21 de julho de 2020

Opinião – “Judy & Punch – Amor e Vingança” de Mirrah Foulkes


Sinopse

Na anárquica cidade de Seaside, os marionetistas Judy e Punch tentam revitalizar o seu espetáculo de marionetes. O espetáculo torna-se um sucesso, graças à elevada mestria de Judy (Mia Wasikowska), enquanto manipuladora de marionetas, mas a desmedida ambição de Punch (Damon Herriman) e a sua propensão para abusar do whisky acabam por provocar uma inevitável tragédia, da qual Judy procurará vingar-se.

Nesta visceral e dinâmica reinterpretação em live-action da famosa peça de marionetas do século XVI, a realizadora e argumentista Mirrah Foulkes dá uma reviravolta na história tradicional de Punch e Judy, juntando-lhe uma forte componente de crítica social e criando uma história de vingança, feroz e sombria mas ao mesmo tempo cómica e épica, com Mia Wasikowska e Damon Herriman nos principais papéis.

Opinião por Artur Neves

Como primeira obra de realização e de escrita do argumento de Mirrah Foulkes, esta atriz que conta entre as suas obras de representação mais emblemáticas, a personagem de Sophie em “Beleza Oculta” de 2012, apresenta-nos aqui uma história de fantasia que recupera os “Punch and Judy” que surgiram na tradição da comédia dell’arte do século XVI em Itália, como forma de contar uma realidade da época que se cingia à supremacia do marido sobre a esposa e ao seu direito feudal sobre ela, constituindo essa prática o motivo central de diversão para gáudio de uma população inculta, com preconceitos atávicos e crenças seguras no poder da bruxaria sob qualquer forma que o feitiço lhe fosse apresentado.

Assim este filme de Mirrah Foulkes, que foi estreado no festival de Sundance traz-nos Punch e Judy os clássicos fantoches brigões que existem pelo menos desde 1600, a exibirem-se na cidade de Seaside, donde é totalmente impossível ver o mar, ou qualquer mar, numa comédia intrigante e sombria em que a alteração da justaposição dos nomes não é acidental mas antes, essa sim, a vingança de Judy sobre Punch, depois de séculos da supremacia de Punch.

É aqui, que Judy e Punch, casados, depois de Judy se ter apaixonado por Punch na sua primeira passagem na cidade, agora com uma filha e morando na casa de Judy que ficou aos cuidados do casal de servos que a criaram, que tentam restabelecer o seu show de marionetas, encenando um teatro medieval, onde uma multidão ululante de espectadores nem sempre deixava sair vivos, os atores ou performers de qualquer outra arte.

A representação não é mais do que o tradicional Punch & Judy, onde na maior parte do tempo o boneco de Punch surra desalmadamente o boneco de Judy e na realidade ele é um bêbado e um falhado querendo arvorar-se no maior marionetista do mundo, enquanto Judy é o cérebro e o talento do espetáculo que antes de fazer a apresentação tem de cuidar das necessidades da filha pequena de ambos e deixar que Punch brilhe em palco e se embebede em casa.

A história do filme oscila entre Shakespeare e Dickens, composta por rufiões, povo crédulo e inculto, vendedores de batata e um polícia incipiente Mr. Frankly (Tom Budge) que representa uma emergente ordem policial que ainda não se sabe impor naquela sociedade desordenada. Todo o filme desenrola-se num mundo próprio que nos proporciona um conto de fadas bizarro e revisionista sobre os bastidores das histórias de marionetas, brutal e elementar.

O próprio sentido humor da história alimenta-se da violência cómica que tradicionalmente está ligada a Punch e Judy, exceto nos heréticos, o povo expulso de Seaside que formou uma comunidade na floresta e que salvou Judy da morte após uma violenta tareia de Punch. A Drª Feelgood (Gillian Jones), líder da comunidade, insiste com Judy que é melhor ela fugir do que tentar combater o patriarcado reinante em Seaside, mas Judy quer vingar a morte da sua menina e como tal não desiste de fazer justiça.

Tem elementos curiosos sobre a tradição do espetáculo de marionetas e um humor sombrio sobre realidades medievais horríveis, mas para Foulkes constitui uma estreia promissora e como tal merece ser vista.

Estreia a 30 de Julho nos cinemas NOS

Classificação: 6 numa escala de 10

16 de julho de 2020

Opinião – “O Paraíso, Provavelmente…” de Elia Suleiman


Sinopse

ES escapa da Palestina em busca de uma pátria alternativa, apenas para descobrir que a Palestina está seguindo atrás dele. A promessa de uma nova vida transforma-se numa comédia de erros: por mais que ele viaje, de Paris a Nova Iorque, algo sempre o lembra de casa. Do premiado diretor palestiniano, Elia Suleiman, aparece-nos uma saga em forma de comédia que explora a identidade, nacionalidade e pertença, na qual Suleiman faz a pergunta fundamental: onde é o lugar que realmente podemos chamar de lar?...

Opinião por Artur Neves

Elia Suleiman é sem dúvida o mais famoso realizador palestiniano cujos trabalhos são reconhecidos na Europa, exibidos e premiados no festival de cinema de Cannes, que em 2019 destacou este filme num intervalo de dez anos do seu anterior, em que Suleiman mais uma vez explora a noção de nacionalidade com identidade e pertença, abordando as caraterísticas dessas expressões com um humor inexpressivo, recriando situações comuns que têm tanto de cómico como de irracional ou absurdo.

Não se pode dizer que é um filme fácil. Suleiman é um realizador e intérprete do seu personagem à maneira de Jacques Tati, mais observador do que comentador e que tal como Tatti compõe habilmente os quadros que nos apresenta para tirar o maior proveito possível de cada mordaça que exibe, através de um personagem mudo, frequentemente estático, de óculos e chapéu de palha cujo arquear de sobrancelhas constitui a sua mais poderosa ferramenta de comédia. Suleiman assume a liderança da história (uma sucessão de casos quotidianos) interpretando um personagem de si mesmo que absorve os absurdos do mundo ao seu redor e responde com o seu olhar e expressão facial que valem mais do que 100 palavras.

Suleiman pertence à comunidade ortodoxa grega Roum e para que o leitor possa formar uma ideia do conteúdo do filme vou revelar-lhe a cena de abertura. Com o ecrã negro ouvem-se vozes de várias pessoas rezando, quando aparece a imagem vemos tratar-se de uma procissão que caminha em direção a uma igreja ortodoxa de portas fechadas. Na procissão, um padre caminha no meio de um grupo de fiéis e emana preces que os fiéis respondem que a salvação está no interior da igreja. Ao chegar à porta da igreja, o padre solenemente bate três vezes e manda a porta abrir. A surpresa é geral quando do interior da igreja um voz anuncia que se recusa a abrir a porta e manda-os embora. O padre embaraçado, repete por mais três vezes a proclamação solene da cerimónia e pelas mesmas vezes a mesma voz se recusa a abrir a porta que os fiéis dizem ser da salvação. Já visivelmente zangado o padre entrega o bordão a um fiel que está próximo, tira a mitra da cabeça e entrega-a a outro, levanta as saias das vestes clericais e caminha em direção à porta lateral da igreja que arromba com um pontapé, entra na igreja e ouve-se no exterior, castigar à pancada os que no interior se recusavam a abrir a porta principal. A cena termina assim.

