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27 de agosto de 2020

Opinião – “Radioativo” de Marjane Satrapi


 Sinopse

“Radioativo” dá-nos a conhecer o legado duradouro de Marie Curie (interpretada pela atriz nomeada para um Óscar® Rosamund Pike) – as suas relações apaixonadas, as descobertas científicas, e as consequências para ela e para o mundo. Depois de conhecer o cientista Pierre Curie (Sam Riley), os dois casam-se e mudam a ciência para sempre com a descoberta da radioatividade. A genialidade das descobertas dos esposos Curie, que mudam o mundo, e o Prémio Nobel que se segue, levam o casal à ribalta internacional.

Dos mesmo produtores de “A Hora mais Negra” e “Expiação”, a realizadora Marjane Satrapi (nomeada para um Óscar® com Persépolis) parte da novela gráfica de Lauren Redniss e apresenta um retrato visionário e ousado dos efeitos transformadores, das consequências do trabalho dos Curie e da forma como este moldou os momentos-chave do século XX.

Opinião por Artur Neves

“Radioativo” é um filme que nos mostra os benefícios e os malefícios da radiação gama, (γ) um tipo de radiação eletromagnética de alta frequência com elevado poder de penetração em todos os corpos, resultante do decaimento da evolução natural do plutónio na natureza, através duma abordagem autobiográfica aos seus descobridores, os esposos Pierre e Marie Curie na última década do século XIX.

Em 1903 essa descoberta e as suas múltiplas aplicações conferiu-lhes o mérito de serem distinguidos com o prémio Nobel que no discurso de aceitação de Pierre ele aludiu à imensa perigosidade das suas descobertas referindo em forma de pergunta; “se a humanidade se beneficia em conhecer os segredos da Natureza, se está pronta para lucrar com isso ou se esse conhecimento não será prejudicial para ela”. A resposta, como todos conhecemos, está no benefício da antecipação de diagnóstico propiciado pelo Raio X e no malefício do desastre de Chernobil, igualmente referido no filme, este porém, com causas políticas associadas à dimensão do desastre, para lá da perigosidade de utilização da energia atómica no grau de desenvolvimento atual.

Marjane Satrapi, realizadora Iraniana a viver nos USA faz uma abordagem inteligente do argumento começando com Marie Curie já consagrada e em plena atividade no laboratório sofrendo um desmaio que a levará ao hospital, cujo tempo de internamento lhe permitirá fazer o balanço da sua vida mostrando-nos toda a evolução do seu trabalho, estudos e vida familiar com Pierre Curie, do qual teve três filhas e uma vida de ativista em favor dos direitos das mulheres, da sua independência e autonomia face à sociedade patriarcal comum no século XIX decorrente da revolução industrial e posterior desenvolvimento.

Neste particular, a atriz Rosamund Pike no papel de Marie Curie é uma escolha vencedora considerando a sua teimosia, orgulho e perseverança demonstrados na construção de um personagem credível como cientista e controverso como esposa e mãe, pese embora as suas diferenças físicas com a verdadeira Marie Curie.

Pierre Curie (Sam Riley) era igualmente dado às ciências ocultas, contrariamente a Marie Curie que era fundamentalmente racional e pragmática. Essa tendência introduziu no círculo de conhecimentos familiares Loie Fuller (Drew Jacoby) uma mulher da nova era que criou em palco uma dança em que o intérprete vestia uma túnica branca esvoaçante iluminada por luzes mutantes de cores intensas. Fuller, tendo conhecimento do poder fosforescente do rádio, pediu-lhes um pouco para utilização numa fantasia. Pierre teria acedido se Marie não se opusesse determinadamente, antecipando os efeitos perniciosos da radiação continuada no corpo humano, dos quais Pierre e ela própria, viriam a falecer.

Satrapi soube construir um ambiente adstringente e simultaneamente sentimental de Marie, em que ela, sem abandonar o seu mundo e a sua atividade de investigadora, ama infinitamente o seu marido, resolve os seus diferendos individuais após a sua morte e cuida das suas filhas com o desvelo possível, embora sempre com muito amor. Todo o filme constrói uma visão alucinatória que ilustra o terror com que Marie encara as suas descobertas, que não têm a ver só com ela, mas com muitas outras vidas que ela pode condicionar, reforçando a mensagem de que: “a ciência é invariavelmente política e, nas mãos certas, pode ser uma força para o bem, mas nas erradas, uma arma do mal”. Muito interessante, recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

18 de agosto de 2020

Opinião – “O Segredo – Atreve-te a Sonhar” de Andy Tennant

 Sinopse

“O Segredo – Atreve-te a Sonhar” conta a história de Miranda Wells (Katie Holmes), uma mulher muito trabalhadora, viúva, que luta para criar três filhos sozinha. Uma forte tempestade traz para a sua vida um desafio devastador e um homem misterioso, Bray Johnson (Josh Lucas). Em poucos dias, a presença de Bray reacende o ânimo da família, mas ele transporta consigo um segredo – e esse segredo pode mudar tudo.

Este drama romântico baseia-se na obra de Rhonda Byrne, "O Segredo" publicado em 2007 em Portugal. Com mais de 30 milhões de cópias vendidas em todo o mundo, permaneceu 190 semanas na lista de livros mais vendidos do "The New York Times", sendo o livro mais vendido de sempre em Portugal, com meio milhão de exemplares. O livro apresenta a Lei da Atração, que defende que os nossos pensamentos moldam a nossa realidade e que os seres humanos podem controlar as suas vidas com a mente e alcançar os seus desejos.

Opinião por Artur Neves

A Lei da Atração mencionada na sinopse, inspirada no princípio Taoista: “Acredita e Materializas” mais não é, na tradição judaico cristã profusamente divulgada em Portugal, o conteúdo do proverbio popular “A fé move montanhas” que nos aparece divulgada até à exaustão no livro “O Segredo”, travestido de filosofia de auto ajuda escrito por Rhonda Byrne a quem propiciou uma invulgar projecção mediática com os respectivos proventos associados, posteriormente divulgado em DVD na forma de documentário.

Andy Tennant, realizador americano cujo filme mais significativo da sua obra é; “Para sempre Cinderela” de 1998, pegou no argumento de um drama romântico de Bekah Brunstetter e Rick Parks, adaptado ao formato pela própria Rhonda Byrne, que lhe empresta um vago sentido de espiritualidade, oferece-nos esta história de pensamento positivo, polvilhado de pseudo filosofia barata, através da qual, durante uma tempestade torrencial, quando as crianças da casa exprimem o seu desejo por pizza, aparece-lhes milagrosamente um entregador de pizzas na porta de frente para lhe cumprir e satisfazer os desejos. O mago da lâmpada de Aladino não faria melhor.

Tudo o resto é comum dos dramas românticos, Miranda Wells (Katie Holmes), desempregada, falida, viúva e mãe de três filhos, (só desgraças) vive atormentada pela manutenção da sua vida, que só piora, quando a tempestade causa danos consideráveis na sua casa (mais desgraça) tem um encontro “casual” com Bray Johnson (Josh Lucas) que lhe oferece incondicional ajuda no seu infortúnio, que naturalmente lhe causam surpresa e desconfiança, não só a ela como ao seu encalhado namorado de longa data Tucker (Jerry O'Connell) que começam a questionar tão generosas e oportunas ofertas.

Porém não há nada de mal e somente os seus espíritos sem esperança, sem ver a luz, é que gera as suas dúvidas infundadas que serão dissipadas sempre que Bray adicione á sua ajuda pequenas pérolas de sabedoria sobre o poder das Leis da Atração e do pensamento positivo do tipo “quanto mais pensas em algo mais o atrais para ti” em que o episódio das pizzas, para além de outros, são verdadeiramente singulares.

