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27 de fevereiro de 2020

Opinião – “Para Sama” de Waad Al-Kateab e Edward


Sinopse

Para Sama é simultaneamente uma viagem íntima e épica pela experiência feminina da guerra. Uma carta de amor de uma jovem mãe para a sua filha, o filme conta a história de vida de Waad al-Kateab durante cinco anos de revolta em Alepo, na Síria, ao mesmo tempo que se apaixona, se casa e tem a filha Sama, tudo enquanto o conflito devastador cresce à sua volta. A sua câmara captura histórias incríveis de perda, alegria e sobrevivência enquanto Waad luta com uma escolha impossível – fugir ou não da cidade para proteger a vida da filha, quando sair significa abandonar a luta pela liberdade, pela qual já sacrificou tanto.

Opinião por Artur Neves

A revolução Síria é um conflito interno que opôs a generalidade da população contra o presidente Bashar al-Assad que se arroga ao direito divino de suceder ao seu pai, Hafez al-Assad que ocupou o poder durante 30 anos, e governa o país com mão de ferro á 10 anos. A inicial luta de poder alargou-se para domínios de natureza sectária e religiosa incendiando a rivalidade entre Xiita e Sunitas. Os protestos populares começaram em Janeiro de 2011 pelo que esta guerra civil já conta mais de 9 anos de duração.
Este documentário reporta a destruição de Alepo, segunda cidade do país a seguir a Damasco, capital da nação Síria, através de mais de 500 horas de filmagens dos bombardeamentos e combates na cidade efectuados pelo exército regular sírio, apoiado pela Rússia que apoia Bashar al-Assad na sua sangrenta luta pelo poder, sem respeitar a população civil a quem acusa de terroristas.
As filmagens foram feitas por Waad al-Kateab, jornalista autodidacta que mantinha ligação com a distribuição de notícias na televisão independente da Grã-Bretanha. As filmagens foram inicialmente feitas com smartphone e posteriormente com uma Handycam Sony como pode ver-se no filme. Waad é casada com Hamza, médico no único hospital em funcionamento em Alepo e activista político numa facção resistente ao governo central.
O casal e a filha Sama já abandonaram Alepo, pouco antes da tomada da cidade pelas forças do exército regular, tendo levado consigo para o exterior os discos com todo o material filmado, vivendo actualmente em Londres onde preparou o presente documentário com a ajuda do Channel 4, moldando-o neste filme, que documenta a destruição sistemática da cidade.
O filme é narrado pela autora num tom pausado e dramático sobre as imagens e os sons da guerra e destruição a que assistiram ou que filmaram, deixando a câmara em funcionamento e ausentando-se por segurança dos locais. O filme inclui os acontecimentos até 5 anos antes da destruição de Alepo que nos são apresentados como flashbacks que contrapõem a situação actual onde se desenrola a maior parte do documentário.
Em todo o filme Waad reporta os casos individuais da morte de pessoas que chegam ao hospital com as mais variadas feridas de guerra e das condições de assistência que lhe são prestadas, por pessoal dedicado, mas sem meios suficientes para as salvar. É a parte mais dura do filme em que vemos crianças estropiadas, com feridas na cabeça, ou mesmo já mortas e que os familiares que as transportaram não identificaram.
A filha, Sama surge aqui como a depositária da esperança que os anima e o objectivo de vida futura pelo qual eles lutam e morrem todos os dias em Alepo. Sama, além de filha deles é filha do hospital, por corporizar a razão de toda a dedicação ao próximo e também a expiação pelo facto de a terem trazido para um mundo em desagregação.
Este filme foi nomeado na classe de documentário para os prémios BAFTA e embora não o tendo ganho constitui um testemunho ocular de um regime que continua em guerra com o seu povo, que mesmo sendo sujeito a um banho de sangue conserva as sementes da esperança.

Classificação: 5 numa escala de 10

13 de janeiro de 2020

Opinião – “J’Accuse – O Oficial e o Espião” de Roman Polanski


Sinopse

No dia 5 de Janeiro de 1895, o Capitão Alfred Dreyfus, um jovem soldado judeu, é acusado de espionagem para a Alemanha e condenado a prisão perpétua na ilha do Diabo. Entre as testemunhas está Georges Picquart, promovido para gerir a unidade militar de contra-espionagem. Mas quando Picquart descobre que informações secretas continuam a ser fornecidas aos alemães, é arrastado para um labirinto perigoso de fraude e corrupção que ameaça não só a sua honra, mas também a sua vida.

