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24 de março de 2022

Opinião – “Amantes” de Nicole Garcia

Sinopse

Simon e Lisa são um jovem casal apaixonado que vive em Paris. Ela frequenta a escola de hotelaria e ele, trafica cocaína. No dia em que um dos seus clientes morre de overdose, Simon desaparece sem deixar rastro. Anos mais tarde, reencontram se, cada um com as suas vidas já refeitas. Simon trabalha num hotel e Lisa está casada e anseia ter um filho. Este triângulo amoroso vai virar o mundo de Lisa, a um ponto que ela não controla.

Opinião por Artur Neves

Eis um tema dos mais usados no cinema e que apesar disso apresenta sempre uma oportunidade de ser diferente, dependendo claro do argumento e do realizador que neste caso também colabora com o escritor Jacques Fieschi para estabelecer o enredo que nos mostra em 102 minutos. Nicole Garcia nascida na Argélia apresenta um largo curriculum como atriz desde 1966 e por vezes, quando decide ficar atras das câmaras como neste caso apresenta-nos uma história seca, dura nos diálogos e nas relações, abordando o sentimento do amor duma forma algo diferente do que é comum ver-se na abordagem deste tema.

A sinopse descreve a história e a realizadora faz fluir o enredo de maneira sequencial. Simon (Pierre Niney) conduz a sua vida pelos meandros do tráfico clandestino de droga estabelecendo a possível diferença entre as suas atividades e Lisa (Stacy Martin) que está vivendo o amor da sua vida aceita-o como ele se apresenta. Na realidade Lisa é mais afetuosa e mais dependente de Simon do que o inverso e isso nada tem de individualista, apenas Simon quer resguardar para si os perigos e responsabilidades da sua atividade clandestina. Lisa por vezes não compreende isso e força-lhe a acompanha-lo em algumas entregas particulares a amigos como aconteceu naquele dia em que um dos clientes sente-se mal, eles socorrem-no mas o mal já está feito e o excesso de droga é fatal.

Eles antes de sair, eliminam tanto quanto podem os sinais da sua presença naquela casa e voltam perturbados a um ponto que Simon se culpa do ocorrido. Lisa tenta confortá-lo mas Simon não é suscetível de ceder às suas tentativas por medo de ser envolvido e pelo remorso que aquele acidente lhe causou. Simon já é outra pessoa e só quer fugir dali, daquele lugar, daquela terra. Embora contrariada Lisa decide fugir com ele, marcam um encontro para o dia seguinte mas ele não comparece, não lhe dá qualquer justificação e ela no dia da sua ausência fica a saber que está só e a custo tem de consolar-se com aquela falta e viver sem o que ela pensava ser o amor da sua vida.

O encontro com Léo Redler (Benoit Magimel) é perfeitamente acidental, ela não o ama mas pensa que a sua companhia pode transformar a sua perda anterior e fazer seguir a sua vida para a frente. Aceita-o, casam, e Léo, dependendo da sua atividade profissional permite-lhe muitos tempo de solidão que ele quer compensar com passeios e viagens. Léo sabe que o casamento tem dificuldades em vingar e manter-se assim pelo que procura corrigir a situação com saídas conjuntas para jantares em cidades distantes e restaurantes caros, onde Lisa, sem esperar, reconhece Simon em trabalhos junto à praia. Ela não se mostra, apenas o vê ao longe e procura a melhor oportunidade para o encontrar sem testemunhas. É o passado a encontrar-se com Simon que vê nela a parte melhor desse passado. Falam-se, beijam-se, trocam juras de amor em que Simon explica o porquê do seu desaparecimento e ela lhe revela que está casada e que depois do desaparecimento dele apenas procurou a recuperação possível da vida dela ao lado de um homem com dinheiro que a escolheu.

Para qualquer dos três personagens aquela situação não é sustentável e a partir daqui a história conta-nos como foi possível conciliá-los. O cinema europeu e nomeadamente o cinema Francês tem uma postura diferente nestas situações e particularmente Nicole Garcia usa a sua arte para transformá-la em natural, sóbria, introduzido todos os eventos que interessam para por em confronto aquelas três pessoas com a realidade das posições que ocupam. Não se pode dizer que aquilo não poderia acontecer aos três vértices daquele triângulo amoroso que em vez de romantismo apresenta decisão, planeamento e vontade de agir. Está bem conseguido, prende o espectador e leva-nos até ao fim da história com curiosidade e surpresa.

Tem estreia prevista em sala dia 7 de Abril

Classificação: 6 numa escala de 10

 

10 de fevereiro de 2022

Opinião – “O Bando de Ned Kelly” de Justin Kurzel

Sinopse

"O Bando de Ned Kelly" é a história verdadeira do fora de lei australiano mais famoso de sempre e da sua trágica queda à revolta que o levou às trevas. Um relato dos anos mais jovens da vida de Ned e o tempo que antecedeu à sua morte em que o filme explora os limites confusos entre o bom e o mau, e as motivações para a morte do seu herói que recrutou um exército e planeou uma rebelião lendária para libertar a sua mãe. Juventude e tragédia colidem no bando de Ned Kelly e na essência desta história está um amor fragmentado e poderoso entre uma mãe e um filho.

Opinião por Artur Neves

Este filme é uma viagem à inocência de um menino que não queria nada para além de proteger e manter as necessidades de subsistência fundamentais à sua família, no início da colonização da Austrália no século XIX, pelos povos anglo-saxónicos de Inglaterra e da Irlanda com base no romance premiado com o Booker Prize, de Peter Carey, nascido na austrália em 1943 e atualmente a viver em Nova Iorque.

Ned Kelly (nascido em dezembrode1854 e falecido em 11 de novembro de 1880) é hoje ainda um herói ambíguo da cultura australiana, uns abominam a sua memória e as suas façanhas criminosas, outros consideram-no carinhosamente como o Robin Hood da Austrália, profusamente difundido e considerado um dos símbolos nacionais mais conhecidos. O realizador Justin Kurzel logo nas primeiras imagens do filme avisa-nos de que; “nada que o público verá em seguida é verdade” para manter a sua liberdade de trabalhar a lenda da forma que bem entender e para permitir a quem assiste tirar as suas próprias conclusões através do que nos apresenta, muitas vezes no limite do real e da sanidade, considerando que através dos tempos o misticismo que envolve Ned Nkelly tem crescido e adensado, ao ponto de só em 20 de Janeiro de 2013, os parentes atuais de kelly enterraram os seus restos mortais no cemitério de Greta, perto da sepultura da sua mãe, depois de múltiplas investigações arqueológicas sobre a localização do cadáver, após a execução da condenação à morte por enforcamento na prisão, que o vitimou.

A história começa com kelly (George MacKay) ainda menino, (Orlando Schwerdt) numa casa pobre e despojada de comodidades, matando animais e protegendo a mãe, Ellen Kelly (Essie Davis) e os seus irmãos, como insurgindo-se contra a presença constante do sargento O'Neill (Charlie Hunnam) quando espiava as atividades da mãe recebendo-o clandestinamente para obtenção de proventos em dinheiro. A miséria era muita, com a morte do pai ele assume definitivamente a família, e a mãe para o preparar e obter algum dinheiro, vende-o a Harry Power (Russell Crowe, já algo afastado das grandes produções que o notabilizaram), na época um foragido perigoso já amplamente referenciado pela polícia, com o intuito de o ensinar nas duras leis da vida e providenciar uma visão mais abrangente da realidade que lhe permitisse ocupar as novas funções de chefe de família.

