10 de abril de 2021

Opinião – “Akelarre - O Ritual da Irmandade” de Pablo Agüero


 Sinopse

Em 1609, um grupo de mulheres do País Basco acusadas de bruxaria tenta adiar a sua execução, convidando o inquisidor a testemunhar o seu ritual do Sabbat.

Opinião por Artur Neves

Este novo filme de Pablo Agüero, realizador nascido na Argentino em 1977 e com um curriculum pouco extenso foi adquirido pela Netflix, mas não é mais do que um remake de “Akelarre” de 1984 estreado no festival de Berlim e realizado por Pedro Olea, ambos, financiados pelo governo do País Basco, com a diferença de este apresentar caraterísticas de ter sido contemplado com um orçamento inferior ao primeiro.

Antes de continuar com apreciação do filme em si, julgo importante esclarecer o leitor que Akelarre significa “Sábado das Bruxas“, ou “Sabbat“, em euskera, língua basca e constitui uma reunião de pessoas que alegadamente praticam bruxaria, bem como outros ritos de cariz hermético, distinguindo-se porém o Sabbat numa cerimónia com animais, onde são realizados banquetes e danças que celebram as estações do ano, tais como a época das colheitas ou a lactação dos animais, com pouca relação com reuniões de bruxas malignas para realizar orgias, Missa Negras, lançar encantamentos ou preparar poções secretas para fins específicos.

Os Sabbats são somente celebrações pagãs em homenagem à vida, à natureza e a tudo o que nela existe, onde se canta, dança e se comem alimentos naturais reforçados com alucinogénios, (muito comuns durante o ritual para se atingir o êxtase) com os quais se pretende mostrar agradecimento e veneração á natureza que os produziu, transmitindo aos fiéis uma experiencia espiritual intensa que lhes permitiria sentirem um equilíbrio harmonioso de comunhão e pertença com a natureza que veneravam.

O argumento deste filme é baseado no livro; Tratado de Feitiçaria Basca de Pierre de Lancre, que era jurista na corte do rei Henrique IV de França, e que o escreveu após uma visita ao País Basco, no ano de 1609, apreciando os rituais a que assistiu sob a influência das convenções religiosas impostas pela Inquisição Espanhola que definia como adoração a Satanás todas as manifestações de adoração a uma cabra negra, ou ao porco, tal como genericamente acontecia e como interpretou, nos Sabbats a que assistiu durante a visita.

Embora o argumento e a história que o suporta assentem numa base verdadeira sobre um período histórico em que as mulheres eram condenadas só por existirem o filme em si mesmo parece perdido na dimensão do seu conteúdo, porque Rostegui (Alex Brendemühl) o padre inquisidor, acompanhado pelo seu Consejero (Daniel Fanego) e relator da viagem e dos eventos nela presenciados só se preocupam em queimar as “bruxas” que não são mais do que mulheres normais, das quais sobressai Ana (Amaia Aberasturi) não só pela sua beleza, como principalmente por se ter apercebido da fragilidade das intenções dos inquisidores e da volubilidade das suas convicções, arquitetando um plano para fugir à condenação, seduzindo Rostegui e convencendo-o a assistir a um Sabbat preparado por ela e pelas outras mulheres jovens da vila com intenção expressa de fuga.

Ana e todas as outras jovens do grupo já estão presas e o filme não nos permite conhecê-las mais, para lá de esparsos flashbacks em inocentes brincadeiras no feno ou no convento onde foram presas e retidas agrilhoadas na masmorra. Que elas não eram bruxas já tínhamos concluído, que elas tinham capacidade de organização entre si, que a Inquisição Espanhola era um órgão discricionário e autoritário, também, e para lá disso não existe mais nada que motive o espectador para os 92 minutos de um filme que pretende retratar uma época e uma tradição pagã recheada de cultura.

Sou forçado a concluir que Pablo Agüero não tem mãos para defender este projeto, donde se pode justificar o baixo orçamento com que foi contemplado. Ele pretende criar cenas de suspense com a preparação do Sabbat e do golpe de fuga das raparigas, mas não resultam. A perseguição das jovens em fuga pelos soldados enviados para as capturar é ridícula e não convence, percebe-se a queda cautelosa dos duplos empregados no filme, a perseguição não gera qualquer adrenalina porque os soldados não as perseguem, correm desordenadamente e de tal modo, que nem a câmara os consegue enquadrar.

É pena, porque a história contém uma mensagem importante de resistência à prepotência, obscurantismo e discricionariedade de atitude perante a genuinidade da natureza. Um flop

Disponível na plataforma Netflix

Classificação: 3 numa escala de 10

7 de abril de 2021

Opinião – “Concret Cowboy” de Ricky Staub

Sinopse

Um adolescente rebelde vai a Filadélfia passar o verão com o pai afastado e encontra um novo sentido de família numa comunidade de cowboys afro-americanos.

Opinião por Artur Neves

A história dos USA veiculada pelo cinema de Hollywood não nos mostra esta faceta da conquista do oeste americano pelos negros imigrantes que chegaram ao novo continente nos séculos XVIII e XIX e que tal como outros povos vinham à procura do sucesso e do futuro. Como tal é lógico que tenham existido cowboys negros, para lá dos ingleses e irlandeses louros e de olhos azuis que nos têm sido vendidos nos westerns produzidos pela indústria americana. Aliás Quentin Tarantino já nos tinha mostrado esta realidade em “Django Libertado” de 2012, ou posteriormente em “Os Oito Odiados” de 2015, para não citar outros exemplos.

Onde essa realidade foi mais acentuada e durou mais tempo foi precisamente em Filadélfia, no estado da Pensilvânia, onde decorre esta historia passada entre as décadas de 50 – 60, adaptada de um romance de Greg Neri, inspirado no Fletcher Street Urban Riding (Club da vida real de Filadelfia) que nos reporta a vida da comunidade negra ainda ligada aos cavalos e às cavalariças (as “oficinas” dos cavalos) que resistia aos novos tempos do cavalo mecânico que insistia e lhe bater á porta, constituindo-os num ghetto de habitante negros, com alguma permissividade das autoridades locais.

A frugalidade das sinopses da Netflix não refere que o “adolescente rebelde” é Cole (Caleb McLaughlin) filho de pais separados ao cuidado de sua mãe Amahle (Liz Priestley) em Detroit, que fica sem meios de o controlar depois de ele ter sido expulso da escola que frequentava. Em face dessa situação e não querendo deixar o filho sujeito às más companhias durante a sua ausência para trabalhar, Amahle viaja até Filadélfia para o entregar ao pai Harp (Idris Elba) que faz parte de uma comunidade de cavaleiros que gerem um estábulo em ruínas, com outros saudosos desta atividade e possuidores destes animais, que lutam contra o progresso e a evolução urbanística que os quer desalojar dos seus decrépitos e sujos locais de vida.

Harp é uma figura sóbria, de poucas falas, partilha a sua desarrumada casa com um cavalo, de nome Chuck, que habita um estábulo improvisado no que deveria ser a sua sala de estar, fornece-nos informações sobre o caráter de Harp, bem como, para a sua propensão para a rebeldia e não cumprimento de regras, principalmente se elas foram estabelecidas por brancos contra quem ele arregimenta adeptos.

É neste ambiente que Cole é largado, sem se lembrar que nasceu ali e se mudou devido á separação dos seus pais, todavia, não foi esquecido por Nessie (Lorraine Toussaint) uma vizinha amiga do seu pai que tenta apoiá-lo à chegada, quando ele se encontra na rua com dois sacos de lixo na mão onde guarda todos os seu pertences, batendo à porta de casa do seu pai ausente. Outra pessoa que igualmente não o esqueceu é Smush (Jharrel Jerome) um amigo de infância que trafica droga por conta, anda de automóvel à procura de oportunidades de lucro, tem um sonho para sair dali e pode incluir Cole, se ele quiser colaborar com a atividade do pequeno tráfico a que ele se dedica.

Com estes ingredientes fica formado o ambiente para o drama de família e a história de delinquência que com altos e baixos se transforma na redenção de Cole, na sua transformação de adolescente recalcitrante em homem válido, através do seu convívio com uma animal selvagem, recriando a memória distante contada em reuniões junto à fogueira, de curas conseguidas pelo convívio com cavalos, e na inevitável reconciliação da família que o gerou.

