29 de outubro de 2021

Opinião – “Spencer” de Pablo Larrain

Sinopse

O casamento da Princesa Diana e do Príncipe Carlos há muito se transformou numa relação gélida. Entre abundantes rumores de casos extraconjugais e divórcio, a paz é encomendada para celebrar as festividades de Natal na propriedade real de Sandringham House. Há comida e bebida, tiro ao alvo e caça. Diana conhece o jogo. Mas desta vez, as coisas vão ser muito diferentes. Spencer, uma ficção do que se poderá ter passado nesses fatídicos dias.

Opinião por Artur Neves

Pablo Larrain avisa logo no início do filme que este é; “Uma fábula de uma verdadeira tragédia” para nos preparar para o que vamos assistir como sendo uma ficção do que pode ter acontecido nessa longínqua semana de 1991 em que a família real inglesa se reuniu no palácio de Sandringham em Norfolk, para festejar o Natal, cumprindo assim uma velha tradição da casa real que Isabel II faz questão de continuar, numa altura em que o casamento de Diana com Carlos já se encontra em ruínas, ela sente-se constrangida pela presença de Camila entre os convidados, e os sussurros existentes na corte e por todo o lado sobre a existência de infidelidades no casal já não podem mais ser omitidos porque a realidade é bem evidente, pelo menos da parte de Carlos.

Aqui não posso deixar de referir o curiosíssimo facto que nos é apresentado à chegada dos convivas ao palácio. A primeira regra para cumprir a tradição é serem pesados numa báscula decimal, a ninguém é permitido excluir-se dessa prática e o seu peso é meticulosamente registado no livro dos convidados. À saída, após os três dias de duração do Natal real, todos são novamente pesados na mesma balança. A diferença entre as duas pesagens traduz oficialmente o grau de felicidade e divertimento que o convidado usufruiu. Isto é para mim um exemplo acabado da “atualidade” da tradição monárquica no seu melhor.

Diana está muito bem representada por Kristen Stewart que desempenha uma perturbada princesa pelos pesadelos que assombram a sua mente, não cumprindo regras nem horários para confrontar a rigidez da praxis real, alucinando ao jantar em que se vê a ela própria comendo as pérolas do colar que lhe foi oferecido e de seguida vomitando-as no WC, sonhando acordada com Ana Bolena, que se cruza com ela nos corredores do palácio, e a avisa de ter sido decapitada pelo rei Henrique VIII para poder desposar uma nova rainha. Diana está todo o tempo como uma sonâmbula num ambiente que é hostil onde só encontra compreensão num aliado, a sua camareira Maggie (Sally Hawkins), que posteriormente será afastada. Diana não goza de qualquer privacidade, quer no palácio, ou fora dele nas terras vizinhas de uma propriedade que pertenceu à sua família. Diana sofre a opressão do palácio e perde o controlo da realidade na sua ansia de fugir dali.

Acho aqui que existirá algum exagero da parte do escritor e autor do argumento, Steven Knight, na encenação da demência e do colapso mental de Diana que nesta altura apenas luta pela sua libertação daquele casamento falhado, concentrando toda a sua atenção no cuidado e no amor aos filhos Williams (Jack Nielen) e Harry (Freddie Spry). A visão e Steven sobre Diana, embora numa história de ficção biográfica, mostra um sentido de humor perverso que em certa medida serve para branquear o papel da família real inglesa em todo o drama conjugal da casa real inglesa numa altura em que já se conhece a conclusão da relação de Carlos com Camila. A relação de Diana com Harry e a personalidade deste, embora ainda em formação em 1991, pode indicar o que veio a verificar-se em 2019 com a sua rutura com estrondo, com o pai e com a monarquia inglesa a que pertence.

A escolha de Kristen Stewart de 31 anos, com toda a sua experiência da série “Crepúsculo”, conferiu-lhe a massa crítica necessária para desempenhar o ícone Diana com uma visão estranhamente precisa e convincente do personagem que não me admiro se for indicada para o Oscar. Kristen consegue mostrar-nos os maneirismos da princesa, que podemos inferir das imagens reais que conhecemos, com uma precisão que nos convence, ao mesmo tempo que nos diverte com piadas que poderiam ter sido ditas por Diana naquele contexto, bem como o seu sotaque do norte de Inglaterra e o arregalar dos olhos que nos mostra o absurdo da vida infernal que Diana deve ter sofrido. A própria kristen deve ter sofrido o abuso insistente dos média durante o êxito adolescente de “Crepúsculo” pelo que sabe representar com propriedade o sofrimento de Diana com os paparazzi e os tabloides que a perseguiam. É uma biografia ficcionada, muito bem interpretada por Kristen Stewart que enche toda a cena com a sua excelente performance, coadjuvada por um elenco de secundários de primeiríssima água que merece ser visto, recomendo.