Se descartarmos os chavões e os clichés de auto ajuda a história até se compõe razoavelmente bem como um romance maduro, uma segunda oportunidade entre dois personagens interpretados por dois atores que sabem ao que vão e sabem fazer com que secretamente desejemos que os seus personagens se encontrem, mas as manipulações emocionais do formato e as narrativas lamechas utilizadas geram situações que nos fazem querer vomitar, tais são os esforços artificiais de Rhonda Byrne para introduzir as suas recomendações e comentários no processo.

Por outro lado, os problemas financeiros de Miranda são facilmente assimiláveis por vários espectadores com dificuldades semelhantes nestes tempos difíceis e interiorizar que apenas o desejo intenso e constante de melhoria são suficientes para os ultrapassar, pode conduzir a grandes desilusões.

Classificação: 4 numa escala de 10

1 de agosto de 2020

Opinião – “Força da Natureza” de Michael Polish


Sinopse

Quando um furacão de grande magnitude ameaça Porto Rico, um polícia (Emile Hirsch) tentando recuperar de uma tragédia em Nova Iorque, entra em serviço de evacuação com uma nova parceira (Stephanie Cayo).

A dupla chega a um complexo de apartamentos, quando um criminoso chamado John the Baptist (David Zayas) entra numa senda assassina para chegar a um tesouro de arte de valor inestimável. Mas quando um ex-polícia (o vencedor do Óscar, Mel Gibson) e a sua filha (Kate Bosworth) entram relutantemente em cena, a Polícia terá de subir aos andares mais altos para se manter à tona, numa armadilha mortal de cimento. À medida que as águas das cheias sobem, só a ferocidade e o poder de fogo podem domar esta Força da Natureza.

Opinião por Artur Neves

Depois de em 2018 nos ter deliciado com um thriler de mão cheia; “Na sombra da Lei” eis que Mel Gibson nos brinda com este série “B” onde desempenha o personagem de um polícia doente, velho e birrento em busca de um aparelho de hemodiálise que ele se recusa a utilizar no hospital mais próximo.

A sua filha médica Dra. Troy (Kate Bosworth), é quem o assiste em casa, tentando convencê-lo a abandonar o domicílio, decorrente da aproximação de uma tempestade grau 5 que porá em risco a manutenção da alimentação eléctrica ao edifício de apartamento, ou mesmo a toda a cidade de Porto Rico, inviabilizando o tratamento que Ray (Mel Gibson) que recusa a aceitar num hospital.

Todavia, outros condóminos do mesmo edifício igualmente se recusam a abandoná-lo embora por outros motivos, pelo que a dupla de polícias Cardillo (Emile Hirsch), longe dos dias de glória de “O Lado Selvagem” de 2007) e Jess Peña (Stephanie Cayo), uma polícia latina para facilitar a comunicação em espanhol, são encarregues de concluírem a evacuação do edifício.

Não contam é com a ideia peregrina de João Batista (David Zayas) em invadir o mesmo edifício durante o furacão para recuperar uma fortuna em arte na posse de Bergkamp (Jorge Luis Ramos), um ex-oficial alemão pertencente ao exército nazi, refugiado em Porto Rico que guardava aquela fortuna até ela lhe poder ser útil depois de uma transacção que preparava há muitos anos.

É este o argumento de “Força da Natureza” que saiu da pena de Cory Miller, um argumentista com experiência de investigação no departamento de Assuntos Internos da NYPD, cujos casos usados em cinema já nos deram boas histórias, embora a milhas desta, que apesar de tudo provocou algum furor durante as filmagens mas cujo produto final se perfila como um lamentável e confuso flop, com criminosos especialistas em arte e outros personagens com diferentes histórias de bastidores que se tentam colar numa estória coerente.

Para complicar, ainda inclui um animal selvagem, apenas visto de relance num salto, do qual não se conhecem as consequências diretas, apenas se podendo inferir que terá neutralizado João Batista e que este, ou o seu capanga armado, o matou com vários tiros. Contudo também ficamos na ignorância de qual terá sido o destino deste.

Toda a intriga aparece forçada, arrastada, pouco verosímil, nem sequer sugerindo que o realizador Michael Polish estivesse verdadeiramente interessado com o realismo da história, desenvolvida por personagens que não mostram grande talento para o suspense, incluindo Mel Gibson que nos tem apresentado coias muitos boas e muito mazinhas como esta.

É assim um série “B” de acção violenta para desviar a atenção do enredo frágil, que se distingue pela criação de ambientes particulares e especificamente coloridos em cada um dos apartamentos envolvidos, todavia isso é pouco como história e como entretenimento.

Este filme tem estreia prevista para 20 de Agosto nos cinemas NOS.

Classificação: 4 numa escala de 10

28 de julho de 2020

Opinião – “O Rececionista” de Michael Cristofer


Sinopse

Durante o turno da noite, Bart Bromley (Tye Sheridan) um jovem rececionista, testemunha o assassinato de uma mulher num dos quartos do hotel, mas os seus comportamentos suspeitos acabam por o colocar como principal suspeito. No decorrer da investigação, Bart cria uma relação próxima com uma das hóspedes, Andrea (Ana de Armas), e rapidamente percebe que tem de parar o verdadeiro assassino antes que ela seja a próxima vítima. As imagens das câmaras de vigilância, que Bart mantém em segredo para observar os hóspedes, são a única forma de conseguir provar a sua inocência e salvar Andrea.

Opinião por Artur Neves

Este “Rececionista” corporiza um estilo hitchcockiano, sem o brilho nem a sagacidade do mestre num filme que pretende ser noir sem contudo, conseguir chegar a lugar algum.

Bart Bromley é um rececionista de hotel de preços módicos e permanências curtas que sofre de síndrome de Asperger que é um distúrbio psicológico do espectro do autismo que se caracteriza por dificuldades no relacionamento interpessoal e na comunicação não verbal, exibindo para compensar essas deficiências, padrões comportamentais repetitivos que causam surpresa a quem não está familiarizado com a doença.

Todavia, Bart tenta corrigir essas deficiências através da observação do comportamento de pessoas normais, de forma a poder “aprender” os modos e as formas de comunicação e assim esbater a sua diferença relativamente aos outros com quem ele tem reserva em se relacionar e não sabe como se aproximar. A sua limitação é tal que sua mãe Ethel Bromley (Helen Hunt) lhe prepara as refeições e coloca-as à porta do quarto, de forma a ele se poder alimentar sem o esforço de partilha da sua presença com ela.

Para conseguir essa “aprendizagem” ele instalou câmaras de vigilância nos quartos do hotel e observa os hóspedes nas suas atitudes íntimas, incorrendo assim no crime de voyeurismo, com as quais ele pretende identificar-se com os seus modelos. O problema começa quando ele assiste a um assassinato num dos quartos e não revela à polícia tudo o que sabe porque não quer expor a violação de privacidade que reiteradamente comete na sua tentativa de tratamento da sua limitação comportamental.

É com esta história que Michael Cristofer, ator e escritor galardoado com o prémio Pulitzer, ensaia o seu segundo trabalho de realização depois do longínquo “Pecado Original” em 2001, podendo comprovar-se que não atingiu grande evolução. Agora, para apimentar a história inclui ainda uma Andrea (Ana de Armas) num papel de femme fatale inserida à pressão num envolvimento misterioso que faz Bart temer pela sua vida e sobressaltar a sua rotina controlada quando ela lhe envia olhares e estímulos que ele não sabe como gerir, mas que recebe com esperança de ter chegado a sua altura de construir uma vida dita normal, para os parâmetros de um deficiente de Asperger.

