7 de novembro de 2014

Opinião - Os Jogos da Fome

Título: Os jogos da Fome
Autor: Suzanne Collins
Editora: Presença

Sinopse:
Num futuro pós-apocalíptico, surge das cinzas do que foi a América do Norte Panem, uma nova nação governada por um regime totalitário que a partir da megalópole, Capitol, governa os doze Distritos com mão de ferro. Todos os Distritos estão obrigados a enviar anualmente dois adolescentes para participar nos Jogos da Fome - um espectáculo sangrento de combates mortais cujo lema é «matar ou morrer». No final, apenas um destes jovens escapará com vida… Katniss Everdeen é uma adolescente de dezasseis anos que se oferece para substituir a irmã mais nova nos Jogos, um acto de extrema coragem… Conseguirá Katniss conservar a sua vida e a sua humanidade? Um enredo surpreendente e personagens inesquecíveis elevam este romance de estreia da trilogia Os Jogos da Fome às mais altas esferas da ficção científica.

Opinião por Vitor Caixeiro:
Numa época em que o mercado da literatura juvenil é inundado por romances que exaustivamente esgotam o conteúdo do fantástico, nomeadamente no que toca a criaturas mágicas e humanos com poderes sobrenaturais, surge esta saga como uma lufada de ar fresco e revigorante. Os Jogos da Fome é muito mais do que aquilo que à primeira vista aparenta ser, ultrapassando qualquer ideia banal contida num livro já conhecido. É cativante, poderoso, emocionante. Como tal, é um sucesso garantido.

A trama centra-se no conceito de distopia, uma realidade irremediável entranhada no mundo das suas personagens. Desde o primeiro momento é claro que existe uma divisão entre elas, distinguindo-as em dois grupos: aquelas que se encontram em plena felicidade com a situação actual que as rodeia, os cidadãos do Capitólio, e as restantes que constituem as multidões dos distritos condenados à sua clausura e miséria.

O livro fornece-nos o ponto de vista deste último grupo através de uma jovem chamada Katniss Everdeen. Habitante do decadente Distrito 12, Katniss encontra-se numa constante luta diária para impedir que a sua família morra à fome. Ela é o seu único sustento após um trágico acontecimento que mudou a sua vida para sempre, enfrentando todas as adversidades sem nunca vacilar ou mostrar sinais de fraqueza. Por vezes, Katniss evidencia esta faceta inquebrável como uma defesa, pois por dentro não passa de uma humana cujos sentimentos se encontram entorpecidos pela mágoa. É, portanto, dotada de uma personalidade forte, corajosa e persistente, características que se tornam evidentes a partir do momento da Ceifa e que se tornam trunfos importantíssimos para ultrapassar o desafio que a aguarda. Se esta leitura é aliciante, devemo-lo a Katniss. Também do Distrito 12 surge Peeta, um rapaz encantador, cheio de vitalidade e presença. O seu padrão de vida difere do de Katniss, ainda assim os seus destinos cruzam-se várias vezes, como que um mistério que os conduz à meta final. À medida que se conhece Peeta descobre-se que, para além de amável, é alguém extremamente inteligente com um sentido de perspicácia exímio. Há momentos em que as suas acções põem em causa a imagem que o leitor até então tinha delineado. A credibilidade desta personagem transforma-se numa grande dúvida, e até mesmo quando se parecesse esclarecê-la, há detalhes que permanecem sem solução. Peeta está envolto em surpresas inesperadas, o que faz dele uma personagem tão interessante quanto Katniss. Entre as restantes figuras destacam-se Haymitch, um antigo vencedor dos Jogos que auxilia Katniss e Peeta nesta tarefa, embora a maior parte do tempo esteja ausente, Gale, o companheiro de Katniss que lhe fornece um porto de abrigo e segurança, e ainda Rue, uma menina muito especial cuja doçura encanta tanto a Katniss como ao leitor.

