Mostrar mensagens com a etiqueta NOS Audiovisuais. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta NOS Audiovisuais. Mostrar todas as mensagens

3 de abril de 2020

Opinião – “Cloud Atlas” de Tom Tykwer e Lilly e Lana Wachowski


Sinopse

Cloud Atlas explora como as ações e as consequências das vidas individuais se afetam mutuamente no passado, no presente e no futuro. Ação, mistério e romance se entrelaçam dramaticamente ao longo da história, à medida que uma alma é transformada em assassina em herói e um único ato de bondade ondula ao longo dos séculos para inspirar uma revolução no futuro distante. Cada membro do conjunto aparece em vários papéis à medida que as histórias se movem no tempo.

Opinião por Artur Neves

Numa altura de endurecimento das medidas restritivas de movimentação e de insistente recomendação de permanência em casa recomendo um filme que areja a imaginação e nos justifica a permanência em casa por 172 minutos. É um filme de grande orçamento, US$ 100 milhões, já raro em Hollywood, mas que ainda assim foi coberto pela receita, tendo dado lucro aos produtores.
Cloud Atlas, estreado em 2012 é baseado no romance de David Mitchell com o mesmo nome e reuniu várias nomeações para prémios literários, não sem que o seu autor fosse acusado de ambição desmedida para o fim a que se propunha, abordando um tema entre o místico e o científico, muito embora a ciência nunca tenha apresentado dados, nem teses concretas sobre a reencarnação da espécie ao longo dos tempos.
O filme não vai tão longe e ainda bem. Tom Tykwer e as irmãs Wachowski que são também os autores do argumento pegaram nas seis histórias descritas no livro entre os anos de 1849 e 2321 e entreteceram eventos demarcados no tempo com personagens que se ligam por uma marca de nascença em forma de cometa que os vincula a uma referência originária, perene e continuadora de comportamentos pré estabelecidos, por uma genealogia ancestral que se renova sucessivamente.
Os eventos que compõem cada história estão remotamente relacionados e resultam muito bem em cinema pela explosão de cores e cenários que apresentam, numa imagem bem conseguida que nos transporta do sublime ao ridículo e nos prende durante todo o tempo.
O elenco é liderado por Tom Hanks e Halle Berry, coadjuvado por outros atores de primeira grandeza e por um número significativo de bandas britânicas da época que corporizam personagens que ao longo de cada segmento do filme enfatizam o tema da reencarnação e a repetição dos ciclos de vida com uma finalidade comum em cada época em que são retratados.
Não é um filme que se possa contar, ou onde se possa destacar um resumo lógico, porque a interpretação de cada imagem é propriedade de quem a vê, mas no seu todo, mostra ação, romance, investigação filosófica, cenas ridículas com sotaques tolos que macaqueiam personalidades burlescas em atitudes reais, numa vertigem sequencial que pretende confundir o espectador até o levar com ele embora sem saber bem porquê.
Pode dizer-se que é um filme indisciplinado e louco, o que todavia não constitui qualquer obstáculo para um filme épico que passa por exemplo, de uma comédia contundente num lar de idosos em Inglaterra para uma corrida de carros voadores na Coreia, ou que apresenta um assassino loiro quase branco, uma histriónica enfermeira de seios enormes segundo o modelo dos Supertramp em Breakfast in América ou o mais improvável maestro nazi.
Há reclamações de que o filme é confuso e em boa verdade não posso deixar de concordar, contudo afirmo não ser pior do que alguns, muitos, episódios da série “Game of Thrones” que tanto sucesso teve e analisando o seu conceito macro percebe-se que cada história, com o seu enredo próprio, consegue ligar-se ao longo dos tempos em que decorre sendo isso o elemento determinante do seu interesse e importância.
Está disponível amanhã, 4 de abril, pelas 21h30’ no canal NOS Stúdio, ou em qualquer altura se tiver possibilidade de “viajar no tempo”, ou então no canal Neteflix. De qualquer modo prometo que não se vai arrepender.

Classificação: 8 numa escala de 10

31 de março de 2020

Opinião – “Mistério a Bordo” de Kyle Newacheck


Sinopse

Para renovar os votos de casamento, um polícia de Nova Iorque e sua esposa embarcam numa viagem para a Europa. Durante o voo, eles conhecem um homem misterioso que os convida para passar o fim de semana no iate do bilionário Malcolm Quince. Contudo, quando o mesmo é encontrado morto, o casal americano torna-se o principal suspeito do crime. Juntos, eles tentarão a todo custo investigar o caso e provar sua inocência.

Opinião por Artur Neves

Numa altura em que o tempo e a vida se esvaem sem utilidade nem préstimo, neste confinamento domiciliário obrigatório embora prudente, seria bom conseguir parar o cérebro e para ajudar a esse objetivo nada melhor do que uma comédia de mistério e romance com um ator (Adan Sandler) que se reinventou nesse extraordinário filme, também já comentado neste blogue; “Diamante Bruto” para a mesma produtora, Netflix, que nos traz a presente proposta.
Trata-se de uma história policial na linha dos contos de Agatha Christie com o seu Poirot de pacotilha na figura de Nick Spitz (Adam Sandler) com todos os ingredientes do género incluindo a sábia exibição da dedução do crime perante todos os suspeitos do costume reunidos em plácida e atenta audição, bem como o responsável da polícia local, Inspetor de la Croix (Dany Boon) incluído na contemplativa assistência.
Só que nenhum dos personagens corresponde ao figurino da mestra, Nick e sua esposa Audrey Spitz (Jennifer Aniston) que até já foram casados na vida real, estão a bordo do iate do magnata Malcolm Quince (Terence Stamp) sempre sério e respeitável como o conhecemos, por razões avulsas e casuais, constituindo a categoria de “penetras” numa reunião familiar com a qual não têm relação alguma e assistem ao assassinato de Quince, em plena cerimónia de anúncio do casamento deste com Suzi Nakamura (Shioli Kutsuna) ex-namorada de Charles Cavendish (Luke Evans) e da comunicação da alteração do testamento, inicialmente distributivo pelos presentes a agora destinado a uma única pessoa.
Nestas condições o casal Spitz torna-se o alvo preferencial de incriminação pelo assassino e já que a polícia é incapaz de deslindar o enredo por de traz do crime, caberá a eles defenderem-se provando a sua inocência através da descoberta do verdadeiro culpado.
É a partir daqui que a paródia se desenrola, com fugas mirabolantes, assassinatos de outros intervenientes, perseguições de carros nas ruas estreitas do Mónaco ao melhor nível de James Bond, com o casal Spitz no centro das operações, ele como candidato chumbado no exame a detetive e literalmente sem pontaria na utilização de armas de fogo e ela, cabeleireira de profissão, mas arguta no raciocínio de investigação e líder da “equipa” assim formada, que tem de descobrir os culpados.
O argumento é simples e o realizador Kyle Newacheck aposta forte na capacidade interpretativa dos seus personagens, criando condições que nos fazem pensar que todos são culpados, e de facto são, se nos deixarmos arrastar pela vertigem dos gags mais ou menos comuns de um grupo bem disposto que só nos quer animar. Aniston e Sandler mostram suficiente amizade depois do divórcio que podemos ainda vislumbrar alguma química entre eles e ela dedicou-se de tal modo ao personagem que o faz brilhar uns “furos” acima do de Sandler, justificando a sua escolha.
Nesta altura, a carreira de Adan Samdler ainda está congelada nas travessuras avulsas que é comum ele mostrar nos filmes que fez até aqui. A tentativa de ser o maior e o mais corajoso, a indumentária escolhida para um jantar de cerimónia, o cartão prenda de US $50 que ele comprou para oferecer a Audrey no aniversário dos seus 10 anos de casamento.
É um filme para ver e esquecer, tal como o tempo que vivemos é igualmente para esquecer, vale enquanto dura e se durante esse tempo nos conseguirmos alhear dos problemas que nos cercam, vale completamente a classificação que lhe atribuo a seguir.

