2 de dezembro de 2021

Opinião – “Resident Evil – Raccoon City” de Johannes Roberts


 

Sinopse

Voltando às origens da popular história “Resident Evil”, o fã e cineasta Johannes Roberts dá vida aos jogos para toda uma nova geração de fãs. Em “Resident Evil: Raccoon City”, que já foi a casa em expansão da gigante farmacêutica Umbrella Corporation, Raccoon City é agora uma cidade agonizante do médio oeste. O êxodo da empresa deixou a cidade num deserto... com um grande mal fermentando debaixo da superfície. Quando esse mal é desencadeado, um grupo de sobreviventes devem trabalhar juntos para descobrir a verdade por trás da Umbrella e sobreviver durante a noite.

Opinião por Artur Neves

A saga “Resident Evil” começou em 2002 como sendo a luta de Alice (Milla Jovovich), uma ex-especialista em segurança recrutada pelo governo para lutar contra a farmacêutica Umbrella Corporation que desenvolvia armas biológicas que provocavam um apocalipse zumbi. Com este formato e passando por sucessivas sequelas a saga durou entre 2002 e 2016, sendo o último dos seis filmes produzidos nomeado como; “O Capítulo Final”, mas como é sabido, em cinema o final nem sempre é o fim, e cá temos o reinício em 2021 com este “Raccoon City”, que adapta as histórias dos dois primeiros jogos de computador desenvolvidos pela Capcom Co. Ltd que comprou os direitos da história original, para a apresentar em forma de jogo de vídeo. Inicialmente para a plataforma Nintendo Game Cube em 2002 e o segundo jogo em 2019 para a Play Station e XBox, com relevantes melhoramentos da qualidade da imagem e da fluidez da ação apresentada no jogo. Esta adaptação aos jogos de computador começou logo em 2017, após a apresentação de “O Capítulo Final” e agora é o cinema que se serve do argumento do jogo para nos servir este filme… mais palavras para quê?...

Um aspeto que não pode ser esquecido porém, é que todo este material arrecadou mais de mil e duzentos milhões de dólares durante este tempo, tendo sido classificado como o vencedor dos filmes de terror e de zombies em termos de lucros e o record de mais adaptações para filme de um jogo de computador. É obra… todavia como cinema é mais um exemplar recordado pelo seu lucro e não pela sua qualidade, não esquecendo que tem os seus fãs e o seu público dedicado que com certeza vai cumprir o ritual de assistência e deliciar-se com os efeitos especiais e os monstros criados ao longo da história, pois os personagens serão incrivelmente familiares e bem conhecidos dos jogadores de “Resident Evil” e toda a ambiência da história, bem como o seu argumento linear, de fuga e perseguição, com uma narrativa de ação constante e prolongada não dececionará o seu público fiel, embora não provoque a adrenalina que os jogadores frequentes procuram numa sessão de jogo.

Johannes Roberts não é um novato nestas coisas e procura caraterizar a atmosfera do argumento com uma cidade praticamente deserta, chovendo copiosamente na noite em que Claire Redfield (Kaya Scodelario) resolve voltar á cidade onde já viveu na infância em busca do seu irmão Chris Redfield (Robbie Amell) que ficou na casa de acolhimento quando ela fugiu. Ela volta de boleia num camião cisterna, cujo motorista atinge mortalmente uma garota que aparece subitamente na estrada. O motorista quer abandonar o local mas Claire discute com ele forçando-o a parar para dar assistência à sinistrada que se encontra deitada no chão. Enquanto eles discutem a rapariga levanta-se e foge para a floresta iniciando o sentimento de que algo está muito errado em Raccoon City, depois do abandono da cidade pela corrupta Umbrella Corporation que deixou a cidade a morrer com as suas experiências impróprias. O cão do motorista lambe o sangue que encontra no chão e em poucos minutos fica um zombie furioso que morde o dono transmitindo-lhe o mesmo efeito e provocando nos espectadores fiéis a situação de conforto ao recordarem os cães zombie como sendo as “coisas” mais aterrorizantes utilizadas nos jogos. Estou a ouvi-los pensar nas suas cadeiras: “…aí estão os cães!…”

A familiaridade que os personagens inspiram nos jogadores e nos fãs dos filmes hão de contrastar com um Chief Irons (Donal Logue) chefe da esquadra de Raccoon, que masca desesperadamente um pastilha e se apresenta como um chefe de paródia de polícias descontraídos e sem farda, desinteressados da reunião, ou uma Claire muito mais parada do que nos lembramos de Alice (Milla Jovovich) para quem era tudo ação e competição. Tudo se passa entre os heróis contra os zombies para um final previsível desde muito cedo sendo possível adivinhar o caminho do argumento e com quem será travada a sequência final daquela fuga em perseguição dos zombies. Todavia, não acaba aqui, pois após os créditos principais do filme ainda temos um epílogo que nos informa que o filão ainda não secou e teremos continuação no futuro.

Tem estreia prevista em sala para 09 de dezembro.

Classificação: 4 numa escala de 10

25 de novembro de 2021

Opinião – “Casa Gucci” de Ridley Scott

Sinopse

Inspirado na chocante história verídica dos bastidores da família detentora do império da moda italiana. Quando Patrizia Reggiani (Lady Gaga), uma desconhecida de origem humilde, se casa com Maurizio Gucci (Adam Driver), a sua ambição desmedida começa a desencadear no legado da família uma imparável espiral de traição, destruição e vingança que culmina... num assassínio.

Opinião por Artur Neves

Este filme é um drama autobiográfico, baseado no livro “The House of Gucci” escrito em 2001 por Sara Gay Forden e magistralmente dirigido pelo realizador inglês Ridley Scott que tantos e tão bons trabalhos nos tem oferecido ao longo dos anos, dos quais não posso deixar de destacar; “Alien de 1979 ”Blade Runer” de 1982 e a sua sequela de 2017, “O Gladiador” de 2000, ou ainda esse belo fresco sobre o tráfico de droga no México; “O Conselheiro” de 2013, que nos mostra como fazer cinema não depende somente dos meios ao dispor, mas também da qualidade criativa do diretor e do profissionalismo do elenco contratado para o efeito, que consiga desenvolver as caraterísticas dos personagens que nos transmitam com realismo e convicção os seus papéis na história. É um prazer ver cinema assim, para além de um excelente meio de aquisição de cultura.

O universo Gucci constitui uma griffe associada a fama e luxo planetário em malas, sapatos, chapéus, óculos e moda, destinados a uma elite selecionada que está disposta a despender muito dinheiro pelos bens adquiridos que lhe conferem o sentimento de pertença a um “clube privado” de posse de objetos com uma etiqueta que ostenta um elevado número de zeros no seu preço. Aliás no filme é referido o artifício fraudulento praticado por Aldo (Al Pacino), (irmão de Rodolfo (Jeremy Irons) seu sócio na empresa), da fabricação dos mesmos modelos de acessórios mas com materiais e fabricação comuns para venda a preços muito inferiores e poder ser comprado por qualquer pessoa que poderia assim dizer que possuía um “Gucci”. O resultado desse material contrafeito pela própria fábrica Gucci, rendia muitos milhões à marca que não eram declarados ao fisco e não podia ser suspenso, disse Aldo a Patrizia, quando esta lhe propôs encerrar a fabricação.

Gucci, sendo uma marca de tanto prestígio e aceitação tem conseguido manter ao longo do tempo grande reserva sobre a sua constituição e atividade, nomeadamente este caso, que foi considerado na época o mais mediático de Itália, o assassinato de Maurizio Gucci em 27 de Março de 1995, encomendado por sua mulher Patrizia Reggiani em conjunto com uma vidente e cartomante em que ela confiava e de quem se tornou íntima, Giuseppina Auriemma (Pina) (Salma Hayek) através da contratação de dois malfeitores conhecidos desta, que se revelaram incompetentes e grosseiramente levianos ao divulgarem a sua autoria aos amigos, tendo posteriormente constituído alvo de investigação policial que conduziu à incriminação de Patrizia (então conhecida por Viúva Negra) e de todos os implicados, quando no início as autoridades pensavam que o assassinato fosse fruto de uma guerra financeira.