Estreia nas salas em 5 de Novembro

Classificação: 7 numa escala de 10

 

27 de outubro de 2021

Opinião – “Três Andares” de Nanni Moretti


 

Sinopse

Três Andares foi um dos filmes mais consensualmente aplaudidos do último festival de Cannes, onde Moretti regressou em competição com esta história de um prédio de Roma habitado por três famílias que, ao longo de dez anos, têm de lidar com situações dolorosas, difíceis e desconfortáveis. As escolhas que cada um faz vão determinar o curso da sua existência. Uma adaptação do romance do escritor israelita Eshkol Nevo, o filme conta com as magníficas interpretações do próprio Nanni Moretti, Margherita Buy, Riccardo Scamarcio e Alba Rohrwacher.

Opinião por Artur Neves

De Moretti recordo à 20 anos atrás o seu prémio da Palma de Ouro em Cannes 2001 com o filme “O Quarto do Filho”, onde Moretti mostrou que soube construir inquietações e estados de espírito intensos relativamente aos valores familiares, quando toda a família sofre o revés da morte do filho num acidente de mergulho. A história densifica-se quando Moretti (que protagoniza a interpretação do pai) entra numa espiral depressiva através da obsessiva insistência em projeções contrafactuais que em nada ajudam a realização do luto, nele próprio como na família, induzindo outros males.

Desta vez Moretti fez tudo diferente. Com base no romance “Three Floors Up” (que dá nome ao filme) escrito pelo israelita Eshkol Nevo e originalmente ambientado em Tel Aviv, enveredou por nos mostrar os infortúnios e os incidentes lamentáveis que ocorreram aos inquilinos de três andares de um prédio situado numa zona de classe média suburbana de Roma e das consequências desses eventos ao longo de 10 anos, sob uma abordagem que tresanda a melodrama, enfatizando o lado negativo como se não tivesse havido nada de recomendável e de auspicioso durante esse mesmo período. É tudo infortúnio e desgraça, que embora apresentem uma sequência lógica, são analisados pela superficialidade dos acontecimentos, quase dando a entender que Moretti reuniu o cardápio da desgraça e “meteu tudo no assador” para nos fazer puxar a lágrima ao canto do olho.

Na sua nota de realização sobre o filme, Moretti refere que quis abordar “…temas universais como a culpa, as consequências das nossas escolhas, a justiça e a responsabilidade que acompanha a parentalidade” e reconhecemos que estas vertentes estão espelhadas nas histórias, através de eventos concentrados naquelas três famílias, mas que nos soa a falso, revelado pela manipulação da realidade para nos encharcar com o melodrama de todas aquelas felicidades.

E começa logo no início do filme, com o irreverente filho Andrea (Alessandro Sperduti) do austero juiz Vittorio (Nanni Moretti), a provocar um acidente fatal que causa a morte de uma mulher que atravessa uma passadeira de peões, devido a conduzir embriagado e em alta velocidade ao chegar a casa, enquanto, ao mesmo tempo, na mesma rua Monica (Alba Rohrwacher) irremediavelmente grávida, se desloca a pé para o hospital para dar à luz o filho do seu marido ausente devido a obrigações profissionais que o mantém fora da cidade. Monica é um pouco lerda das ideias, tem horror da solidão e tem visões criadas pelos seus sentidos que não são reais, mas que condicionam o seu comportamento. Para completar o leque, Lucio (Riccardo Scamarcio), casado com Sara (Elena Lietti) têm uma filha de 7 anos que curte uma amizade especial por um vizinho idoso que toma esporadicamente conta dela, mas de quem Lucio suspeita de ser pedófilo, sem que para isso tenha qualquer prova ou indício concreto.

Com o desenrolar da história mais personagens vão chegando construindo uma estrutura abrangente com diversas interações com os inquilinos dos três andares, mas em toda a história o espectador nunca fica envolvido com qualquer dos personagens que são abordados superficialmente, atrapalhando-se uns aos outros, com erros, tristezas, dúvidas e solidão que vivem com elas próprias e as caracterizam criando uma atmosfera redundante de tédio que não transmite uma ideia clara sobre o que pretende, nem representa satisfatoriamente o passar dos anos. Moretti costuma impregnar as suas histórias de drama, polvilhado com alguma ironia que neste filme está completamente ausente. Parece-me que a história teria resultado melhor se Moretti tivesse centrado a ação no prédio. Ao apresentar outros locais e outras envolvências a ação esbate-se e o drama fragmenta-se, embora contenha ainda boas cenas fortemente emotivas. Se é adepto de um melodrama recheado de estereótipos, então este filme é para si.

Tem data prevista de estreia nas salas em 4 de Novembro

Classificação: 5 numa escala de 10

23 de outubro de 2021

Opinião – “O Último Duelo” de Ridley Scott

Sinopse

Da 20th Century Studios e do visionário cineasta Ridley Scott, chega “O Último Duelo”, um emocionante conto de traição e vingança contra a brutalidade e a opressão feminina da França do século XIV. O filme é um épico histórico baseado em eventos reais retratados em “O Último Duelo: Uma História Verdadeira de Crime, Escândalo e Julgamento por Combate na França Medieval”, é protagonizado pelo vencedor do ÓSCAR® Matt Damon e o duas vezes nomeado ao ÓSCAR® Adam Driver, como dois nobres em disputa, cujos problemas deverão ser resolvidas num duelo até à morte.