Classificação: 6 numa escala de 10

26 de março de 2020

Opinião – “Transiberiano” de Brad Andersen


Sinopse

Depois de uma missão religiosa na China, Roy (Woody Harrelson) e Jessie (Emily Mortimer) decidem fazer a viagem de regresso no célebre Expresso Transiberiano, passando por Moscovo. Durante o longo percurso de seis dias, travam conhecimento com Carlos e Abby, um estranho casal. Apesar de parecerem dois turistas como quaisquer outros, cedo revelam não ser o que aparentam. Mas quando dois detectives russos entram no comboio, Jessie compreende que algo terrível vai acontecer. Ela e Roy acabam por tornar-se alvos de uma investigação, comandada por um ex-detective do KGB (Ben Kingsley), e que envolve tráfico de drogas.

Opinião por Artur Neves

Proponho hoje a revisitação de um filme que foi estreado em Portugal em Julho de 2009 e que pode ser visto amanhã, dia 27 de Março no canal NOS – Studio às 01h:55’ ou à hora que mais lhe convier desde que possa “viajar no tempo” e assistir ao filme em diferido, durante uma semana a contar da data de projeção. Outra opção é encomendar o DVD na Fnac por €5, ou adquirir o Blu-Ray na Amazon por €6. Apesar de se tratar de um filme com 11 anos ainda é agradável e emocionante de assistir.
A história decorre numa viagem do comboio Transiberiano, que liga Pequim a Moscovo através das paisagens geladas da Sibéria acompanhando a viagem de uma casal americano jovem; Roy (Woody Harrelson, quando ainda interpretava personagens de jovem inconsciente) e Jessie que travam conhecimento com outro casal jovem, mas não inconsciente como eles; Carlos (Eduardo Noriega) e Abby (Kate Mara) e se envolvem numa relação de proximidade que posteriormente se revela comprometedora.
Roy e Jessi regressam de uma missão de caridade na China organizada pela sua igreja e utilizam aquele meio de transporte por uma questão de aventura, recusando o voo que lhes estava destinado. Vamos posteriormente descobrindo que a relação entre os dois resultou de um desastre provocado por álcool e droga e que ambos se ampararam entre si na recuperação. São dois seres em expiação de culpas passadas.
Carlos e Abby, pelo contrário são dois mochileiros que viajam por vocação à procura do seu lugar no mundo não rejeitando tarefas ilegais que lhe possam render dinheiro fácil. Todavia, Carlos procura deliberadamente o sucesso a qualquer preço, enquanto Abby apenas pretende conseguir resgatar o seu paraíso idílico, numa postura diferente da do seu companheiro.
A história complica-se quando Roy conhece Grinko (Ben Kingsley), um inspetor Russo do departamento de narcóticos que nunca mais o larga e se esforça por lhe tentar ensinar Russo em todas as situações e se insinua na vida do casal sem uma razão explicita que a suporte. Adicionado a isto, os colegas de de Grinko na investigação não aparentam a condição de polícias, sendo desculpados por este com respostas evasivas. Apenas a insistência de Grinko na envolvência com o casal provoca a subida de tensão nos diálogos e nas cenas.
Aqui chegados, temos o quadro completo do “suspense hitchcockiano", um meio confinado ao comboio em movimento, um número de personagens restrito e já conhecido, embora não completamente definido, e uma história que começa a revelar as suas mutações com todos os personagens a terem alguma coisa para esconder para conseguirem manter as premissas anteriormente assumidas. Em cada quadro do enredo, em cada insistência de Grinko, em todas as aproximações de Grinko ao casal Roy e Jessi pode sentir-se a presença velada do mestre do suspense e da emoção crescente.
O deserto árido e gelado da Sibéria reforça o isolamento dos personagens e constitui o elemento estático da tensão e da insegurança que o realizador Brad Andersen constrói lentamente desde as primeiras cenas, onde ninguém pode sentir-se seguro, porque a sugestão do desastre é iminente, todavia, quando acontece não corresponde ao que se esperava e isso é divertimento puro de cinema. Recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

10 de março de 2020

Opinião – “A Verdade” de Hirokazu Koreeda


Sinopse

Fabienne (Catherine Deneuve), um ícone do cinema, é a mãe de Lumir (Juliette Binoche), que escreve argumentos em Nova Iorque.
A publicação das memórias daquela grande atriz leva Lumir a regressar à casa da sua infância, com a família.
Mas o reencontro depressa virará confrontação: verdades abafadas, rancores inconfessados e amores impossíveis revelam-se sob os olhares espantados dos homens. Fabienne está a fazer um filme de ficção-científica onde tem o papel da filha envelhecida de uma mãe perpetuamente jovem. Realidade e ficção confundem-se, obrigando mãe e filha a reencontrar-se…
Realizado pelo japonês Hirokazu Koreeda, “A Verdade” é o primeiro filme do realizador após a nomeação de ‘Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões’ ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Opinião por Artur Neves

