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6 de junho de 2015

Opinião - Cem Anos de Soidão - Gabriel García Márquez


Título: Cem Anos de Solidão
Autor: Gabriel García Márquez
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo."
Com estas palavras - tão célebres já como as palavras iniciais do Dom Quixote ou de À Procura do Tempo Perdido - começam estes Cem Anos de Solidão, obra-prima da literatura comtemporânea, traduzida em todas as línguas do mundo, que consagrou definitivamente Gabriel García Márquez como um dos maiores escritores do nosso tempo.
A fabulosa aventura da família Buendía-Iguarán com os seus milagres, fantasias, obsessões, tragédias, incestos, adultérios, rebeldias, descobertas e condenações são a representação ao mesmo tempo do mito e da história, da tragédia e do amor do mundo inteiro.

Opinião por Helena Bracieira:
Cem Anos de Solidão é um dos livros mais traduzidos e lidos e, por isso mesmo, o mais badalado de Gabriel García Márquez, escritor colombiano e prémio Nobel da Literatura de 1982. Percursor do chamado "realismo mágico" ou "realismo fantástico", esta obra é um marco na literatura latino-americana e serviu de inspiração para escritoras tão conhecidas como Laura Esquível ou Isabel Allende.
Nele o autor narra-nos a história da família Buendía, desde a sua origem até ao seu fim, geração após geração. Fundada pelo José Arcadio Buendía e pela sua esposa, Úrsula Iguarán, toda a acção se passa em Macondo, uma aldeia, depois vila e cidade, cuja localização exacta não nos é dita, mas que claramente deduzimos, pelo seu clima tropical e quente, ficar no interior de um dos países da América Latina: perto dos pântanos, longe do mar e da civilização.
Ao longo de cem anos, nos quais Úrsula vive acompanhando e cuidando dos seus descendentes (estima-se que tenha vivido bem mais de cem anos), observamos como os membros da família Buendía, por mais que tentem, não conseguem fugir à solidão. Ainda que alcancem momentos de intensa e extrema felicidade, a inevitabilidade do seu destino alcança-os sempre, sendo que a maioria morre em circunstâncias inusuais.
Assim, o tempo e a repetição de características nos diversos membros da família, formam como que um círculo vicioso, onde o tempo não parece ter nem princípio nem fim. A própria Úrsula, possuidora de um profundo conhecimento de todos os homens da sua família, chega a esta conclusão nos últimos instantes da sua longa, longa vida: "O tempo anda em círculos". Outra personagem que acompanha esta família é o misterioso Melquíades, um dos primeiros ciganos que chega a Macondo e que demonstra várias das maravilhas inventadas por todo o mundo, cativando desde logo o primeiro José Arcadio Buendia, curioso inventor. Ao morrer, Melquíades deixa um misterioso manuscrito escrito numa linguagem desconhecida e que as diversas gerações tentam decifrar, com a ajuda do seu próprio fantasma. Caberá ao último descendente da família decifrá-lo e revelar-nos o destino da família Buendía...
Estive a ler algumas opiniões pela internet fora e, de uma forma geral, um dos principais obstáculos com que os leitores se deparam é a dificuldade sentida em conseguirem acompanhar a torrente de acontecimentos narrados, nem sempre claros pela introdução de marcas do realismo mágico (por exemplo, um homem perseguido por borboletas amarelas, uma população inteira que se esquece de um massacre, uma mulher que se eleva até aos céus como se de uma santa se tratasse). Não surgem reflexões da parte do autor a não ser pela boca das personagens: a história é simplesmente narrada e a nós cabe-nos o papel de tirar as conclusões pelos episódios que ocorrem.
Para além disso, um fenómeno curioso é a repetição de nomes pelas sucessivas gerações: por um lado encontram-se os Aurelianos, introspectivos, acanhados, mas persistentes defensores das suas causas; por outro, os Arcadios, impulsivos, emotivos e sonhadores. Ambos marcados pela solidão. O facto de esta repetição ser uma constante e do narrador evocar personagens de gerações anteriores, facilita a existência de alguma confusão. Nada mais simples do que utilizar uma árvore genealógica para evitar este problema. Esta edição da obra tem uma no início do livro, mas existem muitas mais, basta para isso pesquisar no Google.
Até aqui tenho falado das personagens e da forma como é construída a história. Mas afinal de contas, qual é a mensagem que nos veicula Cem Anos de Solidão? García Márquez, enquanto escritor contestário das injustiças que o rodeiam, aproveita a personagem do coronel Aureliano Buendía para criticar a guerra - as suas causas e consequências -, e a política - a inconstância dos seus defensores que, além de terem ideologias ocas, alternam de lado consoante o vento mais favorável... A prepotência ditatorial surge num massacre cujos efeitos nefastos arrasam José Arcadio Segundo: o único sobrevivente de três mil e tal pessoas, enlouquece. Num dado momento invade Macondo uma companhia bananeira dirigida pelos gringos, devastando para sempre uma cidade que até então tinha tido um desenvolvimento inacreditável: o capitalismo usou e abusou de Macondo, sem consultar os que já lhe pertenciam, e deslocalizou-se, deixando atrás de si uma cidade que não mais veio a recuperar. Uma questão que também se pode colocar é a importância dos laços de sangue, da genética, na transmissão de conhecimentos - instintos - e experiências implícitos de geração para geração. A própria religião não escapa, sendo expostos através de Fernanda del Carpio os efeitos devastadores do fanatismo religioso.
Deste escritor já tinha lido Crónica de Uma Morte Anunciada, Ninguém Escreve ao Coronel e Amor em Tempos de Cólera, portanto já sabia de antemão o que esperar. Porém, nenhum destes me agarrou tanto como Cem Anos de Solidão: identifiquei-me intimamente com a sina das personagens, a solidão que as perseguia. Foi uma leitura impulsiva derivada do prazer que me provocou: não consegui largar o livro, devorei-o num par de dias, precisava de saber que destino iria ter esta família tão fora do comum. E julgo que é assim que deve ser lido, caso contrário, perdemos o fio à meada: se ficamos muito tempo longe da história, quando voltarmos a mergulhar nela, dificilmente nos conseguimos situar. Não achei nem a escrita demasiado rebuscada, nem tão pouco o rol de personagens com os mesmos nomes me confundiu, até porque estou habituada a ler clássicos da literatura - e este livro já se encontra nessa categoria, na minha humilde opinião -, que exigem uma atenção constante aos pormenores.
O final é perfeito e deixou-me sem palavras. Cada palavra deleitou-me e inspirou-me a combater a solidão, mesmo que seja essa a minha sina.
(I hope not!)

