30 de março de 2022

Opinião – “Morbius” de Daniel Espinosa

Sinopse

O bioquímico Michael Morbius tenta curar-se de uma rara doença sanguínea com ADN de morcegos mas acaba por se tornar uma espécie de vampiro vivo. As aventuras de um anti-herói da Marvel.

Opinião por Artur Neves

“Morbius” é mais um filme de Super Heróis do reportório de Marvel Comics com o personagem Morbius, transformado num vampiro vivo decorrente de uma grave deficiência sanguínea. Depois e ter despachado os anteriores super heróis a Marvel tentou desenvolver a personagem do Homem Aranha e seus derivados tal como “Venon” e agora este Morbius também baseado numa personalidade que coabita o Dr. Morbius, como iminente médico investigador que se deixou arrastar nas suas investigações para uma caraterística típica dos morcegos que desperta nele a personalidade malévola sedenta de sangue.

Como sempre nas histórias de super heróis o enredo é muito simples e neste caso começa pelo princípio com Morbius (Jaredo Leto) ainda jovem a cargo de uma instituição, onde conhece um outro garoto, Milo, da sua idade que vai se transformar posteriormente no maior rival de Morbius, devido a ter uma situação de saúde semelhante. O Dr. Michael Morbius tenta avisá-lo e promover a sua salvação mas ele, Milo (Matt Smith) só vê a vantagem que o segredo de Morbius lhe pode trazer e procura por todos os meios alcança-la, intervindo e atacando em todos os locais onde sente a mais leve possibilidade. Para contrastar com Morbius é um ser cínico, traiçoeiro com capacidade de intervenção relevante.

Com esta metodologia em que Morbius possui o lado do bem e Milo, corporiza os mais falsos objetivos, todo o filme é um conjunto de perseguições fantásticas com recorrência a efeitos especiais utilizando as caraterísticas dos morcegos como sejam o ouvido apurado e o olho que consegue ver mais longe do que aquilo que está à frente dele transformando o ar num fluido em movimento onde Morbius se desloca a alta velocidade em acrobacias difíceis de associar a um mortal comum.

Todavia a promessa de bons momentos de emoção e aventura, mesmo na versão IMAX, não contêm a motivação e a surpresa da sua ação que nos faça deixar de pensar que o investimento da SONY na Marvel fica abaixo dos resultados esperados que ambas as empresas nos habituaram, pois sendo uma estreia de um novo personagem as amostras disponíveis no You Tube não transmitem algo de novo que desejamos ver. Todavia isso depende do público que se dispuser a ser surpreendido, aliás como sempre…

O realizador Daniel Spinosa nascido na Suécia apresenta-se com “Life” de 2017, uma história com um enredo muito próximo de “Alien o 8º Passageiro” ou “Detenção de Risco” de 2012 que continua até agora uma boa referência que nos leva a pensar que ele está comprometido com a qualidade que não aparece neste filme, muito embora seja pior a falta de motivação do argumento do que o perfecionismo técnico mostrado em todas as cenas

Tem estreia prevista em sala dia 31 de Março

Classificação: 4 numa escala de 10

 

29 de março de 2022

Opinião – “Tudo em Todo o Lado ao mesmo Tempo” de Dan Kwan e Daniel Scheinert

Sinopse

Escrito e realizado por Daniel Kwan e Daniel Scheinert, conhecidos como Daniels, esta história conta a fantástica odisseia de uma imigrante chinesa nos Estados Unidos, exausta de tentar organizar os seus impostos vê-se arrastada para uma louca aventura onde só ela pode salvar o mundo explorando outros universos ligados às vidas que poderia ter levado.

Opinião por Artur Neves

Trata-se de um filme sobre uma família chinesa emigrante nos USA, que desenvolve um negócio de lavandaria com máquinas que são utilizadas em self service pelos utilizadores e tomamos contacto com eles na altura de apresentar ao serviço de contribuições e impostos o resumo anual da sua atividade empresarial. Encontramos Evelyn Wang (Michelle Yeoh) sentada a uma mesa a tentar interpretar e selecionar os documentos de despesa relevantes da atividade para os entregar ao sistema de cobrança de impostos.