A primeira coisa que me surge para dizer sobre este filme é que é um filme estranho, se não vejamos: Realizado pelo japonês Hirokazu Koreeda detentor da Palme d’Or em Cannes 2018 com o filme “Shoplifters: Uma família de Pequenos Ladrões” a dirigir um filme de ficção científica em França, com Fabienne Dangeville (Catherine Deneuve), que com 73 anos é mais velha do que a mãe, Amy (Ludivine Sagnier) que não envelhece por estar a viver num outro planeta longe da Terra e deslocou-se para ver a filha.
Por seu lado Fabienne, recebeu a visita da filha, Lumir (Juliette Binoche) argumentista, que vive em Nova Yorque com seu marido Hank (Ethan Hawke – um ator que nunca valorizei mas que está francamente a melhorar) e a filha do casal, Charlotte (Clémentine Grenier) numa história de família falada em Francês e Inglês, incluindo a pequena Charlotte, um cão, mas que nem ladra e um cágado… obviamente mudo.
Confuso?... eu também fiquei, mas as coisas vão-se compondo com uma história irónica, uma Fabienne coquete que se assume como mentirosa, alegando que por ser atriz tem todo o direito para tal e uma Lumir que viaja até à Europa para assistir ao lançamento do romance autobiográfico da mãe, depois de lhe corrigir a versão final do texto, reconhecendo-lhe as inverdades que ela recorda de atenções e cuidados pela filha, mas de que ela não se lembra e os contesta.
Fabienne não liga muito ao assunto nem às correções apontadas pela filha e admite alegremente as falhas referidas por Lumir justificando-se com o facto de a verdade ser mais chata do que a versão que ela arranjou para o livro, ter querido ser melhor atriz do que realmente é, ser egoísta, frívola, sem instintos maternais e oportunista em usar os outros a seu belo prazer, fazendo-se amar apenas pelos que não a conhecem ou privam de perto com ela. Despachou o marido, pai de Lumir, e vive já com o terceiro substituto cuja principal caraterística é servir-lhe sempre o chá à temperatura que ela gosta, apesar de ser um desastre na cama.
Uma temática destas não é comum em filmes franceses, particularmente com atores tão significativos da cultura francesa, portanto só pode ser classificado como um filme estranho. Por outro lado parece ser uma imagem invertida de “Shoplifters”, onde se conta uma história de estranhos que parecem ser parentes. Aqui, conta-se a história de parentes que parecem ser estranhos e constitui o grande trunfo de Koreeda que nos “pinta” um quadro de família comovente e caloroso, com ironia e malícia suficiente que nos prende em diálogos surpreendentes.
Considerando obras anteriores deste autor, tais como; “Andando” de 2008 ou “Tal Pai Tal Filho” de 2013, pode concluir-se ser mais uma manifestação da tendência de escalpelização das relações familiares de Koreeda, que nos oferece a sua visão perspicaz e inteligente sobre a natureza dos relacionamentos entre pais e filhos e a sua evolução numa família moderna onde as coisas não acontecem como tradicionalmente deveriam acontecer, ou esperamos que aconteçam.
Por oposição, decorrem as relações entre Fabienne e Amy no filme de ficção científica que ambas estão a filmar e que tanto desagrada a Fabienne, que tem de ser forçada a voltar ao estúdio para que não seja acusada de rutura de contrato.
Trata-se portanto de uma história ousada que identifica a família como uma coisa viva, animada, onde é perigoso confiar totalmente na justeza da memória do passado, retirando-lhe a oportunidade de se renovar e de se compor com novas realidades. Algo complexo mas interessante, recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

5 de março de 2020

Opinião – “Os Melhores Anos da nossa Vida” de Claude Lelouch


Sinopse

Eles tinham-se conhecido há muitos anos, um homem e uma mulher cujo fascinante e inesperado romance, mostrado no agora icónico filme, revolucionou a forma como compreendemos o amor.
Hoje, o antigo piloto de automóveis de corrida parece incapaz de aceder às suas memórias; para o ajudar, o filho procura a mulher que o seu pai não conseguiu conservar, mas de quem não cessa de falar.
Anne volta a reunir-se com Jean-Louis e a ligação entre os dois recomeça no ponto onde eles a tinham deixado…

Opinião por Artur Neves

Claude Lelouch, atualmente com 83 anos, não se liberta da sua icónica obra-prima dos anos sessenta “Um Homem e uma Mulher” de 1966, filme largamente premiado e vencedor do Oscar desse ano, em que o jovem piloto de automóveis, Jean-Louis (Jean-Louis Trintignant) vive um tórrido caso de amor, simples mas sublime, com Anne (Anouk Aimée) e do qual já fez um remake em 1986, “Um Homem e uma Mulher: 20 anos depois” cuja aceitação crítica não pôde ter influenciado este retorno ao tema, pois esse filme ficou perdido na espuma do tempo, tal como até hoje se mantém.
Confesso que este autor já foi um dos meus preferidos naquele tempo, complementado com duas obras que reputo de muito interessantes; “Toda Uma Vida” de 1974, como introdução e “rascunho” de argumento do também icónico “Uns e os Outros” de 1981, onde ele retrata magistralmente o pós guerra europeu de 1939-45, entretecendo personagens significativos para época, numa história que contempla os sobreviventes do Holocausto e culmina na magistral interpretação do Bolero de Ravel, por Rudolf Nureyev na praça Trocadero em Paris.
Desta vez Lelouch junta novamente Anne e Jean-Louis, com 86 e 88 anos respetivamente, ela francamente mais apresentável e vibrante do que ele, que exibe uma lamentável impotência física e mental. Ele está ligado a uma cadeira de rodas, passa todo filme sentado na cadeira ou num sofá onde revê a sua antiga apaixonada e a reconhece brevemente por um movimento de remoção do cabelo dos olhos, mas toda a conversa entre os dois remete-se ao que foram, ao que sentiram e às memórias do que viveram que para Jean-Louis são sempre remotas e vagas. O único momento em pé de Jean-Louis é quando, ajudado por Anne, executa uma transição entre o sofá e a cadeira de rodas que promove a sua locomoção.
A magia do encontro é preenchida com flashbacks do passado que ambos viveram extraídos do filme de 1966, quando sentados no jardim da casa de repouso que serve de abrigo a Jean-Louis, ou em pequenos passeios no Citroen 2CV de Anne, que se vêm a revelar sonhos e devaneios da mente perturbada de Jean-Louis, enquanto sonha acordado com o amor que viveu e os fragmentos que recorda.
A velhice, a degradação física e mental das pessoas não será o elemento real mais importante para exibir num filme e por mais curioso que seja, ver Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimée representarem os personagens que os fixaram no nosso imaginário, talvez pela última vez, não terá o mesmo impacto nas novas gerações até aos 30 anos, para os quais o “amor dos avós” significa apenas um dos factos que lhes deu origem, ou para a geração até aos 60 anos, em que se consciencializa a eventual inevitabilidade daquele futuro mas que todavia desconhece e não quer partilhar, ou na geração posterior, que se assistir ao filme o olhará com indiferença, porque naturalmente a imagem refletida naquele “espelho” não é reconfortante para a consciencialização das suas capacidades perdidas.
A reunião tardia entre Anne e Jean-Louis, revivendo o amor que viveram e os lugares onde o praticaram, poderia ter acrescentado algo de novo á criação cinematográfica, mas tal não aconteceu decorrente da demasiada recorrência ao filme de 66, em confronto com uma realidade bem diversa que nada tem a ver com a desse tempo passado. O modo de Lelouch filmar é idêntico, a envolvência das emoções pela música também, mas o primeiro é vida pulsante, o segundo é o prenúncio da morte e cabe-nos a nós próprios definir o momento de sair de cena pelos nossos próprios meios.

