27 de outubro de 2021

Opinião – “Três Andares” de Nanni Moretti


 

Sinopse

Três Andares foi um dos filmes mais consensualmente aplaudidos do último festival de Cannes, onde Moretti regressou em competição com esta história de um prédio de Roma habitado por três famílias que, ao longo de dez anos, têm de lidar com situações dolorosas, difíceis e desconfortáveis. As escolhas que cada um faz vão determinar o curso da sua existência. Uma adaptação do romance do escritor israelita Eshkol Nevo, o filme conta com as magníficas interpretações do próprio Nanni Moretti, Margherita Buy, Riccardo Scamarcio e Alba Rohrwacher.

Opinião por Artur Neves

De Moretti recordo à 20 anos atrás o seu prémio da Palma de Ouro em Cannes 2001 com o filme “O Quarto do Filho”, onde Moretti mostrou que soube construir inquietações e estados de espírito intensos relativamente aos valores familiares, quando toda a família sofre o revés da morte do filho num acidente de mergulho. A história densifica-se quando Moretti (que protagoniza a interpretação do pai) entra numa espiral depressiva através da obsessiva insistência em projeções contrafactuais que em nada ajudam a realização do luto, nele próprio como na família, induzindo outros males.

Desta vez Moretti fez tudo diferente. Com base no romance “Three Floors Up” (que dá nome ao filme) escrito pelo israelita Eshkol Nevo e originalmente ambientado em Tel Aviv, enveredou por nos mostrar os infortúnios e os incidentes lamentáveis que ocorreram aos inquilinos de três andares de um prédio situado numa zona de classe média suburbana de Roma e das consequências desses eventos ao longo de 10 anos, sob uma abordagem que tresanda a melodrama, enfatizando o lado negativo como se não tivesse havido nada de recomendável e de auspicioso durante esse mesmo período. É tudo infortúnio e desgraça, que embora apresentem uma sequência lógica, são analisados pela superficialidade dos acontecimentos, quase dando a entender que Moretti reuniu o cardápio da desgraça e “meteu tudo no assador” para nos fazer puxar a lágrima ao canto do olho.

Na sua nota de realização sobre o filme, Moretti refere que quis abordar “…temas universais como a culpa, as consequências das nossas escolhas, a justiça e a responsabilidade que acompanha a parentalidade” e reconhecemos que estas vertentes estão espelhadas nas histórias, através de eventos concentrados naquelas três famílias, mas que nos soa a falso, revelado pela manipulação da realidade para nos encharcar com o melodrama de todas aquelas felicidades.

E começa logo no início do filme, com o irreverente filho Andrea (Alessandro Sperduti) do austero juiz Vittorio (Nanni Moretti), a provocar um acidente fatal que causa a morte de uma mulher que atravessa uma passadeira de peões, devido a conduzir embriagado e em alta velocidade ao chegar a casa, enquanto, ao mesmo tempo, na mesma rua Monica (Alba Rohrwacher) irremediavelmente grávida, se desloca a pé para o hospital para dar à luz o filho do seu marido ausente devido a obrigações profissionais que o mantém fora da cidade. Monica é um pouco lerda das ideias, tem horror da solidão e tem visões criadas pelos seus sentidos que não são reais, mas que condicionam o seu comportamento. Para completar o leque, Lucio (Riccardo Scamarcio), casado com Sara (Elena Lietti) têm uma filha de 7 anos que curte uma amizade especial por um vizinho idoso que toma esporadicamente conta dela, mas de quem Lucio suspeita de ser pedófilo, sem que para isso tenha qualquer prova ou indício concreto.

Com o desenrolar da história mais personagens vão chegando construindo uma estrutura abrangente com diversas interações com os inquilinos dos três andares, mas em toda a história o espectador nunca fica envolvido com qualquer dos personagens que são abordados superficialmente, atrapalhando-se uns aos outros, com erros, tristezas, dúvidas e solidão que vivem com elas próprias e as caracterizam criando uma atmosfera redundante de tédio que não transmite uma ideia clara sobre o que pretende, nem representa satisfatoriamente o passar dos anos. Moretti costuma impregnar as suas histórias de drama, polvilhado com alguma ironia que neste filme está completamente ausente. Parece-me que a história teria resultado melhor se Moretti tivesse centrado a ação no prédio. Ao apresentar outros locais e outras envolvências a ação esbate-se e o drama fragmenta-se, embora contenha ainda boas cenas fortemente emotivas. Se é adepto de um melodrama recheado de estereótipos, então este filme é para si.

Tem data prevista de estreia nas salas em 4 de Novembro

Classificação: 5 numa escala de 10

23 de outubro de 2021

Opinião – “O Último Duelo” de Ridley Scott

Sinopse

Da 20th Century Studios e do visionário cineasta Ridley Scott, chega “O Último Duelo”, um emocionante conto de traição e vingança contra a brutalidade e a opressão feminina da França do século XIV. O filme é um épico histórico baseado em eventos reais retratados em “O Último Duelo: Uma História Verdadeira de Crime, Escândalo e Julgamento por Combate na França Medieval”, é protagonizado pelo vencedor do ÓSCAR® Matt Damon e o duas vezes nomeado ao ÓSCAR® Adam Driver, como dois nobres em disputa, cujos problemas deverão ser resolvidas num duelo até à morte.

Opinião por Artur Neves

A história em que se fundamenta este filme data do século XIV, em França, na região da Normandia mas tem sido vivamente discutida até à atualidade por muitos eruditos donde resultaram até agora, muitos pareceres e opiniões e até um livro de não ficção escrito em 2005 por Eric Jager, professor de história medieval na UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles) que se interessou pelo assunto depois de ler as crónicas da época e sentir que o tema deveria ser mais investigado para preencher as lacunas que os textos deixavam em aberto, entre os relatos factuais e os boatos da época, eivados pelo obscurantismo dos seus propaladores. Toda essa investigação resultou no livro que foi publicado em 2005, cujos direitos foram comprados em 2019 pela 20th Century Studios e Jager contratado como consultor, considerando que o acórdão do julgamento real e religioso que lhe está subjacente, assenta na subtileza da decisão de uma mulher, dar, ou não, o seu íntimo consentimento em consumar um ato sexual.

A história em questão assenta na confissão de Marguerite de Carrouges (Jodie Comer), ao seu marido, Sir Jean de Carrouges (Matt Damon) de ter sido violada por Jacques Le Gris (Adam Driver) um nobre amigo do casal e companheiro de armas, depois de forçar a entrada em casa dela durante a ausência do marido numa viagem a Paris. Na altura, a sogra que com eles coabitava tinha também viajado por motivo de assuntos pessoais, acompanhada pela aia de Marguerite, pelo que ela se encontrava sozinha no castelo e embora rechaçasse as investidas de Le Gris não teve força suficiente para o impedir de consumar os seus intentos. É importante referir aqui que na época as mulheres eram consideradas uma propriedade legal dos seus maridos, pelo que o ato de Le Gris foi um crime cometido contra a casa Carrouges, contra a nobreza do título e não contra ela, embora tenha sido ela a ser submetida a um extenso e pormenorizado julgamento, cujo registo é ainda hoje objeto de estudo e investigação.

O resultado do julgamento, proferido por um imberbe rei Carlos VI, de riso nervoso e decisão inconsequente, determinou a realização de um duelo até à morte entre os dois contendores, considerando que, Deus conhecia a verdade e não permitiria que o inocente morresse e o culpado saísse ileso da contenda. O nome do filme assenta no facto de ter sido este o último combate em forma de duelo, sancionado pelo estado na história da França, a que curiosamente o filme não se refere.

Como pode concluir-se, tanto no século XIV como na atualidade o tema continua na ordem do dia e Ridley Scott construiu um filme portentoso, competente na representação da idade média francesa, repleto de ação em lutas e batalhas muito bem conseguidas com todos os pormenores de vestuário, armas e ambiente, bem como, os exuberantes banquetes e orgias em que culminavam as reuniões dos nobres depois do fragor da luta.