2 de junho de 2015

Opinião - A Sombra do Vento - Carlos Ruiz Zafón


Título: A Sombra do Vento
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Numa manhã de 1945 um rapaz é conduzido pelo pai a um lugar misterioso, oculto no coração da cidade velha: o Cemitério dos Livros Esquecidos. Aí, Daniel Sempere encontra um livro maldito que muda o rumo da sua vida e o arrasta para um labirinto de intrigas e segredos enterrados na alma obscura de Barcelona.
Juntando as técnicas do relato de intriga e suspense, o romance histórico e a comédia de costumes, "A Sombra do Vento" é sobretudo uma trágica história de amor cujo o eco se projecta através do tempo. Com uma grande força narrativa, o autor entrelaça tramas e enigmas ao modo de bonecas russas num inesquecível relato sobre os segredos do coração e o feitiço dos livros, numa intriga que se mantém até à última página.

Opinião por Celina Rodrigues:
É uma leitura corrida e cativante, uma história com muitas voltas e personagens emocionantes. Além de tudo o que resulta bem na obra, desde a escrita à própria história, tem dois temas que me cativam muito: é sobre livros e passa-se em Barcelona. São marcantes os momentos em que se descreve como a guerra afecta a população. E não sei se é possível imaginar que exista um cemitério de livros esquecidos... Mas seria uma visita obrigatória para quem gosta tanto de livros como eu!
A sombra do vento é o título do livro que origina toda a história, de um adolescente que o encontra no cemitério de livros esquecidos, se apaixona pelo enredo e quer descobrir mais dados sobre o autor. A partir daí segue-se um rol de informações e histórias de vida que nos enredam e prendem. E vivemos a história do protagonista que busca o autor, e do autor cujos livros tendem a desaparecer, queimados, e são cada vez mais raros. Uma obra que me faz querer ler mais sobre o autor, não o Julian Carax personagem de ficção, mas sim de Carlos Ruiz Zafon.