Depois de outras cenas significativas em Nazaré, sua cidade natal, Suleiman ruma a Paris e posteriormente a Nova Iorque transmitindo-nos a ideia de um exílio permanente, já que em qualquer das duas cidades visitadas ele não se sente mais confortável do que em Nazaré, que não corresponde ao “lar” (ao home) que ele procura, depois da morte dos seus pais, razão última para a sua demanda pelo mundo em busca de uma felicidade indefinível.

Em Paris e Nova Iorque Suleiman mostra-nos com ironia, o absurdo duma perseguição policial em patins a um suspeito só por ser estrangeiro, uma refeição familiar em Nova Iorque num restaurante de fast food em que todos estão armados, até as crianças, ou a paragem em frente de um edifício em Paris, que exibe uma placa indicadora com a frase; “a comédia humana” numa clara universalidade dessa comédia que nos atinge a todos, tornando irrelevante o sítio onde estejamos, pois nas grandes cidades campeiam os mesmos absurdos de que ele procurou fugir na sua cidade Nazaré.

Suleiman oferece-nos ainda a figura do palhaço burlesco, próxima de Buster Keaton, pela forma como se apresenta colocando-se sempre no papel do observador espantado que no fundo é o nosso próprio papel neste mundo insano que nos rodeia. É um filme subtilmente irónico, denunciador do absurdo e das incoerências existentes nas margens da realidade. Gostei e recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

14 de julho de 2020

Opinião – “Clube dos Divorciados” de Michaël Youn


Sinopse

Após 5 anos de casamento, Ben (Arnaud Ducret) continua apaixonado pela mulher. Até o dia em que descobre, em público, que a mulher anda a traí-lo: além de humilhado, é descartado! Totalmente desanimado e evitado pelos amigos, Ben luta para não soçobrar, até que um dia se cruza com um antigo amigo, Patrick (François-Xavier Demaison) que também está divorciado e lhe propõe que vá viver para sua casa. Ao contrário de Ben, Patrick pretende tirar proveito do celibato recuperado e de todos os prazeres a que renunciou durante o casamento. Aos dois amigos depressa se juntam outros divorciados (Audrey Fleurot, Michaël Youn ...) e os foliões quarentões redigem as primeiras regras do "Clube dos Divorciados", sendo que a primeira delas é viver em permanente FESTA.

Opinião por Artur Neves

O cinema francês sempre se socorreu de particularidades identitárias nas abordagens temáticas que se caraterizam pela simplificação, por vezes espetacular, com que aborda temas sérios que destroem a estabilidade emocional das pessoas envolvidas, que neste caso se reporta ao divórcio e às estratégias utilizadas para ultrapassar as sequelas emergentes.

É o caso desta história em que Ben é confrontado em público, com a traição da sua mulher em presença de amigos e desconhecidos que entre graçolas, desculpas piedosas, e censuras, estigmatizam-no com o ónus do deixado, do abandonado, do preterido por incompetência inerente no cumprimento das suas atribuições.

Numa abordagem real, isto pode ser um trauma dificilmente ultrapassável, no “Clube do Divorciados” é apenas o motivo justificativo para a desbunda, para dar a volta, para a recuperação completa do trauma, que assim se ultrapassa, sem drama nem trauma, nem sequelas de baixa auto estima, considerando que a solução encontrada é fazer tudo o que apetece, sempre que apetece, com quem apetece e está para aí virado(a).

A ideia inicial do filme fundamenta-se num caso próximo de Michaël Youn, (que interpreta na história o personagem de Tiiti) um realizador Francês que já conta com duas comédias de êxito no seu CV, que se passou na vida pessoal do produtor Clément Miserez num caso de separação conjugal, que para lá da dor sentimental lhe permitiu viver algumas situações anedóticas sobre o assunto, através dos cruzamentos que a situação teceu. Daí até ao argumento desta comédia, passaram três anos a lamber feridas e a organizar todo o elenco que de preferência deveria ter alguma “experiência” no tema.

O cinema á francesa é isto mesmo, começar com um drama e através da farsa e da comédia recuperar as motivações profundas do amor que se atenuam com do passar do tempo e permitem inserir a amizade e a ideia de perdão, compreensão, companheirismo especialmente quando há filhos partilhados completamente inocentes relativamente ao turbilhão onde caíram. Tornar o filho do casal interesseiro e ardiloso, quase déspota, já faz parte das múltiplas direções que a comédia pode adquirir.

A principal direção é contudo o regozijo em ser celibatário, estar só, não ter ninguém a criticá-lo, poder ficar duas horas na casa de banho a fazer o que quiser, jogar por exemplo, sem qualquer constrangimento de ainda não ter ido comprar o pão para o pequeno almoço. Estabelecer compromissos a qualquer hora e simplesmente divertir-se sem remorso.

E assim o filme flui durante 108 minutos intercalando cenas de verdadeira anedota e outros mais explosivos do ponto de vista comportamental e musical mas que ainda assim se aceitam pela multiplicidade de personagens que se incluem naquela casa de celibatários masculinos e femininos, todos à procura do berço de onde caíram, porque a principal cauda do divórcio é… sempre… o casamento!... essa instituição social cuja principal utilidade consiste em reduzir o número de declarações IRS entregues anualmente.

Uma história engraçada, algo espalhafatosa por vezes, que nos diverte e surpreende, em exibição nos cinemas NOS a partir de 23 de Julho.

Classificação: 6 numa escala de 10

10 de julho de 2020

Opinião – “Arkansas: Reis do Crime” de Clark Duke


Sinopse

Dois pequenos criminosos, Kyle (Liam Hemsworth) e Swin, vivem às ordens de um chefe do crime chamado Frog (Vince Vaughn), que nunca conheceram. Mas quando uma transação corre pessimamente, consequências assustadoras abalam subitamente a vida rotineira da dupla. Vender produtos ilícitos é um negócio arriscado e duvidoso, sem margem para segundas oportunidades.

Não há certo nem errado. Eles têm de ser eliminados.

Opinião por Artur Neves

Adaptado do romance de 2008; “Arkansas” de John Brandon, uma história sombria e cómica sobre um par de traficantes de droga, algures no sudoeste rural dos USA, Clark Duke apresenta-nos uma história bem construída, ao estilo dos irmãos Coen, Scorcese, ou mesmo Tarantino com menos exuberância, sobre Kyle e Swin (o próprio realizador) que estabelecem um negócio de tráfico sem conhecerem o seu fornecedor e patrão, nem a rede em que estão inseridos, que ilustra a paisagem monocromática do sudoeste americano, bem como, a apática mentalidade dos seus personagens, cujo comportamento inclui atitudes amargamente engraçadas num western dos dias de hoje.

Originalmente programado para estrear no festival SXSW de 2020, este filme sofreu um sério revés na sua programação devido ao surto pandémico que ainda vivemos, tendo ido diretamente para as plataformas de streaming que lhe deram um tratamento indiferenciado, que não teria acontecido noutras circunstâncias.

Este filme é pois um thriller satírico que junta habilmente a atividade clandestina do tráfico de drogas com a tragicomédia da vida de dois traficantes, “parceiros de trabalho” mas nunca verdadeiros amigos ou sequer simpáticos entre si no trato recíproco, que se encontram acidentalmente por encontro marcado por outrem e têm de cumprir escrupulosamente o programa de distribuição estabelecido por alguém que desconhecem de todo e coletar os proventos da venda para o entregarem em data, modo e lugar determinados.

