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27 de agosto de 2020

Opinião – “Radioativo” de Marjane Satrapi


 Sinopse

“Radioativo” dá-nos a conhecer o legado duradouro de Marie Curie (interpretada pela atriz nomeada para um Óscar® Rosamund Pike) – as suas relações apaixonadas, as descobertas científicas, e as consequências para ela e para o mundo. Depois de conhecer o cientista Pierre Curie (Sam Riley), os dois casam-se e mudam a ciência para sempre com a descoberta da radioatividade. A genialidade das descobertas dos esposos Curie, que mudam o mundo, e o Prémio Nobel que se segue, levam o casal à ribalta internacional.

Dos mesmo produtores de “A Hora mais Negra” e “Expiação”, a realizadora Marjane Satrapi (nomeada para um Óscar® com Persépolis) parte da novela gráfica de Lauren Redniss e apresenta um retrato visionário e ousado dos efeitos transformadores, das consequências do trabalho dos Curie e da forma como este moldou os momentos-chave do século XX.

Opinião por Artur Neves

“Radioativo” é um filme que nos mostra os benefícios e os malefícios da radiação gama, (γ) um tipo de radiação eletromagnética de alta frequência com elevado poder de penetração em todos os corpos, resultante do decaimento da evolução natural do plutónio na natureza, através duma abordagem autobiográfica aos seus descobridores, os esposos Pierre e Marie Curie na última década do século XIX.

Em 1903 essa descoberta e as suas múltiplas aplicações conferiu-lhes o mérito de serem distinguidos com o prémio Nobel que no discurso de aceitação de Pierre ele aludiu à imensa perigosidade das suas descobertas referindo em forma de pergunta; “se a humanidade se beneficia em conhecer os segredos da Natureza, se está pronta para lucrar com isso ou se esse conhecimento não será prejudicial para ela”. A resposta, como todos conhecemos, está no benefício da antecipação de diagnóstico propiciado pelo Raio X e no malefício do desastre de Chernobil, igualmente referido no filme, este porém, com causas políticas associadas à dimensão do desastre, para lá da perigosidade de utilização da energia atómica no grau de desenvolvimento atual.

Marjane Satrapi, realizadora Iraniana a viver nos USA faz uma abordagem inteligente do argumento começando com Marie Curie já consagrada e em plena atividade no laboratório sofrendo um desmaio que a levará ao hospital, cujo tempo de internamento lhe permitirá fazer o balanço da sua vida mostrando-nos toda a evolução do seu trabalho, estudos e vida familiar com Pierre Curie, do qual teve três filhas e uma vida de ativista em favor dos direitos das mulheres, da sua independência e autonomia face à sociedade patriarcal comum no século XIX decorrente da revolução industrial e posterior desenvolvimento.

Neste particular, a atriz Rosamund Pike no papel de Marie Curie é uma escolha vencedora considerando a sua teimosia, orgulho e perseverança demonstrados na construção de um personagem credível como cientista e controverso como esposa e mãe, pese embora as suas diferenças físicas com a verdadeira Marie Curie.

Pierre Curie (Sam Riley) era igualmente dado às ciências ocultas, contrariamente a Marie Curie que era fundamentalmente racional e pragmática. Essa tendência introduziu no círculo de conhecimentos familiares Loie Fuller (Drew Jacoby) uma mulher da nova era que criou em palco uma dança em que o intérprete vestia uma túnica branca esvoaçante iluminada por luzes mutantes de cores intensas. Fuller, tendo conhecimento do poder fosforescente do rádio, pediu-lhes um pouco para utilização numa fantasia. Pierre teria acedido se Marie não se opusesse determinadamente, antecipando os efeitos perniciosos da radiação continuada no corpo humano, dos quais Pierre e ela própria, viriam a falecer.

Satrapi soube construir um ambiente adstringente e simultaneamente sentimental de Marie, em que ela, sem abandonar o seu mundo e a sua atividade de investigadora, ama infinitamente o seu marido, resolve os seus diferendos individuais após a sua morte e cuida das suas filhas com o desvelo possível, embora sempre com muito amor. Todo o filme constrói uma visão alucinatória que ilustra o terror com que Marie encara as suas descobertas, que não têm a ver só com ela, mas com muitas outras vidas que ela pode condicionar, reforçando a mensagem de que: “a ciência é invariavelmente política e, nas mãos certas, pode ser uma força para o bem, mas nas erradas, uma arma do mal”. Muito interessante, recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

26 de agosto de 2020

Opinião – “Fojos” de Anabela Moreira e João Canijo


Sinopse

Castro Laboreiro, a terra mais a Norte de Portugal, é um lugar cujos montes terminam numa rua sem saída. Chamam-lhe o buraco do fim do mundo. Ali vivem lado a lado lobos e homens. Os lobos saem dos seus covis para atacarem livres as presas dos homens trancados nas suas tocas. Uns e outros armadilhados dentro do grande fojo que é a vida e de onde não se pode sair vivo.

Opinião por Artur Neves

Considerando a sinopse anterior e o poema inscrito no poster do filme (“Os homens são como o lobo,/Só lhes falta ter rabo,/Andam de dia e de noite,/Na figura do Diabo”), bem como que; “Fojo” é uma armadilha para captura de lobos, construída em pedra e representativa de uma manifestação cultural única a nível ibérico, da convivência nem sempre amistosa entre lobos e homens. Na minha genuína paixão cinéfila, sempre recetiva á desejada evolução do cinema português, pensei tratar-se de um documentário, sim mas, em que João Canijo, autor de algumas boas obras recentes, nos quisesse oferecer um drama na paisagem agreste do Alto Minho em que homens e lobos se comportassem uma vez como eles próprios e outra como o seu contrário, conjugando uma história documental sobre a dura vida das pessoas de Castro Laboreiro e Melgaço.

Mas não… mais uma vez as minhas expectativas foram goradas e o que temos aqui é um documentário puro e duro, do quotidiano quase primitivo (apesar da existência da Internet) das gentes de Melgaço, nas suas atividades de subsistência e manutenção da vida do dia a dia, apresentadas aleatoriamente, ou pelo menos segundo uma ordem de duvidosa referenciação.

O documentário não tem atores, é feito com as pessoas da terra nos seus afazeres normais de pastar os animais, matar os porcos e defumar os presuntos, bem como conservar a carne em sal. Todas as pessoas são indiferenciadas e reportadas ao mesmo nível sendo tão destacado o “Tiro”, um cão pastor, como a “tia Benite”, ou “Benitinha”, apoiada em duas canadianas sempre que se desloca ao centro de dia para executar uma ginástica mal guiada, ou ao posto médico para tratar dos seus múltiplos achaques.

A aldeia reportada tem muitas pessoas mas o filme não nos permite conhecer qualquer delas ou as relações entre elas, os seus dramas, ou o posicionamento social relativo daquelas que a realização achou por bem destacar com a abordagem dos seus problemas específicos. O abastecimento da dispensa dos habitantes é feito pela mercearia itinerante que pára em vários lugares e atende diferentes fregueses, com dificuldades pecuniárias também diferentes, mas tudo de uma forma tão plana, tão rasa, tão elementar que ficamos sempre à espera que o próximo assunto seja mais interessante.

