26 de abril de 2019

Opinião – “Seduz-me se és Capaz” de Jonathan Levine


Sinopse

Um romance improvável mas não impossível serve de arranque para esta comédia de Jonathan Levine.
Charlotte Field (Charlize Theron), Secretária de Estado dos Estados Unidos reencontra numa festa, Fred Flarsky (Seth Rogen), de quem em tempos foi babysitter. Hoje jornalista, o rapaz é contratado por Charlotte para auxiliá-la na sua campanha presidencial e antigos sentimentos renascem entre os dois.

Opinião por Artur Neves

No cartaz publicitário deste filme foi incluída a frase: “Improvável mas não Impossível” como desiderato global da história. Após o visionamento do mesmo senti um impulso para alterar esta frase para: “Nunca Provável e totalmente Impossível”. Isto não significa porém, que a história seja má e que o objetivo de entretenimento do filme não tenha sido plenamente atingido, só que; o seu a seu dono, a probabilidade de ocorrência desta história neste planeta é mais remota do que um encontro com a mais longínqua das galáxias estrelares, embora essa hipótese teórica seja probabilisticamente possível.
Jonathan Levine é um realizador que já nos apresentou algumas comédias interessantes tanto como diretor ou como argumentista e ao juntar neste projeto Charlize Theron e Seth Rogen como atores, mas também como coprodutores, presumo que terá sido fortemente influenciado por Seth Rogen para construir uma comédia, à semelhança de outras já realizadas, como 50/50 (2011), que transmitam alegria e emoção à mistura com verdades do nosso tempo que nos obriguem a refletir sobre o mundo que nos rodeia.
Esta é pois uma comédia romântica, com forte pendor político em que Charlotte Field (Charlize Theron) desempenha o papel de secretária de estado de um presidente americano que nos sugere, pelos seus maus gostos e opções, o atual inquilino da Casa Branca. Da sua interpretação, que projeta elegância sem mácula e charme discreto temos o estereótipo que justifica como as mulheres se devem apresentar em público, frias e confiantes, ao mesmo tempo que se permitem de brincadeiras que sugerem Hillary Clinton. No meio em que se movem estão lá todos representados; o magnata Rupert Murdoch, o “namorado” pretendido por toda a “classe” Justin Trudeau, primeiro-ministro canadiano e muitos outros.
A nota dissonante desta oligarquia de perfeição é Flarsky (Seth Rogen), jornalista muito cotado, truculento, desempregado por se manter fiel à sua ideologia de esquerda, que foi acompanhado na infância por Charlotte Field, quando esta fazia babysitting e que agora ao revê-lo, inicia um romance com ele, apesar da sua apresentação totalmente fora dos cânones. É a fase da fábula no filme em que a “Cinderela”, linda, inteligente e poderosa, que se move nos círculos mundiais do poder se apaixonar pelo pobre trapalhão, embora também inteligente e útil e viver uma fantasia romântica, elevando-a a um sonho político a que todos aderem, acreditam e generosamente votam nela para presidente dos USA.
O final só pode ser feliz e perfeito, muito embora deixe para traz toda a crítica anunciada, da luta de classes e do poder sexista, mantendo todavia um registo alegre, até cómico por vezes e comovente noutras, que merece ser visto e degustado.

Classificação: 6 numa escala de 10

24 de abril de 2019

Opinião – “Vingadores: Endgame” de Anthony & Joe Russo


Sinopse

Depois do estalar de dedos de Thanos, que dizimou metade da população mundial e destruiu a equipa dos Vingadores, os que sobreviveram têm de tomar uma posição final em “Vingadores: Endgame”, o grande desfecho dos 22 filmes da Marvel Studios.

Opinião por Artur Neves

E após 21 filmes desta série da Marvel, (penso que nem todos foram apresentados entre nós) eis que temos o 22º anunciado como o último da chancela dos Vingadores. Não é que possamos acreditar piamente neste anúncio, pois com os anos que por cá andamos já vimos muitas “piruetas” em anúncios do mesmo género até ao ponto de ressuscitar mortos para continuara uma saga. Foi dos blockbusters de maior sucesso da Marvel em termos de bilheteira, como tal esperemos para ver.
No filme anterior, “Vingadores – Guerra do Infinito” em 2018 os fans receberam um murro no estômago quando Thanos, o vilão, sai vitorioso depois de eliminar metade de todas as criaturas da terra, incluindo alguns dos nossos heróis favoritos. Coisa nunca vista, o vilão ganhar e os heróis perderem, mas aconteceu.
Como tal este filme “sabe” a desforra (e a Parte 2) relativamente ao desaire anterior e de facto assim é, só que, para “saborear a vitória em todo o seu esplendor”, isto é, para apreciar com prazer durante 182 minutos, todas as pequenas vitórias parciais que compõem a vitória final o meu caro leitor teria de conhecer todos os personagens envolvidos nos anteriores filmes, para usufruir com propriedade dos gracejos e piadas cruzadas que os dois argumentistas; Christopher Markus, Stephen McFeely incluíram nesta história, ficando este filme o mais “Marvel” desta saga da Marvel, se é que se pode atribuir um estilo “Marvel” a uma história que até tem enredo e novidade, constituída pela interação de personagens em novos personagens que vão preencher as lacunas deixadas pelos vencidos da “Guerra do Infinito”.
Não há aqui lugar para especificar detalhes, pois como em todos os outros filmes trata-se de mais um exemplo da luta entre o bem e o mal e que por ser o último… (será mesmo?...) a produção investiu todas as suas “fichas” para que seja memorável o modo como se processa esta luta, definitivamente espetacular se visto em todo o esplendor do IMAX 3D, ou 4DX 3D, como sendo as plataformas mais envolventes e imersivas que o cinema nos pode oferecer.
Como em todos os filmes de super heróis o ambiente é de epopeia, de alegria, de vitória e se aceitar participar neste desafio não se desiluda durante o primeiro quarto de hora que nos mostra o “lamber das feridas” dos nossos heróis, recriando o ponto mais baixo do fulgor que se seguirá em crescendo, provocando emoção e alegria até às lágrimas.
Pessoalmente não adiro com muita facilidade a estas euforias, mas não posso deixar de reconhecer a alegria esfuziante que o filme pretende transmitir e o espírito de vitória que devemos sentir em face dos problemas, embora fundamentado no sofrimento, para alcançar o sucesso, pelo que a classificação atribuída reflete mais o que o filme quer transmitir aos fans e aderentes do género, do que o efeito que o mesmo me causou.