13 de maio de 2015

Opinião - Gritos do Passado - Camilla Lackberg


Título: Gritos do Passado
Autora: Camilla Lackberg
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Numa manhã de um Verão particularmente quente, um rapazinho brinca nas rochas em Fjällbacka - o pequeno porto turístico onde decorreu a acção de A Princesa de Gelo - quando se depara com o cadáver de uma mulher. A polícia confirma rapidamente que se tratou de um crime, mas o caso complica-se com a descoberta, no mesmo sítio de dois esqueletos. O inspector Patrick Hedström é encarregado da investigação naquele período estival em que o incidente poderia fazer fugir os turistas, mas, sem testemunhas, sem elementos determinantes, a polícia não pode fazer mais do que esperar os resultados das análises dos serviços especiais. Entretanto, Erica Falk, nas últimas semanas de gravidez, decide ajudar Patrick pesquisando informações na biblioteca local e novas revelações começam a dar forma ao quadro: os esqueletos são certamente de duas jovens desaparecidas há mais de vinte anos, Mona e Siv. Volta assim à ribalta a família Hult, cujo patriarca, Ephraim, magnetizava as multidões acompanhado dos dois filhos, os pequenos Gabriel e Johannes, dotados de poderes curativos. Depois dessa época, e de um estranho suicídio, a família dividiu-se em dois ramos que agora se odeiam.

Opinião por Filipa Monteiro:
Segundo livrinho de Camilla Lackberg e segundo livro de que gosto. Há apenas um senão para mim. A história não é muito fluida à excepção de perto do final... posso dizer que cheguei perto da página 300 (o livro tem 427 páginas) e ainda não havia grandes desenvolvimentos, o que tornou de certo modo a leitura um pouco aborrecida para mim, que gosto de histórias "non-stop" em policiais. Sempre com revelações atrás de revelações.
No entanto, quando começam as revelações, começa a leitura compulsiva e não conseguimos largar o livro até o acabarmos (aconteceu comigo), aí o enredo torna-se explosivo e vale bem a pena todo o processo até se chegar às conclusões.
Com o que posso finalizar? Posso apenas dizer que a crença religiosa é poderosa entre os seus mais fervorosos crentes...

29 de março de 2015

Opinião - O Labirinto Perdido - Kate Mosse


Título: O Labirinto Perdido
Autora: Kate Mosse
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Em Julho de 1209: em Carcassone, uma rapariga de dezassete anos recebe do pai um livro misterioso que ele afirma conter o segredo do verdadeiro Graal. Embora Alaïs não consiga perceber as palavras e os estranhos símbolos no seu interior, sabe que o seu destino é protegê-lo.
Será necessário sacrifício e fé para manter em segurança o segredo do labirinto - um segredo que remonta a milhares de anos e tem origem nos desertos do Antigo Egipto... Em Julho de 2005: Alice Tanner descobre dois esqueletos durante uma escavação arqueológica nas montanhas perto de Carcassonne. No interior da sepultura onde se encontram os ossos, ela pressente uma avassaladora sensação de malevolência e constata assustada que, por mais impossível que pareça, é capaz de compreender as misteriosas palavras antigas que estão gravadas na rocha.
Alice apercebe- se demasiado tarde que desencadeou uma assustadora sequência de acontecimentos que é incapaz de controlar e que o seu destino se encontra inexplicavelmente ligado ao dos cátaros, oitocentos anos antes.

Opinião por Viktorya Limonova:
O livro teve uma pesquisa histórica super extensa e eu achei-a fantástica porque percorre a França medieval e a atual, encaixando todos os acontecimentos do presente e do passado.
O leitor viaja para dentro da história e vive essa emocionante e mágica aventura com os personagens.
Para quem gosta de história, o livro é uma ótima forma de conhecer melhor o período medieval com uma pontada de fantasia e viver uma instigante aventura.