Esta infância difícil vem a transformá-lo na idade adulta no assassino que a lenda lhe atribui. A certa altura quando um polícia que se relacionava com ele, Constable Fitzpatrick (Nicholas Hoult) ameaça a vida de um bebé e ele enfrenta-o empunhando uma arma diretamente à sua cara, Fitzpatrick despreza-o dizendo que ele não é um homem, mas sim continua o mesmo menino, embora mais crescido e com ambições que não pode alcançar. É esta ambiguidade narrativa que o realizador imprime à história que a transforma num filme dinâmico e criativo no sentido visual, seja na preparação do seu exército que se desfaz no exato momento de agir, como no planeamento da ação que é revelada ao inimigo por um prisioneiro, como envergando uma armadura de metal moldado para o proteger das balas da força policial que o captura, depois de uma sangrenta luta em que ele sabe não ter possibilidade de vencer.

O filme é maioritariamente rodado em ambiente noturno, com uma suficiente dosagem de momentos épicos, enquadrados por uma banda sonora bem conseguida e suficientemente capaz de transmitir emoção e realismo a uma violência de dimensão louca que transforma heróis em vilões conseguindo transmutar o personagem entre ambas as facetas e consagrando-lhe a humanidade que o símbolo possui hoje. É interessante, merece ser visto.

Tem estreia prevista em sala dia 17 de fevereiro

Classificação: 6 numa escala de 10

 

18 de janeiro de 2022

Opinião – “O Bom Patrão” de Fernando Léon da Aranoa

Sinopse

Básculas Blanco, uma empresa espanhola de produção de balanças industriais aguarda a iminente visita do comité do trabalho que tem o seu destino em mãos para saber se a empresa merece o prémio de Excelência Empresarial local: tudo tem que estar em perfeito equilíbrio quando o dia chegar. Trabalhando contra o relógio, o proprietário da empresa, Blanco (Javier Bardem) faz de tudo para abordar e resolver os problemas com os seus funcionários, cruzando todas as linhas imagináveis no processo.

Opinião por Artur Neves

A história que suporta o filme é a suposta vida empresarial de uma empresa familiar de fabricação de balanças e básculas de diferentes formatos e dimensões. Blanco (Javier Bardem) é o patrão, o dono (herdou a fábrica por via umbilical através do seu pai que a herdou do seu avô) o conselheiro e amigo do seu pessoal a quem considera “família” numa dimensão de média empresa para a qual a noção de gestor, ou de gestão de pessoal, fica muito ao cuidado das suas preferências pessoais, dos seus humores e concentrado num homem só, ele próprio, que só delega tarefas nos quadros intermédios seus colaboradores, no âmbito estrito da cadeia de fabricação.

Fernando Aranoa tem um filme de referência no âmbito da comédia dos serviços públicos “Um dia Perfeito” de 2015 em que um grupo de trabalhadores dos serviços humanitários públicos mostram bem a sua incompetência e inépcia numa intervenção para salvar um indivíduo que caiu num poço e não tem maneira fácil de se salvar e a ajuda deles também não conduz a bons resultados. Aqui todos os pormenores da envolvência das forças instituídas são escrutinadas e glosadas de forma a servirem de exemplo para qualquer instituição com fins administrativos em qualquer parte do mundo. Aqui, nada disso acontece porque a empresa é pequena demais, governada pela vontade de um homem só, que só servirá de modelo para empresas familiares semelhantes ou mesmo chafaricas com aspirações.

Blanco despede, promove e admite quem ele quiser a seu belo prazer. No início vêmo-lo num palanque, na fábrica, a proferir um discurso de encorajamento para o próximo desafio que é a visita uma entidade classificadora das atividades empresariais, para a qual ele chama a atenção de todos os colaboradores, de toda a família (trabalhadores assalariados que dependem dele como posteriormente se refere noutras circunstancias) para intensificarem as suas tarefas com mais cuidado e desvelo, mantendo tudo limpo, tudo em ordem porque a data da visita é desconhecida, enquanto ao mesmo tempo um empregado, José (Oscar de la Fonte) que foi despedido se debate no gabinete com o encarregado de produção, alegando a injustiça de que foi alvo. O filme não diz nada sobre os motivos do despedimento e o espectador tem de assumir que foi uma decisão justa, praticada por um homem que é justo e amigo dos trabalhadores. (ponto final)…

Ao nível do estilo de empresa a que se reporta (Aranoa não deve ter querido interferir com corporações maiores que sem atos explícitos são mais criticáveis) o senhor Blanco não é um patrão qualquer, mas um chefe dedicado à sua equipa e aos seus trabalhadores, que também o idolatram porque ele está sempre lá para os ajudar em todas as situações, quer sejam relativas à vida da fábrica, ou às suas dificuldades pessoais que em última instância irão refletir-se no sucesso de vendas, pelo que ele procura sempre resolver todos os problemas. As estagiárias admitidas ao mês, são selecionadas pela sua aparência e pelo seu corpinho e aqui ele cria um grande problema ao ter admitido a filha de um grande amigo seu, andou com ela ao colo a agora 17 anos depois não a conheceu, nem se interessou saber quem era porque com aquele corpinho cumpria todos os requisitos do Sr. Blanco, compreensivelmente cansado da sua augusta esposa.

Quanto à direção de atores não há nada a apontar, a história flui e o personagem de Javier Barden encaixa na perfeição num gestor sempre envergando fatos caros e um bom carro onde se desloca, de quem temos mais referências de dramas do que comédias (a sua interpretação de um vingador em “Este País não é para Velhos” de 2007 marcou a sua carreira). Todavia ele não trabalha sozinho e todos os secundários que o servem na fábrica têm brilhantes interpretações e posição na história com particular destaque para o porteiro Romám (Fernando Albizu) pelas suas opiniões sobre todos os eventos ou a recatada esposa Adela (Sonia Almarcha) que só peca pelas poucas exibições que o argumento lhe destina.

Não se compara a “Nas Nuvens” e 2009 em que George Clooney interpreta um executivo investido na missão de despedimento de trabalhadores mais antigos e depois do trabalho feito é ele que é despedido, ou mais anteriormente, como em “O Grande Salto” de 1994 em que um jovem executivo vê-se envolvido numa complicada teia corrupta de jogadas e armadilhas empresariais de uma grande empresa, mas Fernando Aranoa não é qualquer dos famosos irmãos Coen, como tal, temos apenas a velhacaria bacoca de um patrão esperto da província e deve ser visto como tal.

Tem estreia prevista em sala dia 20 de Janeiro

Classificação: 5 numa escala de 10

 

14 de novembro de 2021

Opinião – “O Meu Primo Desajeitado” de Jan Kounen

Sinopse

Pierre (Vincent Lindon, de “A Lei do Mercado”) é um executivo em funções na sua empresa familiar de vinhos. Prestes a firmar o que ele julga ser o negócio do século, ele deve concluir uma última formalidade: conseguir a assinatura do seu primo Adrien (François Damiens, de “A Família Bélier”) que possui 50% das ações da empresa. Os dois vão embarcar na viagem de negócios mais explosiva das suas vidas onde os sentimentos familiares serão testados ao limite.

Opinião por Artur Neves

Este filme, na tradição comum do cinema francês, apresenta-nos uma história em jeito de comédia, mas com mais mensagem para lá dos gags normais dos filmes de comédia, na viagem de avião e noutras cenas que conduzem a trapalhadas caricatas das suas personalidades dissonantes, considerando que se trata do confronto de dois homens com posturas perante a vida profundamente diferentes que o acaso conduziu a um projeto comum abordado à luz das suas diferenças.

A sinopse sumariza a história que não passa da realização de um negócio de compra de uma empresa e de uma marca com créditos firmada no ramo, com vista ao incremento da empresa familiar de vinhos de que ambos são possuidores, que lhes trará inerentes benefícios mútuos na continuação do negócio. Todavia a história profunda assenta no olhar diferente que ambos têm sobre o negócio comum, nos diferentes pormenores que ambos valorizam na empresa, decorrente da forma muito diferente que ambos têm em ver o mundo, o amor e as coisas da vida. É mais um filme de pormenores, de subtilezas, que embora não sendo óbvias e tradicionais, devido às suas diferentes personalidades, não deixam de ser subtis e de pormenor.