A abordagem espiritual dos habitantes é feita através da apresentação de uma igreja frugal e de um funeral não se sabe de quem, apenas uma procissão atrás do féretro, vista de perto e de longe quando atravessa uma ponte. Mais interessante é a mostra de uma prática religiosa cigana, com o discurso do mentor num altar improvisado e as respostas pré estabelecidas dos fiéis na assembleia, num misto de reza e cântico aos sons de acordes de música cigana.

Dos fojos apenas um nos é mostrado e a uma distância segura. Dos lobos nem um vislumbre, exceto das carcaças despojadas de carne de caçadas antigas, dos homens que viram diabos, também nem uma réstia, até porque, na sociedade matriarcal que nos é apresentada, elas são sempre determinantes em tudo o que importa e neste filme tudo o que importa é apontar a objetiva para diferentes assuntos e deixar correr a gravação para ter assunto para a edição. Ora bolas… não pode ser sempre isto o cinema português.

Classificação: 3 numa escala de 10

18 de agosto de 2020

Opinião – “O Segredo – Atreve-te a Sonhar” de Andy Tennant

 Sinopse

“O Segredo – Atreve-te a Sonhar” conta a história de Miranda Wells (Katie Holmes), uma mulher muito trabalhadora, viúva, que luta para criar três filhos sozinha. Uma forte tempestade traz para a sua vida um desafio devastador e um homem misterioso, Bray Johnson (Josh Lucas). Em poucos dias, a presença de Bray reacende o ânimo da família, mas ele transporta consigo um segredo – e esse segredo pode mudar tudo.

Este drama romântico baseia-se na obra de Rhonda Byrne, "O Segredo" publicado em 2007 em Portugal. Com mais de 30 milhões de cópias vendidas em todo o mundo, permaneceu 190 semanas na lista de livros mais vendidos do "The New York Times", sendo o livro mais vendido de sempre em Portugal, com meio milhão de exemplares. O livro apresenta a Lei da Atração, que defende que os nossos pensamentos moldam a nossa realidade e que os seres humanos podem controlar as suas vidas com a mente e alcançar os seus desejos.

Opinião por Artur Neves

A Lei da Atração mencionada na sinopse, inspirada no princípio Taoista: “Acredita e Materializas” mais não é, na tradição judaico cristã profusamente divulgada em Portugal, o conteúdo do proverbio popular “A fé move montanhas” que nos aparece divulgada até à exaustão no livro “O Segredo”, travestido de filosofia de auto ajuda escrito por Rhonda Byrne a quem propiciou uma invulgar projecção mediática com os respectivos proventos associados, posteriormente divulgado em DVD na forma de documentário.

Andy Tennant, realizador americano cujo filme mais significativo da sua obra é; “Para sempre Cinderela” de 1998, pegou no argumento de um drama romântico de Bekah Brunstetter e Rick Parks, adaptado ao formato pela própria Rhonda Byrne, que lhe empresta um vago sentido de espiritualidade, oferece-nos esta história de pensamento positivo, polvilhado de pseudo filosofia barata, através da qual, durante uma tempestade torrencial, quando as crianças da casa exprimem o seu desejo por pizza, aparece-lhes milagrosamente um entregador de pizzas na porta de frente para lhe cumprir e satisfazer os desejos. O mago da lâmpada de Aladino não faria melhor.

Tudo o resto é comum dos dramas românticos, Miranda Wells (Katie Holmes), desempregada, falida, viúva e mãe de três filhos, (só desgraças) vive atormentada pela manutenção da sua vida, que só piora, quando a tempestade causa danos consideráveis na sua casa (mais desgraça) tem um encontro “casual” com Bray Johnson (Josh Lucas) que lhe oferece incondicional ajuda no seu infortúnio, que naturalmente lhe causam surpresa e desconfiança, não só a ela como ao seu encalhado namorado de longa data Tucker (Jerry O'Connell) que começam a questionar tão generosas e oportunas ofertas.

Porém não há nada de mal e somente os seus espíritos sem esperança, sem ver a luz, é que gera as suas dúvidas infundadas que serão dissipadas sempre que Bray adicione á sua ajuda pequenas pérolas de sabedoria sobre o poder das Leis da Atração e do pensamento positivo do tipo “quanto mais pensas em algo mais o atrais para ti” em que o episódio das pizzas, para além de outros, são verdadeiramente singulares.

Se descartarmos os chavões e os clichés de auto ajuda a história até se compõe razoavelmente bem como um romance maduro, uma segunda oportunidade entre dois personagens interpretados por dois atores que sabem ao que vão e sabem fazer com que secretamente desejemos que os seus personagens se encontrem, mas as manipulações emocionais do formato e as narrativas lamechas utilizadas geram situações que nos fazem querer vomitar, tais são os esforços artificiais de Rhonda Byrne para introduzir as suas recomendações e comentários no processo.

Por outro lado, os problemas financeiros de Miranda são facilmente assimiláveis por vários espectadores com dificuldades semelhantes nestes tempos difíceis e interiorizar que apenas o desejo intenso e constante de melhoria são suficientes para os ultrapassar, pode conduzir a grandes desilusões.

Classificação: 4 numa escala de 10

14 de agosto de 2020

Opinião – “A Troca das Princesas” de Marc Dugain

 

Sinopse

Em 1721, o Regente de França, numa tentativa de selar a paz com Espanha, oferece ao Rei espanhol, um casamento entre os herdeiros respectivos: Luís XV, de 11 anos, e Mariana Victoria, a infanta espanhola de 4 anos. O Regente propõe também a sua filha, Mademoiselle de Montpensier, de 12 anos, ao Príncipe das Astúrias, o herdeiro do trono de 14 anos. Madrid responde com entusiasmo às propostas. A troca das princesas realiza-se numa pequena ilha, entre os dois países. Mas nada corre como planeado.

Opinião por Artur Neves

A sinopse anterior descreve sucintamente todo e enredo da história em que baseia este filme de Marc Dugain, realizador e argumentista francês, nascido em 1957 no Senegal, que tem no seu curriculum diversas obras de caris autobiográfico e histórico referente a personalidades como Joseph Staline ou J. Edgar Woover.

A história decorre quase completamente no interior dos palácios para onde o regente do Reino da França, Philippe d'Orléans engendrou o plano de casar o futuro rei de França, Luís XV, de 11 anos, com Marie-Anne-Victoire d'Espagne, de 4. Não satisfeito com isso, ele acrescenta ao “lote” a oferta da sua filha Louise-Élisabeth d'Orléans, de 12, para desposar o príncipe herdeiro do trono espanhol, Luis, de 14 anos que nos é apresentado como um imberbe totalmente impreparado para viver, ou casar, quanto mais para reinar.

