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13 de agosto de 2020

Opinião – “O Rei de Staten Island” de Judd Apatow


 Sinopse

Scott (Pete Davidson) é um caso típico de “síndrome de Peter Pan” desde a morte do seu pai, bombeiro, quando tinha 7 anos. Agora, com 20 e tal anos, e tendo alcançado pouco ou nada, ele tem o, aparentemente inalcançável, sonho de se tornar tatuador. A sua ambiciosa irmã mais nova (Maude Apatow) vai para a Universidade, mas Scott continua a viver com a sua exausta mãe (Marisa Tomei), enfermeira nos Cuidados Intensivos, passando os seus dias a fumar erva, nas ruas com os amigos e em encontros secretos com Kelsey (Bel Powley), sua amiga de infância.

Quando a sua mãe começa a namorar com Ray (Bill Burr), um bombeiro fala-barato, este relacionamento irá desencadear uma cadeia de acontecimentos que forçarão Scott a enfrentar a sua dor e andar para a frente com a vida.

O elenco do filme inclui ainda Steve Buscemi, como Papa, um bombeiro veterano que assume o papel de protetor de Scott, e Pamela Adlon como Gina, a ex-mulher de Ray.

Opinião por Artur Neves

A história deste filme é baseada na vida de Scott Davidson, pai de Pete Davidson, um bombeiro incluído no contingente de combate ao incêndio do World Trade Center em 11 de setembro de 2001 que faleceu no desempenho da sua função e que é lembrado pela National Fallen Firefighters como um homem corajoso, bom esposo e pai de família. A história contada com humor, desvelo e humanidade por Judd Apatow, realizador americano nascido em Nova Yorque pretende lembrar heróis anónimos que cuidam das nossas vidas. Pete Davidson, o filho, é um homem de temperamento sofrido e dolorosamente adorável que colaborou neste argumento semiautobiográfico em homenagem ao seu pai.

Ele já entrou na idade adulta mas continua meio perdido nos seus pensamentos e nos seus projetos de futuro. Está a meio caminho entre ser tatuador ou outra coisa qualquer que o mundo permita que ele seja. Situação semelhante é a que tem com a sua amiga de infância Kelsey (Bel Powley), com quem mantém uma relação estranha que ele próprio não sabe definir mas prefere que se mantenha assim para não ter de assumir responsabilidades que o seu complexo de “Peter Pan” não lhe recomenda.

Pete tem amigos com quem fuma maconha e faz projetos que não cumprirá porque no fundo ele tem bom íntimo e foi bem educado pela sua família que lhe inculcou os preceitos da ordem e da honestidade que ele segue sempre que pode, isto é, sempre que o medo de ser preso ou de ser admoestado pela mãe fala mais alto do que os desejos desviantes que o consomem.

A sua saúde é fraca e a sua clarividência mental nunca tiveram melhores dias, o que lhe permite aproveitá-las como justificação para a sua inércia e para a sua incapacidade geral. Todos estes problemas se agravam quando a sua mãe Margie Carlin (Marisa Tomei) começa a namorar Ray (Bill Burr) como consequência de um problema que ele próprio gerou na sua ânsia de praticar a profissão de tatuador. Todos os seus amigos já foram tatuados por ele e não estão completamente satisfeitos com os resultados porque ele ainda está em auto aprendizagem e as suas tatuagens apresentam defeitos.

Toda a história é uma sequência de avanços e recuos da vida de Scott Carlin para a qual o ator Pete Davidson foi sem dúvida uma boa escolha com o seu corpo esguio, os olhos esbugalhados e a sua face de espanto nas situações mais vulgares. A história tem um desenvolvimento lento que nos permite interiorizar todo a confusão e sofrimento na mente daquele adulto jovem que não sabe como afirmar-se, criar o seu espaço e crescer.

O filme apresenta-nos assim um relato na primeira pessoa, muito franco e honesto do que pode acontecer à estabilidade de uma família na sequência de uma tragédia. Tem ainda a vantagem de não cair na lamechice, embora conte uma história triste e por vezes deprimente que embora não sendo inédita, está bem contada com um humor triste mergulhado em solidão.

Vale a pena assistir a partir nas salas de Lisboa a partir de 20 de agosto

Classificação: 6,5 numa escala de 10

30 de julho de 2020

Opinião – “A Nota Perfeita” de Nisha Ganatra


Sinopse

No mundo deslumbrante de Los Angeles, Grace Davis (Tracee Ellis Ross), é uma diva com talento e ego imensuráveis.

Maggie (Dakota Johnson) é a sua assistente pessoal, sobrecarregada de trabalho, mas que não desiste do seu sonho de infância de se tornar produtora musical. Quando o manager de Grace, Jack (Ice Cube), lhe apresenta uma proposta que pode colocar um ponto final na sua carreira, Maggie e Grace elaboram um plano para reinventar as suas vidas...

Opinião por Artur Neves

Há vários filmes sobre os bastidores do mundo do “show bis” sendo o último que mais deu nas vistas por merecer um prémio da academia americana, o remake de “A Star is Born” em 2018 “Assim nasce uma Estrela”, em que Lady Gaga e Bradley Cooper deram corpo a um tórrido romance dentro e fora do ecrã cujos ecos ainda não se apagaram de todo. É um verdadeiro filme de multidões muito menos autêntico do mundo real por detrás do espectáculo que este nos mostra, destacando a voz poderosa de Tracee Ellis Ross (filha de Diana Ross) e recuperando Dakota Johnson, (filha de Don Johnson) cujo talento está muito para lá do que “As Cinquenta Sombras de Gray” e seus derivados, poderiam revelar e isso pode também apreciar-se neste personagem omnipresente de Maggie.

Grace Davis é a grande diva que no auge do seu sucesso sabe que está a atingir o ponto de inflexão da carreira de superstar na medida em que depende dos êxitos antigos que constituíram hits no seu percurso. Grace sabe isso e Jack, o seu manager, também sabe que a seguir virá o declínio igualmente nocivo para ambos pela redução do cash flow correspondente à diminuição dos contratos e à grandeza dos espectáculos futuros pelo que lhe propõe o princípio do fim com a segurança de um contrato fixo num casino de Vegas onde só terá de atuar alguns dias por semana dentro de um programa previamente estabelecido.

O caminho não é fácil, nem existem atalhos para se cumprir o sonho. Maggie trabalha para uma diva egoísta, que ocupa o topo como se este lhe pertencesse por direito. Jake também sente a encruzilhada, entre continuar com a rotina de um trabalho que já conhece ou sair da sua zona de conforto para tentar algo novo.

