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26 de janeiro de 2020

Opinião – “Mulherzinhas” de Greta Gerwig


Sinopse

A realizadora e argumentista Greta Gerwig (Lady Bird) apresenta uma versão de “Mulherzinhas” que se baseia não só no romance clássico de Louisa May Alcott, como também nas notas deixadas pela autora. Esta história, vai desdobrando-se no alter ego da autora, Jo March, à medida que esta leva a sua vida real para a sua obra ficcional. Na opinião de Gerwig, a adorada história das irmãs March - quatro jovens determinadas a viver a vida à sua maneira - é intemporal e oportuna. Retratando Jo, Meg, Amy e Beth March, este filme é protagonizado por Saoirse Ronan, Emma Watson, Florence Pugh, Eliza Scanlen, com Timothée Chalamet no papel do seuvizinho Laurie, Laura Dern como Marmee e Meryl Streep como tia March.

Opinião por Artur Neves

Este é o oitavo filme sobre o romance clássico de Louisa May Alcott numa realização salpicada de reflexos #Metoo, considerando a modernidade com que o argumento é abordado transformando as meninas que atingiram a maioridade em 1860 apenas dedicadas ao lar e à vida doméstica da época, em raparigas modernas, conscientes de si e das suas vontades e do seu desejo de independência e autonomia em relação aos costumes e tradição com que foram educadas.
Alcott escreveu o romance por encomenda do seu editor e impregnou-o da sua autobiografia de tal modo que Jo é um personagem baseado em si mesma e com a mesma ânsia de se tornar escritora e através disso afirmar-se na sociedade do seu tempo.
Greta Gerwig, atriz e realizadora americana que já nos deu “Lady Bird” em 2017 e o excelente desempenho de Frances em “Frances Há” em 2012 pega nesse facto logo no início do filme, mostrando-nos Jo March (Saoirse Ronan, fabulosa como sempre) entrando nos escritórios de uma editora em Nova Yorque para apresentar o seu primeiro trabalho que é imediatamente corrigido com desdém pelo responsável, embora veja nela o potencial de escritora que se vem a revelar posteriormente.
A partir daqui o filme recua e avança no tempo mostrando-nos a Jo do passado e a sua vida em casa, com as irmãs e o pai ausente na guerra da secessão e a mãe Marmee March (Laura Dern) que desenvolve um personagem cheio de força e de carácter, embora doce e silencioso nas ocasiões de sofrimento e drama, como o esteio que mantém a família unida.
Este modo inovador de apresentar a história é sem dúvida o resultado de um rasgo de inteligência de Greta Gerwig que com indicações subtis nos posiciona antes e depois, entrelaçando os factos identitários de cada tempo e de cada local. Tem como contra, o facto de exigir mais atenção do espectador para não se confundir no tempo com os factos apresentados. A nota que sublinha o classicismo da época coube à tia March (Meryl Streep) que sem qualquer disfarce para a sua idade real é a única que recomenda às sobrinhas que se casem com um homem rico para assegurarem a sua subsistência financeira, exemplificando com a sua vida celibatária, só possível devido ao dinheiro que já possui.
Por outro lado a modernidade de abordagem de um romance do século XIX revelada neste filme, faz-nos sentir que os personagens têm carne e sangue em alvoroço nas suas veias, assemelham-se a pessoas reais, nossos colegas, nossos vizinhos, pessoas que conhecemos e dos quais conhecemos a história, muito diferente das meninas bem comportadas de antanho tradicionalmente apresentadas. Para mim é a melhor das oito adaptações existentes e muito embora a representação da sociedade de uma época clássica se mantenha, está despida do servilismo e obediência submissa que a caracterizava.

Classificação: 7 numa escala de 10

23 de janeiro de 2020

Opinião – “Jojo Rabbit” de Taika Waititi


Sinopse

O escritor e realizador Taika Waititi (“Thor: Ragnarok”, “Hunt for the Wilderpeople”), traz-nos o seu habitual humor e dedicação no novo filme “Jojo Rabbit”, uma sátira sobre a Segunda Guerra Mundial, que conta a história dum solitário rapaz alemão (Roman Griffin Davis) cujo mundo foi virado avesso quando este descobre que a sua mãe (Scarlett Johansson) esconde no sótão uma jovem judia (Thomasin McKenzie). Apoiado apenas pelo seu amigo imaginário, Adolf Hitler (Taika Waititi), Jojo é obrigado a confrontar-se com o seu nacionalismo cego.

Opinião por Artur Neves

Não sei se será boa ideia misturar holocausto com comédia, sobretudo porque se trata de comédia fantástica em que o próprio Adolf Hitler é o amigo imaginário de Jojo Betzler “Rabbit” (Roman Griffin Davis) um garoto alemão de 10 anos com um amor fanático pela causa Hitleriana e que tem o próprio Hitler como seu mentor espiritual e hóspede dos seus pensamentos e dos seus desejos.
Este filme estreou em 2019 no Festival de Cinema de Toronto e recebeu o galardão “People's Choice Award” por ter sido escolhido pelo público, tendo descartado; “História de Casamento” e “Parasita”, pelo que causou alguma estranheza considerando que este galardão já premiou algumas obras que posteriormente se vieram a revelar merecedoras do Oscar.
O humor utilizado emprega muitas piadas repentistas e diretas que nem causam muito riso porque se fundamentam ou na inépcia de Jojo, que se fere gravemente num treino de campo da juventude Hitleriana, quando auto inflamado pela doutrina nazi, sofre o rebentamento de uma granada que ele próprio tinha atirado, ou na grotesca assistente Fraulein Rahm (Rebel Wilson) do Capitão K (Sam Rockwell) que só pelo seu aspeto e atitude, pretende evocar o riso quando serve o Capitão K, um militar expulso do exército principal por andar sempre bêbado, a quem deram a missão de formar os novos recrutas. Não há elevação nos diálogos, nem subtileza nas conversas, nem qualquer segundo sentido nas alusões. Rosie (Scarlett Johansson) que faz de mãe de Jojo, constrói um personagem esteriotipado pouco convincente.
“Jojo Rabbit” baseia-se num romance de uma autora belga / neozelandesa, Caging Skies e não é uma história cómica, nem inclui Hitler como modelo ideológico de Jojo, sendo esta uma ideia peregrina (acho eu) do realizador Taika Waititi, descendente de maori, judeu e irlandês e que se descreve como “judeu polinésico”, que assumiu esse papel construindo um “Hitler”, em versão maníaca, meio idiota e infantil, muito distante do arquétipo que a juventude Hitleriana deveria inculcar nas mentes em formação dos seus membros e impossível de ter sido concebido pela mente de um miúdo de 10 anos, fanático pela doutrina e pelo personagem. Esta é portanto uma gritante discrepância que contrasta com o contexto sombrio do personagem real, tornando o resultado algo excêntrico.
Jojo é um rapaz preocupado com a guerra, com o seu resultado, com o futuro, com os nazis que matam pessoas nas ruas da sua cidade e que mataram a sua mãe e que neste sentido pode ser encarado como o despertar da inocência de uma criança. Os torcionários, a polícia política, são representados como palhaços estúpidos, mas não nos esqueçamos que eles não foram inofensivos, foram eles que executaram o Holocausto, que está subjacente na judia Elsa (Thomasin McKenzie) de 16 anos, que Rosie abrigou no sótão de sua casa e que por isso morreu quando foi denunciada.
Pode também considerar-se que “Jojo Rabbit” é um filme ousado por abordar de forma ligeira a questão mais dramática do século XX, mas a sua ausência de condenação explícita, numa narrativa de banalização do Holocausto, não previne nem erradica a sua indesejada repetição e neste aspeto não é feliz no seu argumento.

