28 de outubro de 2020

Opinião – “A Maldição de Larry” de Jacob Chase

Sinopse

Oliver (Azhy Robertson) é um rapaz solitário que se sente diferente de toda a gente. Desesperado para arranjar um amigo, procura consolo e refúgio no telemóvel e no tablet que nunca larga. Quando uma misteriosa criatura utiliza os dispositivos de Oliver contra ele, para conseguir entrar no nosso mundo, os pais de Oliver (Gillian Jacobs e John Gallagher Jr.) têm de lutar para salvar o filho do monstro por trás dos ecrãs.

Opinião por Artur Neves

Ao vermos no genérico de abertura do filme o nome “Amblin”, a produtora criada por Steven Spielberg, podemos logo inferir que se trata de terror no seio de um drama familiar para construir uma parábola parental, confirmada logo nos primeiros instantes em que Oliver (Azhy Robertson), acorda no seu quarto e desloca-se à cozinha para beber água e observa a mãe a dormir sozinha na cama, no quarto ao lado do seu e no piso inferior o pai a dormir no sofá. É uma segura referência de que Spielberg andou a mexer os cordelinhos no sentimentalismo do drama familiar, do lar desfeito ou em degradação, tão ao gosto da população suburbana americana que imortalizou o terror de Poltergeist.

Desta vez porém a evolução tecnológica permite trocar o ecrã da televisão pelo smartphone ou pelo tablet, em que ao toque de um dedo surge o desengonçado ser desumano; Larry que procura um amigo, que procura o convívio com outras pessoas porque se sente muito só no mundo virtual em que habita.

É a partir daqui que Jacob Chase, realizador americano e também argumentista de uma curta metragem; “Larry” de 2017, expande o conceito e se estreia nesta longa metragem cujo título em português objetiva a história para o monstro, em vez de a direcionar para Oliver, um menino com uma deficiência profunda no espetro do autismo e perturbações na voz, não conseguindo articular palavras inteligíveis, o que lhe provocam solidão, afastamento dos seus colegas na escola e motivo de bulling da classe pelas suas dificuldades em aprender.

Para comunicar, Oliver serve-se de um programa instalado no smartphone, e no tablet que pronuncia as palavras que ele quer dizer ao toque de um dedo e assim entra em contacto com Larry que se revela no mundo virtual pedindo-lhe para jogar com ele (“Came Play”, no original). Larry não é maldito, é apenas desengonçado, feio, segundo os padrões normais e quer companhia, surgindo como alter ego de Oliver que sofre o afastamento dos seus colegas e os descuidos da mãe, que ao esquecer-se temporariamente da sua condição lhe pede coisas a que ele não pode corresponder.

O casal, Sarah (Gillian Jacobs) e Marty (John Gallagher Jr.), culpa-se mutuamente do não reconhecimento atempado da deficiência do seu filho Oliver e frequentemente discute causando maior sofrimento a Oliver que não os pode ouvir a discutir. Sarah sofre o facto de Oliver nunca a olhar nos olhos, tomando isso como prova do seu fracasso como mãe. Marty tem vários empregos com o objetivo de suprir as necessidades de Oliver que se sente sempre só. Este ambiente, tornando-os a todos uma família disfuncional, propicia a entrada de Larry que sobrevive como expressão da falta de tolerância, de compreensão e da solidão.

Todavia Jacob Chase comprometeu-se fazer um filme de terror, pelo que tem de construir truques de curta distancia que causem susto, iluminação interruptível sem motivo aparente, eventos somente visíveis através da câmara do tablet, sombras suspeitas no parque de estacionamento onde o Marty trabalha de noite, tempestades súbitas atravessadas por raios que revelam ameaças e produzem sons assustadores, bem como, todo o manancial de artifícios que causam expectativa e surpresa para construir o suspense. É a indústria cinematográfica a funcionar, não podemos levar a mal e até conseguem transformar Larry num maldito quando ele apenas quer companhia para não se sentir tão só, tal como o desejo de Oliver em construir uma amizade genuína para não sentir a solidão.

Em época de Halloween, qualquer susto fica bem e Chase sabe como construí-lo com eficácia, muito embora com este tema e para uma produção Amblin, que normalmente puxa para o coração, o final apresenta-se razoavelmente sombrio.

Classificação: 6 numa escala de 10

 

27 de outubro de 2020

Opinião – “As Bruxas de Roald Dahl” de Robert Zemeckis

Sinopse

O realizador Robert Zemeckis reimagina a adorada obra de Dahl para um público moderno. A sua visão inovadora conta a história emocionante e humoristicamente sombria de um jovem órfão (Bruno) que em 1967, vai viver com a sua Avó (Spencer) numa cidade rural do Alabama, Demopolis. Quando o rapaz e a Avó encontram umas bruxas encantadoras, mas diabolicamente traiçoeiras, a avó decide levar o neto para um luxuoso resort à beira-mar. Infelizmente, estes chegam exatamente na mesma altura em que a Grande Bruxa-Mor (Hathaway) decide reunir-se com todas as suas amigas bruxas – disfarçadas – para executar os seus abomináveis planos.

Opinião por Artur Neves

The Witches (As Bruxas) no seu nome original é um romance de fantasia infantil do escritor britânico Roald Dahl. Foi publicado originalmente em 1983 pela Jonathan Cape em Londres. A história passa-se em parte na Noruega e em parte no Reino Unido, mas Zemeckis recentra-as nos USA, mais precisamente no estado do Alabama, apresentando as experiências de um jovem rapaz e sua avó num mundo onde bruxas malvadas que odeiam crianças existem secretamente. Este filme é um remake de outro como o mesmo nome dirigido por Nicolas Roeg em 1990 e que não acrescenta nada de significativo à história, exceto os meios mais avançados de tecnologia digital disponível.

A história passa-se em 1967 e começa pelo trágico desastre rodoviário que motivou a morte dos pais do jovem protagonista Hero Boy (Jahzir Bruno) que depois de ficar órfão é entregue aos cuidados da sua avó Grandma (Octavia Spencer, que continua com excelentes desempenhos em todos os papeis em que participa) que vive na pequena cidade rural Demopolis no Alabama.