Trata-se de uma obra de ficção inspirada remotamente em factos reais, recriando uma instituição centenária situada ao norte de Filadélfia que não conhecemos de todo, onde se mantém a tradição de equitação negra, paredes meias com o centro da cidade, e que sobrevive apesar da pressão de gentrificação exercida sobre ela. Constitui ainda a estreia de Ricky Staub na direção de uma longa metragem onde se nota a sua preocupação de identificação de um tema que não lhe é familiar mas que soube defendê-lo. Todo o trabalho de atores está bem conduzido, tanto com os profissionais como com os não profissionais, todavia é um tema de esquecimento rápido por não se incluir no nosso imaginário.

Disponível na plataforma Netflix desde 2 de Abril

Classificação: 5 numa escala de 10

 

31 de março de 2021

Opinião – “Unorthodox” de Anna Winger e Alexa Karolinski

Sinopse

Uma judia hassídica de Brooklyn foge a um casamento combinado e vai para Berlim, onde um grupo de músicos a acolhe... até que o passado vem bater-lhe à porta. Baseado no livro de memórias homônimo publicado no New York Times de Deborah Feldman, Unorthodox é a história de uma garota que rejeita sua educação radicalizada e parte para começar uma nova vida segue o rasto sombrio das suas origens para descobrir os mistérios perigosos do passado de sua família.

Opinião por Artur Neves

Numa altura em que as obras mais apetecíveis permanecem suspensas aguardando melhores dias para a sua exibição é a altura de fazer uma incursão pelo mundo das séries, particularmente das minisséries, que não eternizam a sua existência para lá da razoabilidade coerente do argumento que lhe serve de fundamento. É nessa categoria que se situa esta minissérie de quatro episódios, num total de 215 minutos, que não perderia nada se fosse convertida em filme, considerando a sequência restrita entre os episódios que compõem a história contada.

Aliás se observarmos o mastodôntico “Liga de Justiça” de Zach Snyder’s apresentado em 2021 com a escandalosa duração de 242 minutos em que mistura numa inenarrável história todos os defuntos super heróis da Marvel, esta minissérie até se apresenta como limitada para mostrar o ridículo e a incongruência contidos na religião judaica ortodoxa, subordinada à Tora e a todos os seus atávicos princípios, amplamente desadequados à vida real e ao tempo em que vivemos.

A minissérie reporta-nos assim, na pele de Esther Shapiro (ternamente conhecida por Esty) interpretada por Shira Haas, uma atriz israelita, o percurso tortuoso de vida de Deborah Feldman que anos antes igualmente abandonou a comunidade hassídica de Williamsburg a que pertencia, rumo à Alemanha, já com uma filha no ventre depois de um casamento combinado, da forma que Esty nos mostra nesta excelente minissérie, que estabeleceu ficar por aqui não se prevendo qualquer “2ª temporada” ou sequela duma história real contada na terceira pessoa. Aliás uma minissérie deve se mesmo assim.

O filme começa por nos mostrar o encontro (a apresentação) entre de Esty a Yanky Shapiro (Amit Rahav) com todo o protocolo definido pela Tora que estabelece a supremacia absoluta do homem sobre a mulher, devendo esta remeter-se ao papel de parideira e quanto mais parir melhor, porque mais rapidamente cumprirá os objetivos de repovoar o mundo com cidadãos judeus, compensando assim os falecidos no Holocausto.

O encontro, a preparação para o casamento, a divulgação dos seus deveres de esposa, comunicados a uma rapariga de 19 anos que ignora completamente a vida sexual, incluindo a sua própria anatomia íntima e a função dos seus órgãos, (esta cena merece reflexão sobre a legitimidade da castração do desejo e das emoções de um ser humano, através de uma convenção religiosa) a fragilidade do relacionamento entre os combinados “noivos” incumbidos a cumprirem um ritual preestabelecido mas que não os vincula afetivamente, porque simplesmente não se conhecem, são apenas o fruto do arranjo familiar com o beneplácito do Rabino da comunidade a que pertencem, fazem desta história um documento com importantes e estranhas revelações sobre comportamentos sociais.

Depois de realizado o casamento é preciso consumá-lo e neste capítulo é também apresentado toda a mecânica do processo (não há outra forma de dizer isto) com os falhanços sucessivos e o temor expresso por uma mulher que em repetidas noites de desgosto e sofrimento em todas as fracassadas tentativas de sexo que mortificam o seu espírito por não cumprir o objetivo anunciado de elevação do ego do seu marido. Quando finalmente a “coisa” se resolve, num ato de raiva sem amor, é evidente o chocante horror visceral na face de Esty contra a expressão de prazer vitorioso de Yanky, que exprime sem qualquer reserva a profunda desigualdade entre sexos vigente na sua comunidade.

A partir daqui Esty decide que não pertence mais ali e prepara a sua fuga para Berlim, ao encontro da mãe que anos antes teve o mesmo destino. Em Berlim segue-se o percurso de Esty que sem conhecimento da vida fora da sua comunidade procura sobreviver com a ajuda de amigos ocasionais em cujo círculo se consegue integrar. A Alemanha e a cidade de Berlim desempenham também um significativo papel considerando o seu impacto no passado para a comunidade judia e a minissérie utiliza-a bem, evidenciando a sensação de trauma do Holocausto que fornece uma tensão para o confronto das ideologias em presença.

Completado com frequentes flashbacks que nos informam das motivações dos eventos mostrados, "Unorthodox" funciona dentro do universo expandido de rebelião religiosa e drama lésbico que a realizadora Maria Schrader, em conjunto com as criadoras do argumento, transformaram em drama familiar e de costumes, num thriller fascinante, onde uma jovem em busca da sua individualidade e em rutura com crenças inculcadas desde o berço, contrastam com os esforços pífios de homens que a perseguiram em Berlim e julgam que a podem deter.

A atriz israelita Shira Haas tem um desempenho fabuloso entre o drama do amadurecimento como mulher e a história de sobrevivência que unilateralmente enceta. O seu marido Yanky Shapiro (Amit Rahav) representa um frágil hassidista embrutecido por uma religião castradora que nem se apercebe que sua mulher está grávida, de tão imbuído que está no seu papel protocolar. Para perseguir a sua esposa em Berlim, ele recebe a ajuda do seu primo Moishe Lefkovitch (Jeff Willbusch) um grosseiro arrivista, já sinalizado pelo Rabino da comunidade que o incumbe dessa tarefa com a promessa de reinserção e do perdão pelos anteriores desvios. Cabe ainda referir que Jeff Willbusch é ele mesmo, na vida real, um dissidente da comunidade Hassidi. Esta é pois uma minissérie que recomendo vivamente. Em exibição na plataforma Netflix.

Classificação: 8,5 numa escala de 10

PS: Para os mais curiosos informo que estão disponíveis no YouTube, um Making of da série em 20 minutos e um documentário de 90 minutos sobre Deborah Feldman.

 

23 de março de 2021

Opinião – “Cherry – Inocência Perdida” de Anthony Russo, Joe Russo

Sinopse

"Cherry" segue a jornada selvagem de um jovem desprivilegiado de Ohio que encontra o amor de sua vida, apenas para arriscar perdê-la por meio de uma série de decisões erradas e circunstâncias de vida desafiadoras. Inspirado no romance best-seller de mesmo nome, "Cherry" apresenta Tom Holland no como um personagem desequilibrado que deixou a faculdade para servir no Iraque como médico do Exército e só é ancorado por seu único amor verdadeiro, Emily (Ciara Bravo). Quando Cherry retorna para casa como um herói de guerra, ele luta contra os demônios de PTSD não diagnosticado e se torna viciado em drogas, cercando-se da companhia de desajustados depravados. Gastando o seu dinheiro na compra intensiva de drogas, Cherry se volta para o assalto a bancos para financiar seu vício, quebrando seu relacionamento com Emily ao longo do caminho.

