23 de julho de 2021

Opinião – “Uma Família de Doidos” de Jean-Patrick Benes

Sinopse

Certa manhã, os Morel acordam com um grande problema. Descobrem que o espírito de cada um deles está preso no corpo de outro membro da família! Chacha, de 6 anos, está no corpo do pai, o pai (Franck Dubosc) está no corpo do filho adolescente, o filho está no corpo da irmã mais velha, a irmã mais velha está no corpo da mãe e a mãe (Alexandra Lamy) está no corpo de Chacha… Conseguiram acompanhar? Eles também não. E isso é apenas o início.

Opinião por Artur Neves

Esta é a proposta francesa para a silly season e como tal tem mesmo de ser silly, para respeitar o figurino que o cinema francês nos oferece todos os anos por esta altura, só que este ano para se sentir o lado cómico da ideia é necessário ter uma noção clara de cada um dos personagens, para apreciar no que eles se tornam depois da troca dos espíritos, tal como mencionado na sinopse, em todas as vezes que os espíritos individuais resolvem trocar de hospedeiro. Em abstrato a ideia potencia um largo espectro de situações mais ou menos cómicas, de acordo com o assunto abordado, por cada um dos elementos da família, apresentando-se assim uma comédia sustentada pela fantasia de uma situação improvável que a magia do cinema torna possível e concretizável.

Como cada um dos membros da família goza das idiossincrasias próprias da sua personalidade individual teremos de saber quem é quem e o que o torna diferente, para apreciar convenientemente a transformação na situação de quando é abduzido pelo espírito do outro. Para isto ser possível e necessário dar tempo para o conhecimento dos problemas dos personagens individuais primários, que o filme não tem nos seus 110 minutos de duração, para depois os pôr a divergir na interação com esses problemas quando possuídos pelo espírito dos outros.

Para simplificar procedimentos para a obtenção desta necessidade, a realização de Jean-Patrick Benes, que teve a ideia e foi coautor do argumento, mas que não apresenta curricula digna de registo no género, opta por várias estratégias, como colar na testa de cada um dos personagens um post-it com o nome do espírito abdutor, ou vesti-lo com uma T-shirt onde está estampada a cara do espírito abdutor, ou outros estratagemas semelhantes que no mínimo fazem perder a sequencia da história, ou ainda, tornam avulsas as peripécias com que cada personagem se confronta em cada situação que não lhe pertence e que deveriam servir para provocar graça, mas pecam pela confusão que lançam no desenrolar da história.

Todavia não se pode dizer que o filme seja completamente despido de graça, pois contém gags diretos, tais como, a descoberta do amante da mãe pela filha mais nova, ou a incorporação do espírito da mãe no corpo do pai que passa a receber as mensagens de amor do amante da mulher e fica a conhecer a sua infidelidade e outros trocadilhos do género que causariam maior impacto no espectador e na história, se tivesse havido tempo para os conhecer mais profundamente na sua originalidade.

Deste modo a maior conquista desta história esdrúxula, são breves sorrisos em situações imediatas, que não precisariam de tanta imaginação que se torna inerente considerando a complexidade da história, alguns bocejos esparsos para situações declaradamente forçadas e alguma complacência e admiração para a dificuldade de colocar em ação um script que por vezes perde lógica na sua ambição de provocar sorrisos a todo o custo. Vale também a sua promoção da família e a defesa da sua integridade e união em tempos difíceis fabricado à custa de uma fantasia inverosímil. É caso para dizer; … não havia necessidade…

Estreia nas salas de cinema em 5 de Agosto

Classificação: 4 numa escala de 10

 

20 de julho de 2021

Opinião – “Assalto à Casa Forte” de Jaume Balagueró

Sinopse

O Banco da Espanha não se compara a nenhum outro. Um banco absolutamente impenetrável; que nunca ninguém conseguiu assaltar. Não há projetos, nem há mapas. Não há dados sobre o engenho do cofre. É um mistério total. Além disso, o chefe de segurança guarda o banco ferozmente, como se a sua vida dependesse disso. Este emocionante desafio desperta a curiosidade de Thom (Freddie Highmore), um génio decidido a conhecer os segredos do cofre e chegar às profundezas do banco.

O alvo é um tesouro há muito perdido que só ficará guardado no banco por apenas dez dias. Liderada por Walter (Liam Cunningham), o carismático especialista em arte, a equipa tem apenas dez dias para preparar o assalto e realizar uma fuga nunca vista. Dez dias para planear, mas apenas noventa minutos para cumprir o plano: os noventa minutos da final da Taça do Mundo que atrairá para a porta do Banco da Espanha centenas de milhar de pessoas. Começou a contagem decrescente!

Opinião por Artur Neves

Só comparável aos filmes da “Missão Impossível” de outros tempos ou à saga “Oceans”, esta história constitui um excelente thriller que se prepara para ter continuação considerando o seu fim que aponta já na próxima direção.

Trata-se da preparação de um assalto ao banco presumivelmente mas seguro do mundo em que uma equipa de especialistas em várias modalidades precisa da contratação de um “cérebro” para resolver os problemas mais simples, mas nem por isso menos importantes e fundamentais, para a realização do assalto. Eles possuem a tecnologia mais sofisticada, a experiencia, o planeamento, a capacidade de realização e a audácia, que esbarra num mecanismo de proteção desconhecido que só uma inteligência humana descomprometida pode combater e anular.

“O assalto à Casa Forte” desenvolve o princípio de que tudo o que é seguro pode ser violado, desde que haja vontade, empenhamento e a conjugação sincronizada de esforços no sentido da operação. Temos a sensação de já ter presenciado cenas e cenários semelhantes, mas o filme desenvolve-se com suficiente agilidade e eficiência que nos envolve nas suas premissas tornando agradáveis e emocionantes todos os 118 minutos de duração.

A equipa de Walter (Liam Cunningham) que detém a ideia e os motivos para roubar os dados que ele encontrou no fundo do Mediterrâneo, no interior do galeão afundado é composta por James (Sam Riley), o mergulhador temerário que arranca o segredo do fundo do mar, a mestre dos disfarces com nervos de aço Lorraine (Astrid Berges-Frisbey), protegida de Walter, Simon (Luis Tosar), um veterano de feitio agradável, sentimental e confiável, o mestre dos hackers de computador, tipicamente alemão Klaus (Axel Stein) e o elemento extra tão fundamental como todos os outros Thom Laybrick (Freddie Highmore), de tendência rebelde, recentemente formado em engenharia que rejeita contratos de trabalhos com seis dígitos de remuneração, apenas porque não sabe se se sentirá bem na função oferecida, ou porque simplesmente não está para ali virado, mas aceita o desafio de um desconhecido que o convida a mudar a sua vida para sempre sem lhe revelar como, e que o cativa com o envio de um misterioso texto de aliciamento em que omite a possibilidade de fortuna segura ou prisão para sempre.

Constituída a equipa segue-se a preparação minuciosa do assalto que revela contratempos inesperados, só ultrapassáveis com a drástica limitação do tempo disponível para a ação, aproveitando o jogo da final do campeonato do mundo entre a Espanha e a Holanda que provocará a polarização da atenção de todas pessoas no jogo em progresso.

Para amenizar a história esboça-se um romance entre Thom e Lorraine que promete, mas a cena é de aventura, filmada elegantemente em widescreen por Daniel Aranyo que lembra as movimentações internacionais das histórias dos “Oceans”, bem como a sua estimulante banda sonora potenciando a intensidade do suspense. Como nada é perfeito temos ainda a traição de um dos membros do grupo, que toma em suas mãos um destino próprio e terá repercussões nos próximos capítulos. Para já constitui uma boa aventura de verão, com perigos vários e o espírito de camaradagem necessário para nos animar em mais este ano de chumbo em que as preocupações ainda não terminaram. Muito interessante proporcionando bons momentos de diversão.

Tem estreia prevista nas salas em 12 de Agosto, é de aproveitar.