Opinião por Artur Neves

Este filme é cinema ao seu melhor nível como meio de contar uma história real que no final do século XIX, mais exatamente 1895 como refere a sinopse, desestabilizou o poder político em França e pôs em causa as chefias militares de primeiro nível, todas envolvidas num caso de espionagem internacional em que foi injustamente acusado um oficial judeu, o Capitão Alfred Dreyfus, (Louis Garrel) para ocultação da incompetência e do compadrio castrense que grassava nas forças armadas e na sociedade antissemita da época.
Goste-se ou não de Polanski é da mais elementar justiça reconhecer que ele continua sendo um mestre no seu ofício pela forma distinta como constrói a apresentação desta história. O cenário é irrepreensível, o guarda roupa, a direção de atores extraordinariamente cuidada e meticulosa, preenchida com todos os detalhes comportamentais da hierarquia militar da época que transmitem ao espectador uma completa imersão relativamente aos que nos é contado.
Baseado numa novela de Robert Harris que também colaborou no argumento e conta-nos a história deste “erro” judicial começando pela cerimónia de remoção das insígnias do exército a Dreyfus, no meio de uma manifestação antissemita em que ele grita para a multidão e para todos os presentes a sua inocência, acusando a França de o excluir por ser judeu e não por terem provas irrefutáveis contra ele. Georges Picquart (Jean Dujardin) está nesta altura do lado dos acusadores, foi professor de Dreyfus, mas nega que seja por diferenças de religião a sua acusação. Este caso porem, conduz Picquart à chefia do departamento de investigação militar e à sua promoção a coronel.
É nessa qualidade que ele se confronta com a dúvida da culpabilidade de Dreyfus, sendo também a partir daqui que o filme se desenvolve no interior de ambientes poeirentos e escuros, mostrando alguns episódios da propalada “inteligência militar” em interiores claustrofóbicos onde trabalham os agentes da violação de correspondência, ou da reconstituição de documentos rasgados fornecidos por informadores a soldo, intrigas palacianas que mostram o sentido de autenticidade de Polanski na caracterização dos círculos de incompetência de que ele se vai apercebendo. Na realidade Georges Picquart é um produto do sistema, educado e formado no meio e também eivado do mesmo antissemitismo, todavia a confrontação honesta com indícios da cabala que foi montada contra Dreyfus, levam-no numa jornada de autoconsciência dolorosa, em que os seus princípios não permitem o encobrimento dos erros do sistema, com os inerentes custos para todos e principalmente para ele e para a sua amante, Pauline Monnier (Emmanuelle Seigner) que se vê também envolvida.
Por outro lado, Polanski serve-se desta história para estabelecer um paralelo entre a sua condenação por abuso sexual de uma menor em 1977, em que ele se declarou culpado, foi preso e libertado sob caução, mas na iminência de nova detenção, tomou um avião para a Europa, encontrando-se desde então na situação de foragido da justiça norte americana, a que ele atribui uma componente de antissemitismo, tal como no caso de Alfred Dreyfus e assim esbata as diferenças entre o antissemitismo pessoas e institucional.
Ele faz isso muito bem lidando simultaneamente com uma narrativa de suspense executada por atores de elevada qualidade interpretativa que evoluem numa fotografia sóbria, por vezes em cores sépia que adensam a ação. Para lá de tudo isso, sente-se a “mão” de Polanski como a de um pintor conhecido num quadro seu, não só na construção da imagem, como na sua exposição no melhor ângulo em que ela pode ser vista, e ainda, considerando que se trata de uma mentira, de um embuste montado para prejudicar um determinado homem, contém algo de muito urgente a dizer sobre o mundo em que vivemos. Recomendo vivamente.

Classificação: 8 numa escala de 10

5 de dezembro de 2019

Opinião – “Frankie” de Ira Sachs


Sinopse

Frankie, uma famosa actriz francesa, descobre que só tem alguns meses de vida.
Para as suas últimas férias, reúne toda a gente em Sintra, Portugal.

Opinião por Artur Neves

Frankie, a atriz francesa Françoise Crémont, (Isabelle Huppert) recebe a notícia do seu médico de recidiva do tumor canceroso combatido dois anos antes e que agora lhe concede poucos meses de vida.
Para pôr as “contas em dia” com todos os que lhe são mais próximos; o marido atual Jimmy (Brendan Gleeson), de quem tem um filho Paul (Jérémie Renier) de temperamento instável, o primeiro marido Michel (Pascal Greggory) com quem tem uma filha Sylvia (Vinette Robinson) que está em processo de divórcio do seu marido Ian (Ariyon Bakare) que ainda a ama e resiste à separação, bem como o seu círculo restrito de amigos donde se destaca; Ilene (Marisa Tomei) amiga de longa data, confidente, e suporte emocional nos momentos mais difíceis da sua doença, convida-os para umas férias em Sintra – Portugal, onde ela pretende fazer a sua despedida da vida social e mostrar como todos os seus parentes mais queridos podem aprender a viver juntos… sem a sua presença.
Possui ainda um plano secreto de aproximar a sua amiga de sempre, do seu filho Paul mas que se revela impraticável, considerando que Ilene, atriz em Nova Iorque, governa bem a sua vida, tem ideias bem definidas sobre si própria e do que quer no campo sentimental. Resiste à declaração amorosa de seu colega de filmagens Gary (Greg Kinnear) e não aceita a sugestão de Frankie de “escolher antes de procurar”, como esta lhe recomenda, no papel de mãe que pretende deixar o filho acompanhado.
É assim neste ambiente constrangido pela gravidade do anúncio de Frankie que se desenvolvem aquelas “férias”, onde a terceira geração da família encontra uma experiencia de mudança de vida numa ida à Praia das Maçãs com Bento (Máximo Francisco) como escape para as frequentes desavenças com Sylvia, sua mãe.
Este problema com tantas variáveis não tem solução fácil e Ira Sachs, realizador americano que dirige este projeto, procurou dar-nos a conhecer todos os personagens com suficiente profundidade para que possamos ajuizar a complexidade subterrânea destas relações onde todos e cada um à sua maneira, sofrem de uma acédia temporal que lhes provoca apatia e torpor durante toda a narrativa. Sofrem isolados e Ira Sachs sabe “mistura-los”, sem contudo conseguir amenizar o seu desconforto. Sofrem por Frankie e por eles próprios, por não conseguirem concretizar os seus anseios. Todos querem o que não alcançam!...
O filme está bem articulado, não obstante as incongruências inerentes a cada um dos personagens, o drama está apresentado de modo credível e os 100 minutos de duração passam agradavelmente por entre a paisagem rural de Sintra.