Opinião por Artur Neves

A história que está na base deste filme assenta no romance semiautobiográfico publicado em 2018 de Nico Walter, veterano do exército dos Estados Unidos, escrito por este quando cumpria uma pena de prisão por assalto a bancos, tal como o protagonista deste filme realizado pelos irmãos Russo, que ao vê-lo, ocorre-nos pensarmos se já vimos aquela história, bem resumida na sinopse, mas melhor concebida e apresentada, como em; “Nascido para Matar”, de 1987 por Stanley Kubrick, ou “Máquina Zero”, de 2005 por Sam Mendes.

Uma breve pesquisa no IMDB revela-nos ainda que os irmãos Russo são os responsáveis pelos mais recentes filmes de Super Heróis, tais como; “Capitão América: O Soldado do Inverno”, de 2014 ou o mastodôntico e espalhafatoso “Vingadores: Endgame” de 2019, sem andar mais para traz, onde a Marvel decidiu duma penada acabar com todos os Super Heróis que tinha porfiadamente construído ao longo de vários anos em vários suportes, passando pelo papel e pela banda desenhada e culminando no cinema com pessoas reais, onde se sagraram campeões do cinema populista, que gera chorudos proventos de bilheteira, arrastando uma extensa corte de espectadores fieis, devotos de criaturas de ficção com super poderes, que não são mais do que a fictícia compensação para as fraquezas e frustrações dos seus adeptos.

Terminado o filão (temporariamente!… porque não acredito que a Marvel aliene a sua galinha dos ovos de ouro) Anthony e Joe Russo voltam-se agora para o cinema do real, de pessoas com problemas, traumas de guerra (PTSD – Transtorno de stress pós traumático) e dores de alma que os hão de levar à destruição de si próprios e de quem os cerca e filmam a história com todos os traços de epopeia que lhes ficou dos seus anteriores trabalhos. São as caraterizações ricas em pormenores dos estropiados em combate, os grandes planos do sofrimento de guerra e posteriormente, da degradação pelo vício da heroína. São os planos monocromáticos de pânico e solidão das vítimas em plena trip da droga, completos farrapos da sua dependência destruidora. É uma profusão de miséria e de degradação que se espalha pelo zoo de criaturas que os cercam, mas pasme-se, nós não sentimos que corresponda à reprodução real da degradação que quer transmitir.

“Cherry” começa pelo amor fulminante entre ele e Emily que são colegas na faculdade que frequentam em Cleveland, casam-se e são separados pela guerra do Iraque, onde o filme pretende denunciar o modo como a América trata os seus jovens, os seus soldados e os seus veteranos. A sinopse reporta que Cherry é médico, mas o filme informa-nos que ele é paramédico formado à pressão sobre bonecos insufláveis, ou modelos rígidos que só remotamente os elucidam para os ferimentos em teatro de guerra. Todavia, os meios técnicos utilizados na batalha, no Iraque são de relevo com drones que capturam pormenores recônditos e lentes olho de peixe para tomadas de vista deformadas e extravagantes que nos apresentam sequências monocromáticas ou a preto e branco de uma realidade só existente na mente dos personagens.

Tom Holland tem aqui a sua oportunidade para se despedir e se “despir” do Spider Man que o perseguiu nos últimos tempos, considerando que já mostrou assinalável qualidade de desempenho dramático em “Sempre o Diabo” de 2020, já apreciado neste blogue. Agora veste a pele de um veterano com dificuldade de adaptação ao mundo real no regresso da guerra do Iraque ao Ohio e nos mostra o falhanço das instituições que falharam com ele, tal como o exército, o governo com a sua política desastrosa e os bancos, pela sua cultura de crueldade, somente voltados para o lucro e indiferentes à epidemia de dependentes de opióides que geraram bem como, todos os serviços sociais de apoio, que distribuem oxicodona para terapia de problemas muito mais profundos.

É uma mistura de problemas muito complexos que nos acompanham por 141 minutos em que ficamos ligados a um protagonista anti herói que nos mostra as fraquezas e os desencantos da maior economia mundial e que merece ser visto apesar da sua extensão.

Em exibição na plataforma Apple TV

Classificação: 6 numa escala de 10

 

17 de março de 2021

Opinião – “A Desaparecida” de Peter Facinelli

Sinopse

As férias em família sofrem uma reviravolta assustadora quando um casal descobre que sua filha desapareceu sem deixar vestígios. Não parando de a procurar para conseguir encontrá-la, a sua desesperada busca pela menina leva-os a uma revelação chocante, que os coloca de frente contra uma verdade que não querem aceitar.

Opinião por Artur Neves

Com o nome original de “Hour of Lead” (“Hora de Chumbo” em tradução direta) este filme traz-nos a história do desaparecimento da filha de 9 anos de um casal que parte alegremente de férias na sua RV, uma caravana construída na estrutura de um autocarro, para umas férias num parque situado no Alabama, não muito longe de Tuscaloosa, num aprazível bosque que confina com um rio. O lugar é de facto fantástico e apetecível, mas desde a hora da chegada todas as ações e comportamentos dos personagens geram imediatamente múltiplas perguntas no espectador que eu pergunto se seria necessário começar tão “a matar”, considerando que nas sequências seguintes muitas incongruências nos são apresentadas apenas para “matar” o tempo de visionamento que foi projetado para o filme… mas avancemos…

A história escrita e realizada por Peter Facinelli, nascido em Queens, Nova Iorque, descendente de imigrantes italianos, e sem muito curriculum na arte, empola as referências sobre o desaparecimento do objeto do enredo com o único fim de manter o espectador baralhado, mas focado nos pormenores que possam trazer tensão e ansiedade à história, servindo todavia para camuflar o golpe de misericórdia final num twist imprevisível que corporiza finalmente o grande objetivo do filme.

O casal; Wendy (Anne Heche) e Paul (Thomas Jane), pais de Taylor (interpretado pela gémeas Kk Heim e Sadie Haim) a menina misteriosamente desaparecida, apresentam uma relação estranha entre si e com a diferente maneira com que lidam com a confusão e o trauma gerado pelo desaparecimento de Taylor. Paul tenta apoiar Wendy na sua dor de mãe e embora contra a recomendação do Sheriff Baker (Jason Patric), numa interpretação ressentida e silenciosa para as cenas em evolução, internam-se na floresta, armados, para procurar Taylor, ou o seu presumível raptor, um presidiário que anda a monte já perseguido pelas autoridades.

Na sua busca encontram um campista solitário, a dormir junto a uma fogueira e não fazem a coisa por menos, dão-lhe um tiro na cabeça para ele dormir para sempre. Quando voltam ao parque de caravanas as suspeitas agora recaem sobre os vizinhos do lado, um casal muito suspeito na sua opinião, em que aproveitando a sua saída para se introduzirem na sua caravana na busca de Taylor, obviamente tudo o que encontram lhes avolumam certezas sobre a sua culpabilidade. A consistência das suas conclusões leva-os a uma busca de barco com os vizinhos que apanham a mesma “sorte” do campista, ele, Eric (Kristopher Wente) morre com um tiro e ela, Miranda (Aleksei Archer) por afogamento, sem que daí surja qualquer constrangimento ou punição para os assassinos, ou sequer se fale mais nisso até os corpos serem descobertos

Nesta altura as perguntas que nos afloram à mente já são tantas que quase só estamos ali para ver o desfecho daquelas mortes banalizadas, sem motivos que justifiquem a sua ocorrência, bem como das representações absurdas de pânico, dor e perda dos protagonistas que afogam as suas penas em tanto sangue inocente. Todavia, a coisa não se fica por aqui porque o proprietário do parque, Tom (John D. Hickman) que não lhes dispensou uma receção muito amistosa logo no início (já devia estar a adivinhar o que lhe sucederia) vai ter a mesma sorte, bem como o seu jardineiro, Justin (Alex Haydon) que durante todo o tempo apresenta um ar de comprometimento suspeito e antecipadamente culpado não se sabe bem de quê.

Facinelli não tem limites nas suspeitas lançados sobre todos seguindo as convenções do suspense e os tiques do mestre, na medida em que ele também desempenha um pequeno papel secundário, o Deputy Rakes, mas a milhas de distância do mestre que quer imitar. Para confundir e baralhar o espectador não se coíbe de revelar detalhes sórdidos sobre a natureza humana, inclusive sobre o Sheriff Baker que recupera de um período em que cedeu ao álcool na sua luta contra o sofrimento infligido por uma tragédia pessoal.