Classificação: 4 numa escala de 10

3 de março de 2020

Opinião – “Mulheres de Armas” de Peter Cattaneo


Sinopse

Kate (Kristin Scott Thomas), é a mulher perfeita de um oficial, que suporta com elegância e estoicismo uma vida de ansiedade e solidão, quando ele se encontra ausente em missões militares.
Encontrando liberdade em cantar, ela convence um grupo de mulheres da base a formar o Coro de Mulheres de Militares.
Uma das mulheres, Lisa (Sharon Horgan) – recém-chegada, rebelde, inconformada e inicialmente cética pelo amadorismo do grupo, vê-se rapidamente convencida pela amizade, humor e coragem do coro, assumindo com Kate a sua direção.
Na busca de uma voz única, Kate, Lisa e o coro fazem frente às convenções e às suas próprias diferenças pessoais.
Entoando sucessos da pop e hinos do rock, este extraordinário grupo de mulheres acaba por transformar um hobby num sucesso inesperado, a nível nacional.
Inspirado num fenómeno global da vida real, “Mulheres de Armas” com as suas mulheres luminosas dão-nos força a todos, para – unidos – superarmos os nossos medos.

Opinião por Artur Neves

Esta história, é baseada em factos reais como nos é mostrado no fim do filme, o conjunto de coros femininos de esposas de militares em diferentes bases inglesas por todo o território da Grã-Bretanha, onde mitigam os seus medos e angustias em conjunto, ocupando o tempo em atividades de canto coral amador.
Só que, e ainda bem, a história mostra muito para lá das atividades canoras das participantes, toda a envolvência e relacionamento entre as esposas dos militares em que cada uma assume implicitamente uma posição equivalente à patente do seu marido, muito embora o seu estatuto oficial de esposa não lhe confira isso por direito.
Deste modo, mostram-se as relações entre as pessoas quando submetidas a um convívio, se não forçado, pelo menos fortemente condicionado pelas circunstancias da vida castrense e da situação de missão no exterior dos seus cônjuges.
E aqui o filme destaca-se pelos pormenores que frequentemente exibe sobre a censura velada que umas exercem sobre outras, a crítica pelas atitudes e pelos conceitos que lhes determinam o modo de estar em sociedade, muito focado no comportamento dos filhos, na solidão do seu estado, no medo do telefone ou do aviso oficial do desastre que temem em receber (nós sabemos que alguém vai morrer) vivendo um ambiente de privação sexual que as constrange e lhes motiva múltiplas referencias mais ou menos críticas à condição que envolve todas.
Neste caldo de relações sociais existe sempre alguém que se destaca e nesta história é a “coronela” Kate (Kristin Scott Thomas), fria, distante, convencionalmente organizada, mas também muito magoada pela perda do filho em combate, à qual se opõe, Lisa (Sharon Horgan) a “sargenta principal” truculenta, intuitiva, com propensão para a bebida, com pouco gosto para a casa, intransigente para com a filha adolescente e farta das repetidas ausências do marido, que protagoniza com Kate o melhor e mais completo bate-boca sobre o casamento, o sexo e as atitudes sociais que ele, ou a sua falta, provocam.
Depois claro, temos o coro, o revivalismo de canções do imaginário inglês mais comum e conhecido, desde Cyndi Lauper aos cantores clássicos que serve também como confrontação entre duas mulheres empenhadas em fazer acontecer coisas mas cada uma à sua maneira, do seu jeito e segundo as suas premissas, uma com planeamento e organização e a outra de forma mais casual e deixando as outras mulheres descobrirem as suas preferências e o seu próprio caminho, separadas dos seus parceiros.
Por entre os risos e as confrontações do grupo existe um drama latente, em suspenso em cada uma delas, que se juntam para espantar os pensamentos mais sombrios e transformar a espera no purgatório mais ameno que possam conseguir. É um filme de pormenores, de retalhos de vida, de convívio comprometido, que forma um microcosmo interessante para ser visto.

Classificação: 6 numa escala de 10

22 de fevereiro de 2020

Opinião – “Verdade Debaixo de Fogo” de Todd Robinson


Sinopse

William Pitsenbarger (Jeremy Irvine) foi um herói da guerra do Vietname. Paramédico da Força Aérea, salvou pessoalmente mais de 60 homens numa das batalhas mais sangrentas daquele conflito. Tendo oportunidade de fugir do campo de batalha no último helicóptero, Pitsenbarger ficou para salvar e defender os soldados feridos, acabando por ser morto por uma bala inimiga. Pelos seus atos heroicos, é proposto para a mais alta honra militar que um soldado pode alcançar - a Medalha de Honra do Congresso. No entanto, antes de ser atribuída, a medalha é-lhe retirada por razões indeterminadas.
Chamado para investigar esta questão, o Inspetor Scott Huffman (Sebastian Stan) é obrigado a investigar os obscuros e corruptos meandros políticos por detrás dessa decisão.
Com um forte elenco onde se destacam Samuel L. Jackson, William Hurt, Bradley Whitford, Ed Harris, Diane Ladd, Sebastian Stan, Verdade Debaixo de Fogo é o último filme do ator Peter Fonda.