Porém, não são só as personagens a proeza desta história. Outra das suas grandes forças é a própria história e o que a constrói. A ideia de mundo no qual uma revolução conduziu a um estado extremista em que a sociedade se encontra minuciosamente estratificada não é novidade. O que é de facto novo e merece reconhecimento pela sua originalidade é a criação de um tipo de provação ao qual os mais carecidos são submetidos para demonstrar a sua impotência e incapacidade perante os poderosos, e fazer disso um majestoso evento no qual se testa ao limite as fronteiras físicas e mentais do homem. Resumidamente, é um combate sangrento conhecido como os Jogos da Fome. O que para uns é um sádico prazer, para outros é o caminho para a devastação da morte. Esta dicotomia é a chave para manter a adrenalina nos Jogos, ao mesmo tempo que nos bastidores a angústia e a ansiedade dominam. Mas é na arena que o verdadeiro perigo reside.

Esta é uma história que explora como o poder pode levar a mente humana à loucura de tal forma a cometer o crime de aniquilar a sua própria raça pela violência, e ainda pior, apreciá-lo. Seja por diversão ou por jogada política, a mensagem passa quando o sangue é derramado, quando cada lágrima cai por um jovem que partiu cedo demais. E é nessa sensibilidade que ainda vive nos habitantes dos distritos que sobressaem os valores humanos, a única arma capaz de fazer frente ao Capitólio. Este contraste torna-se cada vez mais evidente no decorrer da obra, o que em muito se deve à magnífica Katniss.

Sendo um livro inclinado para o público juvenil, a autora optou por uma escrita simples, fluente, ainda assim sempre ponteada por emoção. Na verdade, o leitor não se consegue apartar do que se passa na cabeça da protagonista, vivendo intensamente cada acontecimento com esta. É um leitura alucinante, vertiginosa, inebriante até ao fim da última página.

Com tudo isto é impossível não querer mais. Suzanne Collins arriscou bastante a ainda bem que o fez. Com Os Jogos da Fome, teceu um ponto de partida bastante sólido capaz de surpreender qualquer tipo de público. As expectativas para Em Chamas, o próximo volume, são imensas. Conseguirá manter-se o mesmo nível? Melhor qualidade ainda faria desta saga uma das melhores deste século.  Aconteça o que acontecer, Felizes Jogos da Fome! E que a sorte esteja sempre convosco.

6 de novembro de 2014

Porto Editora - Não ficção - Novo livro do gato Bob

Título: O mundo segundo Bob
Autor:
 James Bowen
Págs.: 176
Capa: mole
PVP: 14,40 €

Os amantes dos gatos e todos aqueles que vêm seguindo, desde 2012, a incrível história do músico de rua James Bowen e do gato Bob, recebem a 11 de novembro um presente inesperado: um novo livro. Um presente do Bob mostra-nos como um gato nos pode ensinar o verdadeiro sentido do Natal.
Este livro sucede aos êxitos A minha história com Bob e O mundo segundo Bob, publicados em 2012 e em 2013, respetivamente, e tem como novidade o facto de incluir várias fotos a cores de James e Bob. Os livros de James Bowen e do seu gato Bob já venderam mais de 4 milhões de exemplares em todo o mundo. No Reino Unido, A minha história com Bob esteve 63 semanas consecutivas na lista dos livros  mais vendidos e num inquérito do World Book Day foi considerado um dos 10 livros que mais influenciaram os jovens.
O gato Bob está no Facebook, em www.facebook.com/gatobobportugal.

Sinopse:
Quando James Bowen encontra um gato alaranjado nas escadas do prédio onde vive está longe de imaginar do quanto a sua vida irá mudar. Nos seus livros anteriores – A minha história com Bob e O mundo segundo Bob acompanhamos James na sua recuperação e como Bob foi determinante no difícil processo de reaprender a viver no mundo real. 
Agora, é o momento de refletir no que foram os tempos difíceis que passaram juntos, nos Natais frios e solitários que viveram e como Bob lhe mostrou que o verdadeiro espírito do Natal está para além da febre consumista que nos rodeia nessa época.
Em Um presente do Bob, James Bowen fala-nos abertamente de uma época natalícia em que a solidão e o abandono se sentem com mais intensidade, mas que com a companhia do Bob se tornou numa época de esperança e generosidade.