Grandma, para lá de ser carinhosa e cuidadora atenciosa do seu neto, reúne um conjunto de conhecimentos sobre plantas e mezinhas caseiras herdado da sua avó que a potenciam como adversária das bruxas, que ela ensina ao neto que existem e que possuem um ódio visceral aos miúdos, a todos os miúdos do mundo, tentando transformá-los em ratos, considerando que o cheiro a bebés, ou a miúdos lavados, as perturbam profundamente.

É ainda sem este conhecimento que o neto tem o seu primeiro encontro com uma bruxa, que ela reconhece depois de ele lhe contar os receios que sentiu com a presença da tal mulher. Para segurança do neto ela prefere ir viver temporariamente para um hotel, sem saber que precisamente naquele local está a organizar-se uma convenção de bruxas, presidida pela Grande Bruxa-Mor (Anne Hathaway) com o objetivo de estabelecerem o plano para transformar todos os miúdos do mundo em ratos.

Claro que o neto ao seu cuidado é descoberto pelas bruxas e transformado em rato o que a obriga a intervir com os seus conhecimentos druídicos, todavia sem sucesso para bruxas tão poderosas, numa batalha onde se utilizam os sofisticados meios técnicos do cinema moderno para transformar a ficção em realidade visível aos nossos olhos, sendo por aqui que o filme tem a sua mais valia como entretenimento, especialmente para os mais jovens, numa altura do ano em que, sucumbindo à cultura americana começa regularmente a festejar-se por cá o dia do Halloween.

Não se pode negar que o filme reúne uma produção cinematográfica extraordinária e contém desempenhos de excelência, onde podemos ver Stanley Tucci no papel de diretor do hotel, já recuperado da grave doença que o atingiu. Oportunamente, o filme tem estreia prevista para a véspera do dia de finados, em 29 de Outubro e constitui uma diversão agradável para toda a família.

Classificação: 5 numa escala de 10

 

23 de outubro de 2020

Opinião – “Um Último Golpe” de Mark Williams

Sinopse

Um assaltante de bancos decide mudar de vida e tornar-se numa pessoa honesta a partir do momento em que se apaixona por uma mulher que trabalha numa instalação de armazenamento, um lugar onde ele esconde todo o dinheiro que rouba. Mas fica cada vez mais difícil limpar o seu nome quando passa a ser investigado por um agente do FBI, corrupto.

Opinião por Artur Neves

Liam Neeson, o protagonista deste filme começou a trabalhar em 1978 e apresenta um curriculum diversificado de temas em que tem entrado, mas só se fez notado no seu primeiro “Taken” em 2008 e nas sequelas subsequentes de 2012 e 2014 em que criou uma figura de justiceiro independente para se substituir ao papel da polícia tradicionalmente ineficiente em histórias de crime. Em boa verdade o personagem criado não era muito convincente considerando que as características físicas do ator não eram as mais adequadas para o representar. Digamos para rematar que não se parece a um Charles Bronson, que era como mosca no mel para personagens do tipo vigilante.

Mas como encontrou o sucesso desta maneira há que continuar no tema, introduzindo as necessárias adaptações ao personagem, como em; "The Commuter – O Passageiro" de 2018, bem como o encontramos nesta história como um assaltantes de bancos maravilha (que no filme ele explica quais as motivações que o enredaram nessa vida) arrependido, que quer devolver o produto dos assaltos para poder viver em paz com a mulher da sua vida, encontrada acidentalmente num encontro fortuito.

Sem querer questionar as motivações de Tom Carter (Liam Neeson) não me posso esquecer de “ O Cavalheiro com Arma” de 2018, em que Robert Redford desempenhava um personagem mais credível e completo numa história parecida, de arrependimento e redenção em nome do amor.

Assim o que temos é um thriller de ação… pacato, com movimentação mais sugerida do que vista, que inclui um romance com uma mulher e um caso de corrupção na polícia desmascarado pelo nosso herói, à custa da morte de homens bons que ficam como danos colaterais, decorrentes da tentativa de auto justicialismo decidida por Tom.

Liam Neeson tem atualmente 68 anos e convenhamos, já não é para aquela idade andar à bulha com homens de 34, como Jai Courtney, e Anthony Ramos de 29, que interpretam os dois polícias corruptos Nivens e Hall respetivamente, numa história que não sendo muito rica em enredo é algo compensada pelo desenvolvimento do personagem desempenhado por Neeson, onde um homem atormentado pela sua culpa e pela incerteza sobre a sua decisão, caminha por ruas vazias e hotéis vazios que nos transmitem uma austeridade de meios pouco habitual em filmes americanos de ação. Pelo contrário Annie (Kate Walsh) respira alegria e atividade apesar de estar a passar por um divórcio que lhe trocou as voltas pensadas para a sua vida e vai agravar-se na sua ligação com Tom, num romance que cresce ao longo do filme.

Tom Carter pode ser classificado como um guerreiro em fim de ciclo, que no fundo não destoa do ator Liam Neeson, podendo continuar por este caminho, valorizando a sua graça melancólica em personagens mais sedutores e recatados e menos em histórias de ação onde já não se acredita em muitos dos factos que nos querem mostrar. Pelo menos durante 100 minutos não se pensa na Covid-19 e isso já pode constituir uma mais valia. Estreia nas salas em 29 de Outubro.

Classificação: 5,5 numa escala de 10

 

21 de outubro de 2020

Opinião – “Notre Dame de Paris” de Valérie Donzelli

Sinopse

Maud Crayon, uma arquitecta falhada e mãe solteira, com um ex-marido fraco e ainda demasiado presente na sua vida, sonha com um milagre que mude esta realidade. E é então que ganha o concurso para a renovação do adro da catedral de Notre Dame de Paris.E reencontra o charmoso ex-namorado, Bacchus. Terá que revelar os seus sentimentos a ambos os ex-companheiros para poder viver feliz para sempre.

Opinião por Artur Neves

Como sempre o cinema francês apresenta-se bem posicionado na análise social e traz-nos aqui uma história que só peca por introduzir fantasia a mais, num enredo que poderia ser mais escorreito e credível sem ela, considerando que as cenas fantásticas só desviam o espectador do tema principal que se reporta ao amor vivido em relação aberta.