28 de março de 2015

Opinião - A Herança de Eszter - Sándor Márai


Título: A Herança de Eszter
Autor: Sándor Márai 
Editora: Dom Quixote 

Sinopse: 
Durante vinte anos Eszter viveu uma existência cinzenta e monótona, fechada sobre si própria, esperando a morte e sonhando com o retorno de um amor impossível. Até ao dia em que, inesperadamente, recebe um telegrama de Lajos, o único homem que amou e graças ao qual encontrou, por um breve período, sentido para a sua vida.
Grande sedutor e canalha sem escrúpulos, Lajos não só traiu Eszter como destruiu a sua família, tirando-lhe tudo o que possuía. Agora, depois de uma ausência prolongada regressa, e Eszter prepara-se para o receber comovida e perturbada por sentimentos contraditórios. 

Opinião por Sónia Cristina Melo: 
A Herança de Eszter traz-nos um relato cru mas ao mesmo tempo belo do passar do tempo e como ele leva à perda da inocência e acima de tudo ao esmorecer dos nossos sonhos e esperanças.
Eszter, a protagonista desta história, encontra-se na fase final da vida, podemos dizer que viveu o melhor que pode, ou, que simplesmente esperou pouco da vida mas a verdade que nos é revelada, à medida que tomamos conhecimento da sua história e do seu grande desgosto de amor, é ainda mais fatalista.
Eszter vive sozinha com Nana, prima, criada e sua antiga ama, com escassos recursos numa mansão degrada que foi em tempos o máximo expoente da riqueza que a sua família outrora possuiu. A sua vida é pacata e simples com todos os seus rituais monótonos do quotidiano, os seus dias parecem passar sem a menor das emoções até ao dia em que Lajos retorna. Lajos seu antigo amor, o homem que a trocou pela sua irmã mais nova e esbanjou todo o património daquela família. O homem que enganou a todos, com o seu charme fácil e as suas notáveis habilidades de actor.
Lajos retorna para roubar de Eszter a única coisa que ainda lhe resta, a casa onde viveu toda a sua vida, para todos nós e para a própria não podia haver nada mais claro. É aí que reside toda a forte carga de fatalismo desta história, onde uma mulher prestes a partir deste mundo decide-nos contar uma história sem grandes elaborações, a sua própria história. O que nos é contado não é agradável, Eszter cede às exigências de Lajos apenas pela ilusão que criou ao longo da vida de que Lajos de facto a amou e que a sua vida podia ter sido completamente diferente se Vilma, a sua irmã, não os tivesse separado. No entanto, tudo isso não passou de uma ilusão na qual Eszter decidiu acreditar fosse por solidão, desespero ou frustração.
Para mim, o simples facto de Eszter nos decidir contar o que de facto aconteceu naquela última visita de Lajos é um indicativo de que ela sabe que foi vítima de uma grade injustiça, e que pretende deste modo repor a justiça à sua maneira.
Esta é a história de Eszter mas podia de facto ser a história de qualquer outra pessoa, uma história sem grandes enredos, sem um grande número de personagens mas  com uma verosimilhança com a vida incrivelmente natural e uma qualidade literária acima da média, ou não fosse escrita por um dos maiores nomes da literatura do seu tempo: o grande Sándor Marai.
O tom depressivo, fatalista e abertamente moralista faz-nos sentir uma certa desmotivação em relação à história mas o objectivo desta obra não é entreter mas sim fazer pensar, obrigar-nos a olhar para dentro de nós próprios para a nossa vida, as nossas escolhas, os nossos medos e para tudo o resto que nos define.

27 de março de 2015

Opinião - O Dia dos Prodígios - Lídia Jorge


Título: O Dia dos Prodígios
Autora: Lídia Jorge 
Editora: Dom Quixote

Sinopse: 
O Dia dos Prodígios (1980), o primeiro romance de Lídia Jorge, foi um importante acontecimento literário, inaugurando uma nova fase, de grande qualidade, na literatura portuguesa.
Ocupando um lugar especial na ficção do pós 25 de Abril, este livro único conta-nos a história da coincidência da misteriosa morte de uma cobra numa pequena localidade com a revolução - a comunidade, incapaz de reconhecer a realidade política, adapta a chegada de soldados com cravos nos canos das armas ao seu mundo imaginário mágico-mítico. 