Opinião por Artur Neves

A história em que se fundamenta este filme data do século XIV, em França, na região da Normandia mas tem sido vivamente discutida até à atualidade por muitos eruditos donde resultaram até agora, muitos pareceres e opiniões e até um livro de não ficção escrito em 2005 por Eric Jager, professor de história medieval na UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles) que se interessou pelo assunto depois de ler as crónicas da época e sentir que o tema deveria ser mais investigado para preencher as lacunas que os textos deixavam em aberto, entre os relatos factuais e os boatos da época, eivados pelo obscurantismo dos seus propaladores. Toda essa investigação resultou no livro que foi publicado em 2005, cujos direitos foram comprados em 2019 pela 20th Century Studios e Jager contratado como consultor, considerando que o acórdão do julgamento real e religioso que lhe está subjacente, assenta na subtileza da decisão de uma mulher, dar, ou não, o seu íntimo consentimento em consumar um ato sexual.

A história em questão assenta na confissão de Marguerite de Carrouges (Jodie Comer), ao seu marido, Sir Jean de Carrouges (Matt Damon) de ter sido violada por Jacques Le Gris (Adam Driver) um nobre amigo do casal e companheiro de armas, depois de forçar a entrada em casa dela durante a ausência do marido numa viagem a Paris. Na altura, a sogra que com eles coabitava tinha também viajado por motivo de assuntos pessoais, acompanhada pela aia de Marguerite, pelo que ela se encontrava sozinha no castelo e embora rechaçasse as investidas de Le Gris não teve força suficiente para o impedir de consumar os seus intentos. É importante referir aqui que na época as mulheres eram consideradas uma propriedade legal dos seus maridos, pelo que o ato de Le Gris foi um crime cometido contra a casa Carrouges, contra a nobreza do título e não contra ela, embora tenha sido ela a ser submetida a um extenso e pormenorizado julgamento, cujo registo é ainda hoje objeto de estudo e investigação.

O resultado do julgamento, proferido por um imberbe rei Carlos VI, de riso nervoso e decisão inconsequente, determinou a realização de um duelo até à morte entre os dois contendores, considerando que, Deus conhecia a verdade e não permitiria que o inocente morresse e o culpado saísse ileso da contenda. O nome do filme assenta no facto de ter sido este o último combate em forma de duelo, sancionado pelo estado na história da França, a que curiosamente o filme não se refere.

Como pode concluir-se, tanto no século XIV como na atualidade o tema continua na ordem do dia e Ridley Scott construiu um filme portentoso, competente na representação da idade média francesa, repleto de ação em lutas e batalhas muito bem conseguidas com todos os pormenores de vestuário, armas e ambiente, bem como, os exuberantes banquetes e orgias em que culminavam as reuniões dos nobres depois do fragor da luta.

O objetivo do filme é contar a verdade sobre este caso, que devido à inconsistência dos relatos chegados até aos dias de hoje, o realizador apresenta a história da violação sob o ponto de vista de cada um dos intervenientes. Primeiro a descrição segundo Carrouge, que foi a contada pela mulher, depois a descrição de Le Gris e finalmente Marguerite que o desfecho do argumento parece querer indicar-nos ser a correta. Isto significa que vemos duas vezes a cena da violação contada à vez por ambos os intervenientes, sendo constante como é de esperar, a cena da violação em si mesma o que mostra ao espectador que ambos experienciaram a mesma realidade, todavia, o ângulo e a proximidade da câmara de filmar sobre o rosto de Marguerite é ligeiramente diferente em cada um dos relatos, mostrando-nos subtilmente as alterações de postura do rosto e das mãos em cada uma das cenas, e considero relevante citar essa diferença nesta crónica, porque é o filme a pedir ao espectador que faça o seu juízo em face do que lhe está a ser apresentado, considerando que através dos relatos e crónicas anteriores nunca se chegou a uma conclusão fechada sobre a verdade dos acontecimentos e nem o realizador, nem Eric Jager, têm certezas absolutas sobre a história.

De acordo com o olhar da ética do século XXI e depois de movimentos como o #MeToo, é óbvio que o relato de Marguerite é verdadeiro e nós vemo-la a resistir tanto quanto pode aos avanços de Le Gris, contudo, anteriormente também vimos uma “chispa” entre os seus olhares quando são apresentados e um início de flirt fugaz, embora sem continuação. É nesta dicotomia que o filme magistralmente nos apresenta que reside a sua importância social, deixando tudo em aberto e passando a responsabilidade para o espectador à luz das suas convicções e experiências, decidir se são as mulheres que exageram nas queixas, ou são os homens que são os brutos, sem prejuízo da consideração de que sexo sem consentimento é crime. Muito bom, para ser visto com atenção pois constitui um bom espetáculo em todas as vertentes da história. Recomendo vivamente.