Sobre o autor:
James Bowen é o autor dos bestsellers A minha história com Bob e O mundo segundo Bob. James encontrou o gato Bob em 2007 e desde então são inseparáveis. Atualmente dedicam parte do seu tempo a ações de angariação de fundos para associações humanitárias de apoio aos sem-abrigo e a associações de defesa dos animais, como a Blue Cross.
Vivem no Norte de Londres.
Para ter acesso às novidades, histórias e imagens de James e Bob, siga-os no Twitter, em  www.twitter.com/streetcatbob, ou na página de ambos no Facebook www.facebook.com/streetcatbob. Também pode visitar a página portuguesa, em www.facebook.com/gatobobportugal.

Convite para apresentação do livro

Passatempo Cinema - Deixa o amor entrar

A D'Magia em parceria com a NOS Audiovisuais tem para oferecer 20 convites duplos para a antestreia do filme "Deixa o amor entrar", dia 12 de Novembro, às 21.30h: 

Lisboa – ZON Lusomundo Colombo – 10 convites duplos 
Porto – ZON Lusomundo Parque Nascente – 10 convites duplos 

Cartaz do FilmeSinopse: 
Rosie e Alex são melhores amigos desde os cinco anos, portanto, era impossível tornarem-se namorados... ou será que não? No que diz respeito ao amor, à vida e em tomar decisões acertadas, estes dois são os piores inimigos de si próprios. Aos 18 anos deixam passar a oportunidade... e a vida troca-lhes as voltas, deixando-os separados por um oceano. Mas nem o tempo, nem o espaço entre dois continentes, consegue desfazer o elo que os liga – mesmo apesar das gravidezes indesejadas, casos amorosos desastrosos, casamentos, infidelidades e divórcios que acontecem pelo meio. Será que eles vão reencontrar-se ou será tarde demais? 
Baseado no romance best-seller de Cecelia Ahern "Para Sempre, Talvez", DEIXA O AMOR ENTRAR é uma arrojada, comovente e moderna comédia de erros que coloca a derradeira questão: será que só temos realmente uma oportunidade para encontrar o amor verdadeiro?


Para te habilitares a ser um dos vencedores só tens de responder às seguintes perguntas:
- Rosie e Alex são melhores amigos desdequando?
- Em que best-seller é baseado este filme?

Regras do passatempo: 
1) Enviar a resposta para literatura@dmagia.net indicando: Nome Completo e Número de BI ou CC.
2) O assunto do email deverá ter a menção "Deixa o amor" + Localidade Pretendida (Lisboa/Porto)
3) Só é válida uma participação por pessoa/e-mail.
4) O passatempo é válido até às 23:59 de dia 11 de Novembro.
5) Os vencedores serão apurados através de um sorteio via random.
6) Os nomes dos vencedores serão colocados online e avisados através de email.

Passatempo Teatro - Tiro e Queda - Vencedores

Passatempo “Tiro e Queda”
A D'Magia em parceria com a UAU tem para oferecer 3 convites duplos para a peça de teatro "Tiro e Queda", uma comédia dos mesmos autores de Conversa da Treta com interpretação de Eduardo Madeira e Manuel Marques, em cena no Teatro Tivoli BBVA, no próximo dia 7 de Novembro, às 21.30h. E os vencedores são:

Ana Sara Bento Matias
Vera Mónica Pinto Cruz
Amélia Maria Rodrigues Neto 

Festival AmadoraBD faz 25 anos!

E como grande fã de banda-desenhada que sou, não poderia faltar a mais uma edição do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. Esta edição assinala 25 anos deste importante certame, único no panorama nacional. O AmadoraBD está a decorrer de 24 de Outubro a 9 de Novembro no Fórum Luís de Camões, na Brandoa e, perante o 25º. aniversário, a exposição central foca a banda-desenhada contemporânea, as temáticas, as formas de difusão, os suportes e a relação entre autor e leitor. A par desta exposição central que celebra esta data marcante, esta edição faz também uma reflexão sobre a actualidade do Universo da BD, abordando a revolução que o sector tem sofrido com a introdução das novas tecnologias intitulada "Galáxia XXI", comissariada por Sara Figueiredo Costa e Luís Salvado, e com obras de autores portugueses e estrangeiros. 