Pierre Pastié é o gestor focado no trabalho, na obrigação de conseguir o progresso continuado para a sua empresa, criar e manter oportunidades de negócio cada vez mais vantajosas com prejuízo da atenção devida à sua família, ao filho e à sua casa. Adrien Pastié, seu primo muito chegado devido a tê-lo salvado de um desastre de afogamento, como viremos a saber mais tarde, é o oposto dele. Desorganizado, sempre inspirado para viver o momento, indiferente às consequências das suas atitudes, intempestivo sem contudo ser violento e com uma sensibilidade exacerbada em relação a tudo o que o cerca e envolve. Desaparece sem deixar rasto nem atualiza a sua localização, como desta vez em que já não via o primo Pierre há 10 anos e só volta para se inteirar da necessidade da sua presença no negócio que Pierre quer consumar. Todavia a sua forma de interagir com o meio é totalmente personalizada e estranha aos olhos menos habituados a compreender comportamentos fora da caixa, o que gera todo o enredo da história contada neste filme.

Como pode imaginar-se não é fácil objetivar diferenças subtis entre pessoas, o que torna a história interessante do ponto de vista da surpresa que as diferentes conceções possam apresentar, mas por outro lado enferma de uma narrativa com pouca dinâmica porque fica declarada à partida a divergência mútua de opiniões, tornando esta algo arrastada. Porém, o twist final imposto à história, com um misto de lucidez, humanidade e discernimento inesperado de onde menos era previsível, reabilita a confiança nas personalidades flexíveis relativamente às obstinações teimosas. Interessante.

Tem estreia prevista em sala para dia 18 de Novembro

Classificação: 5 numa escala de 10

 

4 de novembro de 2021

Opinião – “Mães Paralelas” de Pedro Almodôvar

Sinopse

Duas mulheres coincidem no mesmo quarto de hospital onde vão dar à luz. Ambas são solteiras e engravidaram por acidente. Janis, (Penélope Cruz) de meia-idade, não se arrepende e exulta. A outra, Ana, (Milena Smit) adolescente, está assustada, arrependida e traumatizada. Janis tenta encorajá-la enquanto elas caminham pelos corredores do hospital. As poucas palavras que trocam nessas horas vão criar um vínculo muito estreito entre as duas, que o acaso se encarregará de desenvolve e complicar, mudando de forma decisiva as suas vidas. “Mães Paralelas” é o novo filme do premiado diretor espanhol Pedro Almodôvar protagonizado por Penélope Cruz, Julieta Serrano e Rossy de Palma.

Opinião por Artur Neves

Almodôvar desta vez enreda-se e enreda-nos numa história política envolvida por sentimento de mãe, de mães ancestrais, mães atuais e descendentes, que na sobriedade estilística do seu estilo de filmar, desenvolve um enredo de raízes metafóricas que começa pelo desejo de Janis em encontrar os restos mortais do seu bisavô assassinado pelo exército de Franco durante a guerra civil espanhola entre os anos de 1936 – 1939, perseguindo o comportamento de gerações que exercem a identidade materna através de três tipos de mães muito diferentes no seu desvelo com a descendência que concebem.

Janis (Penélope Cruz, em mais um bom desempenho) é uma mulher independente, repórter fotográfica para revistas e jornais, que se envolve com um antropólogo forense Arturo (Israel Elejalde), com quem ela se cruza na sua busca pelos restos mortais do seu bisavô numas ruinas recentemente descobertas. Desse relacionamento, Janis engravida consciente e deliberadamente, sem que isso implique o compromisso de Arturo sob qualquer forma, que ela sabe ser casado e já ter família. Na maternidade ela cruza-se com Ana (Milena Smit) uma adolescente imprevistamente grávida que está aterrorizada com o parto e com a situação posterior ao nascimento do bebé, considerando que é filha de pais separados, vive com a mãe, uma atriz exclusivamente focada no seu trabalho que nunca teve tempo para cuidar da filha e muito menos terá para cuidar de netos. Janis compreende os medos de Ana, apoia-a, encoraja-a e dá-lhe toda a colaboração possível estabelecendo uma amizade que floresce dia a dia pela ajuda recebida, que terá profundo reflexo no futuro de ambas.

Quero referir que neste filme as mulheres não são retratadas como mártires ou de maneira condescendente como mulheres enganadas por homens oportunistas. Não, neste filme não há anjos nem vilões. Cada mulher citada tem uma identidade clara e assume as suas escolhas de acordo com a sua educação ou as suas influências políticas e os homens, de Janis e de Ana, não são demonizados pelos seus comportamentos, bem como, Teresa (Aitana Sánchez-Gijón), mãe de Ana que só fala da sua carreira, dos seus espetáculos, sem que seja censurada por Janis que a ouve sem esforço nem reserva.

É neste entretecimento de personalidades que Almodôvar configura habilmente um complicado enredo que ele chama de “Mães Paralelas”, mães fortes, seguras de si e imperfeitas no sentido tradicional do termo, mas que não é por isso que são menos mães, que a sua maternidade é menos sentida, menos sincera ou menos válida. É antes a forma delas estarem na vida.

Depois da formalização deste retrato, Almodôvar liga-o aos erros do seu país, da Espanha apanhada numa guerra fratricida de que é necessário conhecer e compreender o passado ainda latente em muitas mães e avós que só depois disso poderão caminhar livres em direção ao futuro, gerar novas vidas e cuidar delas. Só compreendendo a razão política que deu origem a tanta dor é que se pode pensar no futuro. Na filmografia de Almodôvar, este é o seu trabalho mais político em que se mostra mais zangado com o passado, no sentido de pretender compreendê-lo para sanar as discrepâncias vividas das vidas ainda em suspenso e Almodôvar faz isso com elegância formal através de uma narrativa fluida e imagens de ambientes inteligentemente construídos, que constituem o elo de ligação entre os personagens do passado, presente e futuro e os acontecimentos que os condicionam.

Como já referi, “Mães Paralelas” é o trabalho mais político de Almodôvar, embora humano, muito diferente de “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos” de 1988, “Má Educação” de 2004, ou “A Pele Onde eu Vivo” de 2011 que foram marcantes na sua carreira e está mais na linha de; “Dor & Gloria” de 2019, em que Almodôvar ensaiou uma reconciliação com a sua história pessoal e tenta agora neste filme um confronto com a sociedade onde se insere, reacendendo velhas feridas com o objetivo de promover o seu saneamento. Pode parecer confuso, mas o aprofundamento psicológico dos seus personagens com uma evidente carga melodramática, estabelecem o paralelo com o drama ainda latente das vítimas do franquismo. Gostei, merece ser visto.

Tem estreia prevista em sala para 1 de Dezembro

Classificação: 7 numa escala de 10

 

20 de outubro de 2021

Opinião – “Uma Paixão Simples” de Danielle Arbid


 

Sinopse

Hélène (Laetitia Dosch) é uma professora da academia parisiense, especialista na vida e obra da dramaturga inglesa do século XVII, Aphra Behn. Ela fala directamente para a câmara enquanto descreve o seu encontro com o diplomata russo por quem se apaixonara durante uma festa no Porto. À medida a que a relação entre os dois se transforma numa obsessão para Hélène, ela começa a comportar-se de modo inconsequente, negligenciando os cuidados do filho e de si própria.

Opinião por Artur Neves

Somente por ironia displicente é que se poderá considerar uma paixão, qualquer paixão humana, como simples e este filme ilustra a paixão de Hélène que começou por ser uma pulsão romântica por um homem, mas que intensificada pela compatibilidade sexual entre ambos se tornou num sentimento intenso e obsessivo pela sua presença junto dela. O tema é tudo menos novo, como será óbvio para o leitor, e fundamenta-se no romance do mesmo nome publicado em 1991, da autoria de Annie Ernaux que surpreendeu o panorama literário francês pelo rompimento dos estereótipos tradicionais dos romances de amor, descrevendo as cenas entre os amantes com todo o erotismo e honestidade de uma relação apaixonada, despida de vergonhas ou julgamentos morais.