A família dela é composta por o seu marido Chade (Harry Shum Jr.) que não sabe o que fazer naquela azáfama toda, todavia está disposto a fazer o que for preciso para ser útil, muito embora tenha na mão um pedido de divórcio que não consegue apresentar a Evelyn porque ela não lhe dá a mínima atenção às suas solicitações. A filha Joy Wang (Stephanie Hsu) uma jovem adolescente que namora com uma rapariga; Nariz Grande (Jenny Slate) sua colega de escola e luta por a apresentar à mãe que com a sua louca ocupação profissional não lhe dá atenção nem considera o que ela lhe pretende transmitir. O filho mais novo, Waymond Wang (Ke Huy Quan) que anda por li sempre nos locais mais impróprios para o desenvolvimento do negócio e o seu avô, pai de Evelyn, Gong Gong (James Hong) que já não se encontra em perfeita saúde, não comendo nem se deslocando pelos seus próprios meios precisando sempre que alguém se lembre dele e lhe empurre a cadeira de rodas em que se desloca.

Como se pode pensar tudo é possível acontecer naquela família em que Evelyn julga que pode conduzir todas as tarefas necessárias para a sua manutenção. Ela tem de deslocar-se às finanças para oficializar e entrega das contas e a empregada que a atende não é outra senão Deirdre Beaubeirdra (Jamie Lee Curtis) que não se parece nem um pouco com Wanda, a heroína de “Um Peixe chamado Wanda” de 1988 que a atirou para o estrelato. Jamie Lee Curtis nascida em Los Angeles, em 1958 e filha de dois atores muito famosos daquela época; Janet Leigh e Tony Curtis apresenta-se aqui tal como está, sem grandes pinturas que a promovam e mostra a proeminente barriga que hoje possui, dentro de uma calças justas que não são sequer um princípio para a esconder.

Como a apresentação das contas aquela funcionária rígida e exigente que não para de lhe pedir adicionais e provas para certificar aquelas contas, a história deixa para trás toda a complexa família que nos foi apresentada e explora universos multidimensionais de magia e ficção científica com que pretende fazer comédia na solução dos diferentes paradoxos em que aquela família está envolvida. Podia pensar-se que aquela situação caótica poderia dar aso a uma análise do que fazemos da nossa vida para a destruir, priorizando as obrigações e os afazeres profissionais mas não é isso que acontece porque a parte mais importante do filme são as múltiplas transformações e mutações dos seus intérpretes, através de tecnologias bacocas, sem nexo, finalidade ou sentido. É o que eu chamo um filme que cansa, baseado em fantasia que não serve de distração, ou no mínimo, o empolgamento do espectador.

Tem estreia prevista em sala dia 07 de Abril

Classificação: 2 numa escala de 10

 

24 de março de 2022

Opinião – “Amantes” de Nicole Garcia

Sinopse

Simon e Lisa são um jovem casal apaixonado que vive em Paris. Ela frequenta a escola de hotelaria e ele, trafica cocaína. No dia em que um dos seus clientes morre de overdose, Simon desaparece sem deixar rastro. Anos mais tarde, reencontram se, cada um com as suas vidas já refeitas. Simon trabalha num hotel e Lisa está casada e anseia ter um filho. Este triângulo amoroso vai virar o mundo de Lisa, a um ponto que ela não controla.

Opinião por Artur Neves

Eis um tema dos mais usados no cinema e que apesar disso apresenta sempre uma oportunidade de ser diferente, dependendo claro do argumento e do realizador que neste caso também colabora com o escritor Jacques Fieschi para estabelecer o enredo que nos mostra em 102 minutos. Nicole Garcia nascida na Argélia apresenta um largo curriculum como atriz desde 1966 e por vezes, quando decide ficar atras das câmaras como neste caso apresenta-nos uma história seca, dura nos diálogos e nas relações, abordando o sentimento do amor duma forma algo diferente do que é comum ver-se na abordagem deste tema.

