Annika Whiteley) e se convence que aquela criança é a sua filha perdida. A partir daí ela torna-se obcecada por Lola, absolutamente fixada na menina, negando a realidade conhecida e começando a exibir um comportamento inadequado em relação a Lola que na sua inocência lhe retribui carinho pelas atenções de que é alvo.
A partir daqui a história toma outra dinâmica mais elétrica, pois Claire ( Yvonne Strahovski ) a mãe de Lola, não permite essa aproximação e faz compreensivelmente tudo para a evitar. O argumento porém, não se preocupa com as eventuais conotações obscenas que essa aproximação possa suscitar no espectador, pois Ferrant apenas pretende mostrar a dimensão da dor da perda de um filho e assim a história passa de sombria a emocionalmente visceral, a uterina, mostrando a competição entre as duas mães pela posse da sua cria e aqui Claire personifica uma resposta adequada a Lizzie, criando um personagem que tenta equilibrar a pena pela morte, com a compreensão da dor e com a raiva provocada por uma situação muito assustadora.
O final é surpreendente e não o devo revelar sob pena de mutilar a obra e retirar o gozo ao espectador, pelo que apenas acrescento que os 98 minutos despendidos no visionamento valem a pena. Muito interessante.

Classificação: 7 numa escala de 10

15 de outubro de 2019

Opinião – “Maléfica – Mestre do Mal” de Joachim Rønning


Sinopse

Nesta continuação do sucesso mundial de bilheteira de 2014, Maléfica e a sua afilhada Aurora começam a questionar os complexos laços familiares que as unem, à medida que vão sendo afastadas por um casamento iminente, aliados inesperados e novas forças obscuras em jogo.

Opinião por Artur Neves

Mais uma vez os “Contos de Grimm” suportam com a sua história mais icónica e mais divulgada em todo o mundo; “A Bela Adormecida” sobre uma princesa de rara beleza que é enfeitiçada por uma invejosa feiticeira (a tal Maléfica) condenando-a a um sono profundo até que um príncipe encantado lhe dê um beijo por amor e quebre o feitiço.
O destaque da “Maléfica” nas histórias atualmente contadas justifica-se por ser a mesma história vista do ponto de vista da feiticeira que a Disney já pôs em filme em 2014, contando os motivos que justificam o endurecimento de relações da vilã com a sua afilhada, bem como, a maldição lançada sobre a princesa Aurora. Por ter constituído um assinalável êxito de bilheteira e os blockbusters têm de ser aproveitados até à exaustão, eis que este ano aparece uma sequela com a temática descrita na sinopse, que é mais do mesmo, suportado na moral vigente e no establishment social.
Neste filme continua a promover-se o amor (que não traz mal ao mundo) o casamento (já nem tanto) com pompa e circunstância, a obediência aos cânones, e uma mensagem oportuna de tolerância e aceitação pelas diferenças entre a espécie humana, considerando que apesar de diferentes todos procuramos a felicidade e o bem-estar, numa clara alusão aos milhares de desalojados dos seus países de origem. O cinema também serve para estas chamadas de consciência e para servir causas.
A relação entre Maléfica (Angelina Jolie) e Aurora (Elle Fanning) tem sido pacata, os maus sentimentos esbateram-se ao longo destes anos e Aurora encontra de novo o amor do seu príncipe. No entanto o ódio entre os humanos e as fadas mantem-se e esta projetada união entre Philip (Harris Dickinson) e Aurora desgosta Queen Ingrith (Michelle Pfeiffer) que não aceita a ligação do filho com a representante do reino das fadas e engendra um plano de guerra para acabar definitivamente com o reino de Moors, o reino das fadas.
Como pode apreciar-se nada de novo; “a sogra detesta a mulher que o filho escolheu para sua nora!…” Para quantas novelas reais e de ficção, telenovelas, dramas de faca e alguidar e histórias de cordel, este argumento já serviu?... Creio que ninguém tem um número certo, mas são de facto imensas e aqui até serve para “esparguetizar” uma história de fantasia contada pelos irmãos Grimm na idade média, pelos idos de 1600.
Para compensar, o suporte e a forma de contar são realmente fabulosos. O filme apresenta-se em IMAX 3D, numa condição particularmente imersiva que nos transporta para o ambiente e para a história, por sofisticados meios audiovisuais. A música e os sons do filme, criteriosamente dirigidos na sala conduzem os nossos sentidos e, se nos deixarmos levar, voaremos pelo reino de Ulstead e pelo seu vizinho Moors em conjunto com fantásticas criaturas aladas, em jardins maravilhosos de flores eternas, ou descendo para ambientes sombrios e profundos, durante cerca de 118 minutos, que para mim pareceu extenso, mas para o espectador, “vítima” do encantamento pelas fadas, saberá inevitavelmente a pouco, apesar da lágrima fugidia que lhe escorrerá pela face.
Como tal, a classificação atribuída a seguir reporta-se somente aos aspetos técnicos do filme, da caraterização dos personagens, do guarda-roupa e da extraordinária imagem IMAX 3D em que o filme se apresenta. Sobre o conteúdo, a cada um sua classificação.

Classificação: 9 numa escala de 10

14 de outubro de 2019

Opinião – “Equipa de Assalto” de Dan Krauss


Sinopse

Quando Andrew Briggman (Nat Wolff), um jovem soldado na invasão americana do Afeganistão, é testemunha da morte de civis inocentes por outro recrutas, sob a direção de um líder sádico - o sargento Deeks (Alexander Skarsgård) - ele considera denunciá-los aos seus superiores - mas o um pelotão cada vez mais violento e fortemente armado suspeita que alguém das suas fileiras se tenha voltado contra eles, e Andrew começa a temer que ele seja o próximo alvo.