Maud Crayon (Valérie Donzelli) é uma arquiteta (falhada só mesmo na opinião da sinopse), mãe lutadora para providenciar a casa e a educação dos seus filhos, divorciada de coração mole, que ainda atura o pária do seu ex-marido Martial (Thomas Scimeca) que tudo faz para continuar a viver à sua custa nos intervalos em que a sua amante o expulsa de casa. Ele, sem lugar onda cair morto, recorre à piedade de Maud para dormir na casa dela, com ela na cama (porque Martial, dorme mal no sofá) fazer sexo ocasional e consentido com ela, ao ponto de a engravidar na fase mais importante da sua vida profissional.

No atelier onde trabalha recebe a informação que o projeto que lhe está entregue foi descontinuado e o oportunista do patrão quase a despede. Constrangida com a situação mas apegada à sua obra, leva para casa a maquete do seu trabalho. Simultaneamente está a decorrer um concurso para o desenvolvimento arquitetónico da praça fronteiriça à catedral de Notre Dame que interessa a todos os arquitetos, ela incluída, mas ao qual não concorre por absoluta falta de tempo com todos os outros afazeres a seu cargo.

Valérie Donzelli, a realizadora francesa e protagonista, poderia ter utilizado múltiplos expedientes no enredo, para incluir no concurso da catedral de Notre Dame a maquete feita para o anterior projeto por Maud Crayon, mas escolheu (vá lá saber-se porquê) uma fantasista viagem da maqueta levada pelo vento e depositada docemente no local de recolha das propostas concorrentes. Quando o concurso foi apreciado, foi precisamente o projeto de Maud que foi escolhido, como aliás já todos estava-mos à espera. O público sabe que está em presença de uma ficção, não é necessário atirar-lhe também com uma fantasia (bem como com outras que se seguem mais à frente) que só desqualificam as piadas subtis e as críticas sociais incluídas na história que até aqui, se apresentava dentro de padrões regulares.

Na sequência da sua vitória ela encontra Bacchus Renard (Pierre Deladonchamps) jornalista de profissão, destacado para cobrir a cerimónia da entrega do projeto, por quem Maud nutria uma carinho especial por ter sido o seu primeiro amor dos tempos de escola e correspondido por este, sem que alguma vez tivessem declarado as suas mútuas inclinações. A partir daqui o triângulo de Maud fica completo com o amor de sempre e o pesadelo atual do seu ex-marido que ela não consegue largar por ser o pai dos seus filhos e lhe ter feito outro que já vem a caminho no interior do seu ventre.

Em sequência a história desenvolve-se no dilema do amor dual, ou outro sentimento que se lhe queiram chamar, gerando situações confusas em que esta dualidade se apresenta com avanços e recuos, mas onde a problemática das relações abertas fica bem exposta à consideração dos espectadores. A concretização material do projeto da praça também conduz a cenas divertidas, com piadas de cariz sexual que nos fazem sorrir.

Valérie Donzelli não defende a bigamia, nada na história a isso nos conduz, mas ao promover o amor platónico com Bacchus e uma piedosa complacência na coabitação com Martial, parece querer abraçar dois mundos incompatíveis e impróprios, não somente pela substancia das relações em si mesmas, como pelo modo de utilização da fantasia para abordar ambos os temas retirando-lhe profundidade e seriedade na análise duma situação invulgar mas hipoteticamente possível. Adicionalmente a realizadora introduz ainda elementos periféricos à história desgarrados do tema fulcral, bem como, a propensão de todos namorarem com todos tornando o argumento disperso e multivariado.

No final, Maud transporta Bacchus na sua bicicleta voadora sobre a catedral, fazendo lembrar o regresso de ET ao seu planeta distante, mas isso foi em 1982 e noutro contexto muito diferente. Este filme estreou no Festival de Locarno e vai estrear nas nossas salas em 29 de Outubro. Tem boas piadas e uma mensagem subtil, para a qual vai a classificação a seguir.

Classificação: 5 numa escala de 10

 

20 de outubro de 2020

Opinião – “Bangla” de Phaim Bhuiyan

Sinopse

Escrito, realizado e protagonizado por Phaim Bhuiyan, é uma obra ficcional inspirada na vida do realizador e tem sido comparada ao trabalho de Nanni Moretti pelo seu tom mais irreverente. Bangla é uma primeira obra divertida e encantadora sobre integração e identidade.

Opinião por Artur Neves

Phaim Bhuiyan é neste seu primeiro trabalho de longa metragem, um completo “One Man Show”, considerando que além de realizar e protagonizar o filme, também escreveu o argumento com base na sua experiencia pessoal e completa o quadro, como narrador das motivações da história, bem como, das suas próprias reflexões sobre os eventos que nos vai mostrando, olhando-nos nos olhos sem reservas, a nós espectadores.

É um claro trabalho de baixo orçamento mas que não deixa de levantar questões sociais conflituantes que até ao presente não tiveram resposta absoluta, nem foram objeto de um debate sério. A questão de fundo que ele coloca no filme pode formular-se assim: Será curial e correto que a segunda geração dos emigrantes num qualquer país de acolhimento, seja obrigada a seguir e praticar a religião e a tradição dos seu progenitores?... ou deverá aderir à cultura do país onde nasceu, cresceu, vive e lhe proporciona um local de trabalho e perspetivas de futuro?...

Uma resposta apressada pode indicar que lhe cabe a ele decidir, mas tal como mostra esta história, a influência familiar, as instituições instaladas na comunidade e até o lugar onde vive, no meio de outros emigrantes seus semelhantes, constituem um significativo lastro a vencer para conseguir essa emancipação, até mesmo no caso de Phaim, que conscientemente questiona essas práticas e reflete sobre elas.

Phaim trabalha como vigilante num museu, constituiu uma banda que toca música do Bangladesh em festas e casamentos, frequenta a mesquita, não come carne de porco nem bebe álcool, mas caiu fulminantemente de amores por uma italiana, Asia (Carlotta Antonelli) bonita, desembaraçada, autónoma e progressista em termos de relacionamento amoroso, que esbarra na resistência de Phaim em seguir os seus impulsos à revelia da submissão à sua religião e às tradições dos seus pais.