Tem estreia prevista nas salas em 28 de Outubro

Classificação: 9 numa escala de 10

 

20 de outubro de 2021

Opinião – “Uma Paixão Simples” de Danielle Arbid


 

Sinopse

Hélène (Laetitia Dosch) é uma professora da academia parisiense, especialista na vida e obra da dramaturga inglesa do século XVII, Aphra Behn. Ela fala directamente para a câmara enquanto descreve o seu encontro com o diplomata russo por quem se apaixonara durante uma festa no Porto. À medida a que a relação entre os dois se transforma numa obsessão para Hélène, ela começa a comportar-se de modo inconsequente, negligenciando os cuidados do filho e de si própria.

Opinião por Artur Neves

Somente por ironia displicente é que se poderá considerar uma paixão, qualquer paixão humana, como simples e este filme ilustra a paixão de Hélène que começou por ser uma pulsão romântica por um homem, mas que intensificada pela compatibilidade sexual entre ambos se tornou num sentimento intenso e obsessivo pela sua presença junto dela. O tema é tudo menos novo, como será óbvio para o leitor, e fundamenta-se no romance do mesmo nome publicado em 1991, da autoria de Annie Ernaux que surpreendeu o panorama literário francês pelo rompimento dos estereótipos tradicionais dos romances de amor, descrevendo as cenas entre os amantes com todo o erotismo e honestidade de uma relação apaixonada, despida de vergonhas ou julgamentos morais.

O filme segue o guião o mais fielmente possível, mostrando-nos Hélène como uma mulher culta, professora de literatura na faculdade, divorciada, com um filho em idade escolar a seu cargo, que por se ter apaixonado por um homem casado, Aleksandr Svitsin (Sergei Polunin), espera-o constantemente dia após dia para fruir a felicidade, a profunda plenitude do corpo e do espírito que a relação entre ambos lhes proporciona, num fulgor sexual próprio de adolescentes mas que arrasa completamente quando surge nesta idade mais madura. Ela respeita a situação de comprometimento dele e nada mais lhe pede para lá da entrega honesta do seu desejo, consumado nos momentos de prazer extremo que a levam ao infinito dos sentidos e lhe provocam a dolorosa saudade que a anula nos intervalos de ausência, nos momentos em que ele se prepara para sair, receando e recusando aceitar a hora dele partir para sempre.

Para esbater a ténue linha entre a ficção e a realidade, a realizadora libanesa Danielle Arbid coloca Hélène a falar na primeira pessoa, tal como no romance, a confidenciar-nos a história da sua relação, o que sente, o que a justifica naquela paixão que lhe traz a maior felicidade, paga com a maior solidão durante a ausência dele que ela não controla nem condiciona. O telefone cumpre aqui o elemento de comunicação de sentido único que ela só pode usar quando ele liga, estando-lhe vedada essa iniciativa por acordo mútuo, nem para somente ouvir a sua voz do outro lado.

A separação sufoca-a, só ele circula livremente dentro e fora da vida dela e isso torna-se uma fonte de ansiedade paralisante que lhe motiva aprender russo enquanto descasca ervilhas, ou quando golpeia a terra num intervalo de jardinagem ocupacional. Eles são intelectualmente muito diferentes. Ela é especialista em dramaturgia inglesa do século XVII e está a preparar uma tese sobre o tema. Ele é um segurança da embaixada russa em Paris que gosta de bons carros e admira Putin e raras vezes conversa com ela no quarto ou na cama, nem sequer lhe fornece explicações cabais para o simbolismo das tatuagens que tem no corpo, mas a interação de ambos é mais forte que todos os intelectualismos.

Toda a história é envolvida por músicas francesas adequadas às situações mais marcantes da história, cantadas por Charles Aznavour, Gilbert Bécaud ou o Flying Pickets em “Only You feel” que nos relata a tristeza da hipótese de abandono. Sempre que ele sai ela nunca sabe se, e quando volta, comportando-se esta temática como uma nova abordagem, de prosa inteligente e desarmante suportada com uma linguagem despojada, do drama erótico tão caro ao cinema francês; “Amour Fou” e desta vez, formalmente mais ousado. Muito boa interpretação do personagem de Hélène por Laetitia Dosch, numa história velha como a humanidade. Gostei e recomendo, para ver sem tabus.

Estreia nos cinemas em 28 de Outubro

Classificação: 6 numa escala de 10

18 de outubro de 2021

Opinião – “Terra Nova” de Artur Ribeiro

Sinopse

O filme retrata a viagem do lugre bacalhoeiro Terra Nova, que após um mau ano de pesca nas águas do Labrador, o Capitão decide arriscar numa travessia até à Gronelândia. Devido à rota que nunca antes tinha sido navegada e às lutas contra tempestades e o frio do Atlântico Norte, o medo e o conflito intensifica-se entre a tripulação

Opinião por Artur Neves

Este filme é baseado no romance de Bernardo Santareno “O Lugre” que conta a história do lugre bacalhoeiro “Terra Nova” na sua faina de pesca nos mares do Labrador, na década de 1930 e num mau ano piscatório em que o Capitão decide arriscar uma aventura “por mares nunca dantes navegados” para providenciar o seu sustento e o de toda a tripulação que não aceita de bom grado a sua decisão e promove uma rebelião a bordo com consequências imprevisíveis, não só pela atitude tomada, como também pelo estado do mar naquela latitude.