Classificação: 6 numa escala de 10

PS: Este filme é uma produção Franco – Portuguesa, coproduzida na parte nacional pela produtora “O Som e a Fúria” e pelo ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual IP) em que os atores principais são estrangeiros, incluindo o realizador e os atores secundários são todos nacionais, onde se destaca Carloto Cotta, o jovem ator já anteriormente referido e muitos outros que compõem o ambiente rural de Sintra, filmado na Quinta da Regaleira e na Peninha, como se de um postal turístico se tratasse. 
Toda a equipa técnica é igualmente portuguesa, não somente na captação de imagem mas também nos outros aspetos acessórios inerentes à filmagens, bem como na edição, o que significa que nós somos capazes e que o cinema português apresenta um potencial de qualidade que tem estado invisível em muitas das recentes realizações.
Na minha opinião falhamos nos argumentos, demasiado novelescos e com dramas de “cordel”, bem como na representação de primeiro nível em que nos deixamos arrastar pela lamechice, suportada por uma representação teatral de que ainda não nos livrámos. Somos uns tristes!...

4 de dezembro de 2019

Opinião – “Apocalypse Now – Final Cut” de Francis Ford Coppola


Sinopse

Apocalypse Now – Final Cut é a terceira e derradeira versão de um dos grandes marcos da história do cinema, e que este ano comemora 40 anos sobre a sua estreia no Festival de Cannes, onde venceu a Palma de Ouro. Francis Ford Coppola considera naturalmente esta versão como a melhor e a definitiva para o seu filme, cujo restauro em 4K acompanhou de perto, nomeadamente ao nível do som.
A partir de Coração das Trevas, de Joseph Conrad. Durante a Guerra do Vietname, um jovem capitão americano recebe como missão procurar e assassinar um coronel americano desertor que se escondeu na selva e passou a comandar guerrilheiros no Camboja, onde é adorado como um semi-deus.

Opinião por Artur Neves

Esta é a atual versão (se é a derradeira não sabemos!...) do mais emblemático filme que foi produzido sobre a guerra do Vietname, não por ser um filme de guerra no sentido clássico do termo, mas antes, um filme que evidencia o horror da guerra, a maldade gratuita, a loucura que induz a alienação dos atos de guerra, não em função de uma estratégia, mas sim de acordo com os medos, as obsessões e os interesses pessoais dos seus intervenientes, também eles sem força, nem razão, para resistirem emocionalmente aos efeitos de um meio e de um ambiente, que lhes são desconhecidos e hostis.
“Apocalypse Now” teve a sua primeira apresentação em 1974 com uma duração de 147 minutos, á qual se seguiu uma sequela em 2001 com o nome “Apocalipse Now – Redux” com 197 minutos em que foi acrescentado o encontro do Captain Benjamin L. Willard (Martin Sheen) com uma família de colonos franceses resistentes ao ambiente de guerra que corporiza o único momento de amor da história, bem como, logo na primeira cena, com maior duração para se poder ouvir na íntegra a música dos The Doors: “The End” e evidencia-se a dependência efetiva do álcool que Martin Sheen sofria na altura das filmagens. Esta versão atual com a duração de 183 minutos, estreada em 2019, “encolhe” o encontro com os colonos e remove as evidências de alcoolismo de Martin Sheen. Em tudo o mais o filme é absolutamente fiel ao argumento original. Todavia, considerando que as versões apresentadas em VHS, DVD ou Laserdisc, ao longo do tempo, sempre foram objeto de pequenas alterações nunca pode saber-se se este fnal cut será mesmo final, como é normal entender-se.
Todo o filme é um portento de desumanidade. A história desenvolve-se ao longo da viagem de Willard na subida do rio Nung num barco patrulha, com a missão de eliminar o coronel Walter E. Kurtz (Marlon Brando) que desertou do exército dos USA e atravessou a fronteira do Cambodja com um punhado de militares que o seguem cegamente e endeusaram a sua liderança, para realizar missões de ataque e fuga contra os Viet Cong. As autoridades americanas estão convencidas que o coronel Kurtz enlouqueceu e por esse motivo querem eliminá-lo.
Á medida que o barco patrulha se desloca, a loucura aumenta por todo o lado. Começa na devastação sanguinária com bombas de napalm ao som da partitura clássica “A Cavalgada das Valquírias” de Wagner, que o Tenente-Coronel Bill Kilgore (Robert Duvall) leva a cabo numa praia, apenas para fazer surf com um dos elementos incluídos na missão de Willard. Segue-se o medo inerente, na viagem que estão a empreender num território que serve de abrigo aos Viet cong e donde sofrem ataques constantes. É a chegada a um aquartelamento de tropas americanas, numa altura de recreio, com um espetáculo de variedades totalmente insano e despropositado para o lugar, que termina abruptamente no meio de um ataque. É o assassínio aleatório de um barco de pescadores suspeitos de apoiarem os Viet Cong por uma tripulação esgotada, demente e alienada pelas drogas que consome. A cena do encontro com os colonos franceses decorre tensa, embora socialmente correta é contaminada pelo elevado consumo de droga que distorce as relações e a visão dos acontecimentos. No final, o encontro com o coronel Kurtz corporiza a loucura da guerra pelos motivos que a justificam, o ambiente em que todos vivem, a escuridão e a morte que os circunda em todos os locais do acampamento.
Embora com o mesmo argumento, a remasterização em UHD 4K refina todos os contornos da imagem, enfatiza as cores da selva e valoriza este filme de culto que ocupa um lugar de destaque na curta lista das minhas preferências. Sem dúvida a ver… ou a rever!...