Este relacionamento traz-lhe constrangimentos vários com a sua comunidade que ele não enjeita, dirime-os com graça em termos de comédia e tenta resolvê-los com um amigo que vende droga num banco de jardim e com os concelhos que procura junto do mullah da sua mesquita, o qual vimos a saber ter mais problemas do que ele nesta área dos sentimentos.

Dos pais, não obtém mais do que a intransigência da mãe, profundamente agarrada à tradição, o desinteresse do pai que vive alheado nas sua memórias e a competição da irmã mais velha, também a braços com problemas semelhantes mas que só podem ser abordados de outro ponto de vista por ser mulher.

A abordagem está engraçada, bem contada, maioritariamente de câmara na mão, tendo sido vencedor do Prémio do Público na última edição em 2019, da Festa do Cinema Italiano. Vai estrear em sala no próximo dia 22 de Outubro. Interessante.

Classificação: 6 numa escala de 10

 

16 de outubro de 2020

Opinião – “Bill & Ted Salvam o Universo” de Dean Parisot

Sinopse

Em todas as suas atribuladas viagens no tempo, nunca a dupla formada por Theodore "Ted" Logan (Keanu Reeves) e William "Bill" S. Preston (Alex Winter) teve tanto em jogo. Ainda com o seu destino como estrelas de Rock and Roll por cumprir, os dois amigos embarcam numa nova aventura quando uma visitante do futuro os avisa que só a música deles poderá salvar o universo tal como o conhecemos. Durante o caminho, vão ter a ajuda das filhas, de um novo conjunto de personagens históricas e de algumas lendas da música, na busca de uma canção que vai endireitar o mundo e trazer harmonia ao universo.

Opinião por Artur Neves

O presente filme continua a série, 30 anos depois, de; “A Fantástica Aventura de Bill e Ted” de 1989, em que sumariamente pode dizer-se que conta a história absurda de dois adolescentes (os mesmo de agora mas mais novos) aparentemente estúpidos, que partem em busca de elementos existentes no universo, com a ajuda de uma máquina do tempo instalada numa cabine telefónica, que lhes permita preparar a apresentação da história definitiva do universo.

Não satisfeitos com isso, voltaram à carga em 1991 com; “Bill e Ted no outro Mundo” contando outra história absurda de como um tirano com quem se cruzaram no futuro, no anterior filme, criou dois androides duplos de Bill e Ted e os enviou para o passado para eliminarem os Bill e Ted originais, que tinham entrado em conflito com ele.

Deve custar ao leitor que estas histórias possam ter continuação, mas tiveram, e em 2020 aparece este filme, cuja história está descrita na sinopse, em que Bill e Ted estão de volta como dois canastrões em crise de meia idade, como estrelas de rock falhadas que pudessem escrever uma música para unir o mundo numa paz duradoura. É-lhes concedido um tempo pré determinado para a composição, sob pena de colisão entre o passado e o futuro que fará colapsar o mundo.

Curiosamente estas barbaridades novelistas tiveram os seus fans no passado e provavelmente ainda hoje os têm, embora mais velhos, mas ainda com capacidade de se embevecerem com a loucura das suas aventuras em contraste com a lentidão com que os seus heróis se entregam a elas, mas em consciência, esta fórmula não funciona bem por ser demasiado esdrúxula.

Bill e Ted não mudaram nada desde a última vez que os enterrámos no século passado e é estranho ver Keanu Reeves, (Ted) mais conhecido pelas novas gerações como Neo, em “Matrix” ou mais recentemente como John Wick, do que regressar a mais um remake sem justificação para ter acontecido. Outro tanto não digo de Alex Winter, (Bill) que se tem dedicado a realizar documentários e series para a televisão, desconhecendo o que o levou a protagonizar este tão completo desconchavo cinematográfico. Nostalgia?... talvez!...

O argumento tenta atualizar a história introduzindo um robot inenarrável, mas a sua aparição só acentua ainda mais a falta de senso, com um enredo irrelevante que durante 90 minutos anda entre o presente, o passado e o futuro através da cabine telefónica de 1989 sem mudarem a sua essência nem o seu comportamento, desde que os deixámos cristalizados em 1991. A história é confusa levando-nos repetidamente para trás e para a frente no tempo ao encontro de Jimi hendrix em Londres em 1967, Louis Armstrong em 1922 em Nova Orleãs e Mozart em 1782 em Viena, para ajudarem a compor a tal música que há de unir o universo, interpretada por dois fracassados forçados a tocar com a sua banda em bares anónimos a dois dólares por noite.

Mesmo no aspeto formal detetam-se defeitos. Bill e Ted têm filhas; Billie (Brigette Lundy-Paine) e Thea (Samara Weaving) respetivamente, que parecem ter a idade das suas mães, pois estas não envelheceram desde 1991, denotando uma falha de caracterização a juntar a outras fragilidades estilísticas, tais como, referencias a eventos e personagens dos primeiros filmes, tornando difícil compreendê-lo na sua totalidade se essas referencias não forem claras na mente do espectador.

Compreende-se que poderá ser uma jornada nostálgica para os fans dos anos 80, mas nós não temos de levar com eles, nem são mostradas razões para conquistar novos aderentes.

Classificação: 3 numa escala de 10

 

15 de outubro de 2020

Opinião – “Mulheres ao Poder” de Philippa Lowthorpe

Sinopse

História verídica da interrupção do concurso de Miss Mundo, em 1970, pelo crescente Movimento de Libertação das Mulheres, um evento que foi notícia principal em todo o mundo. Durante um dos programas de televisão mais populares do planeta, assistido por 100 milhões de espectadores, o Libbers interrompe a transmissão afirmando que concursos de beleza infamam as mulheres. Assim, da noite para o dia, o Movimento ganha fama… e quando a ordem é restaurada a escolha da vencedora provoca um novo rebuliço. Não é a favorita sueca, mas sim a Miss Grenada, a primeira mulher negra a ser coroada Miss Mundo. Em questão de horas, uma audiência global testemunhou a expulsão do patriarcado do palco e o derrube do ideal ocidental de beleza.