Opinião por Artur Neves

Dan Krauss é um repórter de guerra que acompanhou uma missão de soldados americanos no Afeganistão, mais propriamente na cidade de Kandahar e arredores do deserto, com vista à realização de um documentário sobre o conflito; “The Kill Team” estreado em Abril de 2018 no Tribeca Film Festival.
Posteriormente, depois de ter refletido sobre a realidade presenciada, no terreno de guerra e no acampamento entre as tropas americanas, apercebeu-se dos conflitos morais e psicológicos gerados pelo dever, espírito de grupo, lealdade para com os seus pares e a paranoia que se instala quando; o dever, o medo e os valores morais, entram em conflito nos mais profundos pensamentos de um soldado.
Daí nasceu o argumento que suporta este filme, como o mesmo nome do documentário, que se fundamenta no sangue, suor e lágrimas dos seus personagens quando confrontados na sua solidão com os valores que lhe foram inculcados em tempo de paz e que constituem as regras de convivência entre os membros da espécie humana.
De acordo com o resumo descrito na sinopse o filme revela-nos um ambiente de crescente tensão e paranoia, sempre fundamentado em pormenores e pequenos indícios comportamentais de Briggman e dos seus camaradas, sem contudo conseguir elevar a patamares significativos o nível de angústia tradicionalmente sentido em filmes de suspense. Os personagens construídos por Briggman (Nat Wolff) e Deeks (Alexander Skarsgård) são consistentes, muito particularmente este, decorrente da sua experiencia de guerra e da exibição das mortes de que é responsável através de tatuagens de caveiras nas pernas.
Deeks, além de responsável do grupo é um mestre em manipulação e em condicionamento dos comportamentos da sua equipa, fazendo com que eles o admirem, promovendo o culto de personalidade entre os soldados por meio de manifestações de apreço e elogios nem sempre verdadeiros. Todavia ele possui uma agenda e um objetivo próprios e assume que a sua missão é matar, revelada nos seus comentários antes das missões; “Boa caça” e “espero que estejam prontos para se divertirem”. Transmite ainda o conceito de que combater é bom e justo, tomando como exemplo todos os camaradas mortos ou estropiados em ações anteriores.
Com o passar do tempo e das ações em combate, alguns começam a questionar a moralidade subjacente aos atos de guerra, bem como a própria moralidade do seu desempenho embora aceitando-a por ter origem no seu líder. Assim geram-se fraturas no grupo, particularmente em Briggman que não aguenta a tensão, o ambiente com os camaradas que o questionam e os concelhos do seu pai a quem ele, através do Skype, revela as provações do seu espírito.
O filme ao dar relevo a um “pormenor” detetado no documentário, gera uma novidade narrativa que é oposta ao documentário, considerando que este se deve esgotar na objetividade dos factos. O filme ao ficcionalizar um caso concreto, é necessariamente subjetivado em função das conceções do seu autor. Como o autor de ambos é o mesmo, temos aqui um exercício de cinema curioso, que merece ser apreciado pelas múltiplas questões que levanta.

Classificação: 7 numa escala de 10

12 de outubro de 2019

Opinião – “Um Passado em Segredo” de Bart Freundlich


Sinopse

Isabel (Michelle Williams) dedicou a sua vida a gerir um orfanato num bairro-de-lata de Calcutá. O financiamento é escasso, e Theresa Young (Julianne Moore), uma milionária com um império de comunicação, contacta Isabel, pedindo-lhe que viaje até Nova Iorque para lhe apresentar pessoalmente o projeto. Inicialmente revoltada com a exigência de uma potencial doadora que ainda não se comprometeu, ela acaba por ceder e viaja até à cidade da qual tinha escapado há 20 anos atrás.
Uma vez em Nova Iorque, e sentindo-se muito desconfortável, Isabel dirige-se à residência da possível benfeitora. Enquanto Isabel pensa que em breve regressará ao seu querido orfanato, Teresa tem outros planos. Ela insiste que Isabel fique para o casamento da sua filha, na propriedade da família. Mas o alegre evento rapidamente se transforma num catalisador de uma revelação que vem transtornar a vida das duas mulheres e das pessoas que mais as amam.

Opinião por Artur Neves

O filme que hoje temos em apreciação é um remake da obra com que a realizadora dinamarquesa Susanne Bier, quase conseguiu obter o Oscar em 2007 para o melhor filme de língua estrangeira da Academia Americana. Bart Freundlich, realizador americano, casado na vida real com Julianne Moore, concebeu uma alteração de personagens na história original, mantendo todavia o enredo que nos mostra neste filme. Na origem, ambos os filmes têm o mesmo nome (After the Wedding) sendo posteriormente adaptados os “gosto” de cada país, como vem sendo normal em toda a cinematografia que nos chega de fora.
A alteração do género dos personagens principais tem pelo menos o mérito de tornar a atual versão mais aguda do ponto de vista emocional e com isso poder transformar esta versão num melodrama mais profundo no aspeto dos afetos, para os quais contém todos os elementos para ter sucesso, mas… fica-se pela tentativa, depois de ultrapassado o choque da surpresa pelos “segredos” que nos são revelados, fruto de vários twists que a história contém.
Isabel, ao viajar da Índia para Nova Iorque, por solicitação de Theresa Young, não sabe completamente ao que vem, nem esta sonha com o que despoletou, ao requerer a sua presença para ajuizar melhor o destino do donativo que está prestes a conferir-lhe e por dificuldades de agenda, em convidá-la, para o faustoso casamento da filha Grace (Abby Quinn), na casa de família em Long Island.
Tanto Isabel (Michelle Williams) como Theresa Young (Julianne Moore), são competentes no trabalho que desempenham criando personagens credíveis. Os seus diálogos e as suas intervenções recíprocas em diferentes situações e com outros personagens estão adequadas ao contexto embora ajam como “personagens silenciosos” e as consequências dos seus desacordos são sempre leves e cordatas para a gravidade dos factos e intensidade do drama. Parece-me que a história poderia ter sido mais ousada no aprofundamento das consequências de uma relação que se afigura tensa entre Isabel, Theresa e o marido Oscar (Billy Crudup), mas não… se atinge alguma tensão, mais pelo efeito da surpresa das revelações, logo se desmobiliza e fica completamente frouxa na parte final.
Esta história daria para desenvolver relações obscuras e íntimas, diálogos cortantes e ambientes gelados, como os construídos em “Perto Demais” de 2004 por exemplo (uma quadrangulação de relações humanas) mas presumo que o realizador preferiu enfatizar o lado mundano dos personagens citadinos, utilizando uma filmagem com drones para aproximação a uma realidade mais abrangente e o diretor de fotografia Julio Macat preferiu filmagem manual e Steadicam, que permite fotos suaves e estáveis mesmo quando a câmara se move no exterior ou sobre superfícies irregulares, acalmando todos os tumultos. Ainda assim vale a pena ver, a história é boa embora só sumariamente aproveitada.