O filme segue o guião o mais fielmente possível, mostrando-nos Hélène como uma mulher culta, professora de literatura na faculdade, divorciada, com um filho em idade escolar a seu cargo, que por se ter apaixonado por um homem casado, Aleksandr Svitsin (Sergei Polunin), espera-o constantemente dia após dia para fruir a felicidade, a profunda plenitude do corpo e do espírito que a relação entre ambos lhes proporciona, num fulgor sexual próprio de adolescentes mas que arrasa completamente quando surge nesta idade mais madura. Ela respeita a situação de comprometimento dele e nada mais lhe pede para lá da entrega honesta do seu desejo, consumado nos momentos de prazer extremo que a levam ao infinito dos sentidos e lhe provocam a dolorosa saudade que a anula nos intervalos de ausência, nos momentos em que ele se prepara para sair, receando e recusando aceitar a hora dele partir para sempre.

Para esbater a ténue linha entre a ficção e a realidade, a realizadora libanesa Danielle Arbid coloca Hélène a falar na primeira pessoa, tal como no romance, a confidenciar-nos a história da sua relação, o que sente, o que a justifica naquela paixão que lhe traz a maior felicidade, paga com a maior solidão durante a ausência dele que ela não controla nem condiciona. O telefone cumpre aqui o elemento de comunicação de sentido único que ela só pode usar quando ele liga, estando-lhe vedada essa iniciativa por acordo mútuo, nem para somente ouvir a sua voz do outro lado.

A separação sufoca-a, só ele circula livremente dentro e fora da vida dela e isso torna-se uma fonte de ansiedade paralisante que lhe motiva aprender russo enquanto descasca ervilhas, ou quando golpeia a terra num intervalo de jardinagem ocupacional. Eles são intelectualmente muito diferentes. Ela é especialista em dramaturgia inglesa do século XVII e está a preparar uma tese sobre o tema. Ele é um segurança da embaixada russa em Paris que gosta de bons carros e admira Putin e raras vezes conversa com ela no quarto ou na cama, nem sequer lhe fornece explicações cabais para o simbolismo das tatuagens que tem no corpo, mas a interação de ambos é mais forte que todos os intelectualismos.

Toda a história é envolvida por músicas francesas adequadas às situações mais marcantes da história, cantadas por Charles Aznavour, Gilbert Bécaud ou o Flying Pickets em “Only You feel” que nos relata a tristeza da hipótese de abandono. Sempre que ele sai ela nunca sabe se, e quando volta, comportando-se esta temática como uma nova abordagem, de prosa inteligente e desarmante suportada com uma linguagem despojada, do drama erótico tão caro ao cinema francês; “Amour Fou” e desta vez, formalmente mais ousado. Muito boa interpretação do personagem de Hélène por Laetitia Dosch, numa história velha como a humanidade. Gostei e recomendo, para ver sem tabus.

Estreia nos cinemas em 28 de Outubro

Classificação: 6 numa escala de 10

19 de agosto de 2021

Opinião – “Mistério em Saint-Tropez” de Nicolas Benamou

Sinopse

Como acontece todos os verões, o bilionário Tranchant e a sua esposa Eliane recebem o mundo glamuroso das celebridades na sua luxuosa mansão no sul de França. Quando os crimes de sabotagem a um dos seus carros juntamente com cartas ameaçadoras causam o desassossego na festa, Tranchant não descansa enquanto não contratar o melhor agente para a investigação. No meio deste verão quente, apenas Boullin, o arrogante e incompetente inspetor da polícia está disponível… Para apanhar o suspeito e resolver o mistério, o inspetor não terá escolha a não ser fazer passar-se por um empregado recém-contratado e transformar as férias de todos num jogo hilariante de ‘Cluedo’!

Opinião por Artur Neves

Eis aqui o verdadeiro filme da silly season, se é que se possa chamar assim aos tempos que atravessamos, porque embora o calendário e o bom tempo o indiquem, as notícias reportam tempos sombrios que este filme pretende distender com uma paródia bem urdida no seio de uma família da classe alta francesa da década de 70 que se destacava por gozar férias acompanhadas da socialite da época em locais aprazíveis, junto ao mar ou em casas que satisfariam os desejos de comodidade e fausto de qualquer mortal.

É pois numa dessas casas que o le baron Claude Tranchant (Benoit Poelvoord) e sua esposa Baronesa Élaine Tranchant (Virginie Hocq) passam férias em ilustre companhia mas ficam chocados e temerosos quando um amigo próximo, convidado pelo casal, sofre um acidente de automóvel que se vem a revelar como uma tentativa de assassínio por sabotagem do circuito de travagem. Sem saber a quem atribuir a realização desta armadilha resolvem contactar o seu amigo e primeiro ministro de França, Jacques Chirac (nada menos do que isso) para os ajudar a descobrir o autor de tal proeza. Este, solicita os bons ofícios da polícia de investigação através e um telefonema ao diretor geral da PJ, Maurice Lefranc (Gérard Depardieu) que entrega o caso ao único detetive em serviço naquele mês; Jean Boullin (Christian Clavier) que se notabilizou pelas mais desastradas e incompetentes intervenções em casos anteriores, estando assim criadas as condições necessárias para uma comédia francesa com todos os condimentos de descontração e situações hilariantes que nos fazem passar 90 minutos agradáveis.

Com esta história e com estes personagens está evidente as confusões que se levantam considerando que Boullin é completamente incapaz de estruturar um plano, uma estratégia que possa levar coerentemente à descoberta do potencial criminoso. Adicionalmente, tal como nas histórias de crime tradicionais existem múltiplas e inconfessáveis relações entre alguns personagens que complicam ainda mais o raciocínio escasso de Boullin que segue de gafe em gafe, cada uma pior do que a anterior e muito embora o filme se sirva de alguns gags já estafadamente conhecidos o desenrolar da história faz-nos rir, pela surpresa, pelos inusitados acontecimentos que nos são relatados por personagens bem conseguidos. Não é inédito, corresponde à tradição de verão a que o cinema francês já nos habituou, mas é uma lufada de ar fresco, pela qual nos apetece ser bafejados. Recomendo como filme de verão.

Tem estreia prevista em sala, dia 26 de Agosto

Classificação: 6 numa escala de 10

 

9 de junho de 2021

Opinião – “O Ruído” de Doug Liman


 

Sinopse

Num futuro não muito distante, Todd Hewitt foi criado para acreditar que uma doença matou todas as mulheres e tornou possível que todos consigam ouvir os pensamentos dos outros através de um certo “ruído”, Como resultado, ninguém pode guardar seus segredos. Mais tarde, ele encontra uma fonte de silêncio: uma mulher misteriosa chamada Viola (Daisy Ridley), a primeira que ele conheceu. Neste enredo perigoso, a vida de Viola está ameaçada e como Todd jura protegê-la, ele terá que descobrir o seu poder interior e desvendar os segredos sombrios do planeta.

Do realizador de The Bourne Identity e Edge of Tomorrow, e baseado no romance best-seller The Knife of Never Letting Go, Daisy Ridley e Tom Holland contracenam com Mads Mikkelsen, Demián Bichir, Cynthia Erivo, Nick Jonas, Kurt Sutter e David Oyelowo.