Classificação: 7 numa escala de 10

 

15 de julho de 2021

Opinião – “Mistura Explosiva” de Navot Papushado

Sinopse

Sam (Karen Gillian, “Jumanji: O Nível Seguinte”) tinha apenas doze anos quando a mãe, Scarlet (Lena Headey, “Game of Thrones”), uma assassina profissional, se viu obrigada a abandoná-la. Sam foi criada pela Firma, uma implacável organização criminosa para a qual a mãe trabalhava. Agora, quinze anos depois, Sam seguiu os passos da mãe e tornou-se uma assassina temível que usa as suas "aptidões" para resolver as trapalhadas mais perigosas da Firma, com a supervisão de Nathan (Paul Giamatti). Ela é tão eficiente quanto leal.

Mas quando um trabalho de alto risco corre mal, Sam tem de escolher entre servir a Firma ou proteger a vida de uma inocente menina de oito anos - Emily (Culoe Coleman). Sob perseguição, Sam tem apenas uma hipótese de sobreviver: reencontrar a mãe e as suas letais associadas, As Bibliotecárias (Angla Bassett, Carla Gugino, Michelle Yeoh). Estas três gerações de mulheres têm de aprender a confiar umas nas outras, enfrentar a Firma e o seu exército de capangas, e infernizar a vida de quem lhes pode tirar tudo.

Opinião por Artur Neves

Nota-se uma tendência frequente na proliferação de filmes sobre assassinos que matam de qualquer maneira e por vezes até debaixo de água, bem ao género de John Wick e outras réplicas semelhantes, com a nuance de serem elas quem mais mata neles, invariavelmente representados por façanhudos, ineptos e mentecaptos que elas despacham em três penadas. Zaz, trás, pás e aí estão elas na mó cima, incólumes, sem mácula nem deficiências de maior, apesar de levarem uns tiritos que só lhes fez moça de raspão, mas nada que impeça às nossas heroínas de “levarem a taça” em todas as disputas em que se metem.

Ainda no recentemente estreado “Black Widow” encontramos situações semelhantes, parecendo estarmos a assistir a uma nova ordem social em que elas é que são o supra-sumo da barbatana e passam o “trofeu” de mães para filhas numa dinastia geracional de empoderamento feminino. Só que não basta ser-se a maior, porque os vilões que elas combatem, toscos, burros e manifestamente ineptos, surgem como que uma manobra de simplificação piedosa, já que a história em que se envolvem não tem profundidade, nem tempo, nem oportunidade para analisar as implicações da construção destas super-assassinas, considerando somente o seu trauma de se ligarem a uma franja de homens que manifestamente não as merece, nem em termos de competição física.

Não sei o que se pretende com isto, se é somente os proventos de uma bilheteira de massas, ou se existe algum substrato ideológico impulsionado pelo #MeToo ou outra plataforma semelhante que faz girar as histórias em torno de manifestações de energia feminina abundante, mas que por se restringir somente a isso torna-se fraco na obtenção de resultados que poderia ter tido se colocasse as heroínas, por exemplo, por detrás das câmaras a construir histórias mais apelativas do que em distribuir murros e pontapés em todo o bicho careto que lhes aparece.

Não sei o que se pretende na repetição de sketchs do mais banal que o cinema tem, agora interpretados por mulheres que fazem disso modo vida e pretendem continuar a saga porque a inclusão de uma criancinha abandonada, Emily (Culoe Coleman) uma menina sem mãe, a quem mataram o pai e que nutre particular simpatia e é protegida pela assassina Sam (Karen Gillian) que também foi iniciada pela sua própria mãe Scarlet (Lena Headey) também assassina agora reformada, só pode indiciar que na perspetiva do realizador israelita Navot Papushado, (que também escreveu o argumento em conjunto com Ehud Lavski), só pode significar que se preparam para mais uma saga de assassinos em barda, agora no feminino.

Assim esta “Mistura Explosiva” vive alimentada por ambientes super estilizados, agressivamente iluminados por neons, na sombra de uma organização secreta que se dedica a “trabalhos difíceis” discretamente executados por super assassinas como Scarlet, que passou a herança à filha 15 anos antes e no futuro esta irá passar à adotada Emily, para seguir o modo de vida da estirpe desenterrada de um estereotipo que cheira a mofo, tais são as vezes que o modelo é utilizado no cinema e agora até no feminino.

Temos assim mais um filme inspirado em histórias de quadradinhos, interpretado por um elenco comprometido e sério, com Nathan (Paul Giamatti, quase desaparecido desde “Sideways” de 2004), coadjuvado pelas “tias” da biblioteca (Angla Bassett, Carla Gugino, Michelle Yeoh) que guardam um arsenal de guerra em livros interiormente recortados à medida e os distribuem de acordo com as necessidades do “trabalho” e protagonizam significativas reviravoltas que fazem deste thriller?... ambientado numa cidade sem nome e filmado em Berlim, um filme de ação com muita porradinha e pouca surpresa durante os 116 minutos de duração.

Estreia hoje, dia 15 de Julho nas salas e promete diversão fácil…

Classificação: 4 numa escala de 10

 

7 de julho de 2021

Opinião – “Annette” de Leos Carax

Sinopse

Passado na Los Angeles contemporânea, “Annette” conta a história de Henry (Adam Driver), um comediante de stand-up com um sentido de humor intenso, e Ann (Marion Cotillard), uma cantora mundialmente famosa. Na ribalta, são o casal perfeito, saudáveis, felizes e charmosos. O nascimento da sua primeira filha, Annette, uma menina misteriosa com um destino excecional, mudará as suas vidas.

O filme, de Leos Carax (vencedor por duas vezes do Prémio Youth no Festival de Cannes), é candidato à Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2021.

Opinião por Artur Neves

“Annette” é um thriller musical, sim um thriller com mortos, loucura e insanidade, mas sem suspense porque aqui a música é outra e os eventos vão decorrendo com a normalidade que os sucessivos espetáculos de cada um dos amantíssimos membros do casal permitem.

Henry (Adam Driver) com a sua estatura alta e encorpada criou um personagem com uma história peculiar intensa, egoísta e desdenhosa do público que o adora, que exibe provocadoramente em cada espetáculo. Com o nome de “Símio de Deus” Henry provoca o público em todas as suas atitudes de admiração e gosto pelo personagem. Henry ofende-os na sua fidelidade e submissão faz disso o seu número de êxito.

Pelo contrário, Ann (Marion Cotillard), de corpo esguio e delicado, cantora lírica de sucesso encanta o público que a idolatra pela sua maravilhosa voz de soprano e pela gentileza de interpretação dos personagens nas obras que representa. A sua morte em palco é chorada pelo público, a audição da sua voz é esperada com ansiedade.

Por artes que a razão desconhece, fora do palco apaixonaram-se definitivamente e formam um casal amantíssimo invejado pelo público que se despede com ternura sempre que os vê partir a ambos montados na mota de Henry, que espera à porta do teatro o fim do espetáculo de Ann para a transportar para o seu ninho de amor, uma mansão localizada em Los Angeles, com um frondoso jardim e uma enorme piscina retangular. O seu amor é fora do convencional e eles desfrutam-no intensamente, pertencem-se com a gulodice dos seres apaixonados. Da sua ligação resulta “Annette” uma criança diferente das outras, com corpo de marionete e voz celestial que encanta quem a houve e aqui começa o drama porque Henry perde a graça e a imaginação no seu espetáculo e sente-se perdido na sua relação familiar que o remete para um lugar nunca imaginado.

É com esta história simples que Leos Carax nos apresenta um trabalho visual soberbo sempre em música de diferentes géneros mas muito bem apresentada com cenários riquíssimos e representação de luxo em cenas visualmente fantásticas. Henry outrora exuberante mostra-se agora melancólico, incapaz de fazer rir, de continuar o seu show cujo caminho se cruza com a sua vida que anteriormente foi uma bela e intensa história de amor. Henry não se consegue encontrar e levanta barreiras à continuação do seu espetáculo, bem como o de Anne. É a atração irreversível para o abismo que Carax nos mostra com música, com sonhos onde a música serve agora de punição, onde a doce voz de Annette soa como a condenação mais dolorosa e incompreensível.