Finalmente, quando Facinelli nos apresenta uma razão que no contexto anterior da história é impossível de prever, duas opções se abrem ao espectador; sentir-se despudoradamente manipulado na sua expectativa ao drama típico da criança desaparecida, ou agradavelmente surpreendido e recompensado pelo twist final. Pela minha parte incluo-me no primeiro grupo.

Disponível em streaming na plataforma TVCine Top

Classificação: 4 numa escala de 10

 

12 de março de 2021

Opinião – “Promising Young Woman” de Emerald Fennell

Sinopse

É a vingança que guia a narrativa de Promising Young Woman. Na pele de Cassandra Thomas, Carey Mulligan dá vida a uma estudante de medicina que decide colocar uma pausa na sua vida profissional enquanto despende as noites em bares. É aí que atrai e conhece diversos homens que, depois, tenta punir pelas tentativas de se envolverem com uma mulher aparentemente debilitada – ela própria. Uma jovem assombrada por uma tragédia ocorrida no seu passado.

Opinião por Artur Neves

Com uma tradução para português aceitável, este; “Uma Rapariga com Potencial” foi considerado na lista dos nomeados para os Globos de Ouro, bem como, na recente lista para os prémios BAFTA (73ª British Academy Film Awards) de cinema, em Inglaterra e recentemente incluído nas nomeações para os óscares da Academia americana. Com um argumento no género thriller representa ainda a estreia auspiciosa da realizadora inglesa Emerald Fennell, também autora do argumento, que com este filme inicia a sua carreira em longas-metragens, duma maneira tão prometedora como a protagonista da história que nos mostra este filme.

Ela, Cassandra Thomas, Cassie para os amigos, é uma estudante de medicina que perto dos seus 30 anos decidiu suspender o seu curso de medicina para se dedicar à tarefa justicialista sobre um evento traumático que a acompanha desde a juventude e a impede de ser feliz. Ela simula um estado de completa embriaguez nos bares que frequenta, provocando lascivamente os frequentadores masculinos com espírito predador que ela arrasta para um motel, ou os acompanha a casa para uma lição de consentimento e de respeito sobre a real vontade da parceira, que eles nunca mais esquecerão.

Não quero revelar demais como se processa o castigo, mas na altura da “lição” Cassie assume o espírito do acidente acontecido com uma amiga da faculdade que ela tratava como irmã e morreu às mãos de outros colegas; Madison (Alison Brie), e Dean Walker (Connie Britton) que permaneceram imóveis e mudos perante irrefutáveis provas da violação a que a amiga foi sujeita. Cassie assume um papel difícil e perigoso que não lhe permite grande margem de autonomia, mas o desgosto e a raiva presente nas suas memórias impede-a de recuar na sua cruzada pela razão e pela vingança.

Na manhã seguinte já a vemos no pleno controlo das suas faculdades caminhando com os seus sapatos de salto alto na mão enquanto devora com apetite um hambúrguer a caminho do seu trabalho de ocasião numa cafetaria. Este é um filme de mulheres que lutam contra a violação por homens sem escrúpulos e pelo respeito a que têm direito como pessoas com capacidade de decisão e de vontade autónoma.

A história deste filme explora de forma ousada ideias complexas que se cruzam nos pensamentos humanos e nas normas legais. Fazer justiça pelas próprias mãos nunca é uma solução aconselhável, mas por vezes as circunstancias assim nos conduzem a este limite. O filme mostra-nos o fundamentalmente importante sobre o sexo consentido, ou a falta da sua aquiescência, e a tolerância das instituições académicas para os estudantes masculinos e os seus devaneios impulsivos generalizadamente compreendidos quando apanhados em transgressão.

Carey Mulligan dá o melhor de si à interpretação de um personagem sofredor que assumiu a responsabilidade de não deixar o crime de uma pessoa que lhe era tão próxima, impune, ou esquecido numa investigação interrompida, através de múltiplas tentativas de vingança purificadora. As suas razões são genuínas e no seu caminho encontra homens em quem excita os seus piores impulsos para nos mostrar e provar a si própria a justeza dos seus atos contra todas as ações censuráveis. A obstinação dos propósitos de Cassie é um conceito exaustivo que por outro lado nos mostra que nem todos os homens que ela encontra são igualmente merecedores do mesmo tratamento, mas a sua determinação em atingir os objetivos faz-nos pensar que eles ainda são piores, residindo aqui a parcialidade desta história que nos agarra ao ecrã, entre drama, comédia e suspense durante 114 minutos, com significativo agrado.

Disponível nas plataformas Netflix e Amazon Prime video

Classificação: 7 numa escala de 10

 

3 de março de 2021

Opinião – “Nomadland” de Chloé Zhao

Sinopse

Após o colapso econômico de uma cidade empresarial na zona rural de Nevada, Fern (Frances McDormand) embala sua van e parte para a estrada explorando uma vida fora da sociedade convencional como uma nómada moderna.

Neste terceiro longa-metragem da diretora Chloé Zhao, Nomadland apresenta os verdadeiros nómadas Linda May, Swankie e Bob Wells como mentores e companheiros de Fern em sua exploração pela vasta paisagem do oeste americano.

Opinião por Artur Neves

Premiado nos Globos de Ouro de 2021, este filme mostra-nos um conjunto de espoliados da América para quem Trump prometia o que não podia cumprir, apenas para arregimentar adeptos que sem outras perspetivas aceitavam como boas as suas promessas vans. Esta história é baseada num livro com o mesmo nome escrito em 2017 por Jessica Bruder, uma jornalista americana que escreve sobre subculturas sociais e viveu oito meses com a comunidade onde se inspirou. Atualmente leciona num curso de jornalismo na Columbia Journalism School.

O filme concretiza um modelo “dois em um”, é simultaneamente um documentários de pessoas reais, de vidas reais, entronizadas pelo personagem ficcionado de Fern (Frances McDormand), que se fez à estrada após o falecimento do seu marido Bo, que trabalhava nas instalações mineiras da empresa US Gypsum em Empire, Nevada, como resultado da redução da procura pelo mercado de gesso cartonado. A empresa fechou em Janeiro de 2011 e como todas as cidades mineiras como Empire, definham assim que a razão que as justifica desaparece e Fern permaneceu na casa da empresa depois da morte do seu marido até ser forçada a sair.

Estes dois géneros; o documentário e o drama ficcional ainda que muito próximo da realidade, dificilmente se conjugam de forma a motivar o interesse do espectador num visionamento atento, considerando que a componente documental se refere ao quotidiano de um grupo e pessoas que se dedica a viver a sua vida de uma forma libertária, sem amarras, sem localização fixa, mas as suas atividades em nada diferem de uma vida normal, parca e comum. Eles são os nómadas modernos por opção, diferentes dos povos nómadas naturais, vivem com o mínimo essencial, assumem um corte significativo com a sociedade de que se desligaram, e funcionam à margem do sistema americano onde o capital determina o estatuto e o valor individual.

Fern, o personagem muito seguro e credível construído por Frances McDormand, (que apesar de ter sido também nomeada não recebeu qualquer distinção que este ano foi para a realizadora chinesa Chloé Zhao de 39 anos), representa o detrito vivo do colapso económico da cidade Empire, no estado do Nevada, que serve de “abre-latas” para nos introduzir nos despojos abandonados e degradados da empresa mineira US Gypsum, de onde não mais se podem obter proventos nem meios de subsistência e justificam a demanda de Fern por outros horizontes vivendo na sua caravana, para se juntar a outros espoliados, que tal como ela, caíram no buraco do american dream que Trump jurara a pés juntos, recuperar.

Na sua viagem Fern conhece nómadas reais, tais como Linda May que perdeu o emprego em 2008 e para quem os parcos benefícios da Segurança Social são insuficientes para viver noutro sítio que não seja numa caravana, ou Swankie que tem cancro em fase terminal e prefere morrer na estrada em vez de na cama de um hospital, bem como Bob Wells, que estão considerados no livro de Jessica Bruder e constituem o seu núcleo de amigos restrito.