É este o mérito do filme e do argumento que o suporta, escrito por Chantal Thomas que tem provas dadas nesta área de desmontagem da convenção história sobre as monarquias europeias que até hoje se revelam pelos piores motivos.

No presente caso é o desespero de Philippe d'Orléans, (Olivier Gourmet) a sua incapacidade e impreparação para assumir as tarefas régias durante a infância de Luis XV que o leva a tentar estabelecer uma ponte e uma amarração com o futuro, através do enlace dos atuais infantes, independentemente das suas preferências. Era o normal na época, bem sei e a história também nos mostra isso, mas só a ociosidade da sua vida palaciana e a total ausência de preocupação com o povo e os destinos da nação é que o faria pensar em levar o jovem Luis XV a assumir um compromisso de casamento com uma criança de 4 anos que o filme até nos mostra ter uma presença de espírito e de premonição invulgares para a idade.

Só pela idade e pela impreparação generalizada destes quatro peões infantis, usados nesta absurda empresa de vinculação dinástica pode-se suspeitar do sucesso da ideia, mas todo o ambiente vivido na corte de França e de Espanha que o filme nos mostra, sugere-nos claramente à sua conclusão catastrófica de devolução das “encomendas” às suas origens naturais de onde não deveriam ter saído.

Rodado quase completamente no ambiente interior dos palácios, o filme apresenta uma dinâmica lenta e soturna, filmado à luz de velas, no interior de salões, onde por vezes se espera que uma acção aconteça. Porém, esta fica retida no protocolo das cerimónias da corte e nos pensamentos dos seus agentes, mostrando-nos as vidas estéreis dos detentores do poder, embora inocentes nas suas atitudes, porque ainda ingénuos nos objetivos a atingir.

Fica-nos assim uma revelação histórica, por vezes comovente, dos poderes reais e da monarquia, interpretado por atores bem escolhidos com particular destaque para Marie-Anne-Victoire (Juliane Lepoureau) que apesar da sua tenra idade obtém um excelente desempenho.

Nas salas a partir de 20 de agosto

Classificação: 5 numa escala de 10

13 de agosto de 2020

Opinião – “O Rei de Staten Island” de Judd Apatow


 Sinopse

Scott (Pete Davidson) é um caso típico de “síndrome de Peter Pan” desde a morte do seu pai, bombeiro, quando tinha 7 anos. Agora, com 20 e tal anos, e tendo alcançado pouco ou nada, ele tem o, aparentemente inalcançável, sonho de se tornar tatuador. A sua ambiciosa irmã mais nova (Maude Apatow) vai para a Universidade, mas Scott continua a viver com a sua exausta mãe (Marisa Tomei), enfermeira nos Cuidados Intensivos, passando os seus dias a fumar erva, nas ruas com os amigos e em encontros secretos com Kelsey (Bel Powley), sua amiga de infância.

Quando a sua mãe começa a namorar com Ray (Bill Burr), um bombeiro fala-barato, este relacionamento irá desencadear uma cadeia de acontecimentos que forçarão Scott a enfrentar a sua dor e andar para a frente com a vida.

O elenco do filme inclui ainda Steve Buscemi, como Papa, um bombeiro veterano que assume o papel de protetor de Scott, e Pamela Adlon como Gina, a ex-mulher de Ray.

Opinião por Artur Neves

A história deste filme é baseada na vida de Scott Davidson, pai de Pete Davidson, um bombeiro incluído no contingente de combate ao incêndio do World Trade Center em 11 de setembro de 2001 que faleceu no desempenho da sua função e que é lembrado pela National Fallen Firefighters como um homem corajoso, bom esposo e pai de família. A história contada com humor, desvelo e humanidade por Judd Apatow, realizador americano nascido em Nova Yorque pretende lembrar heróis anónimos que cuidam das nossas vidas. Pete Davidson, o filho, é um homem de temperamento sofrido e dolorosamente adorável que colaborou neste argumento semiautobiográfico em homenagem ao seu pai.

Ele já entrou na idade adulta mas continua meio perdido nos seus pensamentos e nos seus projetos de futuro. Está a meio caminho entre ser tatuador ou outra coisa qualquer que o mundo permita que ele seja. Situação semelhante é a que tem com a sua amiga de infância Kelsey (Bel Powley), com quem mantém uma relação estranha que ele próprio não sabe definir mas prefere que se mantenha assim para não ter de assumir responsabilidades que o seu complexo de “Peter Pan” não lhe recomenda.

Pete tem amigos com quem fuma maconha e faz projetos que não cumprirá porque no fundo ele tem bom íntimo e foi bem educado pela sua família que lhe inculcou os preceitos da ordem e da honestidade que ele segue sempre que pode, isto é, sempre que o medo de ser preso ou de ser admoestado pela mãe fala mais alto do que os desejos desviantes que o consomem.

A sua saúde é fraca e a sua clarividência mental nunca tiveram melhores dias, o que lhe permite aproveitá-las como justificação para a sua inércia e para a sua incapacidade geral. Todos estes problemas se agravam quando a sua mãe Margie Carlin (Marisa Tomei) começa a namorar Ray (Bill Burr) como consequência de um problema que ele próprio gerou na sua ânsia de praticar a profissão de tatuador. Todos os seus amigos já foram tatuados por ele e não estão completamente satisfeitos com os resultados porque ele ainda está em auto aprendizagem e as suas tatuagens apresentam defeitos.

Toda a história é uma sequência de avanços e recuos da vida de Scott Carlin para a qual o ator Pete Davidson foi sem dúvida uma boa escolha com o seu corpo esguio, os olhos esbugalhados e a sua face de espanto nas situações mais vulgares. A história tem um desenvolvimento lento que nos permite interiorizar todo a confusão e sofrimento na mente daquele adulto jovem que não sabe como afirmar-se, criar o seu espaço e crescer.

O filme apresenta-nos assim um relato na primeira pessoa, muito franco e honesto do que pode acontecer à estabilidade de uma família na sequência de uma tragédia. Tem ainda a vantagem de não cair na lamechice, embora conte uma história triste e por vezes deprimente que embora não sendo inédita, está bem contada com um humor triste mergulhado em solidão.

Vale a pena assistir a partir nas salas de Lisboa a partir de 20 de agosto

Classificação: 6,5 numa escala de 10

1 de agosto de 2020

Opinião – “Força da Natureza” de Michael Polish


Sinopse

Quando um furacão de grande magnitude ameaça Porto Rico, um polícia (Emile Hirsch) tentando recuperar de uma tragédia em Nova Iorque, entra em serviço de evacuação com uma nova parceira (Stephanie Cayo).

A dupla chega a um complexo de apartamentos, quando um criminoso chamado John the Baptist (David Zayas) entra numa senda assassina para chegar a um tesouro de arte de valor inestimável. Mas quando um ex-polícia (o vencedor do Óscar, Mel Gibson) e a sua filha (Kate Bosworth) entram relutantemente em cena, a Polícia terá de subir aos andares mais altos para se manter à tona, numa armadilha mortal de cimento. À medida que as águas das cheias sobem, só a ferocidade e o poder de fogo podem domar esta Força da Natureza.