Opinião por André Daniel Silva: 
Este livro sem dúvida que me dividiu…No início a história não me prendeu e o estilo de escrita não é fácil de entender, o que exige uma atenção redobrada na leitura. Nunca tinha lido nenhuma obra de Lídia Jorge e confesso que numa primeira fase não foi fácil gostar do livro.
Depois, com o decorrer da leitura comecei a sentir-me mais dentro da história e consegui compreender melhor o estilo de escrita da autora. Comecei então a gostar da história, que após algum tempo de habituação acaba por ser "entranhada". Aqui cito Fernando Pessoa com a célebre frase “primeiro estranha-se, depois entranha-se” e assim foi.
Nesta obra a história gira em torno da população de Vilamaninhos, uma pequena aldeia algarvia, onde os seus habitantes expõem as suas práticas diárias, bem como os seus costumes sociais. As histórias mirabolantes são recorrentes em toda a história, pois pouco havia a fazer no dia-a-dia, a população era escassa e as casas em número muito baixo. Assim, a vida dos habitantes desta pequena povoação é o ponto principal da obra.
Como pontos fortes deste livro destaco a interessante interacção entre os habitantes de Vilamaninhos que sem dúvida expunham aquilo que Portugal era no pré-25 de Abril de 1974. A mesquinhez, a coscuvilhice e o "diz que disse" estiveram presentes ao longo de toda a obra, daí representar quase fielmente a sociedade portuguesa na década de 70, sobretudo numa aldeia pequena (algarvia) como era o caso da fictícia Vilamaninhos.
Pontos fracos elejo os diálogos em demasia (quase toda a história se centra em diálogos) e os blocos que podem gerar confusão no leitor. Confesso que em determinadas alturas nem percebia em que ponto estava tal o emaranhado de diálogos com que me deparava. A pontuação também não facilitava a leitura e aconselho a quem queira ler esta obra que se prepare para uma pontuação estranha e que pode gerar confusão.
A oralidade presente na obra contribui também para que depois de “entrarmos” mesmo na história sirva para nos sentirmos como parte do diálogo e até dá vontade de interagir com as personagens e também entrar na história. Há personagens fascinantes com as quais nos podemos identificar, uns pelo seu humor, outros pelas suas histórias e até há uma personagem particular que podemos vir a odiar (José Pássaro).
Neste livro está representada a típica aldeia onde pouco se faz e onde a principal actividade é a agricultura. Poucas casas e bastante pobreza também foram visíveis ao logo da obra. A taberna de Matilde era o local onde a aldeia se reunia para falarem uns dos outros (bem e mal) e onde tudo o que se passava na aldeia era relatado.
Várias famílias foram relatadas ao longo da obra e quase todas elas tinham histórias comuns e com as quais nos identificamos. Destaco Carminha (a protagonista da história), uma rapariga simples e sonhadora, cujo grande sonho era arranjar marido que a levasse para uma vida melhor. Assuntos, como a violência doméstica, o alcoolismo, o medo da mudança e do que é moderno percorreram toda a trama.
A obra apresenta um aspecto muito interessante que se centra no facto de as histórias fantásticas que aconteceram serem mirabolantes e poderem ser entendidas como prenúncio de uma nova Sociedade que estava para vir em que a democracia iria reinar, neste caso tendo por base a Revolução dos Cravos.
Quase no final da obra é possível verificar a chegada de soldados a Vilamaninhos o que representava a chegada da liberdade, pois o 25 de Abril já tinha acontecido.
No final, uma mensagem ecoou na minha cabeça e acredito que essa tinha sido a intenção principal de Lídia Jorge na construção desta obra, o futuro de cada um está nas suas mãos e não à mercê de quaisquer sinais ou fenómenos mais ou menos incomuns que o destino nos coloque na frente que era aquilo em que os habitantes de Vilamaninhos acreditavam.
Em suma, recomendo a obra, mas preparem-se para o estilo de escrita que não é fácil de suportar e entender. A obra é curta, cerca de 220 páginas, portanto podemos ler rapidamente. Se pudesse atribuir uma classificação de 0 a 5, atribuiria 4.