O objetivo do filme é contar a verdade sobre este caso, que devido à inconsistência dos relatos chegados até aos dias de hoje, o realizador apresenta a história da violação sob o ponto de vista de cada um dos intervenientes. Primeiro a descrição segundo Carrouge, que foi a contada pela mulher, depois a descrição de Le Gris e finalmente Marguerite que o desfecho do argumento parece querer indicar-nos ser a correta. Isto significa que vemos duas vezes a cena da violação contada à vez por ambos os intervenientes, sendo constante como é de esperar, a cena da violação em si mesma o que mostra ao espectador que ambos experienciaram a mesma realidade, todavia, o ângulo e a proximidade da câmara de filmar sobre o rosto de Marguerite é ligeiramente diferente em cada um dos relatos, mostrando-nos subtilmente as alterações de postura do rosto e das mãos em cada uma das cenas, e considero relevante citar essa diferença nesta crónica, porque é o filme a pedir ao espectador que faça o seu juízo em face do que lhe está a ser apresentado, considerando que através dos relatos e crónicas anteriores nunca se chegou a uma conclusão fechada sobre a verdade dos acontecimentos e nem o realizador, nem Eric Jager, têm certezas absolutas sobre a história.

De acordo com o olhar da ética do século XXI e depois de movimentos como o #MeToo, é óbvio que o relato de Marguerite é verdadeiro e nós vemo-la a resistir tanto quanto pode aos avanços de Le Gris, contudo, anteriormente também vimos uma “chispa” entre os seus olhares quando são apresentados e um início de flirt fugaz, embora sem continuação. É nesta dicotomia que o filme magistralmente nos apresenta que reside a sua importância social, deixando tudo em aberto e passando a responsabilidade para o espectador à luz das suas convicções e experiências, decidir se são as mulheres que exageram nas queixas, ou são os homens que são os brutos, sem prejuízo da consideração de que sexo sem consentimento é crime. Muito bom, para ser visto com atenção pois constitui um bom espetáculo em todas as vertentes da história. Recomendo vivamente.

Tem estreia prevista nas salas em 28 de Outubro

Classificação: 9 numa escala de 10

 

20 de outubro de 2021

Opinião – “Uma Paixão Simples” de Danielle Arbid


 

Sinopse

Hélène (Laetitia Dosch) é uma professora da academia parisiense, especialista na vida e obra da dramaturga inglesa do século XVII, Aphra Behn. Ela fala directamente para a câmara enquanto descreve o seu encontro com o diplomata russo por quem se apaixonara durante uma festa no Porto. À medida a que a relação entre os dois se transforma numa obsessão para Hélène, ela começa a comportar-se de modo inconsequente, negligenciando os cuidados do filho e de si própria.

Opinião por Artur Neves

Somente por ironia displicente é que se poderá considerar uma paixão, qualquer paixão humana, como simples e este filme ilustra a paixão de Hélène que começou por ser uma pulsão romântica por um homem, mas que intensificada pela compatibilidade sexual entre ambos se tornou num sentimento intenso e obsessivo pela sua presença junto dela. O tema é tudo menos novo, como será óbvio para o leitor, e fundamenta-se no romance do mesmo nome publicado em 1991, da autoria de Annie Ernaux que surpreendeu o panorama literário francês pelo rompimento dos estereótipos tradicionais dos romances de amor, descrevendo as cenas entre os amantes com todo o erotismo e honestidade de uma relação apaixonada, despida de vergonhas ou julgamentos morais.

O filme segue o guião o mais fielmente possível, mostrando-nos Hélène como uma mulher culta, professora de literatura na faculdade, divorciada, com um filho em idade escolar a seu cargo, que por se ter apaixonado por um homem casado, Aleksandr Svitsin (Sergei Polunin), espera-o constantemente dia após dia para fruir a felicidade, a profunda plenitude do corpo e do espírito que a relação entre ambos lhes proporciona, num fulgor sexual próprio de adolescentes mas que arrasa completamente quando surge nesta idade mais madura. Ela respeita a situação de comprometimento dele e nada mais lhe pede para lá da entrega honesta do seu desejo, consumado nos momentos de prazer extremo que a levam ao infinito dos sentidos e lhe provocam a dolorosa saudade que a anula nos intervalos de ausência, nos momentos em que ele se prepara para sair, receando e recusando aceitar a hora dele partir para sempre.

Para esbater a ténue linha entre a ficção e a realidade, a realizadora libanesa Danielle Arbid coloca Hélène a falar na primeira pessoa, tal como no romance, a confidenciar-nos a história da sua relação, o que sente, o que a justifica naquela paixão que lhe traz a maior felicidade, paga com a maior solidão durante a ausência dele que ela não controla nem condiciona. O telefone cumpre aqui o elemento de comunicação de sentido único que ela só pode usar quando ele liga, estando-lhe vedada essa iniciativa por acordo mútuo, nem para somente ouvir a sua voz do outro lado.

A separação sufoca-a, só ele circula livremente dentro e fora da vida dela e isso torna-se uma fonte de ansiedade paralisante que lhe motiva aprender russo enquanto descasca ervilhas, ou quando golpeia a terra num intervalo de jardinagem ocupacional. Eles são intelectualmente muito diferentes. Ela é especialista em dramaturgia inglesa do século XVII e está a preparar uma tese sobre o tema. Ele é um segurança da embaixada russa em Paris que gosta de bons carros e admira Putin e raras vezes conversa com ela no quarto ou na cama, nem sequer lhe fornece explicações cabais para o simbolismo das tatuagens que tem no corpo, mas a interação de ambos é mais forte que todos os intelectualismos.

Toda a história é envolvida por músicas francesas adequadas às situações mais marcantes da história, cantadas por Charles Aznavour, Gilbert Bécaud ou o Flying Pickets em “Only You feel” que nos relata a tristeza da hipótese de abandono. Sempre que ele sai ela nunca sabe se, e quando volta, comportando-se esta temática como uma nova abordagem, de prosa inteligente e desarmante suportada com uma linguagem despojada, do drama erótico tão caro ao cinema francês; “Amour Fou” e desta vez, formalmente mais ousado. Muito boa interpretação do personagem de Hélène por Laetitia Dosch, numa história velha como a humanidade. Gostei e recomendo, para ver sem tabus.

Estreia nos cinemas em 28 de Outubro

Classificação: 6 numa escala de 10

18 de outubro de 2021

Opinião – “Terra Nova” de Artur Ribeiro

Sinopse

O filme retrata a viagem do lugre bacalhoeiro Terra Nova, que após um mau ano de pesca nas águas do Labrador, o Capitão decide arriscar numa travessia até à Gronelândia. Devido à rota que nunca antes tinha sido navegada e às lutas contra tempestades e o frio do Atlântico Norte, o medo e o conflito intensifica-se entre a tripulação

Opinião por Artur Neves

Este filme é baseado no romance de Bernardo Santareno “O Lugre” que conta a história do lugre bacalhoeiro “Terra Nova” na sua faina de pesca nos mares do Labrador, na década de 1930 e num mau ano piscatório em que o Capitão decide arriscar uma aventura “por mares nunca dantes navegados” para providenciar o seu sustento e o de toda a tripulação que não aceita de bom grado a sua decisão e promove uma rebelião a bordo com consequências imprevisíveis, não só pela atitude tomada, como também pelo estado do mar naquela latitude.

A rudeza da vida da pesca ao bacalhau está bem representada através de personagens que não só caracterizam a diversidade da personalidade humana dos pescadores da época, com seus medos, crenças e ódios de estimação gerados pelo confinamento forçado no interior do limitado espaço do lugre. É o caso de Albino (Pedro Lacerda), o pescador sinalizado pelo seu comportamento num naufrágio anterior, sendo agora conotado com a presença da “má sorte” em todos os navios onde estiver. O caso da integração dos mais novos na tripulação também é abordado com Miguel (Miguel Partidário) órfão e ainda sem família constituída, que procura o conforto e a proteção de Albino a quem chama “tio”, apesar das críticas de alguns membros da tripulação, ou o médico de bordo, Bernardo (Vítor D’Andrade) igualmente sem experiencia da dureza daquela vida e se sente motivado a partilhar alguma simpatia com a tripulação que o aceita, embora discriminando-o com a desconfiança de pertencer ao grupo do Capitão Silva (Virgílio Teixeira) que lidera o navio com pulso de ferro e impõe o respeito da tripulação pela imposição das suas decisões, apoiado pelo contramestre (Vitor Norte) que personifica a autoridade pela indiscutível experiência da faina. Todos estão muito bem e mostra-se credívelmente o drama da pesca, da vida a bordo e dos pescadores.