Opinião por Artur Neves

Este filme já teve uma primeira versão em 2011 que foi tão detestada pelo público e pela crítica que a produção resolveu refilmá-lo de novo em 2019 mas com resultados idênticos pois o problema está na história confusa contida no romance distópico de Patrick Ness “The Knife of Never Letting Go” (“A Faca que não Deixa Partir” em tradução livre) porque na história deste povo do futuro (ou do passado, não se sabe) o ato de entregar uma faca a um jovem significa a sua emancipação e o seu reconhecimento como homem integrado na comunidade. Só que não se percebe de onde vêm, para onde querem ir ou que sociedade formaram para estabelecerem esse princípio.

Identifica-se que estão num estado quase primitivo, que são sobreviventes não se sabe de quê, de que cataclismo lhes matou as mulheres. Pela semelhança física com a raça humana presumimos que fugiram da terra e habitam um planeta hostil que lhes retirou a privacidade dos seus pensamentos, expondo-os publicamente através da emissão de ondas mentais percetível pelos outros que estejam perto, a que eles chamam “O Ruído” que dá nome à história. Essas ondas mentais são coloridas pelo que para lá de impedirem a privacidade limita-lhes também a possibilidade de se esconderem revelando a sua localização como um semáforo bruxuleante.

Porém tudo muda quando uma nave chega ao planeta e dela sai Viola (Daisy Ridley) que encontra o jovem Todd (Tom Holland) que ao ver uma mulher pela primeira vez não sabe o que fazer para ocultar os seus pensamentos, apesar de repetir convulsivamente o seu nome para tentar ocupar o seu cérebro e não revelar os reais desejos que possui. No fundo ele só quer ajudá-la (vá-se lá saber porquê) a regressar ao seu planeta pelo que a tem de conduzir aos destroços de outra nave para comunicar com a nave mãe. Ele não conhece a localização dos destroços e o local é meio secreto (com o sempre constante “Ruído” nada é secreto mas…) mas ele tem de descobrir o caminho para a salvar e fica formado o novelo do caos em que se enredou esta história resultando num completo desperdício de recursos e de talento (Mads Mikkelsen desempenha o papel de presidente da comunidade) da história recente de Hollywood.

Quero declarar que não me regozijo com este completos flops cinematográficos pois seja como for, representam as esperanças onde muitas pessoas investiram as suas economias no pressuposto de contribuir para um objeto de diversão e uma obra de cinema capaz de transmitir uma ideia, um pensamento estruturado ou uma filosofia, só que aqui não “habita” nada disso. Alegar ficção científica e mostrar personagens em vestes andrajosas montados em cavalos e desenvolver a história num bosque com cenas de canoagem para chegar aos destroços de uma nave que miraculosamente mantinha intactos e alimentados os meios de comunicação interplanetário é talvez um pouco excessivo para granjear adeptos entre os espectadores.

No livro de Patrick Ness, a trilogia de onde esta história é o 1º volume, é a atmosfera do planeta que faz com que os pensamentos destes colonos sejam audíveis e visíveis. Charlie Kaufman um realizador e argumentista de ideias surrealistas foi quem primeiro deu corpo ao argumento e foi substituído por outros escritores, entre os quais Doug Liman que também assumiu a realização. Ele tem créditos firmados, dos quais “No Limite do Amanhã” de 2014 é um bom exemplo mas aqui ficou aquém do esperado apesar do bom elenco utilizado num pacote de fácil digestão e de adequada configuração. No entanto não ultrapassou o caos que gerou.

Disponível nas salas a partir de 10 de Junho

Classificação: 4 numa escala de 10

28 de maio de 2021

Opinião – “Quo Vadis Aida?” de Jasmila Žbanić

Sinopse

Aida é tradutora da ONU na pequena cidade de Srebrenica. Quando o exército sérvio da Bósnia assume o controlo da cidade, ela descobre que a sua família está entre os milhares de cidadãos que procuram abrigo no acampamento das Nações Unidas. Como uma pessoa de dentro das negociações, Aida tem acesso a informações cruciais que ela precisa interpretar. O que está no horizonte para sua família e seu povo – resgate ou morte?... Que ação ela deve tomar?... Inspirado em factos verídicos.

Opinião por Artur Neves

Retrata-se neste filme a monumental inépcia e indefinição da ONU em relação ao conflito da Guerra da Bósnia entre 1992 e 1995 quando a sua representação em Srebrenica, uma pequena vila na Bósnia Herzegovina, era constituída por militares holandeses e outros jovens locais de pouca idade, arvorados em capacetes azuis que mais não podiam fazer do que empunhar o símbolo da organização para testemunhar a sua integração numa força longínqua que os abandonou à sua sorte, enquanto desenvolvia reuniões infindas sobre o seu destino.

Aida Selmanagic (Jasna Djuricic) é uma professora que a representação da ONU requisita como tradutora, tomando assim um papel central na história mercê da sua livre movimentação no interior da representação e do conhecimento profundo da dinâmica política das forças estacionadas da ONU que reclamam apoio aéreo, sempre prometido mas que nunca chega, permitindo o genocídio de cerca de 3000 muçulmanos às mãos de exército Sérvio invasor que tomou a vila.

Aida, personagem fictícia do argumento que serve de guia da ação para o espectador, tem como objetivo salvar a sua família, o marido e os dois filhos, pelo que se desdobra entre as suas funções oficiais e o papel de mãe e esposa para garantir a segurança daqueles que ama, num ambiente de guerra que piora constantemente, tentando ainda gerir a proteção de milhares de refugiados, no precário equilíbrio entre a falta de recursos e a ausência de apoio externo que ameaça destruir o povo muçulmano da Bósnia e de comunicar ao povo as determinações dos impotentes soldados da ONU envolvidos numa guerra que se desenvolveu ao seu redor nos últimos três anos.

O exército Sérvio entra sem resistência em Srebrenica, comandado pelo general Ratjo Mladic (Boris Isakovic), que mais tarde viria a ser condenado a prisão perpétua por um tribunal internacional, sem que contudo essa punição tenha conseguido lavar o sangue das mãos da ONU. Ratjo Mladic é vaidoso e exige que todos os seus discursos humanistas de vencedor magnânimo sejam filmados e transmitidos para o mundo, enquanto reúne todo o povo da vila num descampado, negoceia com o Major Franken (Raymond Thiry), responsável pelas forças estacionadas da ONU a sua transferência para um lugar seguro em camionetas, devolvendo-os à liberdade, mas o que realmente faz é fuzilá-los assim que os carros se afastam de Srebrenica a uma distância fora da vista.

A argumentista e realizadora Jasmila Žbanić nascida em Sarajevo em 1974 apresenta-nos toda esta história sem imagens chocantes regadas com sangue, como é frequente em filmes de guerra, mas antes de uma forma emocional onde Aida é a sua intérprete fundamental nas suas movimentações progressivamente ansiosas, nos seus olhares imoveis no vazio, na sua expressão dura e determinada, ciente que a sua posição não lhe confere qualquer garantia diferente de todos os outros prisioneiros e nas pausas para fumar que a evadem do caos circundante, mas que não são mais do que o prenúncio da tragédia que aos poucos se vai adivinhando pelo desenrolar da história.

A filmagem é conseguida maioritariamente de câmara na mão, com tomadas de vista perto da ação de forma a inserir-nos no ambiente tenso que se vai adensando, deixando ao espectador a avaliação da gravidade dos acontecimentos que se sucedem, vivenciados pela protagonista numa correria insana sem objetivo definido porque ela, tal como todos os outros, não têm para onde realmente fugir. Muito bom, recomendo sem reservas.

Em exibição nas salas a partir de 3 de Junho

Classificação: 8 numa escala de 10

 

19 de maio de 2021

Opinião – “Um Homem Furioso” de Guy Ritchie

Sinopse

Um título autoexplicativo para uma trama centrada na história de "H", um misterioso desconhecido que trabalha para uma empresa de transporte de valores em Los Angeles. A intriga adensa-se quando um desses camiões é assaltado e o protagonista mostra grande habilidade em lidar com os assaltantes, o que lhe traz relevância na empresa e a admiração dos colegas. O que eles não sabem é que “H” vive preso ao passado e está disposto a pôr termo a todos os criminosos da cidade até encontrar quem matou o filho.