Neste seu plano Jack esquece-se de Maggie que tem planos pessoais e agenda própria para se tornar num produtor musical e potenciar o talento emergente de David Cliff (Kelvin Harrison Jr.) com quem ela mantém um romance em início e um amor que crescerá na direta medida das suas capacidades de futuro. E é aqui que este filme se distingue consideravelmente de “Assim nasce uma Estrela”. Neste mundo musical anda tudo ligado; carreira, afetos, dinheiro, futuro e só se conseguem conciliar objetivos, com planos cheios de vontade, capacidade de lutar e inspiração. Os outros nem sempre são os melhores parceiros quando a experiência é escassa o os conselhos são para desistir. É a altura de excelência para acreditar.

É aqui que esta história de Flora Greeson, realizada por Nisha Ganatra realizadora canadiana descola do romance fácil e da lamecha e o filme torna-se na história de Maggie, impulsionando o aparecimento dos produtores musicais que faltam ao negócio não escondendo que as relações românticas entre o produtor e o artista que este está produzindo, ao invés de facilitarem o êxito, podem transformar-se em embaraços que conduzem a prejuízos não só financeiros como emocionais. Neste ponto o filme não ilude nem mente.

 “A Nota Perfeita” conta uma história original sobre os bastidores e o funcionamento do negócio da música e tem ainda a vantagem de nos elucidar com pormenores sobre Beach Boys, Stevie Nicks, Bruce Springsteen e outros, com reflexões sobre as carreiras e os percursos artísticos destes nomes famosos enquanto nos delicia ao som dos seus maiores êxitos, tornando-se uma história sobre música, amor e amizade constituindo a fuga perfeita ao mundo real do vírus e dos riscos da pandemia que nos assola. Se o leitor é versado em temas musicais vai ficar algum tempo a lembrar-se destas músicas, para lá da excelente voz de Tracee Ellis Ross que eu nem conhecia, por defeito próprio, obviamente. Recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

13 de junho de 2020

Opinião – “Os Tradutores” de Regis Roinsard


Sinopse

Nove tradutores foram escolhidos por uma editora implacável e trancados em um bunker luxuoso para traduzir o livro altamente antecipado, de um autor famoso, em tempo recorde. Embora os tradutores estejam confinados e vigiados à vista para evitar qualquer tipo de fuga de informação por causa dos grandes riscos financeiros, uma crise irrompe quando alguém publica na internet as primeiras dez páginas do romance e chantageia a editora a pagar 5 milhões de euros.

Opinião por Artur Neves

No retorno possível e tímido às salas de cinema com todas as reservas impostas pela pandemia eis que temos este “Os Tradutores” estreado ontem, 12 de Junho, nos cinemas City, pela mão da distribuidora Cinemundo, no género thriller, bem ao jeito do cinema Hitchcockiano (se é que o conceito existe) por nos mergulhar num enigma aparentemente impossível de acontecer, considerando as condições reservadas aos tradutores que foram selecionados para fazer a tradução em várias línguas de “Dédalus” o ultimo volume de uma trilogia escrita por um autor francês que se remete ao mais completo secretismo da sua personalidade, publicitando somente o seu nome.

Deixo aqui uma nota especial para a atris portuguesa Maria Leite, que desempenha o papel da personagem escolhida para a tradutora de português. Não comento as caraterísticas da personagem em si, determinadas pelo argumento da história, acrescentando somente tratar-se de um personagem new wave não muito comum na sociedade portuguesa, particularmente neste ramo de negócio. Penso tratar-se do reflexo como os outros vêm a nossa cultura e o nosso povo. Do ponto de vista da representação, o personagem está muito bem conseguido e Maria Leite, que pertence ao quadro fixo de atores do Teatro Nacional São João no Porto, não ficou diminuída na confrontação com alguns consagrados.

Regis Roinsard o realizador francês responsável pelo projeto apresenta como antecedente “A Datilografa” de 2012, uma comédia romântica na área do trabalho de escritório em 1958, com todos os maneirismos e convenções da época, que não serve de indicativo para este filme que documenta a loucura do estado de desvario e obsessão com o roubo de direitos da indústria editorial, que se por um lado beneficiou com a desenvolvimento tecnológico, por outro, sofre horrores com a cópia pirata e com os royalties perdidos.

Nesta história cria-se o suspense pela forma como os acontecimentos que foram antecipadamente previstos e acautelados, ocorrem de surpresa, ainda com o processo de tradução a decorrer e com a revelação das dez primeiras folhas serem divulgadas na internet. Decorrente dessa ameaça todo o ambiente de rotina maçadora inerente ao trabalho de tradução é alterado e todos os eleitos passam a ser suspeitos da fraude, seguindo-se pela tentativa de descoberta do responsável.

Isso implica uma sequência agitada de denúncia, acusação, defesa e meios de segurança que nos parecem forçados para o tema abordado. A literatura nunca despertou emoção ou twists muito movimentados na sua confeção, pelo que apesar de toda a agitação, falta em adrenalina o que excede em complicação e formalismo, muito embora enfatize que apesar da implícita rotina do trabalho de tradução, escrever é um ato solitário em que se tenta condensar toda a criatividade na capa ou na imagem que representa a história.

O verdadeiro criador pode usar técnicas modernas que todavia não interferem com o ato de criação á moda antiga, por vocação, dedicação, sem olhar ao tempo dedicado á criação ou aos proveitos dela obtidos que tem como exemplo máximo Marcel Proust e o seu extenso “Em busca do Tempo Perdido” citado no filme pelo editor. O suporte em papel está na genética do livro. O suporte eletrónico, embora moderno e atual, propicia o roubo e a falsidade e no mundo atual em que o que existe tem de dar lucro para permitir ser continuado, a história de Regis Roinsard bem pode ficar por aqui, pois esgota-se no fogo que a consome e aos livros.

É daqueles filmes que nos prendem enquanto duram, mas no retorno ao grande ecrã e com uma história intrincada de crime e fuga só pode ser recomendável.

