5 de abril de 2019

Opinião – “Lugares Sagrados” de Amanda Sthers


Sinopse

Harry (James Caan), um antigo cardiologista judeu de Nova Iorque, decide passar os anos da reforma como criador de porcos em Nazaré, Israel. É uma escolha que causa choque entre os seus familiares, e coloca Harry em conflito com a comunidade local, especialmente o rabi Moshe (Tom Hollander). Ao mesmo tempo, em Nova Iorque a ex-mulher de Harry, Monica (Rosanna Arquette), tenta orientar a vida dos seus filhos já adultos, Annabelle (Efrat Dor) e David (Jonathan Rhys Meyers), assim como a sua, depois de descobrir que sofre de um tumor no cérebro.
Filmado nas icónicas paisagens de Israel, LUGARES SAGRADOS é uma história universal sobre amor, família, perda e tolerância, contada com grande humor e afeto, que nos mostra como até nas famílias mais disfuncionais, o que importa é a coragem para dizer aquilo que nunca foi dito.

Opinião por Artur Neves

Com uma história recheada de segredos e palavras escondidas, não ditas pela vergonha das ações que as sustentam, relatada com fino humor e subtil crítica às convenções religiosas que assentam em dogmas anacrónicos, este filme é um consolo de alma para todos os agnósticos que como eu pensam que; se Deus criou o mundo e todas as coisas que nele existem, também criou os porcos com todas as particularidades que lhes conhecemos, pelo que á luz da Sua declarada infinita bondade, não faz sentido ser proibida a criação de porcos em Israel.
É com esta premissa que se desenvolve a aventura de Harry, um homem solitário que abandonou, Nova Iorque, onde deixou a mulher Monica, por se ter apaixonado pelo seu colega, também cardiologista com quem trabalhava, um filho homossexual que ele não consegue encarar nem tão pouco, responder às insistentes cartas que este lhe escreve tentando justificar a sua opção, bem como a sua filha Annabelle, uma rapariga adulta que se recusa a assumir as responsabilidades da vida sob o pretexto da contínua e prolongada frequência escolar como escape para as suas incapacidades.
É tudo isto que Harry deixou para traz e rumou à sua terra de origem para ser criador de porcos em Nazaré, onde a sua pessoa é contestada por todas as religiões e que serve de ilustração para as incongruências da fé e das práticas convencionais de todas as religiões que somente visam impor procedimentos vinculativos para a sua prática, mas vazios de sentido para a vida das pessoas que os praticam.
Amanda Sthers, realizadora a viver em Los Angeles, nascida em Paris, França, apresenta-nos aqui um filme recheado de sentimentos e desgostos, silêncios e alegrias, bem conseguido através de personagens credíveis, como por exemplo Monica (Rosanna Arquette como á muito tempo não a via) e Michel (Patrick Bruel) o seu namorado, e médico, com quem estabelece a conversação mais calma, suave e conformada sobre a previsão do seu breve falecimento.
Todo o filme é apresentado de forma fluida, segura, contando os factos em antecipação à sua inserção na história, como que avisando-nos para que algo vai acontecer e que é reconhecível de seguida, entre a truculência de Harry, o remorso acusador de David, a ligeireza filial de Annabelle e os protestos ansiosos de Monica que não quer perder um segundo do tempo que lhe resta. A incongruência religiosa é a cereja sobre o bolo. Recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

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