10 de março de 2022

Opinião – “Petit Maman – Mamã Pequenina” de Céline Sciamma

 

Sinopse

Nelly, 8 anos, acabou de perder a avó e está a ajudar os pais a esvaziar a casa de infância da mãe. Explora a casa e a floresta à volta, onde a mãe, Marion, costumava brincar e onde construiu uma cabana. Um dia, a mãe parte sem explicações. E Nelly conhece uma menina, mais ou menos da sua idade, na floresta. Está a construir uma cabana e chama-se Marion.

Opinião por Artur Neves

Céline Sciamma é uma realizadora de origem francesa que à sua responsabilidade apresenta até esta data 5 longas metragens, (além de 2 curtas e outras obras de escrita) das quais, a anterior a esta; “Retrato de uma Rapariga em Chamas” de 2019 já foi apreciado nestas crónicas e por mim mereceu rasgados elogios pelo seu conteúdo e pela forma arrojada, sensível e naquele contexto autenticamente delicada, defendeu o amor entre duas mulheres que se conheceram acidentalmente através de um contrato de pintura do retrato da dona da casa.

Agora traz-nos esta história para crianças sobre uma menina que acompanhou à sua maneira a morte da sua avó e viaja com os pais para a casa dela situado no campo, que eles se propõem esvaziar. A menina; Nelly (Joséphine Sanz) circula por ali, (em vez de estar na escola, pois com 8 anos e no inverno seria o que me parece normal) pelas cercanias da casa e do bosque e dá de caras com outra menina Marion (Gabrielle Sanz) na difícil tarefa de construir uma casa de ramos junto a uma árvore. As duas tornam-se amigas (o que não é estranho porque ambas são irmãs gémeas na vida real) e ao visitar a casa de Marion observa que a casa dela é um espelho da sua.

Sem perguntar a que se deveriam as semelhanças entre as casas ela assume, através do que apreendeu das conversas entre os pais sobre a infância da mãe quando ela não existia e a avó era viva, que de alguma maneira Marion seria a mãe dela num tempo passado e logo ela seria a sua filha no futuro. Para lá das ternuras e afinidades entre as meninas eu pergunto se seria lógico este pensamento numa menina de 8 anos. Pergunto ainda para que crianças é que esta fábula se destina, pois se os adultos podem aceitá-la com um sorriso, introduzindo uma fantasia que a história não nos transmite, as crianças não sei como alcançarão este sentido. Todo o filme se passa no mesmo local, nos dias atuais e se embora introduzir-mos a fantasia dos “fantasmas vivos” ou outra apreciação criativa, a história poderia ter acontecido um pouco antes, o que não altera o fundamental.

Por outro lado, os personagens infantis, são ambos de uma correção absoluta, sem traumas, sem problemas que perturbem o seu comportamento ordeiro, seguindo uma narrativa que pode levar-nos a considerar que tudo se passa no espírito de Nelly, mas nada na história nos leva objetivamente a pensar isso, quando as suas falas e os seus raciocínios são avançados para a idade e não vemos quando ela frequentou ou se frequenta a escola. Assumo que seja defeito meu não compreender a sensibilidade da infância como Sciamma nos apresenta, pois no aspeto cénico a tomada de vistas é irrepreensível, elas são as personagens principais, sempre vistas de frente, ao nível dos olhos, para nos impressionar com a sua candura e humor natural dos seus verdes anos.

Talvez por serem irmãs gémeas a representação entre elas flua tão bem, sem qualquer sobressalto visível, num enquadramento perfeito em que tudo para além das meninas é deixado deliberadamente vago. As interpretações dos pais adultos são pontuais, aparecendo aqui e ali para que não pensemos que ficaram sozinhas, todavia as suas interações com elas são, breves, avulsas e mais uma vez distantes da sua manifesta sensibilidade. Esta história terá com certeza os seus apreciadores sobre a delicadeza da infância e a amizade que daí resulta, entre os quais não me incluo. Durante os seus 72 minutos de duração pareceu-me que falta assunto, ou pelo menos pistas para nos enquadrar na trama do argumento.

Tem estreia prevista em sala dia 17 de Março

Classificação: 4 numa escala de 10

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