Opinião por Artur Neves

Depois de em 2018 nos ter deliciado com um thriler de mão cheia; “Na sombra da Lei” eis que Mel Gibson nos brinda com este série “B” onde desempenha o personagem de um polícia doente, velho e birrento em busca de um aparelho de hemodiálise que ele se recusa a utilizar no hospital mais próximo.

A sua filha médica Dra. Troy (Kate Bosworth), é quem o assiste em casa, tentando convencê-lo a abandonar o domicílio, decorrente da aproximação de uma tempestade grau 5 que porá em risco a manutenção da alimentação eléctrica ao edifício de apartamento, ou mesmo a toda a cidade de Porto Rico, inviabilizando o tratamento que Ray (Mel Gibson) que recusa a aceitar num hospital.

Todavia, outros condóminos do mesmo edifício igualmente se recusam a abandoná-lo embora por outros motivos, pelo que a dupla de polícias Cardillo (Emile Hirsch), longe dos dias de glória de “O Lado Selvagem” de 2007) e Jess Peña (Stephanie Cayo), uma polícia latina para facilitar a comunicação em espanhol, são encarregues de concluírem a evacuação do edifício.

Não contam é com a ideia peregrina de João Batista (David Zayas) em invadir o mesmo edifício durante o furacão para recuperar uma fortuna em arte na posse de Bergkamp (Jorge Luis Ramos), um ex-oficial alemão pertencente ao exército nazi, refugiado em Porto Rico que guardava aquela fortuna até ela lhe poder ser útil depois de uma transacção que preparava há muitos anos.

É este o argumento de “Força da Natureza” que saiu da pena de Cory Miller, um argumentista com experiência de investigação no departamento de Assuntos Internos da NYPD, cujos casos usados em cinema já nos deram boas histórias, embora a milhas desta, que apesar de tudo provocou algum furor durante as filmagens mas cujo produto final se perfila como um lamentável e confuso flop, com criminosos especialistas em arte e outros personagens com diferentes histórias de bastidores que se tentam colar numa estória coerente.

Para complicar, ainda inclui um animal selvagem, apenas visto de relance num salto, do qual não se conhecem as consequências diretas, apenas se podendo inferir que terá neutralizado João Batista e que este, ou o seu capanga armado, o matou com vários tiros. Contudo também ficamos na ignorância de qual terá sido o destino deste.

Toda a intriga aparece forçada, arrastada, pouco verosímil, nem sequer sugerindo que o realizador Michael Polish estivesse verdadeiramente interessado com o realismo da história, desenvolvida por personagens que não mostram grande talento para o suspense, incluindo Mel Gibson que nos tem apresentado coias muitos boas e muito mazinhas como esta.

É assim um série “B” de acção violenta para desviar a atenção do enredo frágil, que se distingue pela criação de ambientes particulares e especificamente coloridos em cada um dos apartamentos envolvidos, todavia isso é pouco como história e como entretenimento.

Este filme tem estreia prevista para 20 de Agosto nos cinemas NOS.

Classificação: 4 numa escala de 10

3 de junho de 2020

Opinião – “Ema” de Pablo Larraín


Sinopse

Depois de um longo e penoso processo de adoção, Ema, uma bailarina de "reggaeton", e o seu marido, Gastón, ficam responsáveis por cuidar de Polo, um menino órfão que nunca conheceu a estabilidade de uma família. A adaptação revela-se mais difícil do que imaginavam e algum tempo depois, Polo provoca um acidente que fere gravemente a irmã de Ema. Este incidente terrível deixa marcas e faz com que Ema tome a decisão de devolver a criança. Isso vai mudar radicalmente a forma como Ema e Gastón se vêem um ao outro, a si mesmos e ao mundo que os rodeia.

Opinião por Artur Neves

A sinopse anterior descreve o essencial deste “Ema” realizado por Pablo Larraín realizador Chileno nascido em 1976 que inclui no seu curricula cinematográfico obras tão diferentes como “Não” de 2012, um filme sobre revolta e direitos humanos contra a ditadura de Pinochet, “O Clube” de 2015 em jeito de denúncia sobre pedofilia praticada por religiosos católicos, que representa o seu filme mais emblemático, ou “Jackie” de 2016 sobre Jacqueline Kennedy Onassis, em jeito de novela, apresenta-nos agora este “Ema” cujo enredo apenas serve para suportar as personagens que o desempenham em diferentes situações, as suas vivências, objetivos, filosofias de vida, não sendo a história o mais importante, que apenas serve como fio condutor dos eventos que nos vão sendo mostrados durante cerca de 107 minutos.
“Ema” estreou no Festival de Cinema de Veneza de 2019 e quem conhece Larraín através das obras anteriormente citadas ou de outras de relevo semelhante, como “Tony Manero”,de 2008, sobre a angustiante figura e personalidade de um dançarino clássico, vai estranhar esta incursão no mundo da dança moderna e do "reggaeton", uma dança popular imbuída de uma expressão corporal intensa e culto da figura, com a qual Larrain parece algo perdido e só remotamente parece conhecer na sua essência. Recorde-se ainda que Larrain pertence a uma família da classe alta do Chile que apesar de no tempo de ditadura terem apoiado Pinochet, não o impediu de realizar “Não”, que constituiu o mais popular libelo acusatório contra os anos de chumbo desse período histórico.
Ema (Mariana Di Girolamo) é uma jovem bailarina que exprime através dessa arte os seus desejos, frustrações e tendências pirómanas, que funciona como metáfora para a combustão das sua múltiplas paixões, (ela chega a dançar com uma garrafa de combustível ás costas e um lança chamas na mão que inclui na coreografia) revolta-se contra o facto do seu marido e coreógrafo Gastón (o mexicano Gael García Bernal) não ser capaz de a engravidar para lhe permitir ser mãe natural, o que justifica a adoção de Polo (Cristián Suárez) um órfão a quem ela transmite as desilusões da sua vida e promove uma educação disruptiva no sentido da promiscuidade e da auto destruição que vitimou a sua irmã com fogo e que neste filme se torna um elemento fundamental da narrativa.
Esse evento promove o abandono de Polo e a separação do casal, depois de diversas acusações mutuas em que se revelam coisas que não vimos, nem sabíamos até ali, mas que permitem por parte dos atores interpretações credíveis, intensas, com Ema a polarizar toda a ação, de olhos fixos no “inimigo” (para ela todos o são) cabelos constantemente oxigenados e penteado agarrado à cabeça, numa atitude pós adolescente agressiva, disposta a desafiar todos os que interferirem no seu caminho.
Na sua ânsia de agarrar a vida procura outro parceiro, que mais tarde viremos com surpresa saber de quem se trata, embora em todo o filme o universo da dança reflita bem o seu desejo incontornável por liberdade e por protagonismo na vida de todos os que a cercam.
Ela deseja ser livre com a mesma intensidade com que deseja ser mãe, não avaliando a incompatibilidade entre esses objetivos, porque o seu desejo de maternidade decorre da sua turbulência emocional vivida na infância, para a qual a piromania funciona como o meio de eliminar o passado que lhe é doloroso. É por tudo isto que “Ema” é estranho ao universo de Larrain, considerando que apesar de existir uma história, um substrato coerente emocionalmente válido e escorreito, ele deixa tudo nas mãos de um personagem tão indomável como indefinível que se consome no fogo que deliberadamente espalha.
“Ema”, está disponível nas plataformas Netflix por assinatura, ou em Filmin, pelo preço de €3,95, sem contrato nem fidelização durante 72 horas.