A sinopse descreve a história e a realizadora faz fluir o enredo de maneira sequencial. Simon (Pierre Niney) conduz a sua vida pelos meandros do tráfico clandestino de droga estabelecendo a possível diferença entre as suas atividades e Lisa (Stacy Martin) que está vivendo o amor da sua vida aceita-o como ele se apresenta. Na realidade Lisa é mais afetuosa e mais dependente de Simon do que o inverso e isso nada tem de individualista, apenas Simon quer resguardar para si os perigos e responsabilidades da sua atividade clandestina. Lisa por vezes não compreende isso e força-lhe a acompanha-lo em algumas entregas particulares a amigos como aconteceu naquele dia em que um dos clientes sente-se mal, eles socorrem-no mas o mal já está feito e o excesso de droga é fatal.

Eles antes de sair, eliminam tanto quanto podem os sinais da sua presença naquela casa e voltam perturbados a um ponto que Simon se culpa do ocorrido. Lisa tenta confortá-lo mas Simon não é suscetível de ceder às suas tentativas por medo de ser envolvido e pelo remorso que aquele acidente lhe causou. Simon já é outra pessoa e só quer fugir dali, daquele lugar, daquela terra. Embora contrariada Lisa decide fugir com ele, marcam um encontro para o dia seguinte mas ele não comparece, não lhe dá qualquer justificação e ela no dia da sua ausência fica a saber que está só e a custo tem de consolar-se com aquela falta e viver sem o que ela pensava ser o amor da sua vida.

O encontro com Léo Redler (Benoit Magimel) é perfeitamente acidental, ela não o ama mas pensa que a sua companhia pode transformar a sua perda anterior e fazer seguir a sua vida para a frente. Aceita-o, casam, e Léo, dependendo da sua atividade profissional permite-lhe muitos tempo de solidão que ele quer compensar com passeios e viagens. Léo sabe que o casamento tem dificuldades em vingar e manter-se assim pelo que procura corrigir a situação com saídas conjuntas para jantares em cidades distantes e restaurantes caros, onde Lisa, sem esperar, reconhece Simon em trabalhos junto à praia. Ela não se mostra, apenas o vê ao longe e procura a melhor oportunidade para o encontrar sem testemunhas. É o passado a encontrar-se com Simon que vê nela a parte melhor desse passado. Falam-se, beijam-se, trocam juras de amor em que Simon explica o porquê do seu desaparecimento e ela lhe revela que está casada e que depois do desaparecimento dele apenas procurou a recuperação possível da vida dela ao lado de um homem com dinheiro que a escolheu.

Para qualquer dos três personagens aquela situação não é sustentável e a partir daqui a história conta-nos como foi possível conciliá-los. O cinema europeu e nomeadamente o cinema Francês tem uma postura diferente nestas situações e particularmente Nicole Garcia usa a sua arte para transformá-la em natural, sóbria, introduzido todos os eventos que interessam para por em confronto aquelas três pessoas com a realidade das posições que ocupam. Não se pode dizer que aquilo não poderia acontecer aos três vértices daquele triângulo amoroso que em vez de romantismo apresenta decisão, planeamento e vontade de agir. Está bem conseguido, prende o espectador e leva-nos até ao fim da história com curiosidade e surpresa.

Tem estreia prevista em sala dia 7 de Abril

Classificação: 6 numa escala de 10

 

23 de março de 2022

Opinião – “Flee – A Fuga” de Jonas Poher Rasmussen

Sinopse

Amin era menor quando chegou à Dinamarca sozinho, vindo do Afeganistão. Hoje, com 36 anos, é um académico de sucesso e está noivo do seu namorado de longa data. Mas esconde um segredo há mais de 20 anos, que começa a ameaçar arruinar a vida que construiu para si. Amin, pela primeira vez, partilha a sua história com um amigo chegado.