Opinião por Artur Neves

É curioso verificar como um conflito dos anos 60 e 70 (começou em novembro de 1955 e terminou em abril de 1975) que marcou tão profundamente a sociedade americana desde 1964, ano em que os USA aumentaram significativamente os efectivos no terreno e se envolveram profundamente no conflito cujo resultado se cifrou em mais de 360 000 baixas entre; mortos, feridos e desaparecidos em combate, ainda justifica abordagens justiceiras para repor verdades históricas escondidas.
A história que este filme nos traz, muito bem escrita e contada pelo realizador Todd Robinson apresenta-nos a verdade sobre a morte em combate de William H. Pitsenbarger cuja dedicação abnegada à sua missão de médico de resgate da força aérea, foi responsável pela assistência de primeiros socorros a 60 soldados de infantaria, que por um erro de informação de localização destes efectivos, resultou numa das mais sangrentas e estúpidas batalhas desta guerra indefensável e desnecessária na história dos USA.
Quando Scott Huffman foi investido na tarefa de investigar o que realmente aconteceu e motivou o protelamento de 32 anos na atribuição do mais alto galardão de mérito militar a Pitsenbarger, estava longe de supor a grande injustiça que iria desvendar, perpetrada pela mais alta hierarquia militar para esconder a culpa e a incompetência dos seus atos na Operação Abilene, na primavera de 1966, responsável pela morte 36 soldados e 71 feridos. Todavia, a imputação de responsabilidade não é completa nem detalhada.
Este filme de guerra insere-se no género de “O Resgate do Soldado Ryan” de 1998 ou o mais recente “O Heroi de Hacksaw Ridge” de 2016, onde se reportam atos heróicos debaixo de fogo, esquecidos pela história, ou meramente apagados e escondidos, que se afirmam como um dos capítulos mais significativos que emergiram da guerra do Vietname.
O argumento é inteligente, porque alterna entre as descobertas de Scott Huffman no seguimento das revelações que ele vai colhendo, e os flashbacks com as cenas de batalha angustiantes e brutalmente intensas que ilustram os factos que ele vai compilando no desenvolvimento da tarefa que lhe foi confiada. Todos os outros personagens são bem conseguidos, com atores sólidos e experientes que agrada ver em palco.
É também um filme de encomenda onde se pretende reactivar o orgulho americano nas suas forças armadas que não têm desenvolvido as melhores performances noutros conflitos mais recentes onde têm estado envolvidas e o final é o que se esperava, em apoteose, com todos em pé prestando a homenagem merecida ao herói reconhecido. Fazer desta proposta um filme atraente para 116 minutos é difícil, mas não defrauda totalmente quem o escolhe.

Classificação: 6 numa escala de 10

17 de fevereiro de 2020

Opinião – “SEBERG - Contra todos os Inimigos” de Benedict Andrews


Sinopse

Jean Seberg (Kristen Stewart) é já uma conhecida atriz e apoiante do movimento pelos direitos civis, quando se envolve por Hakim Jamal (Anthony Mackie), um carismático ativista do movimento Black Power, e o seu relacionamento rapidamente passa de político para romântico. Esse envolvimento fazem dela um alvo do FBI, e os agentes Jack Solomon (Jack O'Connell) e Carl Kowalski (Vince Vaughn) tudo fazem para documentar esta relação.
Jack torna-se obcecado e atraído pela presença luminosa de Jean, o que a leva a perceber que está a ser seguida, tornando-se cada vez mais psicologicamente instável.
Empenhados em desacreditar Jean e o próprio movimento, o FBI lança informações escandalosas que dilaceram a família de Jean e erguem uma barreira entre ela e as suas paixões. Horrorizado com o impacto desta ação e envergonhado pela sua participação nela, Jack embarca numa missão de salvação e redenção que o coloca por momentos em contacto direto com Jean. Para ele, é simultaneamente um confronto com a sua obsessão e um ponto de viragem moral. Para Jean, é a confirmação de que foi vítima de um sistema corrupto e um reflexo do papel que desempenhou no seu próprio desenlace.

Opinião por Artur Neves

Com a extensa sinopse anterior enviada pelo distribuidor, a história de Jean Dorothy Seberg fica contada pelo que a seguir ficamos com a oportunidade de nos dedicarmos ao filme que Benedict Andrews nos apresenta. Realizador australiano nascido em Adelaide em 1972, e educado no Flinders University na Austrália, que não conta no seu histórico profissional com trabalhos de relevo, para o qual este biopic de Jean Seberg poderia ser a sua rampa de lançamento.
Poderia, mas definitivamente não é!... A história é boa, apresenta potencial de desenvolvimento noutras mãos que lhe saibam conferir a denúncia pública de interferência abusiva da poderosa organização de investigação americana, FBI, na vida particular e íntima de uma cidadã americana cuja verdadeira culpa é o desejo de igualdade entre as pessoas independentemente da sua cor de pele, contribuindo para essa causa com o seu dinheiro e a sua pessoa, imbuída de um espírito de justiça ingénuo, impróprio para a luta pelo poder, pensando que toda a sua vida pode continuar igual ao que era, apesar de se ter apaixonado pelo líder da organização Black Power e de permitir que a própria organização utilize as suas doações para fins diferentes dos inicialmente anunciados; a educação de crianças e jovens com vista a um mundo melhor (já nos cruzámos com isto tantas vezes!... que até doi…).
O que Benedict Andrews nos mostra é uma narrativa sem alma, dececionante e baseada em clichés sobre a vida da atriz, fantasiando a existência de um agente “bonzinho”, Jack Solomon, que tem muita pena e sente-se muito mal com o que está fazendo sem contudo deixar de continuar a praticar o mesmo registo e que num momento de remorso insuportável subtrai clandestinamente o dossier da atriz dos arquivos e leva-o para o mostrar a Jean Seberg numa atitude de patético arrependimento que não contribui literalmente para nada, nem para a justiça, nem para a condenação do Black Power, nem para a sua redenção ao serviço da torcionária organização, nem para a sua própria vida pessoal, já parcialmente desfeita com sua esposa Linette Solomon (Margaret Qualley) que suspeita que ele tem um caso decorrente do seu mutismo, tristeza e abandono em casa. Daqui, o sobre título do filme: “Contra todos os Inimigos”. Não há evidências históricas sobre este personagem, nem tão pouco que o FBI tenha sido acometido de alguma “dose de arrependimento” depois da sua intervenção.
Quanto aos outros personagens, Benedict também não os trata bem, são figuras menores, mostrando somente a sua relação com a atriz, sem “espessura”, sem a densidade dramática que a luta contra a segregação nos USA sempre motivou. São pouco mais do que folclóricos.
Salva-se Kristen Stewart que apresenta um bom desempenho como Jean Seberg, não só constituindo uma escolha feliz considerando as suas semelhanças físicas com a atriz, como mostrando que ainda se está revelando e tem muito para dar. Depois da saga Twilight em três partes que a projetou ao estrelato do público mais jovem e da sua boa prestação em “A Vingança de Lizzie Borden” de 2018 (já comentada neste blogue) temos aqui uma representação madura que só peca pelo que a narrativa não soube explorar, para ela vai toda a classificação a seguir indicada.