Baseado no filme francês “Le convoyeur” de 2004, “Um Homem Furioso” apresenta um elenco de estrelas que inclui Jason Statham, Holt McCallany, Jeffrey Donovan, Josh Hartnett, Niamh Algar, Laz Alonso, Scott Eastwood e Eddie Marsan. O filme é dirigido por Guy Ritchie a partir do argumento de Ivan Atkinson, Marn Davies e Guy Ritchie. Produzido por Bill Block e Atkinson.

Opinião por Artur Neves

A nota mais perfeita neste filme foi a escolha do protagonista, pois adequa-se na perfeição ao que Jason Statham nos tem transmitido ao longo de toda a sua carreira até agora e que constitui a sua imagem de marca. Frieza na acção, distanciamento face aos problemas, foco nos objetivos e calculismo em relação aos problemas.

“Um Homem Furioso” é a adaptação americana feita por Guy Ritchie do thriller francês “Le Convoyer” de 2004 a partir do argumento original de Nicolas Boukhrief e Éric Besnard mas que teve um destino semelhante a outras sequelas desenvolvidas por Guy Ritchie, tais como; “O Agente da U.N.C.L.E.” de 2015 ou “Rei Artur: A Lenda da Espada” de 2017, muito embora seja considerado como realizador preferencial em Hollywood e tenha assinado filmes que contrariam essa preferência injustificada.

Este “Um Homem Furioso” está mais ou menos dentro dessa linha porque apesar de ser um filme com muita acção, protagonizado por um ator que ele mesmo lançou com sucesso há uns 20 anos atrás e que desempenha neste filme um papel credível como durão e incorruptível entra por vezes em sequências em flashback demasiado longas, que são necessárias para a compreensão das motivações, note-se, mas transportam em si algum tédio porque são cenas já usadas anteriormente, vistas de outro ponto de vista que não o actual, não trazendo assim algo de novo.

Adicionalmente a isto, depois de cada evento significativo para o enredo, a história anda para trás e para a frente, avisando o espectador com referências como; “Cinco meses depois” ou “Cinco meses antes” provocando alguma confusão na interpretação dos factos que nos são apresentados, considerando que se trata de recontar episódios com cenas já vistas.

Como se pode esperar de um filme de ação, os diálogos não serão muito elaborados, mas neste caso não só o protagonista utiliza em todo um filme um humor taciturno de muito poucas palavras (“H” – Jason Statham, não se pode queixar de ter um grande papel a decorar) como também as piadas e conversas entre todos os elementos do grupo são grosseiras e de mau gosto. Pelo desenrolar da história nunca temos dúvidas que “H” vai cumprir o objetivo a que se propôs, tal é a previsibilidade do argumento em que “H” parece sempre estar onde não está, a desempenhar um papel secreto, enquanto transporta toneladas de dinheiro e investiga os seus colegas de trabalho sobre outras motivações e outras pessoas.

Salvam-se as cenas de luta contra os ladrões que tentam assaltar os carros de transporte de valores, que constituem a parte mais emocional do filme e as reações dos agentes de transporte face à frieza e eficiência de “H” que não vacila nem erra os tiros que utiliza no combate, todavia sugere-nos a pergunta; “onde é que eu já vi isto…” tal é o efeito repetição, a falta de paixão e a previsibilidade intrínseca da história. Seguramente Guy Ritchie já teve melhores dias e o facto de se ter afastado das suas origens de realizador independente para se render a Hollywood, está associado ao sentimento que esta história nos inspira em que apesar das movimentadas cenas e da ação intensa, não cativa.

Tem estreia prevista nas salas para 20 de Maio

Classificação: 5 numa escala de 10

 

13 de maio de 2021

Opinião – “Spiral, O Novo Capítulo de Saw” de Darren Lynn Bousman

Sinopse

Um sádico mentor desencadeia uma forma distorcida de justiça em Spiral, O Novo Capítulo de Saw. A trabalhar na retaguarda de um conceituado veterano da polícia (Samuel L. Jackson), o impetuoso detetive Ezekiel "Zeke" Banks (Chris Rock) e o seu novo colega (Max Minghella) ficam encarregues duma investigação sobre assassinatos que recordam, assustadoramente, atos horrendos ocorridos há muitos anos. Involuntariamente envolvido num mistério profundo, Zeke encontra-se no centro do jogo mórbido do assassino.

Opinião por Artur Neves

Os filmes “Saw” constituem uma saga de terror e suspense gerada em Hollywood pela mão de James Wan e Leigh Whannell produzida pela Lionsgate, cujo primeiro filme de 2004 (foi estreado em Portugal em 2005) com o nome de “Saw – Enigma Mortal” a que se seguiram seis sequelas até 2010 ao ritmo de uma por ano sempre numa vertigem gore que se pautou por uma sequência decrescente de qualidade no enredo, contrastado com o progressivo refinamento dos efeitos especiais e das mirabolantes ideias dos “castigos”… “desafios”… impostos às vítimas numa sanha justicialista com forte carácter de assassínio mórbido.

Na terceira sequela de 2006 “Saw – O Legado” mata-se o assassino original John Jigsaw (Tobin Bell) e o mundo tem o ensejo de pensar que seria o fim da saga. Erro crasso, a saga continua a produzir sequelas com narrativas esdruxulas para explicar como depois de morto o assassino e os seus aprendizes continuavam a torturar pessoas. Posteriormente em 2017 aparece ainda um último estertor com “Jigsaw – O Legado de Saw” e com o mesmo personagem demoníaco agora designado por John Kramer e interpretado pelo mesmo ator. Se a saga de “Saw” continuava a render então porque parar?...

Quero ainda deixar claro que o primeiro filme da saga constituiu uma novidade no seu enredo e na sua narrativa, considerando que os jogos de computador estavam ainda no seu início, a tecnologia era insuficiente para provocar as emoções que hoje consegue transmitir e assim a surpresa contida na história de Saw produzia os efeitos desejados para os mais corajosos que aceitavam o desafio e se empolgavam com os ardis criados pela mente perturbada e controversa de Jigsaw. Aliás a cena mais emblemática do 1º filme, um prisioneiro algemado a um tubo que só conseguirá libertar-se se serrar a própria perna com um serrote que lhe foi disponibilizado é repetida neste “Spiral – O Novo Capítulo de Saw” mas sem o efeito anterior, porque sem a inevitabilidade do acto a cena torna-se supérflua e passará despercebida aos espectadores de “primeira viagem” neste filme de 2021.

“Spiral, O Novo Capítulo de Saw” inverte os termos à ideia original e fabrica o suspense através de polícias que procuram descobrir o serial killer que concebe os assassínios punitivos. Em “Saw” o vilão intocável era Jigsaw para quem a polícia não passava de meros intervenientes secundários sem capacidade de intervenção contra a inteligência criativa do seu perpetrador. Contrariamente neste filme, aproxima-se a sua narrativa à de “Seven – 7 Pecados Mortais” de 1995, mas sem o brilho, a argúcia, a imaginação da narrativa perfeitamente lógica do assassino John Doe (Kevin Spacey), em transformar as vítimas em pecadores que morrem de acordo com o castigo para os seus pecados bíblicos, como mártires das suas fraquezas terrenas. “Spiral” não tem essa força, embora tenha o mérito de destacar o presumível conluio de corrupção e mau comportamento cívico e profissional das forças policiais regulares que vão sendo punidas sequencialmente com sofrimento e castigos tirados do catálogo de “Saw”, donde advém a sua referência a essa, esperemos, extinta saga.