As diferenças começam na envolvente. Todo o filme é passado no interior do navio e os efeitos especiais para a dureza do mar não reproduzem o que estamos habituados a ver em “Piratas das Caraíbas” ou noutras grandes produções passadas no mar. Quando o Capitão do lugre decidiu rumar à Gronelândia, eu “receei” que a viagem se fizesse com as velas amarradas ao mastro, considerando que é o seu estado durante toda a história… felizmente não… vê-se algumas vezes uma fotografia distante do navio com velas desfraldadas e reconhece-se com isso os fracos recursos do cinema português para competir internacionalmente num filme que até tem história para ser mais ambicioso.

Para celebrar em 2020 o centenário do nascimento de Bernardo Santareno, foi concebido pela produtora Ana Costa e o realizador que também escreveu o argumento; Artur Ribeiro, este projeto cinematográfico que além do filme, inclui a série “Terra Nova” de 13 episódios já exibida em 2020 pela RTP e atualmente disponível na plataforma de streaming HBO. Enquanto o filme é completamente rodado no mar, a bordo do lugre, a série desenvolve a vida em terra dos personagens do filme, o que dá suporte às suas frequentes quezílias e conversas cruzadas, que no filme se desconhecem as razões, bem como, o desenvolvimento das dificuldades da vida em terra, motivadas pelos magros recursos auferidos e os conflitos familiares antes e depois da viagem sempre agravados com as ausências prolongadas a que a faina obriga.

A pesca do bacalhau nos mares da Terra Nova pode ser encarada como a última epopeia trágico-marítima dos portugueses e mereceria um orçamento maior para a celebrar. Na sua ausência fica-nos este filme sobre a faina maior, e a dramatização das suas gentes, na série.

Estreia nas salas em 28 de Outubro

Classificação: 5 numa escala de 10

 

16 de outubro de 2021

Opinião – “Halloween Mata” de David Gordon Green

Sinopse

Minutos depois de Laurie Strode, a sua filha Karen e a neta Allyson deixarem o monstro mascarado - Michael Myers - enjaulado e a arder na cave, Laurie é levada de urgência para o hospital com graves ferimentos, mas acreditando que finalmente matou o maior tormento de toda a sua vida. Mas quando Michael se consegue libertar da armadilha que Laurie preparou, o banho de sangue recomeça. Enquanto Laurie luta contra a dor e se prepara para, mais uma vez, se defender dele, consegue inspirar toda a população de Haddonfield a erguer-se contra o monstro imparável. As mulheres da família Strode juntam-se a um grupo de outros sobreviventes do primeiro tumulto de Michael, que decidem tratar do assunto pelas próprias mãos, formando uma multidão que quer caçar Michael Myers… De vez.

Opinião por Artur Neves

Eis que Michael Myers volta de novo à liça pela décima segunda vez em mais um filme da série “Hlloween” que começou em 1978 com "Halloween: O Regresso do Mal". Segundo o registo histórico deste personagem, ele nasceu numa visita de estudo efetuada por John Carpenter a uma instituição de saúde mental no Kentuky, quando ainda era estudante de medicina. Segundo o próprio, o personagem nasceu nessa visita quando um garoto de 12 anos internado com um diagnóstico de esquizofrenia, cruzou com ele um olhar tão hostil, intenso e penetrante que o perturbou profundamente, tendo permanecido na sua memória até se materializar no personagem de Myers e caracterizado como o mal em estado puro. Carpenter descreve-o como uma força de natureza maligna, a corporização do mal absoluto indestrutível e impossível de matar com balas, facadas ou fogo, uma figura mítica ao serviço das trevas.

É esse personagem fictício que povoa os filmes da saga desde que John Carpenter o “libertou” em 1978, como sendo uma criança de seis anos que na noite de Halloween assassinou a sua irmã Judith. Depois de lhe ser diagnosticada esquizofrenia aguda e de ter sido institucionalizado no hospital psiquiátrico onde permaneceu quinze anos, evadiu-se e vive escondido até ao dia de Halloween em que volta à sua cidade natal, Haddonfield no Illinois, para continuar a matar mais adolescentes.

Na sequela anterior de 2018, Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) uma personagem representativa da saga ficou indissociavelmente ligada a Michael Myers, sendo o objeto de busca dele em todas as investidas, está retida na cama do hospital para onde foi transportada depois de mais um confronto com Myers que quase a matou com uma facada no abdómen. Ela ainda conseguiu encurrala-lo e lançar-lhe fogo que ela pensa ter conseguido finalmente matá-lo. Mas desenganem-se, o cadáver cambaleante de Myers emerge da armadilha de fogo com a sua máscara um pouco queimada, descaída para um dos lados que confere aquele rosto inerte uma expressão triste, solitária, com alguns resquícios de nobreza que depressa se transformarão nas cenas seguintes.

O realizador David Gordon Green e os argumentistas Scott Teems e Danny McBride constroem a história deste filme à custa do trauma infligido por Myers a Laurie quando esta estava cuidando de duas crianças que ele mata, naquela noite fatídica de 1978 em que ela o enfrenta, (como uma forma de homenagear o original de John Carpenter) tornando-se assim a sua inimiga figadal que ajudada por Tommy Doyle (Anthony Michael Hall) e Lindsey Wallace (Kyle Richards), galvanizam toda a população de Haddonfield para perseguir e matar Myers, que todavia, não tem qualquer vontade de lhes satisfazer os desejos, até porque para 2022 já está prevista mais outra sequela; “Halloween Ends” que por este andar nunca sabemos se será mesmo um final.

“Halloween Mata” serve principalmente os fãs do terror gore, muitas facadas com facas longas, muito sangue a espichar dos pescoços feridos, com bons efeitos especiais de caraterização e é mais sangrento do que Freddy Krueger que durante muitos anos se afirmou como campeão dos sonhos terríficos de donzelas tímidas. Michael Myers renasceu de várias “mortes” e ressurge após décadas de abandono e no sentido restrito do terror pelo terror. Este “Halloween Mata” ocupa um lugar de destaque e contem todos os ingredientes para figurar entre os mais conseguidos filmes de terror pelos seus amantes, categoria a que eu não pertenço.

Tem estreia prevista nas salas para 21 de Outubro

Classificação: 4 numa escala de 10

 

13 de outubro de 2021

Opinião – “DUNE - DUNA” de Denis Villeneuve

Sinopse

Denis Villeneuve (“O Primeiro Encontro”, “Blade Runner 2049”), nomeado a um Óscar, é o realizador de “DUNE - DUNA”, a adaptação para o grande ecrã do bestseller homónimo de Frank Herbert. Nesta viagem mítica e emocional, o filme conta a história de Paul Atreides, um jovem brilhante e talentoso com um grande destino para além da sua compreensão, que tem de viajar para o planeta mais perigoso do universo para garantir o futuro da sua família e do seu povo. Quando forças malévolas entram em conflito para obter uma quantidade exclusiva do recurso mais precioso do planeta – uma substância capaz de desbloquear o maior potencial da humanidade – apenas os que conquistam os seus medos conseguirão sobreviver.

Opinião por Artur Neves

Frank Herbert era em 1959 um escritor e jornalista freelancer a trabalhar para o departamento de agricultura dos USA e com uma propensão natural para a ecologia que queria perceber o problema das areias (ditas movediças) do estado do Oregon, que impulsionadas pelos ventos do oceano Pacífico, as levava pelo ar e cobriam tudo no seu caminho. A solução seria fixa-las ao solo através de plantas e ervas, embora tendo o inconveniente de colidir com as espécies autóctones alterando o ecossistema natural da região. Para acompanhar os trabalhos Frank inspecionava as dunas de areia do ar, voando sobre elas e foi num desses voos que lhe veio a ideia de estudar e aprofundar a mitologia dos desertos e as crenças dos povos que lá viviam, donde resultaram dois livros de ficção científica que foram publicados pela editora; Analog Science Fact & Fiction, posteriormente reunidos num único volume, “Dune” que foi publicado em 1965 mas que devido ao seu extenso tamanho, somente em 1970 atingiu a notoriedade que hoje ocupa no universo da ficção científica, sendo considerado o maior romance de ficção científica de todos os tempos.

