12 de dezembro de 2019

Opinião – “És Capaz de Guardar um Segredo?...” de Elise Duran


Sinopse

Pensando que se vão despenhar, Emma Corrigan (Alexandra Daddario) conta os seus segredos a um desconhecido, num avião. Pelo menos, ela achava que era um desconhecido… até conhecer Jack (Tyler Hoechlin), o novo CEO da empresa onde ela trabalha, que agora sabe todos os pormenores humilhantes sobre ela.

Opinião por Artur Neves

A história a que assistimos é de uma comédia romântica made in USA concebida com todos os defeitos e virtudes que carateriza este género.
Quanto a defeitos, são muitos e variados desde um argumento pouco verosímil, situações improváveis, personagens pouco credíveis e ligeiras que apenas lá estão para cumprir as falas do argumento e darem “corpo” à história, situações artificialmente criadas para provocarem sorrisos ou lágrimas consoante a situação e sempre, mas sempre incluindo um conjunto de lamechices para satisfazer os amantes do género. Valha a verdade que neste ultimo aspeto esta comédia nem é das piores.
Quanto às virtudes, refiro-me à capacidade de alegar situações reais da vida corrente, normalmente inacessíveis no nível de relacionamento da convivência cerimoniosa. Nesta história são abordados assuntos de algum melindre, embora de forma ligeira e superficial, (trata-se de uma comédia) mas com um grau de abertura suficiente para os banalizar retirando-lhe a carga pejorativa que frequentemente lhes é atribuída.
Baseado no romance de Sophie Kinsella, o seu primeiro livro independente com o mesmo nome, após o sucesso dos guiões escritos para a série “Louca por Compras” que passou em Portugal em 2009, é uma adaptação de comportamentos centrados em mulheres que assumem desempenhos de liderança e constroem uma imagem de independência para lá das limitações de género, muito embora continuem femininas e desejáveis.
Com a história resumida na sinopse, acrescento o facto da insatisfação que ela sente no trabalho por ser de uma área financeiramente instável. Do seu relacionamento amoroso com o namorado Connor (David Ebert) que é pouco mais do que idiota, embora lhe satisfaça todos os desejos. Da monotonia da sua vida na casa que partilha com duas amigas. Ela precisa desesperadamente de uma mudança radical que se dá acidentalmente no voo de regresso a Nova Iorque depois de uma desastrosa apresentação comercial que ela foi fazer a Chicago.
A surpresa começa quando ela encontra o desconhecido do avião, Jack Harper (Tyler Hoechlin), na empresa gerando-se uma situação embaraçosa e desnivelada, ela é uma assessora de marketing, ele o novo administrador delegado, foi a ele que ela se revelou os mais ínfimos detalhes da sua intimidade com o namorado e com as amigas, apenas pelo terror de morrer de desastre de avião e aqui começa o imbróglio que inevitavelmente os há de unir no final do filme. Estamos numa comédia romântica, as coisas são o que são e esta só pode acabar em amor.
Para compor o ramalhete Jack é um brincalhão que explora as vulnerabilidades que Emma partilhou e embora a aceite e procure a sua presença, não sente á vontade para partilhar as suas próprias neuroses e segredos pessoais que só posteriormente viremos a saber serem de Polichinelo. Todavia é o suficiente para vermos que a centelha do romance já se acendeu entre ambos e agora é só deixar fluir.
No geral, a história pode encarar-se como uma brincadeira aceitável para quem procura filmes baseados numa ficção pós feminista, embora sem alcançar o nível de “Na sua Pele” de 2005 ou “ O Diabo veste Prada” de 2006, evitando os aspetos tóxicos de uma narrativa demasiado sexista. É um filme para a família em tempo de Natal, que se entrar alegre vai sair satisfeito e a pensar na próxima ocupação.

Classificação: 5 numa escala de 10

11 de dezembro de 2019

Opinião – “Marriage Story” de Noah Baumbach


Sinopse

‘Marriage Story’, é um filme protagonizado por Charlie (Adam Driver) e Nicole (Scarlett Johansson) que mostra o processo de divórcio de um jovem casal, um diretor de teatro e uma atriz, bem sucedidos nas sua carreiras profissionais, mas incapazes no seu relacionamento pessoal.

Opinião por Artur Neves

Consta que este filme, somente acessível através da plataforma Netflix, corresponde em traços gerais ao desfecho da relação entre o realizador Noah Baumbach e a sua ex-mulher; Jennifer Jason Leigh em 2013, ao fim de oito anos de casamento. O filme tem seis nomeações na categoria de Drama, para o 77º Golden Globe Awards, que terá lugar em 5 de Janeiro 2020 na NBC e que costuma ser um evento premonitório do que se passará alguns meses mais tarde na cerimónia dos Óscares de Hollywood.
Numa palavra, pode dizer-se que este filme é abrasador no aspeto documental da desconstrução de uma relação que tinha (e teve) tudo para dar bem. Ele conta a história de um divórcio e da subsequente disputa dos direitos de parentalidade sobre o filho do casal, entre duas pessoas que se amaram, ainda nutrem sentimentos de pertença um pelo outro, mas que as questiúnculas espúrias, mal resolvidas do seu relacionamento os arrastou para uma espiral de desavença que inibe a reversão para o estado inicial do relacionamento.
O modo de contar a história é outro aspeto relevante deste filme, por inovador. Os personagens apresentam-se ao espectador através de monólogos sobre o que cada um pensava do outro no início da relação, através da leitura de textos que ambos escreveram nesse tempo e constitui o único elemento que nos descreve os “dias felizes”. Dá-nos logo à partida a noção do que foi perdido e mais importante ainda, o conteúdo daquilo que ele sentem que perderam durante o tempo que viveram até ali, de que sentem falta e assumem como tão irrecuperável que os leva à separação.
A maior parte dos 136 minutos reporta-se ao mecanismo jurídico do divórcio que inicialmente foi falado entre os dois para ser amigável, mas ao cair no campo litigioso, por conselho de uma amiga de Nicole que lhe recomenda a contratação de Nora Fanshaw (Laura Dern), a separação perde a oportunidade para a manutenção da amizade porque os advogados de ambos apenas estão interessados em ganhar e receber os seus honorários. Os clientes apenas pretendem resolver a situação com o mínimo de dor e secretamente alimentam a hipótese de reconciliação, mas o “combate” perde as regras de compostura e tudo serve para denegrir as imagens um do outro, até aos seus próprios olhos, quando apresentadas sob o prisma justicialista de influenciar negativamente um juiz.
Por outro lado, o objetivo dos superiores interesses da criança apresentam-se como pedra de arremesso para obter a “vitória” e Henry (Azhy Robertson), não passa de um peão no meio de uma teia social que ele não controla nem compreende. Ambos os pais declaram que o seu bem-estar é a coisa mais importante, todavia não se coíbem de gastar com os advogados o dinheiro depositado com o objetivo de custear as despesas com a universidade, ganhando em troca migalhas de direitos, que eles até nem tinham reivindicado.
Nesta área, a cena mais risível de todo o filme, concentra-se na visita da avaliadora parental (o equivalente a uma assistente social, presumo) com o objetivo de inspecionar o ambiente habitacional e relacional com Henry de cada um dos pais. A personagem criada surpreende pela inépcia, inação e impreparação que apresenta na visita. Uma verdadeira anedota, que não deve ter sido por acaso que foi incluída.
Embora a situação se fundamentei num caso real e as emoções daí decorrentes sejam universais, os personagens não são pessoas comuns. Eles habitam uma “bolha” social restrita onde os seus problemas, reais para eles, podem parecer algo banais para todos os que vivem vidas menos privilegiadas. Isso resulta dum certo snobismo intelectual de Noha Baumbach que torna difícil sentir por eles um nível empático mais profundo, apesar de mostrar grande sensibilidade ao descrever as emoções universais motivadas por um divórcio. Todavia não tira valor ao imenso drama afetivo que é banalizado em ninharias pela ação dos advogados. Recomendo vivamente, é um “Kramer vs Kramer” atual e sem lamechices.