Ana de Armas continua impressionante como sempre e tem tido a sorte de desenvolver personagens adequados à sua habilidade de atuação que lhe assentam como uma luva e fazem Bart persegui-la em grande parte do filme onde esperamos uma surpresa, um twist, para lá das promessas não cumpridas que vemos ela fazer-lhe.

Á semelhança de outros filmes que combinam suspense e acção com voyeurismo, este também pretende trilhar esse caminho, embora por motivos menos sombrios e com um argumento sinuoso, por vezes mal concebido, só resgatado aqui e ali pelas interpretações dos atores bastante assistíveis mas rapidamente esquecíveis. No final temos uma história muito simples que só vale pela interpretação dos seus personagens.

Classificação: 4,5 numa escala de 10

22 de julho de 2020

Opinião – “Capone” de Josh Trank


Sinopse

Al Capone (Tom Hardy), um cruel empresário e contrabandista de bebidas que governou Chicago com mão de ferro, foi o gangster mais famoso e temido na história dos EUA. Aos 47 anos, após quase uma década na prisão, a demência deteriora a mente de Capone, e o seu passado torna-se presente.

Memórias angustiantes das suas origens violentas e brutais fundem-se com a sua vida real. Enquanto passa o seu último ano rodeado pela família, com o FBI à espreita, o debilitado patriarca luta para se recordar da localização dos milhões de dólares que escondeu na sua propriedade.

Baseado em factos verídicos, CAPONE conta a história nunca antes contada dos últimos dias da vida do mais famoso gangster da história.

Opinião por Artur Neves

Al Capone (Alphonse Gabriel Capone de seu nome, também conhecido por Scarface) é o biopic do seu último ano de vida que nos é apresentado por Josh Trank, um realizador americano nascido na California que foi particularmente feliz com o seu “Quarteto Fantástico” de 2012 e a sua série pata TV “The Kill Point” em 2007 mas que neste filme apresenta algumas inconsistências.

“Capone” é assim interpretado por Tom Hardy, no último ano da sua vida na sua sumptuosa propriedade em Palm Island, Flórida, desgastado pela doença contraída na juventude, a neuro sífilis, que lhe provoca alucinações mentais e memórias sombrias de festas luxuosas e visões loucas que constituem a narrativa principal do filme, já que, com um homem incontinente, fisicamente inválido, vago de cérebro e super protegido pela família mais próxima, quase nada pode acontecer que suporte a história que este filme pretende contar.

Tom Hardy é sempre competente no seu desempenho e de acordo com o argumento constrói um personagem demente e sólido na sua loucura, permanentemente agarrado a um charuto que segura no canto da boca que posteriormente é substituído por um toco de cenoura, por recomendação médica após a ocorrência de um derrame cerebral num dos seus desvarios de loucura violenta. A caraterização faz de Hardy um homem pálido, com o rosto marcado por cicatrizes, com vários quilogramas em excesso, flácido, que mastiga charutos e balbucia palavras sem sentido com uma voz que parece de um sapo alojado na sua garganta.

Até aqui tudo bem, o pior começa no enquadramento desta figura que representa os resquícios de si própria, cada vez mais delirante, manifestando visões aterradoras que o filme recria em flashbacks sucessivos, por vezes algo confusos relativamente aos motivos, períodos de vida e aos personagens envolvidos.

Para tentar manter o suspense o argumento serve-se do esquecimento de Capone sobre o local onde terá escondido dez milhões de dólares resultantes da sua atividade criminosa, que ele cita frequentemente como objetivo e o FBI mantém agentes escutando as suas conversas telefónicas e os seus movimentos. Outro caso é o de um filho bastardo que lhe telefona algumas vezes, sem falar, deixando no ar uma promessa de revelação. Só que a história apenas os cita inconsequentemente e rapidamente para logo os abandonar deixando cair os elementos que poderiam ser reveladores de outra realidade atualmente inexistente.

Josh Trank, poderia assim abrir a história para eventos hiperbolicamente concebidos se fecharem na realidade inválida de um homem que sucumbe à sua loucura, mas em vez disso prefere investir no espetáculo que usou nos “Quatro Fantásticos”, apresentando o artifício visionário e a fúria subjetiva de um homem doente em conflito consigo próprio como o agente do vazio de razões em que a história mergulha, concebida por uma mente em colapso, segundo o qual nenhum argumento pode fazer sentido.

O real problema porém, não reside na dependência da fantasia alucinada de Capone mas na conceção estreita e limitada do realizador que ao cingir-se às suas reminiscências confusas e distorcidas sem as conotar com os seus momento anteriores de grandeza e felicidade, afoga a história nas insuficiências de um homem em declínio que só por si não é motivo suficiente para justificar o filme. É pena… Tom Hardy vê-se com gosto.

Classificação: 5 numa escala de 10

21 de julho de 2020

Opinião – “Judy & Punch – Amor e Vingança” de Mirrah Foulkes


Sinopse

Na anárquica cidade de Seaside, os marionetistas Judy e Punch tentam revitalizar o seu espetáculo de marionetes. O espetáculo torna-se um sucesso, graças à elevada mestria de Judy (Mia Wasikowska), enquanto manipuladora de marionetas, mas a desmedida ambição de Punch (Damon Herriman) e a sua propensão para abusar do whisky acabam por provocar uma inevitável tragédia, da qual Judy procurará vingar-se.

Nesta visceral e dinâmica reinterpretação em live-action da famosa peça de marionetas do século XVI, a realizadora e argumentista Mirrah Foulkes dá uma reviravolta na história tradicional de Punch e Judy, juntando-lhe uma forte componente de crítica social e criando uma história de vingança, feroz e sombria mas ao mesmo tempo cómica e épica, com Mia Wasikowska e Damon Herriman nos principais papéis.

Opinião por Artur Neves

Como primeira obra de realização e de escrita do argumento de Mirrah Foulkes, esta atriz que conta entre as suas obras de representação mais emblemáticas, a personagem de Sophie em “Beleza Oculta” de 2012, apresenta-nos aqui uma história de fantasia que recupera os “Punch and Judy” que surgiram na tradição da comédia dell’arte do século XVI em Itália, como forma de contar uma realidade da época que se cingia à supremacia do marido sobre a esposa e ao seu direito feudal sobre ela, constituindo essa prática o motivo central de diversão para gáudio de uma população inculta, com preconceitos atávicos e crenças seguras no poder da bruxaria sob qualquer forma que o feitiço lhe fosse apresentado.

Assim este filme de Mirrah Foulkes, que foi estreado no festival de Sundance traz-nos Punch e Judy os clássicos fantoches brigões que existem pelo menos desde 1600, a exibirem-se na cidade de Seaside, donde é totalmente impossível ver o mar, ou qualquer mar, numa comédia intrigante e sombria em que a alteração da justaposição dos nomes não é acidental mas antes, essa sim, a vingança de Judy sobre Punch, depois de séculos da supremacia de Punch.

É aqui, que Judy e Punch, casados, depois de Judy se ter apaixonado por Punch na sua primeira passagem na cidade, agora com uma filha e morando na casa de Judy que ficou aos cuidados do casal de servos que a criaram, que tentam restabelecer o seu show de marionetas, encenando um teatro medieval, onde uma multidão ululante de espectadores nem sempre deixava sair vivos, os atores ou performers de qualquer outra arte.

A representação não é mais do que o tradicional Punch & Judy, onde na maior parte do tempo o boneco de Punch surra desalmadamente o boneco de Judy e na realidade ele é um bêbado e um falhado querendo arvorar-se no maior marionetista do mundo, enquanto Judy é o cérebro e o talento do espetáculo que antes de fazer a apresentação tem de cuidar das necessidades da filha pequena de ambos e deixar que Punch brilhe em palco e se embebede em casa.