Opinião por Artur Neves

A história deste filme é uma ficção baseada numa amizade de escola entre o realizador Poher Rasmussen e um seu colega que desde cedo lhe causa grande curiosidade, saber como foi possível que Amin, (nome falso) um ilustre investigador universitário com inegável sucesso nas suas investigações, de pele morena, homossexual assumido e muçulmano, conseguiu fixar-se na Dinamarca e construir uma vida a todos os níveis normal e impensável para a maioria dos refugiados que aquele país aceitou ao longo do tempo. Rasmussen teve conhecimento da história e reunindo-se com vários intérpretes das vozes nos diferentes estágios da vida de Amim e construiu este documentário que nos remete para uma reflexão sobre o mundo e a política, numa altura em que a realidade da guerra á nossa volta nos acorda para uma verdade que pensava-mos não poder existir de novo.

O filme desenvolve-se durante uma conversa entre amigos em que Amin vai contar ao amigo Rasmussen as suas memórias pessoais numa viagem através do tempo anteriormente vivido em forma de um thrilher de suspense para o qual não só as revelações, mas os fragmentos noticiosos da época conferem autenticidade às revelações que nos são transmitidas.

Desde a sua infância que Amin vivendo com os seus pais, duas irmãs e um irmão no Afeganistão sentia um prazer indefinível em vestir-se com uma camisola comprida, ou com os vestidos da sua irmã mais nova e embora no fundo estranhasse com essa indescritível sensação não sabia como encará-la nem tinha nas suas relações alguém com quem falar. Essa sensação continuou no ensino médio e nas suas folgas em frente à televisão em que se sentiu apaixonado pelo ator Jean-Claude Van Damme, que lhe piscava o olho sempre que ele o contemplava num filme. O tempo em que isto se passa é na última fase da guerra afegã-soviética, nos finais da década de 80 que gera a necessidade de abandonar o país como aliás aconteceu para muitos cidadãos, nomeadamente o seu próprio pai que foi levado de casa pelas forças afegãs e até hoje ele não sabe o que verdadeiramente lhe aconteceu.

Amin vive mais uns anos com o resto da sua família até chegar a altura de pensarem também em deixar o país. A sua mãe está fragilizada com a idade e fugir com ela e os seus irmãos só se torna possível para a Rússia que apenas os aceita temporariamente. Logo que o período de validade dos seus vistos se esgota eles tornam-se clandestinos no país e mesmo escondidos em casa, sem uma única saída eles continuam sendo uma presa fácil da polícia que em vez de os ajudar, ficam-lhe com as magras rendas que conseguem angariar. É conveniente lembrarmo-nos que a década de 80 representa o fim do comunismo na Rússia com todas as convulsões sociais que a alteração do regime provocou. Como tal, se anteriormente a Rússia já não aceitava os refugiados, aquele tempo de transição só veio piorar a situação.

Com muito pesar primeiro saem as irmãs e só depois ele e a mãe à custa do trabalho desenvolvido pelo irmão mais velho. Amin foi sozinho para Dinamarca em condições precárias, muito embora o irmão tenha contratado um traficante honesto para as necessidades da época porque a queda no tráfico humano já era frequente naquelas andanças. Ao reunir a família na Dinamarca foi com um amigo que Amin é convidado a frequentar um bar homossexual e a encontrar lá o seu companheiro para a vida com quem está prestes a casar depois de sem medo se assumir como é realmente numa europa progressista e moderna.

Com 3 nomeações aos Óscares em 3 categorias de destaque - Melhor Animação, Melhor Documentário e Melhor Filme Estrangeiro - "Flee – A Fuga", foi também um dos grandes vencedores do Festival de Sundance em 2021. É, sem dúvida, um dos filmes de relevo de 2021 e, como se já esperava, uma das obras mais curiosas, verdadeiramente inspiradoras que consegue chegar ao público a um nível verdadeiramente emocional e tocante considerando a múltipla realidade com que temos sido confrontados nos dias de hoje. Recomendo sem reservas.

