25 de outubro de 2018

Opinião – “Bel Canto” de Paul Weitz


Sinopse

Baseado no best-seller de Ann Patchett, BEL CANTO é uma dramática história de amor centrada numa famosa soprano (Julianne Moore), que viaja à América do Sul para dar um concerto privado numa festa de um magnata industrial japonês (Ken Watanabe). No auge da reunião de diplomatas e políticos, a mansão é assaltada por um grupo rebelde armado que exige a libertação dos seus camaradas presos. São feitas ameaças, perdem-se vidas, começa uma negociação tensa e segue-se um longo impasse.
Enquanto estão presos na mansão, os reféns e seus captores, que falam línguas diferentes, são forçados a encontrar novas formas de comunicar. A música, especialmente as belíssimas árias cantadas pela personagem de Julianne Moore, desperta uma camaradagem comum e até faz florescer o amor, unindo as várias pessoas que criam inesperados laços, levando-as a ultrapassar as suas diferenças e a redescobrirem a sua humanidade.

Opinião por Artur Neves

Bel Canto na sua origem, corresponde a uma técnica vocal que pode ser desenvolvida por aprendizagem e prática subsequente, que procura enfatizar o virtuosismo vocal e simultaneamente acentuar o conteúdo dramático da peça cantada através do uso expressivo da coloração vocal, diferenciando algumas notas no contexto da peça cantada. No filme, a melódica voz da personagem interpretada por Julianne Moore, pertence á aclamada soprano americana; Renée Fleming, considerada uma das principais cantoras líricas da atualidade.
Nesta história enfatiza-se o efeito da música sobre a sensibilidade humana, seja de que condição for, tentando demonstrar que até os mais modestos e musicalmente iletrados podem sentir-se arrastados pela beleza tonal de uma bela voz, fazendo com que se esbatam as diferenças entre as pessoas nos mais variados contextos, incluindo os de tensão e morte como no assalto ao teatro pelos rebeldes que procuravam a liberdade dos seus correligionários presos através da cativação do presidente do país onde se dá o golpe, que presumidamente estaria a assistir ao concerto.
Paul Weitz, realizador americano nascido em 1965, de pendor melómano, e autor de uma série de sucesso em 40 episódios que serviu para divulgação de música clássica; “Mozart in the Jungle” de 2014, não estreada em Portugal, apresenta-nos neste filme a sua visão do poder da música, na particular classificação do Bel Canto, desprezando (digo eu) ou descurando, o efeito e a ação do “putsch” num país que nunca saberemos qual é, embora se possa intuir ser algures na América latina, decorrente dos diálogos em Espanhol.
Os rebeldes são representados como um grupo jovem, mal formado, sem preparação militar, sem estratégia nem plano de assalto, exceto a desejada prisão do presidente que afinal não se encontrava lá. É assim que neste contexto anárquico sobressai a claríssima voz da soprano Roxane Coss (Julianne Moore - Renée Fleming) que encantou o magnata Ken Watanabe (Katsumi Hosokawa) e todos os que a ouviram cantar, com particular ênfase para os rebeldes que nunca tinham escutado tanta beleza, nem se tinham deixado arrastar para o amor. Temos portanto uma história de pendor revolucionário em ambiente lírico mas que não consegue ser nem uma coisa nem a outra considerando a atabalhoada revolução que nos é mostrada e os curtos intervalos em que se ouve, o tal, Bel Canto. Fica-se com a sensação que muito ficou por dizer e fazer na ação, e pouco se ouviu de Bel Canto, o que é pena, porque realmente é magnificamente belo.

Classificação: 5 numa escala de 10

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