A história do filme oscila entre Shakespeare e Dickens, composta por rufiões, povo crédulo e inculto, vendedores de batata e um polícia incipiente Mr. Frankly (Tom Budge) que representa uma emergente ordem policial que ainda não se sabe impor naquela sociedade desordenada. Todo o filme desenrola-se num mundo próprio que nos proporciona um conto de fadas bizarro e revisionista sobre os bastidores das histórias de marionetas, brutal e elementar.

O próprio sentido humor da história alimenta-se da violência cómica que tradicionalmente está ligada a Punch e Judy, exceto nos heréticos, o povo expulso de Seaside que formou uma comunidade na floresta e que salvou Judy da morte após uma violenta tareia de Punch. A Drª Feelgood (Gillian Jones), líder da comunidade, insiste com Judy que é melhor ela fugir do que tentar combater o patriarcado reinante em Seaside, mas Judy quer vingar a morte da sua menina e como tal não desiste de fazer justiça.

Tem elementos curiosos sobre a tradição do espetáculo de marionetas e um humor sombrio sobre realidades medievais horríveis, mas para Foulkes constitui uma estreia promissora e como tal merece ser vista.

Estreia a 30 de Julho nos cinemas NOS

Classificação: 6 numa escala de 10

14 de julho de 2020

Opinião – “Clube dos Divorciados” de Michaël Youn


Sinopse

Após 5 anos de casamento, Ben (Arnaud Ducret) continua apaixonado pela mulher. Até o dia em que descobre, em público, que a mulher anda a traí-lo: além de humilhado, é descartado! Totalmente desanimado e evitado pelos amigos, Ben luta para não soçobrar, até que um dia se cruza com um antigo amigo, Patrick (François-Xavier Demaison) que também está divorciado e lhe propõe que vá viver para sua casa. Ao contrário de Ben, Patrick pretende tirar proveito do celibato recuperado e de todos os prazeres a que renunciou durante o casamento. Aos dois amigos depressa se juntam outros divorciados (Audrey Fleurot, Michaël Youn ...) e os foliões quarentões redigem as primeiras regras do "Clube dos Divorciados", sendo que a primeira delas é viver em permanente FESTA.

Opinião por Artur Neves

O cinema francês sempre se socorreu de particularidades identitárias nas abordagens temáticas que se caraterizam pela simplificação, por vezes espetacular, com que aborda temas sérios que destroem a estabilidade emocional das pessoas envolvidas, que neste caso se reporta ao divórcio e às estratégias utilizadas para ultrapassar as sequelas emergentes.

É o caso desta história em que Ben é confrontado em público, com a traição da sua mulher em presença de amigos e desconhecidos que entre graçolas, desculpas piedosas, e censuras, estigmatizam-no com o ónus do deixado, do abandonado, do preterido por incompetência inerente no cumprimento das suas atribuições.

Numa abordagem real, isto pode ser um trauma dificilmente ultrapassável, no “Clube do Divorciados” é apenas o motivo justificativo para a desbunda, para dar a volta, para a recuperação completa do trauma, que assim se ultrapassa, sem drama nem trauma, nem sequelas de baixa auto estima, considerando que a solução encontrada é fazer tudo o que apetece, sempre que apetece, com quem apetece e está para aí virado(a).

A ideia inicial do filme fundamenta-se num caso próximo de Michaël Youn, (que interpreta na história o personagem de Tiiti) um realizador Francês que já conta com duas comédias de êxito no seu CV, que se passou na vida pessoal do produtor Clément Miserez num caso de separação conjugal, que para lá da dor sentimental lhe permitiu viver algumas situações anedóticas sobre o assunto, através dos cruzamentos que a situação teceu. Daí até ao argumento desta comédia, passaram três anos a lamber feridas e a organizar todo o elenco que de preferência deveria ter alguma “experiência” no tema.

O cinema á francesa é isto mesmo, começar com um drama e através da farsa e da comédia recuperar as motivações profundas do amor que se atenuam com do passar do tempo e permitem inserir a amizade e a ideia de perdão, compreensão, companheirismo especialmente quando há filhos partilhados completamente inocentes relativamente ao turbilhão onde caíram. Tornar o filho do casal interesseiro e ardiloso, quase déspota, já faz parte das múltiplas direções que a comédia pode adquirir.

A principal direção é contudo o regozijo em ser celibatário, estar só, não ter ninguém a criticá-lo, poder ficar duas horas na casa de banho a fazer o que quiser, jogar por exemplo, sem qualquer constrangimento de ainda não ter ido comprar o pão para o pequeno almoço. Estabelecer compromissos a qualquer hora e simplesmente divertir-se sem remorso.

E assim o filme flui durante 108 minutos intercalando cenas de verdadeira anedota e outros mais explosivos do ponto de vista comportamental e musical mas que ainda assim se aceitam pela multiplicidade de personagens que se incluem naquela casa de celibatários masculinos e femininos, todos à procura do berço de onde caíram, porque a principal cauda do divórcio é… sempre… o casamento!... essa instituição social cuja principal utilidade consiste em reduzir o número de declarações IRS entregues anualmente.

Uma história engraçada, algo espalhafatosa por vezes, que nos diverte e surpreende, em exibição nos cinemas NOS a partir de 23 de Julho.

Classificação: 6 numa escala de 10

10 de julho de 2020

Opinião – “Arkansas: Reis do Crime” de Clark Duke


Sinopse

Dois pequenos criminosos, Kyle (Liam Hemsworth) e Swin, vivem às ordens de um chefe do crime chamado Frog (Vince Vaughn), que nunca conheceram. Mas quando uma transação corre pessimamente, consequências assustadoras abalam subitamente a vida rotineira da dupla. Vender produtos ilícitos é um negócio arriscado e duvidoso, sem margem para segundas oportunidades.

Não há certo nem errado. Eles têm de ser eliminados.

Opinião por Artur Neves

Adaptado do romance de 2008; “Arkansas” de John Brandon, uma história sombria e cómica sobre um par de traficantes de droga, algures no sudoeste rural dos USA, Clark Duke apresenta-nos uma história bem construída, ao estilo dos irmãos Coen, Scorcese, ou mesmo Tarantino com menos exuberância, sobre Kyle e Swin (o próprio realizador) que estabelecem um negócio de tráfico sem conhecerem o seu fornecedor e patrão, nem a rede em que estão inseridos, que ilustra a paisagem monocromática do sudoeste americano, bem como, a apática mentalidade dos seus personagens, cujo comportamento inclui atitudes amargamente engraçadas num western dos dias de hoje.

Originalmente programado para estrear no festival SXSW de 2020, este filme sofreu um sério revés na sua programação devido ao surto pandémico que ainda vivemos, tendo ido diretamente para as plataformas de streaming que lhe deram um tratamento indiferenciado, que não teria acontecido noutras circunstâncias.

Este filme é pois um thriller satírico que junta habilmente a atividade clandestina do tráfico de drogas com a tragicomédia da vida de dois traficantes, “parceiros de trabalho” mas nunca verdadeiros amigos ou sequer simpáticos entre si no trato recíproco, que se encontram acidentalmente por encontro marcado por outrem e têm de cumprir escrupulosamente o programa de distribuição estabelecido por alguém que desconhecem de todo e coletar os proventos da venda para o entregarem em data, modo e lugar determinados.

Kyle, todavia é mais presente, e nos seus silêncios, frequentes e duradouros em que junta os dados das observações que recolhe aqui e ali, forma com eles um possível esquema da organização que contudo não é partilhada por Swin que apenas quer usufruir da sua percentagem e viver sem preocupações o tempo que lhe sobra.