Classificação: 6 numa escala de 10

10 de outubro de 2019

Opinião – “A Guerra das Correntes” de Alfonso Gomez-Rejon


Sinopse

Ambientado no final do século XIX, a Guerra das Correntes, que foi uma disputa entre Thomas Edison (Benedict Cumberbatch) e George Westinghouse (Michael Shannon) sobre como deveria ser feita a distribuição da eletricidade. Edison fez uma campanha pela utilização da corrente contínua para isso, enquanto Westinghouse defendia a corrente alternada.

Opinião por Artur Neves

“A Guerra das Correntes” foi estreado no Toronto Filme Festival de 2017 mas somente agora chega às salas por ter sido produzido por Harvey Weinstein, principal alvo atingido pelo movimento #Me Too, que caiu precisamente em Outubro de 2017, (foi demitido da sua própria empresa e expulso da Academia de Cinema pelas denuncias de mais de 80 mulheres) justificando assim o “congelamento” do filme durante este intervalo de tempo até à presente data.
Arrefecidos os ânimos pelo bálsamo do tempo e depois do filme ter sido reeditado por Alfonso Gomez-Rejon com adição de cenas e redução da sua duração, eis que nos apresentam a competição desenvolvida entre 1880 e 1893, por Thomas Edison e George Westinghouse para a definição do standard de distribuição da energia elétrica nos USA, sendo o primeiro a favor da corrente contínua (CC) e o segundo, adepto da corrente alternada (AC) sendo esta segunda forma que prevaleceu e que ainda hoje se verifica em todo o mundo.
Este assunto é do foro da especialidade eletrotécnica, com múltiplos problemas técnicos associados que estão distantes do comum dos mortais, pelo que fazer deste tema um filme é pelo menos um trabalho arrojado, que se torna lânguido e arrastado entre discussões legais, jantares chiques e bailes em sumptuosos salões e uma única conversa, por sinal amena, entre os dois competidores quase no fim do filme.
O relacionamento entre ambos comporta-se com uma dinâmica semelhante entre Wolfgang Amadeus Mozart (Thomas Edison) para o seu Antonio Salieri (George Westinghouse) no fabuloso “Amadeus” de Milos Forman, só que com menos melodia, já que a música que enquadra as cenas do filme é rápida e sincopada que soa como um zumbido persistente que por vezes associamos a falha elétrica e só por aí se pode justificar o seu envolvimento.
Benedict Cumberbatch no papel de Thomas Edison constrói um personagem estudioso e concentrado mas arrogante, casado, com filhos com quem fala em código de Morse, ao mesmo tempo que manipula a imprensa com inexatidões grosseiras como por exemplo que a corrente alternada é mais perigosa do que a corrente contínua, apenas por um capricho de preferência que não respeita a verdade técnica revelando uma obsessão doentia pela prevalência da sua ideia. Apesar disso, não se coíbe de projetar uma cadeira elétrica com corrente alternada que resulta num assinalável fracasso.
Todavia, o início da sua derrota está na desistência da colaboração de Nikola Tesla (Nicholas Hoult), engenheiro, nascido na Sérvia que passa a assessorar George Westinghouse nesta demanda. Aliás Tesla é o verdadeiro adversário de Edison, embora o filme não lhe confira a relevância que merece. Por ter ficado à margem na história real também ficou à margem no filme.
Michael Shannon no papel de George Westinghouse constrói um personagem competente, um verdadeiro cavalheiro de indústria interessado em investir nas melhores técnicas, que negoceia com as autoridades e com colegas industriais em ambientes refinados da alta burguesia estabelecendo um nítido contraste entre os mundos dos dois homens.
No seu todo é um filme monótono porque a história não permite maior dinâmica, é o que é, e pode ver-se por mera curiosidade histórica, mas deve ter-se consciência ao que se vai.

Classificação: 5 numa escala de 10

7 de outubro de 2019

Opinião – “O Caso DeLorean” de Nick Hamm


Sinopse
Depois de ser apanhado pelo FBI a contrabandear cocaína no seu avião, Jim Hoffman (Jason Sudeikis) tem como única hipótese trabalhar para aquela agência como informador. Mas apesar disso a vida corre-lhe bem, e é colocado com a família num rico subúrbio de San Diego. Para sua surpresa, descobre que tem John DeLorean (Lee Pace) como vizinho, o ícone da indústria automóvel. Rapidamente cresce uma relação de amizade entre os dois homens, ao mesmo tempo que DeLorean se prepara para lançar o seu novo projeto – A DeLorean Motor Company, no qual Jim se envolve ativamente.
Mas com o FBI a pressiona-lo para denunciar o seu fornecedor, e o projeto de DeLoren a atingir um ponto critico de falta de financiamento, as coisas estão longe de serem idílicas. E quando Jim traz o seu Dealer para o projeto, como novo financiador da DeLorean Company, tudo vai rapidamente ficar pior.
Baseado em eventos reais, O Caso DeLorean conta a incrível, inacreditável e por vezes absurda história que se tornou o escândalo mais célebre dos anos 70.

Opinião por Artur Neves
Mais uma vez o cinema nos trás a teatralização de um caso real, desta vez “O Caso DeLorean” que nos conta a odisseia da constituição da empresa americana DeLorean Motor Company fundada em 1975 por Jonh Zachary DeLorean, que entre 1980 e 1983, ano de falência, produziu o modelo DMC-12 cuja qualidade mais importante foi ter “estrelado” como carro do futuro na trilogia “Regresso ao Futuro” e ter apresentado pela primeira vez o projeto das portas de elevação superior, posteriormente adotado por outras marcas. Como automóvel desportivo ou familiar foi um rotundo fracasso e é essa história que este filme nos conta.
Como resumo desta história pode dizer-se que nos mostra como um homem, Jim Hoffman, algo apático, vaidoso, gabarola, mas sem controlo das situações em que se mete e se deixa arrastar pelos acontecimentos, é apanhado a traficar droga da Colômbia para os USA e para não ser preso nem prejudicar a família, particularmente a mulher; Ellen Hoffman (Judy Greer) que corporiza o espírito feminino americano do way of life da altura, exigente, coquete cuja base filosófica é a crença nos direitos à vida, à liberdade e à busca da felicidade como direito inalienável, não lhe perdoaria se fosse forçada a ir com ele para a prisão na sequencia da sua detenção.
Em toda a história o papel de Jim é ambíguo e comprometido mas as circunstancias de ser vizinho de John DeLorean, ser convidado para festas que o deslumbram a ele e à mulher, entrar num mundo a que nunca pensaram ter acesso, faz com que o plano de entrega do traficante de droga que combinou com a polícia e as necessidades financeiras de John DeLorean se cruzem num misto de aventura, comédia, interesse mútuo e possibilidade de ganhar dinheiro que de outra forma não consegue.
Mais uma vez Jim, não tem plano de fuga, apenas corre num sentido e empurra os problemas coma a barriga até ao final, no julgamento (a história desenvolve-se em flashbacks de acordo com as questões que são levantadas pelo advogado de John DeLorean no julgamento) onde Jim mostra um gesto de justiça para com o seu amigo John, não o salvando todavia das muitas dívidas que possui.