Classificação: 5,5 numa escala de 10

16 de janeiro de 2020

Opinião – “Bad Boys para Sempre” de Adil El Arbi e Bilall Fallah


Sinopse

Os Bad Boys, Mike Lowrey (Will Smith) e Marcus Burnett (Martin Lawrence) estão de volta para uma última viagem juntos no muito antecipado “Bad Boys para Sempre”

Opinião por Artur Neves

Este é o terceiro filme de uma mini série (mini se ficar por aqui, bem entendido) começada em 1995 com “Bad Boys” em que a dupla Will Smith e Martin Lawrence assenta arraiais e prossegue com “Bad Boys II” em 2003 repetindo a dose de aventura, pancadaria e muitos tiros, no combate aos malfeitores instalados no mundo da droga, ambos realizados por Michael Bay e produzidos por Jerry Bruckheimer que também produz os CSI’s, Las Vegas, Miami e outros filmes para televisão que eu caracterizo como “séries de filmes a metro”.
Desta vez retoma-se o tema mas com mais distânciamento, a idade já é outra, estão ambos mais próximos da reforma e embora a ação seja muita e o argumento apresente muitas notas de comédia e de verdades sobre a vida, sente-se o cansaço dos personagens. É como uma revisitação a um lugar onde ambos foram felizes, na esperança que esses momentos então vividos reapareçam, não obstante a predisposição já ser diferente.
Nesta história Mike Lowrey e Marcus Burnett estão ensaiando uma corrida em direção ao hospital onde está prestes a nascer o neto de Marcus, que agora se tornou homem de família ao lado da sua esposa Therese (Theresa Randle) e da filha Megan Burnett (Bianca Bethune), quando aparece uma mota em alta velocidade, cujo condutor dispara dois tiros em pleno peito de Mike que o conduzem ao hospital entre a vida e a morte.
Consternado, Marcus encomenda o amigo a todos os santos e ao próprio Deus, pedindo pela vida de Mike, que recupera seis meses depois e nos aparece com a mesma garra e os mesmos interesses de sempre, desejoso de fazer justiça e de reocupar o seu posto de polícia no ativo. Só que Marcus não está para aí virado e tenta convencer Mike a deixar esse trabalho para os atuais especialistas, Rita (Paola Nuñez) responsável por uma elite de investigadores com outros meios e outras técnicas diferentes das que eles estavam habituados.
O sempre irritadiço Captain Howard (Joe Pantoliano), não concorda com a ideia de ter Mike de volta à ação e só depois de um grande esforço deste, concorda em aceitá-lo mas como “consultor” e subordinado a Rita, coisa que nós logo compreendemos que não vais ser assim porque manifestamente não está na natureza de Mike. Entre os dois ainda surge uma chispa de olhares cúmplices mas cedo se percebe que é uma pista falsa para aquela história.
A busca pelo responsável do atentado a Mike começa e ficamos a saber que se chama Armando (Jacob Scipio) é filho de uma bruxa mexicana, Isabel Aretas (Kate del Castillo) que está obcecada em matar Mike por razões que constituem o twist principal da história com uma surpresa, que mantém a ação em bom nível, sempre com uma vertente de comédia que ameniza o ambiente.
Esta sequela é realizada por dois realizadores, nomeados como "Adil & Bilall", uma dupla de realizadores Belgas da nova geração que espalham adrenalina e cenas de família numa história com origem na “fábrica” de Bruckheimer que com certeza não a tinha pensado assim, mas convenções à parte, acaba por ser a sequela mais conseguida da mini série e considerando que o epítome “para Sempre” permite intuir um fim, ou uma constância de continuidade, ficaremos expectantes sobre qual das duas hipóteses se verificará no futuro.

Classificação: 6 numa escala de 10

9 de dezembro de 2019

Opinião – “Jumanji: O Nível Seguinte” de Jake Kasdan


Sinopse

Em “Jumanji: O Nível Seguinte”, o gang está de volta, mas o jogo mudou. Quando regressam a Jumanji para resgatar um deles, descobrem que nada é como estavam à espera. Os jogadores terão de enfrentar lugares desconhecidos e inexplorados, desde os áridos desertos às montanhas nevadas, para escapar do jogo mais perigoso do mundo.