A certa altura Fern encontra um outro trabalhador da fábrica, Dave (David Strathrain, o único outro ator de carreira que aparece no filme) com quem ela ensaia uma tentativa de amizade, mas quando o filho de Dave o visita, ele acompanha-o de volta à sua casa. Dave convida Fern para o visitar e ela aceita o convite, mas quando se encontram na casa do filho nada acontece e ficamos com a sensação que Fern já não é mulher de casa, não consegue viver no mesmo lugar muito tempo, já não aprecia o conforto de um lar porque choca de frente com o seu sentido de liberdade adquirida.

Fern é o esteio de ligação desta história de abandono, sofrimento e desordem e apresenta-nos uma atuação tranquila e segura, para a qual contribuiu o facto de ter vivido durante toda a rodagem na caravana que foi utilizada no filme (é assim que se faz quando se realiza trabalho honesto). Muito do valor do filme reside nas suas expressões resignadas, com olhar vagando pelo infinito ou sonhando acordada mergulhando nua numa piscina como um desejo improvável. Constitui todavia uma personagem fascinante na sua solidão, na sua frustração que de forma alguma “aquece” o filme para lá da aridez de vidas vazias. Na realidade não conhecemos Fern porque a história não nos a apresenta, apenas podemos intuir fragmentos através da sua interação com os outros. Não achei um filme particularmente interessante, é uma história do quotidiano banal de uma população dispersa e em movimento, pelo que a classificação atribuída vai toda para a personagem criada por Frances McDormand.

Pode ser visto na plataforma de streaming HULU e a partir da segunda quinzena de Março estará disponível na Netflix.

Classificação: 6 numa escala de 10

 

24 de fevereiro de 2021

Opinião – “I Care a Lot” de J. Blakeson

Sinopse

Provida de uma autoconfiança de tubarão, Marla Grayson (Rosamund Pike) é uma guardiã profissional nomeada pelo tribunal para dezenas de enfermarias de idosos cujos bens ela apreende e astutamente rouba por meios duvidosos, mas legais. É uma estratégia bem lubrificada que Marla e sua parceira de negócios e amante Fran (Eiza González) usam com eficiência brutal na sua mais recente atividade empresarial para com Jennifer Peterson (Dianne Wiest) uma aposentada rica sem herdeiros vivos ou família. Mas quando a visada revela ter um segredo igualmente obscuro e ligações muito próximas com um gângster volátil (Peter Dinklage), Marla é forçada a subir de nível num jogo em que só predadores podem jogar.

Opinião por Artur Neves

Com uma tradução nacional que aceitamos; “Tudo pelo vosso Bem”, porque assume os objetivos explícitos da história, embora não sendo reais, temos aqui um thriller tragicómico sobre a obtenção de poder para exclusivo benefício próprio quando transformado em dinheiro que nunca é demais nem tem limite porque facilmente obtido, dedicadamente obtido, por uma Marla Grayson que sem um pingo de respeito pelo próximo ou comiseração, se apropria de todos os bens e fortuna de quem cai na alçada da sua tutoria arranjada, com a conivência de diferentes cúmplices situados em condições adequadas para o conseguir.

Quando vemos Jennifer Peterson ser arrastada de casa pela ordem de um tribunal, contra sua vontade, sem possibilidade de argumentação ou defesa e ser entregue a uma instituição, que lhe restringe a liberdade, lhe confisca o telemóvel e a impede de qualquer contacto com o exterior incluindo ter visitas, com o “carinhoso” acompanhamento de Marla que exibe um sorriso largo, brilhante e comovente, em conjunto com uma voz ronronada de contralto que adiciona uma ameaça velada aquele sorriso, que sabemos exprimir “és a cereja em cima do meu bolo porque vou ficar com toda a tua fortuna…” provoca-nos uma revolta interior e sugere-nos a pergunta se nos USA aquela situação poderia ocorrer de facto.

Pelos vistos parece que sim, especialmente quando a decisão depende de um pouco interveniente juiz (Isiah Whitlock Jr.) que se limita a corroborar tudo o que lhe é apresentado pelas “entidades competentes” naquele tribunal de família em que se pretende defender os idosos alegadamente fragilizados pela doença e pela demência.

Em boa verdade esta é uma história de terror que me faz lembrar “Distúrbio” de 2018 realizado por Steven Soderbergh, só que sem qualquer laivo de comédia. Aí a cativação da vítima é mesmo a sério. Nesta história para os nossos dias, depois de um qualquer Trump ter abandonado contrafeito a Casa Branca, trata-se de obter poder e dinheiro através da exploração dos mais vulneráveis, por uma Marla, que no início do filme ri e escarnece da máxima de que; “trabalhar duro e jogar limpo leva ao sucesso e à felicidade…”, depois explica-se que não é um cordeiro, mas sim uma leoa e nesta altura ainda não sabemos o que ela se prepara para fazer.

Vemo-la depois no seu escritório, olhando para uma parede cheia de fotografias dos seus “clientes”, dos seus “protegidos”, que ela espera que durem o tempo suficiente para lhe darem lucros depois de pagar as luvas à cadeia de “colaboradores” que propiciam aquela situação. Quando por qualquer motivo eles morrem antes do previsto é um falhanço comercial e Jennifer Peterson apresenta um extraordinário potencial de futuro que lhe caiu no colo e ela projeta explorar em todo o seu esplendor.

Todos os 118 minutos deste filme são emocionantes na sua malvadez, na sua história retorcida mas que nos parece próximo do possível e nos faz sentir inquietos com tamanha injustiça. Quase sentimos alívio quando começamos a perceber que Jennifer Peterson não é bem o que parece, só que a sua relação com Roman Lunyov (Peter Dinklage, mais conhecido como o anão Tyrion Lannister em Game of Thrones) também não nos transmite sossego. São só vilões, todos maus, mas aqui a diversão já continua com outro ânimo porque ganhamos a espectativa de que Marla não obterá os seus intentos, mantendo-nos interessados e a tentar adivinhar o próximo passo desta rocambolesca história.

Rosamund Pike está notável neste desempenho de uma pessoa profundamente horrível, socialmente desdenhosa, perversa, com um belo sorriso aterrador, porque encerra o quanto de pior a espécie humana possui. O argumento está muito bem conseguido e J. Blakeson merece parabéns como autor, inspirado por casos publicados no The New Yorker que usam vazios legais não revistos com mais de 800 anos, sobre a proteção de idosos, e realizador porque, com graça e emoção concebeu uma história com vários twists imprevisíveis que nos divertem e emocionam. Recomendo vivamente, em exibição na Netflix.

Classificação: 7 numa escala de 10

 

20 de fevereiro de 2021

Opinião – “Vicky Cristina Barcelona” de Woody Allen

Sinopse

Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) são amigas e passam as férias de verão na casa de uma amiga, Judy Nash (Patricia Clarkson) em Barcelona. Vicky está noiva e é sensata nas questões do amor. Cristina é pura emoção e movida pela paixão. Durante uma exposição de arte, as duas se encantam pelo pintor Juan Antonio (Javier Bardem), que as convida mais tarde, durante um jantar, para um fim de semana de comida, arte e sexo. O que elas não sabiam é que o galante sedutor mantém um relacionamento problemático com sua ex esposa Maria Elena (Penélope Cruz). E as coisas ainda ficam piores porque as duas, cada uma de sua forma, se interessam por ele, dando início a um complicado "quadrado" amoroso.

Opinião por Artur Neves

Enquanto as estreias mais sonantes ficam reservadas para melhores dias no futuro, é tempo de revisão de filmes que nos ficaram na memória e desta feita elegi este, da fase europeia de Woody Allen, quando Scarlett Johansson era a sua musa preferida. Está algo distante da sua homenagem a Londres e a esse thriller de eleição; “Match Point” de 2005, escrito e realizado por ele e passado numa família da alta burguesia inglesa, todavia em “Vicky Cristina Barcelona” o modo de abordar, com a necessária ligeireza, a volubilidade do amor e a constância das escolhas humanas no campo sentimental e afetivo, merece amplamente a sua revisitação pela permanente atualidade do tema.