O romance entre Maurizio e Patrizia começa em 1972, numa festa privada para a socialite rica de Milão em que ambos se encontram e simpatizam imediatamente ao ponto de Maurizio perguntar a um amigo; “Quem é aquela linda rapariga vestida de vermelho que se parece com Elizabeth Taylor?”. Ela por seu lado não se sentiu imediatamente atraída, tendo sido a insistência de Maurizio com várias prendas e convites em que ela foi apresentada a Rudolfo Gucci, pai de Maurizio, que a convenceu a namorar e a casar contra a vontade de Rudolfo, que adivinhando o desfecho o ameaçou de o deserdar. Quando Patrizia começou a perceber o enorme filão em que tinha caído, depressa começou a resolver as coisas à sua maneira, pressionando Maurizio e entretecendo alianças e rancores entre os membros da família ao seu alcance, intrometendo-se nos negócios e fazendo com que o declínio da empresa se estendesse ao seu matrimónio até que em 1985 Maurizio decidiu divorciar-se sem que Patrizia concordasse com a separação. O processo foi complexo e devido à progressiva falência da empresa, Paolo Gucci (Jared Leto), filho de Aldo Gucci resolveu vender a sua metade da empresa aos árabes, que embora inicialmente a potenciasse revelou-se uma péssima opção, tendo acabado a magnífica empresa familiar por ter entrado em bolsa, ser comprada por múltiplos proprietários e ser hoje gerida por um conselho de administração onde não figura qualquer membro da família original.

A família Gucci, através da sua porta-voz Patrícia Gucci, não ficou muito satisfeita com o filme, reservando mesmo o direito de mover uma ação judicial, de acordo com os ecos sociais decorrentes da estreia. É pois um filme muito interessante, bem contado e soberbamente representado, fruto de pesquisa e dedicação dos atores na construção dos seus personagens de modo a serem o mais fiel possível à realidade que lhe deu origem, que recomendo sem reservas. É sem dúvida um dos filmes mais aguardados do ano.

Tem estreia prevista em sala a 25 de Novembro

Classificação: 9 numa escala de 10

 

23 de novembro de 2021

Opinião – “As Irmãs Macaluso” de Emma Dante

Sinopse

Maria, Pinuccia, Lia, Katia e Antonella são cinco irmãs que vivem num apartamento em Palermo. Ganham a vida alugando pombas para cerimónias. Num dia normal, na praia, Antonella morre acidentalmente. A sua morte irá transformar as suas relações para sempre.

Filme que esteve em competição no Festival de Veneza de 2020, onde foi o vencedor de vários prémios, nomeadamente o Pasinetti Award para melhor filme e melhores atrizes.

Opinião por Artur Neves

Esta história baseia-se num romance escrito em 2014 pela realizadora Emma Dante, que dele fez inicialmente uma peça de teatro e agora passou para filme, notando-se aqui a centralidade do desenvolvimento da ação no interior do apartamento em Palermo na Sicília, viveiro de pombos, (nem imagino como em teatro isto foi representado) o que limita toda a história ao interior das paredes da habitação, subordinando-se assim à linguagem teatral que apresenta princípios cénicos diferentes da linguagem cinematográfica em que agora é apresentado.

Claro que há filmes totalmente rodados em espaços fechados, como tribunais, quartos ou mesmo casas, mas a história que os suportam não se reporta à forma como a juventude destas cinco irmãs se transforma em idade adulta e daqui passa para a desilusão da velhice solitária e insatisfeita. A mais nova, Antonella, com 6 ou 7 anos e a mais velha, Maria, com 17 ou 18 anos, é quem toma conta dos negócios da casa, entre elas ficam; Katia, Lia, que prefere isolar-se para ler do que cooperar nas tarefas domésticas e Pinuccia que cedo começa a dar sentido aos seus impulsos sexuais.

Quando as conhecemos elas já vivem por sua própria conta, sem pais, tutores, ou alguém que lhes mostre um caminho de vida, qualquer que ele seja. O seu relacionamento com o exterior é com o empresário de eventos que lhes aluga os pombos, para os soltar durante a festa e que posteriormente regressam novamente ao pombal. Elas vivem em roda livre, por elas próprias, cada uma mostrando as suas tendências, desejos, conflitos entre elas, sem qualquer modelo para se guiarem, ou se conterem. Nenhuma frequenta a escola ou tem qualquer tarefa estruturado exceto alimentar os pombos e mesmo essa tem diferenças de acordo com a sua autora. A ida à praia é uma distração fortuita, imediatista, sem preparação, exceto vestirem-se e prepararem o lanche. Do acidente que vitima a mais nova, só temos conhecimento dele em flashback no final do filme, sendo todavia sugerido na ida à praia, servindo como transição para encontrarmos as quatro irmãs restantes na idade adulta, dando início à 2ª parte do filme.

Vemo-las num reunião familiar em que Lia, empurrada pelo seu marido, pretende convencê-las a vender o apartamento para usufruir de algum dinheiro do bem que é de todas. Lia procura essa vantagem sem se preocupar como ficariam as outras três irmãs que continuam a partilhar o espaço embora já sem a atividade do negócio dos pombos que continuam a pairar nas redondezas. É um diálogo amargo, generalizadamente conflituoso entre todas, com ameaças e acusações mútuas que podem derivar das suas diferenças, da sua coabitação forçada por ausência de alternativas e não especificamente do remorso pela morte da irmã mais nova, tal como é referido na sinopse. Elas encontram-se a meio da vida, Lia não é feliz no casamento, as outras não seguiram um caminho autónomo e suportam-se por necessidade. Não há felicidade naquele conjunto de mulheres e é isso que motiva os seus confrontos.

Na 3ª parte encontramos três irmãs já velhas a cuidarem penosamente umas das outras, preparando o funeral de uma delas e despejando o apartamento de que já não precisam e que foi negligenciado e sem amor durantes os anos em que o coabitaram. É uma tragédia global que define esta história em que a morte da irmã foi apenas o episódio mais doloroso.

Emma Dante tem aqui uma história poderosa, da saga de uma família desestruturada que cresceu sem amadurecer que serviria para uma série ao estilo de “Downton Abbey”, e que por isso não cabe nos 89 minutos que lhe foram dedicados aparecendo-nos como uma série de postais ilustrados sobre cenas da vida de pessoas ligadas por laços familiares mas que nada mais conseguiram entre si do que o desgosto, a angústia da solidão, e as acusações mútuas da sua própria miséria. As personagens criadas são planas, carecem de densidade, porque nós vemo-las apenas nas situações que a realizadora nos mostra, omitindo o caminho que as levou até ali. É fácil, dentro do senso comum, inferir o seu percurso, mas aí é o espectador a dar conteúdo às imagens e aos factos e não a interpretar o caminho que caberia a Emma Dante mostrar e justificar.

Na 3ª parte podemos observar uma estranha paz de comiseração e aceitação da vida que gorou as expectativas de juventude e culpar o sentimento de perda insuperável, mas ainda assim serão liberalidades do espectador e não uma conclusão do fio da história. É pena… algumas imagens de dias ensolarados e pássaros esvoaçando no céu sem nuvens não inibem sair-se do filme com a sensação de saber a pouco… muito pouco mesmo.

Tem estreia prevista em sala dia 01 no de Dezembro

Classificação: 4 numa escala de 10

 

21 de novembro de 2021

Opinião – “Oldboy” de Park Chan-Wook

Sinopse

Num dia em 1988, Dae-su, um homem casado e com uma filha, é raptado e aprisionado num quarto de hotel sem qualquer explicação. Quinze anos depois é libertado, é-lhe dado dinheiro, um telemóvel e um fato novo. Desorientado, ele luta para descobrir porque foi preso. Mas o seu raptor ainda tem planos para ele e envia-lhe mensagens que o incitam à vingança.

Opinião por Artur Neves

Oldboy é um filme Sul Coreano realizado em 2003 que foi distinguido com o Grande Prémio do Festival de Cinema de Cannes em 2004, tendo recebido rasgados elogios de Quentin Tarantino que à data era o presidente do júri, pelas suas sequências de ação e de luta que o classificaram como um dos melhores filmes neo-noir de todos os tempos e incluído na lista em construção dos melhores filmes do século XXI. Foi a seu tempo um campeão de bilheteira tendo compensado com larga vantagem o seu custo de produção. A história foi baseada numa trilogia mangá japonesa, “The Vengeance Trilogy” da qual este título constitui o segundo episódio.