É uma história sobre relações desalinhadas, perfilada por dois personagens da vida real, por vezes antagonistas e adversárias como acontece no mundo que conhecemos. Aqui, porém, é um pouco diferente e apenas se desenvolve acerca de um negócio comum em que ambos estão dispostos a usar os seus argumentos e encanto natural para conseguir os seus objetivos e ficar fora dos problemas. Um por objetivo de vida, o outro por comprometimento. É um filme divertido e bem feito, recomendo.

Classificação: 6 numa escala de 10

4 de outubro de 2019

Opinião – “Branca como Neve” de Anne Fontaine


Sinopse

Claire (Lou de Laâge), uma jovem rapariga de enorme beleza, provoca irreprimíveis ciúmes à sua madrasta, Maud (Isabelle Huppert), ao ponto de a fazer premeditar o seu homicídio quando o jovem noivo de Maud se apaixona por Clair.
Salva in extremis por um homem misterioso que a alberga na sua quinta, Claire decide ficar na aldeia, despertando a comoção nos seus habitantes. Primeiro um, depois dois, em breve sete “príncipes” irão render-se aos seus encantos. Para ela, isto significa o início de uma emancipação radical, tanto carnal como sentimental…

Opinião por Artur Neves

Acerca do filme “Branca de Neve e os Sapatos Mágicos” no mês passado, já teci alguns comentários sobre as origens da verdadeira história da “Branca de Neve” dos irmãos Grimm pelo que me dispenso agora de voltar ao assunto, numa altura em o cinema recebe mais uma história inspirada no mesmo conto realizada por Anne Fontaine, europeia, nascida em 1959 no Luxemburgo, que tem no curriculum “Agnus Dei – As Inocentes” de 2016, uma história verídica sobre a violação forçada de freiras Polacas por soldados soviéticos já no final da segunda guerra mundial, que gerou alguma controvérsia e várias nomeações para prémios de cinema pela ousada divulgação.
Desta vez, a senhora opta por uma adaptação da fábula infantil, totalmente desconstruída, que a torna numa história sensual e erótica que perde sentido, considerando que ao querer respeitar os cânones da fábula no conteúdo e na forma, torna-a ridícula.
A personagem principal Claire, apresenta de facto, uma face atraente com lábios sensuais e gestos infantis que respiram sensualidade sendo inevitavelmente alvo da generalizada cobiça masculina. Maud, a grande senhora Isabelle Huppert que esbanja arte e experiência em todas as cenas, é a madrasta ciumenta do sucesso da enteada perante os homens e planeia a sua morte com uma maça envenenada (para seguir a história original) entre outras tentativas falhadas.
Os sete anões, são os seus pretendentes, cada um com a sua história particular, de acordo com o contexto de cada encontro, de onde a “heroína” escolherá o preferido entregando-se sem limites ou reservas à sua emancipação radical, tanto sentimental como carnal, com uma imensa fome de viver que a paixão determina. Só que a escolha é multifacetada em pessoas e lugares, incluindo bosques e esquilos que espreitam a “febre” do amor, respeitando todas as particularidades inerentes à história original, que só por “carolice” é para aqui chamada.
A história desenvolve-se em ambientes de montanha que a fotografia de Yves Angelo engrandece e respeita com tomadas de vista fabulosas que nos convidam ao retorno aos ambientes bucólicos, à natureza e aos passeios de montanha. Só que, subordinar esta história, que poderia ter a conotação que o argumentista quisesse, ao conto dos irmãos Grimm, sugere-me que representa ainda uma fratura geracional entre os nascidos nos últimos 40 anos e os mais antigos que eles, que por terem vivido antes do despontar da comunicação fácil se reportavam ao livro e à história de contar. Declaro que nada no filme nos conduz a este pensamento e que ele é apenas uma reflexão minha.
Não sei se este filme é simplesmente uma diversão de Fontaine para distorcer um conto clássico numa história provocante com piadas sexuais e tentativas de humor sobre o amor bizarro. A mim pareceu-me um filme estranho, embora tenha apreciado os desempenhos de Isabelle Huppert e de Lou de Laâge, mas isso é pouco.

Classificação: 4,5 numa escala de 10

30 de setembro de 2019

Opinião – “Amor à Segunda Vista” de Hugo Gélin


Sinopse

Quando Raphael (François Civil) conheceu Olivia (Joséphine Japy) no secundário, foi amor à primeira vista. Após 10 anos de casamento feliz e uma carreira próspera como autor de best-sellers, Raphael tem tudo – ou pelo menos assim o pensa.
Após uma enorme discussão entre o casal, Raphael acorda numa vida paralela onde é solteiro, jogador de pingue-pongue e professor do ensino secundário, com uma vida pouco interessante e demasiado colada à do seu melhor amigo de infância.
Percebendo que Olivia era tudo para si, Raphael terá de fazer o impossível para reconquistar o amor de sua vida - que neste mundo não faz a mínima ideia de quem ele é.