Classificação: 7,5 numa escala de 10

Opinião – “O Professor e o Louco” de Farhad Safinia


Sinopse

Baseado no best-seller de Simon Winchester, O PROFESSOR E O LOUCO é uma extraordinária história verídica de génio, obsessão e loucura, centrada em dois homens extraordinários, que em 1857 conceberam o Dicionário de Inglês de Oxford, um dos projetos mais ambiciosos e revolucionários da época
O Professor James Murray (Mel Gibson) aceita o desafio de criar o dicionário mais abrangente de sempre, mas sabia que necessitaria de um século para recolher todas as definições necessárias. Contudo, através do uso de ajudas fornecidas por pessoas de todo o mundo, a obra poderia ser acabada em meras décadas.
Durante o processo de recolha de definições, o Professor Murray dá-se conta que um só homem tinha enviado mais de dez milhões de definições. O comité decide honrar o trabalho desta figura, W.C. Minor (Sean Penn), mas acaba por descobrir que ele é um veterano da Guerra de Secessão Americana e um assassino condenado e preso num asilo para os criminosos loucos.

Opinião por Artur Neves

Quando folheamos um dicionário não nos detemos, nem sequer valorizamos o imenso trabalho que reside por detrás desta obra, que consiste em recolher ordenadamente todas a palavras possíveis num determinado idioma para conferir-lhes um significado de acordo com os diferentes contextos em que elas possam intervir. Este filme conta pois a história da organização dum dos mais conceituados dicionários do mundo, com base no livro sobre o mesmo tema mas que eu tenho dúvidas sobre o interesse da passagem para cinema desta história, conduzido por um realizador Iraniano, com pouca experiência e inerente pouco ascendente, sobre dois atores consagrados como Mel Gibson e Sean Penn, sobejamente conhecidos pela sua irreverencia e truculência no seu trato normal.
Na realidade Farhad Safinia, não chegou a concluir o filme, tendo sido substituído por outra pessoa e o seu nome foi sumariamente apagado nas cópias que foram distribuídas em alguns mercados. Em Portugal temos a versão “original” sem que isso represente uma vantagem.
Não querendo repetir a sinopse direi que a história se desenvolve em torno de dois personagens muito diferentes, alternando as cenas entre as vidas do Professor Murray e de William Chester Minor que desde cedo é identificado como esquizofrénico, com obsessão de se sentir perseguido por uma das suas vítimas até ser preso numa prisão manicómio, depois de num dos seus desvarios ter assassinado um inocente que confundiu com o seu pseudo perseguidor.
Tratando-se de uma biografia não é normal que somente estes dois personagens envelheçam e os outros, tais como; a esposa e filhos do Professor Murray e a mulher e os filhos da vítima assassinada pelo W.C. Minor se mantenham inalterados e jovens ao longo de todo o filme.
Muito embora o conhecimento entre os dois decorra do trabalho prestado incognitamente por W. C. Minor, e esteja de acordo com a descrição do autor do best-seller, soa pouco provável que duas personalidades tão dissonantes tenham tido este relacionamento tão profícuo.
Por outro lado, para conferir alguma emoção ao relato da construção de um dicionário, a história inclui um romance de amor entre Eliza Merrett (Natalie Dormer) mulher da vítima assassinada e W.C. Minor, que nos intervalos lúcidos da sua loucura lhe corresponde efusivamente como expiação do remorso pelo seu precipitado crime. Já para a esposa de Murray o argumento não sabe muito bem o que lhe fazer e destaca-a numa defesa inusitada do trabalho do marido, em que ela não está envolvida nem conhece em pormenor.
Todavia o desenvolvimento do trabalho não deve ter sido tarefa fácil entre o autor, o editor, o diretor da Universidade de Oxford e o filme retrata com suficiente qualidade a rivalidade latente entre estes intervenientes, numa época de relações fortemente convencionais e hierarquizadas socialmente, em plena época Victoriana da velha Inglaterra. Para este pormenor vai toda a classificação atribuída, embora no seu todo, este filme seja fraco.

Classificação: 6 numa escala de 10

22 de abril de 2019

Opinião – “Solum” de Diogo Morgado


Sinopse

Um programa de televisão numa ilha inabitada, onde oito concorrentes têm de lutar pela derradeira sobrevivência num terreno inóspito, torna-se mais do que parece. Solum não é só um jogo, é uma prova, uma seleção, um espelho que confronta a verdade da Natureza com a mentira da Raça Humana.