Opinião por Artur Neves

Não posso deixar de iniciar esta crónica sem comentar o título que foi atribuído em Portugal a este filme, que sugere tratar-se de uma assunção de conflito, ou de domínio das mulheres sobre os homens, quando afinal não se trata de nada disso, mas tão somente da teatralização de um evento real acontecido no concurso de Miss Mundo em 1970, quando um grupo de mulheres organizadas assume uma atitude de “Mau Comportamento” ("Misbehavior",no título original) para os parâmetros comportamentais femininos na época. É mais um exemplo de distorção de contexto na atribuição de títulos de filmes em Portugal.

Posto isto, e tal como a sinopse reporta o filme conta-nos a história baseada em factos e personagens reais de como um grupo de mulheres organizadas, impugnou um concurso mundial de beleza feminina, que na opinião delas, objetivava as mulheres, comparando-as pelos seus atributos físicos e sexistas, de modo semelhante às avaliações de qualidade dos potenciais compradores numa “feira de gado”.

Esta opinião reúne atualmente um largo consenso, mas durante a primeira metade do século XX, os concursos de beleza foram apoiados e defendidos pelas entidades oficiais e pelos mídia como uma promoção da beleza feminina, sendo expressamente incluída a exibição de costas para a câmara, para que o público pudesse escrutinar as formas mais ou menos rotundas das meninas em bikini, com total aderência dos juízes e do publico presente no Royal Albert Hall de Londres, apresentado por um Bob Hope, (representado por Greg Kinnear) armado com um pacote de piadas cafonas, maliciosas e ridículas, mas completamente aceite e elogiado na época. No filme, o “boneco” nem está muito bem construído e a representação fica-se entre a imitação imperfeita e a caracterização incompleta, mas para o que é, serve.

Em 1970, embora lentamente, as coisas já começavam a mudar e para dignificar a prestação das debutantes, a organização promoveu o acompanhamento permanente das Miss em concurso por uma acompanhante cuja missão era fazê-las refletir sobre o concurso em si e sobre as mudanças que a participação naquele evento iria introduzir nas suas vidas, bem como a inclusão de duas Miss negras; Miss Granada (Gugu Mbatha-Raw) e Miss África do Sul (Loreece Harrison), como que a demonstrar a universalidade da competição, mas sem considerar a diferença de conceito que o concurso significava para raparigas de culturas tão diferentes da europeia, constituindo uma “emenda pior que o soneto”.

As manifestantes, encabeçadas por Jo Robinson (Jessie Buckley) uma ruiva irreverente e destemida, coadjuvada pela intelectual Sally Alexander (Keira Knightley) que nos primeiros contactos não compreendem a semelhança de objetivos, embora por caminhos diferentes, infiltram-se no espetáculo com o grupo de aderentes ao movimento, no propósito de exibir cartazes de protesto, e ruídos que perturbam a normal exibição do evento, embora este consiga terminar tal como esperado, com a indicação da vencedora surpresa para os 100 milhões de espectadores espalhados pelo mundo.

A causa do protesto é válida e embora algumas manifestantes sejam detidas não se tiram daí consequências sérias para as protagonistas e o filme consegue mostrar com realismo o desespero e a frustração das mulheres envolvidas no protesto, através das suas conversas sobre a revolução que apenas iniciaram e que deve continuar para atingirem os seus justos objetivos.

As performances estão em bom nível e só se lamenta que a esposa de Bob Hope, Dolores (Lesley Manville) tenha sido tão pouco utilizada, menorizada mesmo, quando personifica um elemento que dentro da organização já não apoia o evento com o entusiasmo dos primeiros tempos, tendo começado a sua luta separatista individual.

É um documento decisivo na história do movimento feminista a que vale a pena assistir para formação e conhecimento dos factos. Em exibição nos cinemas da NOS.

Classificação: 6 numa escala de 10

 

14 de outubro de 2020

Opinião – “Manual da Boa Esposa” de Martin Provost

Sinopse

Paulette Van Der Beck (Juliette Binoche) e o marido (François Berléand) dirigem há muitos anos a Escola de Gestão Doméstica de Bitche, na Alsácia-Mosela. O estabelecimento tem por missão formar adolescentes para se tornarem donas de casa perfeitas, numa época em que se esperava que as mulheres servissem subservientemente os maridos. Após a morte repentina do marido, Paulette descobre que a escola está à beira da falência e tem que assumir a responsabilidade da mesma.

Mas enquanto decorrem os preparativos na escola para o concurso televisivo de Melhor Gestão Doméstica, Paulette e as suas entusiásticas alunas começam a questionar os valores prevalecentes, na senda das transformações sociais provocadas pelos protestos nacionais do maio de 1968. Tendo reatado com André (Edouard Baer), o seu primeiro amor, e ajudada pela excêntrica meia-irmã Gilberte (Yolande Moreau) e pela rígida freira Marie-Thérèse (Noémie Lvovsky), Paulette junta-se às alunas para superarem o seu estatuto oprimido e se tornarem mulheres livres. "Manual da Boa Esposa" é uma visão humorística e satírica duma história universal sobre a solidariedade e a igualdade de género.

Opinião por Artur Neves

Estamos da década de 60, os fumos da segunda guerra já se extinguiram e com eles a sociedade emergente da década de 50. A reconstrução do pós guerra já está estabilizada e uma classe média burguesa, estabelecida à custa da dignificação do trabalho numa sociedade de industrialização crescente, produz filhos que começam a questionar a formatação da moral e dos bons costumes veiculada pelos seus progenitores.

Objetivamente a história deste filme centra-se em 1967 (eles desconhecem que Maio de 1968 já está próximo e quais as suas consequências) mas na Alsácia-Mosela, a Escola de Gestão Doméstica de Bitche segue o seu caminho na formação de boas esposas e donas de casa perfeitas, segundo um figurino ultrapassado que é silenciosamente rejeitado pelas alunas que a frequentam.