Opinião por Artur Neves

Esta comédia romântica, para lá da divulgação do amor em situações comuns, apresenta-nos uma fantasia fundamentada na ideia de recomeço, de segunda oportunidade para concretizar uma coisa que se tinha e se perdeu. Para lá da sua exibição em sala do circuito comercial, faz também parte do programa da Festa do Cinema Francês 2019, em exibição em várias cidades do país.
Enquadra-se no género do famoso “O Feitiço do Tempo” de 1993 e de outros mais recentes, tal como, “Efeito Borboleta” de 2004, só para citar os mais conhecidos, que através da construção de um universo paralelo criado por um acaso e seguido pela convicção dos personagens de que estão vivendo uma realidade metafísica, executam um paralelismo existencial, no qual estando conscientes do paroxismo da sua atuação, não encontram os meios para reverter o seu estado, sendo compelidos a cumprir a realidade paralela com a qual não se identificam.
Após criado este ambiente, em que até o tempo é diferente, é fácil criar situações confusas e ocorrências inevitáveis que provocam sorrisos, surpresas, alegrias e tristezas inerentes ao amor falhado, ao fracasso de uma relação que quando perdida tem mais valor e mais urgência em ser reactivada, mas como existe noutra dimensão resta a necessidade de estabelecer um plano para nos transpor para lá, ou para trazer quem lá está até nós. Um problema “bicudo” portanto, com várias nuances.
O realizador Hugo Gélin, francês de nascimento, em Paris, 1980, é o mesmo que já nos ofereceu “A Gaiola Dourada” em 2013 com Rita Blanco e Joaquim de Almeida, já nos mostrou a sua capacidade de nos emocionar e divertir, com argumentos da vida real, de fácil aceitação pelo grande público mas que se esgotam em si mesmos pela natureza dos seus motivos. Ao procurar uma história mais transcendente, presumo que pretende subir a fasquia de uma forma rebuscada, para afinal descobrir como o amor pode ser simples, embora por caminhos complicados.
Hugo Gélin realizou e é também o autor do argumento, mas a sua construção está impregnada pela forma da indústria americana contar comédias românticas. Quero dizer com isto, que a história anda à volta de análises psicológicas, grandes bebedeiras com as consequentes ressacas (o cinema americano é pródigo nelas) detalhes de comportamento que merecem observação atenta, idiossincrasias e particularidades pensadas para o desfecho que se adivinha desde o princípio, a segunda oportunidade para repor a primeira vez perdida, com a “flecha do amor” e tudo.
Temos portanto aqui uma diversão salutar, com fantasia, com romance, que se vê com agrado, (se não se escamotear as vivências paralelas) que entretém durante 117 minutos e pode ativar a memória de uma paixão anterior.

Classificação: 6 numa escala de 10

27 de setembro de 2019

Opinião – “Vita & Virgínia” de Chanya Button


Sinopse

Vita & Virgínia é a história verdadeira da relação apaixonada entre a escritora Virgínia Woolf (Elizabeth Debicki) e a enigmática aristocrata Vita Sackville-West (Gemma Arterton) e a história do nascimento do romance “Orlando”, que os inebriantes encontros das duas inspiraram.
Vita & Virgínia é uma história de amor, contada num estilo contemporâneo, sobre duas mulheres – duas escritoras – que arrasaram as barreiras sociais para encontrarem conforto na sua ligação proibida.

Opinião por Artur Neves

Estamos em presença de mais um filme de época, baseado na personalidade esdruxula, ou que mais exactamente podemos classificar como bipolar, da escritora Virgínia Woolf nascida em janeiro de 1882 e conhecida como sendo uma das mais importantes figuras do modernismo do século XX e da romancista e poetisa inglesa Vita Sackville-West com quem viveu um tórrido, subversivo e literário romance de amor em 1920, cuja correspondência epistolar entre ambas já deu origem a uma peça de teatro que agora chega ao cinema pela mão de Chanya Button, nascida em Londres em 1986 e formada em literatura contemporânea em Oxford University.
Ou seja, temos aqui uma história sobre a aristocracia Inglesa do início do século XX, ainda fortemente influenciada pelos dogmas e convenções vitorianas, trabalhada por quem “conhece da poda” e que assim produz um filme que retrata o relacionamento entre as duas amantes desde o seu conhecimento mútuo nas reuniões do Grupo de Bloomsbury, um círculo intelectual restrito, até ao auge do seu envolvimento romântico, de cariz tão intelectual como sensual, tão inspirador do ponto de vista criativo para ambas, como perturbador para Virgínia ao ponto de lhe provocar manifestações da sua doença particularmente debilitantes.
Button traça um retrato de época com uma linguagem visual das cenas, rica e reveladora do mundo interior das duas mulheres. Vita escreve à máquina mas a câmara capta-lhe a expressão facial das palavras em simultâneo com a impressão das letras no papel e com o ruído das teclas, Virgínia escreve com uma caneta de tinta ao mesmo tempo que vemos a expressão da sua boca a balbuciar as palavras directamente para a câmara, criando uma mística que vai para lá da página escrita. Essa técnica exprime a dinâmica dos sentimentos que ambas mutuamente inspiram, não só quando estão separadas, mas também quando se ouvem no rádio, em que Vita “bebe” as palavras de Virgínia.
O ambiente social daqueles anos também não é descurado por Button com cenas filmadas em ricos cenários aristocráticos, com um guarda-roupa bem adaptado à época e uma Isabella Rossellini na pele de Lady Sackville, mãe de Vita e guardiã dos bons costumes e dos segredos do casamento da filha com Harold Nicolson (Rupert Penry-Jones) igualmente bissexual, tal como Vita, que nos tempos de hoje constituiriam o exemplo acabado de um “casamento aberto”. Ambos tiveram relações homossexuais fora do casamento que Lady Sackville afanosamente dissimulava nas reuniões sociais que o seu estatuto aristocrático permitia frequentar. Todavia, para lá das suas tendências sexuais íntimas, eram verdadeiramente dedicados um ao outro, ao ponto de Nicolson abdicar da sua carreira diplomática para usufruir da companhia de Vita e Buton não se esquece de evidenciar esse detalhe.
Virgínia Woolf, igualmente bissexual, casada com Leonard Woolf (Peter Ferdinando) que a apoiava incondicionalmente e ajudava a superar as suas crises, aceitava o seu relacionamento com Vita e lhe corrigia os manuscritos, particularmente no romance “Orlando”, onde Virgínia cria uma personagem que ilustra com precisão o tumulto intelectual e sensual vivido com Vita.
Temos pois aqui um filme sobre pessoas reais na sua faceta mais autêntica, realizado com delicadeza e atenção aos pormenores, que por vezes pode parecer extenso e com alguma falta de profundidade sobre os personagens, mas isso decorre somente da multiplicidade de detalhes que nos são oferecidos para apreciação. Interessante, para ver com paciência.