Tem estreia prevista em sala dia 7 de Abril

Classificação: 8 numa escala de 10

 

Opinião – “O que Vemos quando Olhamos para o Céu?” de Aleksandre Koberidze

Sinopse

Um encontro casual à porta de uma escola em Kutaisi, na Geórgia. Lisa e Giorgi chocam e um livro cai no chão. Visivelmente atordoados, marcam um encontro sem terem sequer dito os seus nomes. É amor à primeira vista e, como que encantadas, as coisas começam a ganhar vida: a câmara de vigilância é um mau-olhado, o cano de esgoto um oráculo. Fecham os olhos e os amantes são amaldiçoados, condenados a acordar no dia seguinte com uma aparência diferente. Esse obstáculo sobrenatural ao seu reencontro torna-se a passagem para um mundo governado pela magia do quotidiano em toda a sua beleza simples.

Opinião por Artur Neves

A pergunta formulada no nome do filme fica sem resposta até ao fim, mesmo depois de 150 minutos em que a câmara percorre a cidade de Kutaisi na Georgia mostrando-nos as banalidades quotidianas de animais e pessoas que vagueiam pela objetiva do realizador sem que com isso nos seja apresentado um fundamento, uma história, um argumento de ideia que o filme pretende consubstanciar.

O filme começa com um encontro fortuito entre dois personagens Lisa (Ani Karseladze) com Giorgi (Giorgi Ambroladze) que nos faz pensar numa história que começa acidentalmente mas que não tem continuação porque o filme não tem uma história que o suporte. O filme tem duas partes em que na primeira parte somos informados dos acontecimentos banais quotidianos durante a final de uma Copa do Mundo que naquela cidade, segundo o que nos é apresentado, não tem grande interesse e na segunda parte o realizador centra-se nas banalidades que acontecem aqui e ali como um pequeno pardal, crianças brincando num parque infantil, cães vadios ou nem tanto, mas pulando aqui e ali ao sabor dos seus impulsos e todo um conjunto de observações do mesmo género em jeito de documentário que atira para um papel residual o potencial namoro que nos é apresentado inicialmente.

Aliás, quando o par inicial é forçado a juntar-se a outros casais que o filme engendra, Lisa e George sem se conhecem por são desta vez representados por outros atores (Oliko Barbakadze e Giorgi Bochorishvili) respetivamente que a custo se juntam aos outros casais, presumindo eu, por não sentirem qualquer afinidade com eles. Sou eu que digo, não é o filme que nos dá alguma pista. Os diálogos são mudos para o espectador, porque toda a presumível ação do filme é-nos descrita em off por um narrador, o realizador Koberidze, que descreve para o público o sentido dos acontecimentos que vemos ocorrerem em todas as banalidades que são filmadas que se estendem por duas hora e meia em que ficamos á espera de um sentido para tudo aquilo.

Nas notas de produção pode ler-se numa entrevista feita ao realizador que o nome do filme saiu da atitude de Lionel Messi que olha para o céu sempre que marca um golo e com essa ligação ele recebe algo que não é possível ver-se, o que confere ao filme uma visão futebolística. Por outro lado, a visão documental do quotidiano, mostrando-nos todas as ninharias dos dias e das pessoas onde também existe o amor mal esboçado entre Lisa e Giorgi, sem contudo conter os elementos do romance, leva-me a pensar que o filme não possui um contexto definido no qual possa aprecia-lo e como tal não lhe confiro qualquer classificação.

Tem estreia prevista em sala dia 31 de Março

Classificação: ? numa escala de 10

 

16 de março de 2022

Opinião – “Cordeiro” de Valdimar Jóhannsson

Sinopse

A rotina de María (Noomi Rapace) e Ingvar, (Hilmir Snær Guðnason), um casal que vive na Islândia rural, é interrompida quando descobrem um bizarro recém-nascido no seu curral de ovelhas. Este evento leva o casal a tomar uma decisão que desafia as leis da natureza, com a perspetiva inesperada de uma vida familiar poder trazer-lhes muita felicidade… antes de começar a destruí-los.