Classificação: 6 numa escala de 10

20 de fevereiro de 2020

Opinião – “Fátima – O Poder da Fé” de Marco Pontecorvo


Sinopse

FÁTIMA, um filme que relata o poder da fé...
Em 1917,Lúcia, uma pastora de apenas 10 anos, e os seus dois primos mais novos, Jacinta e Francisco, têm visões de Virgem Maria, que lhes surge com uma mensagem de paz. As suas revelações inspiraram dezenas de milhares de fiéis que se deslocaram até Fátima, na esperança de testemunhar um milagre, mas não agradaram a Igreja e o Governo de Portugal, que tentaram forçá-los a recontar a sua história.
O que se viveu em Fátima mudou para sempre as suas vidas...

Opinião por Artur Neves

Pode parecer estranho mas o realizador Italiano Marco Pontecorvo apresenta-nos este filme que relata os acontecimentos da aparição de Maria, aos jovens pastores; Lúcia (Stephanie Gil) Jacinta (Alejandra Howard) e Francisco (Jorge Lamelas), vividos na Cova da Iria em Março/Abril de 1917, durante o período da 1ª guerra mundial em que Portugal foi representado como uma país pobre, com um povo generalizadamente inculto e a braços com uma crise de fome real.
Como teve na sua origem a intenção de distribuição internacional o filme é falado em inglês e legendado em português como convém. Segundo o anúncio nas primeiras imagens o filme é baseado nas revelações da irmã Lúcia que serviram de base para a história escrita por Barbara Nicolosi.
O argumento é portanto conhecido pela maioria dos portugueses, as aparições de Maria (Joana Ribeiro) aos três pastores que são reveladas às famílias e por estas ao povo da aldeia e do país (curiosamente, na altura, sem Internet nem meios de comunicação “decentes” mas mesmo assim isso não impediu que a mensagem fosse amplamente divulgada) justificando a peregrinação de uma multidão que se reuniu para assistir às aparições anunciadas por Maria com hora e data marcadas.
O filme começa pela entrevista do Professor Nichols (Harvey Keitel) à irmã Lúcia (Sónia Braga) já adulta e em clausura, cujo diálogo é suficientemente assético para poder dizer-se que o filme não é beato. Limita-se à representação dos factos, à intervenção do “Father” Ferreira (Joaquim de Almeida) o padre da aldeia que num primeiro tempo tenta que Lúcia se cale e confesse que estava a mentir, bem como, Artur (Goran Visnjic) o mayor da aldeia que chega a mandar fechar a igreja, seguindo ordens superiores de Lisboa, mas deixa ao espectador o livre arbítrio de assumir que se está em presença de um ato divino só acessível pela fé, de negar frontalmente o que lhe estão a apresentar se for ateu, ou pura e simplesmente observar com o distanciamento do agnóstico, que espera uma prova racional e objetiva para os acontecimentos em presença.
É pois um filme de apresentação factual, segundo a descrição da irmã Lúcia, que analfabeta como era na juventude não terá tido muita capacidade para os avaliar e descrever. Mostra também o efeito do “sol a dançar” e de seguida alguém refere que o mesmo já terá sido apreciado noutros locais, portanto milagres só para quem os quiser aceitar como tal e isso será da sua inteira responsabilidade, o que eu reputo de muito positivo pois é um elemento que poderia conduzir à transcendência fácil.
O filme foi rodado nas cenas de aldeia, na Tapada de Mafra e as aparições, nos terrenos circundantes do Santuário de Fátima, os cenários são convincentes, assim como o guarda roupa adequado à época, mas decorrente do seu conteúdo já bem conhecido pela generalidade das pessoas a história perde-se em surpresa, emoção e desfecho, por serem demasiado esperados. É um déjà vu completo, sem gerar polémica.

Classificação: 5 numa escala de 10

16 de janeiro de 2020

Opinião – “Instinto Predador” de Nick Powell


Sinopse

Um navio grego transporta perigosos animais exóticos da Amazónia, incluindo um raro jaguar branco. No mesmo navio, um assassino, que estava a ser extraditado em segredo para os EUA, consegue escapar e libertar todos os animais em cativeiro, deixando os tripulantes em perigo de vida.

Opinião por Artur Neves

Nicolas Cage é um ator que teve um bom começo de carreira, lembremo-nos de; “Morrer em Las Vegas” 1995, “A Cidade dos Anjos” 1998, “O Senhor da Guerra” ou “O Homem do Tempo” em 2005, que para mim foi o último filme “decente”, tendo a partir daqui entrado numa rampa acentuadamente descendente, recheada de maior quantidade de interpretações, mas com menos qualidade, continuando neste registo até este ano de 2020 em que já se noticiam cinco trabalhos em fase de filmagens ou em pós produção. Uma tão grande proliferação de trabalho, não pode dar bom resultado e é o que acontece neste filme.
Nesta história começamos por assistir a um caçador, Frank Walsh (Nicolas Cage) sentado numa árvore duma remota selva brasileira a fumar um charuto e a ler uma revista enquanto espera que uma rara onça branca conhecida como “El Gato Fantasma” caia na armadilha por ele montada para a caçar e transportar para outras paragens onde espera ganhar bom dinheiro com a sua venda.
Ele planeia transportar os animais de barco até um Zoológico nos arredores de Madrid, ou seja o Gato Fantasma, uma família de macacos aranha, pássaros exóticos e cobras produtoras de veneno letal, transportados em jaulas a bordo de um velho cargueiro, decrépito e húmido, que também serve de prisão provisória a um assassino louco, Richard Loffler (Kevin Durand) procurado pelos USA para o julgar por crimes contra a humanidade de que ele está acusado.
A partir daqui, em que o “caldeirão” já está preenchido com os ingredientes para o “cosido à americana” é que as coisas começam a descambar. Trata-se de um filme série B, de baixo orçamento e com um realizador estreante, cuja experiência mais significativa é ter sido coordenador de duplos e em que a sua primeira e única preocupação é encontrar maneiras de provocar suspense no maior número de cenas, sem contudo que para isso, tenha preparado o ambiente e o espectador para uma esperada surpresa. Assim, as cenas saltam como pipocas aqui e ali, por todo o interior do velho cargueiro que funciona agora como um universo fechado.
O assassino liberta-se em três tempos de uma jaula que parecia inviolável, sem que nenhum dos guardas pertencente ao grupo de operações especiais, façanhudos e destemidos o possa deter, liberta todos os animais selvagens como manobra de diversão e sequestra o comandante para alterar a rota do navio e garantir a sua fuga.
Com este ato temos uma “Arca do Noé do demónio”, todos querem matar todos e Richard Loffler trata de despachar animais selvagens a cada dois minutos de filme, enquanto Frank Walsh, que só queria passar uma viagem descansada a alimentar os animais tem de entrar neste jogo de gato, rato e onça, (o mais precioso dos animais raros) para tentar salvar o seu investimento de caça.
A história inclui mais personagens, como um médico, um advogado e uma criança cujo objetivo é ser colocado em perigo para provocar impacto, os outros deixam de existir sempre que ficam fora da objetiva e não se vê uma ligação credível entre eles. Frank só fala com o seu papagaio e a ação montada por Nick Powell é tão frouxa e instável que o momento mais emocionante ocorre quando Richard Loffler decide não lutar, porque a gente não acredita!...