Classificação: 6 numa escala de 10


26 de setembro de 2019

Opinião – “O Terramoto” de John Andreas Andersen


Sinopse

Em 1904, um terramoto de 5.4 na escala de Richter abalou a cidade de Oslo. O epicentro foi o Rifte de Oslo, que atravessa a capital Norueguesa. Há registos diários de atividade sísmica neste rifte e há indícios de que terramotos de grande escala possam vir a ocorrer nesta zona, ainda que os geólogos não o possam confirmar com certeza. Quando? Ninguém sabe – mas sabemos que a densidade populacional e de infra-estruturas de Oslo a tornam expressivamente mais vulnerável hoje do que em 1904.

Opinião por Artur Neves

Esta história continua uma sequência de filmes catástrofe Noruegueses iniciada em 2015 com “Alerta Tsunami” também já estreado em Portugal. Embora de realizadores diferentes esta saga inclui o ator principal comum, onde o encontramos na ressaca do aviso falhado no filme anterior, despedido e com o consequente comprometimento da sua carreira de geólogo, separado da família, a viver sozinho num lugar de ocasião, sem auto estima, abandonado de si, vegetando nos dias que passam mas continuamente atento aos mínimos tremores que ele sente ocorrerem em Oslo, pois está convencido da eventual ocorrência de nova catástrofe.
Assim, sub-repticiamente, a história vai-nos transmitindo um sentimento de insegurança para o que virá a seguir. Não são avisos, são pequenos indícios a que ninguém liga, excepto Kristian (Kristoffer Joner) cujo corpo treme igualmente da angústia, de não ser ouvido nem pelos seus pares que lhe cobram o falhanço anterior.
Existe também outro cientista que trabalha por conta própria e que é seu amigo e em quem ele confia. Porém, a morte acidental deste, enquanto trabalhava num túnel com um traçado crítico para a cidade de Oslo, deixa-lhe um espólio científico que confirma as suas mais dramáticas previsões e que o faz renascer por ser a oportunidade última de resgatar a sua família do edifício onde se encontram e com quem já tinha conseguido estabelecer uma relação amistosa e assim parte da sua vida, regenerando-lhe a existência conturbada e precária.
A partir daqui a história entra no domínio dos efeitos especiais, de ocorrência do tão esperado terramoto. Toda a cena de destruição está bem conseguida, só que o filme entra num dramatismo de clausura de fazer abalar os mais céticos. Kristian vai salvar a sua mulher que se encontra no seu escritório no 34º andar do edifício e “candidamente” com o edifício já a tremer sobe de elevador. Pior ainda, com a estrutura do edifício a ceder tenta descer com a mulher pelo mesmo elevador e claro que, não consegue mais do que viver largos e angustiantes minutos quando o elevador interrompe a sua marcha devido à inclinação do edifício.
Depois desta cena tem de voltar ao topo do edifício para resgatar a sua filha que se encontra lá retida e temos outra angustiante e forçada cena de salvamento numa estrutura em consola que de minuto a minuto se inclina para o abismo. A imagem da tragédia é impressionante corroborada por sons premonitórios do desabamento iminente. O chão inclina-se para lá do limite da estabilidade construindo a emergência de uma cena que além de perturbadora não é credível e dura mais do que é humanamente suportável tornando-se desinteressante por excesso.
Todavia, a mensagem que fica é a da reconciliação familiar e a recuperação de um homem na sua verdade premonitória, embora mantendo a mágoa do fracasso. O resto é a representação de uma enorme catástrofe em 106 minutos, que pode ser apreciada como puro entretenimento, pois como advertência para comportamentos de fuga em caso de perigo semelhante, definitivamente não é útil.

Classificação: 6 numa escala de 10

25 de setembro de 2019

Opinião – “RAMBO: A Última Batalha” de Adrian Grunberg


Sinopse

Quase quatro décadas após ter derramado a primeira gota de sangue, Sylvester Stallone está de volta como um dos maiores heróis de ação de todos os tempos: John Rambo. Desta vez, Rambo tem de enfrentar o seu passado e recuperar as suas implacáveis técnicas de combate para reclamar vingança numa última missão. Uma jornada mortal de desforra, RAMBO, A Última Batalha é o último capítulo da lendária série.

Opinião por Artur Neves

Não podemos esquecer que a saga de “ Rambo” apareceu na sequência da famigerada guerra do Vietnam em que morreram muitos soldados americanos e os que voltaram, os veteranos de guerra, apresentaram sérias dificuldades de inserção social decorrente dos traumas sofridos em combate e são hoje ainda uma chaga que ensombra a sociedade americana.
Em 1982 aparece o primeiro filme, que gerou logo em 1985 uma sequela, não somente pelo êxito de bilheteira, mas também para passar a mensagem de uma América constituída por homens híper masculinos, valentes, especialmente adestrados para a luta, para atenuar o desaire sofrido pelo país naquele conflito. Deste modo, contaram-se histórias de heróis medalhados perseguidos pela polícia e pelas populações locais que obrigaram o “inocente” herói a uma legítima explosão de fúria violenta, permitindo assim sublimar a sua caraterística dominante de inadaptado social.
Assim, Rambo 1 e 2 apresentam objetivos claros de branqueamento da guerra do Vietnam e devia ter ficado por aqui, todavia, considerando que o franchise se tornou rentável e por isso apetecível a saga continuou com Rambo 3 de 1988, agora sobre a guerra do Afeganistão em que os USA censuram a URSS pela invasão, como se não tivessem anteriormente feito algo semelhante. A política externa dos USA assim o justifica e Rambo lá tem de atuar mais uma vez e, mais uma vez, poderia ter ficado por aqui.
Mas não, 20 anos depois, voltamos a encontrar Rambo em 2008, com um Sylvester Stallone mais envelhecido, eventualmente com alguns problemas de saúde porque o filme desenrola-se lento, com ação comedida em que Rambo aparece quase como uma figura secundária que discute a perseguição dos cristãos na Birmânia, na Revolução do Açafrão em 2007, abordando novamente temas reais onde a política externa dos USA está envolvida, em que Rambo tenta ser um mediador e um conselheiro mas o resultado é deplorável porque essa faceta não integra o ADN do personagem.
Em 2019 eis que Rambo aparece de novo, desta vez em que a política dos USA está envolvida com a crise dos migrantes, com a fronteira com o México, com a construção do famigerado muro defendido por Trump e como tal, a ação tem de mostrar que o México é um país perigoso, sem segurança, com um bandido em cada esquina, droga, sequestro de mulheres para a prostituição e envolvendo uma rapariga que foi criada por Rambo (desta feita; John) na sua quinta e ele tem de salvá-la da sua triste sorte.
Também existem algumas pessoas boas, mais particularmente uma, que ajudou e tratou de Rambo por ter sofrido uma perda semelhante, pelo que é quase como dizer; “não vás ao México sem ser acompanhado por Rambo”. O que se segue é uma epopeia de violência, razoavelmente bem conseguida com efeitos especiais bem estruturados que tornam o filme uma diversão sangrenta, mas ainda assim aceitável no contexto de nos deixarmos ir com um Rambo de intervenção cirúrgica, (o homem tem 74 anos) numa operação preparada ao milímetro, em que tudo corre mal para os bandidos e Rambo (Trump) cumpre as suas promessas. Esperemos que agora fique mesmo por aqui, como tal e para despedida vamos lá dizer adeus.