Em boa verdade a história que o suporta, sumariamente descrita na sinopse, está bem desenvolvida através de um enredo forte que prende o espectador até ao fim pela dissimulação bem conseguida sobre os motivos que justificam a detenção de um homem durante 15 anos num quarto fechado, para o qual lhe omitem qualquer razão para o seu estado. O homem é Dae-su Oh (Choi Min-sik) um empresário coreano que em 1988 foi preso no dia do aniversário da sua filha de quatro anos, por conduta imprópria devido a embriaguez na via pública. Imagine-se agora o desespero dessa pessoa após recuperar o equilíbrio mental perturbado pelo álcool, sentir-se presa num quarto, atrás de uma porta fechada na qual somente se abre um postigo junto ao chão para receber um tabuleiro com comida às horas das refeições, sem que qualquer palavra seja proferida da parte do entregador dos alimentos.

Este isolamento durante um tempo tão prolongado provoca inevitavelmente insanidade que Dae-su responde como pode, vendo televisão, fazendo atividades físicas, destruindo os móveis do quarto, fazendo desenhos, tentando a fuga através da destruição das paredes que resistem bem às suas investidas, construindo respostas para as perguntas que nunca o abandonam e desenvolvendo uma filosofia que partilha com o espectador em off e que há de servir de sustentáculo para todas as suas ações após sair do cativeiro a que foi sujeito, igualmente sem uma justificação, sem uma palavra, sem um destino, tendo-lhe apenas sido entregue um fato e algum dinheiro.

Julgo também importante avisar o leitor, que para lá da excelente qualidade do argumento e da boa interpretação dos personagens, estamos perante uma cultura diferente da cultura ocidental o que muda tudo relativamente aos comportamentos que estamos habituados a experienciar em situações semelhantes. Começando pela linguagem, com a sua dicção brusca e abrupta em todas as situações que nos faz estranhar o seu comportamento e onde não encontramos emoções que corroborem a sua equivalência ocidental. Por outro lado, as ações individuais provocam decisões que aos nossos olhos são tomadas sem a natural ponderação que é habitual assistir no ocidente, assim como, as expressões emotivas denotando uma urgência e uma inevitabilidade a que não estamos habituados e que nos é estranho. Considere-se ainda ser um filme realizado em 2003, numa fase em que a presença oriental no ocidente estava no seu início e essa cultura milenar existia ainda muito fechada dentro dos seus limites.

Todavia, depois de aceitar as suas peculiaridades e caraterísticas intrínsecas de amor, ética, moral e forma de executar uma vingança, afinal é disso que se trata a história do filme, fica-nos o devido espaço para apreciar um enredo que se desenvolve numa mente ferida, à procura de provocar idêntico sofrimento no causador de um suicídio. Só no fim saberemos tudo e durante os 122 minutos de duração do filme vamos sendo lentamente informados, com fugazes indícios, sobre os motivos que residem por detrás das ações dos personagens. Muito interessante a todos os níveis, gostei e recomendo sem reservas.

Tem estreia prevista em sala para dia 25 de Novembro

Classificação: 8 numa escala de 10

 

17 de novembro de 2021

Opinião – “Demoníaco” de Neill Blomkamp

Sinopse

Quando Carly Spenser (Carly Pope) descobre que a sua mãe Angela (Nathalie Boltt) entrou em coma, concorda relutantemente em participar numa terapia inovadora que lhe permitirá entrar no cérebro ainda ativo de Ângela e comunicar com ela. Observada pelo médico Michael (Michael J. Rogers) e pelo neurocientista Daniel (Terry Chen), Carly entra numa simulação da paisagem mental de Ângela, onde descobre a poderosa força sobrenatural que levou a sua mãe a cometer atos de violência indescritíveis quase duas décadas antes. Assombrada por visões aterradoras, Carly junta forças com o seu velho amigo Martin (Chris William Martin) enquanto tenta desesperadamente afastar o demónio monstruoso antes que este possa entrar num novo corpo e infligir mais dor e sofrimento ao mundo. Um thriller de terror com um toque de alta tecnologia escrito e realizado por Neill Blomkamp (Distrito 9; Elysium).

Opinião por Artur Neves

Neill Blomkamp é um realizador sul-africano nascido em Johannesburg em 1979 que tendo vivido alguns anos no regime de apartheid que vigorou entre 1948 e 1990 impondo uma violenta segregação racial, apresentou-nos em 2009 um filme de ficção científica; “Distrito 9” onde se vivenciava esse regime já em ambiente de caos, o que tornou a história surpreendente na época, e motivou uma aceitação generalizada, não tanto pela história em si, mas por toda a textura social onde ela se desenvolvia. Seguiu-se “Elysium” em 2013 e também “Chapiie” em 2015, ambos no tema da ficção científica, tendo sido realizações que alcançaram notório sucesso. No primeiro caso apresentando também um tema sobre segregação de classes que motiva uma revolução popular artilhada por meios técnicos evoluídos e em “Chappie” a história de um robot “fofinho” a puxar mais para ternura e menos para a tecnologia.

Em termos abstratos nada obsta em associar à ficção tecnológica qualquer tema social objeto de denúncia por parte do seu autor, mas associar o sobrenatural, qualquer que ele seja de duvidosa realidade existencial, à investigação ficcionada ou não, em neurociência, gera, como no presente filme, uma dissonância de meios incompatível com ambos os temas. Ou seja, dito de uma forma mais concreta e objetiva; O demónio infiltrado no corpo de Angela, a mãe desaparecida de Carly, só pôde ser eliminado espetando-lhe a ponta de uma lança com poderes mágicos, resgatada de uma mitologia inventada à pressa para matar o “bicho” e evitar a sua propagação pela ocupação indevida de outro corpo hospedeiro. Ainda bem que nós vemos o demónio a arder em chamas, o que indicia que não haverá uma sequela, todavia em cinema e com demónios destes nunca se sabe ao certo o que resultará no futuro.

Foi assim que eu vi este “Demoníaco” filme, em que uma filha ostracizada pela mãe e a quem ela respondeu da mesma maneira, se predispõe a participar numa experiencia neurocientífica tal como descrito na sinopse que eu me escuso de reproduzir. O que se segue são viagens pelos locais recriados pelo pensamento da mãe em que a filha a procura, seguindo uma voz que a chama para se encontrarem nos sítios mais estranhos em que a mãe manda a filha embora avisando-a de que está em perigo. Então se sabia que se ela a encontrasse estaria em perigo porque a chamou?... Porque era o demónio que habitava o seu corpo que lhe ordenava… responderá quem vir o filme. Então se o demónio que a possuía procurava outro corpo para habitar, porque permitia que ela depois de encontrar a filha, lhe dissesse para se afastar porque estava em perigo?... Enfim, são incongruências destas destinadas a estender o argumento durante o tempo previamente estabelecido para o filme que me provocam a sensação de incapacidade na transmissão da ideia de medo, de história de suspense, ou mais profundamente ainda, da existência de uma transcendência maligna, que nem precisa de forma ou corpo, para consumar os seus maléficos desígnios. Uma desilusão e um desperdício de tempo.

Tem estreia prevista nos cinemas em 25 de Novembro

Classificação: 2 numa escala de 10

 

15 de novembro de 2021

Opinião – “The Card Counter – O Jogador” de Paul Schrader

Sinopse

A redenção é um longo jogo em "The Card Counter: O Jogador", de Paul Schrader. Contado com intensidade cinematográfica, marca registrada de Schrader, este thriller conta a história de um ex-interrogador militar que se torna num jogador assombrado por fantasmas das suas decisões do passado. Com interpretações irrepreensíveis de Oscar Isaac, Tiffany Haddish, Tye Sheridan e Willem Dafoe.

Opinião por Artur Neves

Paul Schrader regressa ao seu tema preferido sobre redenção e expiação dos “pecados” cometidos, no qual nos trouxe em 2017 essa obra de referência que dá pelo nome de “No Coração da Escuridão” já apreciado neste blogue, ou o seu argumento de “Taxi Driver” em 1976, dessa vez realizado por Martin Scorsese, para citar somente os trabalhos mais significativos no género. Desta vez a realização também é sua muito embora no genérico do filme esteja referenciada a colaboração de Scorsese como coprodutor.