Classificação: 9 numa escala de 10


7 de novembro de 2019

Opinião – “As Filhas do Sol” de Eva Husson


Sinopse

Algures no Curdistão, Bahar, uma jovem advogada, visita a família. Num ataque violento dos extremistas, o marido é assassinato e ela é feita prisioneira, juntamente com o filho e milhares de crianças e mulheres. Uns meses depois de conseguir fugir, Bahar torna-se na líder das “Filhas do Sol”, um batalhão de mulheres que tem como objetivo recuperar a cidade onde foi capturada e salvar o filho. Ao seu lado, Mathilde, uma repórter de guerra veterana, segue o dia-a-dia do batalhão durante os 3 dias do ataque. Nesta situação inimaginável, nasce um laço universal de irmandade, a união das “Filhas do Sol”.

Opinião por Artur Neves

Este filme estreou-se no festival de Cannes de 2018 e aparece em Portugal pela mão da distribuidora Midas Filmes, integrado no seu ciclo “Mulheres, Vida, Liberdade” sublinhando que o seu exemplo de coragem mostrado em vários conflitos internacionais, nos mais diferentes contextos, deve ser para sempre lembrado. Neste caso, trata-se de um grupo de guerrilheiras Curdas numa ação de combate ao Daesh, depois de fugirem do cativeiro a que foram sujeitas, após os acontecimentos relatados na sinopse.
Eva Husson é uma realizadora francesa, nascida em 1977, em Le Havre, fortemente influenciada pela participação do avô na Guerra Civil Espanhola, de cujo conhecimento de muitas histórias de coragem feminina contadas por ele, a inspiraram na construção desta história que tem fundamento real no massacre de Sinjar em 2014, no qual o autodenominado Estado Islâmico praticou uma tentativa de genocídio contra o povo Yazidi, tendo raptado mulheres e crianças que foram vendidas como escravas sexuais.
Todavia, este “filme de guerra” é diferente de todos os outros do mesmo género, empenhados em mostrar a glória, a masculinidade e o arrojo de valorosos combatentes por uma causa frequentemente coincidente com o ponto de vista americano, nos conflitos em que anda envolvida a pátria do Tio Sam. Aqui é diferente, pois mostra-se uma aventura de tenacidade e sofrimento no sentido da obtenção da libertação e da sobrevivência de mulheres que foram usadas e abusadas em nome de uma religião que não as respeita.
O filme revela-se escorreito e competente usando uma narrativa de flashbacks para nos informar das razões que levaram aquelas mulheres a insurgir-se e a organizar-se num grupo de resistência ao fanatismo do Daesh. No entanto pouco conhecemos da história e da personalidade das guerreiras, para além da protagonista Bahar (Golshifteh Farahani) e da correspondente de guerra enviada para cobrir a resistência Mathilde (Emmanuelle Bercot) diretamente inspirada em Marie Colvin (até lhe foi colocada uma pala no olho esquerdo) uma repórter de guerra que morreu no desempenho da sua missão, cuja história já foi tratada em cinema, no filme “Uma Guerra Pessoal” de 2018, já comentado neste blogue.
Embora sendo guerreiras e passem à ação armada a história pretende enfatizar sobretudo o seu papel de mães e focar como principal motivo para o combate a vingança dos filhos mortos, a defesa dos filhos ainda no ventre, como é o caso de uma combatente que dá à luz durante uma fuga, ou a recuperação dos seus filhos desaparecidos, como é o caso de Bahar que pretende chegar à escola onde presume que o seu filho esteja sendo formado como combatente do E.I. que ela abomina e combate.
Não existe qualquer informação específica sobre o conflito Curdo, nem quais as diferenças religiosas ou políticas entre os seus ideais e a religião defendida pelo Daesh, nem sobre as origens sociais e políticas que norteiam esta guerra, nada disto é sequer referido o que torna a narrativa novelesca e as personagens remetidas à sua condição de mulher mãe e sofredora, tornando imediata a identificação com todo o público feminino que assista ao filme.
Neste ponto considero que seja uma menorização do seu papel de contribuição para a justiça subjacente que procuram naquele combate sem tréguas. Não há qualquer destaque para os seus papéis de combatente, de estratégia guerreira ou de captação de momentos pela correspondente de guerra. Só amor e preocupação em abstrato com os filhos. É pouco para quem mostra tanta disponibilidade em dar a vida por um bem maior. Todavia, o bom desempenho na credibilidade dos personagens e a filmagem em ambiente natural, justificam a classificação atribuída.

Classificação: 6 numa escala de 10

23 de outubro de 2019

Opinião – “Vitalina Varela” de Pedro Costa


Sinopse

Vitalina Varela, 55 anos, cabo-verdiana, chega a Portugal três dias depois do funeral do marido. Há mais de 25 anos que Vitalina esperava o seu bilhete de avião.