Classificação: 5,5 numa escala de 10

21 de setembro de 2019

Opinião – “Ousadas e Golpistas” de Lorene Scafaria


Sinopse

A partir de um artigo de fundo publicado na New York Magazine, "Hustlers" conta como um grupo de strippers de um clube noturno de Nova Iorque empreendeu um elaborado esquema de vingança contra os corretores de Wall Street que as enganaram.

Opinião por Artur Neves

Esta história é fundamentada num caso real baseado no artigo de Jessica Pressler, representada por Elizabeth (Julia Stiles) uma jornalista do New York Magazine a quem é concedida uma entrevista por Destiny (Constance Wu) num momento de fraqueza considerando que era co autora na burla que toda a equipa praticava. Este filme conta-nos uma história feminista, interpretado por uma mulher poderosa Ramona (Jennifer Lopez) num dos melhores papéis da sua carreira.
Os homens são aqui considerados como personagens falhadas que sucumbem aos encantos de mulheres rebeldes, “heróis populares” e não simples bonecas sexuais que usam de vários estratagemas para lhe extorquírem o dinheiro gasto na satisfação dos seus gastos sumptuários de roupas e acessórios de marca.
Ramona é magnética no seu desempenho competente e autoritário, só comparável ao seu papel em “Romance Perigoso” de 1998 onde já se identificava como uma aposta credível no mundo do cinema. Este é um dos valores do filme, consubstanciado no prazer de assistir à super estrela Jennifer Lopez (J-Lo) num personagem completo de autoridade, magnetismo, liderança sem nunca deixar de ser envolvente e protetora para as outras que a cercam.
A realizadora Lorene Scafaria segue as táticas clássicas da arte de filmar à Scorcese, incluído uma narração em off, câmara lenta para enfatizar os momentos de antecipação da ação e zooms prolongados que potenciam a emoção, tudo acompanhado de uma banda sonora bem escolhida de pop rock, desde Britney Spears a The Four Seasons, complementada com Chopin nos momentos mais escuros numa história que decorrente do seu desenvolvimento quase permite a exibição de um tema diferente para cada take.
O problema surge com a crise do subprime e a consequente queda de Wall Street em 2008 em que a loucura do dinheiro a rodos dá lugar a uma narrativa mais discreta à medida que o desemprego se começa a verificar até neste ramo de negócio. Aqui tudo muda e é a altura em que Ramona e as suas mais diretas companheiras engendram um esquema que as há de levar à prisão.
Destiny (Constance Wu, revelada em “Asiáticos Doidos e Ricos” de 2018) é a principal protegida de Ramona que inicialmente usa o striptease para apoiar a avó que a criou (é um motivo como outro qualquer, mas é lamecha e suspeito) e depois para manter a sobrevivência financeira da filha que entretanto teve, onde revela tenacidade e caráter. Ela ama Ramona ao mesmo tempo que a respeita e discorda dos seus métodos, mas a necessidade de sobrevivência a isso obriga.
A partir daqui a história requisita elementos que podem ser considerados “empréstimos” de “Viúvas” de 2018 (já comentado neste blog) ou “Showgirls” de 1995, mas que em nada o desqualifica ou menoriza, constituindo um belo espetáculo no seu todo, tanto no argumento como no soberbo desempenho de J-Lo. Recomendo.

Classificação: 7,5 numa escala de 10

13 de setembro de 2019

Opinião – “Ad Astra” de James Grey


Sinopse

Este filme conta a história do astronauta Roy McBride (Brad Pitt) enquanto viaja para as extremidades do sistema solar com o objetivo de encontrar o seu pai desaparecido e desvendar um mistério que ameaça a sobrevivência do nosso planeta. Nesta expedição, Roy irá descobrir segredos que desafiam a natureza da existência humana e o nosso lugar no universo.