A rudeza da vida da pesca ao bacalhau está bem representada através de personagens que não só caracterizam a diversidade da personalidade humana dos pescadores da época, com seus medos, crenças e ódios de estimação gerados pelo confinamento forçado no interior do limitado espaço do lugre. É o caso de Albino (Pedro Lacerda), o pescador sinalizado pelo seu comportamento num naufrágio anterior, sendo agora conotado com a presença da “má sorte” em todos os navios onde estiver. O caso da integração dos mais novos na tripulação também é abordado com Miguel (Miguel Partidário) órfão e ainda sem família constituída, que procura o conforto e a proteção de Albino a quem chama “tio”, apesar das críticas de alguns membros da tripulação, ou o médico de bordo, Bernardo (Vítor D’Andrade) igualmente sem experiencia da dureza daquela vida e se sente motivado a partilhar alguma simpatia com a tripulação que o aceita, embora discriminando-o com a desconfiança de pertencer ao grupo do Capitão Silva (Virgílio Teixeira) que lidera o navio com pulso de ferro e impõe o respeito da tripulação pela imposição das suas decisões, apoiado pelo contramestre (Vitor Norte) que personifica a autoridade pela indiscutível experiência da faina. Todos estão muito bem e mostra-se credívelmente o drama da pesca, da vida a bordo e dos pescadores.

As diferenças começam na envolvente. Todo o filme é passado no interior do navio e os efeitos especiais para a dureza do mar não reproduzem o que estamos habituados a ver em “Piratas das Caraíbas” ou noutras grandes produções passadas no mar. Quando o Capitão do lugre decidiu rumar à Gronelândia, eu “receei” que a viagem se fizesse com as velas amarradas ao mastro, considerando que é o seu estado durante toda a história… felizmente não… vê-se algumas vezes uma fotografia distante do navio com velas desfraldadas e reconhece-se com isso os fracos recursos do cinema português para competir internacionalmente num filme que até tem história para ser mais ambicioso.

Para celebrar em 2020 o centenário do nascimento de Bernardo Santareno, foi concebido pela produtora Ana Costa e o realizador que também escreveu o argumento; Artur Ribeiro, este projeto cinematográfico que além do filme, inclui a série “Terra Nova” de 13 episódios já exibida em 2020 pela RTP e atualmente disponível na plataforma de streaming HBO. Enquanto o filme é completamente rodado no mar, a bordo do lugre, a série desenvolve a vida em terra dos personagens do filme, o que dá suporte às suas frequentes quezílias e conversas cruzadas, que no filme se desconhecem as razões, bem como, o desenvolvimento das dificuldades da vida em terra, motivadas pelos magros recursos auferidos e os conflitos familiares antes e depois da viagem sempre agravados com as ausências prolongadas a que a faina obriga.

A pesca do bacalhau nos mares da Terra Nova pode ser encarada como a última epopeia trágico-marítima dos portugueses e mereceria um orçamento maior para a celebrar. Na sua ausência fica-nos este filme sobre a faina maior, e a dramatização das suas gentes, na série.

Estreia nas salas em 28 de Outubro

Classificação: 5 numa escala de 10

 

16 de outubro de 2021

Opinião – “Halloween Mata” de David Gordon Green

Sinopse

Minutos depois de Laurie Strode, a sua filha Karen e a neta Allyson deixarem o monstro mascarado - Michael Myers - enjaulado e a arder na cave, Laurie é levada de urgência para o hospital com graves ferimentos, mas acreditando que finalmente matou o maior tormento de toda a sua vida. Mas quando Michael se consegue libertar da armadilha que Laurie preparou, o banho de sangue recomeça. Enquanto Laurie luta contra a dor e se prepara para, mais uma vez, se defender dele, consegue inspirar toda a população de Haddonfield a erguer-se contra o monstro imparável. As mulheres da família Strode juntam-se a um grupo de outros sobreviventes do primeiro tumulto de Michael, que decidem tratar do assunto pelas próprias mãos, formando uma multidão que quer caçar Michael Myers… De vez.

Opinião por Artur Neves

Eis que Michael Myers volta de novo à liça pela décima segunda vez em mais um filme da série “Hlloween” que começou em 1978 com "Halloween: O Regresso do Mal". Segundo o registo histórico deste personagem, ele nasceu numa visita de estudo efetuada por John Carpenter a uma instituição de saúde mental no Kentuky, quando ainda era estudante de medicina. Segundo o próprio, o personagem nasceu nessa visita quando um garoto de 12 anos internado com um diagnóstico de esquizofrenia, cruzou com ele um olhar tão hostil, intenso e penetrante que o perturbou profundamente, tendo permanecido na sua memória até se materializar no personagem de Myers e caracterizado como o mal em estado puro. Carpenter descreve-o como uma força de natureza maligna, a corporização do mal absoluto indestrutível e impossível de matar com balas, facadas ou fogo, uma figura mítica ao serviço das trevas.