Classificação: 8,5 numa escala de 10

9 de dezembro de 2019

Opinião – “Jumanji: O Nível Seguinte” de Jake Kasdan


Sinopse

Em “Jumanji: O Nível Seguinte”, o gang está de volta, mas o jogo mudou. Quando regressam a Jumanji para resgatar um deles, descobrem que nada é como estavam à espera. Os jogadores terão de enfrentar lugares desconhecidos e inexplorados, desde os áridos desertos às montanhas nevadas, para escapar do jogo mais perigoso do mundo.

Opinião por Artur Neves

“Jumanji” é uma história iniciada em 1995 que relata a descoberta de um jogo de tabuleiro encantado, por uns miúdos que acidentalmente o encontram e iniciam o jogo. Esse facto liberta um homem, Alan Parrish (Robin Williams, já falecido) aprisionado no interior do tabuleiro que liberta com ele todos os perigos de que ele se escondia há décadas, por não ter conseguido terminar o jogo.
Tudo poderia ter ficado por aqui e ficaria muito bem. Na altura não era um filme natalício, foi estreado em Portugal em Março de 1996 e mostrava uma boa dose de efeitos especiais que encantaram miúdos e graúdos e principalmente, revelou para o género de comédia um ator em ascensão chamado Robin Williams que pela sua qualidade nos deu excelentes desempenhos em personagens trágico-cómicos com grande conteúdo emocional e ainda hoje apreciáveis.
O problema começa quando a Sony em 2017, “desenterra” o assunto, alterando o conceito inicial, transformando um jogo de tabuleiro num vídeo jogo de consola e os miúdos em matulões, que por motivos nunca completamente explicados se envolvem em aventuras loucas, justificando a utilização de sofisticados meios técnicos computorizados numa história de perseguições sobre perseguidos, que fogem e são apanhados, para depois serem novamente libertados para manter o enredo, em peripécias cada vez mais mirabolantes com o intuito de fascinação circunstancial gratuita, mas sem qualquer objetivo específico que não seja acabar o jogo provisoriamente, para o continuar no ano seguinte, ou dois anos depois como é o presente caso.
Aqui chegados, cá temos mais uma sequela em 2019, agora em calendário natalício para aproveitar as férias escolares, que é mais do mesmo, com os mesmos matulões, efeitos ainda mais sofisticados e com um enredo ainda mais forçado que o anterior, tendo com única razão fazer o grupo voltar ao jogo que tinha sido destruído no filme anterior. But, the show must go on e os pedaços em que ficou o videojogo têm de ser recuperados para que a turma se volte a perder e encontrar em novas aventuras.
Considerando que este género de filmes é só para ver e esquecer de seguida, os argumentos são sempre muito simples. Neste caso temos uma troca de identidades, melhor, uma rotação de identidades que me dispenso de enumerar, pois transformam-se todos em avatares de todos sem razão objetiva e tornam-se incapazes de enfrentar os desafios em que o jogo os envolve para apanharem uma pedra roubada por um rei bárbaro.
Para cumprir esta história, seguem-se perseguições com todas dificuldades que se possam imaginar, provas de dificuldade crescente, diálogos de graça duvidosa e quase no final, uma referência a “Jumanji” 1995 que tem sabor a agradecimento e homenagem mas que não salva a sandice geral que pulula por todo o filme.
Os miúdos estão de férias, é preciso ocupá-los pelo menos temporariamente e nesse campo este filme cumpre o propósito, em todos os outros aspetos é duma pobreza franciscana que nem os efeitos especiais de bom nível compensam… Receio que para o ano tenhamos mais!...

Classificação: 3 numa escala de 10

IMPOSSÍVEL AO VIVO Luis de Matos de regresso a Portugal






Depois de uma digressão internacional de 6 meses, que passou por 21 cidades de 14 países, Luis de Matos está de regresso a Portugal com algumas das suas mais recentes ilusões. O espectáculo IMPOSSÍVEL ao Vivo estreou em Dezembro de 2018 no Teatro Tivoli BBVA, tendo sido aplaudido por um número recorde de 24.000 espectadores em apenas 16 dias de apresentações. Escrito e dirigido por Luis de Matos, o mais premiado mágico português, e um dos mais respeitados do mundo, o espectáculo que se manteve durante 3 semanas no primeiro lugar do top de vendas da Ticketline volta em Dezembro numa nova versão ainda mais surpreendente, para além de chegar a Coimbra e Faro. Luis de Matos trará consigo um novo e extraordinário conjunto de convidados oriundos dos quatro cantos do mundo: Alemanha, Austrália, Coreia do Sul e Inglaterra.
Em Lisboa de 12 Dezembro a 5 de Janeiro, Coimbra de 10 a 12 de Janeiro e em Faro de 17 a 19 de Janeiro, IMPOSSÍVEL ao Vivo é um espectáculo que vai querer ver muitas vezes com família e amigos!


O mais jovem bicampeão mundial da história da magia, Topas, chega-nos da Alemanha e é um dos mais criativos e contemporâneos mágicos da actualidade, aliando um incomparável virtuosismo a uma comicidade desconcertante. Os seus espectáculos, impecavelmente encenados, são sempre de uma originalidade e espectacularidade absolutamente singulares.


Raymond Crowe vem da Austrália e é um verdadeiro poeta do entretenimento, sendo que considera que a palavra que melhor o descreve é “Unusualist” de tão distinto que é o seu trabalho. É presença habitual em programas como o Tonight Show, nos Estados Unidos da América, ou Royal Variety Performance, no Reino Unido, actuando regularmente nas mais consagradas salas de espectáculo do mundo inteiro.