A sinopse revela toda a história, pelo que não vou repeti-la e apenas quero lembrar que para acentuar o tom ensaístico com que o tema é abordado o filme é narrado por Christopher Evan Welch e embora não acrescentado nada que não se veja nas cenas apresentadas tem o condão de nos antecipar a fundamentação do que iremos apreciar deixando-nos mais atentos para o desenrolar da ação.

O elenco utilizado no filme é todo de primeira água, Rebecca Hall é quem assume o papel mais difícil de uma americana com ideias segura e convencionais sobre o que pretende da vida, deixando-se envolver com reservas, por um Javier Bardem (sem o corte de cabelo à pajem que utilizou no excelente “Este País não é para Velhos”) no papel de um pintor espanhol que na noite em que as conhece, as convida sem rodeios para autenticarem a visita a Espanha num fim de semana em Oviedo sem regras nem limites. É uma sedução ousada, feita por um sedutor existencial que defende ser o prazer a compensação adequada para o sofrimento e as dores da vida.

Vicky resiste aos seus avanços, contrariamente a Cristina, sexualmente aventureira que os aceita, acreditando que o amor só nos envolve a partir de uma grande paixão inicial e independentemente do seu desfecho. Scarlett Johansson é uma atriz naturalmente talentosa e possui uma sensualidade mais exuberante e luminosa do que Marilyn Monroe, porque mais genuína, menos trabalhada e neste filme ela apresenta um visual que grita “sexo” por todos os poros.

Finalmente temos Maria Elena num personagem tresloucado pelo amor enviesado que nutre por Juan Antonio, o seu marido, ex-marido, amante de todos os momentos numa efervescência furiosa. Assume o atual caso com Cristina participando numa ménagem à trois como ativador de uma relação em permanente sobressalto. Penélope Cruz também apresenta um visual que grita sexo, mas aqui com a diferença de ser sexo latino, possessivo, ciumento, determinista, com as suas próprias regras e o seu meio de cativação do outro. Neste filme ela ganhou uma nomeação para o Oscar de atriz secundária e embora não o tendo ganho, obteve diferentes prémios do cinema espanhol pela sua exuberante interpretação.

Nesta altura Woody Allen recompunha na Europa algumas irregularidades da carreira nos Estados Unidos, pelo que se preocupou em divulgar alguns ícones locais, como Gaudi e Miró, através da arquitetura e da pintura exposta na galeria de Judy Nash. A música tradicional de viola solo também não foi esquecida nos jantares de Juan Antonio e Cristina, mas no tema e na forma como ele se desenvolve reconhecemos a mão de Allen nas personagens de Vicky e Cristina, como duas mulheres complicadas mas cada uma do seu jeito. Ambas se sentem perdidas nas escolhas que fazem. Ambas avançam e recuam por caminhos incertos e o que as distingue é somente o modo como encaram a vida e o amor, compondo um quarteto de personagens, pelo qual se pode ensaiar o estudo de relacionamentos amorosos só parcialmente funcionais, o que nos remete para a questão fundamental de todos os filmes de Woody Allen.

Um filme com 13 anos, perfeitamente visível, com um tema eterno que recomendo para ver, ou rever, através de um DVD, ou da plataforma Amazon Prime Video.

Classificação: 7 numa escala de 10

 

16 de fevereiro de 2021

Opinião – “Red Dot” de Alain Darborg

Sinopse

Um homem e uma mulher que esperam o primeiro filho tentam reavivar a paixão do seu casamento numa viagem à neve, na qual acabam perseguidos por assassinos impiedosos.

Opinião por Artur Neves

Nunca me tinha confrontado com uma sinopse tão seca, mas é o que arranja no site oficial da Netflix. Contrariamente a outras sinopses demasiado detalhadas, esta parece-me demasiado redutora e simplista, relativamente a um thriller intenso, que cria robustas cenas de suspense ao longo do desenvolvimento da história, através da omissão de factos que posteriormente são revelados. Quando nos são apresentados eles justificam alguns eventos que nos causaram estranheza anteriormente, mas a sua apresentação somente á posteriori, sem qualquer sugestão anterior para levantar uma dúvida no espectador sobre quem é quem, ou pelo menos que há uma realidade que não conhecemos, sabe a “sopa depois do jantar” e compromete a qualidade global do filme porque parece uma solução arranjada.

David (Anastasios Soulis) e Nadja (Nanna Blondell) são um casal sueco, jovem, que já revela alguns momentos de tensão no seu relacionamento. David é engenheiro civil e está bem empregado, Nadja é estudante de medicina, usufruem de uma vida estável mas algumas acusações mútuas surgem no casal quando Nadja descobre que está grávida e que esse facto vai comprometer a continuação dos seus estudos pelo menos, no tempo imediato.

Para tentar compor o ambiente em casa David surpreende a sua esposa com um fim de semana romântico no norte da Suécia, onde eles se propõem viver ao ar livre, numa tenda, para esquiar e dormir sob o manto da aurora boreal num contacto íntimo com a natureza.

Os preparativos para a viagem decorrem normalmente mas a viagem começa a parecer estranha logo na primeira paragem para abastecimento do carro, com uma troca de palavras pouco comum com dois caçadores (mais tarde veremos que não eram caçadores) que seguiam na mesma direção do norte. O casal, acompanhado pelo seu cachorro Boris, tentam desvalorizar o incidente, mas não deixa de ser o início de alguns eventos sombrios, com Nadja a riscar deliberadamente o carro de um dos caçadores, numa atitude que nesta altura nos parece inusitada e mais estranha ainda se comparada com o que saberemos no fim da história.

No lugar em que eles resolvem acampar, quando na noite se preparam para a fruição da natureza branca e fria que os cerca, aparece na transparência da sua tenda a mira laser de uma espingarda de longo alcance (“Red Dot” o Ponto Vermelho) que sem um objetivo específico, embora perturbador, se passeia pelos seus corpos e pelos diferentes objetos contidos no interior da tenda. Eles saem, procurando o agressor e quando regressam no dia seguinte encontram a tenda vazia porque tinham sido roubados de todos os seus pertences e substituídos por um presente macabro.

É aqui que reside o problema, as atitudes são estranhas, os comportamentos do casal, bem como, com quem eles interagem não parecem adequados em algumas cenas, mas não se vislumbra qualquer motivo, nem sequer indícios, ainda que falsos, nos são apresentados sendo quase induzidos a pensar que se trata de um terror gore justificado por maldade deliberada. Finalmente quando conhecermos as razões e a verdade é revelada já estamos voltados para outro lado e o filme é já quase uma memória, porém é aí que tudo faz sentido.

Assim sendo o que temos aqui é um filme tenso, totalmente sombrio e sem humor ou algo que nos descontraia, o que não significa ser um filme mau, note-se. David e Nadja envolvem-se numa batalha pela sobrevivência num meio que lhes é hostil e impiedoso, refletindo os seus conflitos internos dos quais se querem libertar sem todavia conseguirem, atolando-se cada vez mais numa vertigem maléfica que os destrói pelas suas próprias mãos. Só se lamenta é que o espectador fique todo o tempo a “navegar na maionese”, porque a história até é interessante.

Classificação: 6 numa escala de 10

 

12 de fevereiro de 2021

Opinião – “Palmer” de Fisher Stevens

Sinopse

O ex-astro do futebol americano Eddie Palmer (Justin Timberlake) passou de herói local a criminoso sendo condenado a 12 anos numa penitenciária no estado da Louisiana. Quando volta para casa fica a morar com Vivian (June Squibb), a avó que o criou. Enquanto tenta manter sua cabeça baixa e reconstruir uma vida tranquila para si mesmo, Palmer é assombrado pelas memórias de seus dias de glória e pelos olhos desconfiados de sua pequena comunidade. As coisas ficam mais complicadas quando Shelly (Juno Temple), vizinha de vida dura de Vivian, desaparece depois de uma tortura prolongada, deixando seu único filho de 7 anos, Sam (Ryder Allen), frequentemente alvo de bullying na escola, sob os cuidados relutantes de Palmer. Em tempo, Palmer é atraído para um mundo mais esperançoso enquanto estabelece uma ligação com Sam por meio da experiência compartilhada de ser feito para se sentir diferente por aqueles ao seu redor. Palmer começa a recuperar a sua vida quando um romance se desenvolve entre ele e a professora de Sam, Maggie (Alisha Wainwright) constituindo uma jornada inspiradora e inesperada para os três, mas logo o passado de Palmer ameaça destruir esta nova vida.