Opinião por Artur Neves

A autenticidade desta história valeu-lhe a distinção conferida pelo Leopardo de Ouro do Festival de Cinema de Locarno (Suíça) 2019 que também premiou com o Boccalino d’Oro a atriz principal, Vitalina Varela tendo assim sido distinguida com o prémio de melhor atriz do festival.
Vitalina Varela é assim a protagonista que responde por ela própria num argumento escrito em coautoria com o realizador Pedro Costa, que ela desempenha com autoridade, competência e uma demonstração de força humana assinalável considerando que se trata de “defesa em causa própria”. Tendo sido abandonada pelo marido quando este emigrou para Lisboa á procura de melhorar a vida, foi ela que aguentou tantos anos a casa da família que construiu com ele em Figueira das Naus na pobre ilha de Santiago, onde trabalhava a terra em busca do seu sustento. Quando finalmente em 2013, com 55 anos, ela consegue o desejado bilhete de avião, aterra em Portugal (num aeroporto irreconhecível como sendo o de Lisboa) e se dirige ao bairro das Fontainhas, onde a história decorre, Joaquim Varela já tinha sido enterrado há 3 dias.
O resumo descrito anteriormente é-nos fornecido ao longo da narrativa (e complementado por leituras adicionais) em que Vitalina interage com outros imigrantes que se posicionam estáticos na cena, imóveis, em posições predefinidas, sentados ou em pé, que debitam os diálogos de modo pausado, no tom mais monocórdico possível sem revelar qualquer emoção, para lá do abandono e da miséria em que vivem e da autocomiseração pelo seu estado e pela morte do companheiro que partiu.
O ambiente em que a maioria dos diálogos se verifica é o interior do casebre em que Joaquim vivia, filmado com pouca luz e produzindo acentuadas sombras negras que se confundem com a pele dos personagens, ressaltando somente os olhos que os identificam como pessoas, naquele negrume sombrio, pobre e que se adivinha fétido. Esta técnica do chiaroescuro, que se define pelo contraste entre luz e sombra na representação de um objeto, foi utilizada com êxito na pintura renascentista do século XV, (Ugo da Carpi, Giovanni Baglione ou Caravaggio) mas quando transposta para o cinema durante mais de 120 minutos a enquadrar ambientes opacos e diálogos estáticos, cansam o espectador e desmotivam a sua atenção do assunto em apreço.
Os ambientes mudam com as cenas que se sucedem, mas os personagens são os mesmos e a dinâmica do filme é sempre igual; parada… muito parada… plasmada mesmo, num objeto ou numa rua, sempre escura e indefinida, impondo uma fotografia que tresanda à escola de Manoel de Oliveira. Para lá dos diálogos, o som do filme permite intuir um ambiente externo descontraído com crianças a brincar e homens e mulheres a falar e a rir, que acentua o contraste com aqueles quadros de dor, solidão e tragédia intimista que questiona o aqui e o agora daquelas vidas.
Devemos considerar também que este é um cinema que se pode considerar “artesanal”, filmado em formato 4 x 4, com baixo orçamento, em que os atores e a própria Vitalina não são profissionais, são pessoas reais que se prestaram à representação, que representaram um texto que foi filmado por Leonardo Simões, mas por mais boa vontade que tenhamos, não posso aceitar que cinema seja confundido com teatro filmado.
A salvar toda esta pasmaceira temos a protagonista, que apesar das suas expressões paradas enquanto fala, enquanto longamente olha para o vazio ou enquanto desenvolve algumas ações que carecem de alguma justificação no contexto, enfim, a autenticidade da sua presença alivia a “punição escura” que o filme nos impõe, embora que para mim, não chegue para mais do que mostra a classificação atribuída. Compreende-se a mensagem, mas não gostei da forma e o cinema Português continua a ser para mim uma arte estranha.

Classificação: 3 numa escala de 10

6 de julho de 2019

Opinião – “RAN – Os Senhores da Guerra” de Akira Kurosawa


Sinopse

Este grandioso filme de Akira Kurosawa adapta a peça Rei Lear aos temas e ambientes do Japão Medieval, com o episódio de um velho guerreiro que decide repartir as suas terras pelos três filhos, desencadeando uma luta de poder entre os irmãos, que termina de forma trágica. Da mestria de Kurosawa resulta uma extraordinária e excêntrica fusão entre um dos maiores clássicos literários do ocidente e um estudo minucioso da história do Japão do século XVI.
Para fazer da peça de Shakespeare um detalhado fresco de uma época histórica, Kurosawa não só lhe introduz diversos elementos estilísticos do teatro Nô, como se apropria do seu enredo e o radicaliza tornando-o muito mais extremo que o original, demostrando assim a verdadeira universalidade deste clássico.
Ao longo de 10 anos, Kurosawa estudou de forma minuciosa aquela época – os gestos, o vestuário, os adereços, a arquitetura – para os transpor para o filme e, antecipando o agravamento da sua perda de visão, preparou um storyboard detalhado, a partir do qual a sua equipa soube exatamente como filmar cada cena de RAN. Esta grandiosa produção, pela forma tão cuidadosa e precisa como foi pensada e realizada, resulta num inesquecível espetáculo visual, rico na sua dramaturgia e detalhes, e foi amplamente premiada, nomeadamente com o Óscar para melhor figurino e vários BAFTA.

Opinião por Artur Neves

Em boa hora o Cinema Ideal, pela mão da distribuidora Midas Filmes, vai repor em versão restaurada 4K o filme RAN de Akira Kurosawa que foi estreado em Portugal em Novembro de 1986 e nos permitiu apreciar uma obra de arte da “Terra do Sol Nascente”, que é o que literalmente significam os carateres identificadores do Japão, na língua japonesa.
Tal como a sinopse largamente descreve, RAN conta a tragédia Inglesa escrita em 1605 por William Shakespeare, em que o idoso rei da Bretanha enlouquece, depois de ter sido traído por duas das suas três filhas, após ter legado em vida, o seu reino e de se ter despojado dos seus direitos e poder, de uma maneira gratuita e insensata.
A obra foi escrita para teatro e o grande mérito de Kurosawa reside no trabalho de investigação e adaptação à cultura japonesa de um trabalho inspirado em antigas lendas britânicas, escrito para o rei Jaime I de Inglaterra, Escócia e Irlanda.
Este facto é importante porque comprova a semelhança de comportamentos, ambições e desejos comuns à espécie humana, oriundos de culturas profundamente diferentes e com diferentes códigos sociais, com diferentes formas de procurarem atingir os seus objetivos em contextos tão diferentes como o Japão imperial e a Inglaterra monárquica.
A Kurosawa coube então a arte e o engenho de caracterizar e justificar os atos relatados na peça ao contexto da época imperial, revestindo-a e valorizando-a com os detalhes de conduta nas relações sociais da época, bem como, com as sangrentas batalhas entre os irmãos desavindos, embora seguindo regras rígidas de confrontação em combate, pautadas por convenções de ética e de honra que nos espantam.
Por incompatibilidade de agenda e para grande pena minha, não assisti ao visionamento do filme restaurado e para o recordar, servi-me do meu velhinho DVD, e extrapolei mentalmente o que deve ser, em termos de espetáculo, o upgrade para o formato 4K, não só no detalhe da imagem como na coloração do vestuário. Em qualquer dos casos é um filme imperdível que recomendo com veemência.