Schrader criou agora um drama sobre uma personalidade obsessiva, ausência de esperança e desespero constante embora controlado, de um homem que vagueia pelo mundo do jogo profissionalizado depois de sair da cadeia onde ficou preso por oito anos como condenação para os seus crimes contra os suspeitos detidos na prisão de Abu Ghraib, vítimas de sevícias inconfessáveis para confessarem as suas ligações à Al-Qaeda ou outras organizações do fanatismo muçulmano contra os USA. É mais uma vez também uma história que aborda o comportamento da máquina de guerra americana na sua busca constante por um bode expiatório que justifique as suas decisões discricionárias como aconteceu com as “armas de destruição maciça” para justificar a 1ª invasão do Iraque.

William Tillich (Oscar Isaac) é um homem de olhar tenso e rosto fechado, discreto, que deambula pelo mundo cinzento dos casinos de jogos de azar. Na prisão a que ele se adaptou bem, teve tempo para aprender a ciência dos jogos de azar, aprendeu a contar as cartas que vão saindo, a estudar os rostos e a linguagem não-verbal dos seus adversários, perscrutando-lhes a alma para adivinhar as suas opções e para daí obter vantagens. Todavia ele é um solitário e um jogador modesto, nunca ganhando altas quantias para se manter no respaldo do seu anonimato. Apesar de todos esses cuidados ele é notado por La Linda (Tiffany Haddish) uma jogadora que lhe pergunta se ele estaria interessado em se tornar jogador profissional suportado por financiadores das suas relações. Para lá do convite La Linda sente atração por esse homem sóbrio, frio e reservado mas de boas maneiras e de fino trato.

Todavia William sente o peso da solidão diária e numa visita a uma convenção de segurança é abordado por um jovem, nervoso e imaturo, Cirk (Tye Sheridan) que lhe propõe ajuda para matarem um inimigo comum. William não aceita a sua proposta mas reconhece o desperdício de vida do jovem que tem à sua frente e convida-o a acompanhá-lo pelos casinos, prometendo ensinar-lhe os segredos do jogo, como forma de canalizar para essa atividade a sua raiva e a sua mágoa por este mundo sem alma, de uma maneira inofensiva e mais produtiva. Contudo, Cirk tem ideias próprias e embora aceite o convite não se desfaz do seu projeto.

William fica assim com duas tarefas que lhe são estranhas; o contrato proposto por La Linda e o encargo de mentoria sobre Cirk para orientar aquele rapaz num caminho mais útil para a vida e para o futuro. Adicionalmente o filme mostra-nos ainda a formatação sombria dos campeonatos de jogos de azar, os competidores espremidos nas mesas, exuberando os seus ganhos sem se lembrarem do que irão perder depois, e toda aquela fauna anónima que frequenta o salão de bingo.

Na linha narrativa de Schrader, ele construiu um filme intenso, sóbrio que nos hipnotiza nos flashbacks do sofrimento dos prisioneiros da prisão de Abu Ghraib, filmados em tons de amarelo ocre com uma grande angular que deforma os lugares e os prisioneiros já deformadas pelas sevícias a que são sujeitos. William, ou “Bill” como ele se apresenta, sente-se perseguido por tudo aquilo que o assalta nos seus sonhos e lhe faz sentir urgência na compensação para suportar os seus fantasmas. É para isso que ele vive. Muito interessante, gostei.

Tem estreia prevista em sala em 18 de Novembro

Classificação: 7 numa escala de 10

 

14 de novembro de 2021

Opinião – “O Meu Primo Desajeitado” de Jan Kounen

Sinopse

Pierre (Vincent Lindon, de “A Lei do Mercado”) é um executivo em funções na sua empresa familiar de vinhos. Prestes a firmar o que ele julga ser o negócio do século, ele deve concluir uma última formalidade: conseguir a assinatura do seu primo Adrien (François Damiens, de “A Família Bélier”) que possui 50% das ações da empresa. Os dois vão embarcar na viagem de negócios mais explosiva das suas vidas onde os sentimentos familiares serão testados ao limite.

Opinião por Artur Neves

Este filme, na tradição comum do cinema francês, apresenta-nos uma história em jeito de comédia, mas com mais mensagem para lá dos gags normais dos filmes de comédia, na viagem de avião e noutras cenas que conduzem a trapalhadas caricatas das suas personalidades dissonantes, considerando que se trata do confronto de dois homens com posturas perante a vida profundamente diferentes que o acaso conduziu a um projeto comum abordado à luz das suas diferenças.

A sinopse sumariza a história que não passa da realização de um negócio de compra de uma empresa e de uma marca com créditos firmada no ramo, com vista ao incremento da empresa familiar de vinhos de que ambos são possuidores, que lhes trará inerentes benefícios mútuos na continuação do negócio. Todavia a história profunda assenta no olhar diferente que ambos têm sobre o negócio comum, nos diferentes pormenores que ambos valorizam na empresa, decorrente da forma muito diferente que ambos têm em ver o mundo, o amor e as coisas da vida. É mais um filme de pormenores, de subtilezas, que embora não sendo óbvias e tradicionais, devido às suas diferentes personalidades, não deixam de ser subtis e de pormenor.

Pierre Pastié é o gestor focado no trabalho, na obrigação de conseguir o progresso continuado para a sua empresa, criar e manter oportunidades de negócio cada vez mais vantajosas com prejuízo da atenção devida à sua família, ao filho e à sua casa. Adrien Pastié, seu primo muito chegado devido a tê-lo salvado de um desastre de afogamento, como viremos a saber mais tarde, é o oposto dele. Desorganizado, sempre inspirado para viver o momento, indiferente às consequências das suas atitudes, intempestivo sem contudo ser violento e com uma sensibilidade exacerbada em relação a tudo o que o cerca e envolve. Desaparece sem deixar rasto nem atualiza a sua localização, como desta vez em que já não via o primo Pierre há 10 anos e só volta para se inteirar da necessidade da sua presença no negócio que Pierre quer consumar. Todavia a sua forma de interagir com o meio é totalmente personalizada e estranha aos olhos menos habituados a compreender comportamentos fora da caixa, o que gera todo o enredo da história contada neste filme.

Como pode imaginar-se não é fácil objetivar diferenças subtis entre pessoas, o que torna a história interessante do ponto de vista da surpresa que as diferentes conceções possam apresentar, mas por outro lado enferma de uma narrativa com pouca dinâmica porque fica declarada à partida a divergência mútua de opiniões, tornando esta algo arrastada. Porém, o twist final imposto à história, com um misto de lucidez, humanidade e discernimento inesperado de onde menos era previsível, reabilita a confiança nas personalidades flexíveis relativamente às obstinações teimosas. Interessante.

Tem estreia prevista em sala para dia 18 de Novembro

Classificação: 5 numa escala de 10

 

9 de novembro de 2021

Opinião – “Os Inocentes” de Eskil Vogt

Sinopse

Quatro crianças tornam-se amigas durante as férias de verão. Fora da vista dos adultos, descobrem que têm poderes escondidos. Enquanto exploram as suas habilidades recém-descobertas em florestas e parques das proximidades, a brincadeira inocente sofre uma reviravolta sombria e coisas estranhas começam a suceder. Estreia mundial na secção Un Certain Regard do Festival de Cannes.

Opinião por Artur Neves

Os filmes escandinavos apresentam normalmente uma visão particular para a vida e para as suas idiossincrasias, diferente das que os anglo-saxónicos, ou os latinos como nós as vêm, e este filme mostra com realismo essa diferença. Escrito e realizado por Eskil Vogt de nacionalidade Norueguesa, este filme é o seu segundo trabalho, que sucedeu a “Blind” de 2014 não estreado entre nós, mas que foi destacado no Festival de Sundance desse ano, com o prémio de Melhor Argumento.

A história deste filme sobre o tema de terror artístico, aborda o mundo solitário da infância, antes da entrada na adolescência, onde tudo é misterioso porque desconhecido, mas é objeto de exploração dedicada e sinceridade arrepiante por falta da noção de valor dos seus atos, podendo atingir a extrema violência devido à utilização de capacidades excecionais usadas impensadamente, servindo-se de uma abordagem sobrenatural raramente utilizada em filmes do género, de cariz sensorial e sem recurso a fantasmas, ou bruxas, ou sombras que assustam criancinhas e invadem os seus sonhos, macumbas ou vodus, e outros clichés tradicionais dos chamados filmes de terror, sem contudo deixar de ser realista e violento.