Opinião por Artur Neves

Um filme de ficção científica, português, era um objeto há muito pensado por mim, sobre quais seriam os motivos dos nossos agentes de produção e realizadores não terem ainda mostrado interesse neste género de trabalho. Entenda-se todavia, que para mim, ficção científica, significa contar uma história, cujo desenvolvimento recorre a meios de execução, equipamentos e ambientes que se situam para lá do estado tecnológica atual e como tal são gerados artificialmente pelos meios técnicos e computacionais da equipa de filmagem.
Como tal estava extremamente curioso e expectante para este trabalho de Diogo Morgado. A história começa pelo início de um reality show numa ilha desabitada, com os concorrentes a partirem para as suas tarefas individualmente. Algo parecido com os filmes “Maze Runner”, ou “Os Jogos da Fome” de 2014, 2015 e 2018, pensei eu na minha ingenuidade ainda expectante, mas não… Era apenas um filme Português de parcos recursos que punha oito pessoas a correr numa mata de uma montanha situada algures…
Depressa repeli este mau pensamento e auto aconselhei-me a contemporizar com a história que se desenrolaria a seguir. Tal como nos outros filmes anteriormente referidos, em que somos informados ao que veem as personagens, desenvolvendo-se a história, contrariando ou perseguindo os objetivos no contexto inicialmente anunciado, mas não… Aqui os concorrentes que foram colocados individualmente em diferentes pontos da ilha, depressa se juntam em equipa e fogem muito juntinhos de um “Robin dos Bosques” equipado com um arco e flechas, que depois de destruir os meios de contacto com a equipa de gestão do concurso, dá numa de caçador dos colegas concorrentes porque ele sabia mais coisas sobre os objetivos do reality show do que os colegas e do que nós, que estávamos a ver aquilo tudo, direitinho desde o princípio…
A partir daqui evaporaram-se-me as expectativas e perdi totalmente a esperança de assistir ao primeiro filme de ficção científica português, digno desse nome…
Não é que os atores sejam maus, ou que a representação dos personagens fosse defeituosa, eles e elas apenas seguiram o guião que lhes apresentaram. Muito embora as lutas corpo a corpo não estejam ao nível do que vemos nos filmes estrangeiros e os momentos de tensão e de desespero não aguentem um close-up da câmara de filmar, que imediatamente denuncia a sua artificialidade, são pormenores que atribuo a custos de pioneirismo e com o tempo eles hão de lá chegar.
Para mim contudo, o pior é a história que se remete para uma transcendentalidade mal-amanhada, de uns alienígenas que há muito estão disfarçados entre nós e agora resolveram punir-nos, escolhendo um elemento dos concorrentes ao reality show como o eleito entre todos os seres humanos já castigados por terem tratado tão mal o planeta que definha e fenece como resultado do aquecimento global, da poluição e da guerra.
Por amor da santa, tantas boas intenções, desembrulhadas a conta-gotas por uns rapazes a correr na mata evidenciando a beleza dos Açores para turista ver, não fazem um filme de ficção científica.

Classificação: 4 numa escala de 10

18 de abril de 2019

Opinião – “O Operação Hummingbird” de Kim Nguyen


Sinopse

Neste épico da era moderna, Kim Nguyen expõe o lado implacável do nosso mundo cada vez mais digital. Dois primos de Nova Iorque, Vincent (Eisenberg) e Anton (Skarsgard), participam no jogo de alto risco que são as Negociações de Alta Frequência, onde a vitória é medida em milissegundos. O sonho deles? Construir um cabo de fibra ótica em linha reta entre o Kansas e Nova Jérsia, o que lhes trará milhares de milhões.
Mas nada é simples neste plano débil. Anton é o cérebro, Vincent é o negociador, e juntos levam-se a si mesmos e a toda a gente à sua volta ao ponto de rutura nesta aventura quixotesca. Sempre em cima deles está a sua antiga chefe, Eva Torres (Hayek), uma corretora poderosa, intoxicante e manipuladora que não olhará a meios para se colocar entre eles e derrotá-los no seu próprio jogo. Custe o que custar, Vincent e Anton estão determinados a atravessar a América, mas só encontrarão a redenção no fim da linha, não através do dinheiro, mas através da família e de um regresso à natureza.

Opinião por Artur Neves

Esta história é uma fábula financeira de como a poupança ou o encurtamento de milésimos de segundo no conhecimento de uma oportunidade de compra ou de venda no mercado de ações, pode conduzir a um lucro de milhões, seja qual for a referência da moeda que estamos a considerar.
Para isso os dois irmãos convencem um investidor a financiar-lhes o projeto louco de instalação de um cabo de fibra ótica em linha reta (ou o mais reta possível) entre Kansas City e Nova Iorque que entronca na classe do thriller financeiro já explorado em “O Dia antes do Fim” de 2011 ou “A Queda de Wall Street” de 2015, ambos já estreados entre nós.
Só que nos dois filmes anteriores, as histórias embora sendo objeto de ficção, tinham fortes traços de ligação á realidade diária dos mercados financeiros, coisa que neste filme não acontece pois ninguém se convenceria a investir milhões num projeto de instalação de um cabo de fibra ótica através de florestas, vales, rios e montanhas rochosas, numa distância de quase 700 km, quando a comunicação sem fios conseguiria atingir por um preço inferior o mesmo objetivo, com maior segurança e estabilidade.
Assim sendo, o filme transforma-se num esforço curioso sob a tenacidade humana e a capacidade de vencer todos os obstáculos, mesmo á custa da própria vida, transmitindo-nos a sensação de se basear numa história verdadeira, embora sendo pura ficção e constitua uma impossibilidade real do ponto de vista tecnológico e da guerra das altas frequências e da banda larga em telecomunicações.
Por outro lado, como este assunto está fora do âmbito de interesse da maioria das pessoas, o que temos são 111 minutos de um combate desesperado entre “David” e “Golias” por um objetivo irreal, que apesar de se concretizar fisicamente, conduz a um extraordinário falhanço dos pressupostos que pretendia atingir. Quase que nos faz lembrar o assunto do filme de Kenneth Branagh “Muito Barulho por Nada” de 1993, embora noutro contexto.
Toda a história sofre de um arbitrário e manipulador exagero, maior e mais profundo do que as condições de instalação do cabo de fibra ótica que serve de motivo principal a esta história.

Classificação: 4 numa escala de 10

12 de abril de 2019

Opinião – “O Mundo é Teu” de Romain Gavras


Sinopse

François (Karim Leklou) é um passador de droga cujo sonho é desenvolver a franchise do gelado Mr Freeze em Marrocos. Contudo, a sua ambição é inviabilizada quando descobre que a própria mãe (Isabelle Adjani) – jogadora compulsiva e uma vigarista muito experiente – perdeu ao jogo as economias que ele precisava para iniciar uma nova vida. Putin, o traficante local, propõe a François um último golpe em Espanha para que ele possa reunir o dinheiro de que tão desesperadamente precisa. Mas as coisas vão de mal a pior quando a transação corre mal, arrastando consigo toda a gente: Lamya, o seu amor não correspondido; o seu ex-padrasto (Vincent Cassel), um cretino acabado de sair da prisão; dois aspirantes a gangsters, inseparáveis e incontroláveis; e por último, como se não bastasse… a sua deslumbrante e manipuladora mãe.

