10 de janeiro de 2018

Opinião – “O Sacrifício de um Cervo Sagrado” de Yorgos Lanthimos

Sinopse

Steven é um cardiologista conceituado, casado com Anna, com quem tem dois filhos. Já algum tempo que ele mantém contacto frequente com Martin, um adolescente cujo pai morreu na mesa de operação, justamente quando estava a ser operado por Steven. A relação entre ambos é de uma cumplicidade enorme que o médico decide apresentá-lo à família. Entretanto o jovem sente que não está a receber a mesma dedicação e por isso, decide elaborar um plano de vingança.

Opinião por Artur Neves

Em 2009 Yorgos Lanthimos torna-se notado no mundo cinematográfico com o filme “Canino” que mostrava uma forma algo estranha de educar jovens, neste caso os jovens eram filhos do próprio educador que apresentava tendências despóticas e autoritárias, provocando nos filhos, revolta e o inerente desequilíbrio de personalidade. Mas tudo bem a história continha também uma crítica implícita ao modo de educação apresentado e o filme ficou como uma referência temática.
Em 2015 este realizador Grego nascido em 1973 em Atenas apresentou-nos “A Lagosta” como sendo uma forma inovadora de tratar os desequilíbrios mentais de pessoas em qualquer idade, tendo o filme sido premiado em festivais, considerando alguma razoabilidade do argumento que embora ficcional e fantasista, mostrava coerência na ação desenrolada na história.
Agora em 2017 Yorgos apresenta-nos esta história que pretende ser um filme sobre a culpa, pois um médico faz amizade e tenta compensar o filho do homem que morreu às suas mãos quando ele o operava debaixo do efeito do álcool. Esta relação é-nos apresentada sob contornos dúbios pois mostra-nos um afeto de obrigação, sem carinho explícito mas com um desvio “subliminar” para a perversão sexual velada e nunca assumida por qualquer dos intervenientes, que sugere alguma perplexidade ao espectador.
A mulher do médico Anna (Nicole Kidman) vive com este, Steven (Colin Farrell), numa bela casa nos arredores da cidade e ambos disfrutam de um ambiente social de classe média alta em que a sua relação íntima é-nos apresentada distorcida, considerando que na preparação para um contacto amoroso de índole sexual a mulher faz-se de morta sendo nessa condição possuída pelo marido, indiciando mais fortemente uma perturbação de personalidade já aflorado anteriormente na relação com o rapaz.
Este rapaz, por seu lado, mostra descontentamento no nível de relação do médico com ele e roga-lhe uma praga de morte a toda a família a menos que um dos elementos seja sacrificado como compensação para a morte do seu pai, sem que se saiba qual é o poder que o rapaz tem sobre ele, exceto a acusação de culpa pela morte do seu pai. A partir daqui a punição (segundo a mitologia Grega) que dá o nome ao filme (em que Ifigénia é sacrificada em benefício do cervo sagrado) vai cumprir-se e o sacrifício do seu próprio filho é executado como compensação pela morte que ele infligiu ao seu paciente durante a operação falhada por sua própria responsabilidade.
É pois este imbróglio que Yorgos apresenta ao espectador com este filme, mas de uma forma algo “doutoral”, ensimesmado pela representação que deu à imputação da “culpa”, incluindo uma superioridade paternalista, através de personagens sem espessura que nunca chegamos a conhecer ou sequer a fazer um juízo concreto das suas atitudes, porque no cerne deste filme de Yorgos, ele está lá para nos dizer precisamente tudo o que precisamos de saber, cabendo ao espectador apenas ver e ouvir sem quaisquer outros comentários. Passou-se!...

Classificação: 4 numa escala de 10

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