Todo filme é uma ode ao amor e à frustração que se lhe sobrepõe, com toda a poesia e sofrimento de uma obra poética magnificamente ilustrada por peças musicais desenvolvidas para o efeito, como tal pode não ser facilmente aceite por todos os espectadores, bem como ao senso comum que não inclui beleza no sofrimento e no crime.

Tal como no seu anterior filme; “Holy Motors” de 2012 que não ganhou qualquer prémio particular mas que ainda existirá na memória de algum público que o viu, não sei se conseguirá convencer Cannes, mas que é uma bela obra poética magnificamente construída na alegria, no amor e na morte parece-me que não há dúvida, embora como já referi, algo estranha.

Estreia nas salas a 8 de Julho e será o filme de abertura do 74º Festival de Cannes

Classificação: 8 numa escala de 10

 

5 de julho de 2021

Opinião – “A Cada Passo Teu” de Vaughn Stein

Sinopse

Philip (Casey Affleck) é um psiquiatra cuja carreira fica comprometida quando uma paciente com quem tem uma relação especial se suicida. Quando convida o irmão da paciente (Sam Claflin) para ir a sua casa conhecer a mulher (Michelle Monaghan) e a filha (India Eisley), a vida familiar de Philip é subitamente destruída.

Realizado por Vaughn Stein, “A Cada Passo Teu” é um intenso thriller psicológico.

Opinião por Artur Neves

Este é daqueles filmes em que se espera mais do que ele pode oferecer. Tem tudo para ser um sucesso, uma boa história, atores consagrados, um director com provas dadas embora com algumas fraquezas, aliás não se compreende bem como Casey Affleck deu corpo a este projeto, presumo que ao ler o argumento onde se desenvolve um thriller psicológico com alguma complexidade, ele deve ter pensado num resultado diferente do que se veio a revelar.

O início é verdadeiramente explosivo pois não se espera um evento daqueles a escassos minutos da abertura, mas em tudo o que se segue, para a qual a revelação inicial é fundamental embora não sendo central na história, o filme “perde gás” e só posteriormente toma o lugar que lhe é devido quando outros eventos chamam a atenção do espectador duma maneira arrastada, dúbia e pouco verosímil para o tema em apreço.

Tal como referido sumariamente na sinopse o princípio do drama ocorre quando, surpreendentemente Phillip (Casey Affleck) convida James (Sam Claflin), irmão da sua paciente que se suicidou, que lhe aparece à porta de casa com o motivo de devolução de um livro que tem escrito o nome dele. Acrescente-se ainda que o convite é coadjuvado por Grace (Michelle Monaghan) e por sua filha Lucy (India Eisley) que ficaram quase como que fascinadas por aquele estranho que lhes bate à porta à hora do jantar. Começa assim o argumento de telenovela, mais adequado a tarde de cinema de domingo do que a trhiller psicológico, e continua com o encantamento das duas mulheres durante o jantar relativamente a James, apesar de ele nem ter uma conversa muito interessante, nem o trabalho de romancista a que ele declara ter-se dedicado tenha tido o sucesso desejado pelas suas próprias palavras.

O convite, bem como a sua aceitação têm algo de insólito e confirma-se que as suas intenções, pela conversa travada, têm algo de sinistro. O que não soa bem é que através desse primeiro contacto que foi tudo menos auspicioso, ele consiga de uma penada seduzir a mãe e a filha que ficam ambas caidinhas por ele, a filha por ser jovem e se encontrar na idade das descobertas e a mãe como compensação para o afastamento emocional do marido após o evento que deteriorou a estabilidade do casal e para a qual esse afastamento apresenta-se como uma nota de culpa da qual ela não é responsável.

Como se pode inferir o enredo é complexo e tem todos os elementos que permitiriam criar múltiplas cenas de suspense. Aliás, James é hábil em deslizar entre dois modos de ser, na sombra a prejudicar a vida profissional de Phillip e à luz do dia manipulando as duas mulheres no sentido dos seus interesses sem qualquer dose de pudor ou compaixão, só que o argumento mostra-nos somente os factos sem dar espaço ao ator para trabalhar o personagem com mais profundidade nas complexidades psicológicas de um comportamento que se adivinha doente, ficando-se assim pelo estereótipo sem a análise da personalidade em presença. O que sabemos de James é estritamente o que ele nos mostra através das suas ações.

O filme socorre-se da doença mental obsessiva mas banaliza a sua ação para de alguma forma justificar o enredo que criou, inserindo um fator de previsibilidade ao tentar melhorar a trama que nos apresenta com o drama afetivo das duas mulheres para com o psicopata que as manipula. Já conhecemos o género em elementos utilizados em “O Cabo do Medo” de Scorsese, ou em “Atração Fatal”, mas aí de uma forma mais convincente.

Tem estreia prevista nas salas dia 8 de Julho

Classificação: 5 numa escala de 10

 

3 de julho de 2021

Opinião – “Black Widow” de Cate Shortland

Sinopse

No thriller de ação da Marvel Studios, "Black Widow", Natasha Romanoff, também conhecida como Black Widow, confronta as partes mais sombrias de seu livro-razão quando surge uma perigosa conspiração com laços ao seu passado. Perseguida por uma força que nada impedirá para derrubá-la, Natasha deve lidar com sua história como espiã e os relacionamentos quebrados deixados em seu rastro muito antes de se tornar uma Vingadora.

Opinião por Artur Neves

Inicialmente programado para estrear em Maio 2020 mas prorrogado várias vezes, ficou agendado para este mês de Julho devido à crise pandémica. Eis que chega às salas um filme da “Black Widow”, personagem quase secundário no universo da Marvel (MCU – Marvel Cinematic Universe) apenas referido de passagem em “Capitão América: O Soldado de Inverno” e “Iron Man” há muito que se perguntava para quando o destaque para este personagem tal como realizado para “Hulk”, Thor Ragnarok” ou “Hunt Man” e muitos outros. Black Widow” apresenta-se assim como o patinho feio da colecção considerando que em 2019, com “Vingadores: Endgame” a Marvel acabou com todos os super-heróis pela ação do semideus malvado “Thanos” que pura e simplesmente dizimou o planeta e o universo não havendo; em teoria, mais lugar para heróis e muito menos super-heróis, parecendo até que a Marvel matava alegremente e com pompa e circunstancia, a sua galinha dos ovos de ouro. Palavra que nunca acreditei nisso e disse-o na crónica que fiz sobre esse filme, publicada neste blogue, mas não sabia como encaixar a realidade da presumida extinção dos personagens mais emblemáticos da Marvel.

Assim, parece que a recuperação desse personagem quase esquecido nos filmes anteriores é afinal uma oportunidade de metamorfosear o renascimento do MCU começando pelo princípio da personagem super assassina, altamente treinada em artes marciais e guerra com facas, colocando-a no Ohio em 1995, como a pequena Natacha (Ever Anderson) pedalando na sua bicicleta pelas ruas arborizadas do seu bairro e brincando com a sua irmã mais nova (Violet McGraw) sob a supervisão da sua amorosa mãe Melina (Rachel Weisz) num ambiente calmo até aparecer o seu pai Alexei (David Harbor), com a determinante mensagem de que precisam fugir urgentemente de avião para Cuba, numa cena de arrepiar os cabelos, com várias violações da lei da física como é costume em histórias de aventura e de ciência de ponta. Todavia eles são intercetados por um vilão Russo, o General Dreykov (Ray Winstone), que separa os pais das filhas enviando as meninas para um centro de treino para assassinos de elite, chamadas “Black Widows”

Esta primeira parte do filme funciona assim como introdução, após a qual numa explosão surpreendente somos informados de Natasha Romanoff (Scarlett Johansson) e Yelena (Florence Pugh) foram transformadas de garotas comuns em máquinas de matar e separadas quando Natasha assassinou o chefe do programa, o General Dreykov e destruiu a “Red Room”, ou pelo menos pensa que assim fez, porque a história vai desenrolar-se pela constatação do seu falhanço inicial e criação de uma segunda oportunidade para finalmente fazer justiça.