É esse personagem fictício que povoa os filmes da saga desde que John Carpenter o “libertou” em 1978, como sendo uma criança de seis anos que na noite de Halloween assassinou a sua irmã Judith. Depois de lhe ser diagnosticada esquizofrenia aguda e de ter sido institucionalizado no hospital psiquiátrico onde permaneceu quinze anos, evadiu-se e vive escondido até ao dia de Halloween em que volta à sua cidade natal, Haddonfield no Illinois, para continuar a matar mais adolescentes.

Na sequela anterior de 2018, Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) uma personagem representativa da saga ficou indissociavelmente ligada a Michael Myers, sendo o objeto de busca dele em todas as investidas, está retida na cama do hospital para onde foi transportada depois de mais um confronto com Myers que quase a matou com uma facada no abdómen. Ela ainda conseguiu encurrala-lo e lançar-lhe fogo que ela pensa ter conseguido finalmente matá-lo. Mas desenganem-se, o cadáver cambaleante de Myers emerge da armadilha de fogo com a sua máscara um pouco queimada, descaída para um dos lados que confere aquele rosto inerte uma expressão triste, solitária, com alguns resquícios de nobreza que depressa se transformarão nas cenas seguintes.

O realizador David Gordon Green e os argumentistas Scott Teems e Danny McBride constroem a história deste filme à custa do trauma infligido por Myers a Laurie quando esta estava cuidando de duas crianças que ele mata, naquela noite fatídica de 1978 em que ela o enfrenta, (como uma forma de homenagear o original de John Carpenter) tornando-se assim a sua inimiga figadal que ajudada por Tommy Doyle (Anthony Michael Hall) e Lindsey Wallace (Kyle Richards), galvanizam toda a população de Haddonfield para perseguir e matar Myers, que todavia, não tem qualquer vontade de lhes satisfazer os desejos, até porque para 2022 já está prevista mais outra sequela; “Halloween Ends” que por este andar nunca sabemos se será mesmo um final.

“Halloween Mata” serve principalmente os fãs do terror gore, muitas facadas com facas longas, muito sangue a espichar dos pescoços feridos, com bons efeitos especiais de caraterização e é mais sangrento do que Freddy Krueger que durante muitos anos se afirmou como campeão dos sonhos terríficos de donzelas tímidas. Michael Myers renasceu de várias “mortes” e ressurge após décadas de abandono e no sentido restrito do terror pelo terror. Este “Halloween Mata” ocupa um lugar de destaque e contem todos os ingredientes para figurar entre os mais conseguidos filmes de terror pelos seus amantes, categoria a que eu não pertenço.

Tem estreia prevista nas salas para 21 de Outubro

Classificação: 4 numa escala de 10

 

13 de outubro de 2021

Opinião – “DUNE - DUNA” de Denis Villeneuve

Sinopse

Denis Villeneuve (“O Primeiro Encontro”, “Blade Runner 2049”), nomeado a um Óscar, é o realizador de “DUNE - DUNA”, a adaptação para o grande ecrã do bestseller homónimo de Frank Herbert. Nesta viagem mítica e emocional, o filme conta a história de Paul Atreides, um jovem brilhante e talentoso com um grande destino para além da sua compreensão, que tem de viajar para o planeta mais perigoso do universo para garantir o futuro da sua família e do seu povo. Quando forças malévolas entram em conflito para obter uma quantidade exclusiva do recurso mais precioso do planeta – uma substância capaz de desbloquear o maior potencial da humanidade – apenas os que conquistam os seus medos conseguirão sobreviver.

Opinião por Artur Neves

Frank Herbert era em 1959 um escritor e jornalista freelancer a trabalhar para o departamento de agricultura dos USA e com uma propensão natural para a ecologia que queria perceber o problema das areias (ditas movediças) do estado do Oregon, que impulsionadas pelos ventos do oceano Pacífico, as levava pelo ar e cobriam tudo no seu caminho. A solução seria fixa-las ao solo através de plantas e ervas, embora tendo o inconveniente de colidir com as espécies autóctones alterando o ecossistema natural da região. Para acompanhar os trabalhos Frank inspecionava as dunas de areia do ar, voando sobre elas e foi num desses voos que lhe veio a ideia de estudar e aprofundar a mitologia dos desertos e as crenças dos povos que lá viviam, donde resultaram dois livros de ficção científica que foram publicados pela editora; Analog Science Fact & Fiction, posteriormente reunidos num único volume, “Dune” que foi publicado em 1965 mas que devido ao seu extenso tamanho, somente em 1970 atingiu a notoriedade que hoje ocupa no universo da ficção científica, sendo considerado o maior romance de ficção científica de todos os tempos.

A história de “Dune” bem sumarizada na sinopse, envolve todas as ligações que podemos imaginar entre, política, economia e religião, com todos os mitos da criação e da vinda e um messias para pacificar e reunir todos os povos da galáxia (note-se que a história passa-se no ano 10.191 em que os humanos já saíram da terra e dominam a galáxia que é governada no conjunto de todos os planetas) mostrando uma tecnologia muito à frente da nossa época em total respeito com a ecologia, muito embora sem se terem ultrapassado os paradoxos filosóficos, religiosos e psicológicos que condicionam as escolhas humanas ainda e sempre, submetidas ao livre arbítrio. Dune vai também buscar referências e inspiração a Isac Azimov na sua saga “Fundação” publicada em 1942, mas adaptada à Era de Aquário ou “Era do Ser” que em 1960 se acreditava trazer benefícios e progresso para a humanidade, mas que do ponto de vista astrológico não encontra consenso na data do seu início que uns dizem ser em 2000, outros 2600 e outros somente em 3000.