Opinião por Artur Neves

“Jumanji” é uma história iniciada em 1995 que relata a descoberta de um jogo de tabuleiro encantado, por uns miúdos que acidentalmente o encontram e iniciam o jogo. Esse facto liberta um homem, Alan Parrish (Robin Williams, já falecido) aprisionado no interior do tabuleiro que liberta com ele todos os perigos de que ele se escondia há décadas, por não ter conseguido terminar o jogo.
Tudo poderia ter ficado por aqui e ficaria muito bem. Na altura não era um filme natalício, foi estreado em Portugal em Março de 1996 e mostrava uma boa dose de efeitos especiais que encantaram miúdos e graúdos e principalmente, revelou para o género de comédia um ator em ascensão chamado Robin Williams que pela sua qualidade nos deu excelentes desempenhos em personagens trágico-cómicos com grande conteúdo emocional e ainda hoje apreciáveis.
O problema começa quando a Sony em 2017, “desenterra” o assunto, alterando o conceito inicial, transformando um jogo de tabuleiro num vídeo jogo de consola e os miúdos em matulões, que por motivos nunca completamente explicados se envolvem em aventuras loucas, justificando a utilização de sofisticados meios técnicos computorizados numa história de perseguições sobre perseguidos, que fogem e são apanhados, para depois serem novamente libertados para manter o enredo, em peripécias cada vez mais mirabolantes com o intuito de fascinação circunstancial gratuita, mas sem qualquer objetivo específico que não seja acabar o jogo provisoriamente, para o continuar no ano seguinte, ou dois anos depois como é o presente caso.
Aqui chegados, cá temos mais uma sequela em 2019, agora em calendário natalício para aproveitar as férias escolares, que é mais do mesmo, com os mesmos matulões, efeitos ainda mais sofisticados e com um enredo ainda mais forçado que o anterior, tendo com única razão fazer o grupo voltar ao jogo que tinha sido destruído no filme anterior. But, the show must go on e os pedaços em que ficou o videojogo têm de ser recuperados para que a turma se volte a perder e encontrar em novas aventuras.
Considerando que este género de filmes é só para ver e esquecer de seguida, os argumentos são sempre muito simples. Neste caso temos uma troca de identidades, melhor, uma rotação de identidades que me dispenso de enumerar, pois transformam-se todos em avatares de todos sem razão objetiva e tornam-se incapazes de enfrentar os desafios em que o jogo os envolve para apanharem uma pedra roubada por um rei bárbaro.
Para cumprir esta história, seguem-se perseguições com todas dificuldades que se possam imaginar, provas de dificuldade crescente, diálogos de graça duvidosa e quase no final, uma referência a “Jumanji” 1995 que tem sabor a agradecimento e homenagem mas que não salva a sandice geral que pulula por todo o filme.
Os miúdos estão de férias, é preciso ocupá-los pelo menos temporariamente e nesse campo este filme cumpre o propósito, em todos os outros aspetos é duma pobreza franciscana que nem os efeitos especiais de bom nível compensam… Receio que para o ano tenhamos mais!...

Classificação: 3 numa escala de 10

20 de novembro de 2019

Opinião – “Enquanto a Guerra durar” de Alejandro Amenábar


Sinopse

Salamanca, verão de 1936, Espanha vive uma situação desconcertante e o ilustre escritor Miguel de Unamuno decide apoiar publicamente a revolta militar acreditando que poderá trazer ordem ao caos existente. Como consequência desse apoio, é imediatamente demitido do seu cargo de reitor da Universidade de Salamanca pelo governo de esquerda. Entretanto o general Francisco franco une as suas tropas à rebelião e inicia com sucesso uma campanha vinda do Sul, tentando secretamente tomar o comando da guerra. Este confronto torna-se bastante sangrento e alguns amigos e colegas do escritor são detidos e aprisionados, obrigando Unamuno a questionar o apoio que tinha dado anteriormente à rebelião e até aos seus próprios princípios. Quando Franco transfere o seu quartel general para Salamanca e é nomeado Caudilho, Unamuno visita-o no palácio determinado a implorar clemência.

Opinião por Artur Neves

Alejandro Amenábar apresenta-nos aqui um relato dramático sobre o início do regime Franquista, em pleno início da guerra civil e como esse personagem congelou os destinos do povo espanhol durante quase 40 anos submetendo-o a uma ditadura de direita com a bênção divina. Franco e sua família eram fortemente crentes em Deus e o filme documenta essa dependência.
A história desenvolve-se em torno do filósofo e escritor Espanhol Miguel de Unamuno, conhecido pela sua obra; “O Sentimento Trágico da Vida” que lhe valeu a condenação da igreja e pela sua postura social, tal como descrito na sinopse e que compõe o argumento deste filme.
Miguel de Unamuno (Karra Elejalde) é assim considerado um autor estimado e filosofo, incluindo a fação nacionalista que o considerava patriota e nessa conjuntura, ele também se mostrava solidário com a junta militar que em processo colegial tinha o controlo do poder em convulsão e que evitava criticá-lo por conhecer o seu raciocínio de livre pensador independente de qualquer dogma.
Os seus amigos mais chegados são; Salvator (Carlos Serrano-Clark) um jovem professor que foi seu aluno e Atilano (Luis Zahera), pastor protestante, em que nas suas longas conversas, ambos, sobrevalorizando a influência política de Unamuno, frequentemente lhe recomendavam intervenções e pedidos que Unamuno sabia não estarem ao seu alcance, não só decorrente dos achaques da sua saúde, como principalmente, pela indiferença a que o poder remete o prestígio da intelectualidade, quando estão em jogo as ideologias fascistas e os partidos totalitários que enquadram pessoas incultas nas suas fileiras e divulgam uma doutrina que os afasta do raciocínio lógico.
Dos elementos constituintes da junta militar dirigente começa a formar-se a ideia da existência de um líder único em contraste com a tomada de decisão colegial, particularmente impulsionada por um general, mutilado e herói de guerra, temperamentalmente arrogante e possivelmente psicótico; Millan-Astray (Eduard Fernández) camarada de armas de Franco na frente africana, que “empurra” Franco para a presidência do grupo, apesar deste se apresentar como um militar fraco, sem qualquer espírito de liderança, passivo e até tímido, com medo (declarado pelo próprio) de “fazer o movimento errado”. Millan-Astray possivelmente teve em conta o seu poder de influência sobre Franco na condução das decisões de guerra.
É pois a este general Franco, já empossado pelos seus pares, que Unamuno se dirige em audiência pedindo clemência para os seus amigos entretanto presos, recebendo como esperado, um “não” rotundo, e que é posteriormente solicitado para a presidência do ato de abertura do ano letivo de 1936 no salão nobre da universidade, onde depois das exaltações da praxe política, Unamuno revela a sua oposição ao regime evidenciando muito particularmente as contradições do regime que ele abomina.
Alejandro Amenábar que nos ofereceu; “Mar Adentro” em 2004 com o drama da vida de Ramon Sampedro como ilustração da justeza da eutanásia, ou; “Os Outros” em 2001, numa história que inverte a posição entre os mortos e os vivos que habitam uma casa assombrada, traz-nos aqui um documento histórico que embora do ponto de vista técnico flua com segurança, apresenta alguma falha de ignição emocional que não nos empolga nem surpreende em nenhum momento. Todo o filme está bem construído, utilizando meios técnicos de primeira qualidade que tornam a representação credível e bem representativa de um passado não muito distante que serve para nos lembrar que todos os conflitos emergentes na Espanha atual não são um assunto novo.

Classificação: 7 numa escala de 10
PS: Não existem documentos históricos do discurso de Unamuno na universidade, mas segundo os relatos da época a controvérsia das suas declarações que levaram à sua terceira destituição de Reitor da Universidade de Salamanca estão descritas na página da Wikipedia referente a Miguel de Unamuno, cujo link deixo aqui.