22 de fevereiro de 2015

Novidade Dom Quixote

Edição/reimpressão: 2015
Páginas: 392
Editor: Dom Quixote
ISBN: 9789722056342
PVP: 18,90€
Disponível a partir de 10-02-2015

Sinopse
O inspector Harry Hole, da Brigada Anticrime de Oslo, é enviado numa missão a Sydney, na Austrália, para investigar um homicídio. Deve colaborar com as autoridades locais, mas tem instruções para se manter longe de sarilhos. A vítima é uma norueguesa de vinte e três anos, em tempos uma celebridade televisiva na Noruega.
Harry não consegue ser um simples espectador e, à medida que se envolve na investigação, trava amizade com um dos detetives responsáveis pelo caso. Juntos percebem que estão a lidar com o último de vários homicídios por resolver, e o padrão diz-lhes que estão na presença de um psicopata que atua ao longo do país. Quando estão prestes a descobrir a identidade do assassino, Harry começa a temer que ninguém esteja a salvo, principalmente as pessoas envolvidas na investigação… e os seus receios transformam-se no seu mais profundo pesadelo!

JO NESBØ tem um nome que termina com uma letra que nem sequer existe no nosso alfabeto. Pronuncia-se como o Ö alemão - ou, como explica o autor, «tal e qual como Peter Sellers diz "bomb" no filme da Pantera Cor-de-Rosa». Jo Nesbø nasceu em 1960. Só começou a escrever aos 37 anos. Leu - os favoritos são Hemingway e Nabokov -, jogou futebol com ambições profissionais (mas os ligamentos dos joelhos não o acompanharam), foi guitarrista num grupo rock . Tornou-se um autor em ascensão há dez anos; as suas histórias com Harry Hole são multipremiadas, e é a grande vedeta dos autores escandinavos, um dos mais talentosos e bem sucedidos escritores europeus. Em suma: altamente recomendado.

2 de julho de 2014

Opinião - Cão como nós


Título: Cão como nós
Autor: Manuel Alegre
Editora: Dom Quixote

Sinopse: 
"Cão Como Nós é um livro de recordações que o escritor Manuel Alegre decide escrever em honra do seu animal de estimação.
No livro ele conta bons e maus momentos que passou com o Kurika, o seu cão, e conta como sente falta dele.
É um livro que conta que se pode ter um amor incondicional por um animal de estimação e demonstra que mesmo depois de este partir pode-se continuar a amá-lo.


Opinião por Joana Martins:
É um bom livro!
Foi especialmente um livro que me deixou débil porque quando o escritor fala sobre o seu cão e os momentos que teve com ele, eu lembro-me dos momentos que tive com o meu cão. É na verdade um livro na qual eu me identifico porque o que Manuel Alegre passou também eu já passei e certamente metade do mundo também.
É um otimo livro de rápida leitura e de fácil compreensão.
Aconselho!

Frase Favorita: 
"Um grande chato, sim, um cão rebelde, caprichoso, desobediente, mas era um de nós, o nosso cão que não queria ser cão e era cão como nós"

30 de abril de 2014

Opinião - O Fiel Jardineiro

Título: O Fiel Jardineiro
Autor: John le Carré
Editora: Dom Quixote

Opinião por Helena Isabel Bracieira:
Este é um romance sobre os limites do homem na luta pelos ideais, na ambição e, sobretudo, no amor.

Entre outros assuntos, destaco também:

* O capitalismo sem escrúpulos e as conspirações globais: onde acaba a paranóia e começa a verdade?;
* O encobrimento governamental de realidades totalmente degradantes, partindo da conivência à participação activa nos crimes;
* Pobreza do Terceiro Mundo versus a riqueza das potências ocidentais;
* A importância das agências não governamentais para a sobrevivências de populações imensas.