Podemos também dizer que a pandemia e o intervalo que gerou, modulou os filmes da Marvel numa coisa que eles não eram, uma luta por valores elevados, pois repare-se que em “Viúva Negra” (como em muitos outros filmes recentes) os homens são seres absolutamente normais e as mulheres, com um grau de emancipação elevada, dominam em toda a escala e no caso presente, lutam para obter um produto químico que transforma as super assassinas em mulheres normais, chocadas e arrependidas do seu papel anterior.

É uma inversão total de conceito em filmes de ação e ficção científica em que se procurava através de dispositivos mais ou menos complexos ou medicamentos secretos, transformar pessoas normais em super soldados com capacidades guerreiras superiores e invencíveis para proteger os mais fracos. Em “Viuva Negra” isso acabou, como que a dizer-nos que temos de vencer à nossa própria custa, pelos nossos meios, mantendo-nos sempre o mais normais possível.

Todavia as surpresas não se ficam por aqui, porque na saga vingadora de Natasha há lugar para o reencontro familiar, após uma fuga das duas irmãs reencontradas e reconciliadas, o resgate do pai Alexei preso numa prisão de alta segurança na Sibéria, voando sobre paisagens verdes e montanhosas até um vale onde reside Melina desfrutando de uma aparência pacata e muito familiar mas que continua engajada ao seu pepel secreto, continuando ser a agente de confiança do General Dreykov. Mas agora é tudo diferente e através de um twist que não vou revelar o combate ao vilão passa a ser o objectivo da família, com uma conversa justificativa, uma reunião familiar duradora que ocupa grande parte do filme e nos confirma que o MCU mudou… pelo menos em “Black Widow”…

Para os fans do género a história mantém o seu pendor de ação com cenas de luta e de aventuras muito arrojadas em situações que desafiam todas as leis da física, mas isso é o “alimento” normal dos espectadores indefetíveis, com a nuance de serem as mulheres a comandar o show, nomeadamente no aspeto das decisões mais difíceis e complexas enquanto Alexei, “o pai protector”, não passa de um fanfarrão em que o único superpoder é irritar as filhas e de alguma maneira, prejudicar o desenvolvimento da missão em que Melina, movida por fervor ideológico e devoção maternal ajuda a resolver o que o pai atabalhoadamente compromete, não podendo falar-se em falta de surpresa em todo o argumento.

Como objecto de diversão satisfaz, com um bom elenco e muito boas interpretações, com particular destaque para Yelena (Florence Pugh) que sem favor, polariza toda a ação apresentada no filme. Estará disponível nas salas e em streaming, na Disney Plus, a partir de 8 de Julho.

Classificação: 7 numa escala de 10

 

30 de junho de 2021

Opinião – “Bem Bom” de Patrícia Sequeira

Sinopse

Criado por Tozé Brito e ativo entre 1979 e 1986, o quarteto feminino Doce estreou-se em 1980 com o single "Amanhã de manhã", o primeiro entre vários sucessos do grupo. Em Portugal, as Doce marcaram a primeira metade da década de 1980 e contaram quatro participações no Festival da Canção. Saíram vencedoras da edição de 1982, à qual concorreram com "Bem bom", canção que levaram ao Festival Eurovisão (realizado no Reino Unido) e que agora dá o nome ao filme.

Realizado por Patrícia Sequeira – a cineasta que assinou "Snu" e "Jogo de Damas", bem como séries televisivas como "Conta-me Como Foi", "Terapia” ou "Depois do Adeus" –, o filme narra partes da vida das quatro mulheres que encantaram (e chocaram) um país. A atriz Carolina Carvalho surge como Helena Coelho, Bárbara Branco como Fátima Padinha, Lia Carvalho como Teresa Miguel e Ana Marta Ferreira como Laura Diogo. José Raposo, Ana Padrão, João Vicente e José Mata juntam-se ao elenco.

Opinião por Artur Neves

É um filme português que anima a nossa memória sobre a girl band de maior sucesso em Portugal durante a década de 80. Um país ainda fortemente influenciado pela revolução recente de Abril de 1974, expectante com o futuro que daí adviria, mas ainda imbuído pelos princípios e pela moral geral que o condicionaram durante os quarenta anos anteriores. O aparecimento das “Doce” abalou todas as convicções vigentes, porque convidava a uma liberdade ainda não publicamente assumida pelo povo temente e incentivava á efetiva emancipação feminina corporizada naquelas quatro jovens que exibiam em gestos e diziam com música, tudo o que faziam e lhes dava prazer, transmitindo um conceito de modernidade, arrojo e elegância da responsabilidade do estilista José Carlos, que lhes construiu a imagem de mulheres deslumbrantes. Foi um fenómeno musical extraordinário em Portugal só comparável ao êxito dos Abba na Suécia durante a década anterior, guardando obviamente as devidas proporções de escala.

O filme faz-lhes justiça ao acompanhá-las desde o seu início e focando-se em todos os obstáculos que tiveram que ultrapassar enquanto mulheres numa sociedade que as restringia e desqualificava pelas suas atitudes menos submissas, tanto na indústria musical da época pouco habituada a ser contestada nas suas decisões, como na opinião pública conservadora e puritana do povo menos culto, que via nas suas atitudes libertárias os comportamentos que eles queriam ser capazes de praticar. A maioria da população gostava delas e das canções, mas a inveja pelos êxitos obtidos provocava a infâmia do boato e a correspondente falsa acusação que o argumento refere com relevo.

O filme está muito bem conseguido, com um argumento habilidoso de Filipa Martins e Cucha Carvalheiro, baseado na vida real do grupo e nas vicissitudes da época, nomeadamente revelando o interesse mercantilista da gravadora que as descobriu e promoveu, guardando para si a parte de leão dos lucros e querendo somente ceder migalhas às interpretes, através de contratos leoninos que as mantinham presas. Daqui resultou a sua revolta e subsequente emancipação, constituindo-se como empresa, de forma a poderem negociar os contratos para os espetáculos ao vivo e a contratarem os serviços de que precisavam. Foi a melhor fase da banda desde a sua formação em finais de 1979 até ao pico do sucesso em 1982 quando venceram o Festival da Canção e representaram Portugal nesse ano no Festival da Eurovisão, precisamente com a canção “Bem Bom” que dá título ao filme.

Podem ainda recordar-se os principais êxitos do grupo, tais como; “Ok, ko”, “Ali Babá”, “Doce” ou o incontornável “Amanhã de Manhã” interpretados por Carolina Carvalho (Helena Coelho), Bárbara Branco (Fátima Padinha), Lia Carvalho (Teresa Miguel) e Ana Marta Ferreira (Laura Diogo) que defendem com grande rigor as suas representadas.

O filme já teve estreia agendada para Novembro de 2020, tendo sido suspensa por motivo da pandemia Covid-19 e dos respetivos períodos de confinamento que nos foram impostos, estando agora anunciada a sua estreia nas salas para o dia 8 de Julho.

Classificação: 7 numa escala de 10

 

Opinião – “Funeral de Estado” de Sergei Loznitsa

Sinopse

A partir de imagens de arquivo únicas, muitas inéditas, Loznitza retrata o funeral de Estaline como o culminar do culto à personalidade do ditador. A notícia da morte de Estaline, a 5 de Março de 1953, deixou em choque a União Soviética. Milhares de pessoas estiveram presentes nas cerimónias fúnebres. Observamos todas as etapas da cerimónia fúnebre, descrita pelo jornal Pravda como “a Grande Despedida”. Loznitza aborda a questão do culto à personalidade de Estaline como uma forma de ilusão induzida pelo terror. Retrata a natureza do regime e o seu legado, que continua a assombrar o mundo contemporâneo.