A história de “Dune” bem sumarizada na sinopse, envolve todas as ligações que podemos imaginar entre, política, economia e religião, com todos os mitos da criação e da vinda e um messias para pacificar e reunir todos os povos da galáxia (note-se que a história passa-se no ano 10.191 em que os humanos já saíram da terra e dominam a galáxia que é governada no conjunto de todos os planetas) mostrando uma tecnologia muito à frente da nossa época em total respeito com a ecologia, muito embora sem se terem ultrapassado os paradoxos filosóficos, religiosos e psicológicos que condicionam as escolhas humanas ainda e sempre, submetidas ao livre arbítrio. Dune vai também buscar referências e inspiração a Isac Azimov na sua saga “Fundação” publicada em 1942, mas adaptada à Era de Aquário ou “Era do Ser” que em 1960 se acreditava trazer benefícios e progresso para a humanidade, mas que do ponto de vista astrológico não encontra consenso na data do seu início que uns dizem ser em 2000, outros 2600 e outros somente em 3000.

O imperador galáctico governa os mundos pelo controlo das casas (famílias) nobres que gerem os seus feudos planetários e estabelecem ligações entre si de acordo com as suas preferências, sentido de oportunidade e conveniência do imperador que tem o poder de impor as regras do jogo, muito à semelhança do Império Bizantino da antiguidade, que se formou a partir da divisão do Império Romano no ano 476 DC, igualmente organizado em castas e feudos familiares, tem aqui o seu fundamento.

Do ponto de vista fílmico, esta obra é soberba e é para mim, até agora, o melhor filme desta época pós pandémica (sem qualquer desprimor para o último James Bond, refira-se) recheado de um elenco fabuloso a começar pelo messias em crescimento Paul Atreides (Timothée Chalamet) com o mesmo ar frágil que lhe conhecemos em “Chama-me pelo teu Nome” de 2017, e sua mãe Jessica Atreides (Rebecca Fergunson) a insinuante Ilsa Faust de “Missão Impossível” de 2015 e 2018, ou o guardião de Paul Atreides, Duncan (Jason Momoa) que começou em “Marés Vivas” e já foi “Aquaman” em 2018, bem como muitos outros. Todos desempenham personagens credíveis envolvidos por uma banda sonora espetacular criada por Hans Zimmer, que já nos deu o excelente “Gladiador” em 2000 ou “Começo” (Inception) em 2010, ou Dunkirk em 2017 tendo sido nomeado nove vezes para o Oscar. Denis Villeneuve já declarou que não vai fazer apenas um filme e decorrente disso, este “Dune” é apenas a Parte 1. Se terá só duas, ou três partes como “O Senhor dos Anéis”, tudo depende do rendimento obtido por este investimento de 150 milhões Euros. Pelo profundo envolvimento que a história tem com a natureza humana e pela qualidade dos pormenores de realização recomendo-o vivamente como um bom espetáculo. De preferência em IMAX.

Classificação: 8,5 numa escala de 10

Tem estreia prevista nas salas para dia 21 de Outubro

 

9 de outubro de 2021

Opinião – “Venom: Tempo de Carnificina” de Andy Serkis

Sinopse

Tom Hardy regressa ao grande ecrã no papel do protetor letal Venom, um dos maiores e mais complexos personagens do universo MARVEL. Realizado por Andy Serkis, este filme tem também a interpretação de Michelle Williams, Naomie Harris e Woody Harrelson, no papel do vilão Cletus Kasady/Carnificina.

Opinião por Artur Neves

Venom é mais um personagem da Marvel Comics que foi explorado inicialmente na banda desenhada, em 1933 e na série de animação do Homem-Aranha em 1994, tendo merecido destaque com a coleção “The Venom Saga” em 1996. Nunca teve uma grande espetacularidade nem foi particularmente popular, até que em 2018 a Marvel decidiu transpô-lo para o grande ecrã, provavelmente já influenciada pelos ventos de reforma dos heróis tradicionais que vieram a “falecer”, todos de uma assentada em “Avengers: Endgame” de 2019.

Assim, em “Venom” de 2018 temos o aparecimento do jornalista falhado Eddie Brok (Tom Hardy) que se regenera após a coabitação com uma entidade alienígena, um simbionte do espaço exterior que gosta da terra e passa a habitar o corpo de Eddie constituindo uma parceria contra o crime e a maldade na cidade de Nova Iorque. No final deste filme, foi logo indiciada uma sequela através do breve aparecimento do serial killer; Cletus Kasady (Woody Harrelson) que vem a tornar-se figura grada no presente filme depois de escapar à prisão, após ter dado guarida a Carnage, (Carnificina) um extra terrestre da família de Venom mas muito mais violento e caótico em todas as suas atitudes.

A história passa-se uma ano depois dos acontecimentos narrados no primeiro filme e começa com o jovem Cletus assistindo impotente à transferência da sua amada Frances Barrison (Naomie Harris) do Lar St. Estes para Crianças Indesejadas, para o Instituto Ravencroft para ser sujeita a experiencias médicas de investigação do seu poder de grito com altas frequências sónicas que ela usa como defesa e agressão. Enquanto isto, Brok tenta adaptar-se à vida de hospedeiro de Venom, que possui opções divergentes da sua, como modo vida. Ele tenta recuperar a sua profissão de jornalista através da entrevista a Cletus que está preso no corredor da morte esperando a data da sua execução, mas escapa através de ter incorporado o simbionte Carnage, que em princípio é mais poderoso do que Venom. Como Cletus é um assassino a sangue frio, o exuberante “Carnificina” é mais cruel, reforçado ainda por habitar um serial killer psicopata, sem limites ou barreiras de contensão aos desmandos que deliberadamente pode provocar.

Com esta perspetiva pode imaginar-se que este filme seja dedicado a um público jovem, órfão dos super-heróis tradicionais, cuja primeira versão, granjeou mundialmente mais de 800 milhões de dólares em volume de bilheteira, o que trás esperanças acrescida para esta sequela que só no primeiro fim-de-semana de estreia nos USA arrecadou mais de 90 milhões, e que seguramente não vai ficar por aqui, considerando a cena apresentada a seguir aos créditos finais. É assim um filme para ver, em tamanho quanto maior, melhor, pelo que se recomenda a assistência à versão IMAX, com som Dolby Atmos que possibilitam maior imersividade na ação e nas complicadas lutas entre titãs.

Depois da privação das salas de cinema por causa da pandemia, este mês de Outubro está recheado de filmes que podem assinalar uma amostra do que será o futuro do cinema em sala, com James Bond em 30 de Setembro, este Venom em 14 de Outubro e o esperado “Dune” para 21, podem dar uma noção muito concreta da disponibilidade do público em se deslocar a uma sala de cinema para ver um filme. Até agora, com “James Bond: Sem Tempo para Morrer” a resposta parece já ser afirmativa.

Tem estreia prevista em sala para dia 14 de Outubro

Classificação: 4 numa escala de 10

 

8 de outubro de 2021

Opinião – “Fantasias” de David e Stéphane Foenkinos

Sinopse

Seis casais, seis variações de desejo, intimidade ... e fantasias. Dramatização, exibicionismo, excitação pelo choro ou mesmo pela abstinência ... Quer esses casais reprimam ou assumem suas fantasias, quer as compartilhem ou as silenciem, todos procuram a mesma coisa: felicidade, tanto a sua como a do seu parceiro!

Opinião por Artur Neves

Antes de analisar este filme não quero deixar de referir o excelente trabalho que estes dois irmãos argumentistas realizadores fizeram em 2017 com o filme “Ciúme”. Eles não têm um grande curriculum cinematográfico sendo este “Fantasias” a sua terceira realização no formato de longa-metragem, e posso compreender porquê, considerando a dificuldade subjacente a um projeto que se propõe ilustrar um sentimento humano de frustração e inveja como no caso do ciúme, que se centra em prejudicar ou negar o sucesso alheio que queríamos desesperadamente que fosse o nosso.