A Coreia do Sul está novamente representada neste espectáculo. Desta vez com An Halim, o mais recente campeão mundial na categoria de manipulação. Em permanente digressão pelo mundo, mudou drasticamente a imagem da magia e afirmou-se como uma das mais surpreendentes referências da actualidade.


De Inglaterra, temos James More, estrela de espectáculos em digressão mundial, como “The Illusionists” e “Now You See Me”, e presença constante nos circuitos da monarquia e das grandes marcas multinacionais. Magia de grande impacto com um indiscutível toque de modernidade, a sua reputação está em constante crescimento. Com mais de 100 milhões de visualizações no Youtube, foi o primeiro ilusionista do Reino Unido a actuar na Broadway.


Luís de Matos, o mais premiado mágico português, distinguido três vezes pela Academia de Artes Mágicas de Hollywood e o mais jovem mágico a receber o Devant Award, do The Magic Circle, foi o mágico principal da digressão europeia do grupo "The Illusionists", composto por artistas premiados no mundo da magia.

5 de dezembro de 2019

Opinião – “Frankie” de Ira Sachs


Sinopse

Frankie, uma famosa actriz francesa, descobre que só tem alguns meses de vida.
Para as suas últimas férias, reúne toda a gente em Sintra, Portugal.

Opinião por Artur Neves

Frankie, a atriz francesa Françoise Crémont, (Isabelle Huppert) recebe a notícia do seu médico de recidiva do tumor canceroso combatido dois anos antes e que agora lhe concede poucos meses de vida.
Para pôr as “contas em dia” com todos os que lhe são mais próximos; o marido atual Jimmy (Brendan Gleeson), de quem tem um filho Paul (Jérémie Renier) de temperamento instável, o primeiro marido Michel (Pascal Greggory) com quem tem uma filha Sylvia (Vinette Robinson) que está em processo de divórcio do seu marido Ian (Ariyon Bakare) que ainda a ama e resiste à separação, bem como o seu círculo restrito de amigos donde se destaca; Ilene (Marisa Tomei) amiga de longa data, confidente, e suporte emocional nos momentos mais difíceis da sua doença, convida-os para umas férias em Sintra – Portugal, onde ela pretende fazer a sua despedida da vida social e mostrar como todos os seus parentes mais queridos podem aprender a viver juntos… sem a sua presença.
Possui ainda um plano secreto de aproximar a sua amiga de sempre, do seu filho Paul mas que se revela impraticável, considerando que Ilene, atriz em Nova Iorque, governa bem a sua vida, tem ideias bem definidas sobre si própria e do que quer no campo sentimental. Resiste à declaração amorosa de seu colega de filmagens Gary (Greg Kinnear) e não aceita a sugestão de Frankie de “escolher antes de procurar”, como esta lhe recomenda, no papel de mãe que pretende deixar o filho acompanhado.
É assim neste ambiente constrangido pela gravidade do anúncio de Frankie que se desenvolvem aquelas “férias”, onde a terceira geração da família encontra uma experiencia de mudança de vida numa ida à Praia das Maçãs com Bento (Máximo Francisco) como escape para as frequentes desavenças com Sylvia, sua mãe.
Este problema com tantas variáveis não tem solução fácil e Ira Sachs, realizador americano que dirige este projeto, procurou dar-nos a conhecer todos os personagens com suficiente profundidade para que possamos ajuizar a complexidade subterrânea destas relações onde todos e cada um à sua maneira, sofrem de uma acédia temporal que lhes provoca apatia e torpor durante toda a narrativa. Sofrem isolados e Ira Sachs sabe “mistura-los”, sem contudo conseguir amenizar o seu desconforto. Sofrem por Frankie e por eles próprios, por não conseguirem concretizar os seus anseios. Todos querem o que não alcançam!...
O filme está bem articulado, não obstante as incongruências inerentes a cada um dos personagens, o drama está apresentado de modo credível e os 100 minutos de duração passam agradavelmente por entre a paisagem rural de Sintra.

Classificação: 6 numa escala de 10

PS: Este filme é uma produção Franco – Portuguesa, coproduzida na parte nacional pela produtora “O Som e a Fúria” e pelo ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual IP) em que os atores principais são estrangeiros, incluindo o realizador e os atores secundários são todos nacionais, onde se destaca Carloto Cotta, o jovem ator já anteriormente referido e muitos outros que compõem o ambiente rural de Sintra, filmado na Quinta da Regaleira e na Peninha, como se de um postal turístico se tratasse. 
Toda a equipa técnica é igualmente portuguesa, não somente na captação de imagem mas também nos outros aspetos acessórios inerentes à filmagens, bem como na edição, o que significa que nós somos capazes e que o cinema português apresenta um potencial de qualidade que tem estado invisível em muitas das recentes realizações.
Na minha opinião falhamos nos argumentos, demasiado novelescos e com dramas de “cordel”, bem como na representação de primeiro nível em que nos deixamos arrastar pela lamechice, suportada por uma representação teatral de que ainda não nos livrámos. Somos uns tristes!...

4 de dezembro de 2019

Opinião – “Apocalypse Now – Final Cut” de Francis Ford Coppola


Sinopse

Apocalypse Now – Final Cut é a terceira e derradeira versão de um dos grandes marcos da história do cinema, e que este ano comemora 40 anos sobre a sua estreia no Festival de Cannes, onde venceu a Palma de Ouro. Francis Ford Coppola considera naturalmente esta versão como a melhor e a definitiva para o seu filme, cujo restauro em 4K acompanhou de perto, nomeadamente ao nível do som.
A partir de Coração das Trevas, de Joseph Conrad. Durante a Guerra do Vietname, um jovem capitão americano recebe como missão procurar e assassinar um coronel americano desertor que se escondeu na selva e passou a comandar guerrilheiros no Camboja, onde é adorado como um semi-deus.