Opinião por Artur Neves

Este filme, embora de absoluto interesse atual para que os mais jovens conheçam a história e a verdade por detrás dela, apresenta-se limitado no seu enquadramento histórico-político, considerando que se circunscreve a mostrar os dias de luto que durou o funeral de Josef Stalin em Março de 1953 sendo constituído fundamentalmente por três partes: A receção às representações oficiais dos mais altos dignatários da Repúblicas Soviéticas integradas na URSS, as incomensuráveis procissões de muitos milhares de cidadãos russos que por toda a Rússia e repúblicas anexas visitavam a urna do ditador em Moscovo (muitos provavelmente para confirmarem que ele estava realmente morto) e milhares de outros em cada cerimónia organizada pelo partido comunista em cada capital das repúblicas integradas na URSS e finalmente pelos discursos inflamados, imediatamente antes da procissão do féretro, proferidas por; Geórgiy Malenkov, Lavrenti Beria e Vyacheslav Molotov, mas sem qualquer referência ou indicação da significância política do envolvimento destes homens no entourage que compunha o Politburo e o secretariado do partido comunista da URSS na época.

É assim o que pode chamar-se um documento ilustrativo do funeral puro e duro de Josef Stalin que terá pouca utilidade se for visto sem o conhecimento histórico, ainda que sumário da envolvência política do que foram os anos de chumbo da presidência de Josef Stalin à frente dos destinos da União Soviética desde meados da década de 1920 até à sua morte, tendo ocupado os cargos de Secretário-geral do PCUS entre 1922 e 1952 e primeiro-ministro entre 1941 e 1953 até ao dia da sua morte.

Refira-se ainda que no final do filme aparece uma nota que informa o espectador, que durante a governação de Stalin foram executados, deportados, presos e torturados até à morte mais de 27 milhões de cidadãos soviéticos e nos campos agrícolas (kolkhozes) coletivizados, morreram de fome mais de 15 milhões de cidadãos, havendo até notícias de se ter praticado canibalismo, decorrente da total ausência de meios de subsistência. Em 1956, o 20º congresso do PCUS condenou finalmente a governação de Stalin e preconizou a “desestalinização” do país.

É pois com base neste conhecimento (só disponível no fim do filme) que se deve observar com atenção os cortejos e as homenagens fúnebres dos muitos milhares de cidadãos russos, que, de rosto fechado, sem qualquer expressão significativa desfilam lentamente em frente da urna do ditador, ou em frente dos símbolos que o representam nas diferentes capitais das repúblicas da URSS. São imagens de época, algumas inéditas, mas todas muito bem tratadas, “remasterizadas” e até coloridas tecnicamente, que mostram os duros rostos do povo martirizado pelo tirano que os seus pares candidamente apelidaram de “pai do povo”.

É com esta ideia em mente, que o filme não transmite, que devem ser ouvidos os discursos finais de Malenkov, que sucedeu a Stalin e foi primeiro-ministro da União Soviética de 1953 a 1955 tendo sido forçado a abandonar o cargo por motivo da sua ligação próxima com Beria (que já havia sido executado como traidor em Dezembro de 1953) e pelo ritmo lento dado às reformas do regime e à reabilitação dos presos políticos do tempo de Stalin.

Lavrenti Beria é lembrado como o executor do Grande Expurgo de Stalin na década de 1930, tendo comandado o massacre de Katyn, no qual mais de 22 mil oficiais e intelectuais polacos foram assassinados, para lá de outros crimes de guerra. Em Julho de 1953 foi processado por prática de “atividades criminosas contra o partido e contra o estado” por perseguir e violentar mulheres e por ser responsável pelo laboratório onde eram produzidos os venenos usados contra os alegados “inimigos” do regime.

Vyacheslav Molotov é lembrado por ter sido um dos mentores pela campanha de apreensão das colheitas na Ucrânia, responsáveis pela fome e genocídio entre 1932 e 1933 e em conjunto com Beria um dos principais colaboradores de Stalin. Em 1957 foi afastado do partido por Nikita Khrushchov, por ser contrário à “desestalinização” do regime e nomeado para embaixador na Mongólia. O seu nome tornou-se célebre pela associação à arma química caseira “coquetel molotov” que foi de sua autoria, mas sim, a resposta finlandesa aos bombardeamentos soviéticos à Finlândia durante a Guerra de Inverno, que foram descritos por Molotov como sendo um “envio de alimentos” ao povo.

Visto com este sumaríssimo conhecimento histórico, ou outro mais profundo, o filme já terá algum sentido e constituirá o documento que se pretende. Sem ele, são apenas 135 minutos de um longuíssimo cortejo anónimo e sem conteúdo. Pode ser visto nas salas a partir de 1 de Julho.

Classificação: 6 numa escala de 10

 

24 de junho de 2021

Opinião – “Quatro Dias a Teu Lado” de Rodrigo García

Sinopse

Deb (Glenn Close) não vê a filha há um ano. Uma noite, tocam à campainha e Deb vê uma mulher que mal reconhece como sendo a sua própria filha. Após um ano a dormir na rua, marcado pelo consumo de heroína, Molly (Mila Kunis) está irreconhecível: desdentada, esfarrapada e trémula. Molly implora a Deb que lhe dê uma última oportunidade para a ajudar a limpar-se. Após uma década de recaídas, mentiras e manipulações, Deb tem dificuldade em acreditar e acredita que deve "impor limites" pelo que fecha a porta na cara de Molly. No dias que se seguem, e perante a persistência de Molly, Deb começa a detetar vestígios da filha determinada e empática que tinha antes de esta se entregar à droga e a esperança começa a minar a sua determinação. Relutantemente, Deb começa a ajudar Molly nos quatro dias mais cruciais da desintoxicação antes que esta entre num programa inovador. Serão quatros dias que porão à prova o relacionamento de ambas. Estará Molly finalmente no caminho da desintoxicação e da recuperação da vida que levava antes? Ou esta será apenas mais uma das suas magistrais manipulações? Deb só poderá descobri-lo sacrificando os seus próprios limites e indo mais longe do que alguma vez fora, numa última tentativa de salvar a filha.

Inspirado numa história verídica, “Four Good Days” é uma montanha-russa emocional de esperança e co-dependência que revela os danos causados numa família, espelho de muitas famílias nesta era de toxicodependência.

Opinião por Artur Neves

Inspirado num artigo do Washington Post, cujas pessoas visadas aparecem no fim do filme, esta história em que contracenam Glenn Close no papel de Deb, a mãe desiludida e desencantada de Molly (Mila Kunis) a filha viciada em drogas duras e praticamente perdida para o vício, mostra-nos até que ponto uma mãe está disposta a sofrer por um filho e a exercer comportamentos duros e severos na intenção de o salvar apesar de já ter perdido todas as esperanças e de já ter renegado o seu amor por ela, na sequência das mentiras e dos roubos que ela já praticou para obter dinheiro para custear o seu deplorável vício.

Molly é viciada em heroína, metadona, crack e todo o catálogo de drogas duras há dez anos, tendo estado em programas de desintoxicação por 14 vezes, das quais voltou sempre ao vício, tendo em todas elas prometido a Deb, jurado mesmo, ter sido a última vez, sem que isso se tenha verificado. Agora, quando bate à porta de Deb é uma pessoa desconhecida para ela, tal é o abatimento físico, a cor macilenta, as muitas manchas no rosto e posteriormente como veremos, a ausência de dentes devido ao intenso consumo.

Aqui destaca-se a brilhante atuação de Mila Kunis (tal como em “Cisne Negro” de 2010) e a sua radical transformação física, de pele emaciada, visivelmente magra, vestida com roupas largas e desajustadas, apresentando maneirismos e tiques comportamentais que nos convencem da sua degradação. Ela mentiu compulsivamente no passado e agora Deb está sempre à defesa para as suas alegações, quaisquer que elas sejam mesmo as mais inocentes, sendo curioso apreciar a maneira como os seus olhos mudam quando ela mente de novo, a sua linguagem corporal e todos os pormenores da sua representação dum personagem que desperta empatia sem nunca manifestar individualismo ou ostentação. Este é aliás um filme de pormenores, também da parte de Glenn Close embora menos notável do que o personagem desempenhado em “Hillbilly Elegy” ainda não estreado em Portugal, que lhe deu a oitava nomeação para o Óscar em 2021, na categoria de Melhor Ator Secundário, (todavia ainda não alcançado). Close é a mãe que finge acreditar que a sua filha toxicodependente se quer reabilitar, embora realmente o deseje.