Kyle, todavia é mais presente, e nos seus silêncios, frequentes e duradouros em que junta os dados das observações que recolhe aqui e ali, forma com eles um possível esquema da organização que contudo não é partilhada por Swin que apenas quer usufruir da sua percentagem e viver sem preocupações o tempo que lhe sobra.

Para complicar a história, Swin enreda-se num caso amoroso com uma habitante local, que constitui uma principal violação ao contrato estabelecido por Frog (Vince Vaughn), o patrão desconhecido, que entende aquela atitude como um atentado á sua soberania e uma ameaça ao seu império de distribuição de droga que ele imediatamente se preocupa em eliminar, ou pelo menos em neutralizar. Eles não o conhecem, mas Frog vigia-os e segue-lhes todos os movimentos. Aqui o filme introduz outros personagens e desvenda ligações e intrigas do passado que relançam a história noutros contornos bem arrojados para este realizador que pela primeira vez leva a cabo uma história que não vive do histrionismo dos seus personagens, como nas suas realizações anteriores.

Todos os personagens interagem estre si nesta história como é óbvio, mas cada um tem o seu mundo particular desligado de todos os outros em que, embora assumindo esse “desligamento” criam um conjunto heterogéneo de comportamentos e atitudes que preenchem o ambiente do local, caraterístico do mundo rural dos USA que é memorável e recorda-nos o tipo dos eleitores que escolheram Trump.

À maneira de Tarantino “Arkansas” é dividido em cinco atos onde se manipulam e exibem as particularidades dos seus personagens e dos tempos a que se referem, conjugando os eventos da história sobre, enganos, identidades equivocadas e assassinato que nos prendem e motivam atenção durante os seus 117 minutos de duração. Tem ainda a capacidade de sugerir ao espectador um caminho óbvio de sequência, mas nada mais falso, as sucessivas reviravoltas sinistras depressa nos aconselham a apenas ver e fruir. Interessante.

Classificação: 6,5 numa escala de 10

8 de julho de 2020

Opinião – “A Cor da Ambição” de Giuseppe Capotondi


Sinopse

James Figueras (Claes Bang), um crítico de arte charmoso e ambicioso, caiu em desgraça. Passa os seus dias em Milão a dar palestras sobre história de arte para turistas ignorantes. A sua única réstia de esperança é o seu novo interesse amoroso, a enigmática americana Berenice (Elizabeth Debicki). Dá-se uma oportunidade quando é contactado por um abastado negociante de arte, Joseph Cassidy (Mick Jagger), que convida James para a sua vivenda no Lago Como, e lhe pede para roubar um quadro ao lendário artista solitário Jerome Debney (Donald Sutherland). Mas logo a ganância e a ambição de James levam a melhor sobre si e deixam-no preso numa teia feita por si mesmo.

Opinião por Artur Neves

A cor da ambição é o vermelho alaranjado matizado por zonas mais vermelhas e outras mais alaranjadas, profundamente confundidas na posse do desejo único de ser possuidor da coisa ímpar que completa a falta e potencia o lado mais irrefletido do desejo.

Neste excelente thriller de Giuseppe Capotondi, realizador italiano de 52 anos, que fez carreira no universo dos telediscos, onde em pouco tempo tem de se mostrar o mais possível, traz-nos a adaptação dum romance policial de Charles Willeford publicado em 1971, contando a história de um homem falhado que perdeu os objetivos de outros tempos e agarra-se ao que aparece em busca da recuperação de si e da redenção para os atos que o levaram à atual situação.

Figueras não é intrinsecamente um mentiroso, é um homem que usa os seus conhecimentos e a sua experiencia da melhor forma que os possa adaptar à situação do momento e fá lo com profissionalismo ao guiar turistas sem conhecimentos de arte, nos meandros da pintura de forma a motivá-los na contemplação dessa forma de arte e aqui, os 10 minutos iniciais do filme são extraordinários da demonstração da sua capacidade verbal para transformar o “nada” em “tudo”, desmontando de seguida tudo o que foi dito.

Berenice, pelo seu lado é uma mulher misteriosa, professora na sua cidade natal no Minnesota, em viagem de repouso pela Europa na sequência de uma operação ao útero que lhe motivou maior atenção para si própria e para o que quer da vida. Vive com a sua mãe e esta viagem serve também para repensar a sua situação e reinventar-se. Entra distraidamente na sala onde se realiza a palestra de Figueras, que também serve como apresentação do seu livro sobre arte, e mostrando a irreverencia da sua personalidade e da sua idade, bem como, a disponibilidade do seu espírito aberto, aceita o repto de Figueras, lançado a todos os assistentes da palestra.

Esse encontra é apenas o começo de uma relação com o homem a quem ela confirma o bom começo depois de uma noite de sexo e pergunta como irá acabar no futuro, pois embora exista “química” entre os dois, Figueras é suficientemente reservado nos seus motivos.

Joseph Cassidy é o colecionador de arte que pretende obter uma obra do pintor Jerome Debney (Donald Sutherland com 84 anos, mas sempre surpreendente nas suas interpretações) para a sua coleção e desafia Figueras a obtê-la em troca da sua reabilitação e reconhecimento público perdidos.

Até aqui a história resume-se ao estabelecimento das relações entre este elenco forte o suficiente para que as múltiplas reuniões e conversas sobre o simbolismo da arte, as suas caraterísticas particulares e as suas motivações dos quadros que são citados nos envolvam neste mundo de acesso restrito. Joseph Cassidy sabe o quer, está habituado a obter tudo o que pretende e possui a vantagem ameaçadoramente discreta para levar Figueras a sucumbir irrefletidamente ao laranja avermelhado da ambição que o cega.

Daqui para a frente o filme ganha a dinâmica do thriller e do suspense e vemos Figueras a tentar por todos os meios tirar vantagem de Jerome Debney, o pintor recluso numa casa cedida por Cassidy, que lançou fogo a todo o seu espólio anterior e que hoje pinta na sua imaginação o azul do céu que não possui.

As histórias só acabam bem nos romances de cordel e nas telenovelas e esta não tem nada destas duas categorias, compondo-se num filme que recomendo vivamente. Em exibição nos cinemas NOS.

Classificação: 7,5 numa escala de 10

7 de julho de 2020

Opinião – “Rede de Espiões” de Olivier Assayas


Sinopse

O piloto cubano René González (Edgar Ramírez) deixa a mulher e a filha na ilha comunista, desertando para os Estados Unidos e iniciando uma nova vida em liberdade no início dos anos 1990. Mas René não é o ambicioso empreendedor que aparenta ser. Unindo forças a um grupo de exilados cubanos no sul da Florida, conhecido como Wasp Network (Rede Vespa) liderado pelo agente secreto conhecido como Gerardo Hernandez (Gael García Bernal) torna-se membro de um grupo de espiões pró-castristas incumbido de vigiar e de se infiltrar em grupos terroristas cubano-americanos que tencionam atacar a república socialista. Inspirado na história verídica dos “Cinco Cubanos”, agentes dos serviços secretos, “Wasp Network – Rede de Espiões” é um empolgante e sofisticado thriller político que inclui uma vasta galeria de cubanos e exilados cubano-americanos envolvidos numa complexa batalha entre ideologias rivais e lealdades instáveis.

Opinião por Artur Neves

Potencialmente esta história, que reporta o caso real de agentes infiltrados cubanos, fiéis aos ideais da revolução de Fidel de Castro, tem todos os ingredientes para poder oferecer ao espectador 125 minutos de um bom filme de ação e espionagem… mas nem tanto, o que é uma pena, embora se veja com agrado e contenha momentos de pura emoção.