O AmadoraBD associou-se, ainda, a outras duas efemérides: os 75 anos de Batman, personagem criada pela editora DC Comics (e qual conto dar destaque no meu blog), e os 50 anos da Mafalda, do autor argentino Quino. 

O cartaz deste ano é assinado por Joana Afonso, autora que tem patente uma exposição individual, por ter sido premiada em 2013 com o seu álbum "O Baile", escrito por Nuno Duarte. Além de Joana Afonso, podemos encontrar outras pequenas exposições, tais como a dedicada ao argumentista Nuno Duarte e ao álbum "O Baile", a Osvaldo Medina, a Henrique Monteiro e, ainda, à personagem Surfista Prateado, da Marvel, pelo álbum "Parábola", de Moebius, John Buscema e Stan Lee. Volto a frisar que vale sempre a pena vir, anualmente, até ao Amadora BD. 

E lá fui, com o meu grande amigo, José Luís Alves. Porque o que nos motiva são sempre as inesperadas novidades apresentadas, pela diversidade de exposições e retrospectivas, mas também pela criatividade demonstrada nos diversos espaços expositivos. Porque conseguem transpor ideias principais das pranchas de banda-desenhada para um universo 3D, sempre com algum cuidado nos materiais, mas com muita imaginação, proporcionando-nos atmosferas concordantes com as temáticas apresentadas. Um must! 

Fora do Fórum Luís de Camões, mas ainda na Amadora, é ainda possível ver, no Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem, a exposição "A Arte e o Ofício da BD", de José Ruy, que está a comemorar, este ano, 70 anos de carreira, o "AmadoraCartoon Restrospetivando Humores", exposição de homenagem aos cartoonistas António (Portugal), Xaquín Marín (Galiza/Espanha) e Yuriy Pogorelov (Ucrânia), na Galeria Municipal Artur Bual - Casa Aprígio Gomes; a exposição em homenagem a Carlos Baptista Mendes, vencedor do Troféu de Honra 2014 nos Prémios Nacionais de Banda Desenhada 2104, "Portugueses na Grande Guerra", na Galeria dos Paços do Concelho, e "Blanca Rosita Barcelona", de Miguel Gallardo, na Escola Superior de Teatro e Cinema. Todas estas exposições são de entrada gratuita. 

Portanto, são muitos os motivos que nos fazem rumar à Amadora e há ainda muito para ver até Domingo no AmadoraBD 2014. Até ao final, são várias as atividades que o Festival ainda tem para oferecer. Os 4.000 metros quadrados de área expositiva que acolhem a 25.ª Edição do maior festival de Banda Desenhada do país, e um dos mais respeitados eventos internacionais do género, merecem a vossa visita! Não percam esta homenagem anual à Nona Arte e seus criadores, que culmina neste domingo, 9 de Novembro. 

Mais informações em www.cm-amadora.pt/amadorabd/2014

5 de novembro de 2014

Aqui Xutos & Pontapés!, de Rolando Rebelo (Oficina do Livro)

Título: Aqui Xutos & Pontapés! 
Autor: Rolando Rebelo 
N.º de Páginas: 240  
PVP: 24,90€ 

No dia 4 de Novembro, a Oficina do Livro fará chegar ao mercado Aqui, Xutos & Pontapés!, um livro que passa em revista os 35 anos de vida da maior banda de rock de Portugal. 

Com autoria de Rolando Rebelo, prefácio de Jorge Sampaio e um grafismo arrojado de Rui Garrido que presta homenagem às origens punk da banda de Tim, Zé Pedro, Kalú, João Cabeleira e Gui, Aqui Xutos & Pontapés! inclui centenas de fotografias do grupo, tanto no palco como fora dele, desde as suas origens, no final dos anos 70, até à actualidade. As imagens deste livro com capa dura e 230 páginas foram retiradas do arquivo oficial da banda e dos álbuns pessoais dos seus músicos. 

Enquadrado por esta colecção extraordinária de fotografias, que nos leva a mergulhar nos bastidores de um grupo absolutamente único na história do rock e da música portuguesa em geral, Aqui Xutos & Pontapés! está dividido em duas grandes partes. 