Para complicar a história, Swin enreda-se num caso amoroso com uma habitante local, que constitui uma principal violação ao contrato estabelecido por Frog (Vince Vaughn), o patrão desconhecido, que entende aquela atitude como um atentado á sua soberania e uma ameaça ao seu império de distribuição de droga que ele imediatamente se preocupa em eliminar, ou pelo menos em neutralizar. Eles não o conhecem, mas Frog vigia-os e segue-lhes todos os movimentos. Aqui o filme introduz outros personagens e desvenda ligações e intrigas do passado que relançam a história noutros contornos bem arrojados para este realizador que pela primeira vez leva a cabo uma história que não vive do histrionismo dos seus personagens, como nas suas realizações anteriores.

Todos os personagens interagem estre si nesta história como é óbvio, mas cada um tem o seu mundo particular desligado de todos os outros em que, embora assumindo esse “desligamento” criam um conjunto heterogéneo de comportamentos e atitudes que preenchem o ambiente do local, caraterístico do mundo rural dos USA que é memorável e recorda-nos o tipo dos eleitores que escolheram Trump.

À maneira de Tarantino “Arkansas” é dividido em cinco atos onde se manipulam e exibem as particularidades dos seus personagens e dos tempos a que se referem, conjugando os eventos da história sobre, enganos, identidades equivocadas e assassinato que nos prendem e motivam atenção durante os seus 117 minutos de duração. Tem ainda a capacidade de sugerir ao espectador um caminho óbvio de sequência, mas nada mais falso, as sucessivas reviravoltas sinistras depressa nos aconselham a apenas ver e fruir. Interessante.

Classificação: 6,5 numa escala de 10

8 de julho de 2020

Opinião – “A Cor da Ambição” de Giuseppe Capotondi


Sinopse

James Figueras (Claes Bang), um crítico de arte charmoso e ambicioso, caiu em desgraça. Passa os seus dias em Milão a dar palestras sobre história de arte para turistas ignorantes. A sua única réstia de esperança é o seu novo interesse amoroso, a enigmática americana Berenice (Elizabeth Debicki). Dá-se uma oportunidade quando é contactado por um abastado negociante de arte, Joseph Cassidy (Mick Jagger), que convida James para a sua vivenda no Lago Como, e lhe pede para roubar um quadro ao lendário artista solitário Jerome Debney (Donald Sutherland). Mas logo a ganância e a ambição de James levam a melhor sobre si e deixam-no preso numa teia feita por si mesmo.

Opinião por Artur Neves

A cor da ambição é o vermelho alaranjado matizado por zonas mais vermelhas e outras mais alaranjadas, profundamente confundidas na posse do desejo único de ser possuidor da coisa ímpar que completa a falta e potencia o lado mais irrefletido do desejo.

Neste excelente thriller de Giuseppe Capotondi, realizador italiano de 52 anos, que fez carreira no universo dos telediscos, onde em pouco tempo tem de se mostrar o mais possível, traz-nos a adaptação dum romance policial de Charles Willeford publicado em 1971, contando a história de um homem falhado que perdeu os objetivos de outros tempos e agarra-se ao que aparece em busca da recuperação de si e da redenção para os atos que o levaram à atual situação.

Figueras não é intrinsecamente um mentiroso, é um homem que usa os seus conhecimentos e a sua experiencia da melhor forma que os possa adaptar à situação do momento e fá lo com profissionalismo ao guiar turistas sem conhecimentos de arte, nos meandros da pintura de forma a motivá-los na contemplação dessa forma de arte e aqui, os 10 minutos iniciais do filme são extraordinários da demonstração da sua capacidade verbal para transformar o “nada” em “tudo”, desmontando de seguida tudo o que foi dito.

Berenice, pelo seu lado é uma mulher misteriosa, professora na sua cidade natal no Minnesota, em viagem de repouso pela Europa na sequência de uma operação ao útero que lhe motivou maior atenção para si própria e para o que quer da vida. Vive com a sua mãe e esta viagem serve também para repensar a sua situação e reinventar-se. Entra distraidamente na sala onde se realiza a palestra de Figueras, que também serve como apresentação do seu livro sobre arte, e mostrando a irreverencia da sua personalidade e da sua idade, bem como, a disponibilidade do seu espírito aberto, aceita o repto de Figueras, lançado a todos os assistentes da palestra.

Esse encontra é apenas o começo de uma relação com o homem a quem ela confirma o bom começo depois de uma noite de sexo e pergunta como irá acabar no futuro, pois embora exista “química” entre os dois, Figueras é suficientemente reservado nos seus motivos.

Joseph Cassidy é o colecionador de arte que pretende obter uma obra do pintor Jerome Debney (Donald Sutherland com 84 anos, mas sempre surpreendente nas suas interpretações) para a sua coleção e desafia Figueras a obtê-la em troca da sua reabilitação e reconhecimento público perdidos.

Até aqui a história resume-se ao estabelecimento das relações entre este elenco forte o suficiente para que as múltiplas reuniões e conversas sobre o simbolismo da arte, as suas caraterísticas particulares e as suas motivações dos quadros que são citados nos envolvam neste mundo de acesso restrito. Joseph Cassidy sabe o quer, está habituado a obter tudo o que pretende e possui a vantagem ameaçadoramente discreta para levar Figueras a sucumbir irrefletidamente ao laranja avermelhado da ambição que o cega.

Daqui para a frente o filme ganha a dinâmica do thriller e do suspense e vemos Figueras a tentar por todos os meios tirar vantagem de Jerome Debney, o pintor recluso numa casa cedida por Cassidy, que lançou fogo a todo o seu espólio anterior e que hoje pinta na sua imaginação o azul do céu que não possui.

As histórias só acabam bem nos romances de cordel e nas telenovelas e esta não tem nada destas duas categorias, compondo-se num filme que recomendo vivamente. Em exibição nos cinemas NOS.

Classificação: 7,5 numa escala de 10

7 de julho de 2020

Opinião – “Rede de Espiões” de Olivier Assayas


Sinopse

O piloto cubano René González (Edgar Ramírez) deixa a mulher e a filha na ilha comunista, desertando para os Estados Unidos e iniciando uma nova vida em liberdade no início dos anos 1990. Mas René não é o ambicioso empreendedor que aparenta ser. Unindo forças a um grupo de exilados cubanos no sul da Florida, conhecido como Wasp Network (Rede Vespa) liderado pelo agente secreto conhecido como Gerardo Hernandez (Gael García Bernal) torna-se membro de um grupo de espiões pró-castristas incumbido de vigiar e de se infiltrar em grupos terroristas cubano-americanos que tencionam atacar a república socialista. Inspirado na história verídica dos “Cinco Cubanos”, agentes dos serviços secretos, “Wasp Network – Rede de Espiões” é um empolgante e sofisticado thriller político que inclui uma vasta galeria de cubanos e exilados cubano-americanos envolvidos numa complexa batalha entre ideologias rivais e lealdades instáveis.

Opinião por Artur Neves

Potencialmente esta história, que reporta o caso real de agentes infiltrados cubanos, fiéis aos ideais da revolução de Fidel de Castro, tem todos os ingredientes para poder oferecer ao espectador 125 minutos de um bom filme de ação e espionagem… mas nem tanto, o que é uma pena, embora se veja com agrado e contenha momentos de pura emoção.