Classificação: 6 numa escala de 10

14 de fevereiro de 2020

Opinião – “Sonic – O Filme” de Jeff Fowler


Sinopse

Baseado no videojogo da Sega, sucesso à escala global, Sonic – O Filme conta a história do ouriço mais rápido do mundo a partir do momento em que este chega à sua nova casa – o planeta Terra. Nesta comédia e aventura live-action, Sonic e o seu novo melhor amigo Tom (James Marsden, da série de TV “Westworld”) juntam-se para defender o planeta do génio do mal, o Dr. Robotnik (Jim Carrey), e dos seus planos para domínio do mundo. Um filme para toda a família que conta ainda com Tika Sumpter e Ben Schwartz (voz de Sonic).

Opinião por Artur Neves

Sonic the Hedgehog é um personagem criado pela Sega em 1991 e que ficou sendo a sua mascote identitária na área dos jogos de computador. Chega agora ao cinema numa demonstração da sua capacidade principal – a velocidade – que usa contra o seu arqui-inimigo o Dr. Robotnik. O seu aparecimento corporizou a resposta da Sega ao sucesso do Super Mário da Nintendo, pela mesma época, em que já vendia abundantemente as aventuras de Mário no reino fictício do cogumelo.
Considerando que os jogos de computador privilegiam a resposta mecânica e a agilidade digital no acionamento de botões de um comando que interage com uma plataforma virtual, pode inferir-se que as questões colocadas na plataforma e que motivam a ação do jogador são muito simples, diretas e obvias que se completam com os cliques no comando. Assim sendo, a história do filme (tal como as histórias dos jogos) são praticamente iguais a zero.
Deste modo, esta conversão em cinema de um personagem carismático dos jogos de computador mais não é do que um tributo aos fans do género, na senda de obter na bilheteira um ganho adicional que potencie o franchaise do personagem em áreas ocupadas pelo Super Mário. Vendo o filme todo, mesmo até depois dos créditos finais, vemos o vilão, vencido pelo nosso ouriço veloz, perdido na Cogumelândia (Mushroom Hill como é conhecida nos jogos) prometer que estará de volta pelo Natal, portanto preparem-se porque um mal nunca vem só.
A juventude que cresceu com o personagem deve sentir-se honrada pela homenagem ao seu herói de eleição, porém todos os outros devem achar algo estranho o relacionamento de um ouriço com os humanos, para lá de que, até agora, as adaptações de jogos de computador ao cinema perdem a interação com o jogador, objetivo fundamental do jogo, e com isso, nunca se consegue constituir uma narrativa cinematográfica interessante.
Ainda assim, a melhor performance vem do Dr. Robotnik (Jim Carrey), que andava á algum tempo afastado dos ecrãs. Desempenha um génio louco, histriónico mas agradável q.b. que o coloca noutro patamar dos seus coadjuvantes, interpretando as melhores piadas do filme.
No aspeto técnico o filme é impecável, grande ecrã, cores vivas e muito realistas, combinação de atores humanos com banda desenhada, que apesar de não constituir novidade tem sofrido grande evolução bem visível neste filme. Muita ação, sem tempos mortos nem surpresas, porque, por mais poderoso que o Dr. Robotnik possa ser, Sonic encontra sempre um meio de o desfeitear até o transmutar para outra dimensão de espaço e tempo. Se é fan, este é o seu filme, caso contrário procure outra solução.

Classificação: 4 numa escala de 10

12 de fevereiro de 2020

Opinião – “Gretel & Hansel” de Oz Perkins


Sinopse

A história que todos conhecemos esconde um segredo sinistro. Há muito tempo, numa distante terra de contos de fadas, Gretel conduz o irmão para um bosque escuro em busca de comida e trabalho, encontrando em vez disso o caminho para um mal aterrorizador.
Do visionário realizador Oz Perkins, chega-nos uma nova e aterradora abordagem a um conto clássico, protagonizada por Sophia Lillis (It).