Na primeira, dezenas de personalidades da sociedade portuguesa dão o seu testemunho sobre os Xutos – de Jorge Palma a Francisco Pinto Balsemão, de João Pereira Coutinho a Joana Vasconcelos, de Manuela Eanes a Tó Trips, passando por Sérgio Godinho, Ramon Galarza, José Avillez, Ana Padrão, Tozé Brito ou Paulo Junqueiro, entre muito outros. 

Na segunda parte, o percurso dos Xutos & Pontapés é passado a pente fino numa cronologia completíssima que implicou anos de investigação de Rolando Rebelo (n.1964, também autor de Rolling Stones em Portugal). Nessa cronologia, feita com o inestimável apoio dos músicos, são contados pela primeira vez vários episódios que marcaram da vida da banda. 

Aqui Xutos & Pontapés inclui ainda cartas aos fãs escritas pelo punho de Zé Pedro, Kalú, João Cabeleira, Tim e Gui, dedicatórias aos Xutos por alguns dos seus fãs mais fiéis, bem como depoimentos dos profissionais que trabalham com o grupo na estrada e nos bastidores – desde logo o manager Kabeca. 

Aqui Xutos & Pontapés é o livro mais completo de rock’n’roll alguma vez feito em Portugal – e uma merecida homenagem ao fenómeno mais consensual e amado da música portuguesa. 

Sobre o autor:
Rolando Rebelo nasceu em Portimão no ano de 1967. Publicou, em 2102, o livro Rolling Stones em Portugal. Este é o seu segundo livro oficial.

Opinião - O Homem Duplicado

Título: O Homem Duplicado
Autor: José Saramago
Editora: Porto Editora, Caminho

Sinopse:
Tertuliano Máximo Afonso, professor de História no ensino secundário, «vive só e aborrece-se», «esteve casado e não se lembra do que o levou ao matrimónio, divorciou-se e agora não quer nem lembrar-se dos motivos por que se separou», à cadeira de História «vê-a ele desde há muito tempo como uma fadiga sem sentido e um começo sem fim». Uma noite, em casa, ao rever um filme na televisão, «levantou-se da cadeira, ajoelhou-se diante do televisor, a cara tão perto do ecrã quanto lhe permitia a visão, Sou eu, disse, e outra vez sentiu que se lhe eriçavam os pelos do corpo».
Depois desta inesperada descoberta, de um homem exatamente igual a si, Tertuliano Máximo Afonso, o que vive só e se aborrece, parte à descoberta desse outro homem.

Opinião por Barbara Castro:
Tenho de começar por dizer que Saramago é um dos meus escritores preferidos. Apesar de serem muitos os que desgostam da sua peculiar pontuação e demais estilo, a minha pessoa simplesmente adora! Delicia-me de igual forma a reacção que desperta: ou o adoram ou o odeiam, creio ter encontrado pouquíssimas pessoas que se ficassem pelo meio-termo.

É verdade que nos seus livros, e neste não foi excepção, dou comigo, frequentemente, a perder o fio à meada aquando da leitura de frases de meia página. Contudo não me importo nada de reler as vezes que for preciso, mas percebo que seja um aspecto que desmotive à leitura deste autor.

Para mim, as suas obras valem sempre a pena pela escrita sublime e pelos finais surpreendentes. Mas depois de ler o monstruosamente belo Ensaio Sobre a Cegueira, o enigmático O Conto da Ilha Desconhecida e As Intemitências da Morte tudo o que li posteriormente da sua bibliografia ficou aquém das expectativas, até que me deparei com O Homem Duplicado, que esteve muito perto da genialidade das obras supracitadas.

Saramago presenteia-nos sempre com narrativas estranhas, ora uma Península Ibérica que subitamente se vê à deriva, ora uma epidemia de cegueira branca, ora uma Morte que resolve fazer greve. O Homem Duplicado não foi excepção, a intriga é surreal. Ora vejamos, Tertuliano Máximo Afonso é um homem vulgar, professor de História, já perto dos quarenta anos, divorciado, com um percurso com mais fracassos que sucessos na balança da vida, como à maioria de nós sucede. Quando o professor decide alugar um filme, aconselhado por um colega de profissão, depara-se com uma impossibilidade: um dos actores secundários do filme é exactamente igual a si próprio. Ao descobrir que existe neste mundo um homem completamente igual ao que ele vê quando se olha no espelho embarca numa busca desenfreada, fazendo tudo que está ao seu alcance para encontrar o seu duplicado. O Senso Comum, que dialoga com uma certa animosidade piadética com Tertuliano, tenta dissuadi-lo de muitas das suas intenções, ou plantando dúvidas difíceis de serem esquecidas ou com perspicazes conselhos que Tertuliano, como um comum dos mortais, tão bem sabe ignorar.