Opinião por Artur Neves

Esta é a atual versão (se é a derradeira não sabemos!...) do mais emblemático filme que foi produzido sobre a guerra do Vietname, não por ser um filme de guerra no sentido clássico do termo, mas antes, um filme que evidencia o horror da guerra, a maldade gratuita, a loucura que induz a alienação dos atos de guerra, não em função de uma estratégia, mas sim de acordo com os medos, as obsessões e os interesses pessoais dos seus intervenientes, também eles sem força, nem razão, para resistirem emocionalmente aos efeitos de um meio e de um ambiente, que lhes são desconhecidos e hostis.
“Apocalypse Now” teve a sua primeira apresentação em 1974 com uma duração de 147 minutos, á qual se seguiu uma sequela em 2001 com o nome “Apocalipse Now – Redux” com 197 minutos em que foi acrescentado o encontro do Captain Benjamin L. Willard (Martin Sheen) com uma família de colonos franceses resistentes ao ambiente de guerra que corporiza o único momento de amor da história, bem como, logo na primeira cena, com maior duração para se poder ouvir na íntegra a música dos The Doors: “The End” e evidencia-se a dependência efetiva do álcool que Martin Sheen sofria na altura das filmagens. Esta versão atual com a duração de 183 minutos, estreada em 2019, “encolhe” o encontro com os colonos e remove as evidências de alcoolismo de Martin Sheen. Em tudo o mais o filme é absolutamente fiel ao argumento original. Todavia, considerando que as versões apresentadas em VHS, DVD ou Laserdisc, ao longo do tempo, sempre foram objeto de pequenas alterações nunca pode saber-se se este fnal cut será mesmo final, como é normal entender-se.
Todo o filme é um portento de desumanidade. A história desenvolve-se ao longo da viagem de Willard na subida do rio Nung num barco patrulha, com a missão de eliminar o coronel Walter E. Kurtz (Marlon Brando) que desertou do exército dos USA e atravessou a fronteira do Cambodja com um punhado de militares que o seguem cegamente e endeusaram a sua liderança, para realizar missões de ataque e fuga contra os Viet Cong. As autoridades americanas estão convencidas que o coronel Kurtz enlouqueceu e por esse motivo querem eliminá-lo.
Á medida que o barco patrulha se desloca, a loucura aumenta por todo o lado. Começa na devastação sanguinária com bombas de napalm ao som da partitura clássica “A Cavalgada das Valquírias” de Wagner, que o Tenente-Coronel Bill Kilgore (Robert Duvall) leva a cabo numa praia, apenas para fazer surf com um dos elementos incluídos na missão de Willard. Segue-se o medo inerente, na viagem que estão a empreender num território que serve de abrigo aos Viet cong e donde sofrem ataques constantes. É a chegada a um aquartelamento de tropas americanas, numa altura de recreio, com um espetáculo de variedades totalmente insano e despropositado para o lugar, que termina abruptamente no meio de um ataque. É o assassínio aleatório de um barco de pescadores suspeitos de apoiarem os Viet Cong por uma tripulação esgotada, demente e alienada pelas drogas que consome. A cena do encontro com os colonos franceses decorre tensa, embora socialmente correta é contaminada pelo elevado consumo de droga que distorce as relações e a visão dos acontecimentos. No final, o encontro com o coronel Kurtz corporiza a loucura da guerra pelos motivos que a justificam, o ambiente em que todos vivem, a escuridão e a morte que os circunda em todos os locais do acampamento.
Embora com o mesmo argumento, a remasterização em UHD 4K refina todos os contornos da imagem, enfatiza as cores da selva e valoriza este filme de culto que ocupa um lugar de destaque na curta lista das minhas preferências. Sem dúvida a ver… ou a rever!...

Classificação: 9 numa escala de 10


29 de novembro de 2019

Opinião – “21 Pontes” de Brian Kirk


Sinopse

Chadwick Boseman é Andre Davis, um detetive da polícia de Nova Iorque que tem de capturar os responsáveis pelas mortes de vários polícias. André vê-se envolvido numa complicada e inesperada conspiração. À medida que a operação avança fecham-se as 21 Pontes de Manhattan para impedir a fuga dos assassinos. Para este detetive fracassado esta é a última oportunidade de redenção.

Opinião por Artur Neves

Esta é mais uma história de hard crime e castigo com polícias (o conhecido NYPD) e ladrões violentos sem mágoa nem perdão. Assim sendo o final já é conhecido, mas se queremos inovar, se queremos realmente fazer algo pelo menos um pouco diferente, há que juntar outros ingredientes que aqui começam a aparecer como um ruído de fundo que se vai acentuando com o desenrolar da ação e se vai revelando e assumindo como o motivo principal da narrativa por entre muitos tiros, muitos mortos e muita ação de bom nível.
Está ao nível de “Dia de Treino” de 2001 ou de “Nós Controlamos a Noite” de 2007 mas porque é mais recente apresenta outros motivos de interesse através da vigilância de alta tecnologia e maior dinâmica nos assaltos e perseguições automóvel numa desenfreada caça ao homem, alegado autor da morte de oito polícias por um detetive cavalheiro, Andre Davis (Chadwick Boseman) lesto em premir o gatilho, mas igualmente inteligente e ético que persegue a descriminação entre o que está certo num mundo que deu errado.
O seu elemento diferenciador, que se vai acentuando em segundo plano ao longo da história, tem a ver com a brutalidade policial, o racismo e o equívoco de políticas avulsas mais interessadas no seu próprio benefício do que no bem comum.
Brian Kirk, realizador mais conhecido por séries de TV, como “A Guerra dos Tronos” (3 episódios) ou “Grandes Esperanças” (mini-série) deu a oportunidade a um ator em ascensão, (Chadwick Boseman) conhecido por várias interpretações de origem Marvel, em se destacar num personagem, fora do mundo dos quadradinhos, com personalidade, suspense, capacidade de decisão e dilemas morais que ele gere com segurança.
Para contracenar com ele também encontramos dois bons desempenhos em Ray (Taylor Kitsch) assassino sanguinário, traumatizado na infância e contaminado pela guerra do Afeganistão que lhe retirou toda a réstia de humanidade e Michael (Stephan James) também antigo colega no Afganistão, mas inteligente, empático e até bondoso em algumas cenas onde o seu parceiro só vomita raiva.
O resto do elenco também se situa em bom nível, com particular destaque para o Captain McKenna (o veterano J.K. Simmons) responsável pelos polícias mortos que espera que Andre Davis cumpra a sua missão de vingança… e de conveniência, como mais tarde vimos a descobrir através dos twists do argumento, que ainda assim conseguem manter o espectador focado nas múltiplas relações raciais para que o filme aponta e nos dilemas morais que Davis encontra nas descobertas que vai fazendo no desenrolar da ação.
Para 100 minutos é um trabalho escorreito, recheado de suspense, ação inteligente e segurança na história e no desempenho mostrado. Vê-se com muito agrado.

Classificação: 6,5 numa escala de 10

27 de novembro de 2019

Opinião – “Os Aeronautas” de Tom Harper, Jack Thorne


Sinopse

Londres, 1862.
James Glaisher (Eddie Redmayne), um jovem cientista que deseja desesperadamente ser levado a sério, junta-se a Amelia Wren (Felicity Jones), piloto de balão de ar quente, para uma viagem única. O voo deles cumprirá o duplo objetivo de quebrar o recorde de altitude e de ajudar James a reunir dados que permitam comprovar as suas controversas teorias sobre a previsão do tempo. Mas à medida que a dupla for subindo até alturas onde nenhum Homem chegou antes, o ar fica mais rarefeito e mais frio, impondo-se decisões difíceis, das quais dependerá a continuidade da viagem e a sobrevivência dos dois aventureiros.