No caso presente as coisas ainda se complicam mais. São seis histórias que ilustram outros tantos fetiches humanos. “Fantasias”, de cariz sexual que ninguém se sente à-vontade para livremente exteriorizar, ou sequer comentar se por ventura formos instados para o fazer, mesmo que seja numa reunião de amigos. São seis, as parafilias ilustradas no filme, das mais de 60 taras reconhecidamente existentes, em que o prazer carnal pode acontecer sem que o comportamento sexual em causa implique penetração. Duma maneira geral vale tudo, desde que exista mútuo consentimento e gozo partilhado, podendo alguns comportamentos ser classificados como distorções da preferência sexual e serem considerados doenças do foro psíquico. Podem também incluir objetos, ou incidir sobre partes específicas do corpo que provocam particular excitação.

É pois este o tema do filme que os irmãos Foenkinos desenvolveram através de seis casais que se excitam e desfrutam o desejo através de outras tantas parafilias, apresentadas de uma forma diferente que nos divertem sem chocar, conseguindo um delicado equilíbrio nestes tempos modernos em que nem sempre se analisam conscientemente as escolhas ou as opções que tomamos na euforia da diferença que se pretende alcançar. As histórias são abordadas em tom de comédia que em certas alturas nos fazem rir com vontade e noutras, embora mais sombrias, mantêm um delicado humor em fundo, muito característico da comédia francesa inteligente que agrada, informa e diverte.

Todos os casais são pessoas absolutamente normais que desenvolvem estratégias ao sabor da sua preferência, não se destacando qualquer história relativamente às outras, donde a partilha com o espectador é absolutamente neutra não se distinguindo entre elas qualquer originalidade particular ou preferencial. Do ponto de vista formal, porém, a última história referente à antogonostofilia, prazer de ser filmado e de se ver no ato a olhar para a câmara para revisão futura, mereceria só por si uma longa-metragem desenvolvendo todas as implicações pessoais e sociais da eventual publicação daquele ato, que na história são apenas superficialmente citadas, embora se aceite a sua brevidade no conjunto global do filme.

Interessa também realçar que não são as “Fantasias” em si mesmo que nos fazem rir, mas antes a condição ridícula em que aqueles personagens caem (todos interpretados por atores e atrizes de grande talento) reféns de uma preferência sexual que não controlam e pela qual são inexoravelmente condicionados nos seus relacionamentos íntimos na busca do prazer. É um filme interessante, eventualmente não do agrado de todas as audiências, que se disfruta com gosto, humor e nos faz pensar na imensa fragilidade do ser humano.

Tem estreia em sala, prevista para dia 21 de Outubro

Classificação: 7 numa escala de 10

 

30 de setembro de 2021

Opinião – “Ladrões de Elite” de Renny Harlin

Sinopse

Richard Pace (Pierce Brosnan) é um ladrão que apenas rouba quem tem seguro, para não lesar ninguém. Apesar disso, a vida não lhe corre bem: a mulher deixou-o, a filha guarda-lhe rancor e, pior de tudo, tem tendência para ser apanhado. Mas Pace está também habituado a fugir da prisão, sobretudo de prisões privatizadas geridas por um homem chamado Schultz (Tim Roth) que, por isso mesmo, o quer matar.

Com todas estas fugas Pace chamou a atenção de um grupo de Robin Hoods dos tempos modernos, os Ladrões de Elite, que lhe propõem um plano demasiado bom para ser verdade: Não só evita que seja preso pelo FBI, como impede que Schultz financie várias organizações terroristas e o mate e à sua família. Uma proposta irrecusável, não fosse um pequeno pormenor: é um plano aparentemente impossível de concretizar.

Opinião por Artur Neves

Não há na filmografia de Renny Harlin nenhum título que possa ser indicado como referência para o seu trabalho ao longo dos mais de 40 anos de atividade no cinema e na televisão, considerando que todos apontam para obras comerciais, de muito fácil digestão e rápido esquecimento, na mira de um público pouco preocupado com o conteúdo e menos ainda com a forma como lhe são apresentadas as obras que saem do seu escopo.

Como tal, este “Ladrões de Elite” só pode configurar baixas expectativas, muito embora com um cabeça de cartaz, Pierce Brosnan, e um secundário de luxo, Tim Roth, de quem já apreciámos muito boas interpretações. Aliás, neste filme eles são iguais a si próprios nos papéis que lhes tocam, o problema é a história chocha, os diálogos pobres e toda aquela fantasia de ação e aventura que nos quer convencer e justificar um altruísmo bacoco à custa de um roubo pelas melhores razões em vez de alimentar as redes de terrorismo do médio oriente.

Pace é o tipo de ladrão de casaca com pergaminhos no seu trabalho, que não gosta de lesar os roubados, nem de ceder a outros o produto do seu furto, todavia, ao ser engajado no grupo dos “Ladrões de Elite” tem de alterar esse seu modo de atuação, para se conformar com os propósitos altruísticos da missão e para satisfazer a vontade da sua filha Hope (Hermione Corfield) que trabalha numa ONG de apoio aos refugiados Sírios, tendo ela mesmo contratado os serviços dos “Ladrões de Elite” para assaltarem a prisão de alta segurança em Abu Dhabi administrada com fins lucrativos por Schultz. Como Pace é especialista em fugas de prisão, ninguém melhor do que ele constitui a pessoa indicada para levar a bom termo a missão a que se propões.

Claro que a história é o que é, nem melhor nem pior do que outras que servem de base para filmes de aventuras. O que está aqui em causa é a forma plastificada como as coisas se processam, os planos vagos que se congeminam, a ação que se desenvolve com pouca emoção ou realismo, salvando-se apenas a introdução de algumas buchas engraçadas aqui e ali mas que não justificam o conjunto da história.

Tanto Brosnan como Roth, mas principalmente o primeiro, importam-se com o comportamento da sua presença em cena. Brosnan até tem pergaminhos de estrela internacional quando ele assumiu o personagem de James Bond em dois filmes da saga ou um ladrão elegante em “O Caso Thomas Crown” de 1999, mas com um argumento destes, trabalhado desta forma, é difícil manter o estatuto.

Estreia nas salas em 7 de Outubro

Classificação: 4 numa escala de 10

 

29 de setembro de 2021

Opinião – “007 – Sem Tempo para Morrer” de Cary Joji Fukunaga


 

Sinopse

James Bond deixou o serviço ativo e está a desfrutar de uma vida tranquila na Jamaica. Mas a sua paz termina rapidamente quando o seu velho amigo Felix Leiter, da CIA, aparece com um pedido de ajuda. A missão de resgatar um cientista raptado acaba por ser bastante mais traiçoeira do que o esperado, o que leva Bond a perseguir um misterioso vilão, armado com uma nova tecnologia perigosa.

Opinião por Artur Neves

Eis que finalmente é estreado o 26º filme da série James Bond, inicialmente previsto para Abril de 2020, mas por três vezes sucessivamente adiado. Pela primeira vez foi entregue a um realizador americano; Cary Fukunaga que também colaborou no argumento e já nos deu obras curiosas como; “Beasts of no Nation” de 2015, o drama das crianças-soldado, ou “Sem Nome” em 2009, o drama da imigração clandestina para os USA através da fronteira terrestre, bem como o aclamado “IT” de 2017, em mais uma história do herói criado por Ian Fleming, escritor inglês já falecido. O personagem já teve vários intérpretes, sendo o mais significativo que imprimiu ao personagem todo o carisma que ele possui; Sean Connery e atualmente Daniel Craig que neste filme perfaz a sua quinta e declarada, última interpretação.

O filme apresenta uma duração de 163 minutos, que vai sendo pouco comum, para de alguma maneira fechar pontas soltas que ficaram em aberto nas outras participações de Daniel Craig tornando o enredo envolvente, mantendo o perfil ousado e destemido do herói que se encontra numa fase de reforma da sua vida de aventura, cultivando um amor perene com Madeleine Swann (Léa Seydoux) com quem mais tarde vimos a saber tem uma filha, enquadrado por um festival assassino bem conseguido e sem olhar a despesas de meios e de duplos. O romance entre os dois, porém, apresenta nuances divergentes devido aos segredos que Madeleine ainda não revelou a James e que levanta dúvidas sobre a relação de ambos.