A par da acção central conhecemos também a relação entre Máximo Afonso e Maria da Paz, relação muito genuína, na medida em que se aproxima das não poucas relações que por aí andam, onde uma das partes dá mais do que a outra, uma das partes ama mais do que a outra, e todavia à parte em falta falta-lhe sempre a coragem de pôr o ponto final, vacila sempre na hora de enfrentar o vazio no outro lado da cama. Façamos uma ressalva, pois podemo-nos equivocar e à parte em falta não lhe faltar amor mas coragem para enfrentar o medo de falhar.

É deveras difícil encontrar aspectos negativos no nosso Nobel da Literatura, porém tenho de referir um aspecto transversal em todos os seus livros que tive oportunidade de ler: as personagens, embora francamente distintas e com uma personalidade sempre muito própria e com uma natureza muito humana, para o bem e para o mal, têm um discurso que nem sempre se adequa à sua condição. São sempre demasiado eloquentes e muitas vezes somos espectadores de diálogos filosóficos como se todos os intervenientes falassem através da boca de Saramago com recurso ao seu riquíssimo léxico, figuras de estilo e demais semântica.

Outros pontos menos positivos em O Homem Duplicado: algumas decisões das personagens são passíveis de despertar uma certa estranheza, mas que são justificáveis pela própria estranheza da situação com que se deparam e um excesso de observações do narrador que às vezes extravasam a linha orientadora da narrativa e são um pouco despropositadas e fora de contexto.

Em suma, O Homem Duplicado fez-me sorrir, pôs uma lagrimazinha à espreita do seu saco lacrimal, fez-me reflectir em questões tão corriqueiras como profundas e ao mesmo tempo fez-me não pensar em nada enquanto estava absorvida na aventura do protagonista. Que mais se pode pedir a um livro?

4 de novembro de 2014

Opinião - Holy Fuck no Music Box



Foi uma Lisboa chuvosa aquela que recebeu os Holy Fuck, quarteto Canadiano de música electrónica, no cavernoso Music Box para o último concerto da tour Europeia do grupo de Toronto. Numa inesperada noite de Domingo, o espaço apresentou-se com uma audiência que começou humilde mas que rapidamente se compôs para uma casa quase cheia.

 Envoltos num cenário parco de adereços, mas dominado por complexas consolas com uma miríade de botões e interruptores, interligados por um mar revolto de cabos, Brian Borcherdt e Graham Walsh encontravam-se frente-a-frente totalmente concentrados nos seus instrumentos, enquanto Matt Schulz na bateria e Matt McQuaid no baixo se mantiveram ao fundo do palco segregados de qualquer contacto com o público. A desconexão esteve quase sempre presente, enaltecida por uma postura quase reminescente do movimento shoegaze com que se apresentaram a tocar o seu mais recente trabalho "Latin", e quebrada apenas pelos breves momentos em que, de forma atrapalhada e quase tímida, Borcherdt agradecia a presença de todos.



A comunicação em definitivo passou sempre pelos sons ensurdecedores da eletrónica experimental dos Holy Fuck. Uma construção elaborada de sons tradicionais envoltos por uma rude névoa digital proveniente dos efeitos e feedbacks. A linha do baixo, ou o ritmo demarcado da percussão, eram o fio condutor onde uma forte e violenta eletrónica, às vezes acompanhada por uma voz distorcida e quase inteligível, se acoplava para formar um todo no limiar da coesão. A performance é ondulante, quase hipnótica, mas abrupta nas paragens e nos arranques. Com os interlúdios entre cada tema a quebrarem o ritmo de corpos que querem dançar, mas que se vêem privados da sua fonte de energia.

