24 de fevereiro de 2021

Opinião – “I Care a Lot” de J. Blakeson

Sinopse

Provida de uma autoconfiança de tubarão, Marla Grayson (Rosamund Pike) é uma guardiã profissional nomeada pelo tribunal para dezenas de enfermarias de idosos cujos bens ela apreende e astutamente rouba por meios duvidosos, mas legais. É uma estratégia bem lubrificada que Marla e sua parceira de negócios e amante Fran (Eiza González) usam com eficiência brutal na sua mais recente atividade empresarial para com Jennifer Peterson (Dianne Wiest) uma aposentada rica sem herdeiros vivos ou família. Mas quando a visada revela ter um segredo igualmente obscuro e ligações muito próximas com um gângster volátil (Peter Dinklage), Marla é forçada a subir de nível num jogo em que só predadores podem jogar.

Opinião por Artur Neves

Com uma tradução nacional que aceitamos; “Tudo pelo vosso Bem”, porque assume os objetivos explícitos da história, embora não sendo reais, temos aqui um thriller tragicómico sobre a obtenção de poder para exclusivo benefício próprio quando transformado em dinheiro que nunca é demais nem tem limite porque facilmente obtido, dedicadamente obtido, por uma Marla Grayson que sem um pingo de respeito pelo próximo ou comiseração, se apropria de todos os bens e fortuna de quem cai na alçada da sua tutoria arranjada, com a conivência de diferentes cúmplices situados em condições adequadas para o conseguir.

Quando vemos Jennifer Peterson ser arrastada de casa pela ordem de um tribunal, contra sua vontade, sem possibilidade de argumentação ou defesa e ser entregue a uma instituição, que lhe restringe a liberdade, lhe confisca o telemóvel e a impede de qualquer contacto com o exterior incluindo ter visitas, com o “carinhoso” acompanhamento de Marla que exibe um sorriso largo, brilhante e comovente, em conjunto com uma voz ronronada de contralto que adiciona uma ameaça velada aquele sorriso, que sabemos exprimir “és a cereja em cima do meu bolo porque vou ficar com toda a tua fortuna…” provoca-nos uma revolta interior e sugere-nos a pergunta se nos USA aquela situação poderia ocorrer de facto.

Pelos vistos parece que sim, especialmente quando a decisão depende de um pouco interveniente juiz (Isiah Whitlock Jr.) que se limita a corroborar tudo o que lhe é apresentado pelas “entidades competentes” naquele tribunal de família em que se pretende defender os idosos alegadamente fragilizados pela doença e pela demência.

Em boa verdade esta é uma história de terror que me faz lembrar “Distúrbio” de 2018 realizado por Steven Soderbergh, só que sem qualquer laivo de comédia. Aí a cativação da vítima é mesmo a sério. Nesta história para os nossos dias, depois de um qualquer Trump ter abandonado contrafeito a Casa Branca, trata-se de obter poder e dinheiro através da exploração dos mais vulneráveis, por uma Marla, que no início do filme ri e escarnece da máxima de que; “trabalhar duro e jogar limpo leva ao sucesso e à felicidade…”, depois explica-se que não é um cordeiro, mas sim uma leoa e nesta altura ainda não sabemos o que ela se prepara para fazer.

Vemo-la depois no seu escritório, olhando para uma parede cheia de fotografias dos seus “clientes”, dos seus “protegidos”, que ela espera que durem o tempo suficiente para lhe darem lucros depois de pagar as luvas à cadeia de “colaboradores” que propiciam aquela situação. Quando por qualquer motivo eles morrem antes do previsto é um falhanço comercial e Jennifer Peterson apresenta um extraordinário potencial de futuro que lhe caiu no colo e ela projeta explorar em todo o seu esplendor.

Todos os 118 minutos deste filme são emocionantes na sua malvadez, na sua história retorcida mas que nos parece próximo do possível e nos faz sentir inquietos com tamanha injustiça. Quase sentimos alívio quando começamos a perceber que Jennifer Peterson não é bem o que parece, só que a sua relação com Roman Lunyov (Peter Dinklage, mais conhecido como o anão Tyrion Lannister em Game of Thrones) também não nos transmite sossego. São só vilões, todos maus, mas aqui a diversão já continua com outro ânimo porque ganhamos a espectativa de que Marla não obterá os seus intentos, mantendo-nos interessados e a tentar adivinhar o próximo passo desta rocambolesca história.

Rosamund Pike está notável neste desempenho de uma pessoa profundamente horrível, socialmente desdenhosa, perversa, com um belo sorriso aterrador, porque encerra o quanto de pior a espécie humana possui. O argumento está muito bem conseguido e J. Blakeson merece parabéns como autor, inspirado por casos publicados no The New Yorker que usam vazios legais não revistos com mais de 800 anos, sobre a proteção de idosos, e realizador porque, com graça e emoção concebeu uma história com vários twists imprevisíveis que nos divertem e emocionam. Recomendo vivamente, em exibição na Netflix.

Classificação: 7 numa escala de 10

 

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