O realizador Oliver Assayas adaptou o romance de Fernando Morais; “Os Últimos Soldados da Guerra Fria” que relata a história de um grupo de espiões que nos anos 90, após a extinção da União Soviética e o consequente fim da ajuda financeira a Cuba, se infiltrou em vários grupos cubanos sediados na Florida, pretensamente com o objetivo de ajudarem todos os que quisessem sair da ilha e pedir asilo nos USA, usando para isso diferentes meios de pressão como o terrorismo para reduzir o turismo na ilha, ou o tráfico de droga com vista à obtenção de fundos de apoios à contra revolução.

Talvez pela complexidade da história, onde ninguém está inocente, o por Assayas se cingir fielmente ao guião dos acontecimentos, tal como aliás já tinha feito em 2010 com “Carlos”, a história do revolucionário Venezuelano Ramírez Sánchez, o filme perde alguma dinâmica apesar do bom desempenho dos atores utilizados com particular destaque para René Gonzáles e sua mulher Olga; (Penélope Cruz) e filha Irma (Osdeymi Pastrana) em torno dos quais se desenvolve o drama da separação por motivos patrióticos e o pendor emocional que o filme merece.

Eles são pilotos de aviões, fogem e são utilizados pela resistência anti Castro para raids de salvação de refugiados à deriva no mar das Caraíbas, lançar panfletos de propaganda anti Castro sobre Havana e para o transporte de droga desde a Bolívia ou Nicarágua até à Florida. Nesta atividade é claro que outros interesses começam a emergir e outros pilotos, tal como Juan Pablo Roque (Wagner Moura), que já vem com outros contactos e outras motivações, estabelece um tórrido romance com Ana Magarita Martinez (Ana de Armas) como cobertura da sua atividade e consuma a atitude mais velhaca entre duas pessoas num relacionamento e não só.

A sequência do argumento contém desenvolvimentos surpreendentes mostrando diversas atividades que povoam o universo da espionagem e da contra espionagem, porque para o governo de Bill Clinton não é totalmente líquido o apoio aos anti castristas, bem como a permissão de atividades de contra espionagem no seio da organização “Brothers to the Rescue” de apoio aos novos desertores.

É pois toda esta dinâmica intrincada que Assayas nos oferece, que domina as pessoas que a carregam nem sempre com os mesmos objetivos e em que Assayas não se quer imiscuir demasiado retirando algo da perspetiva histórica, das paixões ideológicas e da política, concentrando-se nos múltiplos eventos e relações complicadas no seio do grupo que sucessivamente vem crescendo em número de elementos e de funções. Assayas não foge de todo aos motivos de revolta da alma de um país, mas devido à densidade da narrativa o espírito revolucionário fica adormecido nas atitudes dos seus protagonistas.

Tem valor suficiente para proporcionar um bom espetáculo e está disponível nos cinemas da NOS.

Classificação: 6 numa escala de 10

2 de julho de 2020

Opinião – “Senhores do Crime” de Guy Ritchie


Sinopse

A história do expatriado americano Mickey Pearson um homem que construiu um império de marijuana altamente lucrativo em Londres. Quando se torna pública a notícia de que ele está a tentar lucrar com os negócios para se puder reformar, desencadeiam-se conspirações, esquemas, suborno e chantagem, com a única tentativa de sabotarem o seu domínio de luxo. Realizado por Guy Ritche (Snatch – Porcos e Diamantes; Um Mal Nunca Vem Só) e com Hugh Grant, Michelle Dockery e Charlie Hunnam.

Opinião por Artur Neves

Aí está a reabertura do cinema ao vivo, isto é, em sala… não se trata de uma televisão melhor ou pior, mas da sala escura, onde podemos viver emoções através do visionamento de uma história. Claro que para defesa das distribuidoras e também pela escassez de produção durante os tempos duros que atravessamos (porque a crise ainda não passou) as salas abrem com reposições e no presente caso; “The Gentlemen – Senhores do Crime” é uma reposição feliz por se tratar de um filme contado de uma forma particular por Fletcher (Hugh Grant) um investigador privado, contratado para investigar os negócios de Michael Pearson (Matthew McConaughey) que pretende vender o seu negócio de patrão da droga para se poder reformar e gozar o resto da vida com sua mulher Rosalind (Michelle Dockery) como que de um trabalhador regular se tratasse.

O problema não reside nos desejos de Michael Pearson (tratado carinhosamente por Mickey) mas antes nos potenciais compradores que rivalizam entre si a aquisição do império de Mickey que inclui o multimilionário americano Matthew Berger (Jeremy Strong) e o mafioso chinês Dry Eye (Henry Golding) que não olha a meios para conseguir o que ele já considera seu antes de o possuir.

Fletcher, amigo de longa data de Mickey, aparece em casa dele para uma longa conversa sobre o negócio em que dirime argumentos a favor e contra os potenciais adquirentes, transformando a história numa versão vintage no universo dos filmes de Guy Ritchie.

Este realizador britânico que teve um auspicioso início com filmes negros, ambientados em universos de crime e diálogos espirituosos que evidenciavam o sotaque da Inglaterra profunda e das docas, mudou-se a certa altura para os sucessos de bilheteira de Sherlock Holmes, 2009 e, pior ainda, Aladdin, 2019, para o qual escreveu o argumento, tenta agora redimir-se com esta nova comédia trágica no mundo da droga em Inglaterra, para a qual convida atores de nomeada e com larga experiência, para desenvolverem um trabalho tão árduo como inovador.

Os factos narrados por Fletcher, são visionados na tela como ilustração dos seus argumentos, mas nem sempre correm como previsto, porque Mickey já os antecipara e em certas situações até neutralizara os seus efeitos, mas os dados estão lançados e a narrativa prende o espectador a uma ação que é descrita por Fletcher de uma certa maneira e ocorrem com algumas nuances que estragam as melhores previsões. Deste modo, alguma ação é repetida em duas versões, enquanto Fletcher e Mickey manipulam a realidade sombria nas ficções de Fletcher o que torna o filme credor de alguma complacência do espectador durante os 113 minutos de duração.

No meu entender é por uma boa causa, pois assim transforma-se um nefasto submundo numa sofisticada comédia, polvilhada de piadas racistas sobre chineses cujo autor é o próprio Dry Eye. Mickey por seu lado revela-nos um Matthew McConaughey diferente daquele que conhecemos nos anos 90 e que lhe trouxe o Oscar em “O Clube de Dallas” de 2013, ou “Interstellar” de 2014. Mickey aqui é um sóbrio mafioso, pachorrento nas palavras, muito sentado e quieto, estranha-se, mas o personagem não pede mais.

Por outro lado, de Colin Farrell, aparece como um treinador de box num personagem absolutamente secundário mas animado de um frenesim e uma agitação que o argumento deveria incluir mais no enredo da história. No global é um filme que se vê com agrado, tem suspense e indefinição até ao final, constituindo uma boa opção para uma rentrée tão esperada.