Classificação: 8 numa escala de 10

3 de junho de 2019

Opinião – “Os Olhos de Orson Welles” de Mark Cousins


Sinopse

Ao ter acesso exclusivo a centenas de desenhos e pinturas de Orson Welles, o cineasta Mark Cousins mergulha no trabalho visual do actor e realizador mítico para revelar o retrato de um artista como nunca o tínhamos visto – através do seu próprio olhar, desenhado com a sua própria mão, pintado com os seus pincéis. Dá vida às paixões e ao poder deste showman do século XX e explora a forma como o génio de Welles continua hoje a ressoar na época de Trump, mais de 30 anos depois da sua morte.

Opinião por Artur Neves

Um biopic sobre Orson Welles não é um assunto que à primeira vista possa motivar muito interesse. É generalizadamente conhecido como realizador de Citizen Kane de 1941,pelo qual foi premiado, bem como da sua emissão radiofónica sobre a invasão da Terra por seres alienígenas que foi tomada como autêntica pelos ouvintes e lhe valeu um contrato com a RKO para a realização de três filmes com absoluta liberdade sobre os temas.
Todavia, Mark Cousins, um realizador Irlandês, nascido em 1965 em Belfast, centra-se na globalidade da obra deixada por deste diretor e faz deste documentário digressivo uma demonstração da sua admiração, respeito, conhecimento e culto sobre a personagem de um homem que talvez não seja tão conhecida como a partir de agora ficou.
Cousins estrutura o documentário em seis capítulos, em cada um dos quais aborda uma faceta da vida de Orson Welles, tal como, o desenho, a realização, os amores e tudo o que preencheu o conteúdo multifacetado da sua vida, desde as aguarelas e quadros com pinturas durante a infância e continuando pela adolescência e idade adulta, traçando o percurso do autor pela Irlanda, Marrocos, Nova Iorque e Hollywood onde foi famoso e feliz, bem como autoexilado por falta de recursos financeiros.
Cousins teve acesso ao extraordinário acervo de documentação em poder da filha mais nova de Welles, Beatrice, que o assessorou na construção do guião deste biopic, em que Cousins progride através de perguntas que faz a Welles, sabendo previamente as respostas que nos apresenta através dos seus trabalhos, das suas obras em poder da filha, bem como nos arquivos da Universidade de Michigan que incluem esboços de storyboards que Welles fez para vários dos seus filmes.
Ficamos com a ideia que para lá do grande cineasta, Welles foi um visualizador um descritor visual do mundo e da vida, tendo-a realçado através da utilização do som da forma mais criativa do que os outros realizadores seus congéneres, bem como um inovador nas tomadas de vistas segundo uma diagonal privilegiada que passou a ser escola desde então.
Mark Cousins não se detém particularmente na vertente cineasta de Welles, embora lhe refira as obras fundamentais e os pormenores de construção, deixando todavia, perpassar por todo o filme que era essa a principal forma de visualização de Welles e que havia muito mais em Welles do que o “conhecido realizador” que ao ser somente apreciado assim se tornava redutor e limitado da sua incomensurável grandeza.
È um retrato de Welles como nunca tinha sido visto antes, através dos olhos de Cousins que através da animação dos esboços e pinturas de Welles, recria os trabalhos originais numa descrição visual que nos revela o artista de uma forma agradável, diversificada e bem disposta. A ver, recomendo.

Classificação: 8 numa escala de 10

17 de maio de 2019

Opinião – “A Violação de Recy Taylor” de Nancy Buirski


Sinopse

Recy Taylor, é uma mãe de 24 anos negra, que é violada por seis homens brancos, em 1944, no Alabama. Nestas situações, poucas mulheres falavam, temendo pelas suas vidas. Mas Recy Taylor identificou os seus violadores. Rosa Parks investigou o caso e apoiou-a na sua tentativa de conseguir justiça. O filme expõe um legado de abuso físico das mulheres negras e revela o papel de Rosa Parks no caso de Recy Taylor.