Opinião por Artur Neves

Esta história está para lá do primeiro voo tripulado em balão de ar quente realizado em 15 de Outubro de 1783, por Pilatre de Rozier em França, com o balão preso à terra e tendo atingido a altura de 24 metros. Neste voo realizado em Londres em 1862, já teriam sido descobertos gases mais leves do que o ar que permitiam a ascensão do balão pela diferença de massa volúmica entre o gás utilizado e o ar, com o propósito de estudar a evolução do ar húmido na atmosfera para fins de previsão do tempo.
O que eles desconheciam era o efeito da mudança de estado da humidade contida no ar com a altitude, sendo portanto confrontados com fenómenos físicos de mudanças de estado da água aos 37 000 pés (cerca de 11 100 metros, que constituiu record absoluto naquela época) o que provoca o seu congelamento, bem como a rarefação do oxigénio à medida que subiam na atmosfera, que lhes provocaram problemas respiratórios e de perda de consciência, impeditivos de prosseguirem os seus trabalhos tal como inicialmente planeados.
Adicionalmente a história apresenta-nos em flashback diversos episódios da vida de James Glaisher e de Amelia Wren, nomeadamente desta ultima, em que nos conta ter sido o marido que a influenciou para a profissão de piloto de balão e de se ter suicidado num voo para aliviar a carga do cesto, em que o balão teria entrado em perda,  salvando-lhe a vida.
Embora mostrando alguma ação acrobática dos ocupantes da barquinha, decorrente da necessidade de diferentes manobras de condução do balão em ascensão e do efeito da congelação da válvula de escape do gás, o motivo que anima este filme não apresenta elementos suficientemente motivadores da nossa atenção, considerando que a ascensão do balão é o caminho inevitável de um objeto com poucos meios de controlo, a interação entre ambos os tripulantes é formal, distante e de cariz meramente profissional e o espaço exíguo onde se movem para pouco mais dá do que a mostra da sua estacionária presença.
Em termos práticos o filme divide-se em duas partes, sendo a primeira, mais longa, a fase do “sobe, sobe balão sobe” e a segunda, mais curta, a fase do “desce, desce balão desce” porque como é sabido; para baixo todos os santos ajudam.
É pouco, poucochinho mesmo, para 100 minutos de filme em que dois atores já com créditos firmados noutras realizações, servem um propósito pobre de conteúdo.

Classificação: 4 numa escala de 10

22 de novembro de 2019

Opinião – “Sibyl” de Justine Triet


Sinopse

Sibyl (Virginie Efira) é uma psicanalista que decide largar a maioria dos seus pacientes quando é tomada pelo desejo de escrever, procurando inspiração em Margot (Adèle Exarchopoulos), uma jovem atriz que lhe suplica que a receba.
Em pleno período de filmagens, Margot engravidou do ator principal… que mantém uma relação com a realizadora do filme. Enquanto Margot lhe vai contando o seu dilema passional, Sibyl, fascinada, vai gravando secretamente as sessões. A narrativa da paciente alimenta-lhe a ideia para o livro, mergulhando-a ao mesmo tempo no turbilhão do seu passado. Quando Margot lhe pede que vá ter com ela a Stromboli para acompanhar o fim das filmagens, tudo se acelera a uma velocidade vertiginosa.

Opinião por Artur Neves

A realizadora deste filme, Justine Triet, natural de França e diplomada pela Paris National School of Fine Arts deve ter um dia pensado que; “sendo a vida tão difícil como já é, como é que posso apresentá-la mais complicada ainda?...” e na sequência desse pensamento concebeu este argumento em conjunto com um escritor de serviço e apresentou-o no Festival de Cannes em Maio de 2019.
Com o resumo do argumento reproduzido na sinopse, esta história pretende cruzar diferentes formas de poder, a saber; o poder do terapeuta sobre o seu paciente, o poder de um realizador de cinema sobre os atores que corporizam uma obra que vai ser sua, o poder da atração física que inspira o amor entre o possuidor e o possuído, aqui com a nuance de o possuído poder ter mais poder que o possuidor e seja o elemento a determinar quem deixa quem.
Percebe-se em todo o filme o facto de ter sido um argumento meticulosamente construído de forma a conter alguma forma de suspense clássico, em conjunto com momentos de descontração que todavia não desviam o espectador do fundamental da história. Não se conhece a vida quotidiana de qualquer dos personagens, muito embora para a história seria interessante apreciá-los noutros contextos, porque de tal forma o objectivo de Justine Triet é seguido, de juntar a psicanálise á representação, e de mostrar que todos os personagens são manipuladores e se manipulam entre si, dentro e fora dos seus trabalhos com o único objectivo de retirarem dividendos para si próprios.
Sibyl e Margot aparentam preocupar-se uma com a outra mas por motivos diferentes dos que seriam inerentes à relação que as liga. Sibyl vislumbra a história do seu romance no problema de Margot e esta, apesar de sofrida, vê em Sibyl um desafio que ela quer testar, apesar de já ter decidido o que fazer consigo.
A narrativa é preenchida com flashbacks entre o presente de Sibyl com o actual e com o anterior companheiro, pai dos seus filhos, embora possam parecer desenquadrados aos espectadores menos atentos ao desenrolar do enredo (e aqui deixo o aviso; este filme requer atenção) que em conjunto com diálogos em off conduzem o argumento entre a expectativa do próximo passo e a história de fantasia à beira do fantástico.
Curiosamente, ou não, a importância inicial do livro de Sibyl perde-se na narrativa, considerando que a produção artística de diferentes formas é o objectivo da manipulação entre os personagens, porém, parece que não há tempo para absorver todas as vertentes, que faz com que alguns símbolos tenham de ser abandonados.
Em conclusão posso acrescentar que este filme propõe um desafio psicológico fascinante entre personagens manipuladores que se pretendem servir entre si e para cada um, mas as variáveis em presença, factuais, previstas e passadas, são tantas que se vão perdendo durante o exercício, o que é pena. Ainda assim achei interessante.

Classificação: 6 numa escala de 10

20 de novembro de 2019

Opinião – “Enquanto a Guerra durar” de Alejandro Amenábar


Sinopse

Salamanca, verão de 1936, Espanha vive uma situação desconcertante e o ilustre escritor Miguel de Unamuno decide apoiar publicamente a revolta militar acreditando que poderá trazer ordem ao caos existente. Como consequência desse apoio, é imediatamente demitido do seu cargo de reitor da Universidade de Salamanca pelo governo de esquerda. Entretanto o general Francisco franco une as suas tropas à rebelião e inicia com sucesso uma campanha vinda do Sul, tentando secretamente tomar o comando da guerra. Este confronto torna-se bastante sangrento e alguns amigos e colegas do escritor são detidos e aprisionados, obrigando Unamuno a questionar o apoio que tinha dado anteriormente à rebelião e até aos seus próprios princípios. Quando Franco transfere o seu quartel general para Salamanca e é nomeado Caudilho, Unamuno visita-o no palácio determinado a implorar clemência.