Classificação: 6 numa escala de 10

31 de maio de 2020

Opinião – “Presságio” de Alejandro Montiel


Sinopse

Nesta prequela de "Perdida" de 2018, a agente Pipa não só tem em mãos o seu primeiro caso policial importante, como também investiga o seu superior, que é suspeito num homicídio.

Opinião por Artur Neves

“Perdida” é um filme dramático argentino deste mesmo realizador, baseado no romance “Cornélia” da jornalista também argentina; Florence Etcheves onde aparece o personagem de “Pipa”, Pelari (Luisana Lopilato), uma agente de polícia que neste filme ocupa a categoria de estagiária, embora se deva a ela a solução do enredo criminoso que dá suporte à história.
No original, este filme designa-se por “Intuition” (Intuição) muito embora a história que nos conta só muito remotamente seja atribuível à perceção instintiva sem razão objetiva, que está na base das deduções por intuição, mas a Netflix é que sabe e na sua distributiva operação pelo maior número de países do mundo, encaixa no seu cartaz este “conjunto de episódios” de séries policiais, costurando-os numa narrativa sequencial que pretende ser um filme e não a manta de retalhos que me pareceu, nesta estreia em 28 de maio.
O filme começa num prólogo, á boa maneira dos filmes de super heróis, em que Francisco Juanez (Joaquín Furriel) o detetive responsável pelo caso do desaparecimento em série de meninas está conduzindo os seus colegas floresta a dentro até ao covil do presumível sequestrador, embora contra as sugestões dos seus mais diretos colaboradores, ao que Juanez responde com a sua indefetível “premonição” de que se encontra no bom caminho da detenção do criminoso e do resgate da ultima vítima em cativeiro.
Ainda o fumo dos efeitos especiais (que simulava o nevoeiro húmido da floresta onde entraram) não se tinha totalmente dissipado e já Juanez está incumbido do próximo caso que envolve o assassinato de uma moça, para o qual ele recebe como ajudante a jovem detetive “Pipa” que não mais deixaremos de ver a partir daqui.
O que Juanez não sabe, (nem intui) é que ela foi incumbida de investigar secretamente a eventual participação de Juanez no acidente rodoviário que vitimou mortalmente um jovem que pertencia a uma família de ciganos comerciantes de acessórios de automóvel que foram responsáveis pela morte da mulher de Juanez.
Ao longo dos 116 minutos de duração do videograma acompanhamos a evolução das investigações, saltando de uma para outra fazendo crescer todas quase em simultâneo com “Pipa”, inicialmente muito desconfiada do seu parceiro e chefe de investigação e aos poucos amolecendo a sua atitude decorrendo dos factos que vão sendo descobertos, até ao ponto de passar uma noite com ele, por motivos exclusivamente profissionais… claro…
Aqui chegados só me apetece citar; “… não havia necessidade…” de juntar tantos clichés e lugares comuns num argumento de pacotilha, que embora reúna algumas cenas de interesse não possui qualquer originalidade nem a garra necessária que permita tornar o personagem de Juanez num investigador credível e a história, num todo coerente.
Juanez e “Pipa” são uma dupla que deveria constituir uma relação de “professor e aluna” mas que devido à investigação subterrânea de “Pipa” mais parece um jogo de gato e rato que para se manter têm de se gerar muitos hiatos de colaboração e de movimentações na ação que se torna algo penoso durante todo aquele tempo em que começamos a perguntar como é que aquilo acabará, sabendo-se antecipadamente que só pode acabar bem para que possa existir uma sequela. Poucochinho!...

Classificação: 4 numa escala de 10

28 de maio de 2020

Opinião – “Give me Liberty” de Kirill Mikhanovsky


Sinopse

Vic, um jovem desafortunado russo-americano, conduz uma carrinha de transporte de pessoas incapacitadas em Milwaukee. Já atrasado, num dia em que começam protestos, e à beira de ser despedido, concorda, relutantemente, em levar o avô e vários idosos russos a um funeral. Quando pára num bairro predominantemente afro-americano para ir buscar Tracy, uma jovem com esclerose lateral amiotrófica, o dia de Vic vai de mau a pior.

Opinião por Artur Neves

Esta é mais uma obra apresentada no festival de Sundance Film Festival de 2019, essa montra generosa que privilegia filmes de baixo orçamento e produção independente, fundada em Agosto de 1978 por Robert Redford, na capital do estado do Utah, a cidade de Salt Lake City tendo cumprido até agora os objetivos propostos, apresenta-nos esta história dirigida por Kirill Mikhanovsky, um realizador russo que se inspirou nos seus tempos iniciais como emigrante em Milwaukee, em 1993, onde serviu como motorista de transporte de pessoas com deficiência, e se confrontou com situações caricatas mas de elevado conteúdo humanista que agora, num tom habilidosamente ligeiro transportou para cinema.
Vic (Chris Galust) está num dia complicado pelo atraso que já regista na sua volta programada devido a diversas manifestações públicas contra a ocorrência de um tiroteio policial num bairro negro, que o fazem procurar alternativas ao percurso estabelecido. Não obstante, os imigrantes russos que moram no prédio onde ele visita o seu avô, pedem-lhe para os levar ao cemitério para as exéquias de um falecido que pertencia à comunidade. Vic sabe que o transporte que os devia levar já sofre um significativo atraso pelo que ele assume mais essa tarefa de transportar o grupo.
A habilidade de Mikhanovsky leva-o a pegar em pessoas deficientes reais, membros da comunidade russa imigrante de Milwaukee, frequentadores regulares do Eisenhower Center da cidade, incluídos num grupo de apoio de pessoas com deficiência e transforma-os em atores que exibem com a genuinidade inerente os seus medos, fragilidades e carências que compõem esta comédia, refinadamente caótica e imprevisível.
São pessoas despojadas do glamour do palco que exibem as suas carências naturais de atenção, excesso de solidão e prioridades avulsas, mostrando com o realismo rústico da sua existência as dificuldades levantadas numa viagem, num dia particularmente intenso e frio do inverno do Wisconsin.
Vic tem de seguir, embora remotamente, o plano estabelecido pela empresa de transporte onde trabalha, as coisas já estão a correr suficientemente mal com o seu patrão para que ele, sempre que é contactado por este, refira que se encontra a 10 minutos do destino, quando em boa verdade, devido às alternativas de percurso que tem de encontrar, seja impossível calcular o tempo em falta.
A “cereja no topo do bolo” é Tracy (Lauren “Lolo” Spencer) que num desempenho digno de registo se assume como defensora de pessoas com deficiência tendo obrigações de horário a cumprir para ajudar um amigo, Steve (Steve Wolski), que vai a uma entrevista de emprego. Por outro lado quem mais ajuda Vic e desestabiliza o grupo, é um pugilista russo, desempregado, barulhento e brigão, Dima (Maxim Stoianov) que entra em conflito com Tracy, portadora de ELA e tem de manobrar a sua cadeira de rodas motorizada, no interior de uma carrinha lotada de pessoas que reclamam, protestam e cantam canções folclóricas russa acompanhadas por um acordeão que rouba espaço necessário à cadeira de rodas.
É mais um filme sem heróis, que se desenvolve notavelmente pela sua autenticidade. A deficiência não é usada como lamentação de pessoas incapazes e incompletas ou como compensação moral da ajuda prestada pelas pessoas saudáveis. Mikhanovsky, a maior parte do tempo de câmara na mão, assume o compromisso de mostrar um nicho de sociedade marginalizada, cujas reflexões sobre a vida e o amor recentram a história em padrões comuns que proporcionam lindos momentos de tranquilidade e repouso naquela atribulada viagem.
Disponível na plataforma Netflix desde 12 de maio. Muito interessante.