8 de novembro de 2019

Opinião – “Le Mans '66: O Duelo” de James Mangold


Sinopse

“Le mans 66”: O Duelo”, protagonizado pelos oscarizados Matt Damon e Christian Bale, é baseado na história real do visionário car designer Carroll Shelby (Matt Damon) e do destemido piloto britânico Ken Miles (Christian Bale). Juntos lutaram contra os regulamentos, as leis da física e os seus próprios demónios com o objetivo de construir um carro de corrida revolucionário para a Ford Motor Company e vencer os carros de Enzo Ferrari nas 24 horas de Le Mans em França 1966.

Opinião por Artur Neves

Numa observação ligeira pode pensar-se que se trata de um filme de carros de corrida, ou até de máquinas de competição em velocidade, mas “Le Mans 66” é muito mais do que isso, é uma história de castas, de orgulho, de tenacidade e perseverança, de carne e sangue suportados por máquinas de metal e fogo que chegam aos 320 km/h e sem levitar, transportam o seu ocupante para o lugar do seu espírito e para a paz que este pretende atingir na loucura do seu veloz deslocamento controlado.
Estamos na década de 60 e Henry Ford II, (Tracy Letts). que recebeu o negócio do pai, confronta-se com uma empresa paralisada. Os carros não agradam, vendem-se dificilmente, sofrem desenvolvimentos menores que não agradam ao público, mas que aparentemente servem a corporação, os seus pergaminhos, a sua tradição apoiada por uma bateria de funcionários corporativos que apesar de endeusarem o seu patrão não lhe trazem valor acrescentado, nem cash-flow ao departamento comercial. Henry Ford II, sente-se preso na sombra do império e subjugado pelo peso da herança.
Para se libertar dos medos que o assaltam enverada pelo salto qualitativo do seu produto através da conceção de uma máquina que possa vencer a Ferrari de Enzo Ferrari (Remo Girone), na prova rainha de resistência da época; as 24 do circuito de Le Mans em França, através da contratação do melhor profissional no ramo, Carroll Shelby (Matt Damon), um piloto da Aston Martin que venceu Le Mans 1959 e que teve de abandonar as provas por motivos de saúde.
É aqui que a batalha começa e que será decidida na pista de Le Mans por Carroll Shelby que se fará acompanhar pelo seu piloto de eleição Ken Miles (Christian Bale), imposto após dura luta ao patrão da Ford que o recusa por não ter o tipo e a formatação corporativa dos trabalhadores Ford.
James Mangold, realizador americano, nascido em 1963, que já nos ofereceu “Vida Interrompida” em 1999, e "Heavy" (1995), o seu filme mais dramático não passado em Portugal, constrói uma história baseada num caso real que nos mostra a aspereza emocional do confronto entre pessoas que embora situados em mundos diferentes precisam umas das outras e sabem como conduzir os seus objetivos para concretizar as obras que darão felicidade a ambos, embora se mantenham separados pela distância entre os seus mundos.
Independentemente da personalidade real de Carroll Shelby e Ken Miles, o argumento desenvolve personagens bem conseguidos pelos seus intérpretes. Mat Damon constrói um britânico decidido, com ideias e vontade própria embora algo melancólico e Christian Bale apresenta-se como nunca o vira-mos, um americano rural, desbragado, calculista, determinado nas suas opções e com uma família constituída pela mulher; Mollie (Caitriona Balfe) que embora com um pequeno papel mostra sentido e determinação em todos os seus atos, tanto no afeto por Ken, como na hora de impôr a sua vontade quando sente fraqueza do lado de Ken, ou nos cuidados ao filho Peter (Noah Jupe), mostrando que a felicidade familiar é uma componente de construção diária e os três formam uma equipa equilibrada e coesa.
De toda esta história ressalta o valor da determinação em alcançar um objetivo e constitui uma homenagem justa a uma máquina, o modelo Ford GT40 que foi construído para destronar a Ferrari que tinha sido vencedora do circuito das 24 horas de Le Mans entre 1960 e 1965 consecutivamente, tendo conseguido esse trofeu em 1966 com três carros Ford nos 1º, 2º e 3º lugares, constituindo a nova referência da marca que a potenciou no mercado. Muito interessante, bem construído e interpretado, merece ser visto e recomendo.

Classificação: 8 numa escala de 10

26 de outubro de 2019

Opinião – “Exterminador Implacável: Destino Sombrio” de Tim Miller


Sinopse

A história de “Exterminador Implacável: Destino Sombrio” começa 20 anos depois de Sarah Connor impedir o Dia do Julgamento, mudar o futuro e reescrever o destino da raça humana. Dani Ramos (Natalia Reyes) vive uma vida simples na Cidade do México com o irmão (Diego Boneta) e o seu pai quando um novo exterminador altamente avançado e mortal - um Rev-9 (Gabriel Luna) - viaja no tempo com o objetivo de caçá-la e matá-la. A sobrevivência de Dani depende da sua união com duas guerreiras: Grace (Mackenzie Davis), uma aperfeiçoada super-soldado do futuro, e Sarah Connor (Linda Hamilton), que soma muitos anos de batalha. À medida que Rev-9 destrói cruelmente tudo e todos que se cruzam no seu caminho, Dani, Grace e Sarah acabam por encontrar um T-800 (Arnold Schwarzenegger) do passado de Sarah, que pode ser a sua última esperança.

Opinião por Artur Neves

A série Exterminador Implacável publicada até agora é constituída por 5 filmes, pelo que o atual em análise deveria ser o sexto, mas esqueça isso porque as produtoras de cinema têm a sua própria contagem e eliminaram da serie os filmes 3, 4 e 5 e retomaram a ação no final do segundo filme da serie que continua agora com este; “Exterminador Implacável: Destino Sombrio”, cuja sinopse anterior resume a história que se verá no filme.
Segundo as “más línguas” do meio, o que se passou foi que os dois primeiros filmes de 1984 e 1991, escritos e realizados por James Cameron tiveram um êxito de bilheteira consideravelmente superior aos filmes subsequentes dos outros realizadores responsáveis pelas sequelas 3, 4 e 5 e a produtora quando estabeleceu contrato para reativar a série novamente com James Cameron, este apresentou como condição recomeçar a partir do ultimo filme de sua autoria, o que me parece no mínimo, legítimo.
A diferença porém fica-se por aqui, pois ele foi “desenterrar” Sarah Connor (Linda Hamilton), e um T-800 (Arnold Schwarzenegger) que estavam na reforma, para uma história que se resume a uma perseguição das novas máquinas Rev-9 (Gabriel Luna), oriundas da organização Legion (em substituição da defunta Skynet) ao novo símbolo da resistência dos humanos contra as máquinas; Dani Ramos (Natalia Reyes) por montes, vales, ar e mar até a exterminar para deixar intacto o poder das máquinas.
A perseguição é realmente implacável e complexa, entrando aqui o poder dos efeitos especiais do cinema com cenas de tirar a respiração. Rev-9 é na realidade uma máquina indestrutível que se auto recupera depois de destruída, ou pelo menos, depois de muito mal tratada, na forma de um líquido negro que reconstitui todos os órgãos desfeito em cada combate. Além disso ele tem a capacidade de se desdobrar, nele próprio e num exosqueleto metálico negro que sai dele quando o corpo principal fraqueja. É um inimigo do tipo, que de nada serve lutar com ele, sendo melhor simplesmente fugir dele.
A mensagem subliminar é muito curiosa considerando que o salvador da humanidade é uma mulher mexicana, que entra ilegalmente nos USA através da fronteira México – Texas ajudada por três americanos. Isto representa uma clara mensagem de esperança para o estado atual das coisas neste país e numa época pós-Trump que não se sabe se será brevemente possível. Histórias destas nunca aparecem por acaso e uma situação assim, produzida por uma Major dos USA, pela mão de um realizador tão considerado só pode ter uma segunda leitura.
Quanto ao resto é o que já tenho dito em produções deste género. Um filme com tanta “impossibilidade” de ocorrência na vida real como este, só pode ser destinado a impressionar pelos seus meios técnicos. Como tal, se for visto em IMAX 3D, mais imersiva será essa experiência e maior será o grau de diversão obtido. Assim sendo o melhor é esquecer-se de outras preferências e fruir o que a “tela gigante” lhe pode oferecer. Por mim fico rendido.