A história começa na infância de Madeleine, recupera a organização criminosa Spectre que dá nome ao filme anterior de 2015 aniquilando-a, bem como ao seu chefe Ernst Blofeld (Christoph Waltz) que se encontra preso numa prisão de alta segurança, entretecendo a sua intervenção criminosa com a atividade profissional de Madeleine como psiquiatra do MI6 e introduzindo o esquema maligno de vingança concebido por um inenarrável vilão que perseguia no passado Madeleine, Lyutsifer Safin (Rami Malek) num enredo labiríntico que não cabe a sua descrição nesta crónica, mas que genericamente se trata da criação de um vírus sintético com capacidade de análise do ADN para escolha da vítima que será infetada. Os portadores poderão ser todos sem que isso lhes cause qualquer efeito, mas o vírus tem capacidade de só ser letal para o ADN que lhe foi programado como alvo. Uma visão bem mais preocupante e vil das possibilidades da bioengenharia quando orientada para a guerra biológica. Muito pior que o nosso Coronavírus, com que nos vamos habituando a conviver.

O filme começa, (depois da introdução inicial) de maneira doce e romântica, considerando que desde o início que ele está reformado e conhece o seu substituto, uma agente negra, inteligente e apimentada, Nomi (Lashana Lynch), por quem ele à partida não nutre uma particular simpatia. Eles estão em Itália, numa vila ensolarada no interior e a história recupera o tradicional Aston Martin inicial de James Bond para nos oferecer uma perseguição por ruas estreitas, com piso em socalcos e escadas de pedra por onde os carros passam em alta velocidade sem partir nem se estragar. Uma alegria para os sentidos e um retorno ao que mais tradicional esta saga possui. Quem o meteu naqueles assados foi o seu velho colega da CIA Felix Leiter (Jeffrey Wright), que o convence a voltar às lides da espionagem uma última vez pelos motivos mais altruístas que ele consegue justificar. Deslocam-se a Cuba onde será o fim do Spectre, numa receção em que Bond se apresenta de smoking com a sua companheira Paloma (Ana de Armas), agente da CIA em missão de investigação, mas que o ajuda substancialmente numa inesperada cena de ação. É aqui que Daniel Craig se afirma como um Bond de primeira água, de semblante sempre desconfiado, pele matizada pelo sol, sempre pronto para exteriorizar a sua energia em luta poderosa, dinâmica e atlética, com uma aparente facilidade que compõe uma combinação nunca atingida por qualquer dos outros Bond’s.

Como já disse, este filme vem fechar um ciclo, prevendo-se que a série continue com outro Bond, talvez ainda por descobrir, mas definitivamente, “Sem Tempo para Morrer” empurrou a saga para o século XXI, conferindo ao herói a estirpe de lutador com alma, com sentimentos, não envolvidos nos filmes anteriores, alguns dos quais plastificados em estereótipos dos tempos em que foram realizados. Adicionalmente os argumentistas ainda incluíram aqui e ali piadas e expressões que nos fazem rir e descontrair nos momentos mais tensos, e para lá de cada um ter o seu James Bond preferido, este é um filme bem conseguido, interessante, com uma história complexa que nos ocupa o espírito por um tempo agradável. Recomendo sem reservas.

Estreia nas salas de cinema, amanhã, dia 30 de Setembro

Classificação: 8 numa escala de 10

28 de setembro de 2021

Opinião – “Sombra” de Bruno Gascon

Sinopse

Em 1998, Isabel tinha a família perfeita até que um dia chega a casa e descobre que o seu filho de 11 anos desapareceu. A partir desse momento tudo muda. Apesar da cobertura mediática do caso e da existência de um suspeito a justiça falha constantemente e Isabel percebe que somente ela poderá manter viva a busca por Pedro. Passam-se quinze anos e apesar de todos os obstáculos que encontra Isabel vai continuar a fazer de tudo para reencontrar o filho que todos querem que esqueça, mas que ela acredita que ainda está vivo. Uma mãe sabe.

Opinião por Artur Neves

A história deste filme é baseada no caso do desaparecimento do Rui Pedro, um menino de 11 anos que desapareceu em circunstâncias misteriosas em 4 de Março de 1998 quando passeava com um amigo, ou pelo menos conhecido da família, que à partida não indiciava qualquer inconveniente na sua companhia.

A história, tal como a realidade, são inconclusivas até ao momento dos reais motivos do desaparecimento do Rui Pedro (referido apenas por Pedro em todo o filme) e constituiu o caso mais notório de desaparecimento de menores, antes do caso Maddie no Algarve, ainda em investigação internacional.

O filme começa com as buscas do Pedro, pelos locais onde seria mais provável a sua presença, matas, bosques, ruínas de casas abandonadas por um grupo de vizinhos da família. Ao fim de algum tempo de busca infrutífera o grupo separa-se e ressalta aqui a angústia crescente de Isabel (Ana Moreira) que de por todos os meios procura o seu filho por todos os meios e em todo o lado a que tem o ensejo de ir. Aqui compete-nos elogiar o personagem construído por Ana Moreira, correspondente à verdadeira mãe de Rui Pedro, mostrando o desespero inicial pela perda, o crescendo de raiva pela inércia das autoridades, a angústia pelo passar do tempo sem qualquer progresso visível e a perseverança em não deixar cair o assunto contra todas as vozes que recomendavam o abandono e a pacificação.

Isabel, não descansa, a sua esperança em encontrar Pedro é constante, embora à custa da sua degradação física e mental mostrando-nos os traços da dor infligida por tamanha perda. Chegam sinais ténues da sua eventual presença algures, que ela segue até à exaustão de resultados. A polícia judiciária não sai muito bem na fotografia, quando 13 anos depois do desaparecimento, o novo inspetor que ficou com o caso chega a resultados suficientes para conduzirem a tribunal o principal suspeito que até ao momento se recusara a falar. O anterior responsável do caso, entretanto reformado, é chamado a depor e não apresenta justificações atendíveis para tão grande demora processual, nem para a desclassificação das testemunhas que foram finalmente consideradas. O principal suspeito recusa-se a falar em tribunal e o caso é novamente encerrado sem solução.

Há suspeitas e indícios dessas suspeitas mas a ausência de provas inibe uma condenação e tudo volta ao ponto de partida que teve como principal resultado a infelicidade de uma família e a desestruturação de uma mulher que ainda hoje não perdeu as esperanças de encontrar o seu filho desaparecido.

É uma história de amor, força e coragem de uma mulher que ainda não desistiu de procurar o seu filho que desapareceu. Tem boas interpretações, já foi premiado em festivais de cinema internacionais e representa mais uma página de bom cinema português dirigido por um realizador para o qual este filme é o seu terceiro trabalho e merece atenção futura. Interessante.

Tem estreia prevista em sala a 14 de Outubro

Classificação: 6 numa escala de 10

 

27 de setembro de 2021

Opinião – “As Coisas que Dizemos, As Coisas que Fazemos” de Emmanuel Mouret

Sinopse

Daphné, grávida de três meses, está de férias no campo com o companheiro François. Ele tem que se ausentar para o trabalho e ela vê se sozinha para dar as boas-vindas a Maxime, seu primo que ela não conhece. Durante quatro dias, enquanto aguardam o retorno de François, Daphne e Maxime gradualmente se conhecem e compartilham histórias cada vez mais íntimas sobre suas histórias de amor do presente e do passado …

Opinião por Artur Neves

Emmanuel Mouret é um realizador francês nascido em Marselha em 1970 que já nos surpreendeu em “Mademoiselle de Jonquières”, filme de 2018, segundo a obra de Diderot, pela gentileza e finura demonstrada na conversão em argumento do romance do século XVIII, onde se aborda a eterna volatilidade do amor, dando corpo e figuração à frase de François de la Rochefoucauld que nos diz: “A constância no amor é uma inconstância perpétua”.

A história é bastante simples, Maxime (Niels Schneider), chega á casa de campo do seu primo François (Vincent Macaigne), a convite deste, depois de uma grande separação com o objetivo de encontrar o ambiente propício a escrita a que ele se quer dedicar por vocação e profissionalmente. Todavia ele não se encontra de momento, por motivos que mais tarde saberemos e quem o recebe é Daphne (Camélia Jordana), a companheira do seu primo que se encontra grávida, mas que assume os custos da oferta do seu parceiro, recebendo-o e integrando-o no ambiente da sua casa durante a ausência de François.