Classificação: 4 numa escala de 10

29 de novembro de 2019

Opinião – “21 Pontes” de Brian Kirk


Sinopse

Chadwick Boseman é Andre Davis, um detetive da polícia de Nova Iorque que tem de capturar os responsáveis pelas mortes de vários polícias. André vê-se envolvido numa complicada e inesperada conspiração. À medida que a operação avança fecham-se as 21 Pontes de Manhattan para impedir a fuga dos assassinos. Para este detetive fracassado esta é a última oportunidade de redenção.

Opinião por Artur Neves

Esta é mais uma história de hard crime e castigo com polícias (o conhecido NYPD) e ladrões violentos sem mágoa nem perdão. Assim sendo o final já é conhecido, mas se queremos inovar, se queremos realmente fazer algo pelo menos um pouco diferente, há que juntar outros ingredientes que aqui começam a aparecer como um ruído de fundo que se vai acentuando com o desenrolar da ação e se vai revelando e assumindo como o motivo principal da narrativa por entre muitos tiros, muitos mortos e muita ação de bom nível.
Está ao nível de “Dia de Treino” de 2001 ou de “Nós Controlamos a Noite” de 2007 mas porque é mais recente apresenta outros motivos de interesse através da vigilância de alta tecnologia e maior dinâmica nos assaltos e perseguições automóvel numa desenfreada caça ao homem, alegado autor da morte de oito polícias por um detetive cavalheiro, Andre Davis (Chadwick Boseman) lesto em premir o gatilho, mas igualmente inteligente e ético que persegue a descriminação entre o que está certo num mundo que deu errado.
O seu elemento diferenciador, que se vai acentuando em segundo plano ao longo da história, tem a ver com a brutalidade policial, o racismo e o equívoco de políticas avulsas mais interessadas no seu próprio benefício do que no bem comum.
Brian Kirk, realizador mais conhecido por séries de TV, como “A Guerra dos Tronos” (3 episódios) ou “Grandes Esperanças” (mini-série) deu a oportunidade a um ator em ascensão, (Chadwick Boseman) conhecido por várias interpretações de origem Marvel, em se destacar num personagem, fora do mundo dos quadradinhos, com personalidade, suspense, capacidade de decisão e dilemas morais que ele gere com segurança.
Para contracenar com ele também encontramos dois bons desempenhos em Ray (Taylor Kitsch) assassino sanguinário, traumatizado na infância e contaminado pela guerra do Afeganistão que lhe retirou toda a réstia de humanidade e Michael (Stephan James) também antigo colega no Afganistão, mas inteligente, empático e até bondoso em algumas cenas onde o seu parceiro só vomita raiva.
O resto do elenco também se situa em bom nível, com particular destaque para o Captain McKenna (o veterano J.K. Simmons) responsável pelos polícias mortos que espera que Andre Davis cumpra a sua missão de vingança… e de conveniência, como mais tarde vimos a descobrir através dos twists do argumento, que ainda assim conseguem manter o espectador focado nas múltiplas relações raciais para que o filme aponta e nos dilemas morais que Davis encontra nas descobertas que vai fazendo no desenrolar da ação.
Para 100 minutos é um trabalho escorreito, recheado de suspense, ação inteligente e segurança na história e no desempenho mostrado. Vê-se com muito agrado.

Classificação: 6,5 numa escala de 10

15 de novembro de 2019

Opinião – “Comportem-se como Adultos” de Costa-Gavras


Sinopse

Yanis Varoufakis desencadeou uma das batalhas mais espetaculares e controversas da história política recente quando, como ministro das Finanças da Grécia de um governo radical, tentou renegociar o relacionamento de seu país com a UE, provocando a fúria da elite política, financeira e de mídia da Europa. Mas a verdadeira história do que aconteceu é quase totalmente desconhecida – porque muitos dos negócios reais da Europa acontecem em portas fechadas.