Opinião por Artur Neves

“Hänsel und Gretel” é um contro da tradição oral alemã, escrito pelos Irmãos Grimm e publicado pela primeira vez em 1812 como sendo uma versão esterilizada para a classe média do século XIX com a intenção de ilustrar a dureza da vida na Idade Média, devido à fome e á miséria generalizada, em que um casal profundamente carente de comida para se alimentar, abandona os filhos ao seu destino na floresta, para os salvar de serem comidos por eles próprios, se não pudessem resistir a essa tentação.
Nas suas deambulações pela floresta os dois irmãos encontram uma casa que pertence a uma bruxa que os alicia e entrar apresentando-lhes uma mesa com as maiores iguarias que eles alguma vez tinham visto, mas cuja verdadeira intenção era comer o pequeno Hansel, convencendo Gretel a ajudá-la a preparar a refeição.
Osgood (Oz) Perkins, ator e realizador americano, adapta este conto a um filme de terror, o que já anteriormente tinha sido realizado com mais espetacularidade, mas sem tanta intensidade dramática e elegância formal submetida à frugalidade da época em que a história se desenrola tornando este filme austero e sombrio.
Não se percebe a inversão dos nomes considerando que a história é praticamente a mesma da original. A caminhada pela floresta dos dois irmãos é longa e descritiva, recheada de revelações introspetivas daqueles dois seres ligados familiarmente mas que a carência alimentar e a fome que os assalta lhes provoca a visão sonhadora de outros seres e de outras realidades em que a presença das árvores somente acentua a sua solidão e isolamento.
O filme anima um pouco depois do encontro com uma misteriosa casa triangular situada na floresta. É a casa da saciedade com tantas e tão boas iguarias com que Holda (Alice Krige), a bruxa, alicia Gretel (Sophia Lillis) e Hansel (Samuel Leakey) e entrarem em casa para desfrutar do manjar que lhes é servido. A casa apresenta exteriormente uma forma aparentemente normal mas a sua dimensão interior é infinita, com uma cave onde cabem todas as magias e feitiços seguindo a fantasia de um argumento que se afirma numa estética baseada em cenários impressionantes e grotescos.
É a fase da consciencialização de Gretel e da responsabilização pelo seu pequeno irmão apesar de intimamente o acusar como responsável por se encontrarem ambos naquela situação e do ressentimento moral por ter recusado uma proposta anterior, atualmente vista com outros olhos.
Como fantasia, o filme segue os cânones do conto de fadas embora transformando inteligentemente a história original. Como filme de terror, o realizador procurou intensificar o sinistro que se adivinha e a inquietação subtil que perpassa em quase todas as cenas, do que o gore tradicional deste género, como tal, pode ser aceitável para um público que prefere o racional perturbador, em vez da morte gratuita e do sangue a jorros. Se não preferir a magia dos contos de fadas há melhores sugestões em cartaz.

Classificação: 5 numa escala de 10

5 de fevereiro de 2020

Opinião – “Especiais” de Olivier Nakache e Éric Toledano


Sinopse

Bruno (Vincent Cassel) e Malik (Reda Kateb) vivem num mundo diferente durante vinte anos: o mundo das crianças e dos adolescentes autistas. Responsáveis por duas organizações sem fins lucrativos (The Hatch e The Shelter), eles proporcionam formação a jovens de zonas desfavorecidas para que estes possam ser cuidadores em casos extremos recusados por todas as outras instituições. Trata-se de uma parceria excecional, à margem dos parâmetros tradicionais, para personagens bastante extraordinárias.
“Especiais”, da dupla de realizadores franceses Olivier Nakache e Eric Toledano que alcançaram o êxito com o filme ‘Amigos Improváveis’, (2012), foi o filme escolhido para o encerramento do 72º Festival de Cinema de Cannes.

Opinião por Artur Neves

A história deste filme corresponde ao relato diário da vida de duas instituições francesas dedicadas ao apoio voluntário a deficientes de autismo profundo sem quaisquer meios de apoio do estado Francês e perseguidos pela inspeção do Ministério da Saúde e de outras autoridades legais, por não terem licença oficial para exercer a atividade a que se dedicam.
Adicionalmente, Bruno, consegue um 2 em 1, isto é, considerando a ausência quase total de meios de apoio à atividade, Bruno convida ex-drogados, delinquentes em liberdade condicional e outros desvalidos da sociedade como adjuntos, para apoiarem individualmente os deficientes profundos assumidos pela instituição. Obviamente que eles não possuem formação específica e muitos deles nem a querem adquirir, mas têm ali uma oportunidade de valorização, de redenção para os delitos anteriores que a sociedade “normal” os acusou e marginalizou.
A organização de Bruno instila-lhes a possibilidade de serem úteis à sociedade, a necessidade de integração e de pertença à custa do seu recrutamento para dedicação exclusiva a um deficiente, de forma a ganhar-lhes a sua confiança exclusiva, como único meio de conseguir que essas pessoas, para as quais os parâmetros de convivência em sociedade são diferentes ou até opostos ao comum, remetendo-os a um mutismo e isolamento cognitivos que em situações de stress pode levá-los à violência extrema, contra si mesmos ou contra quem está mais próximo deles, independentemente dos laços que os liguem.
Como eles não devem ficar confinados a um espaço e pelo contrário devem habitar espaços amplos onde possam libertar a sua energia auto acumulada pela inação ou pela não coordenação da sua mente no aspeto da socialização, é Malik que ajuda Bruno, com a sua furgoneta pertencente a outra associação, a transportá-los e aos cuidadores pessoais nas saídas, viagens e ocupações lúdicas, tão vitais para a sua integração social.
É através do acompanhamento dos casos extremos de cuidadores e de deficientes que o filme nos mostra a o trabalho extraordinariamente meritório das duas associações; The Hatch e The Shelter, na sua luta pela dignificação e ajuda ativa de pessoas que habitam as margens da sociedade, quer por defeito congénito, quer por queda na marginalidade, no abandono e descriminação social a que nenhuma instituição pública efetivamente se dedica.
O exemplo acabado reside na conversa entre Bruno e os inspetores que mais uma vez lhe querem fechar a instituição. Acatando as determinações do relatório da inspeção, ele declara que abandonará a atividade no exato momento em que o Instituto da Segurança Social vier buscar os deficientes que acompanhámos mais de perto durante o filme. Isso é quanto basta para que seja aprovado um decreto governamental que publica uma licença oficial extraordinária para a continuação da atividade da instituição The Hatch, agora legalizada. No fim das contas, nada de novo.

Classificação: 6 numa escala de 10

30 de janeiro de 2020

Opinião – “Amor à Segunda Vista” de Hugo Gélin


Sinopse

Quando Raphaël (François Civil) conheceu Olívia (Joséphine Japy) no secundário, foi amor à primeira vista. Após 10 anos de casamento feliz e uma carreira próspera como autor de best-sellers, Raphaël tem tudo – ou pelo menos assim o pensa.
Após uma enorme discussão entre o casal, Raphael acorda numa vida paralela onde é solteiro, jogador de pingue-pongue e professor do ensino secundário, com uma vida pouco interessante e demasiado colada à do seu melhor amigo de infância.
Percebendo que Olívia era tudo para si, Raphael terá de fazer o impossível para reconquistar o amor de sua vida – que neste mundo não faz a mínima ideia de quem ele é.