Opinião por Artur Neves

Ad Astra, a expressão que dá nome ao filme, tem origem na Eneida, uma epopeia latina escrita por Virgílio no século I a.C. podendo tomar diferentes sentidos no contexto em que for proferida. No aspeto aeronáutico, particularmente no que concerne à conquista espacial pode significar; “por ásperos caminhos até aos astros” (ad astra per aspera), ou mais genericamente “atingir a glória por caminhos difíceis” ou “alcançar o triunfo por feitos notáveis” e qualquer delas está adequada à história contada neste filme.
Na sequência de fortes e perturbadoras tempestades elétricas na terra, provocadas por uma entidade longínqua e desconhecida que se prevê seja provocada por Clifford McBride (Tommy Lee Jones), responsável por uma anterior expedição e pai de Roy MacBride, este é enviado numa expedição para o encontrar, despertando nele sentimentos contraditórios por uma pessoa que ele ama, mas do qual se sente abandonado desde a infância e do remorso que ele sente, de por motivo idêntico provocar isso na sua mulher, remetendo-a um lugar tão marginalizado na sua vida, decorrente da indiferença a que ele a sujeita.
Esta é pois a história de uma saga familiar de um homem amargurado, embora calmo, equilibrado, coerente, cuja memória paterna é tão débil que ele confunde a invenção da sua imaginação com a realidade histórica oficial de um homem que é lembrado e homenageado como o herói para lá do seu tempo, que teve a coragem de viajar no espaço para limites nunca antes atingidos, ad astra, e que ao ser escolhido para esta missão acende-lhe o desejo de finalmente esclarecer as conflituantes emoções que o atravessam e definir o monólogo íntimo que Roy nos dá a conhecer através consistentes narrações em off.
No fim, Roy reconhece “que somos tudo o que temos” e introduz uma linha poética considerando que as pessoas que têm outras pessoas são ricas, são únicas e estão somente aqui na terra. No espaço a realidade é bem diversa.
Para lá deste dilema, Roy é um profissional perfeito e competente em todas as tarefas a que se dedica, sejam elas previstas ou ocorram de surpresa, nos mais fantásticos cenários que o filme pode produzir sobre a galáxia e o cosmos. Esta é outra vertente importante deste filme e inclui a parte lúdica da demonstração da ciência e da tecnologia espacial muito próxima do que são já hoje ou serão num futuro muito próximo. As viagens particulares à lua são encenadas como a SpaceX, fundada em 2002 por Elon Musk, nos anda a vender á uns tempos, mas “Ad Astra” funciona, fundamentalmente porque é lindo de se olhar para a profundidade imensa do espaço fotografado por Hoyte Van Hoytema.
Foram usadas imagens reais das missões Apollo 11 a17 como inspiração, posteriormente recriadas e toda a aparência visual do filme cumpre o nosso imaginário da imensidão espacial e da majestade da coisa real que o cinema nos pode oferecer, especialmente se for vista na versão IMAX que nos absorve e convence em todos os momentos. Todos os pormenores técnicos são respeitados com rigor, conferindo ao filme consistência e realismo.
Sendo eu um adepto do cinema em casa em ecrã generoso, de definição 4K ou 8K, completado por um som multicanal digno, (7+1 ou 10+2 canais + Atmos) rendo-me em absoluto à magnificência do IMAX e recomendo o visionamento deste filme neste formato, como sendo a forma mais imersiva de desfrutar esta obra, em competição no Festival de Veneza 2019.

Classificação: 8 numa escala de 10

11 de setembro de 2019

Opinião – “Os Mortos não Morrem” de Jim Jarmusch


Sinopse

Na tranquila e pequena cidade de Centerville, passa-se algo de muito errado. A lua paira larga e baixa no céu, as horas de claridade estão a torna-se imprevisíveis, e os animais começam a exibir comportamentos fora do normal. Ninguém sabe bem porquê. As notícias são assustadoras e os cientistas mostram-se preocupados. Mas ninguém prevê as mais estranhas e perigosas consequências que em breve vão começar a assolar Centerville: Os mortos não morrem – eles erguem-se dos seus túmulos para atacarem brutalmente e devorarem os vivos, e os habitantes da cidade têm de lutar pela sobrevivência. Do realizador-argumentista Jim Jarmusch (“Paterson”, “Gimme Danger”) chega uma comédia de terror com um elenco extraordinário de atores que já trabalharam com Jarmusch (Bill Murray, Adam Driver, Chloë Sevigny, Tilda Swinton, Iggy Pop, Steve Buscemi, Tom Waits).

Opinião por Artur Neves

Não me parece bem comentar este filme sem falar ainda que brevemente de Jim Jarmusch, muito particularmente neste filme que “sabe” a homenagem a George A. Romero e ao seu “A Maldição dos Mortos Vivos” de 1978 onde pela primeira vez o mundo se viu confrontado com este conceito, que seguiu o seu caminho com as inevitáveis sequelas.
James R. Jarmusch, nascido em 1953 no Ohio, USA tem uma carreira profissional completa pelas diferentes áreas do cinema, como; argumentista, ator, editor, compositor, responsável pela fotografia e finalmente como realizador onde começou a ser notado em “Flores Partidas” de 2005, e mais recentemente em; “Só os Amantes Sobrevivem” de 2013 que representa a sua primeira incursão pelo mundo do vampirismo, muito embora tratando-os como “pessoas” e mais recentemente em “Paterson” de 2016 onde nos trás uma observação silenciosa dos triunfos e derrotas da vida quotidiana, vistos com poesia e detalhe. Em todo o seu cinema sempre mostrou preocupação em sensibilizar-nos para os aspetos controversos da vida onde no maior drama podemos experienciar, amor e comédia.
Este filme entronca nessa veia indie de contrastes, trazendo os mortos do cemitério de volta à vida consumista de todos os dias, fazendo-os levantar-se das campas em busca das suas preferências pessoais de telemóveis, café, wi-fi, Chardonnay, roupa, sem qualquer repúdio pelo excesso, despesismo ou lixo que estamos gerando, neste mundo que começa a apresentar sinais de saturação, em alterações significativas que deliberadamente negamos numa clara referencia crítica à América de Trump e à sua política belicista, potenciando a ocorrência de uma catástrofe ambiental pendente.
Contrariamente ao seu mentor, este filme de zombis não é verdadeiramente um filme de terror, nem sequer sangrento, pois os mortos-vivos desfazem-se em poeira negra que o vento espalha ao acaso. Os heróis da cena são três polícias, pachorrentos, circunspectos na análise dos acontecimentos e mais interessados em filosofarem sobre os eventuais motivos da tragédia do que em salvar o mundo, para o qual eles não sentem muita urgência.
Os atores já são velhos conhecidos dos filmes de Jarmusch; Bill Murray e Adam Driver como polícias e Tilda Switon na pele de Zelda, uma agente funerária que usa espadas de samurai. Todos desempenham personagens impassíveis, esteticamente descontraídos, personagens “jarmuschianas” direi mesmo, numa toada cinematográfica preguiçosa que faz deste filme uma comédia de terror incaracterística, com bons atores, boa música ao estilo Country, mas lamentavelmente com poucas ideias e frustrante no resultado final, porque depois das expectativas criadas esperava-se um pouco mais.
Adan Driver, na pele do polícia Ronnie Peterson, repete por diversas vezes e em diferentes situações, a frase; “Isso não vai acabar bem”, ela ganha foros de profecia, porque ao longo do desenvolvimento do filme vem-nos frequentemente à memória.

Classificação: 5 numa escala de 10