Opinião por Artur Neves

Este documentário serve-se de imagens e filmes da ápoca para reconstituir um caso de violação sexual abusiva perpetrado por jovens adolescentes americanos brancos, na cidade de Abeville, Alabama, imbuídos do espírito vigente de impunidade legal e posse do corpo dos negros, que durante o período da escravatura nem de direitos sobre o seu próprio corpo desfrutavam, considerando que pertenciam por inteiro ao fazendeiro para quem trabalhavam.
O filme começa por narrar como os acontecimentos ocorreram, através de relatos do irmão e da irmã de Recy Taylor, que por serem órfãos de mãe recebiam os cuidados da sua irmã mais velha e teriam ficado em casa naquele dia, enquanto esta participou no serviço religiosa da comunidade rural onde residia.
Ninguém que teve conhecimento do caso, teve dúvidas da autoria do atentado, ou que o mesmo tivesse ocorrido da forma como foi relatado por Recy, todavia o xerife Gamble, amigo das famílias dos criminosos e parente de um deles, nada fez para sancionar o ato, muito pelo contrário recomendava, como ameaça velada, sobre o seu silenciamento aos familiares mais próximos da vítima, marido e pai desta.
A intervenção de Rosa Parks (a negra que em Dezembro de 1955 recusou ceder o seu lugar num autocarro a um branco, apenas por ser negra) no assunto foi feita através da NAACP (Associação Nacional para o Avanço de Pessoas de Cor) em virtude da inexistência de ação por parte das autoridades locais, tendo conseguido com isso um primeiro julgamento, embora sem qualquer efeito prático por ter sido constituído por pessoas influentes na cidade.
Com a persistência de Rosa Parks e o apoio de Recy, entretanto devastada pelo divórcio e pela censura social que a acusou de prostituição, foi aberta uma investigação estadual que recomeçou o inquérito com todos os intervenientes, vítima, os seis violadores, o xerife Gamble e todas as testemunhas do caso, donde resultou um segundo julgamento mas com resultado idêntico ao primeiro.
Todavia, a mensagem mais importante desta triste história é a ideia de impunidade, de conluio, de racismo e de injustiça social em função da cor da pele que todo o filme transmite com imagens da época e depoimentos atuais de familiares dos envolvidos, onde transparece uma certa consciência ainda aderente ao velho ideal esclavagista que justificou a guerra da secessão entre 1861 e 1865 que opôs os estados do norte aos estados do sul a que o Alabama pertence.
Considerando este evento, menos estranho se torna a recente aprovação no senado estadual do Alabama, por 25 votos contra 6, da legislação que institui a proibição do aborto em quase todas as situações. Estas e outras posições antiaborto nos USA de Donald Trump já forçaram a ONU a alterar a resolução de combate às violações e outros crimes sexuais em cenários de guerra. O futuro foi ontem!… é importante conhecer.

Classificação: 7 numa escala de 10

15 de janeiro de 2019

Opinião – “Debaixo do Céu” de Nicholas Oulman


Sinopse

Nicholas Oulman é de origem judaica e em Debaixo do Céu dá voz a vários sobreviventes (hoje com cerca de oitenta anos), que aquando da ascensão de Hitler e da perseguição aos judeus, lograram deixar Berlim e rumaram a Sul. Para estes refugiados, Portugal foi um porto seguro, um porto de esperança a caminho de um recomeço, enquanto circulavam notícias do horror dos campos de concentração.
Debaixo do Céu é composto inteiramente por imagens de arquivo, que ilustram os testemunhos e são imagens preciosas para compreender um período negro da História.
Com esta estreia, assinalamos os 80 anos sobre o início da II Guerra e o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto (que se celebra a 27 de Janeiro).

Opinião por Artur Neves

Para que a memória não se apague este é um documentário do horror que foi a Segunda Guerra Mundial, nomeadamente no que concerne à tentativa de extermínio do povo Judeu de forma a apagá-lo da história e do mundo. Muitos outros documentos já foram feitos com o mesmo intuito, com maiores ou menores meios de cinema, com mais ou menos violência, que de alguma forma já nos mostrou, pelo menos ao nosso coletivo como humanidade as reais intenções de Hitler como o orientador máximo desse delírio de morte.
Neste filme porém, mostra-se o pormenor, o drama individual contado pelas próprias vítimas (Eva Arond, Lolita Goldstein, Fred Manasse, Pedro Kalb, Ginette Horowitz, Sylvain Bromberger, Henny Porter) sobre como foram esses dias de horror e como o medo, que ainda hoje embarga as suas vozes ao recordá-lo e lhes provoca alteração do ritmo cardíaco ao reviver a aventura da fuga, a tenacidade da esperança e, por vezes, o acaso que os protegeu de serem denunciados.
A realização socorreu-se de fragmentos de filmes da época, fotografias, por vezes dos próprios intervenientes, que ilustra de forma magistral o tempo e a época em que tudo se passou e o que sofreram até ao dia em que, com esforço, conseguem revisitar esses tempos de horror e o medo que sentiram ao vivê-lo, induzindo no espetador uma semelhança de sentimentos pelos relatos de cada descrição a que assistimos, deixando formar-se uma identificação com a vítima e revivendo com ela as suas emoções.
Representa ainda um fabuloso trabalho de pesquisa em bibliotecas e repositórios da memória em todo o mundo com particular destaque para os Estados Unidos da América, destino preferido para estes refugiados, Paris, Madrid e Lisboa onde encontraram ainda que por um breve tempo de transição, o sol, o azul do mar e a paz necessária para preparar a grande aventura das suas vidas e que por isso nos estão muito agradecidos.
A memória é determinante para a construção do futuro e nos tempos conturbados que atravessamos em que os nacionalismos pululam pela Europa mostrando de novo a sua face intransigente para princípios e credos que julgávamos eliminados da civilização que construímos nestes setenta anos de sucesso e paz social no continente Europeu, este filme é um documento importante e de divulgação urgente.

Classificação: 8 numa escala de 10

4 de maio de 2018

Opinião – “O Meu Belo Sol Interior” de Claire Denis


Sinopse

Isabelle é uma artista parisiense, mãe divorciada, em busca do amor, o amor ideal por fim.