A história desenvolve-se em torno de quatro crianças, Ida (Rakel Lenora Fløttum) irmã mais nova de Anna (Alva Brynsmo Ramstad) que sofre de autismo e forte perturbação motora e da fala, Aisha (Mina Yasmin Bremseth Asheim) uma menina, talvez originária da Etiópia, muito alegre e desembaraçada que apresenta faculdades especiais no espectro auditivo e Ben (Sam Ashraf) que lentamente começa a aperceber-se de faculdades extraordinária do seu cérebro em controlar objetos e mais tarde pessoas, quer na interação próxima como remota.

É a relação entre estes quatro miúdos que desenvolvem toda a história. Ida, Anna e os pais mudaram-se recentemente para este bairro na periferia de Oslo, implantado num bosque e com acesso a uma praia. Tem um parque de diversões infantil e boas acessibilidades por onde Ida deambula para se integrar na área, umas vezes acompanhada pela irmã Anna, outras sozinha, numa das quais, trava conhecimento com Ben, com quem socializa facilmente e juntos caminham pelo bosque, descobrindo o terreno e descobrindo as suas particularidade individuais. Posteriormente, ambos encontram Aisha que imediatamente é integrada no grupo. Os três, primeiro, e por vezes os quatro, quando Anna acompanha Ida, vão descobrindo as suas potencialidades, telequinésicas no caso de Ben e extra auditivas no caso de Aisha que reúne condições excecionais para comunicar com Anna, recebendo as ondas mentais da sua atividade cerebral que ela não consegue transformar em palavras devido à insuficiência da sua capacidade motora. Todavia, com a ajuda de Aisha ela consegue articular palavras simples que anteriormente lhe estavam vedadas, bem como produzir alguns desenhos inteligíveis. Ben por seu lado desenvolve as suas aptidões de psicocinésia e diverte-se a utilizá-la em diferentes contextos, tanto nas brincadeiras do grupo como fora dele, o que leva todos ao desespero e constitui o enredo da história.

Todos os adultos incluídos no filme são meros figurantes porque devido à tenra idade das crianças as queixas e conversas com os seus progenitores são rapidamente desqualificadas e eles não sabem como transmitir os seus medos profundos, pelo que toda a tensão passa pelo grupo de miúdos que diariamente convive e sente, a degradação da amizade e o crescendo de tensão sem saber o que fazer. Por outro lado, as legendas incluídas no filme são quase dispensáveis, considerando que a narrativa que importa é-nos transmitida pelos planos fechados da excelente fotografia de Sturla Brandth Grøvlen, fixando-se nos objetos que as crianças pegam ou olham, na forma como mexem num grão de areia, numa crosta da pele, como se olham, como se retraem, como se a câmara estivesse interessada em todas as suas atividades durante as deambulações pelos espaços. São estes pormenores que porfiadamente fazem avançar o enredo e nos dão a sensação da aprendizagem avulsa que sucessivamente adquirem. É o contraste entre os planos fechados com a intimidade dos miúdos e os planos abertos, com os pais e com a comunidade que pontuam a continuidade do filme e nos mostram a evolução do enredo.

Não é um filme comum, é inteligente, intrigante, está bem conseguido e registo como deficiência o facto dos miúdos europeus serem os heróis, e os não europeus como Ben, um indiano, ser o vilão, evidenciando alguma xenofobia conceptual, porque qualquer um deles poderia ter aquela caraterística, todavia gostei, pelo que recomendo sem reservas.

Ainda sem data de estreia em sala, este filme vai ser apresentado em antestreia nacional no Leffest - Lisbon & Sintra Film Festival, onde integra a Competição Oficia

Classificação: 7 numa escala de 10

 

4 de novembro de 2021

Opinião – “Mães Paralelas” de Pedro Almodôvar

Sinopse

Duas mulheres coincidem no mesmo quarto de hospital onde vão dar à luz. Ambas são solteiras e engravidaram por acidente. Janis, (Penélope Cruz) de meia-idade, não se arrepende e exulta. A outra, Ana, (Milena Smit) adolescente, está assustada, arrependida e traumatizada. Janis tenta encorajá-la enquanto elas caminham pelos corredores do hospital. As poucas palavras que trocam nessas horas vão criar um vínculo muito estreito entre as duas, que o acaso se encarregará de desenvolve e complicar, mudando de forma decisiva as suas vidas. “Mães Paralelas” é o novo filme do premiado diretor espanhol Pedro Almodôvar protagonizado por Penélope Cruz, Julieta Serrano e Rossy de Palma.

Opinião por Artur Neves

Almodôvar desta vez enreda-se e enreda-nos numa história política envolvida por sentimento de mãe, de mães ancestrais, mães atuais e descendentes, que na sobriedade estilística do seu estilo de filmar, desenvolve um enredo de raízes metafóricas que começa pelo desejo de Janis em encontrar os restos mortais do seu bisavô assassinado pelo exército de Franco durante a guerra civil espanhola entre os anos de 1936 – 1939, perseguindo o comportamento de gerações que exercem a identidade materna através de três tipos de mães muito diferentes no seu desvelo com a descendência que concebem.

Janis (Penélope Cruz, em mais um bom desempenho) é uma mulher independente, repórter fotográfica para revistas e jornais, que se envolve com um antropólogo forense Arturo (Israel Elejalde), com quem ela se cruza na sua busca pelos restos mortais do seu bisavô numas ruinas recentemente descobertas. Desse relacionamento, Janis engravida consciente e deliberadamente, sem que isso implique o compromisso de Arturo sob qualquer forma, que ela sabe ser casado e já ter família. Na maternidade ela cruza-se com Ana (Milena Smit) uma adolescente imprevistamente grávida que está aterrorizada com o parto e com a situação posterior ao nascimento do bebé, considerando que é filha de pais separados, vive com a mãe, uma atriz exclusivamente focada no seu trabalho que nunca teve tempo para cuidar da filha e muito menos terá para cuidar de netos. Janis compreende os medos de Ana, apoia-a, encoraja-a e dá-lhe toda a colaboração possível estabelecendo uma amizade que floresce dia a dia pela ajuda recebida, que terá profundo reflexo no futuro de ambas.

Quero referir que neste filme as mulheres não são retratadas como mártires ou de maneira condescendente como mulheres enganadas por homens oportunistas. Não, neste filme não há anjos nem vilões. Cada mulher citada tem uma identidade clara e assume as suas escolhas de acordo com a sua educação ou as suas influências políticas e os homens, de Janis e de Ana, não são demonizados pelos seus comportamentos, bem como, Teresa (Aitana Sánchez-Gijón), mãe de Ana que só fala da sua carreira, dos seus espetáculos, sem que seja censurada por Janis que a ouve sem esforço nem reserva.

É neste entretecimento de personalidades que Almodôvar configura habilmente um complicado enredo que ele chama de “Mães Paralelas”, mães fortes, seguras de si e imperfeitas no sentido tradicional do termo, mas que não é por isso que são menos mães, que a sua maternidade é menos sentida, menos sincera ou menos válida. É antes a forma delas estarem na vida.

Depois da formalização deste retrato, Almodôvar liga-o aos erros do seu país, da Espanha apanhada numa guerra fratricida de que é necessário conhecer e compreender o passado ainda latente em muitas mães e avós que só depois disso poderão caminhar livres em direção ao futuro, gerar novas vidas e cuidar delas. Só compreendendo a razão política que deu origem a tanta dor é que se pode pensar no futuro. Na filmografia de Almodôvar, este é o seu trabalho mais político em que se mostra mais zangado com o passado, no sentido de pretender compreendê-lo para sanar as discrepâncias vividas das vidas ainda em suspenso e Almodôvar faz isso com elegância formal através de uma narrativa fluida e imagens de ambientes inteligentemente construídos, que constituem o elo de ligação entre os personagens do passado, presente e futuro e os acontecimentos que os condicionam.

Como já referi, “Mães Paralelas” é o trabalho mais político de Almodôvar, embora humano, muito diferente de “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos” de 1988, “Má Educação” de 2004, ou “A Pele Onde eu Vivo” de 2011 que foram marcantes na sua carreira e está mais na linha de; “Dor & Gloria” de 2019, em que Almodôvar ensaiou uma reconciliação com a sua história pessoal e tenta agora neste filme um confronto com a sociedade onde se insere, reacendendo velhas feridas com o objetivo de promover o seu saneamento. Pode parecer confuso, mas o aprofundamento psicológico dos seus personagens com uma evidente carga melodramática, estabelecem o paralelo com o drama ainda latente das vítimas do franquismo. Gostei, merece ser visto.