O imperador galáctico governa os mundos pelo controlo das casas (famílias) nobres que gerem os seus feudos planetários e estabelecem ligações entre si de acordo com as suas preferências, sentido de oportunidade e conveniência do imperador que tem o poder de impor as regras do jogo, muito à semelhança do Império Bizantino da antiguidade, que se formou a partir da divisão do Império Romano no ano 476 DC, igualmente organizado em castas e feudos familiares, tem aqui o seu fundamento.

Do ponto de vista fílmico, esta obra é soberba e é para mim, até agora, o melhor filme desta época pós pandémica (sem qualquer desprimor para o último James Bond, refira-se) recheado de um elenco fabuloso a começar pelo messias em crescimento Paul Atreides (Timothée Chalamet) com o mesmo ar frágil que lhe conhecemos em “Chama-me pelo teu Nome” de 2017, e sua mãe Jessica Atreides (Rebecca Fergunson) a insinuante Ilsa Faust de “Missão Impossível” de 2015 e 2018, ou o guardião de Paul Atreides, Duncan (Jason Momoa) que começou em “Marés Vivas” e já foi “Aquaman” em 2018, bem como muitos outros. Todos desempenham personagens credíveis envolvidos por uma banda sonora espetacular criada por Hans Zimmer, que já nos deu o excelente “Gladiador” em 2000 ou “Começo” (Inception) em 2010, ou Dunkirk em 2017 tendo sido nomeado nove vezes para o Oscar. Denis Villeneuve já declarou que não vai fazer apenas um filme e decorrente disso, este “Dune” é apenas a Parte 1. Se terá só duas, ou três partes como “O Senhor dos Anéis”, tudo depende do rendimento obtido por este investimento de 150 milhões Euros. Pelo profundo envolvimento que a história tem com a natureza humana e pela qualidade dos pormenores de realização recomendo-o vivamente como um bom espetáculo. De preferência em IMAX.

Classificação: 8,5 numa escala de 10

Tem estreia prevista nas salas para dia 21 de Outubro

 

9 de outubro de 2021

Opinião – “Venom: Tempo de Carnificina” de Andy Serkis

Sinopse

Tom Hardy regressa ao grande ecrã no papel do protetor letal Venom, um dos maiores e mais complexos personagens do universo MARVEL. Realizado por Andy Serkis, este filme tem também a interpretação de Michelle Williams, Naomie Harris e Woody Harrelson, no papel do vilão Cletus Kasady/Carnificina.

Opinião por Artur Neves

Venom é mais um personagem da Marvel Comics que foi explorado inicialmente na banda desenhada, em 1933 e na série de animação do Homem-Aranha em 1994, tendo merecido destaque com a coleção “The Venom Saga” em 1996. Nunca teve uma grande espetacularidade nem foi particularmente popular, até que em 2018 a Marvel decidiu transpô-lo para o grande ecrã, provavelmente já influenciada pelos ventos de reforma dos heróis tradicionais que vieram a “falecer”, todos de uma assentada em “Avengers: Endgame” de 2019.

Assim, em “Venom” de 2018 temos o aparecimento do jornalista falhado Eddie Brok (Tom Hardy) que se regenera após a coabitação com uma entidade alienígena, um simbionte do espaço exterior que gosta da terra e passa a habitar o corpo de Eddie constituindo uma parceria contra o crime e a maldade na cidade de Nova Iorque. No final deste filme, foi logo indiciada uma sequela através do breve aparecimento do serial killer; Cletus Kasady (Woody Harrelson) que vem a tornar-se figura grada no presente filme depois de escapar à prisão, após ter dado guarida a Carnage, (Carnificina) um extra terrestre da família de Venom mas muito mais violento e caótico em todas as suas atitudes.

A história passa-se uma ano depois dos acontecimentos narrados no primeiro filme e começa com o jovem Cletus assistindo impotente à transferência da sua amada Frances Barrison (Naomie Harris) do Lar St. Estes para Crianças Indesejadas, para o Instituto Ravencroft para ser sujeita a experiencias médicas de investigação do seu poder de grito com altas frequências sónicas que ela usa como defesa e agressão. Enquanto isto, Brok tenta adaptar-se à vida de hospedeiro de Venom, que possui opções divergentes da sua, como modo vida. Ele tenta recuperar a sua profissão de jornalista através da entrevista a Cletus que está preso no corredor da morte esperando a data da sua execução, mas escapa através de ter incorporado o simbionte Carnage, que em princípio é mais poderoso do que Venom. Como Cletus é um assassino a sangue frio, o exuberante “Carnificina” é mais cruel, reforçado ainda por habitar um serial killer psicopata, sem limites ou barreiras de contensão aos desmandos que deliberadamente pode provocar.