Classificação: 6 numa escala de 10

13 de setembro de 2019

Opinião – “Ad Astra” de James Grey


Sinopse

Este filme conta a história do astronauta Roy McBride (Brad Pitt) enquanto viaja para as extremidades do sistema solar com o objetivo de encontrar o seu pai desaparecido e desvendar um mistério que ameaça a sobrevivência do nosso planeta. Nesta expedição, Roy irá descobrir segredos que desafiam a natureza da existência humana e o nosso lugar no universo.

Opinião por Artur Neves

Ad Astra, a expressão que dá nome ao filme, tem origem na Eneida, uma epopeia latina escrita por Virgílio no século I a.C. podendo tomar diferentes sentidos no contexto em que for proferida. No aspeto aeronáutico, particularmente no que concerne à conquista espacial pode significar; “por ásperos caminhos até aos astros” (ad astra per aspera), ou mais genericamente “atingir a glória por caminhos difíceis” ou “alcançar o triunfo por feitos notáveis” e qualquer delas está adequada à história contada neste filme.
Na sequência de fortes e perturbadoras tempestades elétricas na terra, provocadas por uma entidade longínqua e desconhecida que se prevê seja provocada por Clifford McBride (Tommy Lee Jones), responsável por uma anterior expedição e pai de Roy MacBride, este é enviado numa expedição para o encontrar, despertando nele sentimentos contraditórios por uma pessoa que ele ama, mas do qual se sente abandonado desde a infância e do remorso que ele sente, de por motivo idêntico provocar isso na sua mulher, remetendo-a um lugar tão marginalizado na sua vida, decorrente da indiferença a que ele a sujeita.
Esta é pois a história de uma saga familiar de um homem amargurado, embora calmo, equilibrado, coerente, cuja memória paterna é tão débil que ele confunde a invenção da sua imaginação com a realidade histórica oficial de um homem que é lembrado e homenageado como o herói para lá do seu tempo, que teve a coragem de viajar no espaço para limites nunca antes atingidos, ad astra, e que ao ser escolhido para esta missão acende-lhe o desejo de finalmente esclarecer as conflituantes emoções que o atravessam e definir o monólogo íntimo que Roy nos dá a conhecer através consistentes narrações em off.
No fim, Roy reconhece “que somos tudo o que temos” e introduz uma linha poética considerando que as pessoas que têm outras pessoas são ricas, são únicas e estão somente aqui na terra. No espaço a realidade é bem diversa.
Para lá deste dilema, Roy é um profissional perfeito e competente em todas as tarefas a que se dedica, sejam elas previstas ou ocorram de surpresa, nos mais fantásticos cenários que o filme pode produzir sobre a galáxia e o cosmos. Esta é outra vertente importante deste filme e inclui a parte lúdica da demonstração da ciência e da tecnologia espacial muito próxima do que são já hoje ou serão num futuro muito próximo. As viagens particulares à lua são encenadas como a SpaceX, fundada em 2002 por Elon Musk, nos anda a vender á uns tempos, mas “Ad Astra” funciona, fundamentalmente porque é lindo de se olhar para a profundidade imensa do espaço fotografado por Hoyte Van Hoytema.
Foram usadas imagens reais das missões Apollo 11 a17 como inspiração, posteriormente recriadas e toda a aparência visual do filme cumpre o nosso imaginário da imensidão espacial e da majestade da coisa real que o cinema nos pode oferecer, especialmente se for vista na versão IMAX que nos absorve e convence em todos os momentos. Todos os pormenores técnicos são respeitados com rigor, conferindo ao filme consistência e realismo.
Sendo eu um adepto do cinema em casa em ecrã generoso, de definição 4K ou 8K, completado por um som multicanal digno, (7+1 ou 10+2 canais + Atmos) rendo-me em absoluto à magnificência do IMAX e recomendo o visionamento deste filme neste formato, como sendo a forma mais imersiva de desfrutar esta obra, em competição no Festival de Veneza 2019.

Classificação: 8 numa escala de 10

28 de junho de 2019

Opinião – “Homem-Aranha: Longe de Casa” de Jon Watts


Sinopse

Após os eventos de “Vingadores: Endgame”, o Homem-Aranha vê-se obrigado a dar um passo em frente e encarar novas ameaças num mundo que mudou para sempre.