Classificação: 6,5 numa escala de 10

27 de junho de 2020

Opinião – “O Resto de Nós” de Aisling Chin-Yee


Sinopse

Quando o ex-marido de Cami Bowden (Heather Graham), Craig, morre repentinamente de um ataque cardíaco, a vida perfeita que Cami criou começa a desfazer-se. No funeral de Craig, Cami e sua filha adolescente Aster (Sophie Nélisse) encontram Rachel (Jodi Balfour), a segunda esposa muito mais jovem de Craig, por quem ele deixou Cami, e Talulah (Abigail Pniowsky), a segunda filha de Craig, que está evitando o processo de luto. Rachel, tendo passado grande parte de sua vida adulta como esposa que fica em casa, revela a Cami que Craig escondeu uma infinidade de dívidas e que a casa deles terá de ser vendida - Rachel e Talulah ficarão sem casa ou com qualquer cêntimo em seu nome enquanto esperam que a apólice de seguro de vida de Craig se execute. Movida pela precária situação de Rachel, Cami oferece relutantemente a sua casa para ambas morarem temporariamente. Agora, juntas sob o mesmo teto, as mulheres processam a sua tristeza e raiva pela morte de Craig e procuram um significado e direção para as suas vidas. Durante este tempo, velhos segredos e conflitos de lealdade ameaçam fragilizar o tênue equilíbrio em torno deste grupo.

Opinião por Artur Neves

Aisling Chin-Yee cofundadora do movimento #MeToo é uma produtora e recente realizadora de origem chinesa, estabelecida em Montreal, Canadá que nos traz um argumento de Alana Francis e uma estreia destas duas colaboradoras em longas-metragens de cinema, adaptando o romance de Patrick Ness; “The Rest of Us just Live Here”, sobre um tema pouco explorado, talvez pela raridade de casos reais conhecidos e pelo criticismo inerente à situação de coabitação de duas mulheres casadas com o mesmo homem em tempos diferentes e atualmente viúvas, cada uma com a sua respetiva descendência.

Este tema, sobre o qual não me vou alongar considerando que a sinopse é suficientemente elucidativa, tem sido abordado de forma jocosa, como motivo de paródia da relação estabelecida e nunca com a generosidade comovente, engraçada e por vezes maliciosa de uma relação improvável entre duas mulheres e as suas respetivas filhas que apesar da diferença etária significativa que as separa, uma adolescente e outra infantil, competem entre si pelos seus direitos e com meios difíceis de imaginar á partida.

Observada globalmente, esta história pode descrever-se, como a influência de um homem, relacionado a diferentes níveis com cada elemento deste quarteto de mulheres em diferentes estágios da vida, e a importância para cada uma que ele teve durante o tempo de convívio, de época social, de preconceito, de convenção assumida no estilo de vida que todas viveram. Não se pense que é projeto fácil se for pretendida uma abordagem honesta e credível, sendo o primeiro defeito que lhe aponto a sua limitada duração de 80 minutos para desenvolver um quadro tão complexo de emoções contraditórias e de relações humanas.

Este facto faz com que a história apresente personagens de espírito ágil, com resoluções simplistas e breves para situações complexas sem deixar amadurecer as contradições que as repelem, ou as semelhanças que sem quererem admitir, as torna próximas entre si subordinadas a um modelo comum de relacionamento, todavia pela exiguidade do tempo disponível tudo tem de ser dirimido em tom breve e superficialmente.

Repare-se que Aster, por exemplo, tem um segredo que envolve o namorado e como tal distancia-se das opiniões de Cami, cedendo. Talulah por seu lado, na sua infantilidade, assume um estado de negação em relação à morte do pai que reproduz em certa medida a repulsa de Rachel à memória de Craig, responsabilizando-o pelo estado de pobreza em que ele as deixou, decorrente de vários negócios sem sucesso.

De todas estas contradições, acusações mútuas, e os impasses daí decorrentes vai lentamente nascer um espírito de solidariedade comum nunca antes imaginado que promove um espírito de equipa e uma condescendência onde antes só existia azedume. Aster opta por proteger a sua meia-irmã quando antes a repelia. Cami verifica no estado de fragilidade emocional de Rachel um motivo para justificar a sua própria existência, numa altura em que Aster prepara a sua emancipação. São tudo processos que requerem tempo, não só para serem descritos como para serem ilustrados e não pode culpar-se o quarteto de atores que com toda a qualidade desempenham os personagens que lhe são confiados.

É pena… ainda assim, pode ser visto na plataforma de streaming; Prime Video – Amazon

 Classificação: 5 numa escala de 10


25 de junho de 2020

Opinião – “Matthias e Maxime” de Xavier Dolan


Sinopse

Quando uma amiga em comum pede a Matthias (Gabriel d’Almeida Freitas) e Maxime (Xavier Dolan), dois amigos de infância, para filmar uma cena de um beijo entre ambos para uma curta-metragem amadora, eles aceitam. O que não poderiam prever era que esse momento de intimidade tivesse tal efeito dentro de si, confrontando os dois rapazes com as suas preferências sexuais, e que alterasse tão completamente a forma de se verem um ao outro...

Opinião por Artur Neves

Este filme foi estreado no Festival de Cinema de Cannes de 2019, escrito, realizado e protagonizado por Xavier Dolan e só serviu para acentuar, mais uma vez, a sua própria escolha de orientação sexual, pois como abordagem e desenvolvimento do tema na análise profunda de uma tendência que se tende a normalizar com o passar do tempo e com a assunção de mais interpretes, nada de novo nos traz.

Xavier Dolan não é propriamente um estreante nestas andanças onde já apresentou em 2013 “Tom na Quinta” onde o desenvolvimento da homossexualidade está bem representada com os seus silêncios, frustrações e sonhos perdidos que nos deixa perplexos ao contemplar nesta história o apagamento dessa ansiedade, ainda genericamente não assimilada socialmente que neste filme se centram em diversas reuniões entre amigos, comes e bebes em família, onde paira um clima de vacuidade e suspensão, não diretamente induzido pela história, mas antes pelo que o espectador poderia esperar que ele fosse desenvolvido desde a primeira cena do beijo que dá motivo ao argumento.

Mas não, Matthias desenvolve um personagem equívoco, hesitante, sempre inadequado no sítio onde se encontra, com olhares furtivos e inexpressivos em diferentes direções e para diferentes intervenientes em ações avulsas cujos objetivos não são explícitos por tão inconsequentes que se apresentam.

Poe outro lado, Maxime já é um personagem mais presente, tanto no convívio com os outros como nas discussões com a sua mãe, a quem controla o dinheiro e os gastos de casa, recuperando alguns tiques do seu argumento para “Mamã” de 2014, embora noutro contexto. No seio da sua família ele usa a sua irmã mais nova, voluntariosa e perfeitamente integrada na “Geração Z”, bem como as tias e mães dos seus amigos como representantes do estereótipo de uma sociedade que não considera a sua geração como séria, mas não passa daí e se teve intenção de evoluir ou escamotear esse tema como direta incidência nas suas escolhas, não passou de intenção.

Assim, de reunião em encontro, esgotam-se duas semanas antes da partida de Maxime para a Austrália apresentadas em flashback (aqui também não se percebe o interesse da alteração temporal, considerando que este tema pretensamente construído com tensão crescente, teria mais sentido na sequência lógica dos eventos) onde nada de relevante se passa para o propósito da história sentindo-se um vazio total da narrativa que sem querer ser grosseiro, mas antes realista, classifico como um tempo de “encher chouriços”.

A amizade entre os dois foi afetada desde o início do filme e isso transformou a relação entre eles que deveria ter sido apreciada e desenvolvida ao longo da história entre os dois personagens, mas não, acentua-se o protelamento da situação que fica reservada para o jantar de despedida em que Matthias faz um discurso ininteligível, abandona o jantar subitamente, mas depois volta para nos apresentar uma cena de amor tórrido com Maxime, porém inconsequente e inconclusivo sobre as suas opções.