Opinião por Artur Neves

Palmer representa a transição de um intérprete vocal e compositor de canções com assinalável sucesso, para ator, desempenhando neste caso o personagem de um condenado por roubo e agressão em liberdade condicional que chega à casa da sua avó para tentar recompor a vida. Não se sabe exatamente qual foi a natureza e a motivação do crime cometido que só nos será revelada posteriormente de forma não muito relevante, porque o que interessa é o processo e o modo de recuperação deste jogador de futebol universitário, de rosto fechado, silencioso, procurando sítios solitários que escondam a sua vergonha e uma raiva constantemente reprimida revelada pelo seu olhar sempre dirigido para um lugar definido.

Com alguma dificuldade e a relutância inicial do diretor, consegue um emprego como contínuo na escola primária local, a credibilidade da sua religiosa avó são o fator decisivo da aceitação na escola e Palmer esforça-se por corresponder, não se furtando a realizar os trabalhos solicitados seja de que natureza forem (não sei se isto corresponde á efetiva realidade dos USA mas se fosse na nossa terra haveria logo uma queixa do sindicato e mais um não sei quanto de contestação, pelas solicitações não incluídas na função).

No quintal da casa da sua avó existe uma rulote alugada (com rendas em falta) a uma mulher de conduta duvidosa, mãe de Sam (Ryder Allen), um miúdo em idade escolar, que apresenta caraterísticas sociais não conformes com o seu género. Aqui reside a marca diferenciadora desta história relativamente às suas congéneres, porque o facto de Sam ser adepto fervoroso de filmes de fadas e princesas, usar uma pregadeira de cabelo na cabeça, brincar com bonecas e fazer tardes de chá a fingir com as meninas da sua classe, não deixa de ser um miúdo por quem Palmer se afeiçoa, embora relutante no início, mas posteriormente rendido à sua inocência, fragilidade e necessidade de proteção que projeta a sua própria necessidade de aceitação num mundo que naturalmente lhe é hostil. Quando Palmer o conhece e priva com ele não pode imaginar como ele irá constituir a sua oportunidade de redenção social e aos olhos da lei.

Sam é apenas um miúdo diferente e o argumento de Cheryl Guerriero nunca se desvia dessa premissa ilustrando uma análise mais profunda e sombria sobre maternidade acidental, paternidade por adoção, abuso e bem estar da criança. Sam não permite que alguma coisa atrapalhe a sua diversão e gosto por princesas e fadas, nem se perturba com o bullying homofóbico dos seus colegas, perseguindo o modelo imposto pelos adultos que os educam. Palmer tenta educá-lo sobre o comportamento heteronormativo, mas o espírito de Sam é forte o suficiente para constituir uma fonte de inspiração para que Palmer possa evoluir para a pessoa que não foi até aqui mas que deseja ser.

A realização de Fisher Stevens é suficientemente robusta, embora com alguns desvios ornamentais de índole sentimental e serve na perfeição para que Timberlake nos mostre as suas capacidades de ator dramático, embora suportadas por um Sam (Ryder Allen), num personagem forte na sua fraqueza e ingenuidade que merece atenção em aparições futuras.

“Palmer” é assim uma história inspiradora sobre a expressão de género que aborda os desafios da idade adulta que as crianças enfrentam, como forma de influenciar os adultos a viverem a sua vida de forma mais autêntica, todavia, durante toda a narrativa ocorre-nos limites onde a história poderia ter chegado, mas não chega. Ainda assim, é um filme amplamente recomendável e interessante, disponível na Apple TV.

Classificação: 6 numa escala de 10

 

10 de fevereiro de 2021

Opinião – “Alguns Dias em Setembro” de Santiago Amigorena

Sinopse

1 de Setembro 2001. Elliot, (Nick Nolte) um espião americano desaparece sem deixar rasto, levando consigo uma informação crucial acerca do futuro imediato do mundo. O seu principal objetivo é rever a filha, Orlando, (Sara Forestier) que abandonou dez anos antes. Organiza então um encontro, através de Irene, (Juliette Binoche) uma amiga de longa data, para o qual convida também David, (Tom Riley) o seu filho adotivo. No entanto, serão perseguidos por William Pound, (John Turturro) um assassino a soldo sem escrúpulos, desde Paris até Veneza, onde se encontrarão com Elliot no dia 11 de Setembro.

Opinião por Artur Neves

É mais um filme que utiliza o 11 de Setembro numa mistura algo desconcertante entre thriller, romance e filme de arte, cuja história está descrita na sinopse e que tem como mais valia os desempenhos de Juliette Binoche, a mais internacional das atrizes francesas, como agente secreta que fuma cigarrilha e fala com a sua tartaruga de estimação e é amiga e colega de trabalho de Nick Nolte que só chega à história no ultimo quarto de hora, mas faz-se notar pelo final dramático que conjuga o pai arrependido com o arauto da desgraça que havia de mudar o mundo para sempre, vestindo uma gabardina creme caraterística do arquétipo figurativo associado aos espiões.

Do outro lado temos um John Turturro investido num assassino a soldo, que persegue Elliot, de pendor poético mas com personalidade neurótica que se alivia das suas ações telefonando para o psicanalista sempre que mata alguém. Pelo teor dos telefonemas o seu objetivo não é o arrependimento, que compensa com a citação de um poema ao morto, mas antes a partilha do seu ato como se isso o aliviasse de alguma auto condenação do seu espírito perturbado.

Irene (Binoche) desloca-se pela Europa a pedido do amigo, acompanhada pelos seus dois filhos de diferentes mães, ambas mortas, que ocupam a maior parte do filme no aprofundamento de um conhecimento mútuo que nós percebemos logo que vai dar romance. Eles legalmente são meios irmãos, mas a proximidade crescente entre eles é legitimada por David, quando citando Henry Miller; “Sexo é bom mas incesto é melhor…” faz a música seguir como esperado, apaziguados que estão os espíritos puritanos.

A chegada de Elliot vai sendo protelada por motivos que desconhecemos e o filme referencia os dias que passam para o encontro durante os dez dias que antecedem o ataque às torres gémeas, sugerindo que alguém, com contactos inconfessáveis sabia antecipadamente o que iria acontecer e lucraria com isso, não só individualmente mas toda a rede de banqueiros de ar suspeito interessados nas revelações que Elliot coletava. Com esta premissa pode inferir-se ainda que o governo dos USA não desconhecia totalmente o que se iria passar em 11 de Setembro, favorecendo as teorias da conspiração que ainda hoje subsistem e que mantêm em suspenso as motivações sobre o ataque ao Pentágono.

No seu conjunto o filme até é agradável, só que não convence no capítulo da alta espionagem para a qual aponta e parece-me excessivo usar um evento da dimensão do 11 de Setembro no meio de uma história que reporta um conjunto de três pessoas que desenvolvem uma química considerável entre si, naturalmente aceite por qualquer espectador que se detenha a apreciar uma narrativa lenta, cheia de adiamentos e perseguidos por um assassino neurótico que em modo bilingue (John Turturro está muito bem) os persegue e que deve ter dado muito trabalho a desempenhar. O argumento tem bons diálogos e o crescimento do romance entre Orlando e David, segue a bom ritmo durante o intervalo da espera do encontro com o pai que idolatra.

São espiões europeus, com família e uma tartaruga, lautas refeições, copos de vinho para esquecer e suspense ligeiro por um perseguidor com problemas de afirmação, que compõem 116 minutos de um filme que se vê com agrado.