Nessa juventude já se fazem sentir os ventos de mudança, com os sonhos de independência, de autonomia sobre as suas vidas e o futuro de revolta contrariando frontalmente as lições da madame Paulette Van Der Beck, a excêntrica meia-irmã do marido dela, Gilberte, e a freira sargento Marie-Thérèse que adiciona à férrea disciplina que impõe às alunas, toda a sua crendice em mitos e fantasias populares sobre a verdade da natureza humana.

Toda a história é vertida em género de comédia inteligente que confronta muitas das ideias ainda hoje reinantes em muitos espíritos menos esclarecidos. Muitos espectadores poderão sentir-se confrontados e incrédulos em face de afirmações jocosas sobre comportamentos, que para eles serão perfeitamente normais, registando-se aqui a primeira fraqueza do filme na medida em que, apresentado verdades como fantasias fúteis e esconde o obscurantismo em profundidade que as justificou.

Aborda fundamentalmente o movimento de emancipação feminina na década de 60 sob a forma de uma farsa galhofeira durante o percurso de deslocação a um concurso televisivo de escolas da mesma área de ensino em Paris, e apresenta o despertar visível da identidade de género no florescimento do amor proibido entre duas jovens.

Todos os personagens estão bem defendidos, com nota particular para Gilberte (Yolande Moreau) que já possui um histórico de trabalho com este realizador, bem como para Marie-Thérèse (Noémie Lvovsky) que nos apresenta uma freira sargento com todas as caraterísticas inerentes. Paulette (Juliette Binoche) está sempre bem, ou não fosse ela uma diva do cinema francês. É um filme com conteúdo, que se vê com agrado durante 110 minutos, e faz-nos sorrir.

Classificação: 5,5 numa escala de 10

 

10 de outubro de 2020

Opinião – “O Capital no Século XXI” de Justin Pemberton

Sinopse

Um documentário de fazer rodar a cabeça, baseado no livro do economista francês Thomas Piketty, transforma a história do capital nos últimos 300 anos numa história de detetive financeiro que expõe as justificações para a nossa crise atual.

Opinião por Artur Neves

A história contada neste filme, porque é disso que se trata, embora fortemente ligada aos modernos eventos do nosso tempo, tem origem no século XVIII, na transição entre a sociedade feudal e o início da era industrial e aborda em modo ligeiro mas com objetividade, um dos assuntos mais polémicos e importante da atualidade no que concerne à distribuição da riqueza, ou à falta dela, considerando que 70% dos recursos mundiais é detido por apenas 1% da população.

Com base nesta premissa, o autor do livro com o mesmo nome, publicado em frança em 2013, é também narrador do filme em conjunto com o realizador Justin Pemberton que reúne uma larga experiencia na realização de documentários desde 1999. Ele aponta o seu olhar para os últimos trezentos anos, descrevendo todo o percurso de onde viemos e para onde estamos indo do ponto de vista das políticas aplicadas ao capital, como elemento de poder, ou como motor social com capacidade de promover a evolução das sociedades no sentido do bem estar, que em abstrato, constitui o objetivo principal de justificação para os governos de todos os países.

Thomas Piketty, que pode ser classificado como um humanista, sem laivos visíveis de marxismo, e sem definição clara de “esquerda” ou de “direita”, nos sentidos convencionais dos termos, descreve a história que nos conta com o rigor analítico de um Paul Krugman, transformando o seu livro numa palestra ilustrada onde a riqueza material e o valor intrínseco da posse, (posse do dinheiro ou posse da terra) da propriedade em geral, aumentam e diminuem, mudando ciclicamente com o intervalo de tempo em análise e assim mostrando ao espectador, de uma forma consistente e clara porque estamos assim.

O filme começa nos senhores do poder da terra durante o domínio da aristocracia no século XVIII em que esse poder era transferido por herança e mantido através de casamentos entre pares da mesma classe. Avança para a Revolução Francesa que tentou corrigir esse círculo vicioso de poder e dinheiro, que foi mais teórico do que real pois a democratização nunca chegou às massas por essa via, e chegando à Revolução Industrial que através da indústria e da produção de bens transacionáveis, transformou o capital num elemento móvel, muito diferente da fixidez da terra, permitindo a sua rendibilidade através do investimento.

Estabelece a primeira noção de marketing para motivar a circulação do dinheiro com o aparecimento da moda de vestuário e apresenta os dois grandes colapsos do século XX, as duas guerras mundiais, como as grandes destruidoras dos anteriores paradigmas económicos que deram origem ao aparecimento de uma classe média assalariada mas forte e crescente que permitia às pessoas comuns, sem bens de raiz, sem terra, possuírem capital e poder relativo pela primeira vez na história.

Com uma sociedade fortemente dependente da indústria e do combustível que a fazia funcionar o declínio começa na década de 70 com as crises petrolíferas e a posterior globalização da economia que permitiu que o capital fosse de novo desviado e concentrado nas mãos da nova elite emergente, fruto da reinvenção do setor financeiro que utiliza o capital para comprar influência política, foge aos impostos, centra-se nos midia e na publicidade para divulgar os seus produtos, concentra a riqueza em grandes conglomerados e desvia os lucros e os dividendos da sua atividade para empresas de fachada offshore que voltam a ter a possibilidade de passarem naturalmente para a próxima geração que não despendeu qualquer esforço na sua obtenção.

É no fundo o que temos e o que conhecemos do dia a dia, que está já a acontecer e que continuará se não conseguirmos mudar o curso do futuro, para o qual Piketty não nos apresenta qualquer solução mas apenas deixa-nos o alerta de que além do capital perderemos também, e mais importante; a liberdade.

Apraz-me ainda registar que o filme recorre a excertos de filmes famosos, tais como; “Orgulho e Preconceito”, “Wall Street” e outros, como exemplos ilustrativos de épocas onde ocorreram grandes transformações, numa evidência clara que o cinema é a grande montra das mutações sociais e da vida tal como a conhecemos.

O filme terá estreia em sala em 22 de Outubro, embora tenha uma primeira exibição seguida de debate, no dia 15, no cinema São Jorge, no âmbito da 21ª Festa do Cinema Francês 2020. Recomendo vivamente.