Classificação: 6 numa escala de 10

22 de maio de 2020

Opinião – “100% Camurça” de Quentin Dupieux


Sinopse

Georges, recentemente divorciado, sente uma enorme dificuldade em adaptar-se à nova vida. A enfrentar uma espécie de crise existencial, esforça-se por ultrapassar a angústia que teima em não passar. Um dia, compra um casaco de camurça numa loja em segunda mão. O que vem a descobrir assim que o veste é que esse casaco concede estranhos poderes ao seu proprietário. Obcecado com a nova peça de vestuário, Georges muda radicalmente a forma de ver e sentir o mundo.

Opinião por Artur Neves

Quentin Dupieux é um realizador francês nascido em 1974 do qual, quase conheço uma sua realização de 2010; “Rubber – Pneu”. Se digo que “quase conheço”, é porque contactei com ele num videoclube, aluguei o videograma, comecei a vê-lo e ao constatar que se tratava da história de um pneu filósofo!… sim, um pneu que falava e que tinha vida própria rolando sozinho, acorreram-me imediatamente outras ideias de coisas mais uteis para fazer e interrompi o visionamento cerca de 15 minutos após o seu início. Devolvi o DVD e nunca mais pensei no assunto.
Nesta fase de confinamento em que procuramos ocupações para o tempo em excesso dei de caras na plataforma FILMIN com este “Le Daim” de 2019, no título original, escrito e realizado pelo mesmo senhor Quentin Dupieux e em consideração aos atores; Jean Dujardin e Adèle Haenel, de quem tenho algumas boas referências noutras interpretações, resolvi conferir-lhe o benefício da dúvida prometendo a mim próprio assistir a todos os 77 minutos de duração do filme.
Georges (Jean Dujardin) que só de raspão sabemos que ele é um divorciado recente (pelo desenrolar da história e do seu comportamento assumimos que a senhora terá tido todas as razões para se separar deste maluco) tem uma fixação intelectual num blusão de camurça com franjinhas, umas tiras fininhas também de camurça que pendem da parte de cima do peito, das costas e das mangas, com quem ele fala, tece considerações filosóficas sobre a sua aparência vestido com ele frente ao espelho e se propõe torná-lo o único blusão “vivo” através da liminar destruição de todos os blusões com que ele se cruze ao chegar aquela pequena cidade do interior americano, de carro, vindo não se sabe de onde nem porquê.
Ao chegar aqui lembrei-me logo do pneu a rolar isolado pela estrada e a comentar a sua existência, mas continuei a ver o filme, pois afinal tinha formulado um compromisso para 77 minutos o que até nem é muito…
Georges, porém, tem ainda outra fixação, assume-se como realizador de cinema para o que empunha constantemente uma máquina de filmar, uma Handycam da Sony de uso doméstico (pelo que me pareceu) e com ela motiva Denise (Adèle Haenel) a formar uma equipa de filmagem, depois de esta, na receção do hotel em que se alojou, lhe ter confessado que também gostava muito de cinema e tinha propensão para editora de filmes e que a atividade de edição preenchia completamente a sua veia artística.
Posso vislumbrar nesta obsessão pela filmagem uma crítica alusiva à multiplicidade de pessoas que de telemóvel em punho filma e fotografa tudo o que lhe aparece pela frente para posterior publicação nas redes sociais, mas daí até fazer como ele, de filmar e matar a tiro todas as pessoas que vestiam blusões, para lhos tirar e enterrar, para que só restasse o seu, o único blusão de camurça, vai um abismo de razoabilidade e de sentido.
Não quero revelar o final da história, mas a bem da lei e da ordem, um individuo que mata tão impunemente outras pessoas por um motivo tão fútil, só pode ter um fim semelhante às mãos de um sobrevivente que desempenhou um personagem ainda mais indefinido do que os participantes principais no enredo do filme… assim, tout court, sem mais nem menos... tiro e queda!...
Igualmente, sem me querer arvorar em detentor da verdade absoluta, informo que no IMDb (International Movie Data base) este filme tem a classificação de 6,8 num total de 4009 utilizadores, dos quais 34,5% atribuíram a classificação de 7, o que significa que outras pessoas tiveram opinião diferente da minha, todavia, declaro também que a minha classificação se destina totalmente aos atores e nada ao argumento, que reputo de fútil, desconchavado e idiota.

Classificação: 2 numa escala de 10

NOTA: Para quem quiser esclarecer as dúvidas que a minha crónica possa ter levantado, informo ainda que este filme está disponível na plataforma FILMIN, de origem espanhola e internacionalizada desde Novembro de 2016 no México e em Portugal, por €3,95, durante 72 horas, sem fidelização ou contrato, bastando apenas a inscrição no site.

21 de maio de 2020

Opinião – “All Day and a Night” de Joe Robert Cole


Sinopse

Enquanto Jahkor (Ashton Sanders, de “Moonlight”), de fala mansa e gestos contidos, luta para manter seu sonho de se manter vivo no meio de uma guerra de gangues em Oakland, sua vida infeliz e as responsabilidades do mundo real levam-no cada vez mais além da linha do certo e do errado com trágicas consequências.
Depois de ser preso e de encontrar seu pai na prisão, JD (Jeffrey Wright, de “Westworld”), com quem ele nunca se quis comparar, Jahkor embarca numa improvável jornada de autodescoberta, explorando os eventos que os unem, na esperança de ajudar seu filho recém-nascido a quebrar um ciclo que parece inevitável.