Classificação: 5 numa escala de 10

 

7 de fevereiro de 2021

Opinião – “Malcolm & Marie” de Sam Levinson

Sinopse

Quando um cineasta, Malcolm (John David Washington) e a namorada, Marie (Zendaya) regressam ao apartamento de luxo alugado num lugar sobranceiro à cidade, nas colinas de Hollywood, para aguardar a crítica dos mídia sobre a estreia ao seu mais recente filme, tensões latentes entre ambos dão lugar a revelações dolorosas que os levam a confrontar os seus sentimentos e a estabilidade da sua relação

Opinião por Artur Neves

Esta história, escrita e realizada por Sam Levinson para a Netflix que estreou na plataforma nesta sexta feira, 5 de Fevereiro, mostra-nos em preto e branco (podia ser a cores, não havia qualquer mal nisso) o bom desempenho de dois atores em ascensão; Zendaya (Homem Aranha – Longe de Casa, de 2019) e John David Washington (Tenet, de 2020) numa acalorada discussão durante algumas horas que serve para abrir feridas não saradas da relação que mantêm há algum tempo.

A história apresentada tanto serve para cinema como foi apresentada ou para teatro, pois a ação decorre totalmente dentro de casa, embora em várias divisões em que cada um por si, com absoluta cordialidade e respeito mútuo, produzem monólogos mutuamente acusatórios em que cada um responsabiliza o outro por defeitos e consequências que inspiraram o filme em estreia, manifestando a sua mágoa de não terem sido considerados mais estreitamente um pelo outro.

Não se pode dizer que os monólogos sejam mal construídos, eles destilam mágoa e comiseração e em certas falas uma amargura mesquinha que embora constituam boas peças artísticas e bem desempenhadas, tornam-se enfadonhos para o espectador que caiu ali sem pára quedas e não tem mais nada além de palavras, palavras, palavras, que embora sejam muito importantes não têm suporte visual que as justifique, que lhes dê corpo que dê ao espectador a possibilidade de opção, ou de julgamento por uma das versões.

O filme está bem realizado, transmite-nos segurança no conteúdo das cenas e apresenta-se envolvido numa banda sonora recheada de soul music, onde a versão de Duke Ellington e John Coltrane de “In a Sentimental Mood” de Ellington, soa de modo agradável de ouvir e bastante adequada a cada situação, criando o ambiente propício para a evolução dos dois personagens que até são capazes de desenvolver uma química convincente entre eles através de uma suficiente densidade dramática nas suas discussões incessantes, porém, nem tudo é remível somente a palavras e aqui reside a sua principal fragilidade.

Podemos até questionar se Sam Levinson não pretende enviar uma mensagem codificada aos críticos de Hollywood sobre os preconceitos subconscientes revelados em algumas das suas atitudes, considerando o tempo despendido por Malcolm ao insurgir-se contra uma garota branca que escreve para o Los Angeles Times e o questionou sobre a personagem feminina do seu filme. Ele acha que a personagem é clara e como tal destrata-a, acusando-a de estupidez e de insuficiente capacidade para entender a história que ele filmou.

Toda a história tem a estrutura de um combate de boxe, ora agora bato eu, ora agora bates tu e eu defendo-me, mas ambos os contendores apesar de se agredirem intensamente soam como um grito no deserto, pois de seguida ensaiam uma aproximação para se distanciarem na próxima discussão mais intensa que a anterior. "Nada de produtivo vai ser dito esta noite", avisa Marie a Malcolm e de caminho avisa-nos também, porque se não há nada de errado e se tudo o que for dito de um lado pode ser respondido pelo outro, então não temos filme e foi um grande equívoco gastar 106 minutos numa história onde apenas se salva o desempenho dos atores para o qual vai toda a classificação a seguir indicada.

Classificação: 5 numa escala de 10

 

29 de janeiro de 2021

Opinião – “The White Tiger” de Ramin Bahrani


 

Sinopse

Balram Halwai (Adarsh Gourav) narra sua ascensão épica e sombriamente humorística de pobre aldeão a empresário de sucesso na Índia moderna. Astuto e ambicioso, nosso jovem herói abre caminho para se tornar o motorista de Ashok (Rajkummar Rao) e Pinky (Priyanka Chopra-Jonas), que acabavam de retornar da América. A sociedade treinou Balram para ser uma coisa - um servo - então ele se torna indispensável para seus mestres ricos. Mas depois de uma noite de traição, ele percebe o quão corrupto eles são, ao ponto de o incriminar para se salvarem. À beira de perder tudo, Balram se revolta contra este sistema fraudulento e desigual para se levantar e se tornar um novo tipo de mestre. Baseado no best-seller do New York Times e no romance vencedor do Prêmio Man Booker de 2008.

Opinião por Artur Neves

A sociedade Indiana funciona num sistema de castas que significa não haver transição possível ou fácil entre os níveis sociais determinados pela origem do seu nascimento e este filme mostra-nos com clareza o efeito devastador de um tal sistema onde todas as pessoas não têm um meio de se livrar dele. Balram Halwai o protagonista da história ilustra a certa altura o sistema de castas comparando-o a um galinheiro pejado de galos e de galinhas e fechado à chave. Um dia porém a chave perde-se com o galinheiro aberto mas os animais estão tão completamente formatados à vida no galinheiro que nem mesmo com a porta aberta pensam em fugir, continuando a viver no seu interior.

A história é narrada por Balram e começa em 2010 em que ele nos conta como sendo um menino pobre no seio de uma grande família de casta baixa, em que todos trabalham para a avó numa banca de venda de chá, ascende a motorista de uma rica família de senhorios, donos da terra que a família de Balran ocupa, numa existência miserável.

Nem sempre os filmes narrados, ou a narração dos factos evidencia as questões essenciais como no caso deste filme em que Balram nos alerta para o facto do sistema de castas, de servos obedientes e dos seus senhores contribuir para a paz e a ordem, pois declara-nos sem rodeios que “… detestamos os nossos mestres por trás de uma fachada de amor ou os amamos por trás de uma fachada de ódio?...” que fará sentido no momento em que nos é dito.

Bollywood não passou por aqui com os seus romances de cordel, suas paixões lânguidas e seus heróis de pantomima, nem este é um filme sobre um pobre inocente, nem tão pouco um “Quem quer ser Milionário” que implicitamente Balram denigre, quando, ao nos relatar o seu passado de pobreza nos diz “… não acredite por um segundo que existe um jogo de um milhão de rupias que o resgata da sua condição se o ganhar…” pois ele tem plena consciência que o seu lugar na casta onde nasceu não é mutável pelos seus meios, porque a única maneira na Índia de chegar ao topo é pelo crime ou pela política (não é só lá, mas isso Balram já não deve saber).

No seu lugar de motorista da família, Balram aproxima-se do filho do patrão Ashok (Rajkummar Rao),que regressou dos USA com sua mulher Pinky (Priyanka Chopra Jonas) que também ocupa um lugar de relevo na história pela sua posição mais esclarecida, aberta e independente relativamente a Ashok que apesar da sua formação ocidentalizada não consegue libertar-se profundamente do sistema da casta onde pertence.

O casal até se entende bem com Balram, e chama-o de “família” o que não impede porém que eles habitem um andar de luxo e que Balram durma num catre sobre o pavimento da garagem, pejada de baratas e mosquitos sem qualquer comodidade, com os outros motoristas dos outros senhorios. Numa noite de descontração e álcool, Pinky protagoniza um acidente fatal para terceiros, em que os senhores de Balram o pressionam para assumir as culpas e ilibar a família. Pinky e Ashok inicialmente repudiam a participação nesse esquema mas o poder da casta de Ashok não permite essa mancha, mostrando que á sua maneira o sistema os deformou como fez com Balram, só que em sentidos opostos. No fundo Pinky e Ashok até são boas pessoas mas a tradição ancestral é mais poderosa.

Este evento, muda a permissividade de Balram para com os seus senhores, ele não suporta pensar o que poderia ter sido se não pertencesse à casta a que pertence e solta-se a revolta. Antes disso, ele recorda as palavras do seu antigo professor ao saber que ele vai abandonar a escola para trabalhar para a família. Este fica admirado pelo seu potencial inato e apelida-o de “Tigre Branco”, um espécime raro de felino que surge apenas uma vez em cada geração.

Muito bom, recomendo vivamente, está disponível na plataforma Netflix

Classificação: 8 numa escala de 10