Opinião por Artur Neves

Alejandro Amenábar apresenta-nos aqui um relato dramático sobre o início do regime Franquista, em pleno início da guerra civil e como esse personagem congelou os destinos do povo espanhol durante quase 40 anos submetendo-o a uma ditadura de direita com a bênção divina. Franco e sua família eram fortemente crentes em Deus e o filme documenta essa dependência.
A história desenvolve-se em torno do filósofo e escritor Espanhol Miguel de Unamuno, conhecido pela sua obra; “O Sentimento Trágico da Vida” que lhe valeu a condenação da igreja e pela sua postura social, tal como descrito na sinopse e que compõe o argumento deste filme.
Miguel de Unamuno (Karra Elejalde) é assim considerado um autor estimado e filosofo, incluindo a fação nacionalista que o considerava patriota e nessa conjuntura, ele também se mostrava solidário com a junta militar que em processo colegial tinha o controlo do poder em convulsão e que evitava criticá-lo por conhecer o seu raciocínio de livre pensador independente de qualquer dogma.
Os seus amigos mais chegados são; Salvator (Carlos Serrano-Clark) um jovem professor que foi seu aluno e Atilano (Luis Zahera), pastor protestante, em que nas suas longas conversas, ambos, sobrevalorizando a influência política de Unamuno, frequentemente lhe recomendavam intervenções e pedidos que Unamuno sabia não estarem ao seu alcance, não só decorrente dos achaques da sua saúde, como principalmente, pela indiferença a que o poder remete o prestígio da intelectualidade, quando estão em jogo as ideologias fascistas e os partidos totalitários que enquadram pessoas incultas nas suas fileiras e divulgam uma doutrina que os afasta do raciocínio lógico.
Dos elementos constituintes da junta militar dirigente começa a formar-se a ideia da existência de um líder único em contraste com a tomada de decisão colegial, particularmente impulsionada por um general, mutilado e herói de guerra, temperamentalmente arrogante e possivelmente psicótico; Millan-Astray (Eduard Fernández) camarada de armas de Franco na frente africana, que “empurra” Franco para a presidência do grupo, apesar deste se apresentar como um militar fraco, sem qualquer espírito de liderança, passivo e até tímido, com medo (declarado pelo próprio) de “fazer o movimento errado”. Millan-Astray possivelmente teve em conta o seu poder de influência sobre Franco na condução das decisões de guerra.
É pois a este general Franco, já empossado pelos seus pares, que Unamuno se dirige em audiência pedindo clemência para os seus amigos entretanto presos, recebendo como esperado, um “não” rotundo, e que é posteriormente solicitado para a presidência do ato de abertura do ano letivo de 1936 no salão nobre da universidade, onde depois das exaltações da praxe política, Unamuno revela a sua oposição ao regime evidenciando muito particularmente as contradições do regime que ele abomina.
Alejandro Amenábar que nos ofereceu; “Mar Adentro” em 2004 com o drama da vida de Ramon Sampedro como ilustração da justeza da eutanásia, ou; “Os Outros” em 2001, numa história que inverte a posição entre os mortos e os vivos que habitam uma casa assombrada, traz-nos aqui um documento histórico que embora do ponto de vista técnico flua com segurança, apresenta alguma falha de ignição emocional que não nos empolga nem surpreende em nenhum momento. Todo o filme está bem construído, utilizando meios técnicos de primeira qualidade que tornam a representação credível e bem representativa de um passado não muito distante que serve para nos lembrar que todos os conflitos emergentes na Espanha atual não são um assunto novo.

Classificação: 7 numa escala de 10
PS: Não existem documentos históricos do discurso de Unamuno na universidade, mas segundo os relatos da época a controvérsia das suas declarações que levaram à sua terceira destituição de Reitor da Universidade de Salamanca estão descritas na página da Wikipedia referente a Miguel de Unamuno, cujo link deixo aqui.


Opinião – “Onde estás Bernadette?” de Richard Linklater


Sinopse

Onde Estás, Bernadette? é baseado no bestseller sobre Bernadette Fox (interpretada pela vencedora de 2 ÓSCARES Cate Blanchett), uma mulher de Seattle que tinha tudo – um marido dedicado e uma filha brilhante. Quando ela desaparece inesperadamente, a sua família parte numa aventura emocionante para resolver o mistério do seu paradeiro.
Com interpretações de Kristen Wiig, Billy Crudup e Laurence Fishburne, Onde Estás, Bernadette? baseia-se no bestseller de Maria Semple e é realizado por Richard Linklater, vencedor de um Óscar com Boyhood: Momentos de Uma Vida e realizador da trilogia de filmes Antes de Amanhecer, Antes do Anoitecer e Antes da Meia-Noite. (1995-2013).

Opinião por Artur Neves

Esta história é fundamentada num romance escrito em 2012 por Maria Semple que em jeito de comédia descreve a personalidade e a vida de uma arquiteta, que por motivos ilustrados no filme desaparece subitamente para se encontrar intimamente, nem ela sabia onde, antes de fugir.
A adaptação duma história destas não se apresenta fácil quando, seguindo o objeto do livro, temos de conjugar comédia social, crítica feminina sobre arte, união familiar e trauma materno, decorrente da ocorrência fortuita de dois abortos antes do nascimento de Bee Branch (abreviatura de Balakrishna, por acidente de dicção), (Emma Nelson) o “ai Jesus” da família e narrador em off dos eventos mais significativos que conduziram aquele desaparecimento.
Outro problema associado a esta realização seria encontrar a pessoa certa para este personagem multifacetado, agorafóbico, inteligente e maternal e aí dou os meus parabéns a Richard Linklater que acertou “na muge” ao escolher Cate Blanchett, essa versátil atriz que já nos deu um excelente personagem de mulher que tenta assumir uma identidade em que não pode acreditar, em Blue Jasmine de 2013, realizado por Woody Allen.
Linklater, que apresenta um certo pendor para o lamecha, aqui, descartou-se da profundidade do romance que não dizia respeito a Bernadette para que Cate Blanchett pudesse brilhar e apoiando-se, num personagem muito bem conseguido, pode dizer-se que; “leva o filme às costas”, ao ponto de se reconhecer que onde ela não está, é o vazio.
A história mostra-nos que tanto Bernadette como Bee são espíritos inquietos decorrente dos seus percursos; Bernadette como a arquiteta mais promissora da sua geração, recheada de sucessos na vida profissional, detentora de um prémio MacArthur Grant, por uma obra, posteriormente destruída por um vizinho que a odiava (aliás, Bernadette não é fácil de amar) e Bee que tendo nascido com uma insuficiência cardíaca, foi sujeita a múltiplas operações de reconstrução do coração que retardaram o seu crescimento e lhe proporcionaram uma infância difícil e conturbada.
O marido, Elgie Branch (Billy Crudup) e a sua vizinha fútil Audrey (Kristen Wiig) como sendo as pessoas que mais diretamente interagem com Bernadette têm os seus papeis menorizados representando o marido, um alto quadro da Microsoft, com elevado sucesso na sua carreira e que decorrente dos acontecimentos que nos são mostrados poderia assumir algum poder agressivo, foi transformado num quase idiota, plácido e conformado com todas as decisões tomadas pela “arquiteta” e Audrey, para quem o artificialismo das convenções pontua como comportamento e modo de vida é aqui remetida para um lugar secundaríssimo, muito embora nos apetecesse ver mais da sua interação.
Blanchette dá tudo de si e nos 109 minutos de filme, Bernadette existe em qualquer lugar onde ela se encontre e estabelece a diferença como o ator se entrega ao seu personagem, tanto no seu mau relacionamento com a tecnologia, como no amor à sua desejada filha. Para ela vai toda a classificação indicada a seguir e no meu entender, bem o merece.