Opinião por Artur Neves

Este trabalho de Joe Robert Cole, realizador americano negro que tem no seu curricula “Black Panther” de 2018 e a popular e muito aclamada série para a televisão; “American Crime Story” apresenta-nos agora o ator de “Moonlight”, filme premiado na cerimónia dos Óscares de 2016, em Jahkor, um personagem que conta uma dramática história de vida de um garoto abandonado, com pai desaparecido, educado por um padrasto violento, a cumprir uma pena de prisão perpétua, mas com uma determinação de não deixar replicar que os seus erros de ontem se transformem amanhã em tragédias do seu filho.
A história começa pelo brutal crime a sangue frio que impõe a narrativa e o levará a julgamento e posteriormente à cadeia onde se encontra, numa cela isolada, que lhe permite reviver todo o seu caminho até ali reconhecendo a brutalidade dos seus atos como reflexo da infância e juventude que viveu, numa história de amadurecimento envolvido numa meditação sombria e desconfiada sobre a identidade, intenções e masculinidade do americano negro.
Embora sempre acompanhado na infância pela sua mãe Delanda, (Kelly Jenrette) e sua tia Tommetta, (Regina Taylor) duas fontes de força e amor duro, sempre a instigá-lo para seguir um caminho contrário aos exemplos diários com que se confrontava na escola e com os amigos frequentes, tais como, o astuto TQ (Isaiah John) desde sempre inclinado para uma vida de crime e arrastando-o com ele e o otimista Lamark (Christopher Meyer) sempre pronto a congeminar a melhor maneira de cometer o crime e escapar dele.
Em todo o filme ele mantém um monólogo íntimo e recorrente em que descreve uma narrativa de luta de gangs, de tráfico de droga, de racismo diário nos mais vulgares eventos quotidianos que motivam a citação em forma de murmúrio; “A escravatura ensinou os negros a sobreviver, mas não a viver” que ele repete em todos os momentos em que procura o isolamento para compor música hip-hop para a qual se sente particularmente vocacionado, embora sem oportunidade para a desenvolver naquele meio.
No desenvolvimento da história, entre o presente estado de reclusão e a descrição das razões que o levaram aquele medonho crime, o filme recorre-se de múltiplos flashbacks, sempre suportados pela sua voz em off, desde as lutas no recreio da escola em que experimenta a primeira satisfação de ter vencido um dos colegas mais acintoso e de ter cumprido a recomendação do seu pai adotivo de responder à violência com violência. Esta conclusão tornar-se-á uma emoção permanente na vida à qual se habituou.
“Todo o dia e uma Noite” na versão portuguesa, é uma história de fatalismo constante que elimina a possibilidade de redenção do que nos vai sendo apresentado. Sabemos desde o primeiro momento o crime que cometeu e que vai ser preso, portanto as suas tentativas de compor hip-hop, a sua recusa ao consumo de droga, o encontro com Shantaye (Shakira Ja'nai Paye) a quem faz um filho, são percalços de uma vida que sabemos não terá futuro e que deixa ao espectador a única hipótese de se concentrar no modo como tudo aconteceu.
Mesmo que em algum momento, como no tempo do seu relacionamento com Shantaye, você sinta alguma comiseração e esperança que ele atine com a vida, o filme a seguir mostra-lhe claramente que isso não vai acontecer, pelo que uma alteração da montagem poderia contribuir para a manutenção da esperança que a história se encarrega de eliminar.
Para lá das explosões de violência este filme contém uma meditação sobre a vida e sobre os maiores riscos de ser destruída e isso justifica o seu visionamento. Está disponível desde 1 de maio na plataforma Netflix.

Classificação: 6 numa escala de 10

13 de maio de 2020

Opinião – “Clara e Claire” de Safy Nebbou


Sinopse

Para espiar o amante Ludo, Claire, uma mulher de 50 anos, cria um falso perfil nas redes sociais. Transforma-se em Clara, uma belíssima jovem de 24 anos. Alex, amigo de Ludo, sente-se imediatamente atraído. Claire, prisioneira do seu Avatar, apaixona-se loucamente. Mesmo que tudo aconteça virtualmente, os sentimentos são reais.
Uma história vertiginosa em que a realidade e a mentira se confundem.

Opinião por Artur Neves

Não posso deixar de referir a proximidade em que se situam ambas as histórias contadas neste filme e no anteriormente publicado “Rainha de Copas”. São ambas, resultados de casos de assédio de mulheres de 50 anos, por um adulto jovem no caso deste filme e de um adolescente no caso do “Rainha de Copas”, as suas trajectórias, comportamentos e contextos é que são substancialmente diferentes, embora a sua raiz de solidão seja comum.
Com o enredo sumariamente descrito na sinopse, encontramos Claire (Juliette Binoche) no consultório da sua psicóloga Dra. Bormans (Nicole Garcia) tentando recompor-se do trauma de ter sido abandonada pelo seu marido (que a trocou por uma jovem que só posteriormente saberemos quem é) e pelo seu amante de ocasião, Ludo (Guillaume Gouix) que ela pretende perseguir através de interposta pessoa, para o que constrói um perfil falso numa rede social, com o qual pretende seguir os passos de Ludo através de Alex (François Civil), seu companheiro de quarto.
A relação estabelece-se no universo virtual e Alex e Clara (o perfil falso de Claire) estabelecem uma relação escaldante que do lado de Clara a transporta para a concretização dos seus desejos mais íntimos e para um amor a que ela não pensou inicialmente que sucumbisse, considerando os objetivos iniciais do seu projeto de seguimento de Ludo.
O drama romântico de Clara é nos apresentado por Claire em sucessivas sessões com laivos de suspense dignos de um thriller, incluindo ainda alguns dotes de comédia onde ela descreve e desafia a Dra, Bormans a comentar, a sua versão do amor vivido com Alex procurando conciliar os sentimentos de culpa e frustração, bem como, alimentar a sua carência de companhia e de amor que ela procurou através de uma mentira consumada nas redes sociais.
O silêncio circunspecto da psicóloga reflecte o olhar do espectador que se tenta defender da personagem apresentada por Claire, por pressentir que está sendo manipulado com uma história dentro da história que nos permite ajuizar a seriedade dos atos praticados por Clara ou por Claire, tal é o jogo de espelhos entre a realidade e o desejo do personagem ou do seu avatar.
Clara enreda-se assim nas suas próprias contradições assumindo como punição não permitir qualquer felicidade para si mesma, conduzindo Claire a uma instituição de doenças mentais para tentar reconstruir as partes em que se fragmentou, em que a intervenção da Dra Bormans é fundamental.
Esta troca de personagens on line é um fenómeno definido por catfish que Safy Nebbou, um realizador francês com origens argelinas, utiliza para nos avisar de um fenómeno real construído por pessoas que habitam este espaço virtual em busca de compensação física e emocional através da obtenção de likes que lhe criem a ilusão de viver relações reais, num meio virtual, onde cada um pode reinventar-se à sua maneira.
Nesta sua sexta longa metragem, Safy Nebbou adapta o romance de Camille Laurens "Celle que vous croyez", (“Aquela que vocês crêem que seja”, em tradução livre) utilizando a emblemática atriz de; “O meu belo Sol Interior”, Juliette Binoche, em mais uma magnífica interpretação do personagem dentro da personagem, sem receio de se mostrar como está, evidenciando toda a frescura remanescente dos seus 50 anos reais, a iluminação do seu rosto e do seu olhar que preenchem a tela. Embora sem o mesmo brilho próprio, este facto constitui outro ponto de contacto com a personagem de “Rainha de Copas” quando ela se aprecia frente a um espelho. A diferença fundamental entre as duas reside na tentativa de dissociação em que Claire se enreda, contra a acção que Anne projecta e deliberadamente pratica, todavia, ambas sofrem da mesma ausência que lhes traz solidão. Muito bom, recomendo.
Este filme está disponível na plataforma digital FILMIN por €3,95 ficando disponível para visionamento durante 72 horas.