Classificação: 8 numa escala de 10

 

8 de outubro de 2020

Opinião – “Listen” de Ana Rocha de Sousa


Sinopse

O filme conta uma história de ficção sobre o drama de uma família portuguesa emigrada no Reino Unido, em dificuldades e com trabalhos precários, que tenta recuperar a guarda dos filhos, que lhe foram injustamente retirados pelos serviços sociais ingleses por suspeitas de maus-tratos.

Opinião por Artur Neves

“Listen” que em tradução livre se pode assumir como; “Escute” é a primeira longa-metragem da atriz e agora também realizadora portuguesa Ana Rocha de Sousa que foi distinguida no Festival de Cinema de Veneza, em Itália com os prémios; “Leão de Futuro” para primeiras obras e o prémio especial “Horizontes” atribuído pelo júri. A sua estreia nas salas portuguesas está prevista para o próximo dia 22 de Outubro.

Além das nomeações mencionadas o filme recebeu também outros prémios paralelos, tais como; “Sorriso Diverso Venezia”, pela sua abordagem a questões sociais e o prémio “Bisato d’Oro de Melhor Realização”

Devo dizer ainda que embora classificando o cinema português como generalizadamente medíocre e provinciano, senti-me agradavelmente surpreendido (pela 2ª vez, registe-se, a primeira, foi com o também recente filme “O Ano da Morte de Ricardo Reis”) com a qualidade e dimensão humana desta história, na linha do argumento de Ken Loach, no seu “Eu, Daniel Blake” de 2016, mas com um “sabor” português, amistoso e envolvente, muito diferente da frieza crua e por vezes impessoal, do realizador britânico.

A história assenta numa alteração das leis britânicas em 2014, relativamente à criação de instituições particulares de solidariedade social (algo semelhante às nossas IPSS) a quem foi atribuída a incumbência da proteção de menores encontrados em situações de pobreza extrema e de maus tratos, com vista à sua adoção por famílias de acolhimento. O problema reside em que essas instituições assumem os custos da educação dos menores até à maioridade, através da participação financeira do estado Inglês, ficando eles a gerir as despesas e constituindo-se como empresas de adoção, criando condições em que o “superior interesse da criança” é o menos defendido e o mais afetado.

Esta atitude apresenta-se com mais premência aos emigrantes, decorrente da sua situação de inferioridade no desconhecimento da língua e das leis vigentes no sistema social do Reino Unido, também ele com múltiplas fragilidades. O filme acompanha assim o drama de uma família portuguesa emigrada, a quem estas empresas, mandatadas pelos serviços sociais e com cobertura legal, lhe retiram os três filhos menores por alegadas suspeitas de maus tratos.

O que se segue é a tentava de corte dos laços familiares, com visitas curtas e fortemente vigiadas entre os pais e os filhos em processo de adoção forçada, reconhecida pela lei, onde discricionariamente se impõem regras impossíveis de cumprir mas que dão origem à interrupção compulsiva das visitas, acusações de maus tratos não fundamentadas, bem como uma série de barreiras que apenas servem para cortar os laços dos filhos cativos, aos seus progenitores. A esperança assenta numa organização clandestina encabeçada por Ann Payne (Sophia Myles) que promove a justiça nos casos atendíveis.

A família é composta por Bela (Lúcia Moniz) que defende muito bem o seu personagem, apresentando uma mãe visivelmente angustiada e perturbada com o destino dos seus filhos, o pai, Jota (Ruben Garcia) com um emprego precário e um verdadeiro estilo latino naquela situação, e os filhos, dos quais destaco Lu (Maisie Sly) uma criança surda muda de ar angelical que cumpre com segurança o seu personagem.

A representação é adulta, convincente, sem hesitações nem falhas que lhe tirem credibilidade antecipando outros voos se forem concedidas “asas” a esta promissora atriz que deixa aqui uma consistente prova das suas competências de realização. A história não é lamecha, contemplativa ou fatalista, como é apanágio de muitas das nossas realizações e em todo o tempo não deixa questões em aberto que não sejam respondidas. É cinema realista do melhor, gostei e recomendo sem reserva.

Classificação: 8,5 numa escala de 10

6 de outubro de 2020

Opinião – “Miss” de Ruben Alves


 

Sinopse

Alex (Alexandre Wetter), um menino delicado de 9 anos, que não sabe ainda bem se se sente menino ou menina, tem um sonho: ser um dia eleito Miss França. Quinze anos depois, Alex perdeu os pais e a autoconfiança e sente-se estagnado numa vida monótona. Um encontro imprevisto vem despertar esse sonho esquecido. Alex então decide concorrer ao título de Miss França, escondendo a sua identidade masculina. Beleza, excelência, camaradagem... Ao longo das etapas de um concurso implacável, ajudado pela sua pitoresca família que muito o apoia, Alex parte à conquista do título, da sua feminilidade e, acima de tudo, de si mesmo.

Opinião por Artur Neves

Tendo constituído em antestreia a abertura da 21ª edição do Festival do Cinema Francês que se realiza em cinemas de várias cidades do país durante o mês de Outubro, este filme foi inspirado na história verídica do seu ator principal, Alexandre Wetter que tal como descrito na sinopse, foi um menino que aos 9 anos manifestou o desejo de um dia ser eleito Miss França.

Na realidade o ator Alexandre Wetter que na sua profissão é também modelo, tanto passa com igual desenvoltura roupa feminina como masculina, tem uma aparência andrógena, imberbe, modos delicados e serviu na perfeição os objetivos de Ruben Alves, o realizador luso descendente de “A Gaiola Dourada” de 2013, para abordar duma maneira séria, embora com diversos elementos de comédia bem incluídos, o tema da identidade de género e a perseguição discriminadora da sociedade aos comportamentos humanos que se afastam da normalidade instituída.

Aliás, a ideia não é inédita, considerando que em fevereiro de 2018, Ilay Dyagilev, um modelo masculino do Cazaquistão ganhou o prémio; “Miss Virtual de Shymkent” por ter chegado à final de um concurso de beleza online, tendo-se feito passar por “Arina” e obtido mais de dois mil votos nas redes sociais onde publicou o seu “boneco”.