Opinião por Artur Neves

À partida não se pode dizer que esta história não teve um bom pai. Romain Gavras, filho do aclamado Costa-Gravas, o realizador Grego de filmes como; “Z – A Orgia do Poder” de 1969 e “Desaparecido” (Missing) de 1982, dois filmes de intervenção política que marcaram a memória da época. Como filho de peixe “também deve saber nadar” eis que nos apresenta esta história do género thriller comédia de um dealer “fofinho” que se vê metido numa embrulhada da pesada, quando o seu objetivo de vida apenas consiste em abrir uma casa de gelados em Marrocos.
O problema reside na sua sofisticada mãe Danny (Isabelle Adjani), jogadora inveterada que gastou todas as poupanças que François lhe havia confiado e ele agora vê-se forçado a tentar obter o máximo de dinheiro no tempo mínimo para realizar o seu projeto e satisfazer os anseios do amor do seu coração, Lamya (Oulaya Amamra) um amor negociável, que se mostra de várias formas menos paciente e compreensiva com a submissão de François à manipuladora Danny que não se coíbe de condicionar e controlar todas tentativas de independência do seu filho.
Para complicar, temos também Henri (Vicent Cassel) num papel como nunca o vi de idiota, cretino, com uma fixação filosófica na origem da vida, consumido por teorias da conspiração manipuladas por organizações secretas que tudo vêm e tudo podem, principalmente atrapalhar toda a atividade que Francois lhe tenha atribuído fazer, no plano que engendrou para obter os necessários fundos que permitirão cumprir o seu desígnio comercial.
A história está bem conseguida, os personagens são todos de fino porte e de exemplar comportamento numa sequência de cenas bem contadas que mantêm a incógnita e o interesse do espetador na ação. Apesar de ser um filme com uma duração normal, 102 minutos, consegue incluir um conjunto significativo de personagens diferentes, todas amalucadas, como por exemplo; Gabby Rose (Brittany) a filha gorda e sardenta do traficante a que Francois quer comprar droga, que ele sequestra e que se revela a maior inimiga do próprio pai ao revelar a Francois o esconderijo da droga. Gabby desempenha assim um papel de pré-adolescente, prematuramente conhecedora e avisada com uma naturalidade que merece atenção.
Trata-se pois de uma história de “quadradinhos”, bem orquestrada por Gavras, com canções soft-rock vintage, passada em ambientes de férias, embora absolutamente absurda do ponto de vista do que é normal assistir-se em filmes de gangsters e de tráfico de droga, todavia constitui um tempo de descontração e divertimento bem passado.

Classificação: 6 numa escala de 10

10 de abril de 2019

A FAMÍLIA ADDAMS - teaser


Preparem-se para estalar os dedos! A Família Addams está de volta ao grande ecrã na primeira comédia de animação sobre a família mais peculiar e macabra do bairro. 

Realizado por Conrad Vernon (Madagascar 3Sausage Party) e Greg Tiernan (Sausage Party) o filme conta, na versão original, com as vozes de  Charlize Theron, Oscar Isaac, Finn Wolfhard, Allison Janney e Chloë Grace Moretz.

Do cinema convencional para a banda desenhada aqui temos uma família multifacetada muito especial, muito macabra, recheada de segredos e aventuras com muita ironia e surpresa nos ecrãs do Halloween de 2019.

9 de abril de 2019

Opinião – “A Queda do Império Americano” de Denys Arcand


Sinopse

Pierre-Paul (Alexandre Landry) é um homem de 36 anos com PhD em filosofia que trabalha dirigindo um caminhão de entregas, uma linha de trabalho em que ele acredita ser bom demais para estar. Quando um dia ele encontra duas bolsas de dinheiro, ele precisa escolher entre permanecer com a vida que tem ou finalmente ter o estilo de vida que queria, porém às custas de se envolver com a polícia e o mundo do crime.

Opinião por Artur Neves

Este filme é o terceiro de uma trilogia escrita e realizada por Denys Arcand, realizador canadiano nascido em 1941. A série foi iniciada em 1987 com “O Declínio do Império Americano”, a que se seguiu; “Invasões Barbaras” em 2003, e pretende ser uma visão crítica, ácida, virulenta da vida quotidiana, todavia contada com muita graça, boa parte sofrida, mas ainda assim com alusões que nos fazem sorrir, sobre as contradições filosóficas da nossa vida comum em sociedade.
O primeiro filme de 1987 resume-se a um jantar de amigos que comentam entre si a vida, enquanto as amigas ocupam o tempo num ginásio e comentam igualmente a vida à sua maneira. Quando se juntam para ao jantar, fazem-se revelações e comentários íntimos sobre todos os amigos que põem em causa parte da confiança entre eles.
O segundo filme de 2003, interpretado com os mesmos atores do primeiro filme, sofre a influência da surpresa do ataque às torres gémeas em Nova Iorque e centra-se na fase terminal da doença de um deles e no papel fundamental que a verdadeira amizade tem na nossa existência.
Em ambos, os textos são muito ricos e tecem-se abundantes considerações filosóficas sobre o sentido a vida, com muita graça perversa, lasciva e política.
O presente filme não foge à regra dos anteriores, incluindo a participação do ator que se tornou mais emblemático nos filmes anteriores, Sylvain Bigras (Remy Girard) que desempenha aqui o papel de “cérebro” (The Brain) do grupo.
Por ser tão ligada à realidade vigente e á vida tal como a conhecemos, a história só pode ser contada como um “conto de fadas” dos nossos dias, utilizando um enredo intrincado, sumariamente descrito na sinopse, que reúne elementos de duvidosa verossemelhança mas que servem na perfeição para caraterizar as relações sociais da atualidade fortemente vinculadas pelo dinheiro, pela riqueza escondida em paraísos fiscais, pelo tráfico de droga com permissividade policial, pela corrupção da justiça, pela capacidade individual de enganar o próximo em benefício próprio, sem qualquer remorso, ética ou respeito social. Tudo contado numa linguagem bem articulada, pejada de citações filosóficas, aplicadas com uma graça subtil adaptada ao desenrolar da ação.
E por fim existe também o amor, sereno, surpreendido na sua própria aparição, inesperado, ou previsto noutro contexto, que se impõe como elemento aglutinador do grupo mais exógeno que esta história constrói, que escreve a direito por linhas tortas e nos deixa o vislumbre da esperança de uma humanidade que se imporá sempre sobre as ruínas da sua própria destruição e nos deixará ser felizes se soubermos encontrar o caminho.
A classificação indicada reporta-se individualmente a este filme, mas à trilogia completa e aos múltiplos momentos de ironia e emoção que ela transmite, julgo que merece o 10.