Assim, ficamos com o 1º episódio de uma nova saga que começa por emparceirar o género policial numa esquadra com polícias corruptos e seguindo no género de terror que lhe deu origem, com armadilhas semelhantes mas mais sofisticadas que as anteriores, concebidas por um imitador de Jigsaw que se apresenta com uma máscara de porco e que obriga as suas vítimas a fazerem as escolhas que selam o seu destino. A razão das mortes faz parte do enredo da história, todavia sem uma razão convincente para reivindicar o culto de Jigsaw podendo concluir-se ser a Lionsgate a querer fazer renascer o “Saw” na espectativa de reativar o filão anterior. Para mim seria mais produtivo a reinicialização do género com um personagem totalmente novo mas eles é que sabem.

No original, Jigsaw sempre afirmou nunca ter matado ninguém e os seus jogos serem apenas uma maneira de ensinar às pessoas o sentido da vida enquanto a possuímos e podemos agir. Em “Spiral”, ao combater a corrupção policial através do incorruptível Zeke Banks (Chris Rock) esbatem-se os dilemas morais que distinguiram os melhores dois filmes da saga anterior; “Saw I” e “Saw II”, todavia um revivalismo duma história com estes contornos poderia ainda ser pior.

Estreia nas salas de cinema em 12 de Maio

Classificação: 5 numa escala de 10

 

3 de dezembro de 2020

Opinião – “Upsss! 2 – A Aventura Continua” de Toby Genkel, Sean McCormack

Sinopse

A Arca de Noé está navegando no alto mar há semanas e os géneros alimentares estão lentamente acabando. O jovem Nestrian Finny e sua melhor amiga Leah, uma Grymp, acidentalmente caem da arca e são arrastados para o mar. Finny encontra uma colónia inteira de Nestrians debaixo de água, Leah chega a uma bela ilha povoada por seres estranhos mas igualmente estranhamente familiares que vivem em harmonia, embora sob a ameaça de um vulcão ameaçador. Depois de se reencontrarem, os nossos corajosos jovens mais uma vez passam por muitas aventuras emocionantes para tentar salvar todos os animais da arca.

Opinião por Artur Neves

Este filme é a continuação de “Upsss! Lá Se Foi a Arca de 2015 que constituiu a produção Alemã de maior sucesso comercial em 2016 com uma receita de bilheteira à escala global de cerca de €25 milhões. A continuação da aventura em curso pretende atingir valores semelhantes embora o ambiente pandémico que nos rodeia, com todos os constrangimentos infligidos aos espetáculos e muito particularmente ao cinema, constitua um sério entrave a estes desígnios.

Tal como descrito na sinopse, os conflitos dentro da arca começam a surgir devido à escassez de alimentos que faz ressurgir a rivalidade entre carnívoros e herbívoros, aumentando as tensões a bordo e fazendo surgir diversos conflitos que se vão resolvendo com a magia dos meios computacionais de animação que conseguem cativar completamente o público infantil a quem se dirigem.

O argumento mistura diferentes histórias clássicas que se mais novos não as conhecerem no original vão assumi-las como inéditas, o que não é um mal em si mesmo, porque para o público alvo constituirá motivo de encantamento e de recordação que serão acertadas no futuro. Para já, o importante é a diversão e o envolvimento com uma história sempre apresentada pelo lado positivo, com uma animação suave e mais atraente do que o seu antecessor.

Se for possível vê-la em 3D então o espetáculo será mais imersivo e a diversão mais completa. É o perfeito filme de Natal que permitirá uma sã distensão ao stress escolar deste primeiro período. O público infantil agradecerá.

Classificação: 6 numa escala de 10

 

4 de novembro de 2020

Opinião – “Até às Estrelas” de Martha Stephens

Sinopse

No ambiente fechado e opressivo de uma pequena cidade do Oklahoma, durante os anos de 1960, a jovem filha de um casal de agricultores inicia uma amizade íntima com outra rapariga.

Opinião por Artur Neves

Com uma sinopse tão concisa e redutora quase que pode pensar-se que o filme veicula um manancial de erotismo lésbico, mas nada disso e muito pelo contrário a história deste filme mostra-nos com considerável rigor como era a vida social na zona rural da pequena cidade americana de Oklahoma no início da década de 1960, onde as convenções religiosas e a moral cristã convencional da época motiva as suas atenções, nos vestidos, nos penteados, no visual da saia lápis dos anos 50, generalizadamente em uso nas senhoras da terra, de vida simples, cuja principal atenção é para a fofoca e para a crítica social do vizinho, justificadamente ou não.

A família central da história é o casal Deerborne, constituída pela mãe Francie (Jordana Spiro) ocasionalmente acompanhada de outras mulheres, mas sempre de um copo com whisky que beberrica durante a solidão do seu dia, o pai Hank Deerborne (Shea Whigham) de feitio compassivo embora por vezes se mostre agressivo, mais por formatação ao ambiente que o cerca do que por convicção e Iris Deerborne (Kara Hayward) a filha de temperamento solitário e objeto de bulling no colégio pela sua postura preferencialmente isolada, óculos de aros grossos e pela sua luta constante contra a incontinência urinária, facilmente detetável pelos colegas através do cheiro que dela emana.

Iris vive com intensidade a sua vida interior de solidão, sonha com os seus desejos de futuro e foge á noite para o lago perto de sua casa onde boia sobre as águas enquanto perscruta as estrelas, confiante que o facto de ter havido um afogamento recente de uma jovem, afasta as pessoas daquele local onde ela pode sentir-se mais livre, senhora de si e dos seus pensamentos.

A sua deslocação para a escola, a pé, pela estrada de terra batida é sempre um sacrifício agravado pelos colegas que passam de carro, metem-se com ela e seguem sem lhe dar boleia. Esta saga diária é alterada com a chegada de Maggie Richmond (Liana Liberato), uma rapariga mais velha, vinda da cidade por motivo da profissão do seu pai, mais madura, conhecedora de outro tipo de relações sociais que rapidamente se faz amiga dela, sendo correspondida por Iris que vê nela o apoio que faltava para vencer a sua solidão.

O contacto inicial não é fácil, Maggie não é verdadeira em todas as revelações que divulga, criando uma aura em torno de si que esconde uma vida privada sombria e uma relação difícil com o pai Gerald (Tony Hale), um homem normalmente zangado, documentarista de profissão que foi destacado para Oklahoma com o objetivo de produzir o retrato de uma pequena cidade da América.

Com estes elementos interagindo entre si a história desenvolve-se como num sonho que inclui detalhes de uma vida bem real nem sempre favorável a todos os protagonistas. A fotografia a cargo de Andrew Reed torna autêntico o universo da história, constrói com segurança as imagens desgastadas pelo passado tornando o filme numa parábola de tolerância escolar que contrasta com a violência social dos espíritos cristãos, ofendidos pela descoberta da tendência desviante de Maggie por Hazel (Adelaide Clemens), a cabeleireira da cidade, lésbica envergonhada que usa a fotografia do irmão falecido como marido, para justificar a sua situação de viúva celibatária.

Toda a história decorre lentamente, naquela cidade profundamente conservadora, mostrando ao espectador o porquê daquela relação LGBTQ de uma garota jovem, bonita, inteligente e igualmente misteriosa e gay na sua opção sexual, descrevendo o seu passado por si mesma e pelos olhos bondosos da desajeitada Iris que a toma como modelo para um personagem que só existe nos seus pensamentos. A partir de certa altura o filme “cai” para o melodramático o que todavia não lhe fica mal, considerando que se passa na província em 1960, iniciando também uma viragem para algo mais atual, embora sombrio, que significa uma mudança de conceito na utilização do género individual com que nascemos. Muito interessante, estreia em 12 de Novembro.

Classificação: 6 numa escala de 10

 

23 de outubro de 2020

Opinião – “Um Último Golpe” de Mark Williams

Sinopse

Um assaltante de bancos decide mudar de vida e tornar-se numa pessoa honesta a partir do momento em que se apaixona por uma mulher que trabalha numa instalação de armazenamento, um lugar onde ele esconde todo o dinheiro que rouba. Mas fica cada vez mais difícil limpar o seu nome quando passa a ser investigado por um agente do FBI, corrupto.