Deb não é contudo uma santa e a história do relacionamento mãe – filha conta-se entre episódios de abandono do lar, do divórcio do pai, da sua irascibilidade frequente que embora não justificando o comportamento Molly, ela alega que constituiu um forte contributo para a sua situação. O realizador Rodrigo Garcia prefere apenas mencionar os factos em vez de explora-los, tomando a história no sentido da esperança, da reabilitação e da reconciliação, permitindo a Deb o valor do perdão após anos de dor e deceção.

Interessante e bem interpretado, estará disponível em sala a partir de 01 de Julho

Classificação: 6 numa escala de 10

 

23 de junho de 2021

Opinião – “The Ice Road – Missão de Risco” de Jonathan Hensleigh

Sinopse

Após o desabamento de uma remota mina de diamantes no extremo norte do Canadá, um camionista (Liam Neeson), especialista em conduzir nas perigosas estradas de gelo tem 36 horas para liderar uma missão de resgate quase impossível, para salvar os mineiros presos. Ao enfrentar as finas estradas de gelo que ameaçam quebrar a qualquer instante e uma enorme tempestade, a equipa - onde se encontra o seu irmão Gurty (Marcus Thomas), um mecânico talentoso que sofre de afasia devido a lesões de guerra - descobre que a verdadeira ameaça é algo com que nunca contaram.

Opinião por Artur Neves

Liam Neeson, numa versão de herói geriátrico, já nos habitou que apesar da idade imprópria para nos convencer da sua capacidade física para entrar em aventuras violentas, quem se mete com ele leva com certeza e a história acaba bem, certinha, com os maus a serem castigados e o bem e a justiça a prevalecer… mas, e há sempre um mas… desta vez a história passa-se nas frias paisagens geladas no norte do Canadá, a cerca de 600 kms do Círculo Polar Ártico, onde já se pode apreciar as auroras boreais e esse ambiente torna tudo diferente, porque embora a moral de base seja comum e estafada, as premissas do enredo são diferentes, o que implica que os recursos que têm de ser usados para as ultrapassar sejam também diferentes e esse facto traz uma roupagem nova e por vezes surpreendente à história. Por outro lado, devido a passar-se num ambiente generalizadamente desconhecido para a grande maioria dos espectadores, resulta como fazer uma viagem entre dois lugares conhecidos utilizando uma alternativa por um caminho desconhecido.

Devido ao acidente na mina um grupo de mineiros canadianos fica preso no colapso duma galeria que lhes veda o contacto como exterior, confinando-os a um espaço fechado e privando-os de ar respirável. A solução para a salvação dos trabalhadores passa por esgotar o metano do interior que se vai acumulando devido a ter-se perfurado o permafrost. Para conseguir isso é necessário transportar uma carga de 120 toneladas desde Manitoba no Canadá até à mina, através de um comboio de três camiões pesados Kenworth rolando sobre um mar gelado, já fora da data em que a travessia é segura, porque se aproxima a primavera e com ela o degelo.

Assim, a viagem através da “Ice Road” já fechada ao trânsito, por possuir uma camada de gelo só com oitenta centímetros de espessura e no início do degelo é uma missão de resgate de risco acrescido tentada por Goldenrod (Laurence Fishburne), o chefe de segurança da missão, Mike (Liam Neeson) acompanhado do seu irmão Gurty (Marcus Thomas), que sofre de stress pós traumático mas é um mecânico de eleição, Tantoo (Amber Midthunder), uma jovem nativa americana que faz a viagem para salvar o seu irmão que está na lista dos desaparecidos e um responsável da companhia de seguros que valida a aventura, Varnay (Benjamin Walker) que se vem a revelar possuir uma agenda própria com objetivos sinistros.

Jonathan Hensleigh realizador e autor do argumento apresenta-nos assim um thriller de ação nas lindas paisagens do Canadá cobertas de neve em que o comboio encontra tempestades, uma ponte à beira do colapso e várias cenas de quebra de gelo e resgate das águas geladas que corporizam um ambiente que é relativamente estranho nas nossas latitudes e como tal despertam curiosidade e interesse pela história.

Os camiões sofrem vários percalços na viagem onde têm de recorrer a guinchos e roldanas em impressionantes efeitos especiais de salvamento e reboque, mas ainda assim aceitavelmente plausíveis, considerando as liberalidades a que os autores de “Velocidade Furiosa 9”, anteriormente analisado, se arrogam no direito de usar. Aqui, as cenas de ação de um camião pesado a rolar na “Ice Road” enquanto o gelo estala à sua volta e se enterra no buraco aberto é tão espetacular como as mirabolantes cambalhotas como os carros mais velozes e podemos aprecia-los com mais pormenor e constatar que embora já perto dos 70 anos, Liam Neeson saiba ainda defender-se de cenas mais arrojadas que anteriormente interpretava e conduza o seu pesado camião sobre a fina superfície de gelo a rachar sob os seus pneus. Muito interessante, diferente em meios e ambiente, vale a pena ver.

Nos cinemas a partir de 01 de Julho

Classificação: 7 numa escala de 10 

 

16 de junho de 2021

Opinião – “Velocidade Furiosa 9” de Justin Lin


Sinopse

Dom Toretto (Vin Diesel) leva uma vida tranquila, longe de tudo, com Letty (Michelle Rodriguez) e o seu filho, o pequeno Brian. Mas todos sabem que para lá do horizonte pacífico, o perigo está sempre à espreita. Desta vez, esta ameaça vai forçar Dom a enfrentar os pecados do seu passado para conseguir salvar aqueles que mais ama. A sua equipa volta a unir-se para travar um plano que vai chocar o mundo, liderado pelo melhor condutor e maior assassino que alguma vez encontraram: Jakob (John Cena), o irmão abandonado de Dom.

Opinião por Artur Neves

E assim a saga de racing drive nas ruas de los Angeles iniciada em 2001, sobre uns moços habilidosos no tuning de motores de combustão e noutras atividades menos edificantes, com muitos problemas familiares que eles preservam acima de tudo, chega à sua nona sequela em 2021 (“F9” no original) e promete a décima para 2023. Deve ainda referir-se que esta saga sofreu um duro golpe com a morte de Paul Walker falecido em 2013, um polícia infiltrado no gang para investigar os roubos da equipa chefiada por Dominic Toretto (Vin Diesel) mas que foi mais ou menos absorvido no grupo pela paixoneta por uma das irmãs de Dom. Assim, recomeçou com outro fulgor a partir de 2017 com “Velozes e Furiosos 8”, constituindo com este filme “F9” e com o próximo “F10” uma trilogia da saga que faz um up scaling à história no sentido de a enviar para o espaço num veículo completamente absurdo e de a envolver com o crime internacional, em que eles, como é óbvio, aparecem sempre como os heróis incontornáveis para salvarem a humanidade e preservarem a família como célula fundamental da espécie.

E como vale tudo, foi descoberto um irmão desavindo a Dom que não há memória de este se ter referido a ele em qualquer dos “Velozes e Furiosos” anteriores, e foram nada menos do que 8. O irmão, Jakob (John Cena), presumidamente terá ajudado a matar o pai de ambos que andava enrascado com algumas dívidas de que se queria ver livre e ao ser descoberto por Dominic, este não mais o quis ver. É com ajuda de flashbacks que o realizador Justin Lin nos revela a justificação para os irmãos desavindos e que nos mostra a transformação de Jakob num mercenário a soldo de qualquer vilão internacional que pague bem, enquanto Dom continua como o melhor mecânico de rua, excelente e ousado condutor de camiões, agente secreto sempre que necessário, além de um patusco entusiasta de churrascos em que reúne a família e amigos para lautas refeições ao ar livre, na fazenda onde se isolou com a sua mulher Letty (Michelle Rodriguez) e seu filho mais novo.