O realizador Oliver Assayas adaptou o romance de Fernando Morais; “Os Últimos Soldados da Guerra Fria” que relata a história de um grupo de espiões que nos anos 90, após a extinção da União Soviética e o consequente fim da ajuda financeira a Cuba, se infiltrou em vários grupos cubanos sediados na Florida, pretensamente com o objetivo de ajudarem todos os que quisessem sair da ilha e pedir asilo nos USA, usando para isso diferentes meios de pressão como o terrorismo para reduzir o turismo na ilha, ou o tráfico de droga com vista à obtenção de fundos de apoios à contra revolução.

Talvez pela complexidade da história, onde ninguém está inocente, o por Assayas se cingir fielmente ao guião dos acontecimentos, tal como aliás já tinha feito em 2010 com “Carlos”, a história do revolucionário Venezuelano Ramírez Sánchez, o filme perde alguma dinâmica apesar do bom desempenho dos atores utilizados com particular destaque para René Gonzáles e sua mulher Olga; (Penélope Cruz) e filha Irma (Osdeymi Pastrana) em torno dos quais se desenvolve o drama da separação por motivos patrióticos e o pendor emocional que o filme merece.

Eles são pilotos de aviões, fogem e são utilizados pela resistência anti Castro para raids de salvação de refugiados à deriva no mar das Caraíbas, lançar panfletos de propaganda anti Castro sobre Havana e para o transporte de droga desde a Bolívia ou Nicarágua até à Florida. Nesta atividade é claro que outros interesses começam a emergir e outros pilotos, tal como Juan Pablo Roque (Wagner Moura), que já vem com outros contactos e outras motivações, estabelece um tórrido romance com Ana Magarita Martinez (Ana de Armas) como cobertura da sua atividade e consuma a atitude mais velhaca entre duas pessoas num relacionamento e não só.

A sequência do argumento contém desenvolvimentos surpreendentes mostrando diversas atividades que povoam o universo da espionagem e da contra espionagem, porque para o governo de Bill Clinton não é totalmente líquido o apoio aos anti castristas, bem como a permissão de atividades de contra espionagem no seio da organização “Brothers to the Rescue” de apoio aos novos desertores.

É pois toda esta dinâmica intrincada que Assayas nos oferece, que domina as pessoas que a carregam nem sempre com os mesmos objetivos e em que Assayas não se quer imiscuir demasiado retirando algo da perspetiva histórica, das paixões ideológicas e da política, concentrando-se nos múltiplos eventos e relações complicadas no seio do grupo que sucessivamente vem crescendo em número de elementos e de funções. Assayas não foge de todo aos motivos de revolta da alma de um país, mas devido à densidade da narrativa o espírito revolucionário fica adormecido nas atitudes dos seus protagonistas.

Tem valor suficiente para proporcionar um bom espetáculo e está disponível nos cinemas da NOS.

Classificação: 6 numa escala de 10

2 de julho de 2020

Opinião – “Senhores do Crime” de Guy Ritchie


Sinopse

A história do expatriado americano Mickey Pearson um homem que construiu um império de marijuana altamente lucrativo em Londres. Quando se torna pública a notícia de que ele está a tentar lucrar com os negócios para se puder reformar, desencadeiam-se conspirações, esquemas, suborno e chantagem, com a única tentativa de sabotarem o seu domínio de luxo. Realizado por Guy Ritche (Snatch – Porcos e Diamantes; Um Mal Nunca Vem Só) e com Hugh Grant, Michelle Dockery e Charlie Hunnam.

Opinião por Artur Neves

Aí está a reabertura do cinema ao vivo, isto é, em sala… não se trata de uma televisão melhor ou pior, mas da sala escura, onde podemos viver emoções através do visionamento de uma história. Claro que para defesa das distribuidoras e também pela escassez de produção durante os tempos duros que atravessamos (porque a crise ainda não passou) as salas abrem com reposições e no presente caso; “The Gentlemen – Senhores do Crime” é uma reposição feliz por se tratar de um filme contado de uma forma particular por Fletcher (Hugh Grant) um investigador privado, contratado para investigar os negócios de Michael Pearson (Matthew McConaughey) que pretende vender o seu negócio de patrão da droga para se poder reformar e gozar o resto da vida com sua mulher Rosalind (Michelle Dockery) como que de um trabalhador regular se tratasse.

O problema não reside nos desejos de Michael Pearson (tratado carinhosamente por Mickey) mas antes nos potenciais compradores que rivalizam entre si a aquisição do império de Mickey que inclui o multimilionário americano Matthew Berger (Jeremy Strong) e o mafioso chinês Dry Eye (Henry Golding) que não olha a meios para conseguir o que ele já considera seu antes de o possuir.

Fletcher, amigo de longa data de Mickey, aparece em casa dele para uma longa conversa sobre o negócio em que dirime argumentos a favor e contra os potenciais adquirentes, transformando a história numa versão vintage no universo dos filmes de Guy Ritchie.

Este realizador britânico que teve um auspicioso início com filmes negros, ambientados em universos de crime e diálogos espirituosos que evidenciavam o sotaque da Inglaterra profunda e das docas, mudou-se a certa altura para os sucessos de bilheteira de Sherlock Holmes, 2009 e, pior ainda, Aladdin, 2019, para o qual escreveu o argumento, tenta agora redimir-se com esta nova comédia trágica no mundo da droga em Inglaterra, para a qual convida atores de nomeada e com larga experiência, para desenvolverem um trabalho tão árduo como inovador.

Os factos narrados por Fletcher, são visionados na tela como ilustração dos seus argumentos, mas nem sempre correm como previsto, porque Mickey já os antecipara e em certas situações até neutralizara os seus efeitos, mas os dados estão lançados e a narrativa prende o espectador a uma ação que é descrita por Fletcher de uma certa maneira e ocorrem com algumas nuances que estragam as melhores previsões. Deste modo, alguma ação é repetida em duas versões, enquanto Fletcher e Mickey manipulam a realidade sombria nas ficções de Fletcher o que torna o filme credor de alguma complacência do espectador durante os 113 minutos de duração.

No meu entender é por uma boa causa, pois assim transforma-se um nefasto submundo numa sofisticada comédia, polvilhada de piadas racistas sobre chineses cujo autor é o próprio Dry Eye. Mickey por seu lado revela-nos um Matthew McConaughey diferente daquele que conhecemos nos anos 90 e que lhe trouxe o Oscar em “O Clube de Dallas” de 2013, ou “Interstellar” de 2014. Mickey aqui é um sóbrio mafioso, pachorrento nas palavras, muito sentado e quieto, estranha-se, mas o personagem não pede mais.

Por outro lado, de Colin Farrell, aparece como um treinador de box num personagem absolutamente secundário mas animado de um frenesim e uma agitação que o argumento deveria incluir mais no enredo da história. No global é um filme que se vê com agrado, tem suspense e indefinição até ao final, constituindo uma boa opção para uma rentrée tão esperada.

Classificação: 6,5 numa escala de 10

3 de abril de 2020

Opinião – “Cloud Atlas” de Tom Tykwer e Lilly e Lana Wachowski


Sinopse

Cloud Atlas explora como as ações e as consequências das vidas individuais se afetam mutuamente no passado, no presente e no futuro. Ação, mistério e romance se entrelaçam dramaticamente ao longo da história, à medida que uma alma é transformada em assassina em herói e um único ato de bondade ondula ao longo dos séculos para inspirar uma revolução no futuro distante. Cada membro do conjunto aparece em vários papéis à medida que as histórias se movem no tempo.