Opinião por Artur Neves

Liam Neeson, o protagonista deste filme começou a trabalhar em 1978 e apresenta um curriculum diversificado de temas em que tem entrado, mas só se fez notado no seu primeiro “Taken” em 2008 e nas sequelas subsequentes de 2012 e 2014 em que criou uma figura de justiceiro independente para se substituir ao papel da polícia tradicionalmente ineficiente em histórias de crime. Em boa verdade o personagem criado não era muito convincente considerando que as características físicas do ator não eram as mais adequadas para o representar. Digamos para rematar que não se parece a um Charles Bronson, que era como mosca no mel para personagens do tipo vigilante.

Mas como encontrou o sucesso desta maneira há que continuar no tema, introduzindo as necessárias adaptações ao personagem, como em; "The Commuter – O Passageiro" de 2018, bem como o encontramos nesta história como um assaltantes de bancos maravilha (que no filme ele explica quais as motivações que o enredaram nessa vida) arrependido, que quer devolver o produto dos assaltos para poder viver em paz com a mulher da sua vida, encontrada acidentalmente num encontro fortuito.

Sem querer questionar as motivações de Tom Carter (Liam Neeson) não me posso esquecer de “ O Cavalheiro com Arma” de 2018, em que Robert Redford desempenhava um personagem mais credível e completo numa história parecida, de arrependimento e redenção em nome do amor.

Assim o que temos é um thriller de ação… pacato, com movimentação mais sugerida do que vista, que inclui um romance com uma mulher e um caso de corrupção na polícia desmascarado pelo nosso herói, à custa da morte de homens bons que ficam como danos colaterais, decorrentes da tentativa de auto justicialismo decidida por Tom.

Liam Neeson tem atualmente 68 anos e convenhamos, já não é para aquela idade andar à bulha com homens de 34, como Jai Courtney, e Anthony Ramos de 29, que interpretam os dois polícias corruptos Nivens e Hall respetivamente, numa história que não sendo muito rica em enredo é algo compensada pelo desenvolvimento do personagem desempenhado por Neeson, onde um homem atormentado pela sua culpa e pela incerteza sobre a sua decisão, caminha por ruas vazias e hotéis vazios que nos transmitem uma austeridade de meios pouco habitual em filmes americanos de ação. Pelo contrário Annie (Kate Walsh) respira alegria e atividade apesar de estar a passar por um divórcio que lhe trocou as voltas pensadas para a sua vida e vai agravar-se na sua ligação com Tom, num romance que cresce ao longo do filme.

Tom Carter pode ser classificado como um guerreiro em fim de ciclo, que no fundo não destoa do ator Liam Neeson, podendo continuar por este caminho, valorizando a sua graça melancólica em personagens mais sedutores e recatados e menos em histórias de ação onde já não se acredita em muitos dos factos que nos querem mostrar. Pelo menos durante 100 minutos não se pensa na Covid-19 e isso já pode constituir uma mais valia. Estreia nas salas em 29 de Outubro.

Classificação: 5,5 numa escala de 10

 

15 de outubro de 2020

Opinião – “Mulheres ao Poder” de Philippa Lowthorpe

Sinopse

História verídica da interrupção do concurso de Miss Mundo, em 1970, pelo crescente Movimento de Libertação das Mulheres, um evento que foi notícia principal em todo o mundo. Durante um dos programas de televisão mais populares do planeta, assistido por 100 milhões de espectadores, o Libbers interrompe a transmissão afirmando que concursos de beleza infamam as mulheres. Assim, da noite para o dia, o Movimento ganha fama… e quando a ordem é restaurada a escolha da vencedora provoca um novo rebuliço. Não é a favorita sueca, mas sim a Miss Grenada, a primeira mulher negra a ser coroada Miss Mundo. Em questão de horas, uma audiência global testemunhou a expulsão do patriarcado do palco e o derrube do ideal ocidental de beleza.

Opinião por Artur Neves

Não posso deixar de iniciar esta crónica sem comentar o título que foi atribuído em Portugal a este filme, que sugere tratar-se de uma assunção de conflito, ou de domínio das mulheres sobre os homens, quando afinal não se trata de nada disso, mas tão somente da teatralização de um evento real acontecido no concurso de Miss Mundo em 1970, quando um grupo de mulheres organizadas assume uma atitude de “Mau Comportamento” ("Misbehavior",no título original) para os parâmetros comportamentais femininos na época. É mais um exemplo de distorção de contexto na atribuição de títulos de filmes em Portugal.

Posto isto, e tal como a sinopse reporta o filme conta-nos a história baseada em factos e personagens reais de como um grupo de mulheres organizadas, impugnou um concurso mundial de beleza feminina, que na opinião delas, objetivava as mulheres, comparando-as pelos seus atributos físicos e sexistas, de modo semelhante às avaliações de qualidade dos potenciais compradores numa “feira de gado”.

Esta opinião reúne atualmente um largo consenso, mas durante a primeira metade do século XX, os concursos de beleza foram apoiados e defendidos pelas entidades oficiais e pelos mídia como uma promoção da beleza feminina, sendo expressamente incluída a exibição de costas para a câmara, para que o público pudesse escrutinar as formas mais ou menos rotundas das meninas em bikini, com total aderência dos juízes e do publico presente no Royal Albert Hall de Londres, apresentado por um Bob Hope, (representado por Greg Kinnear) armado com um pacote de piadas cafonas, maliciosas e ridículas, mas completamente aceite e elogiado na época. No filme, o “boneco” nem está muito bem construído e a representação fica-se entre a imitação imperfeita e a caracterização incompleta, mas para o que é, serve.

Em 1970, embora lentamente, as coisas já começavam a mudar e para dignificar a prestação das debutantes, a organização promoveu o acompanhamento permanente das Miss em concurso por uma acompanhante cuja missão era fazê-las refletir sobre o concurso em si e sobre as mudanças que a participação naquele evento iria introduzir nas suas vidas, bem como a inclusão de duas Miss negras; Miss Granada (Gugu Mbatha-Raw) e Miss África do Sul (Loreece Harrison), como que a demonstrar a universalidade da competição, mas sem considerar a diferença de conceito que o concurso significava para raparigas de culturas tão diferentes da europeia, constituindo uma “emenda pior que o soneto”.

As manifestantes, encabeçadas por Jo Robinson (Jessie Buckley) uma ruiva irreverente e destemida, coadjuvada pela intelectual Sally Alexander (Keira Knightley) que nos primeiros contactos não compreendem a semelhança de objetivos, embora por caminhos diferentes, infiltram-se no espetáculo com o grupo de aderentes ao movimento, no propósito de exibir cartazes de protesto, e ruídos que perturbam a normal exibição do evento, embora este consiga terminar tal como esperado, com a indicação da vencedora surpresa para os 100 milhões de espectadores espalhados pelo mundo.

A causa do protesto é válida e embora algumas manifestantes sejam detidas não se tiram daí consequências sérias para as protagonistas e o filme consegue mostrar com realismo o desespero e a frustração das mulheres envolvidas no protesto, através das suas conversas sobre a revolução que apenas iniciaram e que deve continuar para atingirem os seus justos objetivos.

As performances estão em bom nível e só se lamenta que a esposa de Bob Hope, Dolores (Lesley Manville) tenha sido tão pouco utilizada, menorizada mesmo, quando personifica um elemento que dentro da organização já não apoia o evento com o entusiasmo dos primeiros tempos, tendo começado a sua luta separatista individual.

É um documento decisivo na história do movimento feminista a que vale a pena assistir para formação e conhecimento dos factos. Em exibição nos cinemas da NOS.

Classificação: 6 numa escala de 10