Opinião por Artur Neves

Depois do cataclismo que se abateu sobre a terra em “Vingadores – Endgame”,em que os principais heróis foram mortos sem ressuscitação possível (palavra da Marvel) esta, só tem que recuperar a sua aura, reciclando um herói que “nasceu” na década de 60 e granjeou até hoje largos milhões de dólares nos vários suportes em que foi apresentada ao público, vista, revista, amada e desejada por uma camada jovem que se presta a sonhar com justiça igualitária e poderes absolutos sobre o mal, esquecendo-se que cada um encara o “mal” (ou o “bem”) á sua maneira e de acordo com as suas experiencias.
Desta vez e para dar a entender um recomeço em grande, a Marvel filmou nas principais capitais europeias sob uma pressuposta viagem de fim de ano escolar para Peter Parker (o nome público do anónimo Homem-Aranha interpretado por Tom Holland, que já tirou assinatura para os super-heróis) e seus colegas de turma, onde por “coincidência”, vão ocorrer os ataques destrutivos dos vilões que ele irá combater. Um dos problemas a resolver para já será manter o anonimato na escola e salvar o mundo da destruição que o ameaça.
Mas ele não está sozinho, além do seu chefe de missão Nick Fury (Samuel L. Jackson) aparece agora um tal Mysterio (Jake Gyllenhaal) a ocupar o lugar de mentor, deixado vago pelo Iron Man (Robert Downey Jr.) e o pelo resto dos vingadores que foi cada um à sua vida individualmente. No lado sentimental temos Michelle Jones (Zendaya) a apaixonada secreta para quem Peter Parker não encontra jeito de se revelar, apesar de pensar nisso e projetar encontros no cimo da torre Eiffel, mas os acontecimentos não o permitem. Ambos são jovens e românticos e exibem a tradicional falta de jeito na adolescência que potencia algumas cenas “gagas” muito comuns em filmes de amor tradicionais.
Para movimentar a história, vários twists surgem na aventura e Mysterio não é bem somente o herói com a cabeça metida num aquário e uma capa vermelha que salva as situações, mas antes um personagem multidimensional que não é bem o que parece. Peter Parker acha que seria a ele que lhe deveria caber a luta contra os quatro elementos que ensombram o mundo, mas a realidade não é essa e o aluno do ensino médio tem de dar o corpinho ao manifesto na pele do Homem-Aranha, muito embora ele queira somente gozar as férias no estrangeiro como os outros colegas.
A certa altura Mysterio diz que; “As pessoas precisam acreditar e cabe-nos a nós dizer-lhes em quê” que para mim resume o fundamento da revitalização dos heróis da Marvel neste filme. Com uma história mais composta que embora se sirva de homens voadores, raios de energia a sair pelos punhos, drones maliciosos e toda a panóplia da tecnologia moderna, não se esgota aqui e consegue com outros personagens herdados da história inicial, tal como; a tia May (Marisa Tomei) que personifica um objeto de desejo em várias cenas, ou Ned (Jacob Batalon) como o amigo do peito e confidente de Peter, com quem ele partilha os seus desejos mais secretos, conferir ao filme uma vertente mais humana e reconhecida que outros filmes do mesmo género perderam completamente.
Parece que o objetivo é continuar por este caminho, pois Peter é ainda um jovem com muito para dar ao personagem. No caso de o leitor optar por assistir a este filme, informo que a Marvel inseriu cenas depois dos créditos finais. Elas não são despicientes, pois indiciam algumas pistas para os próximos capítulos.

Classificação: 7 numa escala de 10

14 de junho de 2019

Opinião – “A Vigilante” de Sarah Daggar-nickson


Sinopse

A Vigilante – Sadie, (Olivia Wilde) uma mulher vítima de violência doméstica, dedica a sua vida ao auxílio de outras mulheres vítimas do mesmo tipo de abuso.
Enquanto procura localizar o seu marido para o matar e então ser verdadeiramente livre.
A Vigilante é um thriller inspirado pela força e bravura de vítimas reais de violência doméstica e pelos inacreditáveis obstáculos à segurança que as mesmas enfrentam.

Opinião por Artur Neves

Denunciar a violência doméstica e utilizar o cinema para divulgar o seu combate e reiterar o direito que ambos os cônjuges possuem em usufruir de uma vida em comum, harmoniosa e profícua. Incitar a mulher, como sendo a vítima mais frequente, a denunciar as sevícias de que é alvo no interior da sua casa é uma boa utilização do cinema em defesa de um problema social que se vem divulgando com uma frequência indesejável.
Considerar como exemplo de solução a existência de uma vingadora, “A Vigilante” na figura de uma mulher durona, combativa, embora também abusada, o que a transforma em juíza em causa própria, como a repositora dos direitos violados, através de justiça executada pelas próprias mãos, é outra coisa muito diferente e significa passar-se para o extremo oposto do problema. Constitui uma abordagem justicialista tão nefasta, equivalente a ação legal da justiça a que temos assistido diariamente no nosso país.
A figura do vigilante justiceiro (no cinema existem também “vigilantes” de outro cariz) tem origem no cinema americano na década de 40 e teve o seu ponto alto na década de 70 com o ator Charles Bronson (num personagem que se lhe colou à pele) no filme; “O Justiceiro da Noite” de 1974, que fez escola noutros filmes da mesma década.
Nesta história Sadie é uma feminista que se dedica à defesa de mulheres em risco de vida, destruindo os homens que as maltratam e de caminho também faz uma perninha como defensora de crianças e de todos os que justificadamente recorram aos seus serviços. Todavia ela só salva, não trata, os miúdos que ficam abandonados por ela castigar os pais que os maltratam têm de posteriormente dirigir-se aos serviços da segurança social porque a companhia dela é perigosa, considerando que ainda tem de matar o marido que a maltratou e que num acesso de fúria, para lhe causar mais sofrimento, ainda matou o filho de ambos.
O parágrafo anterior resume o argumento desta história e será o que vamos assistir durante os 90 minutos do filme até finalmente confrontar o ex-marido (Morgan Spector) um mercenário com aspeto genuinamente selvagem que a deixou quase morta, matou o filho e desapareceu, impedindo-a de acionar o seguro de vida. No primeiro encontro o ex-marido ainda consegue manietá-la, mas no segundo, com um braço partido, ela trata-lhe da saúde de vez.
Com menos conversa e de outro modo mais credível, já Jennifer Lopez tinha lá chegado primeiro, em 2002 no filme “Basta” de Michel Apted, prestando um melhor serviço à causa, representando de forma mais angustiante para a mãe e para o filho, o drama da violência doméstica e o terror da vítima face ao seu algoz.
“A Vigilante” vale assim pelo tema que aborda, mas apresenta inúmeras fragilidades de forma e contem diversos clichês inerentes ao género. Não é que isso seja um mal em si mesmo, mas amortece o impacto dos maus tratos domésticos numa altura em que o tema se reveste duma atualidade gritante. No seu género, Olivia Wilde ainda nos pode oferecer mais do que isto.

Classificação: 5 numa escala de 10

13 de junho de 2019

Opinião – “Homens de Negro – Força Internacional” de F. Gary Grey



Sinopse

Os Homens de Negro sempre protegeram a Terra da escória do universo. Nesta nova aventura, eles vão enfrentara maior ameaça até hoje: um infiltrado na organização Homens de Negro.