Classificação: 6,5 numa escala de 10

19 de novembro de 2019

LISBON TATTOO ROCK FEST 2019 - Entrevista a Poli Correia

Lisboa, Altice Arena • 29, 30 NOV e 1 DEZ

                                

"Sou um tatuador que gosta de fazer música e não o oposto. A música aliada à tattoo é uma mais valia"


Entrevista a Poli Correia, um dos artistas que irá marcar presença na Convenção Internacional de Tatuagem de Lisboa (tatuador na Iron Skull e músico em Devil In Me / Sam Alone)  
 
  • Como vês esta relação promovida pelo festival entre a tatuagem e o mundo da música? Acreditas que o público sai inteiramente beneficiado?

    Poli: Do meu ponto de vista, e de um modo geral, acredito que sim. A partir de certa era, a cultura da tattoo começou a estar bem presente no meio musical e sim, o rock foi sem dúvida dos pioneiros a abraçar e ter orgulho em carregar pigmento na pele. Acredito que toda a gente ganha no final do dia, música aliada à tattoo é uma mais valia. Toda a gente ouve e mete determinada música nos seus estúdios para tatuar, independentemente do género musical.

     
  • Como consideras o desenvolvimento do universo profissional da tatuagem em Portugal? É importante uma convenção como esta para estabelecer novas relações profissionais e pessoais?

    P: O universo "profissional" da tattoo portuguesa parece estar a caminhar numa boa direção. Eu gosto de convenções, por isso sou suspeito… considero que é bom para estarmos com tatuadores/amigos, partilhar conhecimento e até mesmo para passarmos todos um bom fim de semana rodeados de tattoo e arte relacionada com a mesma.  

     
  • Achas que as pessoas estão mais educadas atualmente para o que é, de facto, adotar a tatuagem como um modo de ser e de estar na vida?

    P: Para começar acho que existe uma contra-informação enorme, mas a verdade é que cada vez existe mais gente tatuada. Não sei se as pessoas têm uma melhor noção da tattoo e da forma como a abordam e a carregam no seu dia-a-dia, mas parece-me que o que surgiu foi uma vertente mais apelativa a nível de grafismos para as massas “pop” que, outrora, pouco ou quase nada consideravam a tatuagem nas suas vidas.

     
  • A tatuagem sempre esteve conectada mais com a cultura musical underground e de géneros mais “pesados” sonoramente. Achas que ainda hoje é assim ou esse estigma tem vindo a desaparecer?

    P: Desaparecer. Não tem só que ver com a questão "pop" que muitas culturas e movimentos artísticos por vezes acabaram por sofrer - se bem que a tattoo não tem um género musical especifico, a meu ver. De qualquer forma, tenho pena de ver a MTV e figuras de reality shows a usufruirem e a deturparem o conceito da tatuagem. Mas na verdade a tattoo está bem… apenas se abriu uma janela para as massas e, talvez, seja isso que nos faça parecer que tal esteja a acontecer.

     
  • Até que ponto ser músico e tatuador ao mesmo tempo potencia ambas as carreiras?

    P: Sou um tatuador que gosta de fazer música e não o oposto. Eu nunca fui muito bom a vender esse "peixe". Tomei a decisão de tentar ao máximo não misturar as duas, ou seja, nunca usei uma para vender a outra, até porque a tattoo para mim está acima de quase tudo na minha vida. A música foi sempre um hobbie que ganhou alguma relevância na minha vida, mas já tive situações em que tatuei devido ao facto de gostarem da banda em que toco… não vou mentir! Pode sim potenciar a carreira, mas eu nunca o fiz dessa forma

     
Com mais de 300 tatuadores de todo o mundo confirmados, o Lisbon Tattoo Rock Fest regressa à Altice Arena nos dias 29 e 30 novembro e 1 dezembro de 2019. Na vertente musical, estão confirmadas as presenças de Madball e Carnivore A.D. no dia 30, sábado, assim como a atuação de Ugly Kid Joe na sala principal no dia 1, domingo. 

18 de novembro de 2019

Opinião - Teatro - Os vizinhos de cima

Sinopse:
Ana Brito e Cunha, Fernanda Serrano, Pedro Lima e Rui Melo regressam ao Teatro Villaret, em Lisboa, a partir de 26 de Setembro.

OS VIZINHOS DE CIMA esteve em cena pela primeira vez de Outubro a Dezembro do ano passado, em Lisboa, tendo seguido depois numa pequena digressão pelo país - com passagem por três coliseus do Porto completamente esgotados - num total de 66 apresentações com mais de 30 mil espectadores.

Regressa agora Lisboa mantendo a promessa de continuar a fazê-lo reflectir sobre as relações a dois, com muitas gargalhadas à mistura, porque, como insinua o próprio autor: Uma boa dose de sentido de humor é absolutamente imprescindível para conseguirmos lidar com as questões do coração. E com a vida no geral, atrevemo-nos a acrescentar.