Opinião por Artur Neves

Confesso que foi com algumas reservas que assisti ao visionamento deste filme considerando que foi baseado no livro de Yanis Varoufakis “Adults in the Room” publicado em 2019 e segundo creio, ainda sem tradução em português. O que me fez decidir foi o facto de o argumento ter sido adaptado do livro por Costa-Gavras, esse realizador Grego de 86 anos que nos deu “Z - A Orgia do Poder” em 1969, ou “Desaparecido” em 1982, ou ainda “Amen” em 2002, onde nos mostra a sua visão humanista do mundo e a denúncia da ditadura dos coronéis na Grécia, numa cinematografia sempre comprometida com a verdade.
Desta feita, temos uma abordagem da história recente do seu país natal, a braços com uma dívida monumental que aproxima perigosamente a Grécia em 2015, da bancarrota e do colapso social, através do “abraço de urso” da união europeia que lhe impõe condições leoninas no acordo de entendimento para a liquidação da dívida e para o saneamento da sua economia.
A história começa com a eleição de Alexis Tsipras (Alexandros Bourdoumis) em Janeiro de 2015 e com a subida do partido de extrema esquerda, Syriza, ao poder na Grécia, na sequência da falência do governo anterior de pendor liberal do partido Nova Democracia. Yanis Varoufakis (Christos Loulis) pertencente ao núcleo duro de apoio a Tsipras, é nomeado ministro das finanças e tem de contrariar as condições duríssimas impostas pela Alemanha de Wolfgang Schäuble (Ulrich Tukur), incluídas no acordo de entendimento, o que o faz iniciar um périplo pelas capitais dos maiores países da União Europeia, Paris, Londres, Frankfurt, Berlim e Riga, em busca de apoios que lhe permitam atingir os seus objetivos.
Quem viveu estes anos p.p. com atenção às notícias dos jornais sabe que o maior opositor de Yanis era Schäuble que se recusava a alterar o que quer que fosse do memorando de entendimento, desafiando assim a habilidade negocial de Yanis que se desdobrava em tentativas para obter a compreensão de Christine Lagarde (Josiane Pinson), chefe do FMI e dos credores mais significativos, que apesar de ensaiarem alguma aceitação dos seus argumentos, acabavam sempre alinhados com Schäuble na hora das grandes decisões.
Convenhamos que esta é uma história difícil de pôr em filme. É necessário criar muitos personagens atuais com atores, qual deles o mais diferente do original (exceção feita para Schäuble por causa da sua cadeira de rodas) mas para todos os outros, incluindo Tsipras e o próprio Yanis, somente após algum tempo é que nos habituamos a considerar os seus rostos como o rosto que temos associado a estes personagens indissociavelmente ligados à crise Grega e a este grande problema da história recente da União Europeia.
Deste modo Costa-Gavras consegue a proeza de nos apresentar a visão claustrofóbica de múltiplas e infindáveis reuniões com todos os players centrais desta negociação, tais como; Jeroen Dijsselbloem (Daan Schuurmans) presidente à época do Eurogrupo, Pierre Moscovici (Aurélien Recoing), Mario Draghi (Francesco Acquaroli) presidente do BCE além dos anteriormente já citados para referir somente os mais importantes. Angela Merkel também aparece embora em extratos de notícias reais ligadas ao assunto e nunca como um personagem desta história.
Por outro lado Costa-Gavras nunca se refere a que o agravamento da crise Grega se deveu à ocultação dos indicadores macroeconómicos, orquestrado pelo conselheiro financeiro internacional Goldman Sachs, que permitiu encobrir a dimensão da dívida, nem aos desmandos financeiros sem controlo nos ordenados dos funcionários públicos e pensões principescas a membros de antigos governos, como ao elevado nível de corrupção que campeava na generalidade da economia real. Nada disto é mencionado, dando-se ênfase ao desemprego do povo, às falências de empresas esmagadas pela Troika e à miséria generalizada imposta por medidas de austeridade discricionariamente determinadas no memorando de entendimento.
Todo o filme é acompanhado por música de Alexandre Desplat inspirada no folclore Grego e até os momentos de maior tensão são intensificados por ela, apesar de o filme se tornar algo maçador de tão pormenorizadamente querer apresentar os factos relativos às negociações com os credores. Não tenhamos dúvidas, são todos culpados, são todos falcões e nem em Christine Lagarde se vislumbra um arremedo de pomba.
É história recente contada ao minuto, eu achei interessante mas admito que muitos dos leitores discordarão de mim.

Classificação: 6 numa escala de 10

21 de setembro de 2019

Opinião – “Ousadas e Golpistas” de Lorene Scafaria


Sinopse

A partir de um artigo de fundo publicado na New York Magazine, "Hustlers" conta como um grupo de strippers de um clube noturno de Nova Iorque empreendeu um elaborado esquema de vingança contra os corretores de Wall Street que as enganaram.

Opinião por Artur Neves

Esta história é fundamentada num caso real baseado no artigo de Jessica Pressler, representada por Elizabeth (Julia Stiles) uma jornalista do New York Magazine a quem é concedida uma entrevista por Destiny (Constance Wu) num momento de fraqueza considerando que era co autora na burla que toda a equipa praticava. Este filme conta-nos uma história feminista, interpretado por uma mulher poderosa Ramona (Jennifer Lopez) num dos melhores papéis da sua carreira.
Os homens são aqui considerados como personagens falhadas que sucumbem aos encantos de mulheres rebeldes, “heróis populares” e não simples bonecas sexuais que usam de vários estratagemas para lhe extorquírem o dinheiro gasto na satisfação dos seus gastos sumptuários de roupas e acessórios de marca.
Ramona é magnética no seu desempenho competente e autoritário, só comparável ao seu papel em “Romance Perigoso” de 1998 onde já se identificava como uma aposta credível no mundo do cinema. Este é um dos valores do filme, consubstanciado no prazer de assistir à super estrela Jennifer Lopez (J-Lo) num personagem completo de autoridade, magnetismo, liderança sem nunca deixar de ser envolvente e protetora para as outras que a cercam.
A realizadora Lorene Scafaria segue as táticas clássicas da arte de filmar à Scorcese, incluído uma narração em off, câmara lenta para enfatizar os momentos de antecipação da ação e zooms prolongados que potenciam a emoção, tudo acompanhado de uma banda sonora bem escolhida de pop rock, desde Britney Spears a The Four Seasons, complementada com Chopin nos momentos mais escuros numa história que decorrente do seu desenvolvimento quase permite a exibição de um tema diferente para cada take.
O problema surge com a crise do subprime e a consequente queda de Wall Street em 2008 em que a loucura do dinheiro a rodos dá lugar a uma narrativa mais discreta à medida que o desemprego se começa a verificar até neste ramo de negócio. Aqui tudo muda e é a altura em que Ramona e as suas mais diretas companheiras engendram um esquema que as há de levar à prisão.
Destiny (Constance Wu, revelada em “Asiáticos Doidos e Ricos” de 2018) é a principal protegida de Ramona que inicialmente usa o striptease para apoiar a avó que a criou (é um motivo como outro qualquer, mas é lamecha e suspeito) e depois para manter a sobrevivência financeira da filha que entretanto teve, onde revela tenacidade e caráter. Ela ama Ramona ao mesmo tempo que a respeita e discorda dos seus métodos, mas a necessidade de sobrevivência a isso obriga.
A partir daqui a história requisita elementos que podem ser considerados “empréstimos” de “Viúvas” de 2018 (já comentado neste blog) ou “Showgirls” de 1995, mas que em nada o desqualifica ou menoriza, constituindo um belo espetáculo no seu todo, tanto no argumento como no soberbo desempenho de J-Lo. Recomendo.

Classificação: 7,5 numa escala de 10

9 de agosto de 2019

Opinião – “Um Ajuste de Contas” de Shawn Ku


Sinopse

Frank (Nicolas Cage) passou 19 anos na prisão por ter assumido a culpa por um homicídio que o chefe do seu gangue cometera. Em troca, Frank passaria apenas 5 anos na prisão, receberia meio milhão de dólares e enquanto cumpria pena na prisão, tomariam conta do seu filho, Joey. Uma pena que lhe asseguraram ser de 5 anos na verdade foi a uma sentença de prisão perpétua e a promessa de tomarem conta do seu filho não é cumprida. Frank é libertado e jura um ajuste de contas.