O som dos Holy Fuck é atípico, e surge em camadas de uma forma igualmente atípica. Não é usual ver-se rolos de filme de 35mm a serem puxados por maquinaria imperceptível no caos das luzes e projeções, mas que se sentem ao formular pequenas ondas de distorção que contribuem para o todo.  O surreal acumula e recompensa aqueles que se deixam embalar, mas é certo de alienar todos aqueles que não têm já apreço pelo género.

Um concerto curto, mas fortuito e genuíno. Os Holy Fuck vieram, cumpriram, e após um encore saíram do palco com um sorriso nos lábios. Do lado de cá o público vocalizou a vontade de mais, mas para isso terão de esperar pelo seu regresso que se deseja para breve, mas que se quer mais como certo.

Opinião - O Homem que Plantava Árvores

Título: O Homem que Plantava Árvores
Autor: Jean Giomo
Editora: Marcador

Sinopse:
Inspirado em acontecimentos verdadeiros, traduzido em diversas línguas e largamente difundido pelo mundo inteiro, O Homem Que Plantava Árvores é uma história inesquecível sobre o poder que o ser humano tem de influenciar o mundo à sua volta.
Narra a vida de um homem e o seu esforço solitário, constante e paciente, para fazer do sítio onde vive um lugar especial. Com as suas próprias mãos e uma generosidade sem limites, desconsiderando o tamanho dos obstáculos, faz, do nada, surgir uma floresta inteira - com um ecossistema rico e sustentável.
É um livro admirável que nos mostra como um homem humilde e insignificante aos olhos da sociedade, a viver longe do mundo e usando apenas os seus próprios meios, consegue reflorestar sozinho uma das regiões mais inóspitas e áridas de França.

Opinião por Maria do Rosário Palma:
Um dos livros que adorei, sinto quase o instinto, em não me guiar pela beleza da capa ou pela sinopse mas pela empatia que crio com um título ou algum fascínio, que não consigo explicar, quando me sinto atraída por um livro. Pois mais uma vez aconteceu que me rendi a este livro maravilhoso que mostra como quando queremos fazer algo, ainda que sozinhos, conseguimos. O poder da perseverança, do querer, do não desistir, é uma força da natureza passada para o ser humano. Se sozinhos conseguimos erguer quase uma muralha, então se muitos, ou toda a gente tivesse essa vontade de acreditar no seu potencial, certamente faríamos um mundo melhor."

Sextante Editora - Ficção - Os contos de Joyce Carol Oates

Título: Terra Amarga
Autor: 
Joyce Carol Oates
Tradutor: Susana Baeta
Págs.: 376
PVP: € 17,70

«Selvagem, poético, sem compaixão… a mão de Oates nunca esteve tão segura, os seus olhares nunca foram tão penetrantes» escreveu o The Washington Post a propósito de Terra Amarga, um novo livro de contos de Joyce Carol Oates que a Sextante Editora publica a 7 de novembro.
Uma das principais candidatas ao Prémio Nobel da Literatura, Joyce Carol Oates tem uma vasta obra publicada, que conta com mais de 40 livros, desde romances, novelas, poesia, peças de teatro e ensaios.
Na Sextante Editora estão já publicados dois romances da autora, Rapariga negra, rapariga branca e A filha do coveiro.

Sinopse:
Esta reunião de dezasseis contos de Joyce Carol Oates – histórias que revelam, com precisão e força inesquecíveis, o poder da violência, da perda e do luto moldando uma sociedade e as suas almas – confirma-a como um dos grandes mestres contemporâneos da arte da short story.
Joyce Carol Oates atinge neste livro o cume das suas capacidades narrativas: capacidade de observar o quotidiano, precisão lapidar da descrição, imaginação prodigiosa e doseamento do humor negro e do suspense.
Terra Amarga não é um livro para adormecer.

Sobre a autora:
Joyce Carol Oates nasceu em 1938 nos Estados Unidos. Publicou o seu primeiro romance em 1963 e ganhou o National Book Award em 1970 com o romance Eles. É professora na Universidade de Princeton e já publicou uma obra vasta com cerca de trinta romances, mas também ensaios, contos, peças de teatro, poesia. A sua obra foi traduzida em várias línguas e elogiada pela crítica internacional. Joyce Carol Oates é, desde 1978, membro da Academia Americana de Artes e Letras.