De súbito é visitado pelos membros da sua antiga equipa que o avisa da morte do seu antigo chefe, Mr Nobody (Kurt Russell), pelo temível hacker criminoso Cipher (Charlize Theron) que pretende obter um dispositivo muito importante chamado Ares com propriedades de controlo de todos os computadores do mundo, assim como dos sistemas que eles controlam para obter o controlo absoluto da humanidade. (curiosamente, embora com outro nome é também o objetivo subjacente ao filme comentado anteriormente a este; “O Guarda-Costas e a Mulher do Assassino”, os argumentistas andam com falta de imaginação) Claro que por um motivo tão destruidor, Dom não pode ficar quieto e altruisticamente volta à sua atividade, principalmente para manter a segurança da família e simultaneamente a família mundial a que todos pertencemos.

E como vale mesmo tudo, para encontrar Ares, que está divido em duas partes e precisa de uma chave para se unir, não há como recrutar novos aliados, incluindo ressuscitar Han (Sung Kang), que se estreou em “Velozes e Furiosos 5: Tokio Drift”, morreu em “Velozes e Furiosos 6” e volta agora de novo à vida neste “F9” mostrando-nos como tão intrincada é a mitologia gerada em torno desta saga que mesmo sem um objetivo específico para a intervenção de Han, o ressuscita, principalmente para mostrar que os outros personagens ficaram felizes ao vê-lo.

Para ambientar toda a ação num invólucro coerente temos toda a parte referente à aventura, aos carros conduzidos de modo impossível, aos muitos tiros dados por todos e para todos os lados, aos carros em fuga que se atiram de um precipício e são apanhados em voo por um avião, a um dispositivo super magnético que se ativa e desativa quase por magia e possui efeito remoto porque pode ser ativado à distancia para atrair ou repelir os outros carros e, pasme-se, colocam um Pontiac clássico em órbita através de vários foguetes que lhe são amarrados lateralmente. Uma verdadeira loucura de espetáculo gráfico com o som fabuloso do Dolby Atmos.

Percebe-se ainda que o realizador não se preocupou muito com a ligação da história e compensou isso com vários flashbacks que pretendem tapar os buracos da narrativa, todavia as cenas não dececionam e toda a aventura ganha como o pendor cómico de algumas delas, tornando os personagens tão poderosamente caricaturais que se dão ao desplante de ironizar sobre a sua própria imortalidade. Como já referi noutras situações, “F9” é um género de que não sou adepto, mas reconheço que tenha os seus fans que vão adorar o upgradind conseguido ao longo de todos os 145 minutos de duração.

Estreia nos cinemas a partir de 24 de Junho

Classificação: 6 numa escala de 10

15 de junho de 2021

Opinião – “O Guarda-Costas e a Mulher do Assassino” de Patrick Hughes

Sinopse

O par mais improvável do mundo - o guarda-costas Michael Bryce (Ryan Reynolds) e o assassino profissional Darius Kincaid (Samuel L. Jackson) - está de volta noutra missão em que correm perigo de vida. Ainda sem licença profissional, Bryce tem de interromper as suas férias e regressar à ação quando se cruza com a vigarista internacional Sonia Kincaid (Salma Hayek), mulher de Darius, e ainda mais volátil do que o marido. Enquanto Bryce é levado à loucura pelos seus clientes mais perigosos, o trio envolve-se numa trama global e percebe rapidamente que é a única solução para salvar a Europa do caos total. Para ajudar à diversão e à destruição, Antonio Banderas é um vingativo e poderoso lunático, e Morgan Freeman... bem, só mesmo vendo.

Opinião por Artur Neves

Em 2017 apareceu uma história de um guarda-costas meio bronco Michael Bryce, que devia proteger o assassino Darius Kincaid de Manchester a Haia, até este chegar ao Tribunal Penal Internacional para testemunhar contra uma quadrilha internacional num julgamento. Claro que o assassino sabia no que se estava meter, precisava de proteção, só que este agente da justiça que lhe destinaram era a todos os níveis impreparado para a tarefa o que justifica uma disputa entre eles, mas que têm de se conciliar e entreajudar-se pois não há outra personagem disponível para o efeito. O resultado deste diferendo é uma comédia de ação, com muito movimento, muitos tiros, muitos efeitos especiais que teve um sucesso relativo baseado na surpresa da ideia em que se fundamentaram.

Em 2021 é a mulher do assassino Sonia Kincaid que clama por justiça e recruta o mesmo e desacreditado Michael Bryce para a ajudar no resgate de Darius Kincaid. Para dinamizar a história num sentido mais amplo inclui-se aqui um criminoso chamado Aristóteles (Antonio Banderas) que deseja destruir a comunicação de dados em toda a Europa como vingança pelas sansões económicas que o Parlamento Europeu imputou à Grécia na última grande crise do Euro em que os três se vêm envolvidos na sua perseguição pelo agente da Interpol Bobby O'Neill (Frank Grillo) para salvar o mundo. Para criar um ambiente familiar temos o encontro entre Bryce e o pai adotivo (Morgan Freeman) que lhe promete mexer uns “cordelinhos” para lhe ser devolvida a carteira profissional de guarda-costas de 1ª classe, retirada por motivo de ter deixado morrer um distinto cliente japonês. Para apimentar a história temos o amor assolapado entre Sonia e Darius que se esforçam repetidamente para fazer um filho há muito desejado que lhes permitirá formar a família que tanto anseiam, bem como, a linguagem desabrida dela que não perde a mínima oportunidade de dizer claramente o que lhe vai na alma.

Tudo isto, acompanhado de muitos tiros, lutas, efeitos especiais e muitos duplos, (que também precisam de trabalhar) apresentado num formato de grandes dimensões como o IMAX e o som estrondoso do Dolby Atmos, constitui o melhor remédio para nos fazer esquecer as preocupações com a pandemia que ainda anda por aí e que tenta a todo o custo trocar-nos as voltas.

Deste modo, o que temos aqui é uma farsa de ação e comédia, gozando com todos os clichés dos filmes de espionagem internacional, utilizando atores de primeiríssima água (Salma Hayek está fantástica) que sobem a fasquia do género através de ação bem desempenhada e de vocabulário desinibido, com fock e suas declinações quase a cada minuto, em diálogos engraçados que se percebe serem mais, o resultado do improviso do que o seguimento do argumento. Na sua essência a história, apenas serve para reunir os três personagens já conhecidos e bem desempenhados numa aventura mais global do que a viagem entre o Reino Unido e a Holanda em que se fundamentava o filme anterior.

Pode sem dúvida classificar-se como uma diversão despretensiosa de verão, do primeiro verão de alívio das restrições a que fomos sujeitos durante demasiado tempo, reconstruindo uma versão mais luxuosa em meios e recursos cénicos, com muito derramamento de sangue e várias dezenas de palavrões pronunciados por uma mexicana que não tem qualquer pejo em exibi-los, que se vê com agrado e provoca algumas gargalhadas. Embora não sendo particularmente adepto deste género, confesso que me divertiu e fizeram rir com vontade todas as picardias entre o trio principal.

Estreia nas salas de cinema, dia 17 de Junho

Classificação: 6 numa escala de 10

 

9 de junho de 2021

Opinião – “O Ruído” de Doug Liman


 

Sinopse

Num futuro não muito distante, Todd Hewitt foi criado para acreditar que uma doença matou todas as mulheres e tornou possível que todos consigam ouvir os pensamentos dos outros através de um certo “ruído”, Como resultado, ninguém pode guardar seus segredos. Mais tarde, ele encontra uma fonte de silêncio: uma mulher misteriosa chamada Viola (Daisy Ridley), a primeira que ele conheceu. Neste enredo perigoso, a vida de Viola está ameaçada e como Todd jura protegê-la, ele terá que descobrir o seu poder interior e desvendar os segredos sombrios do planeta.

Do realizador de The Bourne Identity e Edge of Tomorrow, e baseado no romance best-seller The Knife of Never Letting Go, Daisy Ridley e Tom Holland contracenam com Mads Mikkelsen, Demián Bichir, Cynthia Erivo, Nick Jonas, Kurt Sutter e David Oyelowo.