Opinião por Artur Neves

Adicionalmente ao resumo descrito na sinopse, Frank está morrendo, sofre de uma doença grave que lhe suprime o sono, impedindo-o da regeneração do cansaço e da eliminação das toxinas gerada pelo exercício da vida e lhe provoca alucinações, para as quais ele está medicado para as controlar, mas a sua raiva é de tal forma obesessante que o seu único foco está na cobrança do tempo desperdiçado atrás das grades como bode expiatório, reclamando uma promessa que não foi cumprida.
Frank sai de noite da prisão e quando percorre sozinho a pé, a estrada de ligação à cidade encontra seu filho Joey (Noa Le Gros) vindo ao seu encontro, vestido de forma casual e limpo de qualquer vestígio de droga, que mais tarde vamos sabendo que o agarrou e mais tarde ainda, saberemos que o matou. Mesmo ao olhar mais ligeiro este encontro vindo do nada parece-nos suspeito mas o realizador coreano Shawn Ku, mantem-nos na expectativa dum encontro feliz, num encontro de redenção entre almas desavindas, entre um pai ausente e um filho rebelde, que agora têm o seu momento para começar de novo.
Porém, é tudo ilusão para encher chouriços e tempo de videograma, com jantares em locais luxuosos, aquisição de bons fatos e de prendas caras para preencher uma alucinação de que só muito posteriormente somos informados. Aqui chegados, ocorre-me perguntar o que é que Nicolas Cage anda a fazer da vida desde; “Juventude Inquieta” de 1983, ou “Cotton Club” de 1984, ou ainda de; “Morrer em Las Vegas”, “O Rochedo” e “Con Air: Fortaleza Voadora” de 1995, 1996 e 1997 respetivamente, pois desde “O Senhor da Guerra” de 2005 que parece que ele aceita trabalhos apenas para que lhe seja pago um salario, numa filosofia de quantidade de aparições (92 até agora) mas de qualidade duvidosa, em produções baratas, bem inferiores aos argumentos de representação que já lhe valeram um óscar.
A história é de vingança e esgota-se no ato e nos momentos bizarros que o argumento confere ao personagem, de nada vale o encontro com Simone (Karolina Wydra) onde ele, no meio da sua alucinada relação consegue visualizar a sua falecida esposa, mas o foco são os sangrentos flashbacks que alimentam a vingança e motivam a busca incessante dos autores da sua infelicidade. O encontro com eles é de violência e morte, mesmo num dos casos em que a morte já se antecipou. O final é patético para quem nutre tanto ódio e no final mesmo ele também não escapa, só sinceramente desejo que não seja uma premonição do fim da carreira do ator.

Classificação: 5 numa escala de 10

11 de julho de 2019

Opinião – “Plano de Fuga 3” - de John Herzfeld


Sinopse

Na sequela plena de ação desta saga de grande sucesso, Ray Breslin (Sylvester Stallone) e Trent DeRosa (Dave Bautista) juntam-se a Hush (Curtis “50 Cent” Jackson), para resgatar um dos membros da sua equipa foi feito refém numa prisão conhecida como Estação do Diabo, local de onde ninguém consegue escapar…

Opinião por Artur Neves

Voltamos a uma nova sequela de “Plano de Fuga” de 2013, desta vez a terceira, pois em 2018 tivemos a segunda, bem pior do que esta, valha-nos isso, mas ainda assim insuficiente do ponto de vista conceptual da história.
Esta sequela pelo menos tem história, porque as duas anteriores eram meros exercícios de exibição tecnológica de um especialista em fugas, Ray Breslin (Sylvester Stallone) que se divertia a aceitar desafios para escapar de prisões de alta segurança, com a ajuda de um companheiro do mesmo calibre.
Desta vez o homem lá arranja uma história de um rapto em Chicago, da filha de um magnata de Hong Kong e envolve a sua namorada no lote para despertar mais emoção. Ele até nem queria que ela se envolvesse no salvamento da chinesa, mas a coitadinha insistiu e ele condescendeu que ela integrasse a equipa. Teve azar!… foi apanhada pelo vilão que por vingança cortou-lhe o pescoço. Mas é tudo uma sensaboria, um déjà vue, uma sucessiva criação de situações para permitir a exibição de artes marciais, que se torna confrangedor.
Para que não se estranhe, os chineses são apresentados como elegantes, afinadinhos, dedicados, deslocando-se em jato particular enquanto que Ray Breslin e os seus colegas funcionam numa cave húmida, num escritório com aspeto apocalítico, trajando fatos de couro sujos e gastos, embora exibam equipamento de localização de ultima geração e um canhão portátil entregue a Trent (Dave Bautista), deixando todavia a parte de leão da interpretação a Shen (Jin Zhang) e Bao (Harry Shum Jr.) respetivamente o anterior e o atual guarda-costas de Daya Zhang (Melise) quando esta foi raptada, para as cenas de maior exibição de luta.
John Herzfeld que realiza e é coautor do argumento já nos deu melhores provas de qualidade, como em; “15 minutos” de 2001, tenta introduzir uns floreios visuais nos decors da prisão para onde o vilão levou a sequestrada, mas nada que perturbe a monotonia pois este é uma filme para os fans de “porrada” e é desse assunto que temos de tratar, deixando para o final o derradeiro ajuste de contas entre Stallone e Sawa (Daniel Bernhardt), o grande vilão, numa cena em que se notam as dificuldades físicas de Stallone, para quem os tempos de Rambo já passaram á muito.
Fica-nos a música de fundo que pretende acentuar o suspense, embora sem o conseguir, pois, onde fica o suspense de uma história previsível desde a primeira imagem. Enfim nada de novo de uma obra que não teve (ainda, digo eu) estreia nos cinemas dos USA e foi enviada para a Europa, porque da terra do “Tio Sam” vem muita coisa como esta.