Opinião por Artur Neves

Numa altura de endurecimento das medidas restritivas de movimentação e de insistente recomendação de permanência em casa recomendo um filme que areja a imaginação e nos justifica a permanência em casa por 172 minutos. É um filme de grande orçamento, US$ 100 milhões, já raro em Hollywood, mas que ainda assim foi coberto pela receita, tendo dado lucro aos produtores.
Cloud Atlas, estreado em 2012 é baseado no romance de David Mitchell com o mesmo nome e reuniu várias nomeações para prémios literários, não sem que o seu autor fosse acusado de ambição desmedida para o fim a que se propunha, abordando um tema entre o místico e o científico, muito embora a ciência nunca tenha apresentado dados, nem teses concretas sobre a reencarnação da espécie ao longo dos tempos.
O filme não vai tão longe e ainda bem. Tom Tykwer e as irmãs Wachowski que são também os autores do argumento pegaram nas seis histórias descritas no livro entre os anos de 1849 e 2321 e entreteceram eventos demarcados no tempo com personagens que se ligam por uma marca de nascença em forma de cometa que os vincula a uma referência originária, perene e continuadora de comportamentos pré estabelecidos, por uma genealogia ancestral que se renova sucessivamente.
Os eventos que compõem cada história estão remotamente relacionados e resultam muito bem em cinema pela explosão de cores e cenários que apresentam, numa imagem bem conseguida que nos transporta do sublime ao ridículo e nos prende durante todo o tempo.
O elenco é liderado por Tom Hanks e Halle Berry, coadjuvado por outros atores de primeira grandeza e por um número significativo de bandas britânicas da época que corporizam personagens que ao longo de cada segmento do filme enfatizam o tema da reencarnação e a repetição dos ciclos de vida com uma finalidade comum em cada época em que são retratados.
Não é um filme que se possa contar, ou onde se possa destacar um resumo lógico, porque a interpretação de cada imagem é propriedade de quem a vê, mas no seu todo, mostra ação, romance, investigação filosófica, cenas ridículas com sotaques tolos que macaqueiam personalidades burlescas em atitudes reais, numa vertigem sequencial que pretende confundir o espectador até o levar com ele embora sem saber bem porquê.
Pode dizer-se que é um filme indisciplinado e louco, o que todavia não constitui qualquer obstáculo para um filme épico que passa por exemplo, de uma comédia contundente num lar de idosos em Inglaterra para uma corrida de carros voadores na Coreia, ou que apresenta um assassino loiro quase branco, uma histriónica enfermeira de seios enormes segundo o modelo dos Supertramp em Breakfast in América ou o mais improvável maestro nazi.
Há reclamações de que o filme é confuso e em boa verdade não posso deixar de concordar, contudo afirmo não ser pior do que alguns, muitos, episódios da série “Game of Thrones” que tanto sucesso teve e analisando o seu conceito macro percebe-se que cada história, com o seu enredo próprio, consegue ligar-se ao longo dos tempos em que decorre sendo isso o elemento determinante do seu interesse e importância.
Está disponível amanhã, 4 de abril, pelas 21h30’ no canal NOS Stúdio, ou em qualquer altura se tiver possibilidade de “viajar no tempo”, ou então no canal Neteflix. De qualquer modo prometo que não se vai arrepender.

Classificação: 8 numa escala de 10

31 de março de 2020

Opinião – “Mistério a Bordo” de Kyle Newacheck


Sinopse

Para renovar os votos de casamento, um polícia de Nova Iorque e sua esposa embarcam numa viagem para a Europa. Durante o voo, eles conhecem um homem misterioso que os convida para passar o fim de semana no iate do bilionário Malcolm Quince. Contudo, quando o mesmo é encontrado morto, o casal americano torna-se o principal suspeito do crime. Juntos, eles tentarão a todo custo investigar o caso e provar sua inocência.

Opinião por Artur Neves

Numa altura em que o tempo e a vida se esvaem sem utilidade nem préstimo, neste confinamento domiciliário obrigatório embora prudente, seria bom conseguir parar o cérebro e para ajudar a esse objetivo nada melhor do que uma comédia de mistério e romance com um ator (Adan Sandler) que se reinventou nesse extraordinário filme, também já comentado neste blogue; “Diamante Bruto” para a mesma produtora, Netflix, que nos traz a presente proposta.
Trata-se de uma história policial na linha dos contos de Agatha Christie com o seu Poirot de pacotilha na figura de Nick Spitz (Adam Sandler) com todos os ingredientes do género incluindo a sábia exibição da dedução do crime perante todos os suspeitos do costume reunidos em plácida e atenta audição, bem como o responsável da polícia local, Inspetor de la Croix (Dany Boon) incluído na contemplativa assistência.
Só que nenhum dos personagens corresponde ao figurino da mestra, Nick e sua esposa Audrey Spitz (Jennifer Aniston) que até já foram casados na vida real, estão a bordo do iate do magnata Malcolm Quince (Terence Stamp) sempre sério e respeitável como o conhecemos, por razões avulsas e casuais, constituindo a categoria de “penetras” numa reunião familiar com a qual não têm relação alguma e assistem ao assassinato de Quince, em plena cerimónia de anúncio do casamento deste com Suzi Nakamura (Shioli Kutsuna) ex-namorada de Charles Cavendish (Luke Evans) e da comunicação da alteração do testamento, inicialmente distributivo pelos presentes a agora destinado a uma única pessoa.
Nestas condições o casal Spitz torna-se o alvo preferencial de incriminação pelo assassino e já que a polícia é incapaz de deslindar o enredo por de traz do crime, caberá a eles defenderem-se provando a sua inocência através da descoberta do verdadeiro culpado.
É a partir daqui que a paródia se desenrola, com fugas mirabolantes, assassinatos de outros intervenientes, perseguições de carros nas ruas estreitas do Mónaco ao melhor nível de James Bond, com o casal Spitz no centro das operações, ele como candidato chumbado no exame a detetive e literalmente sem pontaria na utilização de armas de fogo e ela, cabeleireira de profissão, mas arguta no raciocínio de investigação e líder da “equipa” assim formada, que tem de descobrir os culpados.
O argumento é simples e o realizador Kyle Newacheck aposta forte na capacidade interpretativa dos seus personagens, criando condições que nos fazem pensar que todos são culpados, e de facto são, se nos deixarmos arrastar pela vertigem dos gags mais ou menos comuns de um grupo bem disposto que só nos quer animar. Aniston e Sandler mostram suficiente amizade depois do divórcio que podemos ainda vislumbrar alguma química entre eles e ela dedicou-se de tal modo ao personagem que o faz brilhar uns “furos” acima do de Sandler, justificando a sua escolha.
Nesta altura, a carreira de Adan Samdler ainda está congelada nas travessuras avulsas que é comum ele mostrar nos filmes que fez até aqui. A tentativa de ser o maior e o mais corajoso, a indumentária escolhida para um jantar de cerimónia, o cartão prenda de US $50 que ele comprou para oferecer a Audrey no aniversário dos seus 10 anos de casamento.
É um filme para ver e esquecer, tal como o tempo que vivemos é igualmente para esquecer, vale enquanto dura e se durante esse tempo nos conseguirmos alhear dos problemas que nos cercam, vale completamente a classificação que lhe atribuo a seguir.

Classificação: 6 numa escala de 10

26 de março de 2020

Opinião – “Transiberiano” de Brad Andersen


Sinopse

Depois de uma missão religiosa na China, Roy (Woody Harrelson) e Jessie (Emily Mortimer) decidem fazer a viagem de regresso no célebre Expresso Transiberiano, passando por Moscovo. Durante o longo percurso de seis dias, travam conhecimento com Carlos e Abby, um estranho casal. Apesar de parecerem dois turistas como quaisquer outros, cedo revelam não ser o que aparentam. Mas quando dois detectives russos entram no comboio, Jessie compreende que algo terrível vai acontecer. Ela e Roy acabam por tornar-se alvos de uma investigação, comandada por um ex-detective do KGB (Ben Kingsley), e que envolve tráfico de drogas.