Opinião por Artur Neves

Este filme já teve uma primeira versão em 2011 que foi tão detestada pelo público e pela crítica que a produção resolveu refilmá-lo de novo em 2019 mas com resultados idênticos pois o problema está na história confusa contida no romance distópico de Patrick Ness “The Knife of Never Letting Go” (“A Faca que não Deixa Partir” em tradução livre) porque na história deste povo do futuro (ou do passado, não se sabe) o ato de entregar uma faca a um jovem significa a sua emancipação e o seu reconhecimento como homem integrado na comunidade. Só que não se percebe de onde vêm, para onde querem ir ou que sociedade formaram para estabelecerem esse princípio.

Identifica-se que estão num estado quase primitivo, que são sobreviventes não se sabe de quê, de que cataclismo lhes matou as mulheres. Pela semelhança física com a raça humana presumimos que fugiram da terra e habitam um planeta hostil que lhes retirou a privacidade dos seus pensamentos, expondo-os publicamente através da emissão de ondas mentais percetível pelos outros que estejam perto, a que eles chamam “O Ruído” que dá nome à história. Essas ondas mentais são coloridas pelo que para lá de impedirem a privacidade limita-lhes também a possibilidade de se esconderem revelando a sua localização como um semáforo bruxuleante.

Porém tudo muda quando uma nave chega ao planeta e dela sai Viola (Daisy Ridley) que encontra o jovem Todd (Tom Holland) que ao ver uma mulher pela primeira vez não sabe o que fazer para ocultar os seus pensamentos, apesar de repetir convulsivamente o seu nome para tentar ocupar o seu cérebro e não revelar os reais desejos que possui. No fundo ele só quer ajudá-la (vá-se lá saber porquê) a regressar ao seu planeta pelo que a tem de conduzir aos destroços de outra nave para comunicar com a nave mãe. Ele não conhece a localização dos destroços e o local é meio secreto (com o sempre constante “Ruído” nada é secreto mas…) mas ele tem de descobrir o caminho para a salvar e fica formado o novelo do caos em que se enredou esta história resultando num completo desperdício de recursos e de talento (Mads Mikkelsen desempenha o papel de presidente da comunidade) da história recente de Hollywood.

Quero declarar que não me regozijo com este completos flops cinematográficos pois seja como for, representam as esperanças onde muitas pessoas investiram as suas economias no pressuposto de contribuir para um objeto de diversão e uma obra de cinema capaz de transmitir uma ideia, um pensamento estruturado ou uma filosofia, só que aqui não “habita” nada disso. Alegar ficção científica e mostrar personagens em vestes andrajosas montados em cavalos e desenvolver a história num bosque com cenas de canoagem para chegar aos destroços de uma nave que miraculosamente mantinha intactos e alimentados os meios de comunicação interplanetário é talvez um pouco excessivo para granjear adeptos entre os espectadores.

No livro de Patrick Ness, a trilogia de onde esta história é o 1º volume, é a atmosfera do planeta que faz com que os pensamentos destes colonos sejam audíveis e visíveis. Charlie Kaufman um realizador e argumentista de ideias surrealistas foi quem primeiro deu corpo ao argumento e foi substituído por outros escritores, entre os quais Doug Liman que também assumiu a realização. Ele tem créditos firmados, dos quais “No Limite do Amanhã” de 2014 é um bom exemplo mas aqui ficou aquém do esperado apesar do bom elenco utilizado num pacote de fácil digestão e de adequada configuração. No entanto não ultrapassou o caos que gerou.

Disponível nas salas a partir de 10 de Junho

Classificação: 4 numa escala de 10

5 de junho de 2021

Opinião – “Supernova” de Harry Macqueen

Sinopse

Sam (Colin Firth, vencedor do Óscar) e Tusker (Stanley Tucci, nomeado ao Óscar) estão juntos há vinte anos e estão tão apaixonados como sempre. Mas o diagnóstico de demência precoce de Tusker veio alterar radicalmente as suas vidas. Com o agravar da condição de Tusker, Sam viu-se obrigado a suspender a sua vida para se dedicar a tempo inteiro ao companheiro. Enquanto Tusker ainda está em condições de viajar, decidem fazer uma viagem para retomar o contacto com amigos, familiares e lugares de seu passado. Embora Tusker já tenha sido o grande amparo de Sam, cabe agora a este assumir o comando da situação. Com o desenrolar da viagem, as ideias que cada um tem para o futuro começam a confrontar-se. Descobrem-se segredos, revelam-se planos individuais e o amor que sentem um pelo outro é testado como nunca. Por fim, face à doença incurável de Tusker acabam por ter de se enfrentar o que significa amarem-se.

“Supernova” é realizado e tem o argumento original de Harry Macqueen ("Hinterland"), e conta com o diretor de fotografia nomeado para Óscar, Dick Pope ("Os Órfãos de Brooklyn", "Mr. Turner), e é uma comovente e moderna história de amor sobre um casal que que procura resgatar o passado e as amizades que construiu durante a sua vida.

Opinião por Artur Neves

Esta é uma história de perda, perda irreparável porque é a perda do objeto do amor e isso tem um significado maior para o perdedor. Tal como em “A Despedida”, recentemente estreado nas salas de cinema, esta história trata do direito inalienável de cada um sobre o destino a dar à sua vida, quando, pela degradação irremediável da sua saúde isso comprometa a sua autonomia e o seu conhecimento de si de forma tão radical que não se possa chamar vida, ao que resta da sua atividade orgânica.

Já são vários os filmes recentes que abordam esta temática tão em voga, talvez decorrente do aumento da expectativa de duração do tempo de vida, mas que de nada valerá se não incluir a sanidade mental que a justifica. Recordo-me de Julianne Moore em “O Meu nome é Alice” de 2014, Anthony Hopkins em “O Pai” de 2020 ou Susan Sarandon no filme anteriormente referido, cabendo agora a Sam e Tusker (Colin Firth e Stanley Tucci respetivamente) que interpretam um casal gay que estão juntos há vinte anos e desfrutam de uma harmonia invejável fundamentada no amor que continua a justificar a sua união.

Tal como em a “A Despedida” Tusker prepara uma reunião de familiares e velhos amigos na casa da irmã de Sam, Lilly (Pippa Haywood) para a qual se dirigem na sua caravana de muitas viagens, pelas estradas secundárias da província de Lake District, no Reino Unido. Sam preferiria a ajuda do GPS mas porque a voz metálica do aparelho desagrada a Tusker, este prefere seguir no mapa e guiá-lo sobre os caminhos a tomar, a conversa entre ambos é amena e suave, incomum em casais com uma longa vida juntos.

Sam é pianista em licença sabática prestes a reativar a sua atividade logo a seguir a este feriado em que programaram a viagem e Turker é um escritor presentemente afastado da sua atividade pela progressividade da sua doença e relutante em começar a recolher notas para o início, todavia ele continua a dizer que está a escrever um livro para publicação em breve, para acalmar o companheiro que percebe e se preocupa com o crescendo das suas limitações. Quando param para abastecer numa bomba de gasolina, percebe-se a aflição de Sam ao ver que Turker saiu da caravana e não se encontra nas proximidades. Sam pega na caravana e segue a estrada à sua procura até o encontrar, parado em frente de um portão, de olhar vazio, perguntando-se onde está e sem saber como foi ali parar.

O argumento escrito por Harry Macqueen é lento como a vida dos seus personagens colocando o espectador no mundo do casal, dando ênfase ao mais importante que é a relação amorosa entre ambos, a sua vida no interior da caravana, o quarto onde Sam viveu a sua infância na casa dos pais onde ainda vive a sua irmã, a sua cama de solteiro que agora serve para ambos, gerando um ambiente de sã intimidade que nos transmite a paz que reina entre eles.

A viagem não é inocente, Tusker está suficientemente conhecedor do seu estado e o motivo para a festa de aniversário em casa de Lilly arrasta a despedida e a comunicação da sua decisão que é descoberta por Sam antes de tempo, quando a Tusker lhe falta a palavra e ele gere generosamente essa falta. O mais importante em Macqueen é evitar o sentimentalismo barato, a comiseração ou qualquer outra mancha afetiva e consegue-o com pleno êxito. Muito bom, recomendo sem reservas.

Estreia nas salas de cinema a 17 de Junho

Classificação: 7 numa escala de 10