Classificação: 3 numa escala de 10

18 de maio de 2019

Opinião – “Hotel Mumbai” de Anthony Maras


Sinopse

Uma comovente história verídica de humanidade e heroísmo, “Hotel Mumbai” reconta, de forma vívida, o cerco de 2008 por um grupo de terroristas ao famoso Hotel Taj, em Bombaim, na India. Entre o dedicado pessoal do hotel, tanto o afamado chef Hemant Oberoi (Anupam Kher) como Arjun, um dos mais humildes funcionários do hotel (Dev Patel, de ‘Quem Quer Ser Bilionário?’, ator já nomeado para um Óscar da Academia) optam por colocar as suas vidas em risco para proteger os seus hóspedes.
Com o mundo a testemunhar os eventos, um casal em desespero, (Armie Hammer de ‘Chama-me Pelo Teu Nome’ e Nazanin Boniadide ‘Homeland’) é forçado a sacrifícios inimagináveis para proteger o seu filho recém-nascido…

Opinião por Artur Neves

Esta história relata o tenebroso ato de terrorismo ao Taj Mahal Palace Hotel em Dezembro de 2008, durante quatro dias em que a cidade de Bombaim foi alvo de vários atentados, e que um grupo de radicais Ihadis do Paquistão entraram no hotel e provocaram a morte de 160 pessoas e mais de 300 feridos, num massacre épico sobre os auspícios de uma qualquer divindade que se soubesse da utilização do seu nome e tivesse poder para isso, creio que não teria consentido.
Os assassinos são apresentados como comandados por um líder que nunca dá a cara, mas que os incentiva em nome de Deus a matar todos os infiéis por serem impuros. Os diálogos entre toda a equipa são rudimentares mostrando a fraca inteligência dos radicais e a profundidade da sua fanatização.
Ao chegar ao hotel equipados com AK-47 disparam aleatoriamente em todas as direções assassinando indiscriminadamente quem por azar se encontrasse nesse momento à frente do cano das suas armas. No caos que se gera, sobressaem o chefe de cozinha, Hemant (Anupan Kher) e um empregado de mesa Arjun ( Dev Patel) que com o risco das suas próprias vidas promovem o salvamento possível dos hóspedes baseados no profundo conhecimento que têm da estrutura de circulação do edifício. Registe-se que o chefe de cozinha corresponde a uma pessoa real que durante o assalto teve idêntico comportamento.
Para compor a história, enquanto dramatização de um evento real, foram criados alguns personagens que o filme segue de perto, tais como; um casal recém-casado com uma criança de colo, acompanhado por uma nanny que heroicamente o protege de ser morto, um hóspede Russo e sua mulher e outros elementos menores que compõe o público em geral.
Deste documento ressalta o registo para memória futura de um ato hediondo, realizado por jovens totalmente manipulados por um líder ausente, mal preparados e mal orientados, cuja única missão era disparar indiscriminadamente sobre tudo o que se mexesse, tal como no atentado da maratona de Boston, ou no massacre na ilha de Utoya, na Noruega, igualmente já reproduzidos como espetáculo cinematográfico, para que não esqueçamos a brutalidade gratuita que existe no mundo atual. Isto não significa que o mal alheio nos divirta, mas antes que o recordemos e honremos o heroísmo e o altruísmo eventualmente demonstrados, sem explorar gratuitamente o derramamento de sangue.

Classificação: 7 numa escala de 10

11 de maio de 2019

Opinião – “Extremamente perverso, Escandalosamente cruel e Vil” de Joe Berlinger


Sinopse

Crónica da vida criminosa de Ted Bundy a partir da perspectiva de Elizabeth Kloepfer, a sua namorada de longa data. Ted (Zac Efron) é atraente, inteligente, carismático e carinhoso. Liz (Lily Collins) não consegue resistir aos seus encantos. Para ela, Ted é o homem perfeito.
Até ao dia em que a felicidade e a vida perfeita do casal são quebradas para sempre.
Ted é preso e acusado de uma série de terríveis assassinatos.
A preocupação depressa dá lugar à paranóia e, à medida que as provas se acumulam, Liz é obrigada a enfrentar a verdade: o homem com quem partilha a vida pode realmente ser um psicopata.

Opinião por Artur Neves

A história contada neste filme é um thriller biográfico sobre Ted Bundy, baseado num livro publicado em 1981, de autoria da sua namorada Elizabeth Kloepfer sob o pseudónimo de Elizabeth Kendall e com o nome de: The Phanton Prince: “My Life with Ted Bundy”. No filme este personagem é representado por Liz Kendall (Lily Collins) na qualidade de mãe solteira quando conhece Ted e sucumbe aos seus encantos desde o primeiro encontro.
O realizador e produtor deste filme Joe Berlinger, que tem desenvolvido a sua carreira, mais como documentarista do que ficcionista, é também o autor de uma série documental de quatro episódios sobre este mesmo assunto, emitida pela Netflix em Janeiro de 2019, designada por: “Conversas com um Assassino: As gravações de Ted Bundy”.
Talvez devido a isso todo o relato assume um papel documental dos factos ocorridos mas que realmente não se conhecem, porque além dos cadáveres e dos corpos decepados, bem como das provas circunstanciais carreadas pela acusação, nada há que prove insofismavelmente a autoria dos assassinatos. Só depois de condenado e já no corredor da morte é que ele confessa a autoria de trinta dos crimes de que é acusado.
Aliás, a suspeita que dá origem à incriminação de Ted Bundy (Zac Efron) parte de uma denúncia da própria namorada, quando ao ver na televisão um retrato robot feito com a ajuda de uma vítima do presumível autor do atentado a que foi sujeita, reconhece nele o amor da sua vida e denuncia-o como compensação para a sua profunda desilusão.
Quanto á personalidade de Ted, nada nos é apresentado. Ele é um homem bem-parecido, bem-falante, com argumentos elaborados que frequentemente chocam de frente com a postura dos seus advogados e motivam a rotura com estes, exerce influência em todas as mulheres com quem contacta, enche a sala de audiências do tribunal com mulheres jovens que vêm assistir ao julgamento, eventualmente para sentirem a presença do perigo a que não foram sujeitas, mas não há no filme uma única palavra, ou justificação, para as suas motivações profundas.
Por outro lado, ao apresentar apenas o lado factual dos atos de um assassino em série, apresentando-o como perseverante e sonhador, para lá de sua cativante boa-aparência só serve para relevar de alguma forma, a sordidez dos seus crimes e o carácter desequilibrado do espírito que lhe deu origem. Adicionalmente, este julgamento foi transmitido em direto na televisão da época, o que transformou em espectáculo um monstruoso assassinato de mulheres.
Sublinha-se ainda a montagem exemplar das cenas que ao mostrar em paralelo a actualidade com o passado, introduz uma dinâmica no relato que a apresentação seca dos factos não poderia conferir. Interessante.