Opinião por Artur Neves

Proponho hoje a revisitação de um filme que foi estreado em Portugal em Julho de 2009 e que pode ser visto amanhã, dia 27 de Março no canal NOS – Studio às 01h:55’ ou à hora que mais lhe convier desde que possa “viajar no tempo” e assistir ao filme em diferido, durante uma semana a contar da data de projeção. Outra opção é encomendar o DVD na Fnac por €5, ou adquirir o Blu-Ray na Amazon por €6. Apesar de se tratar de um filme com 11 anos ainda é agradável e emocionante de assistir.
A história decorre numa viagem do comboio Transiberiano, que liga Pequim a Moscovo através das paisagens geladas da Sibéria acompanhando a viagem de uma casal americano jovem; Roy (Woody Harrelson, quando ainda interpretava personagens de jovem inconsciente) e Jessie que travam conhecimento com outro casal jovem, mas não inconsciente como eles; Carlos (Eduardo Noriega) e Abby (Kate Mara) e se envolvem numa relação de proximidade que posteriormente se revela comprometedora.
Roy e Jessi regressam de uma missão de caridade na China organizada pela sua igreja e utilizam aquele meio de transporte por uma questão de aventura, recusando o voo que lhes estava destinado. Vamos posteriormente descobrindo que a relação entre os dois resultou de um desastre provocado por álcool e droga e que ambos se ampararam entre si na recuperação. São dois seres em expiação de culpas passadas.
Carlos e Abby, pelo contrário são dois mochileiros que viajam por vocação à procura do seu lugar no mundo não rejeitando tarefas ilegais que lhe possam render dinheiro fácil. Todavia, Carlos procura deliberadamente o sucesso a qualquer preço, enquanto Abby apenas pretende conseguir resgatar o seu paraíso idílico, numa postura diferente da do seu companheiro.
A história complica-se quando Roy conhece Grinko (Ben Kingsley), um inspetor Russo do departamento de narcóticos que nunca mais o larga e se esforça por lhe tentar ensinar Russo em todas as situações e se insinua na vida do casal sem uma razão explicita que a suporte. Adicionado a isto, os colegas de de Grinko na investigação não aparentam a condição de polícias, sendo desculpados por este com respostas evasivas. Apenas a insistência de Grinko na envolvência com o casal provoca a subida de tensão nos diálogos e nas cenas.
Aqui chegados, temos o quadro completo do “suspense hitchcockiano", um meio confinado ao comboio em movimento, um número de personagens restrito e já conhecido, embora não completamente definido, e uma história que começa a revelar as suas mutações com todos os personagens a terem alguma coisa para esconder para conseguirem manter as premissas anteriormente assumidas. Em cada quadro do enredo, em cada insistência de Grinko, em todas as aproximações de Grinko ao casal Roy e Jessi pode sentir-se a presença velada do mestre do suspense e da emoção crescente.
O deserto árido e gelado da Sibéria reforça o isolamento dos personagens e constitui o elemento estático da tensão e da insegurança que o realizador Brad Andersen constrói lentamente desde as primeiras cenas, onde ninguém pode sentir-se seguro, porque a sugestão do desastre é iminente, todavia, quando acontece não corresponde ao que se esperava e isso é divertimento puro de cinema. Recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

10 de março de 2020

Opinião – “A Verdade” de Hirokazu Koreeda


Sinopse

Fabienne (Catherine Deneuve), um ícone do cinema, é a mãe de Lumir (Juliette Binoche), que escreve argumentos em Nova Iorque.
A publicação das memórias daquela grande atriz leva Lumir a regressar à casa da sua infância, com a família.
Mas o reencontro depressa virará confrontação: verdades abafadas, rancores inconfessados e amores impossíveis revelam-se sob os olhares espantados dos homens. Fabienne está a fazer um filme de ficção-científica onde tem o papel da filha envelhecida de uma mãe perpetuamente jovem. Realidade e ficção confundem-se, obrigando mãe e filha a reencontrar-se…
Realizado pelo japonês Hirokazu Koreeda, “A Verdade” é o primeiro filme do realizador após a nomeação de ‘Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões’ ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Opinião por Artur Neves

A primeira coisa que me surge para dizer sobre este filme é que é um filme estranho, se não vejamos: Realizado pelo japonês Hirokazu Koreeda detentor da Palme d’Or em Cannes 2018 com o filme “Shoplifters: Uma família de Pequenos Ladrões” a dirigir um filme de ficção científica em França, com Fabienne Dangeville (Catherine Deneuve), que com 73 anos é mais velha do que a mãe, Amy (Ludivine Sagnier) que não envelhece por estar a viver num outro planeta longe da Terra e deslocou-se para ver a filha.
Por seu lado Fabienne, recebeu a visita da filha, Lumir (Juliette Binoche) argumentista, que vive em Nova Yorque com seu marido Hank (Ethan Hawke – um ator que nunca valorizei mas que está francamente a melhorar) e a filha do casal, Charlotte (Clémentine Grenier) numa história de família falada em Francês e Inglês, incluindo a pequena Charlotte, um cão, mas que nem ladra e um cágado… obviamente mudo.
Confuso?... eu também fiquei, mas as coisas vão-se compondo com uma história irónica, uma Fabienne coquete que se assume como mentirosa, alegando que por ser atriz tem todo o direito para tal e uma Lumir que viaja até à Europa para assistir ao lançamento do romance autobiográfico da mãe, depois de lhe corrigir a versão final do texto, reconhecendo-lhe as inverdades que ela recorda de atenções e cuidados pela filha, mas de que ela não se lembra e os contesta.
Fabienne não liga muito ao assunto nem às correções apontadas pela filha e admite alegremente as falhas referidas por Lumir justificando-se com o facto de a verdade ser mais chata do que a versão que ela arranjou para o livro, ter querido ser melhor atriz do que realmente é, ser egoísta, frívola, sem instintos maternais e oportunista em usar os outros a seu belo prazer, fazendo-se amar apenas pelos que não a conhecem ou privam de perto com ela. Despachou o marido, pai de Lumir, e vive já com o terceiro substituto cuja principal caraterística é servir-lhe sempre o chá à temperatura que ela gosta, apesar de ser um desastre na cama.
Uma temática destas não é comum em filmes franceses, particularmente com atores tão significativos da cultura francesa, portanto só pode ser classificado como um filme estranho. Por outro lado parece ser uma imagem invertida de “Shoplifters”, onde se conta uma história de estranhos que parecem ser parentes. Aqui, conta-se a história de parentes que parecem ser estranhos e constitui o grande trunfo de Koreeda que nos “pinta” um quadro de família comovente e caloroso, com ironia e malícia suficiente que nos prende em diálogos surpreendentes.
Considerando obras anteriores deste autor, tais como; “Andando” de 2008 ou “Tal Pai Tal Filho” de 2013, pode concluir-se ser mais uma manifestação da tendência de escalpelização das relações familiares de Koreeda, que nos oferece a sua visão perspicaz e inteligente sobre a natureza dos relacionamentos entre pais e filhos e a sua evolução numa família moderna onde as coisas não acontecem como tradicionalmente deveriam acontecer, ou esperamos que aconteçam.
Por oposição, decorrem as relações entre Fabienne e Amy no filme de ficção científica que ambas estão a filmar e que tanto desagrada a Fabienne, que tem de ser forçada a voltar ao estúdio para que não seja acusada de rutura de contrato.
Trata-se portanto de uma história ousada que identifica a família como uma coisa viva, animada, onde é perigoso confiar totalmente na justeza da memória do passado, retirando-lhe a oportunidade de se renovar e de se compor com novas realidades. Algo complexo mas interessante, recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10