Classificação: 8 numa escala de 10

5 de abril de 2019

Opinião – “Lugares Sagrados” de Amanda Sthers


Sinopse

Harry (James Caan), um antigo cardiologista judeu de Nova Iorque, decide passar os anos da reforma como criador de porcos em Nazaré, Israel. É uma escolha que causa choque entre os seus familiares, e coloca Harry em conflito com a comunidade local, especialmente o rabi Moshe (Tom Hollander). Ao mesmo tempo, em Nova Iorque a ex-mulher de Harry, Monica (Rosanna Arquette), tenta orientar a vida dos seus filhos já adultos, Annabelle (Efrat Dor) e David (Jonathan Rhys Meyers), assim como a sua, depois de descobrir que sofre de um tumor no cérebro.
Filmado nas icónicas paisagens de Israel, LUGARES SAGRADOS é uma história universal sobre amor, família, perda e tolerância, contada com grande humor e afeto, que nos mostra como até nas famílias mais disfuncionais, o que importa é a coragem para dizer aquilo que nunca foi dito.

Opinião por Artur Neves

Com uma história recheada de segredos e palavras escondidas, não ditas pela vergonha das ações que as sustentam, relatada com fino humor e subtil crítica às convenções religiosas que assentam em dogmas anacrónicos, este filme é um consolo de alma para todos os agnósticos que como eu pensam que; se Deus criou o mundo e todas as coisas que nele existem, também criou os porcos com todas as particularidades que lhes conhecemos, pelo que á luz da Sua declarada infinita bondade, não faz sentido ser proibida a criação de porcos em Israel.
É com esta premissa que se desenvolve a aventura de Harry, um homem solitário que abandonou, Nova Iorque, onde deixou a mulher Monica, por se ter apaixonado pelo seu colega, também cardiologista com quem trabalhava, um filho homossexual que ele não consegue encarar nem tão pouco, responder às insistentes cartas que este lhe escreve tentando justificar a sua opção, bem como a sua filha Annabelle, uma rapariga adulta que se recusa a assumir as responsabilidades da vida sob o pretexto da contínua e prolongada frequência escolar como escape para as suas incapacidades.
É tudo isto que Harry deixou para traz e rumou à sua terra de origem para ser criador de porcos em Nazaré, onde a sua pessoa é contestada por todas as religiões e que serve de ilustração para as incongruências da fé e das práticas convencionais de todas as religiões que somente visam impor procedimentos vinculativos para a sua prática, mas vazios de sentido para a vida das pessoas que os praticam.
Amanda Sthers, realizadora a viver em Los Angeles, nascida em Paris, França, apresenta-nos aqui um filme recheado de sentimentos e desgostos, silêncios e alegrias, bem conseguido através de personagens credíveis, como por exemplo Monica (Rosanna Arquette como á muito tempo não a via) e Michel (Patrick Bruel) o seu namorado, e médico, com quem estabelece a conversação mais calma, suave e conformada sobre a previsão do seu breve falecimento.
Todo o filme é apresentado de forma fluida, segura, contando os factos em antecipação à sua inserção na história, como que avisando-nos para que algo vai acontecer e que é reconhecível de seguida, entre a truculência de Harry, o remorso acusador de David, a ligeireza filial de Annabelle e os protestos ansiosos de Monica que não quer perder um segundo do tempo que lhe resta. A incongruência religiosa é a cereja sobre o bolo. Recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

Opinião – “Piercing” de Nicolas Pesce


Sinopse

Reed despede-se da sua mulher e do filho bebé, aparentando ir numa viagem de negócios. Mas em vez de roupas, a sua mala contém um kit de bondage e um picador de gelo. O plano está traçado: irá fazer check-in num hotel, ligar para um serviço de acompanhantes, e matar uma prostituta inocente. Mas o plano de Reed não contava com Jackie, a sedutora e misteriosa acompanhante que entra no seu quarto e altera completamente tudo aquilo que Reed meticulosamente tinha imaginado. À medida que a noite avança, um pesadelo diabólico instala-se. Uma comédia negra baseado num livro de Ryu Murakami, que também inspirou o clássico "Audition" (1999), de Takashi Miike.