Tem estreia prevista em sala para 1 de Dezembro

Classificação: 7 numa escala de 10

 

2 de novembro de 2021

Opinião – “Titane” de Julia Ducournau

Sinopse

Vencedor da Palma de Ouro no último Festival de Cinema de Cannes. Após uma série de crimes sem explicação, um pai reúne-se ao seu filho que estava desaparecido há 10 anos. Combinando terror e “body horror”, eis um filme que a realizadora Julia Ducournau descreve deste modo: "para dar a ‘Titane’ a sua forma definitiva, concentrei-me na ideia de que através de uma mentira, podes dar vida ao amor e à humanidade. Quis fazer um filme que, pela sua violência, pudesse parecer ‘desagradável’ a princípio, mas que depois nos levasse a apegar-nos às personagens e, em última análise, a receber o filme como uma história de amor. Ou melhor, uma história sobre o nascimento do amor”.

Opinião por Artur Neves

É o segundo longa metragem de Julia Ducournau e ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2021, estando selecionado pela França para competir aos Óscares 2022 na categoria de filmes estrangeiros. Como era quase uma desconhecida para mim e uma surpresa a sua vitória, pesquisei os seus antecedentes tendo verificado que são poucos; Dois filmes para a televisão, uma curta metragem, e “Row” de 2016, o seu primeiro filme como realizadora, com a história de uma jovem estudante sedenta de carne crua. É um filme complexo e chocante, mas pela novidade imaginativa da história (não se trata de vampirismo) pareceu-me até mais interessante que este “Titane”, muito embora, e tal como nos diz a sinopse, se procure um caminho alternativo para o amor, a compaixão, o sentimento de pertença, a compensação da perda de um homem envelhecido que só procura a sua continuação, o seu legado. É assim um nome para acompanhar com atenção pois promete surpresas.

“Titane” é assim um filme de terror corporal, significando isso que a sua negatividade resulta da sua malformação, seja ela genuína ou adquirida. No presente caso trata-se de Alexia, uma garotinha que viaja no banco de trás do carro de seu pai e o irrita com palavras e acusações. No extremo da discussão ela solta o cinto de segurança e o pai volta-se para a repreender, desviando os olhos da estrada e provocando um despiste donde resulta um grave ferimento na cabeça de Alexia, com quebra do osso craniano que é tratado com a implantação de uma placa de titânio que lhe provoca uma particular cicatriz demasiado evidente e uma alteração comportamental que justifica o enredo da história.

O que quer que o desastre lhe tenha provocado, a criança Alexia (Adèle Guigue), era já de si uma criança problema, uma “semente ruim” na opinião do seu inútil pai, de olhos mortiços que se acendem com fúria quando o provoca e a história não exclui a ideia de que ela quereria provocar o desastre para se ver livre dele. Depois de ela sair do hospital e algum tempo passado, Alexia (Agathe Rousselle) adulta, ganha a vida fazendo dança erótica e soft strip-tease em feiras e salões de exposição automóvel, despertando paixões em alguns frequentadores que ao tentarem interagir com ela são mortos sem piedade, de forma cruel e sanguinária. São vários assassínios em série que lançam a suspeita sobre ela de cuja publicidade tem de se esconder.

No final de uma sessão ela sente o chamamento de um Cadillac da década de 50, bebedor de gasolina mas bem conservado, por quem ela sente uma atração arrebatadora e com quem pratica sexo louco, do qual resulta uma gravidez que ela não esperava, mas que lhe faz crescer a barriga e inchar os seios donde brotam gotas de óleo negro, assim como pela sua vagina durante o banho. É como se o seu corpo fosse somente o recetáculo de algo que ela não domina, não conhece, nem lhe pertence.

Para se esconder do retrato robot publicado pela polícia, ela parte o nariz a si própria, corta o cabelo até manter escondida a peculiar cicatriz, cinta-se com ligaduras para esconder o peito e a barriga em desenvolvimento, veste roupas largas e entrega-se numa esquadra de polícia como sendo o desaparecido Adrien, há muito procurado pelo pai, Vincent (Vincent Lindon) chefe de bombeiros da corporação local, que se desmancha em lágrimas por ter encontrado o seu filho continuamente procurado.

E é aqui que a história passa da escuridão para a luz, da fantasia para a realidade. Vincente é um personagem sóbrio, com princípios, com regras, é atlético, embora a idade já lhe negue a frescura muscular de outros tempos que ele tenta compensar sem sucesso com esteroides, revelando o medo e a confusão de menino que foi forte noutros tempos. Aqui revela-se a inteligência da realização deixando propagar-se um misto de emoções contraditórias que culminam com o aconchego de Alexia à cabeça de Vincente deitada no seu colo, que faz lembrar uma Pietá acariciando o seu filho, constituindo a mais forte metáfora do filme.

Estes dois personagens são o “alfa” e o “ómega” de toda a história ao perceberem que precisam um do outro. Alexia ansiava por um pai cuidador que não denegrisse a sua integridade. Vincente precisava ver-se como pai, mesmo que seja de um filho que ele sabe não lhe pertencer nem compreender, mas não julga, apenas aceita conforme se apresenta. Ambos encontram assim a redenção das suas vidas, entre horrores inclassificáveis, entre atos de violência e sexo, entre traumas inconfessáveis, apenas procurando a bênção um do outro.

É isto que Ducournau nos traz neste “Titane”, na forma de um corpo transmogrificado, um bebé de automóvel humanoide e um pai em perda de si e da função que persegue. Nem todos são reais mas todos procuram aceitação e amor. É muito interessante ver como esta distopia foi apresentada por Ducournau. Eu gostei e recomendo.

Em cena nos cinemas em sala e sem replicação por streaming até agora.

Classificação: 7 numa escala de 10

 

29 de outubro de 2021

Opinião – “Spencer” de Pablo Larrain

Sinopse

O casamento da Princesa Diana e do Príncipe Carlos há muito se transformou numa relação gélida. Entre abundantes rumores de casos extraconjugais e divórcio, a paz é encomendada para celebrar as festividades de Natal na propriedade real de Sandringham House. Há comida e bebida, tiro ao alvo e caça. Diana conhece o jogo. Mas desta vez, as coisas vão ser muito diferentes. Spencer, uma ficção do que se poderá ter passado nesses fatídicos dias.

Opinião por Artur Neves

Pablo Larrain avisa logo no início do filme que este é; “Uma fábula de uma verdadeira tragédia” para nos preparar para o que vamos assistir como sendo uma ficção do que pode ter acontecido nessa longínqua semana de 1991 em que a família real inglesa se reuniu no palácio de Sandringham em Norfolk, para festejar o Natal, cumprindo assim uma velha tradição da casa real que Isabel II faz questão de continuar, numa altura em que o casamento de Diana com Carlos já se encontra em ruínas, ela sente-se constrangida pela presença de Camila entre os convidados, e os sussurros existentes na corte e por todo o lado sobre a existência de infidelidades no casal já não podem mais ser omitidos porque a realidade é bem evidente, pelo menos da parte de Carlos.

Aqui não posso deixar de referir o curiosíssimo facto que nos é apresentado à chegada dos convivas ao palácio. A primeira regra para cumprir a tradição é serem pesados numa báscula decimal, a ninguém é permitido excluir-se dessa prática e o seu peso é meticulosamente registado no livro dos convidados. À saída, após os três dias de duração do Natal real, todos são novamente pesados na mesma balança. A diferença entre as duas pesagens traduz oficialmente o grau de felicidade e divertimento que o convidado usufruiu. Isto é para mim um exemplo acabado da “atualidade” da tradição monárquica no seu melhor.

Diana está muito bem representada por Kristen Stewart que desempenha uma perturbada princesa pelos pesadelos que assombram a sua mente, não cumprindo regras nem horários para confrontar a rigidez da praxis real, alucinando ao jantar em que se vê a ela própria comendo as pérolas do colar que lhe foi oferecido e de seguida vomitando-as no WC, sonhando acordada com Ana Bolena, que se cruza com ela nos corredores do palácio, e a avisa de ter sido decapitada pelo rei Henrique VIII para poder desposar uma nova rainha. Diana está todo o tempo como uma sonâmbula num ambiente que é hostil onde só encontra compreensão num aliado, a sua camareira Maggie (Sally Hawkins), que posteriormente será afastada. Diana não goza de qualquer privacidade, quer no palácio, ou fora dele nas terras vizinhas de uma propriedade que pertenceu à sua família. Diana sofre a opressão do palácio e perde o controlo da realidade na sua ansia de fugir dali.