Classificação: 6 numa escala de 10

28 de novembro de 2018

Opinião – “Um Desconhecido em Casa” de George Ratliff


Sinopse

Bryan e Cassie decidem alugar uma casa de campo no interior de Itália para passar um fim de semana romântico, numa última tentativa de reconciliação e de reatarem a sua relação. Mas os planos do casal serão afetados pelas intenções duvidosas do proprietário da casa que alugaram…

Opinião por Artur Neves

Este filme pode classificar-se como sendo um thriller psicológico e isso não teria qualquer relevância para além da qualidade do argumento, se não existisse um epílogo verdadeiramente perturbador apresentado nos últimos minutos que recentra toda a história na violação de privacidade, que aliás consiste em parte fundamental do argumento, mas que com este twist alarga o âmbito ao mundo da comunicação digital paga por contrato (pay TV) que é verosímil, real e pode neste momento estar a ser utilizado em alguma parte deste mundo a caminho da loucura completa.
O filme começa com a viagem dum casal para umas curtas férias no campo para recuperação da relação que se deteriorou por motivos que veremos depois e isso indicia-nos logo que a “coisa” não vai funcionar por semelhança com outros argumentos do género o que torna a história razoavelmente previsível. O ambiente é de facto sossegado, muito sossegado até, o que nos põe de alerta para o sangue que aí vem.
Dentro do género a realização de Ratliff, é competente e segura, utilizando um jogo de luz e sombra e espaços negativos para enquadrar os personagens que se perdem nos seus jogos de ternura e desespero sem contudo verificarem algum sucesso. Consegue transmitir-nos os pormenores de uma vivência constrangida entre ambos mostrando os detalhes ínfimos da infelicidade entre Bryan e Cassie (Emily Ratajkowski) que promovem os problemas que se irão seguir.
Bryan Palm (Aaron Paul) nunca se encontrou em todo o filme, encarnando um personagem hesitante e com dúvidas, que deve colidir com a personalidade do próprio ator, não transmite verossemelhança na representação. Já senti isto noutras interpretações deste ator. Contrariamente ao Federico (Riccardo Scamarcio) que tem um papel mais complicado entre o sinistro e o evasivo mas não dececiona, esperando-se dele em todo o filme uma explosão de violência que não aparece, constituindo assim um personagem particularmente perturbador e transmitindo um medo velado em quase todas as cenas onde aparece.
É compreensível a evolução deste tipo de filmes para o novo género em presença, considerando o terrorismo e a insegurança transmitida pelos atos conhecidos, que justifica a observação sistemática de todos e de cada um nos seus atos quotidianos, onde todos somos observados 24 horas por dia, 7 dias por semana e as imagens resultantes processadas para análise futura. Este comportamento e a facilidades de obter bons resultados com a atual tecnologia serve igualmente os observadores tóxicos na sua obsessão compulsiva de violação da privacidade alheia para com isso obter proventos ou vantagens, tornando isso o terror dos nossos dias. A miniaturização dos componentes, câmaras, microfones, permitem a sua dissimulação nos mais variados lugares e a internet faz o resto, permitindo a divulgação imediata das imagens tornando o mundo num enorme reality show. O problema reside em assimilarmos isso como um “novo normal”, ao que anteriormente considerava-mos como paranóia, convictos de que nada disso representa consequências reais. Interessante!...

Classificação: 6 numa escala de 10

30 de outubro de 2018

Opinião – “Fahrenheit 11/9” de Michael Moore


Sinopse

Depois de apontar suas lentes para a era Bush em Fahrenheit 11 de Setembro, Michael Moore agora traz um olhar provocador sobre a eleição de Donald Trump e tenta responder como os Estados Unidos se colocaram nesta situação e o que podem fazer para mudar.
Fahrenheit 11/9 faz referência à data que o presidente se elegeu em 2016.

Opinião por Artur Neves

Neste documentário sobre a presidência de Donald Trump, cujo nome faz um trocadilho com a data do maior desastre da história americana, o ataque às torres gémeas, como que referindo que a sua eleição foi o segundo maior desastre, Michael Moore usa a sua conhecida habilidade para cruzar factos e eventos registados por ele ou divulgados pelos média, para nos mostrar verdades e razões que por vezes não entendemos como tal.
Todavia, e embora o filme conte duas histórias fortes contra a democracia americana que passaram despercebidas por cá, a saber; a crise da água envenenada com chumbo na cidade de Flint, promovida pelos negócios do governador do Michigan, Rick Snyder, com os amigos e a mobilização social dos professores nos USA, com interesse insofismável de divulgação, perde-se no tema inicial de apresentação de justificações para a eleição de Donald Trump, misturando assuntos que embora de reconhecida importância não podem ser diretamente relacionados com Trump.
Aliás, o caso de Flint serve igualmente para dar uma “bicada” nos democratas e particularmente em Obama que no auge da crise se deslocou a Flint e em vez de condenar o governador republicano e denunciar o veneno, pediu um copo com água, que afinal nem chega a beber, levando-a somente aos lábios numa descarada simulação. Acusa-o também de ter sido o presidente americano que mais dinheiro recebeu da Goldman Sach.
Sobre Trump, ele apresenta os comícios que anteciparam a eleição, onde destaca o lado manipulador e mentiroso do candidato, a sua personalidade truculenta, aflora superficialmente a influência de Putin e insinua uma relação manifestamente inquietante e perturbadora com a filha que nos pereceu algo exagerada. Por outro lado reúne diversas opiniões proferidas na campanha e em comícios que pretendem estabelecer um paralelo entre a ascensão de Trump e a de Hitler, esquecendo-se todavia que os tempos agora são outros e que os múltiplos organismos de controlo do poder da democracia americana são suficientemente eficientes para moderar o ímpeto do presidente, que apesar de tudo consegue cumprir os favores prometidos aos amigos, tais como, a desregulação de Wall Street e a redução de impostos aos mais ricos.
Neste filme, Moore propõe-se “atirar” em todas as direções, pelo que os democratas também são contemplados, acusando-os de contemporizarem demasiado com a direita, estabelecendo acordos e compromissos que ultrapassam o aceitável e que justificam em parte a viragem de voto em alguns estados tradicionalmente democratas. Bernie Sanders e Hillary Clinton também não são poupados, sendo-lhes apontados diversos erros na campanha que ajudaram à “festa” Trump.
Durante os 126 minutos do filme vemos a revelação de factos importantes mas com uma sequência e um discurso confusos que se dispersam entre assuntos diversos que não apresentam a clarividência demonstrada em “Bowling for Columbine” que lhe valeu um Oscar em 2003, ou “Capitalismo – Uma História de Amor” de 2009 sobre a crise do subprime. Apesar disso não deixa de ser um filme interessante sobre o mundo dos nossos dias.

Classificação: 5 numa escala de 10