6 de abril de 2014

Opinião - Alice

Título: Alice
Autor: Caroline Stoessinger
Editora: Matéria Prima

Sinopse:
Este livro conta a história de Alice Herz-Sommer, actualmente a mais idosa sobrevivente do Holocausto.
Alice nasce em 1903, em Praga. Toda a sua infância e juventude são influenciadas pela riquíssima cultura de língua alemã e checa da Europa Central da época: Kafka, Max Brod, Stefan Zweig, Thomas Mann, Rilke ou Mahler fazem parte da sua vida.
Influenciada pela mãe, inicia ainda criança a sua carreira de pianista e professora que a irá tornar famosa. Todos os seus sonhos foram cortados com o eclodir da Segunda Guerra Mundial. Alice vê-se num gueto com o seu filho e vive uma nova e dura realidade à qual, graças à música, consegue escapar.

«É uma história de resistência pela música e talvez mais ainda por um intenso amor à vida como apenas as pessoas que encararam morte de frente podem sentir.» Esther Mucznik

Opinião por Odete Silva:
Existem livros que quando terminamos a sua leitura precisamos de digerir o que acabamos de ler, este foi um deles. Fiquei profundamente comovida.

Quando li a sinopse  pensei “pronto vou fartar-me de chorar”, mas foi realmente o oposto, eu sorri a ler este livro, pois trata-se de um hino à vida,  esperança, alegria, optimismo, sem dúvida alguma.
Que grande lição tiramos ao ler esta narrativa maravilhosa. Não pensem que vamos ler sobre o sofrimento humano no holocausto, não se trata disso, vamos ler sobre como deve ser vivida a vida apesar de todas as suas vissicitudes , amarguras e tragédias.

Alice Herz-Sommer com 109 anos é a mais antiga sobrevivente do Holocausto, além de pianista e dar concertos também se destacou como professora,  com um talento fora do comum, foi a música   que a salvou a ela e ao filho do campo de concentração onde estiveram prisioneiros. 

Alice nasceu em Praga em 1903 numa familia de judeus intelectuais e músicos, teve uma infância privilegiada conheceu e conviveu ainda em menina com figuras fascinantes e mundialmente conhecidas, como Franz Kafka, Max Brod, Stefan Zweig, Thomas Mann, Sigmund Freud  e muitos outros,   que a influenciaram para o resto da vida. Alice chamava de Tio Franz ao escritor, lembra-se dele como  uma “eterna criança”, pois brincava com ela e a irmã.

Em 1943, Alice com o seu marido, o filho e a mãe, foram deportados para o campo de concentração de Theresienstadt. Mas o marido,  a mãe e alguns amigos foram levados para o campo de Auschwitz, nas mãos dos nazistas já não sairam de lá com vida.
Alice como pianista ficou neste campo de concentração, assim como muitos outros artistas prisioneiros de Hitler, para darem concentros e fazerem peças de teatro, mostrando ao mundo que não era assim tão mau estarem em campos de concentração,  era a mensagem que  os nazis queriam deixar passar e enganar o mundo exterior. E foi exactamente o facto de Alice ser uma  pianista que lhe salvou a vida e a do  seu filho, era o único campo de concentração que permitia que os filhos ficassem com as mães. Sofreram muito devido a terem fome e frio, além de verem outros com doenças, a serem torturados e mortos.
Dos 156.000 judeus prisioneiros em Terezín    17.500 sobreviveu.

Excerto: “O amor de uma mãe pelo filho é sua única fortaleza contra o mundo, aconteça o que acontecer”, “Eu inventava histórias o tempo todo, não deixava o meu filho sentir medo nem inquietação. As lágrimas não tinham lugar no campo, o riso era o nosso único remédio.”

Depois da guerra Alice e o seu filho Rafi  foram viver  para Israel,  onde foi ensinar música de novo, não voltou a dar concertos, mas continuou sempre a tocar em casa, na presença de  Leonard Bernstein, Isaac Stern, Rubinstein Arthur e Golda Meir, por exemplo.
Recusou-se a falar com quem quer que fosse sobre o periodo que foi prisioneira no campo de concentração,” não queira que o filho Rafi ouvisse, “não queria que alguém tivesse pena de mim”,por isso manteve-se calada sobre o seu passado.

O filho seguiu a carreira de violoncelista em Londres. Mais tarde Alice mudou-se para perto do filho e dos netos. Mas iria ter mais um desgosto na sua vida quando o filho com 65 anos morreu de repente.
Mas nada a demoveu de continuar a fazer a sua vida normal,  frequentou a unversidade 3 vezes na semana até aos 104 anos. Alice teve uma vida difícil, mas nunca perdeu o otimismo nem a vontade de viver.
Vive sózinha num apartamento onde começa cada dia praticando Bach e Beethoven, onde  é adorada pelos vizinhos.  Recusa-se a viver com amargura pelas tragédias que lhe bateram à porta. Alice diz: “ rir é uma coisa linda." Sobre  a velhice:Não é assim tão mau”, “em vez de escarafunchar nos problemas, porque não olhar para aquilo que a vida nos oferece? Cada dia é um presente. Belo.”
Continua a receber visitas de muitos amigos que fez ao longo da vida.

Esta obra conta-nos a história de uma pessoa única, inteligente e invulgar com um optimismo perante a vida sem precedentes. Não sente amargura pelo que lhe fizeram. Tem uma capacidade em reconhecer humanidade em todas as pessoas até nos inimigos.

Simplesmente adorei este livro de memórias, aconselho a todos que o leiam, pois quando o fecharem vão sentir-se diferentes e encarar a vida de outra maneira. Recomendo sem reservas.


"Estou sozinha, mas não solitária, porque minha vida é rica com a música.  A Música salvou-me a vida."
"Está sempre aberta  à novidade:  a um novo pensamento, uma nova ideia, um novo livro, novas pessoas. A sua curiosidade é insaciável” 

Adora falar com todo o género de pessoas diz:“que está interessada em conhecer o que de melhor tem cada individuo.”  

"Só quando estamos velhos, vamos perceber a beleza da vida - a vida é um presente".

"Cada dia é um milagre. Por pior que sejam as minhas circunstâncias,  tenho a liberdade de escolher a minha atitude para com a vida", até de encontrar a alegria. O mal não é novo. Cabe-nos a nós a forma como lidamos com o bem e o mal. Ninguém nos pode retirar esse poder. "

“Sou mais rica do que as pessoas ricas do mundo, porque sou música” “ Quando toco Bach estou no céu.”

“Quanto mais leio, penso e falo com pessoas, mais me apercebo de como sou feliz.” 

“Quando morrer terei uma  sensação boa. Terei dado o meu melhor. Acredito que vivi a vida de forma justa.”

1 comentário:

ℒ ღ disse...

Depois de ler esta opinião já está na lista de próximos livros a adquirir para ler. <3