Opinião por Artur Neves

Esta é mais uma sequela da série MiB (Men in Black) baseada em histórias de banda desenhada pertencente à Marvel Comics e que tanto antes como agora aborda o tema da ficção científica, (de largo espectro, digo eu) corporizado nuns homens vestidos de negro, enquadrados numa organização secreta que lutam contra a invasão da terra por seres alienígenas com as mais inusitadas formas e feitios. Foram feitos três filmes em; 1997, 2002 e 2012, aos quais, sete anos depois, se seguiu a presente história.
O primeiro filme foi objeto de vários prémios, incluindo o Oscar da Academia em 1998 para a melhor maquilhagem, tendo tido os seguintes uma classificação mais modesta. Aliás esta série aparece como sendo um refinamento da história veiculada em; “Os Caça Fantasmas” de 1984 que tanto sucesso obteve em diversão e bilheteira.
Em 2019 porém tudo muda, mais uma vez os atores, de certa nomeada, tais como; Emma Thompson e Liam Neeson, registe-se, entregam-se nas mãos das equipes de efeitos especiais computorizados e perdem toda a identidade de representação numa história indigente, que embora seguindo tudo o que já conhecemos da trilogia inicial, foi como que abduzida pela febre dos jogos de computador em que a emoção se mede pela escalada de dificuldade crescente na realização das tarefas.
Em boa verdade eu não tenho nada contra os jogos de computador, só que a emoção que eles transmitem decorre do facto de ser o jogador que intervém na ação, dependendo da sua destreza de manipulação do comando o acesso às etapas de crescente dificuldade com que o jogo o desafia. Agora no filme o espectador apenas pode assistir sem qualquer possibilidade de intervenção e isso em vez de ser excitante e emotivo torna-se monótono.
Resta-lhe o formato IMAX e 3D que torna ainda assim, o filme, numa experiência imersiva complementada pelo som multicanal que vetoriza a ação, mas continua a ser insuficiente. Logo na entrada, o logótipo da Columbia Pictures coloca uns óculos de sol que representam a identidade dos MiB e que aqui pode muito bem significar a necessidade da colocação dos óculos necessários para experimentar e estereoscopia visual do 3D, pois doutra maneira a experiência torna-se ainda mais insípida.
Na trilogia inicial tínhamos o combate com os seres alienígenas em que os MiB tinham que “provar” o seu valor de cada vez que se confrontavam com eles. Aqui não é bem assim e em toda a história sabe-se sem surpresa quem vai vencer, pelo que, segundo este ponto de vista “Homens de Negro – Força internacional” tem pouco para oferecer, deixando um sensação de “nada de novo debaixo do sol”.
Todavia este género tem os seus fans e para eles vai a minha admiração e o meu pedido de desculpas por não apresentar uma classificação. Na minha opinião, cinema é bem mais do que somente isto.

Classificação: _ numa escala de 10

5 de junho de 2019

Opinião – “X-Men: Fénix Negra” de Simon Kinberg


Sinopse

Esta é a história de uma das personagens mais amadas dos X-Men, Jean Grey, enquanto esta evolui para a icónica Fénix Negra. Durante uma arriscada missão de resgate no espaço, Jean é atingida por uma força cósmica que a transforma no mais poderoso mutante de todos. Enquanto tenta contar a instabilidade desse poder, e também lidar com os seus próprios demónios, Jean perde o controlo, quebrando os laços da família X-Men e ameaçando destruir o próprio planeta. É o culminar de vinte anos de filmes de X-Men, em que a família de mutantes que conhecemos e amamos vai enfrentar o seu mais devastador inimigo – um dos seus.

Opinião por Artur Neves

X-Men é uma série de super-heróis (seja lá o que isso for) da Marvel que inicialmente apareceu em quadradinhos de banda desenhada mas que a 20th Century Fox passou para o grande ecrã em 2000, subindo gradualmente a fasquia até ao 3D e IMAX-3D em que actualmente se encontra, com uma sequência de 12 filmes que seria fastidioso enumerar. A história anda sempre à volta de mutantes que desenvolveram características especiais de superioridade física ou mental que colocam ao serviço do bem e da justiça, como convém, já que para malandros existem muitos outros e estamos fartos deles.
Desta vez e tal como a sinopse descreve, a missão de resgate efetuada pelos X-Men foi para salvar os tripulantes do shuttle Endeavour, cujo lançamento correu mal devido a uma explosão solar, a que a nave dos X-Men é imune e resiste ao calor e ao que mais se verá. A pergunta óbvia é; então se a nave dos X-Men se desloca pelo espaço como cão por vinha vindimada, porque é que andamos ainda com a treta dos shuttles para vencer a força da gravidade terrestre para colocar objetos em órbita?...
Mais elementar ainda é perguntar porque é que o filme se chama “Fénix Negra” se a actriz que a interpreta é particularmente branca!... e como a acompanhamos desde a infância sabemos ainda que em pequena era ruiva e sardenta!... Fénix Negra, porquê?...
Como o leitor pode inferir não sou capaz de dar estas respostas e depois de muito pensar durante o visionamento até fiquei cansado, pois isto de ver tanta energia a sair pelos olhos, pelas mãos, a elevar-se para o espaço, a descer vertiginosamente para o solo, a amachucar comboios e a lutar, cansa o mais forte e as largas dezenas de duplos utilizados nas filmagens, tal como nomeados nos créditos finais do filme.
O que temos aqui é assim uma história de cordel mal-amanhada, que envolve mentiras piedosas, remorsos e traumas de infância, recheada de bons atores (a Marvel e a Fox não deixam os seus créditos por mãos alheias) tais como; James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence e outros de reconhecida competência em Holywood cujas imagens são entregues aos desenvolvedores de efeitos especiais e de caracterização e os transformam neste arrazoado de luz, som, riscos e cores, potenciados pelo IMAX e pelo 3D, complementados pela música de Hanz Zimmer, aqui irreconhecível se a compararmos com a banda sonora de “O Gladiador (2000)”, ou de “A Origem (2010)”. Em todas as cenas tenta-se atingir o clímax do poder em abstracto, tanto quanto o mal ou o bem estão em alta, como tal a música envolvente é sempre apoteótica, evocativa, que somente serve o momento.
Todavia este cinema tem os seus seguidores e os seus amantes para os quais já só esperam que o próximo filme que lhes traga esta branca Fénix Negra novamente em ação e o correspondente sucesso de bilheteira para a distribuidora. Para mim nem tanto, como tal, dispenso-me de o classificar.

Classificação: _ numa escala de 10

10 de maio de 2019

Opinião – “Um ato de Fé” de Roxann Dowson


Sinopse

“Um ato de Fé” baseia-se na história real do amor inabalável de uma mãe confrontada com probabilidades impossíveis. Quando o filho adotivo de Joyce Smith, John, cai num lago gelado do Missouri, toda a esperança parece perdida. Mas, enquanto John permanece no hospital em como profundo, Joyce recusa-se a desistir.
Inspiradas pela convicção inabalável de Joyce, todas as pessoas à sua volta continuam a rezar pela recuperação de John, apesar dos prognósticos adversos e historiais clínicos.
Do produtor DeVon Franklin (“O Nosso Milagre”) e adaptado ao cinema por Grant Nieporte (“Sete Vidas”) a partir do próprio livro de Joyce Smith, “Um ato de Fé” é um filme cativante que nos vem relembrar que a fé e o amor podem erguer uma montanha de esperança e, às vezes, até mesmo um milagre.