No dia da partida, cabe ao espectador decidir, escolher, o que seja, qual foi a decisão de Maxime… ora bolas para isso não devia ter sido necessário esperar 120 minutos. Uma desilusão…

O filme está em exibição no cinema Trindade, da cidade do Porto

Classificação: 4 numa escala de 10

20 de junho de 2020

Opinião – “Vítima e Carrasco” de Mário Martone


Sinopse

Quando sua mãe morre aparentemente feliz, mas em circunstâncias curiosas e surpreendentes, sua filha Delia viaja para Nápoles para assistir ao funeral. Permanecendo na cidade ela tenta compreender o que foi a vida recente de sua mãe, começando a confrontar memórias de infância e procurando os seus protagonistas para reconstruir, com um olhar adulto, o que foi a história de família.

Baseado no romance de Elena Ferrante, L'Amore Molesto foi um dos filmes mais marcantes do Festival de Cannes de 1995. Mario Martone mergulha nas ruas de Nápoles, cidade de muitas cores e contrastes, onde Delia vive um tempo entre o passado e o presente, entre uma realidade e a imaginação fundamentada na memória.

Opinião por Artur Neves

Mais uma vez, o título atribuído em Portugal a este filme não contempla a subtileza que o romance de Elena Ferrante aborda, na história de um amor submisso entre uma mulher e seu marido possessivo e dominador, que exibe um autoritarismo que revela a sua própria fraqueza e frustração perante si próprio e perante a sua arte de pintura, que permanece ignorada do grande público que ele pretende conquistar.

Na interpretação direta do título português podemos inferir que o “carrasco” é o agente que mata a “vítima” quando na realidade o “carrasco” mais não é do que um pobre pintor de arte, andrajoso e solitário que vive em condições precárias e frequentemente bêbado, quando é descoberto em Nápoles por Delia (Anna Bonaiuto) em demanda das suas memórias e que no auge da sua vida, quando Délia o recorda na sua infância, reconhecia sem admitir que possuía mais mulher do que ele era homem para ela.

Delia é uma artista gráfica napolitana que vive em Bolonha e recebe um telefonema estranho de sua mãe Amália (Angela Luce), rindo abundantemente e mostrando uma alegria para a qual Delia não encontra motivos diretos nem tão pouco nos ruídos ambientais circundantes de onde a mãe lhe telefona. A chamada é curta, sem assunto definido e acaba abruptamente entre risos que soam a impaciência e nervosismo. Delia facilmente depreende que algo aconteceu, ou está acontecendo e tenta reatar a chamada sem sucesso. A mãe não atende. Poucos dias depois recebe uma chamada de um amigo, Filippo (Gianni Cajafa) tio de Delia, participando-lhe o falecimento da sua mãe que lhe motiva a deslocação a Nápoles.

Durante o funeral, na companhia das irmãs e do tio que a avisou, observa uma discussão acalorada entre Filippo e a figura perturbadora de um homem idoso que não conhece, não se apresenta nem lhe permite aproximar-se dele para conversar. O tio acusa-o como responsável pelo até aqui, alegado suicídio de Amália e isso adensa o mistério sobre as causas da morte de Amália que Delia se propõe investigar, nos dias seguintes ao funeral.

Começa então a “via sacra” de percorrer os últimos dias de Amália, habitando a sua casa, analisando os seus pertences e procurando entre os objetos e as memórias que estes lhe suscitam, explicações para o sucedido. Visita o seu pai (Italo Celoro) que continua na sua situação de falhado e atualmente mais velho e sem esperança e finalmente cruza-se com Caserta (Giovanni Viglietti) a tal figura misteriosa que viu no funeral, testemunha dos últimos momentos de sua mãe, seu amante, seu confidente, seu companheiro e apoio em todas as loucuras que a personalidade exuberante de Amália teimava em prosseguir.

Toda a história é nos contada no presente e no passado correspondente e tem contornos de thriller que o realizador não soube ou não quis aproveitar por respeito à obra que lhe deu origem. Só que, no centro desta história estaria Amália com todo o seu exotismo, sensualidade e força de mulher que o realizador transpõe para Delia. Esta porém, vítima de uma infância modesta, sob o jugo de um pai autoritário, perde-se entre as perguntas que formula através das suas memórias e as respostas que não quer ouvir por demasiado dolorosas. Caserta não lhe conta mais do que ela já sabe e a fotografia de Luca Bigazzi, mais preocupado em mostrar a beleza de Nápoles e a sua atmosfera humana, bem como a musicalidade do dialeto local deixam em segundo plano um enredo que fica à espera de ser contado de outro ponto de vista.

É ainda assim um filme interessante que concentra em Delia, (vestida com o vestido de sua mãe e que ela não acreditava que fosse), que ao percorrer em exaltação os lugares mais significativos de Nápoles nos conta uma história que se adivinha mas de que pouco se vislumbra.

Disponível na plataforma Filmin por €2,95, pesquisável pela designação em português.

Classificação: 5 numa escala de 10

17 de junho de 2020

Opinião – “Irmãos de Armas” de Spike Lee


Sinopse

Do vencedor do Oscar, chega uma nova história oportuna e chocante de quatro veteranos afro-americanos; Paul (Delroy Lindo), Otis (Clarke Peters), Eddie (Norm Lewis) e Melvin (Isiah Whitlock, Jr.) que retornam ao Vietnam alegadamente, para procurar os restos mortais do seu líder de esquadrão caído em combate, Stormin Norman (Chadwick Boseman) e a promessa de recuperar o tesouro enterrado por eles na sequência da queda do avião que o transportava. Os nossos heróis são acompanhados pelo filho preocupado de Paul, David (Jonathan Majors), que os promete ajudar na força de combate entre o homem e a natureza, enquanto são confrontados pelos estragos duradouros, físicos e emocionais, da imoralidade e irracionalidade da guerra do Vietnam.

Opinião por Artur Neves

Com uma oportunidade digna de nota Spike Lee apresenta-nos um filme que resgata a participação dos negros americanos na guerra do Vietnam, numa altura das mais intensas manifestações anti racistas nos USA na sequência do assassinato do afro americano George Floyd às mãos (literalmente; sob o joelho) de um polícia de Mineápolis no dia 25 de maio de 2020. Este facto conduz a que este filme relembre a participação dessa população no conflito que traumatizou a América nos anos 60 e questiona a definição e o conceito de “supremacia branca”, e de “verdadeiros americanos”, quando homens e mulheres negras continuam a servir e a morrer pelo país noutros conflitos ao redor do mundo.

Com o resumo da história descrito na sinopse o filme começa com imagens reais de conflitos raciais anteriores, tal como a declaração de Muhammed Ali em 1978 de que “os vietcongs eram menos racistas do que o povo do seu próprio país” e que lhe custou o prémio de campeão de pesos pesados, seguindo com outras manifestações de protesto conhecidas à época e terminando com a morte de Martin Luther King Jr, como ensaio político sobre a violência histórica que a história pretende documentar.

Dos quatro amigos que se encontram na atual cidade de Ho Chi Minh, Saigão, cada um apresenta uma personalidade particular bem definida em que; Paul é um fervoroso adepto de Trump, Otis, o mais sério e responsável de todos, controla a aventura, Eddie, um empresário de sucesso (que posteriormente saberemos que não é bem assim) rico e gastador e Melvin que se apresenta como o mais apagado e indefinido de todos, constituem uma equipa de “irmãos de armas” cujas diferenças se vão acentuando ao longo da história de 154 minutos que não se sente tédio ao passar, decorrente da sua movimentada ação, sempre mostrando um frémito de energia e surpresa em cenas de elevado dramatismo.