3 de novembro de 2014

Passatempo - O estranho ano de Vanessa M. - Vencedores

A D'Magia agradece a todos os participantes, infelizmente só 2 poderiam ser premiados.

E os vencedores são:
Vania Janeirinho
Eunice Alberto

Os vencedores serão contactados por email.
Parabéns aos vencedores e os votos de uma boa leitura.

Opinião - A Dança dos Dragões

Título: A Dança dos Dragões
Autor: George R. R. Martin
Editora: Saída de Emergência

Sinopse:
O Norte jaz devastado e num completo vazio de poder. A Patrulha da Noite, abalada pelas perdas sofridas para lá da Muralha e com uma grande falta de homens, está nas mãos de Jon Snow, que tenta afirmar-se no comando tomando decisões difíceis respeitantes ao autoritário Rei Stannis, aos selvagens e aos próprios homens que comanda. Para lá da Muralha, a viagem de Bran prossegue. Mas outras viagens convergem para a Baía dos Escravos, onde as cidades dos esclavagistas sangram e Daenerys Targaryen descobre que é bastante mais fácil conquistar uma cidade do que substituir de um dia para o outro todo um sistema político e económico. Conseguirá ela enfrentar as intrigas e ódios que se avolumam enquanto os seus dragões crescem para se tornarem nas criaturas temíveis que um dia conquistarão os Sete Reinos?

Opinião por Rosana Maia:
Para quem leu a minha opinião de “O Mar de Ferro”, o volume anterior de “As Crónicas do Gelo e do Fogo”, sabe que fiquei com grandes expectativas em relação a este livro. Se, por um lado, o oitavo livro foi um pouco parado, os últimos capítulos do mesmo levaram-me a crer que o ritmo desta saga ia acelerar novamente no livro seguinte. Infelizmente, enganei-me.

Achei este volume igualmente parado como o anterior, no entanto, gostei do facto de reviver algumas das minhas personagens preferidas como o Jon Snow, o Bran e o Tyrion e, confesso que tenho saudades da Arya.

É incrível a empatia que criei com estas personagens, o autor levou a que gostasse delas de uma maneira inexplicável. No geral, partilho de um grande carinho pela casa Stark. A meio do livro, dei por mim a pensar o quão a morte do Ned Stark levou a que toda esta família ficasse em risco. E, por isso, cada vez que leio um capítulo de algum membro desta família cai em mim uma certa tristeza e nostalgia daqueles tempos em que todos juntos eram felizes. Por outro lado, também a sua morte levou a que muitos segredos não fossem revelados, nomeadamente, a mãe de Jon Snow. E penso que descobri, ao longo deste livro, como vamos saber quem ela é! Claro que posso estar enganada, mas fiquei contente ao ver uma luz ao fundo do túnel.

Como não poderia deixar de ser num livro de George R. R. Martin, novas personagens surgiram. No entanto, não consegui durante o livro criar uma ligação com as mesmas. E porquê? Ao fim de 9 livros, o autor continua a criar personagens e personagens. E, se por um lado, esta é uma capacidade de louvar e que enriquece muito a obra, por outro criou em mim alguma irritação. Apesar de saber que cada personagem criada tem o seu propósito, a verdade é que dei por mim a rogar pragas ao autor :), que está constantemente a acrescentar coisas novas, a fazer render o peixe. Acredito que no futuro vá provavelmente gostar ou criar empatia por estas novas personagens, mas como na vida, para gostarmos de alguém, é preciso algum tempo!

A Dança dos Dragões acontece paralelamente aos dois livros anteriores, o que tornou muitas vezes a leitura confusa, no entanto, é um facto para o qual o autor nos adverte, pelo que já entramos na leitura a saber com o que contar.

Por fim, posso dizer que, apesar de toda a irritação que possa ter criado para com o autor, é inegável a qualidade da obra. É verdade que ficou aquém das minhas expectativas, no entanto, não deixa de ser uma excelente obra de fantasia de agradável leitura.