Com esta perspetiva pode imaginar-se que este filme seja dedicado a um público jovem, órfão dos super-heróis tradicionais, cuja primeira versão, granjeou mundialmente mais de 800 milhões de dólares em volume de bilheteira, o que trás esperanças acrescida para esta sequela que só no primeiro fim-de-semana de estreia nos USA arrecadou mais de 90 milhões, e que seguramente não vai ficar por aqui, considerando a cena apresentada a seguir aos créditos finais. É assim um filme para ver, em tamanho quanto maior, melhor, pelo que se recomenda a assistência à versão IMAX, com som Dolby Atmos que possibilitam maior imersividade na ação e nas complicadas lutas entre titãs.

Depois da privação das salas de cinema por causa da pandemia, este mês de Outubro está recheado de filmes que podem assinalar uma amostra do que será o futuro do cinema em sala, com James Bond em 30 de Setembro, este Venom em 14 de Outubro e o esperado “Dune” para 21, podem dar uma noção muito concreta da disponibilidade do público em se deslocar a uma sala de cinema para ver um filme. Até agora, com “James Bond: Sem Tempo para Morrer” a resposta parece já ser afirmativa.

Tem estreia prevista em sala para dia 14 de Outubro

Classificação: 4 numa escala de 10

 

8 de outubro de 2021

Opinião – “Fantasias” de David e Stéphane Foenkinos

Sinopse

Seis casais, seis variações de desejo, intimidade ... e fantasias. Dramatização, exibicionismo, excitação pelo choro ou mesmo pela abstinência ... Quer esses casais reprimam ou assumem suas fantasias, quer as compartilhem ou as silenciem, todos procuram a mesma coisa: felicidade, tanto a sua como a do seu parceiro!

Opinião por Artur Neves

Antes de analisar este filme não quero deixar de referir o excelente trabalho que estes dois irmãos argumentistas realizadores fizeram em 2017 com o filme “Ciúme”. Eles não têm um grande curriculum cinematográfico sendo este “Fantasias” a sua terceira realização no formato de longa-metragem, e posso compreender porquê, considerando a dificuldade subjacente a um projeto que se propõe ilustrar um sentimento humano de frustração e inveja como no caso do ciúme, que se centra em prejudicar ou negar o sucesso alheio que queríamos desesperadamente que fosse o nosso.

No caso presente as coisas ainda se complicam mais. São seis histórias que ilustram outros tantos fetiches humanos. “Fantasias”, de cariz sexual que ninguém se sente à-vontade para livremente exteriorizar, ou sequer comentar se por ventura formos instados para o fazer, mesmo que seja numa reunião de amigos. São seis, as parafilias ilustradas no filme, das mais de 60 taras reconhecidamente existentes, em que o prazer carnal pode acontecer sem que o comportamento sexual em causa implique penetração. Duma maneira geral vale tudo, desde que exista mútuo consentimento e gozo partilhado, podendo alguns comportamentos ser classificados como distorções da preferência sexual e serem considerados doenças do foro psíquico. Podem também incluir objetos, ou incidir sobre partes específicas do corpo que provocam particular excitação.

É pois este o tema do filme que os irmãos Foenkinos desenvolveram através de seis casais que se excitam e desfrutam o desejo através de outras tantas parafilias, apresentadas de uma forma diferente que nos divertem sem chocar, conseguindo um delicado equilíbrio nestes tempos modernos em que nem sempre se analisam conscientemente as escolhas ou as opções que tomamos na euforia da diferença que se pretende alcançar. As histórias são abordadas em tom de comédia que em certas alturas nos fazem rir com vontade e noutras, embora mais sombrias, mantêm um delicado humor em fundo, muito característico da comédia francesa inteligente que agrada, informa e diverte.

Todos os casais são pessoas absolutamente normais que desenvolvem estratégias ao sabor da sua preferência, não se destacando qualquer história relativamente às outras, donde a partilha com o espectador é absolutamente neutra não se distinguindo entre elas qualquer originalidade particular ou preferencial. Do ponto de vista formal, porém, a última história referente à antogonostofilia, prazer de ser filmado e de se ver no ato a olhar para a câmara para revisão futura, mereceria só por si uma longa-metragem desenvolvendo todas as implicações pessoais e sociais da eventual publicação daquele ato, que na história são apenas superficialmente citadas, embora se aceite a sua brevidade no conjunto global do filme.

Interessa também realçar que não são as “Fantasias” em si mesmo que nos fazem rir, mas antes a condição ridícula em que aqueles personagens caem (todos interpretados por atores e atrizes de grande talento) reféns de uma preferência sexual que não controlam e pela qual são inexoravelmente condicionados nos seus relacionamentos íntimos na busca do prazer. É um filme interessante, eventualmente não do agrado de todas as audiências, que se disfruta com gosto, humor e nos faz pensar na imensa fragilidade do ser humano.

Tem estreia em sala, prevista para dia 21 de Outubro

Classificação: 7 numa escala de 10