Opinião por Artur Neves

Este filme fundamenta-se (embora remotamente) no romance Japonês citado na sinopse, mas abordado por outro prisma, considerando que em “Auditon” o que se pretende mostrar é a violência bizarra dos jogos sadomasoquistas de uma jovem candidata a atriz que se apresenta numa representação elaborada, fazendo-se passar por quem não é para assim cativar os que acreditam nela.
Nesta abordagem, temos a mesma tendência desviante da pretendente, mas noutro contexto, considerando que quem deveria ser morta era ela por um meticuloso assassino, pai de família frustrado na sua existência, que decide “só porque sim” assassinar uma acompanhante de luxo para se divertir e encontrar alguma compensação para os seus insucessos.
Para que nada falhe o putativo assassino ensaia o golpe em todos os pormenores, simulados até à exaustão, imaginando o som dos membros a serem cortados e o sangue a jorrar, com a expressão mais natural que se possa conceber que o realizador detalha com precisão, e excesso, digo eu, fazendo derivar o filme e o espírito da obra em que se inspirou para a comédia negra com sangue a jorros e situações caricatas que destorcem o drama de horror e mistério que lhe deu origem.
Não podemos dizer que Nicolas Pesce se destaca pela negativa neste trabalho. O seu trabalho anterior; “Os Olhos da Minha Mãe” de 2016, também um drama de horror e morte está muito bem conseguido o que indicia ser mais bem utilizada a sua arte com histórias de elevada intensidade dramática do que em trabalhos como o atual onde a loucura dos personagens e a sua exuberante convicção nos seus objetivos, os leva a comportamentos que criam ambientes tensos que subitamente caem no ridículo e no improvável e nos fazem perder, ou pelo menos reduzir a expetativa inicial.
A mulher que lhe aparece no quarto não é a que ele tinha requisitado, mas antes Jackie (Mia Wasikowska) muito diferente do que Reed (Chistopher Abbott) esperava, com quem ele se vê compelido a desenvolver um romance imprevisto, constituindo dois personagens credíveis até ao final abrupto que não vou revelar para não retirar o mais interessante do filme e que justifica a classificação atribuída.

Classificação: 6 numa escala de 10

28 de março de 2019

Opinião – “O Dia a Seguir” de James Kent


Sinopse

O Dia a Seguir Passa-se na Alemanha do pós-guerra em 1946. Rachael Morgan (Keira Knightley) chega às ruinas de Hamburgo, num inverno rigoroso, para se reunir com o seu marido Lewis (Jason Clarke), um coronel britânico encarregado de construir a cidade destruída. Mas quando eles partem para a sua nova casa, Rachael surpreende-se ao descobrir que Lewis tomou uma decisão inesperada: o casal irá dividir a mansão com os seus anteriores donos, um viúvo alemão (Alexander Skarsgard) e a sua filha problemática. É nesta atmosfera pesada, que a inimizade e tristeza dão lugar à paixão e traição.

Opinião por Artur Neves

O tema não se pode considerar como inédito, já outros filmes utilizando diferentes abordagens têm contado histórias de amor em tempo de guerra e mesmo no pós-guerra como neste caso, só que os melhores não escolhem a saga novelesca, kirsch e previsível deste, pese embora a qualidade dos atores que desempenham os personagens envolvidos.
Por outro lado na nossa história há o facto insólito da partilha da habitação com o “inimigo” embora este “inimigo” se apresente educado, apresentável, civilizadamente sóbrio e de boas maneiras e assim ser capaz de somente com a sua presença e as suas palavras preencher o vazio deixado no casal pela morte de um filho de ambos, às mãos dos executores da doutrina que motivou a guerra e todo o sofrimento subsequente.
Claro que as prolongadas ausências de Lewis facilitam a aproximação entre Stephan (Alexander Skarsgard) e a sua linda esposa tornando o desfecho lamentavelmente previsível, apesar de ser um filme de época bem feito, envolvendo representações sólidas inerentes ao elenco de qualidade que o compõem com particular destaque para Rachael (Keira Knightley) que fica muito bem vestida com a moda dos anos 40 constituindo assim um dos polos de atração do filme embora insuficiente para o justificar.
Como facilmente se intui forma-se um óbvio triângulo amoroso estafado, que se desenrola à velocidade de uma tartaruga e que é apresentado ao espetador como o único caso importante, enquanto as mutações sociais, as ruínas que reduziram a cidade de Hamburgo a um monte de escombros como resultado de intensos bombardeamentos, os cadáveres a aguardar remoção e as feridas de guerra que transformam a vida na cidade, o filme não está particularmente interessado em mostrar, focando-se antes no “mel” que brota às golfadas entre os dois recentes amantes.
Compreende-se que a ideia que poderá estar na génese do argumento é a da reconciliação com os nossos inimigos e mesmo o perdão pelas perdas sofridas, todavia isso não pode resumir-se a uma cena de amor mais ou menos apaixonada, na cozinha, entre Stephan e Rachael enquanto Lewis, com paciência e dignidade de santo, trabalha para restabelecer a lei e a ordem numa Hamburgo destruída e sem regras. Como é que naquele ambiente, Stephan, um homem amargurado pela derrota, pode apresentar-se como um herói romântico e Rachael uma esposa egocêntrica que não se detém na análise do trabalho do marido, tentando pelo menos compreendê-lo?...
Enfim, com demasiada novela à mistura, pelo menos para o meu gosto, a classificação vai integralmente para o desempenho dos atores, para a fotografia, para o guarda-roupa e para o ambiente de época criado no filme.
Classificação: 5 numa escala de 10

22 de março de 2019

Opinião – “Na Fronteira” de Ali Abbasi


Sinopse

Este é um filme excecional, inesperado, comovente e repleto de esperança nos seres vivos.
Tina, uma guarda de fronteira marítima no porto de Kapellskär e é extraordinariamente boa a identificar traficantes. Um dia, um homem de aspeto suspeito sai do barco.
Incapaz de identificar o que ele esconde, ela fica obcecada por ele e pela aura perturbadora que ele emana. Mas a sua investigação vai revelar muito mais do que ela esperava e Tina vê-se confrontada com revelações terríveis sobre si mesma e a humanidade.
Baseado num conto de John Ajvide Lindqvist, autor do best-seller Deixa-me Entrar (Let the Right one In)