Opinião por Artur Neves

Isabelle (Juliette Binoche; em minha opinião, a Meryl Streep europeia no que concerne á qualidade de representação) apresenta-nos neste filme um personagem agitado, seguro dos seus objectivos de busca do amor e simultaneamente fraco e vacilante, embora por motivos diferentes, quando em presença dos desafios que ele mesmo procura e não consegue segurar por falta de enquadramento com as suas aspirações de pureza.
Esta atriz com 54 anos não receia as cenas de nu que a história implica, embora com um virtuosismo subtil, considerando que tudo o que nos é mostrado situa-se no âmbito do decoro e da decência que o cinema Francês de culto nos habituou, indiciando uma sensualidade moderada que remete para a normalidade duma intimidade privada, tornando assim essas cenas anti eróticas. Esta abordagem só acentua a candura da personagem nos momentos em que a acção se torna dolorosa pela brusquidão dos seus pares.
A realização é da responsabilidade de Claire Denis, francesa, nascida em 1946 em Paris e com provas dadas como o demonstram “Uma Mulher em África” de 2009 e “35 Shots de Rhum” de 2008, investe agora neste género intimista de exploração dos desejos íntimos de mulheres que não aceitam falhar na sua vida amorosa e se lançam na procura do amor, sem receios e falsos pudores, mas tão-somente apresentando-se despidas dos inerentes subterfúgios do seu género para captar o que lhes falta. Isabelle, porém não pertence a esse grupo e Claire Denis consegue transmitir-nos isso através dos mais inofensivos diálogos onde se esconde uma sombra de dor ou de genuína solidão que mantem o espetador igualmente inquieto durante todo o desenrolar da história motivando-lhe uma atenção de pormenor.
A história que nos é contada inspira-se vagamente na obra “Fragmentos de um discurso amoroso” de Roland Barthes e justifica a forma como Isabelle procura o amor duma forma mais analítica do que emocional, embora sofra o desajustamento do seu preferido em compreendê-la, aproxima este filme mais de uma reflexão literária sobre os meandros da escolha amorosa do que duma experiencia cinematográfica próxima da comédia romântica onde o filme pretende inserir-se.
Sem menosprezar todos os outros intervenientes o trunfo deste filme chama-se claramente Juliette Binoche que ao interpretar esta “Isabelle” confere-lhe uma autenticidade singular integrando em todos os seus comportamentos, falas e atitudes os conceitos de análise dos diferentes amores que nos são mostrados servindo para ilustrar questões abstractas de um modo muito concreto. O melhor exemplo desta afirmação é o dialogo de Isabella com uma amiga na casa-de-banho em que ela assume diferentes facetas do relacionamento actual passando do tom jocoso para um desespero choroso com a maestria de uma grande diva. A sua excelência performativa é significativamente digna de registo.
No final temos que reconhecer que não conhecemos Isabelle, como talvez nem ela se conheça a si própria, considerando as experiencias falhadas ao longo da história em que tudo o que vimos foi somente um intervalo fugaz e efémero na vida de uma mulher. Gostei e recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

6 de maio de 2016

Opinião – “Dheepan – O Refugio” de Jacques Audiard


Sinopse

Dheepan (Antonythasan Jesuthasan), Yalini (Kalieaswari Srinivasan) e a pequena Illayaal (Claudine Vinasithamby) assumem identidades falsas para fugir do Sri Lanka, seu país natal, que está em guerra. Eles não se conhecem e, diante da iniciativa, precisam conviver como se fossem uma família verdadeira ao chegar na França. Sem conhecer a língua local, Dheepan consegue emprego como zelador em um condomínio de classe baixa, enquanto que Yalini passa a trabalhar como empregada doméstica de um idoso com problemas de saúde.

Opinião por Artur Neves

Jacques Audiard é talvez nesta altura, o realizador com maior prestígio em França, considerando os seus trabalhos anteriores premiados também em Cannes, tais como “O Profeta” e “Ferrugem e Osso” onde as políticas sociais e os sentimentos humanos são abordados sem rodeios promovendo o debate sobre as situações retratadas nas respectivas histórias. Não é portanto estranho que se vire agora para o problema actualíssimo da emigração na Europa, que apanhada de surpresa com a avalanche humana que todos conhecemos, não tenha resposta para a crise humanitária em processo, nem somente uma hipótese credível de solução, como este filme nos mostra.
Então desta feita, a história apresenta-nos uma família fictícia em fuga desde o Sri Lanka em que a única verdade que os une, é o premente desejo de fuga do país em guerra e do caos (podia muito bem ser da Síria) para a “terra prometida” de ocasião, neste caso a França, da qual nem conhecem a língua. A “filha” lá vai percebendo o essencial, e a “mãe” queria ir para o Reino Unido, mas o destino é França e têm de se conformar. A “integração” é conseguida através de um emprego de concierge num prédio de um bairro social nos subúrbios de Paris, onde ela consegue também o lugar de cuidadora de um homem com mobilidade diminuída a quem presta cuidados básicos, faz comida e arranjo da casa.
Apesar de o local ser um antro de distribuição e venda de droga, onde grupos rivais se degladiam pelo domínio do tráfico, é ainda assim o local onde encontram paz, escolaridade para a “filha” e mais dinheiro do que alguma vez pensaram obter o que os torna em príncipes, com disponibilidade para frequentar a igreja Tamil, pensar na sua relação forçada, na hipótese de amor de ocasião e no conceito de futuro.
Todavia, as dificuldades surgem com a luta entre gangues rivais, que o realizador compara à guerra no Sri Lanka, tanto na violência como no comportamento dos moradores, apontando um dedo acusador às autoridades através da total ausência de polícia, ou outra força de segurança de qualquer espécie, mesmo em caso de tiroteio e de mortes. Este foi de facto o caso da França, que terá adormecido à sombra do seu poderio negligenciando as tensões crescentes e a violência generalizada. Neste capítulo a denuncia contida no filme também é importante.
Todos os actores têm bom desempenho, está bem representado, a história é credível o ambiente mantem-se continuamente tenso porque a paz não é consistente e a história revela as fragilidades da nossa sociedade que se terá tornado laxista, adormecendo à sombra do seu próprio sucesso. Bom filme, recomendo vivamente e as últimas cenas serão o balsamo para os nossos espíritos atormentados durante todo o tempo.
Classificação: 7 numa escala de 10