Deste modo não previsto, Maxime e Daphne têm de conviver e de conversar nos assuntos correntes que evoluem para outros mais sérios, como a descrição do seu plano de escrita do livro que se propõe realizar, que inclui o relato de histórias de relacionamentos amorosos clássicos e modernos começando precisamente pelo seu próprio relacionamento.

Máxime descreve o seu desapontamento e a ferida emocional deixada pela mulher que foi o objeto do seu amor recente, mas que o abandonou ao apaixonar-se pela sua melhor amiga. As descrições são acompanhadas por flashbacks que ilustram os acontecimentos vividos e o despontar da paixão e da consequente desilusão de Máxime que provocam em Daphne sentimentos de comiseração e simpatia que lhe motivam um envolvimento naquele jogo, partilhando com ele confidencias mais íntimas do seu percurso amoroso com François e antes dele.

A narrativa das histórias é construída com grande habilidade e subtileza transportando para o espectador toda a problemática do amor, dos relacionamentos, das vivências defendido através do discurso de um sociólogo, para o qual Daphne preparava uma apresentação, que o amor não implica a posse do objeto amado e que o ciúme, a raiva, o sentido de perda são impróprios de surgir em qualquer relação. Esse sentimento negativo deve ser sublimado pela alegria, pela felicidade que se sente em contemplar a felicidade do outro no novo relacionamento, sem qualquer sentimento vingativo ou malicioso de qualquer espécie, para lá da dor que isso nos cause, sendo para a demonstração desse final que o enredo da história nos conduz durante os 122 minutos de duração.

Como se compreende é um tema que não tem uma abordagem fácil, principalmente se o isentarmos do tom lamecha para onde estas situações têm propensão em derrapar. Mouret conseguiu encontrar os atores adequados para modular os personagens com a elegância necessária que embora mostrem o sofrimento dos seus tormentos internos, mantêm uma aparente leveza nas suas atitudes externas em linha com os princípios definidos no parágrafo anterior. Significa isto que não interpretam uma atitude generalizadamente real, mas antes, absolutamente coerente com a filosofia apresentada como base do relacionamento amoroso saudável.

O filme conta magistralmente a história que o suporta entretecendo as histórias pessoais vistas de ambos os lados, construindo um jogo de sedução mútuo para Maxime e Daphne, embora não faltem também os necessários twists que nos justifiquem algumas atitudes menos claras. Todos os diálogos são bem construídos, enfatizados pela música constante das valsas de Schubert, das sonatas de Haydn e dos concertos de Chopin, conduzidos com o perfeito domínio da escrita e dito pela modulada língua francesa que torna credível a culpa de tudo o que se prometeu fazer sem sucesso, assim como, de tudo o que fizemos sem ousar admitir. Não é filme para todas as audiências mas recomendo sem reservas.

Classificação: 7,5 numa escala de 10

Tem data prevista de estreia em sala para 25 de Novembro

 

23 de setembro de 2021

Opinião – “Até à Morte” de S.K. Dale

Sinopse

Emma (Megan Fox) sente-se presa num casamento moribundo. Como surpresa para o 10º aniversário de casamento, o marido leva-a para uma casa isolada à beira de um lago onde preparara um serão romântico. Mas antes que ela tenha tempo para fazer perguntas, Mark levanta a arma e… dá um tiro na cabeça. Emma fica em estado de choque. Coberta pelo sangue do marido, a cabeça não lhe pára, a tentar perceber o que aconteceu e como sair daquela situação. Emma dá por si encalhada na casa do lago, no meio do nada, em pleno Inverno, sem roupa para trocar, sem telefone para pedir ajuda, sem um carro que funcione, sem objetos afiados que lhe permitam libertar-se do corpo e das algemas. Mas esse é apenas o início do plano retorcido de Mark.

Será Emma capaz de enfrentar o seu pior pesadelo e libertar-se finalmente – e literalmente – do seu morto casamento?

Opinião por Artur Neves

SK Dale (realizador australiano que faz segredo do seu nome) estreia-se em longas metragens com este filme que reúne bons fatores de surpresa e suspense para uma primeira realização. No seu curricula incluem-se mais quatro curtas metragens, algumas das quais foi também argumentista e produtor mas no momento importa este seu trabalho, de vulto para o panorama cinematográfico, do qual se pode dizer que não tenha saído mal.

A história é simples e direta tal como a sinopse resume, mas o seu desfecho não é inferível como inicialmente se poderia pensar de um estreante. Os personagens são consistentes e o enredo desenrola-se ao longo da história que apanha Emma de surpresa com o suicídio do marido, tal como aos espectadores. Emma é uma mulher marcada por um ataque violento que sofreu há uns anos e do qual vem lentamente recuperando, ficando agora entre a raiva e o susto na sequência do inusitado suicídio do homem que a convidou para um fim de semana idílico de recuperação da confiança e do amor.

Deve ser chocante pensar-se em felicidade e se súbito ver-se algemada a um morto, depois das primeiras palavras trocadas com Mark, ainda na cama de uma noite de amor que prometia redenção. É mais um daqueles filmes que demonstram elogiosamente a capacidade de resiliência das mulheres, outrora reconhecidas como frágeis e indefesas e agora mostrando em todo o seu esplendor de força e coragem necessárias para resolverem os seus problemas pelas suas próprias mãos, invariavelmente criados por homens que as destratam, desconsideram e constituem a razão fundamental dos seus insucessos. Uma lapidar inversão de valores que os novos tempos trouxeram e a justa igualdade entre os dois sexos veio defender e provar, numa história cáustica sobre o poder autodestrutivo e a fragilidade masculina que a todo o tempo não para de se revelar.

A vingança de Mark, porém tem outros cambiantes que ele preparou para infligir o maior sofrimento possível a Emma mesmo após a sua morte, mostrando a complexidade inerente aos relacionamentos tóxicos que esta história postula. Megan Fox está muito bem no seu personagem e o seu magnetismo domina a tela defendendo a posição que arrasta todos os eventos subsequentes, construindo uma Emma valorosa que arrasta a simpatia dos espectadores, decorrente da sua sensibilidade fria que enfrenta com determinação e engenho todas as dificuldades que se lhe apresentam.

O filme apresenta muitos twists que envolvem diamantes escondidos, invasores contratados por Mark, cofres de alta segurança, uma paisagem branca com um percurso de gelo fino sobre o lago que estimulam o desempenho de Megan Fox para tornar este “Até à Morte” um desafio entusiasmante e divertido, que embora não tenha nada a dizer sobre as virtudes ou defeitos do casamento, vale todos os seus 88 minutos de duração que nos afastam da vida real. Não é um filme de grandes voos, mas é interessante e gostei.

Nos cinemas a partir de 23 de Setembro

Classificação: 6 numa escala de 10

 

19 de setembro de 2021

Opinião – “COPSHOP – Não Fazemos Prisioneiros” de Joe Carnahan

Sinopse

Atravessando o deserto de Nevada em um Crown Vic cheio de balas, o astuto vigarista Teddy Murretto (Frank Grillo) trama um plano desesperado para se esconder do assassino letal Bob Viddick (Gerard Butler). Ele dá um soco na oficial novata Valerie Young (Alexis Louder) para ser preso e trancado numa esquadra de polícia de uma pequena cidade. A prisão não pode proteger Murretto por muito tempo, e Viddick planeia o melhor caminho para a sua detenção, ganhando tempo numa cela próxima até que ele possa completar sua missão. Quando a chegada de um assassino rival (Toby Huss) desencadeia o caos total na esquadra, crescentes ameaças forçam Viddick a ser criativo se quiser terminar o trabalho e escapar com vida daquela situação explosiva.

Opinião por Artur Neves

Desde “Assalto à 13ª Esquadra” de 1976 e do seu remake em 2005, que não me lembro de um filme de acção feito dentro de uma esquadra de polícia que, de modo diferente do primeiro, reporta um exemplo de uma corporação policial americana em Gun Creek, bem equipada do ponto de vista do escritório, em dois pisos, com o polícias sentados em secretárias espaçosas, num espaço bem decorado e luminoso, embora praticando rotinas desorganizadas e comportamentos laxistas, composta por elementos incompetentes para desempenharem a função, situada numa planície árida próxima da vila, mas enfim, o realizador Joe Carnahan lá deve ter tido as suas razões para nos apresentar esta situação.