O encontro entre os veteranos de guerra é de descontração, amizade e recordação à mesa de um bar chamado Apocalipse Now que nos trás memórias e sugere traumas. É o cinema a alimentar o cinema que só os bons realizadores sabem utilizar.

Os sucessivos eventos da história vão sendo apresentados tecendo uma intriga de textura multivariada de diálogos, gestos, atitudes e propósitos objetivos inconfessáveis, pondo em destaque a competência de Spike Lee para a ilustração de assuntos difíceis, já demonstrada nesse outro filme que também aborda o tema do racismo; “BlackKklansman” de 2018, em que os elementos de controvérsia política estão intrinsecamente unidos no diálogo entre a população de uma cidade e sua polícia local.

Com o desenrolar da ação vai-se tornando difícil distinguir a ironia entre amigos, da lealdade castrense e dos objetivos individuais que lentamente vão revelando a sua verdadeira natureza, graças aos extraordinários atores que desempenham personagens credíveis em fervor de conflitos e nuances de comportamento, manifestamente inspirados pelo sóbrio argumento escrito por Lee e Kevin Willmott, que nos trás outra leitura da guerra do Vietnam que nunca tinha sido abordada até agora, com muitas referencias explicitas ao legado americano em Saigão, tais como, os estabelecimentos de fast food, Pizza Hut, Rambo ou Chuck Norris como heróis remanescentes de uma guerra inútil.

“Da 5 Bloods” no título original, é uma experiência ainda desagradável da guerra do Vietnam que contém comédia, dor, morte e ganancia, como se uma guerra nunca terminasse depois de começada. Também tem alegoria à santidade, com a aparição do falecido Stormin 'Norman que perdoa Paul pela sua morte, como Cristo aos fariseus, mas fundamentalmente oferece-nos uma justificação condenatória sobre a relação entre racismo e guerra, com uma paixão alucinada de imagens e ideias fortes. Muito bom, recomendo.

Atualmente só pode ser visto na plataforma Netflix desde 12 de Junho.

Classificação: 8,5 numa escala de 10

13 de junho de 2020

Opinião – “Os Tradutores” de Regis Roinsard


Sinopse

Nove tradutores foram escolhidos por uma editora implacável e trancados em um bunker luxuoso para traduzir o livro altamente antecipado, de um autor famoso, em tempo recorde. Embora os tradutores estejam confinados e vigiados à vista para evitar qualquer tipo de fuga de informação por causa dos grandes riscos financeiros, uma crise irrompe quando alguém publica na internet as primeiras dez páginas do romance e chantageia a editora a pagar 5 milhões de euros.

Opinião por Artur Neves

No retorno possível e tímido às salas de cinema com todas as reservas impostas pela pandemia eis que temos este “Os Tradutores” estreado ontem, 12 de Junho, nos cinemas City, pela mão da distribuidora Cinemundo, no género thriller, bem ao jeito do cinema Hitchcockiano (se é que o conceito existe) por nos mergulhar num enigma aparentemente impossível de acontecer, considerando as condições reservadas aos tradutores que foram selecionados para fazer a tradução em várias línguas de “Dédalus” o ultimo volume de uma trilogia escrita por um autor francês que se remete ao mais completo secretismo da sua personalidade, publicitando somente o seu nome.

Deixo aqui uma nota especial para a atris portuguesa Maria Leite, que desempenha o papel da personagem escolhida para a tradutora de português. Não comento as caraterísticas da personagem em si, determinadas pelo argumento da história, acrescentando somente tratar-se de um personagem new wave não muito comum na sociedade portuguesa, particularmente neste ramo de negócio. Penso tratar-se do reflexo como os outros vêm a nossa cultura e o nosso povo. Do ponto de vista da representação, o personagem está muito bem conseguido e Maria Leite, que pertence ao quadro fixo de atores do Teatro Nacional São João no Porto, não ficou diminuída na confrontação com alguns consagrados.

Regis Roinsard o realizador francês responsável pelo projeto apresenta como antecedente “A Datilografa” de 2012, uma comédia romântica na área do trabalho de escritório em 1958, com todos os maneirismos e convenções da época, que não serve de indicativo para este filme que documenta a loucura do estado de desvario e obsessão com o roubo de direitos da indústria editorial, que se por um lado beneficiou com a desenvolvimento tecnológico, por outro, sofre horrores com a cópia pirata e com os royalties perdidos.

Nesta história cria-se o suspense pela forma como os acontecimentos que foram antecipadamente previstos e acautelados, ocorrem de surpresa, ainda com o processo de tradução a decorrer e com a revelação das dez primeiras folhas serem divulgadas na internet. Decorrente dessa ameaça todo o ambiente de rotina maçadora inerente ao trabalho de tradução é alterado e todos os eleitos passam a ser suspeitos da fraude, seguindo-se pela tentativa de descoberta do responsável.

Isso implica uma sequência agitada de denúncia, acusação, defesa e meios de segurança que nos parecem forçados para o tema abordado. A literatura nunca despertou emoção ou twists muito movimentados na sua confeção, pelo que apesar de toda a agitação, falta em adrenalina o que excede em complicação e formalismo, muito embora enfatize que apesar da implícita rotina do trabalho de tradução, escrever é um ato solitário em que se tenta condensar toda a criatividade na capa ou na imagem que representa a história.

O verdadeiro criador pode usar técnicas modernas que todavia não interferem com o ato de criação á moda antiga, por vocação, dedicação, sem olhar ao tempo dedicado á criação ou aos proveitos dela obtidos que tem como exemplo máximo Marcel Proust e o seu extenso “Em busca do Tempo Perdido” citado no filme pelo editor. O suporte em papel está na genética do livro. O suporte eletrónico, embora moderno e atual, propicia o roubo e a falsidade e no mundo atual em que o que existe tem de dar lucro para permitir ser continuado, a história de Regis Roinsard bem pode ficar por aqui, pois esgota-se no fogo que a consome e aos livros.

É daqueles filmes que nos prendem enquanto duram, mas no retorno ao grande ecrã e com uma história intrincada de crime e fuga só pode ser recomendável.

Classificação: 6 numa escala de 10

9 de junho de 2020

Opinião – “K.O.” de Fabrice Gobert


Sinopse

Antoine Leconte é um homem de poder - arrogante, dominante em seu ambiente profissional e vida pessoal. Admirado por alguns, odiado por outros, nada e ninguém resiste a ele ... Até o dia em que um de seus funcionários o ataca brutalmente. Quando ele recupera a consciência no hospital, nada é como era: Antoine se encontra no lugar de um homem comum, descendo a escada social e profissional - e ao seu redor, todos os papéis são invertidos. Isso é um sonho ou realidade? Uma conspiração? Um pesadelo? Esgotamento? ... Determinado a reerguer-se, Antoine terá que lutar para recuperar tudo o que perdeu, sonho ou realidade? Será uma conspiração contra ele? Ele está K.O.