Opinião por Artur Neves

A história contada neste filme toca as raias da fantasia com um desenvolvimento e uma subtileza que nos surpreende quando a verdade é revelada e somos confrontados com algo que se situa entre o mito, um romance de amor improvável e um caso de polícia que no seu todo ultrapassa os limites da compreensão humana.
Tina (Eva Melander, irreconhecível sob a caraterização que define o personagem) é uma mulher com algumas caraterísticas inerentes ao autismo mas com a particularidade de possuir um olfato extremamente apurado que lhe serve no seu trabalho para farejar (é a palavra que melhor a define) a posse de drogas ou outras substancias proibidas nos passageiros que diariamente atravessam a alfândega onde ela trabalha.
Todavia a sua vida é de uma monotonia atroz, preenchida por ações e gestos que se repetem diariamente, sem amigos, sem convívio, exceto com os colegas no trabalho e o seu pai de quem ela trata e assiste nas suas necessidades. Todavia, os seus pensamentos íntimos deambulam por desejos e projetos, incompreensíveis para ela própria, bem como a sua imagem no espelho, que ela vê, mas que dificilmente reconhece semelhanças com o mundo que a rodeia.
Quando aquele homem lhe aparece à frente, Vore (Eero Milonoff), exibindo uma insolência displicente, descarado, falando-lhe em tom de desafio, Tina sente-se surpreendia com o seu rosto, onde reconhece traços semelhantes aos seus e fica profundamente excitada com aquele estranho ser diferente de todos os que a rodeiam, apesar de entre eles se sentir também uma estranha.
O realizador Ali Abbasi, Iraniano por nascimento, mas que estudou e vive na Dinamarca, traz-nos aqui uma história de transgressão e tabu sobre as nossas origens e de todos os seres que nos rodeiam, bem como as suas hipotéticas derivações sobre os costumes e as culturas que marginalizam as diferenças apenas por serem diferentes.
A estranheza desta história reflete também o complexo de minoria, onde o realizador se insere, que se concretiza através da atribuição aos personagens de um sentimento de afastamento dos humanos com quem interagem, tal como das suas particularidades e preferências, do contacto com a terra tirando os sapatos no bosque, comendo larvas e insetos e de Tina, vivendo uma experiencia sensual única ao vaguear nua pela floresta, em êxtase de comunhão com a natureza.
 O contacto íntimo entre Tina e Vore é um ato de outro mundo que se realiza como um ritual oculto, sensual, embora estranho. No seu estilo multifacetado, este filme contém uma história única que merece ser vista e vai permanecer durante algum tempo na sua memória. Recomendo.

Classificação: 8 numa escala de 10

19 de março de 2019

Opinião – “KURSK” de Thomas Vinterberg


Sinopse

KURSK é inspirado na história verídica de K-141 Kursk, o submarino nuclear russo que se afundou no Mar de Barents em agosto de 2000.
À medida que 23 marinheiros lutam pela sobrevivência dentro da embarcação, as suas famílias desesperadas combatem obstáculos burocráticos e probabilidades assustadoras para conseguirem encontrar respostas e salvar os entes queridos.
Realizado pelo visionário dinamarquês Thomas Vinterberg (A Caça, Longe da Multidão), KURSK é uma história arrebatadora e emocionante que conta com Colin Firth, Léa Seydoux, Matthias Schoenaerts e o lendário Max von Sydow no seu elenco.

Opinião por Artur Neves

Nesta história confirma-se o que já se sabia, as pessoas, os cidadãos de um determinado estado valem menos do que os “segredos de tecnologia ultrassecreta” (pseudo segredos, porque como o filme mostra, a tecnologia que quiseram proteger já estava obsoleta) não se coibindo de sacrificar alguns dos seus servidores militares em benefício de um avanço tecnológico inexistente.
Por outro lado esta história também mostra o poder da burocracia, o poder das regras instituídas cegamente por preconceito da política do ultrasecretismo militar em face de uma realidade que se impõe mas que a regra não contempla, por mero autismo das instituições e dos seus mais altos representantes. É a vida que todos conhecemos deste mundo que habitamos.
No filme a história desenrola-se lentamente, tal como a agonia dos tripulantes após o acidente que deu origem á explosão acidental do primeiro torpedo, não obstante os sinais de mau funcionamento serem visíveis e de terem sido cumpridos todos os procedimentos estabelecidos. Era apenas um exercício com um submarino nuclear que era o orgulho da tecnologia Russa, cuja explosão mata mais de metade da tripulação instantaneamente, restando apenas 23 sobreviventes que se reúnam num compartimento parcialmente deteriorado mas com potencialidade de os abrigar da água gelada que entra pelas frestas, da escassez de oxigénio e das baixas temperaturas até á chegada dos meios de resgate.
Em terra, as famílias dos marinheiros procuram informações e respostas às perguntas da sua aflição, mas confrontam-se com autoridades formais, relutantes em perder a face perante o povo, escondendo e mentindo sobre a real situação que enfrentam, na insuficiência e inadequação de meios para realizarem o resgate. Do conjunto de todo aquele desespero de mães e esposas ansiosas por notícias, ressalta uma mãe aflita que foi calada através de um sedativo injetado no calor da discussão por um dos agentes que a seguravam. Todavia em nenhum momento é citado o presidente Vladimir Putin, embora este caso tenha constituído o primeiro desafio da sua recente presidência.
A filmagem apresenta traços de inteligência, sublinhando o que é importante, como a vida a bordo no submarino sinistrado em versão widescreen (ecrã inteiro) e um tamanho menor em todas as cenas fora da ação. Por outro lado, a música de Alexandre Desplat acentua as sequencias mais dramáticas com uma melodia melancólica que nos ajuda a envolver-nos no drama que estamos a assistir. Thomas Vinterberg tem aqui um bom desempenho de realização preferindo atores e atrizes europeias em vez de Russos, o que aponta o filme para o clássico drama de guerra de Hollywood, comovente e interessante. Recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

9 de março de 2019

Opinião – “Miss XL” de Anne Fletcher


Sinopse

Numa pequena cidade do Texas, a jovem Willowdean Dickson (Danielle Macdonald), vive com problemas em se sentir bem na sua pele. A situação não é ajudada pela pressão imposta pela mãe, Rosie (Jennifer Anniston), uma antiga rainha de concursos de beleza, que trata a filha por Dumplin e pouco tem em comum com ela.
Com o objectivo de agitar águas e aborrecer a mãe, Willowdean inscreve-se no concurso de beleza para adolescentes que Rosie está a organizar. Mas para grande surpresa sua, Will é apoiada por outras raparigas, que querem participar nesta “revolução de saltos” e mostrar ao mundo que a beleza vem de dentro.
Com a ajuda destes novos amigos, Willowdean e Rosie vão aprender a ultrapassar as diferenças, e confirmar que Dolly Parton estava certa quando disse que “se queres o arco-íris, tens de aguentar a chuva”.