Acho aqui que existirá algum exagero da parte do escritor e autor do argumento, Steven Knight, na encenação da demência e do colapso mental de Diana que nesta altura apenas luta pela sua libertação daquele casamento falhado, concentrando toda a sua atenção no cuidado e no amor aos filhos Williams (Jack Nielen) e Harry (Freddie Spry). A visão e Steven sobre Diana, embora numa história de ficção biográfica, mostra um sentido de humor perverso que em certa medida serve para branquear o papel da família real inglesa em todo o drama conjugal da casa real inglesa numa altura em que já se conhece a conclusão da relação de Carlos com Camila. A relação de Diana com Harry e a personalidade deste, embora ainda em formação em 1991, pode indicar o que veio a verificar-se em 2019 com a sua rutura com estrondo, com o pai e com a monarquia inglesa a que pertence.

A escolha de Kristen Stewart de 31 anos, com toda a sua experiência da série “Crepúsculo”, conferiu-lhe a massa crítica necessária para desempenhar o ícone Diana com uma visão estranhamente precisa e convincente do personagem que não me admiro se for indicada para o Oscar. Kristen consegue mostrar-nos os maneirismos da princesa, que podemos inferir das imagens reais que conhecemos, com uma precisão que nos convence, ao mesmo tempo que nos diverte com piadas que poderiam ter sido ditas por Diana naquele contexto, bem como o seu sotaque do norte de Inglaterra e o arregalar dos olhos que nos mostra o absurdo da vida infernal que Diana deve ter sofrido. A própria kristen deve ter sofrido o abuso insistente dos média durante o êxito adolescente de “Crepúsculo” pelo que sabe representar com propriedade o sofrimento de Diana com os paparazzi e os tabloides que a perseguiam. É uma biografia ficcionada, muito bem interpretada por Kristen Stewart que enche toda a cena com a sua excelente performance, coadjuvada por um elenco de secundários de primeiríssima água que merece ser visto, recomendo.

Estreia nas salas em 5 de Novembro

Classificação: 7 numa escala de 10

 

27 de outubro de 2021

Opinião – “Três Andares” de Nanni Moretti


 

Sinopse

Três Andares foi um dos filmes mais consensualmente aplaudidos do último festival de Cannes, onde Moretti regressou em competição com esta história de um prédio de Roma habitado por três famílias que, ao longo de dez anos, têm de lidar com situações dolorosas, difíceis e desconfortáveis. As escolhas que cada um faz vão determinar o curso da sua existência. Uma adaptação do romance do escritor israelita Eshkol Nevo, o filme conta com as magníficas interpretações do próprio Nanni Moretti, Margherita Buy, Riccardo Scamarcio e Alba Rohrwacher.

Opinião por Artur Neves

De Moretti recordo à 20 anos atrás o seu prémio da Palma de Ouro em Cannes 2001 com o filme “O Quarto do Filho”, onde Moretti mostrou que soube construir inquietações e estados de espírito intensos relativamente aos valores familiares, quando toda a família sofre o revés da morte do filho num acidente de mergulho. A história densifica-se quando Moretti (que protagoniza a interpretação do pai) entra numa espiral depressiva através da obsessiva insistência em projeções contrafactuais que em nada ajudam a realização do luto, nele próprio como na família, induzindo outros males.

Desta vez Moretti fez tudo diferente. Com base no romance “Three Floors Up” (que dá nome ao filme) escrito pelo israelita Eshkol Nevo e originalmente ambientado em Tel Aviv, enveredou por nos mostrar os infortúnios e os incidentes lamentáveis que ocorreram aos inquilinos de três andares de um prédio situado numa zona de classe média suburbana de Roma e das consequências desses eventos ao longo de 10 anos, sob uma abordagem que tresanda a melodrama, enfatizando o lado negativo como se não tivesse havido nada de recomendável e de auspicioso durante esse mesmo período. É tudo infortúnio e desgraça, que embora apresentem uma sequência lógica, são analisados pela superficialidade dos acontecimentos, quase dando a entender que Moretti reuniu o cardápio da desgraça e “meteu tudo no assador” para nos fazer puxar a lágrima ao canto do olho.

Na sua nota de realização sobre o filme, Moretti refere que quis abordar “…temas universais como a culpa, as consequências das nossas escolhas, a justiça e a responsabilidade que acompanha a parentalidade” e reconhecemos que estas vertentes estão espelhadas nas histórias, através de eventos concentrados naquelas três famílias, mas que nos soa a falso, revelado pela manipulação da realidade para nos encharcar com o melodrama de todas aquelas felicidades.

E começa logo no início do filme, com o irreverente filho Andrea (Alessandro Sperduti) do austero juiz Vittorio (Nanni Moretti), a provocar um acidente fatal que causa a morte de uma mulher que atravessa uma passadeira de peões, devido a conduzir embriagado e em alta velocidade ao chegar a casa, enquanto, ao mesmo tempo, na mesma rua Monica (Alba Rohrwacher) irremediavelmente grávida, se desloca a pé para o hospital para dar à luz o filho do seu marido ausente devido a obrigações profissionais que o mantém fora da cidade. Monica é um pouco lerda das ideias, tem horror da solidão e tem visões criadas pelos seus sentidos que não são reais, mas que condicionam o seu comportamento. Para completar o leque, Lucio (Riccardo Scamarcio), casado com Sara (Elena Lietti) têm uma filha de 7 anos que curte uma amizade especial por um vizinho idoso que toma esporadicamente conta dela, mas de quem Lucio suspeita de ser pedófilo, sem que para isso tenha qualquer prova ou indício concreto.

Com o desenrolar da história mais personagens vão chegando construindo uma estrutura abrangente com diversas interações com os inquilinos dos três andares, mas em toda a história o espectador nunca fica envolvido com qualquer dos personagens que são abordados superficialmente, atrapalhando-se uns aos outros, com erros, tristezas, dúvidas e solidão que vivem com elas próprias e as caracterizam criando uma atmosfera redundante de tédio que não transmite uma ideia clara sobre o que pretende, nem representa satisfatoriamente o passar dos anos. Moretti costuma impregnar as suas histórias de drama, polvilhado com alguma ironia que neste filme está completamente ausente. Parece-me que a história teria resultado melhor se Moretti tivesse centrado a ação no prédio. Ao apresentar outros locais e outras envolvências a ação esbate-se e o drama fragmenta-se, embora contenha ainda boas cenas fortemente emotivas. Se é adepto de um melodrama recheado de estereótipos, então este filme é para si.

Tem data prevista de estreia nas salas em 4 de Novembro

Classificação: 5 numa escala de 10

23 de outubro de 2021

Opinião – “O Último Duelo” de Ridley Scott

Sinopse

Da 20th Century Studios e do visionário cineasta Ridley Scott, chega “O Último Duelo”, um emocionante conto de traição e vingança contra a brutalidade e a opressão feminina da França do século XIV. O filme é um épico histórico baseado em eventos reais retratados em “O Último Duelo: Uma História Verdadeira de Crime, Escândalo e Julgamento por Combate na França Medieval”, é protagonizado pelo vencedor do ÓSCAR® Matt Damon e o duas vezes nomeado ao ÓSCAR® Adam Driver, como dois nobres em disputa, cujos problemas deverão ser resolvidas num duelo até à morte.

Opinião por Artur Neves

A história em que se fundamenta este filme data do século XIV, em França, na região da Normandia mas tem sido vivamente discutida até à atualidade por muitos eruditos donde resultaram até agora, muitos pareceres e opiniões e até um livro de não ficção escrito em 2005 por Eric Jager, professor de história medieval na UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles) que se interessou pelo assunto depois de ler as crónicas da época e sentir que o tema deveria ser mais investigado para preencher as lacunas que os textos deixavam em aberto, entre os relatos factuais e os boatos da época, eivados pelo obscurantismo dos seus propaladores. Toda essa investigação resultou no livro que foi publicado em 2005, cujos direitos foram comprados em 2019 pela 20th Century Studios e Jager contratado como consultor, considerando que o acórdão do julgamento real e religioso que lhe está subjacente, assenta na subtileza da decisão de uma mulher, dar, ou não, o seu íntimo consentimento em consumar um ato sexual.