Classificação: 7 numa escala de 10

10 de maio de 2020

Opinião – “Rainha de Copas” de May el-Toukhy


Sinopse

Anne, uma bem-sucedida advogada, vive numa belíssima casa modernista com as suas duas filhas e o marido Peter. Quando Gustav, o filho problemático de Peter, fruto de uma relação anterior vai viver com eles, Anne cria uma relação íntima com o jovem que põe em risco a sua vida perfeita. E aquilo que parecia inicialmente um acto de libertação, transforma-se numa história de poder, traição e responsabilidade, cujas consequências são devastadoras.

Opinião por Artur Neves

Pela mão de May el-Toukhy, uma realizadora dinamarquesa de origem egípcia, que igualmente participou em conjunto com Maren Louise Käehne na construção final do argumento, temos este excelente filme, vencedor do Prémio do Público no Festival de Sundance em 2019 e indicado pela Dinamarca para os óscares na categoria de Melhor Filme Estrangeiro que a Academia Americana se apressou a eliminar liminarmente, nem sequer o citando como candidato, considerando que a história aborda o assédio sexual de uma mulher a um rapaz de 17 anos seu enteado, o que iria frontalmente contra os ventos da época, engajados nos movimentos Time’s Up e #MeToo acérrimos promotores das denúncias de assédio sexual e moral a senhoras impolutas.
Sem prejuízo da aplicação da justiça ao mais famoso indiciado nessas práticas; o magnata Harvey Weinstein, fundador com o seu irmão da produtora Miramax, o filme ilustra como o assédio é um assunto transversal a ambos os sexos não havendo justificação objetiva à demonização do sexo masculino com a consequente vitimização do sexo feminino.
Anne (Trine Dyrholm, uma das mais conceituadas atrizes dinamarquesas) advogada da área familiar sobre casos de abuso e violência doméstica, vive com o seu marido Peter (Magnus Krepper) um médico de Estocolmo, viciado em trabalho, de trato rude e frequentemente ausente da maravilhosa casa onde o casal habita, situada em meio rural, circundada por árvores esguias de troncos nus e pouco frondosas mas que servem de filtro esparso à luminosidade do verão nórdico em fim de tarde e propiciam o tapete de folhas no solo que convida a passeios nostálgicos e mergulhos ocasionais na lagoa próxima.
Gustav (Gustav Lindh) é um jovem de rosto duro, revoltado com sua situação, fruto do primeiro relacionamento de Peter e que provisoriamente veio habitar com eles por desavenças com sua mãe, mas que estabelece excelente relação com as gémeas filhas de Anne, Fanny e Frida que podem ser representadas pelos personagens fictícios do romance de Lewis Carroll “Alice do Outro lado do Espelho” considerando a sua proximidade constante, sempre vestidas de igual, recebendo presentes iguais e ambas praticando equitação, com uma apetência cultivada pela mãe. Aliás, Anne também possui uma irmã, que neste contexto pode ser comparada à rainha má do mesmo conto e com quem não possui uma relação amistosa, decorrente das várias diferenças de sucesso alcançado profissionalmente por cada uma.
Os povos nórdicos têm esta tendência de submeter às suas tradições o seu modelo de vida atual, como forma de validação das suas premissas.
Anne, de rosto calmo com rugas de expressão, habita um palácio de cristal (a casa está repleta de amplas superfícies vidradas) num ambiente paradisíaco, de natureza, silencio e comodidade onde se sente demasiadamente só. O seu casamento já terá atingido a fase do apaziguamento da paixão embora ela incentive o seu marido a outros voos que são delicadamente suspensos pelas ocupações diárias e pelo cansaço. Eles reúnem frequentemente amigos em casa para passar a ideia de perfeição e felicidade, como é apanágio frequentemente reconhecido na sociedade dinamarquesa, quando o que realmente perdura é a monotonia e a solidão. Eles estão reféns da salvaguarda dos seus papéis sociais e absorvidos pelas aparências. Refletindo sobre si, ela desnuda-se em frente do espelho e exibe todas as suas rugas e estrias de um corpo de meia idade e sem ser uma femme fatale, longe disso, reúne espiritualmente todas as condições para amar e ser amada e da capacidade erótica de cativar o outro num amplexo amoroso.
O clique com Gustav dá se num banho na lagoa em que ambos se molham furiosamente, espargindo água num despique de inconsequente aproximação. Ela está reconhecida a Gustav pela companhia que faz às filhas e pergunta-se secretamente se lhe poderá também fazer companhia a ela e daí, como consequência do seu desejo de fuga à solidão acende-se o seu desejo sexual por Gustav, consumado numa noite de insónia em que deliberadamente o procura no seu quarto.
O filme é bastante completo na complexidade da temática que aborda e a realizadora não nos apresenta personagens unilaterais, pelo contrário, todos os personagens podem ser analisados nas suas múltiplas facetas e se as cenas entre Anne e Gustav representam a libertação das convenções e o amor, a relação entre Anne e Peter está eivada da dificuldade que ela sente na cama em se submeter ao marido assumindo uma atitude agressiva, representando a perda que o poder do homem, no conjunto do casal, se tem vindo a verificar através dos tempos devido á progressiva autonomização da mulher.
Todavia, nesta história não há culpados, há apenas seres que sofrem e se enredam na ilusão do amor total cometendo erros, e seres em formação, inconscientes do poder dos seus sentimentos que desmentem o chavão de que o envolvimento entre mulheres adultas e adolescentes jovens é mais romântico do que a relação que se estabelece entre mulheres adolescentes e homens adultos. A finalizar não quero deixar de referir a excelente banda sonora de Jon Ekstrand que prolonga e intensifica a ansiedade produzida pela história, ora frenética, ora colérica. Muito bom, completo, sem falhas.
O filme está disponível nos video clubes das televisões nacionais; MEO, NOS e Vodafone e pode ainda ser visto na plataforma eletrónica FILMIN Portugal pelo preço de €3,95, estando disponível para visionamento durante 72 horas.

Classificação: 9 numa escala de 10

NOTA: O filme está referenciado negativamente por uma cena de sexo explícito durante 4 segundos, mas na minha interpretação trata-se de uma simulação praticada com um vibrador ou com um brinquedo sexual semelhante. A história tem suficientes motivos de interesse por si mesma, para necessitar desses subterfúgios que não acrescentariam qualquer valor ao filme.