Por outro lado, constitui ainda uma apreciação crítica mordaz aos concursos de beleza tradicionais vistos do seu interior, aos milhões que esses eventos movem, enunciando sempre bons propósitos e defendendo boas causas humanitárias, ambientalistas, defensoras dos animais, à custa da exposição do corpo da mulher em sensualidade e potencial sexual da sua figura em múltiplas posições sempre associadas a marcas comerciais. Mostra-se também que muitas das concorrentes pensam que a aparência física é a coisa mais importante, tal como lhes é instilado durante a preparação para a final do concurso, embora a diretora do evento seja levada a concluir; “à força de nos preocuparmos tanto com o visual exterior esquecemo-nos do conteúdo humano”.

Alex vive entregue a si próprio em casas acolhimento, depois da morte dos pais num desastre de viação e hoje, com 24 anos, questiona-se sobre a sua verdadeira tendência de género. Faz biscates em vários locais, cuida de um clube de pugilistas de bairro e vive num quarto alugado já com alguns meses em atraso. A dona da pensão aloja no seu espaço outros hóspedes com dificuldades de dinheiro mas que partilham a renda com ele. Essa perda de privacidade fá-lo abrir-se à comunidade que o cerca, constituindo a sua atual família e ajudando-o a definir-se como pessoa num convívio truculento, diversificado em opções, mas humano e carente de atenção e afeto tal como ele.

Abordado com a dignidade que o tema merece, Ruben Alves apresenta-nos uma história cheia de realidade, sonhos perdidos e comédia que se vê com agrado, prevendo-se a sua estreia em sala para 5 de Novembro. Recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

1 de outubro de 2020

Opinião – “O Ninho” de Sean Durkin

Sinopse

Rory (Jude Law), um empresário carismático, muda a sua família para a Inglaterra na esperança de lucrar com a Londres em expansão, de 1980. Mas quando a sua mulher, Allison (Carrie Coon), sente dificuldades para se adaptar e a promessa de um começo novo e lucrativo começa a esfumar-se, o casal tem de encarar as verdades indesejadas que residem sob a superfície do seu casamento. O “Ninho” é o mais recente filme de Sean Durkin, vencedor em Cannes do Prémio Regards Jeune com o filme “Martha Marcy May Marlene” (2011).

Opinião por Artur Neves

A história que nos conta este filme situa-se na década de 80 e começa nos USA, sob a presidência de Reagan e Margaret Theatcher no Reino Unido. É a época de ouro dos yuppies, pessoas que jogavam na bolsa e ganhavam muito dinheiro que lhes perturbava o discernimento por confundirem oportunidades avulsas com sucesso e capacidade negocial. É o caso de Rory O'Hara (Jude Law) inglês de nascimento numa família modesta que seguindo o sonho americano conseguiu riqueza na bolsa, vive numa casa que é uma homenagem ao bom gosto, dois carros na garagem, a mulher Allison (Carrie Coon) é uma empresária de sucesso treinando cavalos e ministrando aulas de equitação. Têm dois filhos, Samantha (Oona Roche) do primeiro casamento de Allison é ginasta e Ben (Charlie Shotwell) filho do casal com 10 anos frequenta uma boa escola e joga futebol com o pai na beira da piscina.

Tudo corre bem, exceto o auto convencimento de Rory no seu sucesso infindável, que desafia Allison a mudarem-se para Inglaterra, com a promessa de um sucesso ainda maior, com o desejo de seguir o dinheiro antes que ele acabe nos USA, iniciando uma carreira no Reino Unido como continuação do contágio da atividade bolsista na Europa. Rory não se apercebe que apenas pretende limpar a imagem de fraqueza com a vida modesta que levava quando saiu uns anos antes. Naquela altura para ele, apenas a progressão financeira sem limites conta desvalorizando a felicidade que tem e a estabilidade sentida por todos os membros da família. Naquela altura apenas o seu umbigo conta, embora ele ainda não saiba.

Mudam-se para uma propriedade rural no Surrey que Rory comprou, uma casa imponente mas sombria, quase uma velho castelo que transmite surpresas e mistérios das vidas passadas. Para aliciar a família comprou prendas extravagantes para todos. Para si guardou secretamente a possibilidade de provar que pertence a uma classe superior do que as pessoas pensavam dele quando saiu, sem discernir que a adaptação da sua família ao local e ao ambiente rural é penosa e está lentamente a provocar a sua desagregação e perda de sentido.

O que se segue é a queda ao abismo das emoções, muito bem construída por um argumento robusto escrito pelo realizador Sean Durkin que em cada cena, em cada gesto, em cada momento nos apresenta muitas coisas simultaneamente que correspondem a diferentes níveis de desestruturação duma relação que se desvanece em cada contacto.

Todos os personagens estão bem defendidos, mas destaco particularmente Allison (Carrie Coon) que sucessivamente se vai perdendo num devaneio privado e entre cigarros compulsivamente fumados, como no jantar de negócios em que deliberadamente se sente incapaz de suportar por mais tempo as bazófias do marido e o abandona à mesa, ou depois de sair do restaurante o seu auto aturdimento numa boite local entre dois vodkas e uma dança frenética pavoneando-se em círculos para reivindicar território e aliviar uma insustentável pressão que a asfixia. Rory (Jude Law) está igualmente bem num personagem entre o vitorioso e os destroços de um sonho, tem boa aparência e carisma para vender ideias e oportunidades, embora descuide os detalhes pela obsessão em se mostrar próspero, arrastando Allison e os filhos em apostas imprudentes em que só ele acredita.

Toda a história funciona num crescendo de ansiedade e no final tanto os personagens como o espectador já conhecem todo o figurino, permitindo que o desconforto se transforme num sentimento de aceitação do real. Nem a casa, nem a mudança, nem o ambiente são responsáveis pelos factos, apenas Rory tem de reconhecer e aceitar o seu falhanço para poder recuperar a sua vida. Os sinais de alerta estiveram visíveis para todos, somente Rory não os viu, ou pior, negligenciou-os, Nós entendemos isso e esperamos que Rory também o entenda. Muito interessante, bem conseguido, não se dá pela passagem de 107 minutos, recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10