"Sem dúvida, uma das maiores e mais ambiciosas aventuras que podemos experimentar é viver em casal. Um grande desafio, cheio de adversidades e obstáculos em que a luta acontece diariamente, as trincheiras são infinitas e o consolo às feridas e arranhões sofridos é muitas vezes escasso e pouco salutar. Mesmo assim, inexplicavelmente homens e mulheres continuam a tentar. Por essa razão, estou convencido de que só com ironia e sentido de humor é possível escrever sobre essa tragédia que nos assombra desde o início dos tempos e da qual não podemos escapar. E o que é que os vizinhos de cima têm a ver com isso? Bem, eles são os culpados por estar a ler estas linhas agora. Há alguns anos atrás um casal mudou-se para o andar por cima do meu - onde vivo com a minha família. Quase de imediato começámos a ouvir ruídos estranhos, a qualquer momento ou hora do dia, sempre acompanhados de uma grande variedade de gemidos. Certamente que para mim, isto foi uma inspiração, e de forma inconsciente, acabou por dar origem ao que seria a minha primeira peça para teatro.” Cesc Gay


Opinião por Marta Castro:
OS VIZINHOS DE CIMA marcou a estreia no teatro do cineasta Cesc Gay. Estreado pela primeira vez em Barcelona, converteu-se logo num grande sucesso, esgotando todas as apresentações e batendo recordes de espectadores. Em Portugal, volta agora ao palco do Villaret em Lisboa.
Fernanda Serrano chegou, aquando da edição anterior, a mencionar que este foi um dos espetáculos mais felizes da sua vida.
Esta peça conta-nos a história de dois casais – os vizinhos de cima Laura e Rafa, protagonizados por Ana Brito e Cunha e Rui Melo, e os vizinhos de baixo Ana e Júlio, interpretados por Fernanda Serrano e Pedro Lima. Laura e Rafa, ela psicóloga e ele bombeiro, formam aparentemente um casal modelo. Já Ana e Júlio, ela proprietária de uma loja de roupa e ele pianista e professor de música no conservatório, passam por uma fase de monotonia e estagnação no casamento.
Após 6 meses na casa, Ana decide convidar o casal de cima para um jantar em sua casa, um pouco à revelia do seu marido. Não conseguindo escapar a este encontro, Júlio decide que esta é uma boa altura para confrontar os vizinhos com o facto de fazerem muito barulho, algo que Ana tenta evitar a todo o custo. À medida que a noite avança, os segredos dos vizinhos de cima começam a ser desvendados e o casal de baixo fica a conhecer as loucuras sexuais dos seus vizinhos, o que faz com que eles proprios comecem a repensar a sua própria relação, que já não tem o fulgor de outrora.
Esta peça é uma comédia cheia de humor e ironia, que aborda a temática do sexo, do amor, das aparências, e mais que tudo da convivência dos casais, levando o espectador a reflectir sobre a ilusão das aparências e a verdade das relações humanas e do que é preciso para uma relação sobreviver ao desgaste do tempo.
"Os vizinhos de cima" tem tradução de Maria João Rocha Afonso, música original de Filipe Melo e Nuno Rafael, cenário e adereços de Rui Filipe Lopes, figurinos de Isabel Carmona e desenho de luz de Luís Duarte. A peça pode ser vista de quarta-feira a sábado, às 21:30, e, aos domingos, às 16:30.
Vale a pena ir ver. De rir do principio ao fim!! De salientar a performance de Pedro Lima que é simplesmente fantastica.

17 de novembro de 2019

Opinião – “Mulher em Guerra” de Benedikt Erlingsson


Sinopse

Halla, uma ecologista de 50 anos de Reiquiavique decide enfrentar a indústria do alumínio num ato de justiça solitária, em prol da defesa do ambiente e contra o aquecimento global.
Começa então a sabotar as linhas de alta tensão para paralisar a fábrica, mas a notícia de que foi aceite para adoção de uma criança na Ucrânia abala os seus planos.

Opinião por Artur Neves

Benedikt Erlingsson não faz a coisa por menos, constrói um filme estranho, sem género definido, sobre uma história eco-terrorista e mistura nela, com alguma habilidade, diga-se, suspense, drama familiar, comédia sombria e realismo fantástico, apresentando um grupo de três músicos – tuba, acordeão e bateria – e um pianista errante, que acompanham um coro tradicional de cantores Ucranianos. Conjunto este, fora do real das cenas, ninguém os pode ver, apenas porque eles são propriedade do espírito de Halla (Halldóra Geirharðsdóttir) e acompanham-na em todas as situações tensas, acentuando essa tensão no início e posteriormente contribuindo para o seu desanuviamento, se assim se vier a verificar.
O grupo de músicos e o coro não fazem parte da ação, exceto no espírito de Halla que antecipando as dificuldades das ações que vai cometendo, excessivas em relação aos motivos que as justificam, assim as vai caraterizando ao longo do desenrolar da história, como que de um oráculo numa tragédia grega se tratasse, aparecendo nos momentos de risco a comunicar-nos e a envolver-nos nos seus atos heroicos.
As razões que Halla apresenta são a proteção da paisagem natural da Islândia, do funcionamento de uma refinaria de alumínio pertencente ao grupo Rio tinto, que ela diz ser um atentado à beleza natural do seu espaço rural, gloriosamente filmado por Bergsteinn Bjorgulfsson, diretor de fotografia.
Para o defender, ela mune-se de um arco e flechas para provocar um curto-circuito nas linhas de abastecimento de alta-tensão à fábrica de purificação de minério e posteriormente, numa massa explosiva de Semtex para destruir um dos postes de suporte da linha, interrompendo por mais tempo a alimentação de energia à refinaria.
Ninguém suspeita da alegre Halla, com cerca de 50 anos, simpática e participativa na comunidade, cujo trabalho normal é dirigir um grupo coral de adultos de pendor religioso, nem mesmo a sua irmã gémea Asa (também interpretada por Halldóra Geirharosdottir) que vive feliz, ocupada na sua elevação espiritual através da meditação e da prática de yoga e que tal como ela se propuseram em conjunto para adoção de uma criança em que Halla seria a mãe de acolhimento e Asa o garante de retaguarda para o caso de acontecer alguma coisa a Halla.
As coisas alteram-se quando Halla recebe uma carta informando-a que o seu pedido foi atendido e que ela poderá tornar-se mãe de uma menina ucraniana, Mika, apresentada numa fotografia em que toda a gente reconhece nítidas parecenças com ela.
Não caro leitor, a menina não é filha de um qualquer relacionamento anterior de Halla, ou de Asa e o filme é claramente anódino em matéria de erotismo ou esclarecedor sobre a orientação sexual de ambas. Um completo vazio.
A história foca-se somente na ecologia e na defesa da natureza e serve-se de um turista andarilho latino-americano, que é sempre conotado pelas autoridades e pelos midia como o responsável pelos atentados; Juan (Juan Camillo Roman Estrada) que assume a particularidade de estar sempre na hora errada no sítio errado, evidenciando uma certa discriminação negativa, algo incompreensível no contexto, quanto aos não nativos da Islândia.
O argumento é pois minimalista, sem subterfúgios nem twists, valendo-se apenas da beleza paisagística constituída por uma variedade de espaços abertos, grandiosos na sua diversidade geológica, maravilhosamente captados por um diretor de fotografia competente, avisando-nos para o futuro dramático que pode invadir aquela terra. Nada mais.

Classificação: 5 numa escala de 10