A história em questão assenta na confissão de Marguerite de Carrouges (Jodie Comer), ao seu marido, Sir Jean de Carrouges (Matt Damon) de ter sido violada por Jacques Le Gris (Adam Driver) um nobre amigo do casal e companheiro de armas, depois de forçar a entrada em casa dela durante a ausência do marido numa viagem a Paris. Na altura, a sogra que com eles coabitava tinha também viajado por motivo de assuntos pessoais, acompanhada pela aia de Marguerite, pelo que ela se encontrava sozinha no castelo e embora rechaçasse as investidas de Le Gris não teve força suficiente para o impedir de consumar os seus intentos. É importante referir aqui que na época as mulheres eram consideradas uma propriedade legal dos seus maridos, pelo que o ato de Le Gris foi um crime cometido contra a casa Carrouges, contra a nobreza do título e não contra ela, embora tenha sido ela a ser submetida a um extenso e pormenorizado julgamento, cujo registo é ainda hoje objeto de estudo e investigação.

O resultado do julgamento, proferido por um imberbe rei Carlos VI, de riso nervoso e decisão inconsequente, determinou a realização de um duelo até à morte entre os dois contendores, considerando que, Deus conhecia a verdade e não permitiria que o inocente morresse e o culpado saísse ileso da contenda. O nome do filme assenta no facto de ter sido este o último combate em forma de duelo, sancionado pelo estado na história da França, a que curiosamente o filme não se refere.

Como pode concluir-se, tanto no século XIV como na atualidade o tema continua na ordem do dia e Ridley Scott construiu um filme portentoso, competente na representação da idade média francesa, repleto de ação em lutas e batalhas muito bem conseguidas com todos os pormenores de vestuário, armas e ambiente, bem como, os exuberantes banquetes e orgias em que culminavam as reuniões dos nobres depois do fragor da luta.

O objetivo do filme é contar a verdade sobre este caso, que devido à inconsistência dos relatos chegados até aos dias de hoje, o realizador apresenta a história da violação sob o ponto de vista de cada um dos intervenientes. Primeiro a descrição segundo Carrouge, que foi a contada pela mulher, depois a descrição de Le Gris e finalmente Marguerite que o desfecho do argumento parece querer indicar-nos ser a correta. Isto significa que vemos duas vezes a cena da violação contada à vez por ambos os intervenientes, sendo constante como é de esperar, a cena da violação em si mesma o que mostra ao espectador que ambos experienciaram a mesma realidade, todavia, o ângulo e a proximidade da câmara de filmar sobre o rosto de Marguerite é ligeiramente diferente em cada um dos relatos, mostrando-nos subtilmente as alterações de postura do rosto e das mãos em cada uma das cenas, e considero relevante citar essa diferença nesta crónica, porque é o filme a pedir ao espectador que faça o seu juízo em face do que lhe está a ser apresentado, considerando que através dos relatos e crónicas anteriores nunca se chegou a uma conclusão fechada sobre a verdade dos acontecimentos e nem o realizador, nem Eric Jager, têm certezas absolutas sobre a história.

De acordo com o olhar da ética do século XXI e depois de movimentos como o #MeToo, é óbvio que o relato de Marguerite é verdadeiro e nós vemo-la a resistir tanto quanto pode aos avanços de Le Gris, contudo, anteriormente também vimos uma “chispa” entre os seus olhares quando são apresentados e um início de flirt fugaz, embora sem continuação. É nesta dicotomia que o filme magistralmente nos apresenta que reside a sua importância social, deixando tudo em aberto e passando a responsabilidade para o espectador à luz das suas convicções e experiências, decidir se são as mulheres que exageram nas queixas, ou são os homens que são os brutos, sem prejuízo da consideração de que sexo sem consentimento é crime. Muito bom, para ser visto com atenção pois constitui um bom espetáculo em todas as vertentes da história. Recomendo vivamente.

Tem estreia prevista nas salas em 28 de Outubro

Classificação: 9 numa escala de 10

 

20 de outubro de 2021

Opinião – “Uma Paixão Simples” de Danielle Arbid


 

Sinopse

Hélène (Laetitia Dosch) é uma professora da academia parisiense, especialista na vida e obra da dramaturga inglesa do século XVII, Aphra Behn. Ela fala directamente para a câmara enquanto descreve o seu encontro com o diplomata russo por quem se apaixonara durante uma festa no Porto. À medida a que a relação entre os dois se transforma numa obsessão para Hélène, ela começa a comportar-se de modo inconsequente, negligenciando os cuidados do filho e de si própria.

Opinião por Artur Neves

Somente por ironia displicente é que se poderá considerar uma paixão, qualquer paixão humana, como simples e este filme ilustra a paixão de Hélène que começou por ser uma pulsão romântica por um homem, mas que intensificada pela compatibilidade sexual entre ambos se tornou num sentimento intenso e obsessivo pela sua presença junto dela. O tema é tudo menos novo, como será óbvio para o leitor, e fundamenta-se no romance do mesmo nome publicado em 1991, da autoria de Annie Ernaux que surpreendeu o panorama literário francês pelo rompimento dos estereótipos tradicionais dos romances de amor, descrevendo as cenas entre os amantes com todo o erotismo e honestidade de uma relação apaixonada, despida de vergonhas ou julgamentos morais.

O filme segue o guião o mais fielmente possível, mostrando-nos Hélène como uma mulher culta, professora de literatura na faculdade, divorciada, com um filho em idade escolar a seu cargo, que por se ter apaixonado por um homem casado, Aleksandr Svitsin (Sergei Polunin), espera-o constantemente dia após dia para fruir a felicidade, a profunda plenitude do corpo e do espírito que a relação entre ambos lhes proporciona, num fulgor sexual próprio de adolescentes mas que arrasa completamente quando surge nesta idade mais madura. Ela respeita a situação de comprometimento dele e nada mais lhe pede para lá da entrega honesta do seu desejo, consumado nos momentos de prazer extremo que a levam ao infinito dos sentidos e lhe provocam a dolorosa saudade que a anula nos intervalos de ausência, nos momentos em que ele se prepara para sair, receando e recusando aceitar a hora dele partir para sempre.

Para esbater a ténue linha entre a ficção e a realidade, a realizadora libanesa Danielle Arbid coloca Hélène a falar na primeira pessoa, tal como no romance, a confidenciar-nos a história da sua relação, o que sente, o que a justifica naquela paixão que lhe traz a maior felicidade, paga com a maior solidão durante a ausência dele que ela não controla nem condiciona. O telefone cumpre aqui o elemento de comunicação de sentido único que ela só pode usar quando ele liga, estando-lhe vedada essa iniciativa por acordo mútuo, nem para somente ouvir a sua voz do outro lado.

A separação sufoca-a, só ele circula livremente dentro e fora da vida dela e isso torna-se uma fonte de ansiedade paralisante que lhe motiva aprender russo enquanto descasca ervilhas, ou quando golpeia a terra num intervalo de jardinagem ocupacional. Eles são intelectualmente muito diferentes. Ela é especialista em dramaturgia inglesa do século XVII e está a preparar uma tese sobre o tema. Ele é um segurança da embaixada russa em Paris que gosta de bons carros e admira Putin e raras vezes conversa com ela no quarto ou na cama, nem sequer lhe fornece explicações cabais para o simbolismo das tatuagens que tem no corpo, mas a interação de ambos é mais forte que todos os intelectualismos.

Toda a história é envolvida por músicas francesas adequadas às situações mais marcantes da história, cantadas por Charles Aznavour, Gilbert Bécaud ou o Flying Pickets em “Only You feel” que nos relata a tristeza da hipótese de abandono. Sempre que ele sai ela nunca sabe se, e quando volta, comportando-se esta temática como uma nova abordagem, de prosa inteligente e desarmante suportada com uma linguagem despojada, do drama erótico tão caro ao cinema francês; “Amour Fou” e desta vez, formalmente mais ousado. Muito boa interpretação do personagem de Hélène por Laetitia Dosch, numa história velha como a humanidade. Gostei e recomendo, para ver sem tabus.

Estreia nos cinemas em 28 de Outubro

Classificação: 6 numa escala de 10