6 de dezembro de 2015

Opinião - "O Homem Tranquilo de John Ford



Sinopse
A Irlanda vista e filmada por John Ford com uma história que começa como um conto de fadas (a visão de Maureen O'Hara nos campos verdes do Technicolor) e termina com a mais memorável e divertida luta entre dois homens (John Wayne e Victor McLaglen) que o cineasta mostrou. Pelo meio fica a simples história de "um homem que quer ir para a cama com uma mulher", como disse John Ford e o mais belo beijo da história do cinema, que deslumbrou cinéfilos e deslumbrou ET no filme de Spielberg.

Opinião por Marta Nogueira
Este é o filme em que, contrariamente à sua imagem habitual de cowboy durão, John Wayne constrói uma personagem deliciosamente bonacheirona e pacífica. Uma guerra de sexos, sim senhor, mas uma "good old" guerra dos sexos como já não se fabricam. Não são necessários assédios sexuais invertidos, masculinizações excessivas de guerreiras urbanas contra monstros electrónicos de outras eras ou planetas, batalhas conjugais ferozes em tribunais liderados por advogadas "bitchie". Não é preciso nada disto, apenas um homem e uma mulher, tal e qual como são.
Temos uma cabana e muito pouco amor. Ou, pelo menos, pouco expressivo. Mas as palmadas com que os dois se presenteiam de vez em quando falam muito mais do que quaisquer beijos apaixonados.
Será preciso dizer que a forma como os dois se apaixonam é pouco verosímil mas, raios, com um beijo daqueles, quem é que precisa de tempo para se conhecer?
Sean regressa à Irlanda para fugir ao ritmo frenético da vida brutal como pugilista, que levava nos Estados Unidos. Na Irlanda terá finalmente a paz e o sossego num paraíso terrestre. Porque a Irlanda é isso mesmo, maravilhosamente filmada por Ford. Ah ... Mas Sean esquece-se de um pequenino pormenor que não deve nunca ser menosprezado, sob circunstância alguma - em cada mulher existe um inferno inteirinho e em cada homem um masoquismo insaciável. E é assim que Sean vai ter de defrontar o mais exigente combate da sua vida - ganhar o seu pequenino inferno privado.
No início, Sean recosta-se na sua cadeira, aceita até dormir em sacos-cama com demasiados botões e resigna-se. Afinal, se calhar até é melhor assim. E depois, a cama também já está em cacos ... Mas um homem não é de ferro e, bem vistas as coisas, uma mulher não parece, mas é de betão. Tem, assim, início uma luta equilibradíssima entre uma irlandesa que não está para brincadeiras e quer porque quer o seu dote, como qualquer boa irlandesa que se preze, e um irlandês enxertado do outro lado do oceano que só quer é brincadeira, mas tem de merecê-la.
A mais antiga guerra dos sexos é, afinal, essa - um homem tem de merecer o amor da mulher dos seus sonhos. Um pouco primitivo, talvez, mas, ainda assim, talvez continue a ser verdade, pelo menos no nosso inconsciente. O problema é quando essa mulher é Maureen O'Hara. E o problema ainda fica maior quando o homem que anda atrás dela tem quase dois metros de altura, é um pachorrento incorrigível, qualquer coisa que diz é dito com um ar de "não me chateies" soberbo e detém uma paciência de santo.
E pronto, está o campo preparado para uma batalha final sublime. 
Um filme que vale sempre a pena rever. Um registo inusitado tanto de Ford como de Wayne, que pode não ter sido um grande actor, mas que se sabia representar a si próprio como poucos.

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