Opinião por Artur Neves

De entre as coisas mais importantes na vida de todos nós ressalta a saúde e, também relacionado com o parâmetro anterior, a aceitação de nós próprios, tal como somos, com vontade de melhorar, sim, sempre, mas aceitando o que somos, como somos com todos os defeitos e virtudes inerentes ao exemplar humano que suporta diariamente o nosso despertar.
É esta a história que nos é contada neste filme, com um fino sentido de humor, por uma gordinha; Danielle MacDonald, que se assume em todo o seu esplendor do seu volume e peso pouco propenso à aceitação geral e às modas atuais de beleza. A sua aceitação reside na educação ministrada pela tia que a criou, fan de Dolly Parton que nos brindou com um livro, onde menciona o famoso aforismo mencionado na sinopse, que nos justifica a aceitação de sacrifícios em prol de um bem maior.
A realizadora Anne Fletcher, natural de Detroit, Michigan, que já nos apresentou em 2009 “A Proposta”, sobre a condição feminina no aspeto do relacionamento matrimonial, debruça-se agora sobre a condição feminina em si mesma, numa altura em que este assunto ocupa a ordem do dia com uma cultura preocupada sobre o feminismo sem reservas, genuinamente assumido, que não aceita como dantes o fascínio da beleza institucional mas antes a questiona e combate, por constituir ainda o alimento das ideias pré-fabricadas da mulher objeto, em que elas já não se reveem.
É nesta altura que se impõe o combate pela sátira, pelo desafio, pelo confronto de pessoas cujo corpo não corresponde ao standard instituído, poderem igualmente ser avaliadas pelos seus dotes intrínsecos e pelo direito que têm em habitar este mundo. Rosie (Jennifer Anniston), mãe de Dickson e antiga “rainha de beleza” é assim confrontada pela própria filha, primeiro de forma inconsequente, e depois como forma de lhe dizer que apesar de tudo sente a sua falta e lhe dedica o seu amor.
Já vi Jennifer Anniston em melhores interpretações e neste filme apenas cumpre “calendário” talvez por estar fora do ambiente que mais lhe agrada, todavia é suficiente. No geral o ambiente é de festa, o filme é divertido, embora pronunciando verdades amargas e gerido com segurança. A presença de “drag queens” como professoras das “marginais” candidatas ao concurso de beleza só vem animar a festa com o seu esoterismo, plumas e maneirismos que conferem muito boa disposição a toda a cena. Muito curioso, a ver.

Classificação: 6,5 numa escala de 10

8 de março de 2019

Opinião – “Réplicas” de Jeffrey Nachmanoff


Sinopse

William Foster (Keanu Reeves), um neurocientista genial, está quase a conseguir descobrir o processo pelo qual uma consciência humana pode ser transferida para um computador. No entanto, no advento desta descoberta científica, a sua família morre num trágico acidente de carro.
Desesperado para ressuscitar aqueles que perdeu, William recruta o seu colega cientista Ed Whittle (Thomas Middleditch) para o ajudar a secretamente clonar os corpos da família, criando réplicas.
Rapidamente, William depara-se com uma “escolha de Sofia”, quando se apercebe que apenas consegue trazer três dos seus quatro familiares de volta à vida.

Opinião por Artur Neves

O conhecimento para a criação absoluta de vida é uma velha aspiração humana que tem alimentado obsessões materializadas pela escrita; Frankenstein, pela devoção a uma entidade desconhecida no âmbito das religiões e atualmente, pela tecnologia, através da conceção de máquinas mais ou menos evoluídas semelhantes ao seu criador como nesta história em que se pretende transferir a consciência de um soldado morto para uma máquina que o substitua.
Todavia neste filme, a história torna-se um pouco mais complicada, quando William Foster pretende redimir-se do brutal acidente que provocou e no qual matou toda a sua família… exceto ele próprio. O remorso que o assalta leva-o a conseguir uma proeza nunca alcançada no estado normal do desenvolvimento científico, no laboratório onde trabalha. E ele faz tudo isso com a mais séria cara de pau que um ator com o curriculum de Keanu Reeves pode fazer.
Faz a clonagem da família, em cubas transparentes cheias de líquido, omite as memórias que podem complicar a plena felicidade da família, pela omissão de um dos membros (cuja escolha ele realiza com papelinhos dentro de uma tijela de sopa) e exulta de felicidade pela proeza conseguida como neurocirurgião e como pai de família recuperado do seu remorso de assassino coletivo.
Nesta altura o leitor já deve ter pensado para os seus botões: “…mas o que é isto?...” mas não desespere porque ainda vem pior, quando o chefe do laboratório onde ele trabalha e mais quatro capangas (de negro vestidos, para impressionar) se revelam malfeitores a soldo de uma organização com fins maléficos para toda a humanidade que querem o segredo da “fabricação” (algoritmo… referem eles) para se tornarem nos senhores do mundo.
Nesta altura, depois de tantos e tão inusitados eventos, nenhuma preocupação de fundo assalta qualquer dos intervenientes, nenhuma reflexão sobre a vida remanescente artificialmente conseguida, nenhuma alteração de estabilidade emocional que os impeça de se preocuparem em fugir, para termos a inefável perseguição de automóvel inerente a um filme de ação que se preze.
É lamentável que um filme que estabelece um fascinante dilema existencial, que toma em mãos uma velha aspiração da humanidade sobre a criação autónoma da vida, esbanje o tema em bandidos bons e bandidos maus (nesta história são todos bandidos incluindo o argumentista) e tente resolver a angústia da provocação da morte como se fosse uma questão culinária de mais ou menos sal. Salva-se a fotografia e alguns efeitos especiais, sendo para eles toda a classificação atribuída.

Classificação: 5 numa escala de 10