Opinião por Artur Neves

Este filme combina comédia romântica com ficção científica na qualidade de realidade paralela que na minha opinião “não bate a bota com a perdigota”. Comédia romântica é o género normal de filmes com adolescentes embevecidos com a descoberta do amor e das suas revelações no contexto que valem por si próprias. Realidade paralela é um tema ainda com conceção abstrata no âmbito da teoria de Einstein que tem pouco a ver com romantismo, exceto para Hugo Gélin, o realizador francês nascido em Paris em 1980, que nos apresenta a história resumida na sinopse.
Quem está familiarizado com comédias românticas, e reconheço com todo o respeito que existe um público dedicado ao género, é fácil aceitar que os produtos saídos de Hollywood são mais emocionantes do que os europeus, muito particularmente os de origem francesa, normalmente com histórias mais rebuscadas do que os primeiros. Todavia neste caso, Hugo Gélin consegue “tricotar” com assinalável desenvoltura um caso de amor à primeira vista entre dois personagens; Raphaël e Olívia que nos transmitem toda a simplicidade, a beleza do primeiro amor vivido intensamente e para a vida, consumado no casamento perfeito.
Porém, como a vida não é perfeita contagia o amor da sua imperfeição com os objetivos para atingir, os compromissos profissionais, as contas para pagar, as diferenças individuais que inevitavelmente agudizam a relação e o afastamento surge, como aconteceu com os nossos amantes perfeitos. Isto é normal, humano, real, está a acontecer a alguém ou já nos aconteceu a nós próprios na nossa realidade pessoal. É reconhecível a todos os níveis.
No limite as pessoas separam-se, vão cada uma para seu lado mantendo ou não o contacto entre si, é opcional. Em muitos casos começa aqui a saga da reconstrução, do reencontro e nas comédias românticas como já sabemos que os dois acabarão juntos o mais interessante é saber como foi, como superaram as suas diferenças, como cederam mutuamente nas suas premissas iniciais, donde normalmente resultam boas histórias de vida.
Mas Hugo Gélin meteu a “bucha” da realidade paralela, ele passou a viver noutro mundo (que se existisse alguns já teriam passado para lá porque este já vai ficando saturado) ela deixou de o reconhecer mesmo olhando para ele e falando-lhe, ele deixou de fazer o que fazia e infantilizou-se, esqueceu-se de si e caiu numa vida que já não era a sua (curiosamente, não esqueceu Olívia nem o amigo do peito Félix - Benjamin Lavernhe) e procura recuperar a sua amada noutro dia de nevão igual ao dia em que a perdeu. Lindo!...
Consegue isso reescrevendo todo o romance em que no final, (teria bastado reescrever somente o final… não?...) mata a sua companheira, avatar de Olívia, que deu origem a esta trapalhada.
Uma boa comédia romântica deve contar uma bela história de amor, creio que o leitor concorda comigo, e esta até tem um grande amor, comédia, alguma surpresa e é bem disposta, mas a “bucha” da realidade paralela, neste contexto, dá me volta ao estômago. Uma pena!...

Classificação: 5 numa escala de 10

28 de janeiro de 2020

Opinião – “Ladrões com Arte” de Matt Aselton


Sinopse

Ivan (Theo James), um ladrão de arte bem-sucedido, herda a vida de crime do pai, mas ao contrário de muitos ladrões, Ivan adora tanto a arte como a arte de roubar. Anseia por se livrar do mundo do crime, mas está de tal maneira envolvido nele que pode nunca conseguir sair. Até que conhece Elyse (Emily Ratajkowski), uma atriz e vigarista que tenta fugir ao seu próprio passado caótico. Juntos, vão realizar o derradeiro golpe, que não vai deixá-los ricos, mas sim libertá-los.

Opinião por Artur Neves

“Ladrões com Arte” é um filme espirituoso, agradável de ver, com graça subtil em algumas cenas, muito por causa do carisma do seu personagem principal Ivan (Theo James), que desenvolve uma boa química com Elyse (Emily Ratajkowski), depois de acidentalmente se conhecerem numa festa em que qualquer dos dois não engana o outro sobre os seus verdadeiros objetivos e os leva a brincar entre si duma maneira elegante e cúmplice.
O filme começa com a citação de um provérbio curioso que não resisto em reproduzir; “Quando um ladrão te beijar, conta os dentes” que encerra em si todo o argumento. Isto é, mesmo para aqueles em quem confias não deixes de estar atento ao próximo movimento, pois pode não corresponder ao esperado. É assim que se desenrola toda a dinâmica entre Ivan e Elyse num meio em que ambos tentam sobreviver com os seus próprios recursos mesmo que não sejam os mais honestos.
O realizador americano Matt Aselton, que também escreveu o argumento em conjunto com Adam Nagata mostra-nos uma ficção de um ladrão experiente e inteligente, que usa meios técnicos sofisticados para subtrair aos ultra ricos obras de arte valiosas, cobiçadas por outros colecionadores, que encomendam os seus desejos a Dimitri (Fred Melamed) que por sua vez usa meios de persuasão sobre Ivan para que ele os roube para ele. O falecido pai de Ivan era um viciado em apostas e jogo e tem uma dívida não saldada para com Dimitri que este usa para forçar Ivan a trabalhar para ele. Elyse também tem dívidas para um produtor de cinema que a ameaça com o fim da sua carreira se não lhe pagar. Assim a aliança entre Ivan e Elyse começa por ser baseada numa mútua ajuda para a resolução dos problemas de ambos mas depressa passa para outro nível como é de esperar nestas aventuras ligeiras.
O argumento é escorreito e está bem contado sendo as cenas dos furtos suficientemente emocionantes, explicadas com pormenor em flashback e complementadas por uma banda sonora eletrónica, entrecortada e nervosa que confere uma certa tensão às cenas de furto. Toda a ação é credível e desenvolve-se em ambiente calmo sem tiros nem violência, prosseguindo ao jeito de “O Grande Mestre do Crime” de 1968, sem a aura de Steve McQueen e Faye Dunaway bem entendido, mas bem entregue ao ponto de constituir um filme digno.
No fundo eles roubam porque gostam e precisam e nós gostamos de os ver roubar daquela maneira elegante e airosa a quem não merece ser poupado a esse roubo. É também um filme que ensaia atitudes desviantes, sem dúvida, mas simultaneamente inofensivo, inteligente, que combina comédia ligeira com ação, drama e romance que se adivinha, com destreza fluida em 100 minutos. Gostei e recomendo.

Classificação: 6 numa escala de 10