Opinião por Artur Neves

Classificado como thriller, mas sugerindo um género na área do drama psicológico, este filme apresentado em antestreia na Festa do Cinema Francês de 2017, traz-nos uma história que dificilmente interpretamos como pertencendo à classificação atribuída, estabelecendo mais uma vez as significativas diferenças de conteúdo entre as cinematografias europeia e americana, que o nosso mercado tem tendência em nos servir sem distinção. O realizador Fabrice Gobert com uma ampla obra de argumentista e diretor de séries para televisão desde 2002, apresenta-nos aqui o seu primeiro trabalho para cinema muito bem conseguido.

Laconte (Laurent Lafitte) é um gestor de topo numa empresa de comunicações que age discricionariamente com todos os subordinados na perseguição voraz do sucesso absoluto que ele pretende alcançar para a empresa e para si próprio como objectivo último da sua passagem pela vida. Na sua vida privada, escassa e frugal, replica o mesmo comportamento reunindo-se de bens materiais avultados, onde desfruta de uma caricatura de vida sentimental, parca de afetos, na companhia da sua mulher, Solange (Chiara Mastroianni) que deambula solitária pela casa com muito pouca ligação com ele e com as suas necessidades, que ele satisfaz onde calha.

Porém, há sempre um dia em que tudo muda, e esse dia acontece quando na sequência de um enfarto ligeiro ele entra em coma e o seu cérebro letárgico reverte todos os conceitos estabelecidos fazendo-o “viver” uma vida oposta da que está convencido que é a que detém por direito, confrontando-o com a “vida” dos outros que ele subjuga.

Imobilizado na cama do hospital, o outrora poderoso Laconte, “faz-se” sofrer das dificuldades normais que provoca aos outros, como que vivendo a sua vida num espelho, que transforma a imagem simétrica do seu contrário, na realidade que ele é agora forçado a viver, coabitando e relacionando-se com todos os personagens da sua vida real, mas num patamar de igualdade que lhe é completamente estranho, contra o qual ele se revolta, e por isso luta com todas as suas forças remanescentes na memória passada.

Trata-se pois da luta interna deste homem, agora fragilizado pelo acidente vascular que sofreu, sendo confrontado com a sua fraqueza e normalidade humana que ele sempre recusou, que ele sempre escondeu sob o manto diáfano do despotismo em benefício de um bem maior, que subitamente, através de um evento violento o despoja das suas premissas e o confronta com uma vida e uma realidade que totalmente desconhece, embora sempre tenha vivido nela mas noutro contexto. Trata-se no fundo, do confronto connosco próprios para que possamos progredir para um nível superior de existência, se soubermos aprender e aceitar a oportunidade de redenção através do reconhecimento dos nossos erros.

Bem interpretado, escorreito no argumento, sem deixar pontas soltas e com uma história interessante sobre o verdadeiro “eu” de um personagem que se confunde entre a realidade, e a fantasia com que está sonhando, constituindo aqui um bom exemplo da cinematografia francesa moderna de qualidade. Recomendo.

Disponível na plataforma Filmin para o utilizador, pelo preço de €3,95 durante 72 horas.

Classificação: 7 numa escala de 10


3 de junho de 2020

Opinião – “Ema” de Pablo Larraín


Sinopse

Depois de um longo e penoso processo de adoção, Ema, uma bailarina de "reggaeton", e o seu marido, Gastón, ficam responsáveis por cuidar de Polo, um menino órfão que nunca conheceu a estabilidade de uma família. A adaptação revela-se mais difícil do que imaginavam e algum tempo depois, Polo provoca um acidente que fere gravemente a irmã de Ema. Este incidente terrível deixa marcas e faz com que Ema tome a decisão de devolver a criança. Isso vai mudar radicalmente a forma como Ema e Gastón se vêem um ao outro, a si mesmos e ao mundo que os rodeia.

Opinião por Artur Neves

A sinopse anterior descreve o essencial deste “Ema” realizado por Pablo Larraín realizador Chileno nascido em 1976 que inclui no seu curricula cinematográfico obras tão diferentes como “Não” de 2012, um filme sobre revolta e direitos humanos contra a ditadura de Pinochet, “O Clube” de 2015 em jeito de denúncia sobre pedofilia praticada por religiosos católicos, que representa o seu filme mais emblemático, ou “Jackie” de 2016 sobre Jacqueline Kennedy Onassis, em jeito de novela, apresenta-nos agora este “Ema” cujo enredo apenas serve para suportar as personagens que o desempenham em diferentes situações, as suas vivências, objetivos, filosofias de vida, não sendo a história o mais importante, que apenas serve como fio condutor dos eventos que nos vão sendo mostrados durante cerca de 107 minutos.
“Ema” estreou no Festival de Cinema de Veneza de 2019 e quem conhece Larraín através das obras anteriormente citadas ou de outras de relevo semelhante, como “Tony Manero”,de 2008, sobre a angustiante figura e personalidade de um dançarino clássico, vai estranhar esta incursão no mundo da dança moderna e do "reggaeton", uma dança popular imbuída de uma expressão corporal intensa e culto da figura, com a qual Larrain parece algo perdido e só remotamente parece conhecer na sua essência. Recorde-se ainda que Larrain pertence a uma família da classe alta do Chile que apesar de no tempo de ditadura terem apoiado Pinochet, não o impediu de realizar “Não”, que constituiu o mais popular libelo acusatório contra os anos de chumbo desse período histórico.
Ema (Mariana Di Girolamo) é uma jovem bailarina que exprime através dessa arte os seus desejos, frustrações e tendências pirómanas, que funciona como metáfora para a combustão das sua múltiplas paixões, (ela chega a dançar com uma garrafa de combustível ás costas e um lança chamas na mão que inclui na coreografia) revolta-se contra o facto do seu marido e coreógrafo Gastón (o mexicano Gael García Bernal) não ser capaz de a engravidar para lhe permitir ser mãe natural, o que justifica a adoção de Polo (Cristián Suárez) um órfão a quem ela transmite as desilusões da sua vida e promove uma educação disruptiva no sentido da promiscuidade e da auto destruição que vitimou a sua irmã com fogo e que neste filme se torna um elemento fundamental da narrativa.
Esse evento promove o abandono de Polo e a separação do casal, depois de diversas acusações mutuas em que se revelam coisas que não vimos, nem sabíamos até ali, mas que permitem por parte dos atores interpretações credíveis, intensas, com Ema a polarizar toda a ação, de olhos fixos no “inimigo” (para ela todos o são) cabelos constantemente oxigenados e penteado agarrado à cabeça, numa atitude pós adolescente agressiva, disposta a desafiar todos os que interferirem no seu caminho.
Na sua ânsia de agarrar a vida procura outro parceiro, que mais tarde viremos com surpresa saber de quem se trata, embora em todo o filme o universo da dança reflita bem o seu desejo incontornável por liberdade e por protagonismo na vida de todos os que a cercam.
Ela deseja ser livre com a mesma intensidade com que deseja ser mãe, não avaliando a incompatibilidade entre esses objetivos, porque o seu desejo de maternidade decorre da sua turbulência emocional vivida na infância, para a qual a piromania funciona como o meio de eliminar o passado que lhe é doloroso. É por tudo isto que “Ema” é estranho ao universo de Larrain, considerando que apesar de existir uma história, um substrato coerente emocionalmente válido e escorreito, ele deixa tudo nas mãos de um personagem tão indomável como indefinível que se consome no fogo que deliberadamente espalha.
“Ema”, está disponível nas plataformas Netflix por assinatura, ou em Filmin, pelo preço de €3,95, sem contrato nem fidelização durante 72 horas.

Classificação: 6 numa escala de 10