Opinião por Artur Neves

Consultando diversos relatos científicos sobre o efeito da privação de oxigénio ao cérebro encontra-se que; um tempo de 3 a 6 minutos é o máximo suportável sem danos físicos permanentes. Depois de 10 minutos é inevitável a ocorrência de danos neurológicos graves. Mais de 15 minutos não há registo de sobrevivência do ser humano à privação da normal oxigenação cerebral.
Todavia, este filme conta a história de John Smith, um adolescente guatemalteco adotado por uma família do Missouri, que em 2015 sofreu um acidente de queda num lago gelado, depois da imprevista quebra da superfície gelada. O evento foi noticiado por jornais da época, mencionando que o rapaz terá ficado submerso 15 minutos antes de ser removido, inanimado, pela equipa de resgate. Foi assistido no local e ao fim de 45 minutos sem pulsação cardíaca, a equipa médica que o assistiu no hospital estava preparada para declarar o óbito. Isso não aconteceu porque entretanto o rapaz recuperou, ficou em coma 28 dias e depois acordou, não tendo evidenciado quaisquer sequelas físicas ou mentais.
Creio poder concluir-se estar em presença de um caso extraordinário para o qual não temos qualquer explicação racional, que foi aproveitado pelo “Evangelho segundo S. Hollywood” para construir um filme evocativo da fé espiritual e da intervenção divina para cativar os crentes que generosamente deixarão o “ouro” na bilheteira. É uma forma simples e direta de colocar a fé contra a ciência médica e com isso “provar” a existência de Deus ou de qualquer transcendência mística, tenha ela o nome que tiver.
Claro que ninguém questiona porque é que Deus só interveio ao fim daquele tempo de sofrimentos para a mãe e de consternação para toda a comunidade solidária. Ou então porque é que Deus não evitou a quebra do gelo? Ou porque é que, depois de ele ter caído, saiu da vista da equipa de resgate e só foi salvo em último lugar? Será que estamos em presença de um Deus castigador que faz sofrer os que o veneram para justificar uma maior submissão à sua arbitrariedade?...
Reconheço que isto já são considerações que extravasam o motivo desta crónica, mas não posso deixar de as mencionar como apreciação deste tipo de filmes cristãos, baseados em casos reais, que sobrevalorizam o poder da oração e nos querem impressionar com a persistência de uma mãe “feroz”, cheia de fé, que se mostra inamovível no seu desejo para que o filho volte à vida a todo o custo.
Do ponto de vista cinematográfico o filme até está bem conseguido, com boas performances, por atores com qualidade que geram um ambiente dramático e credível mas simultaneamente pergunto-me qual será o público-alvo desta história. Para os cristãos fieis, acreditar em milagres é já um lugar-comum e não lhes mostra nada que eles não estejam convencidos que sabem. Para os outros só lhes deve causar perplexidade, tal como para mim, que me escuso a classificar uma obra que pretende transformar um evento extraordinário e desconhecido num milagre declarado.

Classificação: _ numa escala de 10

6 de maio de 2019

Opinião – “O Intruso” de Deon Taylor


Sinopse

Quando um jovem casal (Michael Ealy e Meagan Good) compra a casa dos seus sonhos em Napa Valley, pensa que encontrou o lar perfeito para dar os próximos passos em família. Mas quando o ex-proprietário (Dennis Quaid) permanece estranhamente ligado à casa e continua a infiltrar-se nas suas vidas, eles começam a suspeitar que ele esconde outras intenções para além de uma venda rápida.

Opinião por Artur Neves

O que temos neste filme é um thriller de suspense em crescendo, bem apanhado, onde o ex-proprietário Charlie Peck (Dennis Quaid) que vendeu a casa ao casal, não quer, nem pretende deixar a propriedade de que tomou posse, através de uma manobra que mais tarde viremos a conhecer.
Dennis Quaid tem um bom desempenho neste papel de louco obcecado, sem reservas de comportamento, que embora exprimindo uma loucura desequilibrada, consegue com uma simpatia fictícia manter-se próximo da propriedade que já não lhe pertence, embora ele não a queira largar. As expressões faciais de Charlie nas diferentes situações, alternando entre largos sorrisos e uma contrariedade mal contida, são a chave deste suspense em que se espera uma explosão a cada momento que ele aparece em cena, seja por que motivo for, sempre dissimulado de entreajuda e colaboração.
O primeiro contacto entre os comparadores e o vendedor não é o mais auspicioso, pois Scott e Annie (Michael Ealy e Meagan Good, respetivamente) encontram Charlie em plena atividade de caça no terreno circundante da casa. Considerando que sendo eles citadinos, modernos e cultos, a atividade da caça é algo que lhes é estranho e de certo modo incompreensível para a sua vivência noutra dimensão diferente do mundo selvagem. Eles é que escolheram a casa, mas o seu modo de vida é diferente, do que ela e o seu meio envolvente lhes pode oferecer.
Como bom thriller que se preza, temos em Annie a pessoa bem-intencionada, compreensiva, aberta aos novos relacionamentos de vizinhança com o antigo dono da propriedade, sem suspeitar de que as suas intenções não sejam as melhores e as mais apreciáveis, indiferente ao mais elementar cuidado de reserva sobre a sua própria segurança. Esta postura não será muito verosímil na vida real, mas que sem dúvida contém o cerne do suspense e provoca sobressaltos no espectador, que foi ao cinema, mesmo para os sentir.
O verso desta moeda é “O Intruso” na pele de Dennis Quaid que tem um desempenho completamente surpreendente pelo desequilíbrio que aparenta em todas as situações em que entra. O seu personagem contém elementos de um Joker tão louco como o criado pelo malogrado Heath Ledger em “O Cavaleiro das Trevas” ou Jack Nicholson em “The Shining” exibindo expressões assustadoramente convincentes e ferozes, com sorrisos maníacos, olhos esbugalhados e trejeitos faciais numa cara de plasticina que quando filmados em close-up, projetam imagens de verdadeira e assustadora loucura.
Assim sendo, temos neste filme um thriller doméstico com pontos fortes ao nível da interpretação e do argumento, realizado por quem sabe o que pretende e eficaz no aspeto do suspense transmitido ao espectador.

Classificação: 6 numa escala de 10