A acção começa com a prisão de um homem bêbado Teddy Murretto (Frank Grillo) que vemos a abandonar um automóvel e correr desesperadamente pela estrada deserta até à esquadra com o objectivo de ser preso para se resguardar de um perseguidor que na altura desconhecemos, considerando que o motivo direto da prisão é um soco da cara de uma mulher polícia Valerie Young (Alexis Louder), desferido propositadamente para que esta o prendesse num local que ele pensava ser seguro.

De seguida outro bêbado de nome Bob Viddick (Gerard Butler), é conduzido à esquadra por manifesta impossibilidade de capacidade de condução da viatura em que seguia e curiosamente é detido na cela fronteira à de Teddy, considerando que segundo as regras da prisão dois bêbados não podem ser colocados na mesma cela. Bob procura ajustar contas com Teddy e não hesitou em arranjar aquele ardil para se infiltrar na prisão.

É com esta premissa que Joe Carnahan desenvolve uma história de acção com muita emoção, suspense e surpresa considerando que não sabemos quem ou o quê está ligado aqueles dois homens, que vamos sabendo que se conhecem, têm ligação um com o outro e fazem ameaças mútuas sobre assuntos que desconhecemos, contrariamente ao que acontecia em “Assalto à 13ª Esquadra” que não passava de uma tentativa de invasão de vândalos assassinos a uma esquadra com guarnição reduzida com o fim de libertação de um capanga que se encontrava detido.

Neste filme porém, o maior interesse está no estudo dos personagens do submundo que habitam o espaço da esquadra com particular ênfase para o psicopata assassino Toby Huss (Anthony Lamb) contratado pela máfia, que entra no edifício atrás de um conjunto de balões de aniversário e mata vários polícias sem motivo aparente com uma frieza gélida e um interesse também centrado em Teddy, que procura pelos corredores da esquadra enquanto dispara um metralhadora de cano curto contra portas em aço e vidro à prova de bala com o intuito de entrar na zona das celas. Ele desempenha um personagem sensacional recheado de obsessiva energia maníaca no cumprimento da sua missão e ocupa toda a ação durante o tempo em que aparece. Apresenta um nível de maldade que faz de Toby um vilão memorável de voz sibilante, escarninha, gloriosamente inqualificável que não importa quão horríveis sejam as suas ações, mas sim o gaudio com que as pratica.

Para equilibrar toda esta demência resta-nos somente a oficial Valerie que foi agredida por Teddy, mostrando honestidade, rigor profissional, orgulho na profissão e coragem que por todos os meios procura agir dentro da lei defendendo os seus presos de forma a levá-los a ajustar as suas contas. Carnahan fez um bom trabalho nos primeiros dois terços do filme em que cria um clima de loucura e de suspense convincentes, progredindo com revelações parciais que adensam o mistério através da adição de mais personagens suspeitos, todavia, quando pretende aligeirar o ambiente com algum humor e fantasia destrói parte do trabalho tão porfiadamente conseguido. Carnahan esquece-se que humor e violência só combinam quando a violência é apenas brusca e não contém maldade e loucura psicótica. Deste modo, embora a história mexa com o espectador não o completa, “sabe” a produto sintético, o que é pena.

Estreia nos cinemas em 23 de Setembro

Classificação: 5 numa escala de 10

 

17 de setembro de 2021

Opinião – “Rifkin's Festival” de Woody Allen

Sinopse

O cinéfilo Mort Rifkin (Wallace Shawn) acompanha a sua mulher, a assessora de imprensa Sue (Gina Gershon), ao Festival de Cinema de San Sebastián, em Espanha, pois teme que o fascínio dela por um cliente, o jovem realizador Philippe (Louis Garrel), não seja meramente profissional. Mort espera ainda aliviar a pressão que sente para escrever um primeiro romance que corresponda aos seus exigentes padrões.

Aqui, Mort deixa-se envolver pelos clássicos do cinema de mestres como Bergman, Fellini, Godard, Truffaut e Buñuel, sobre os quais deu aulas na faculdade. O encantamento de Sue por Philippe e o desdém de Mort por este, prejudicam a já desgastada relação conjugal e a disposição de Mort apenas melhora quando conhece a Dra. Jo Rojas (Elena Anaya), uma alma gémea a quem o casamento com o intempestivo pintor Paco (Sergi López) também traz sofrimento. Enquanto Sue passa os seus dias com Philippe, a relação entre Mort e Jo aprofunda-se e ele reaviva o seu amor pelo cinema clássico. Ao refletir sobre a sua vida através do prisma desses grandes filmes, Mort encontra uma renovada esperança no futuro.

Imbuído de um humor absurdo, Rifkin’s Festival de Woody Allen combina situações irreais com histórias de amor e desgosto entrelaçadas, prestando uma terna homenagem ao poder transformador do cinema.

Opinião por Artur Neves

Mais uma vez Woody Allen é igual a si próprio e com 84 anos faz um filme em que projeta nos personagens a suas próprias dúvidas e inseguranças que vimos acompanhando ao longo de toda a sua já longa e profícua carreira, contudo, sem ser o que poderia ser chamado de Woody vintage, está acima de alguma das suas últimas realizações e apresenta-nos uma história em que a ação se passa no Festival de San Sebastian, em que o filme foi estreado este ano após o adiamento decorrente da crise pandémica.

Sobre a história a sinopse é suficientemente elucidativa e retrata-nos um homem; Mort Rifkin (Wallace Shawn) que é um realizador conhecido, neurótico (tal como Allen) cheio de preocupações com a sua profissão, que se debate com a suspeita de um amor não correspondido donde possam resultar infidelidades conjugais e da violentação a que teve de se sujeitar ao suspender a escrita do seu último romance para acompanhar a sua mulher Sue ao festival em que ele pensa que essa derivação possa ter lugar. Adicionalmente, os seus dilemas filosóficos, tal como o sentido da vida e preocupações com a sua origem judia motivam-lhe a atenção quer durante o dia como durante a noite, em que ele recria o passado em sonhos a preto e branco e podemos apreciar a homenagem de Woody Allen aos seus realizadores de eleição, tais como Buñuel, Fellini e muito particularmente Ingmar Bergman em que se personaliza em sonho no filme “O Sétimo Selo” numa clara alusão ao seu posicionamento no mundo.

Para confrontar o realizador, Philippe, que Sue, a sua elegante e sexy esposa está a promover, Mort cita todos os grandes clássicos europeus revelando-se apenas como um snob cinematográfico, esquecido na New Wave do cinema francês e desadequado para o tempo presente, considerando que “Jules et Jim” representa para ele o que de melhor se fez em cinema e mereceria continuação que ele pretende corporizar no seu romance interrompido. Claro que nem Philippe nem Sue lhe prestam a importância que ele julga devida e isso perturba-o ao ponto de sentir palpitações no coração e cansaço que o levam a consultar um médico em San Sebastian.

É aqui que o hipocondríaco Mort Rifkin renasce. O médico é uma bela cardiologista, Jo Rojas, que está no segundo relacionamento com um artista bêbado e mulherengo, que levanta idênticos problemas aos encontrados no primeiro casamento do qual se divorciou, mas que corresponde ao ideal de Mort, que lhe revela a sua preferência, que a segue, que promove consultas só para estar perto do seu grande amor recentemente encontrado, promovendo uma versão obscura do que foi vivenciado por Penélope Cruz e Javier Bardem em “Vicky Cristina Barcelona” (parece que Allen deixou Nova Iorque de vez). O súbito amor de Mort por Rojas é triste e ridículo, assim como todas as referências de Allen aos filmes e aos seus autores que por muito genuínas que sejam não são mais do que lembranças de outras vidas para as quais Mort não encontra sentido e por isso as procura.

Rifkin’s Festival navega nas águas em que Allen tem navegado nas duas últimas décadas e não tenhamos dúvidas que tem navegado bem, mas no todo resume-se a uma angústia conjugal legítima (digo eu) transformada num revivalismo frágil de grandes obras que Allen tem como referência mas que não são efetivamente mais do que isso. É um filme relativamente divertido, virado para os indefectíveis de Woody Allen mas sofre de falta de inspiração criativa embora um pouco menor do que em algumas das suas criações recentes.

Estreia nas salas a 23 de Setembro

Classificação: 6 numa escala de 10