A história inicia-se com a notícia do assassinato de Tessa, activista britânica, cujas causas e pormenores escabrosos o ministério (o Foreign Office) de que faz parte o seu marido, Justin Quayle, tenta a todo o custo esconder. O princípio pode ser pouco estimulante, dado que, em vez da perspectiva do marido, provavelmente a pessoa mais próxima de Tessa, temos a de Woodrow: um homem ambicioso que não passa, porém, de uma criança amedrontada e caprichosa e que diz amar Tessa. Possuidor de uma mente sem escrúpulos, faz tudo para subir na vida nem que tenha de prejudicar quem o rodeia, correndo atrás de uma reputação e prestígio social invejável.

Justin, é um britânico calmo, polido, amante da jardinagem, aristocrata de berço e diplomata por excelência, funcionário menor do Foreign Office no Quénia, que passa a ser, de mulherengo e solteirão, o marido perfeito.

Após a morte da companheira, passa de uma primeira fase de negação e apatia, a um estado de força e tenacidade incríveis. Abdica da sua vida, calma e inconsequente, para partir numa incansável busca pela verdade. Por ser um diplomata, abstraiu-se voluntariamente das actividades pouco ortodoxas de Tessa, e, assim, procura reviver, através de todos os documentos e testemunhos que ela reuniu, os seus projectos em África e, também, toda a sua relação com ela. De tal forma o fez que adopta a sua causa: a luta contra as poderosas multinacionais, em especial a Três Abelhas, liderada por um magnata inglês. Sendo que esta é responsável por testes abusivos de um novo fármaco contra a tuberculose no seio da população queniana.

Cria uma espécie de comunicação post mortem: fala com Tessa como se ela ainda estivesse viva, a seu lado, dando-lhe as respostas e a coragem de que necessita e amando-a mais do que nunca. Vemo-lo de tal forma empenhado que chegamos a recear pela sua sanidade. Nem mesmo após ser alvo de um violento ataque, Justin desiste dos seus intentos, passando a levar uma vida de fugitivo por se ter tornado persona non grata aos olhos dos seus superiores. O seu amor continua tão ou ainda mais vivo, de tal forma que tudo faz para recuperar o tempo perdido e conhecer, num esforço derradeiro, a sua mulher.

O carácter impetuoso e enérgico de Tessa, tão diferente do seu, a sua beleza e a diferença de idade, não o impede de se casar com ela e de a levar para África. Ela foi como uma onda que o arrebatou quando menos esperava.

E é justamente através de Justin que vamos, verdadeiramente, descortinando o mistério que é Tessa: de uma beleza «selvagem», encarna plenamente o espírito africano, movendo-se em África como se dela fizesse parte. Sedutora e provocante, sente o fardo que a sua beleza lhe traz e tenta fugir dele, destacando-se intelectualmente. É idealista, tenaz, impetuosa, apaixonada. Após perder os pais, encontra em Justin o seu porto seguro, pois sente que ele sempre a protegerá. De um espírito crítico implacável, perseverante, teimosa até, não se amedronta nem com o poder das grandes multinacionais contras as quais luta. Aparentemente fragilizada, recebeu um incentivo extra com a sua gravidez, sentindo-se responsável por dar a vida ao seu filho num mundo melhor.

Relativamente a África, é, sem dúvida, marcante: Wanda, uma africana, grávida, usada como cobaia na experimentação do novo fármaco, que se torna, juntamente com o filho que dá à luz e com o seu irmão Kioko, um símbolo para Tessa da despiedada exploração de seres humanos, feita pelos mais influentes - não passam de números manipuláveis que os ajudarão a obter o lucro tão ansiado; a exploração a que a elite branca submete os verdadeiros descendentes de África, que nem por essa condição gozam dos seus benefícios, acumulando-se em periferias - bairros de lata ainda mais degradantes do que os brasileiros. Contudo, existem também uma elite negra que explora os seus, apoiada implicitamente pelos interesses brancos, que defende. Por último, os refugiados, tanto os que vemos nos campos, como em casa de Tessa, são o espelho de uma África dividida, assolada pela guerra, pela fome e pela doença.