Opinião por Artur Neves

Este filme, que caberá na classificação de suspense e fantasia, apesar da qualidade da interpretação dos seus intérpretes, comedido, fundamentalmente usando imagens que valem pelo que significam, com poucas falas, pode entediar-nos se não tivermos conhecimento da figura mitológica de “Pã”, o deus grego dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores assumindo um comportamento maioritariamente protetor, embora possa ser vingativo para quem não cuida da natureza e destrói a flora e a fauna. É representado com orelhas longas e chifres, tronco humano e pernas de bode, andando em duas patas e carregando consigo um flauta. Os caminhantes noturnos dos bosques, que andam sem destino, possuídos por solidão que os predispõem a terrores súbitos sem causa aparente, podem ser acometidos de pânico, ou seja: medo de “Pã”.

O livro “O grande Deus Pã” escrito por Arthur Machen dá-nos uma visão algo diferente, não tão bucólica, mas antes destruidora e maligna, cheio de desejo sexual insaciável, sem escrúpulos, que está mais de acordo com o papel que lhe cabe nesta história, porque ele encarna uma tendência comum a todo o universo.

O filme começa por nos apresentar o casal que vive numa casa no meio de nada. Eles estão equipados para as suas necessidades, com motocultivadores e um carro para deslocação à vila, familiarizando-nos com o ambiente frio, a paisagem sempre coberta de neve e eles fazem o que é necessário debaixo de chuva e de vento, porem, apesar de se entreajudarem e colaborarem em todas as tarefas o seu semblante é monótono, triste e sem vida. As cenas são interpretadas pelas ações dos personagens, cumprindo o calendário da vida no local, com pouquíssimos diálogos, mostrando-nos os grandes planos da região vazia, montanhosa, embora bela e envolvente. Os olhares silenciosos entre Ingvar e Maria deixam transparecer um luto dolorido por continuarem sós, os dois estão isolados naquela imensidão geográfica e vivem sem interferências externas e estão preparados para eventos inexplicáveis, que nós, tal como eles, esperamos que aconteçam.

Uma das tarefas realizadas pelos dois é a alimentação dos cordeiros e a ajuda aos partos que ocorrem. Numa dessas alturas um acontecimento bizarro ocorre quando o terceiro filho de uma ovelha apresenta uma forma hibrida entre animal e humano a que ela batiza imediatamente por Ada e toma-a no colo sem que nós vejamos declaradamente a sua forma particular. É aqui que temos de pensar que a aceitação imediata da filha de um sátiro, de Pã, ou seja lá de que pai deu à vida aquele nascimento. A história não está nem um pouco interessada em teorizar a essência do seu aparecimento, mas antes o facto de a sua existência provocar alterações dos relacionamentos entre humanos e com criaturas de outra natureza o que pressupõe que essa coabitação entre partes diferentes da natureza não pode ser apaziguadamente entronizada.

Desde o início daquele nascimento, as coisas complicam-se quando a mãe natural, a ovelha que a pariu, reclama a sua presença, balindo continuamente para reclamar a sua posse. Maria resolve as coisas matando a mãe natural, reconhecendo assim uma falha da natureza e assumindo o papel da ovelha que matou. Curiosamente é de Maria que depende todas as decisões e Ingvar aceita placidamente todos os acontecimentos seja em que sentido for.

Ficamos a saber que Ingvar tem um irmão que subitamente chega ao lugar, como que introduzindo um fator desiquilibrante na relação entre os dois. Pétur (Björn Hlynur Haraldsson) tem dificuldade em aceitar Ada, aquele ser hibrido que ele não consegue classificar como pessoa ou animal. Mais uma vez é Maria que o põe fora de casa levando-o á paragem do transporte e dando-lhe algum dinheiro para que ela não volte. Ele não pertence aquela história nem tem lugar ali. Só nos resta agora dar corpo às sombras, aos passos furtivos, ao horror mitológico que de súbito se revela para levar o que lhe pertence. Só Maria fica viva, não somente para ver quem leva a sua filha, mas também para chorar a morte do marido e para sentir a completa solidão por ter mandado embora o seu cunhado.

Este filme é a primeira longa metragem de Valdimar Jóhannsson, um realizador Islandês que até agora só tinha sido responsável de efeitos especiais e conseguiu com este argumento de horror mitológico manter um elevado grau de imprevisibilidade, um bom suspense dramático com uma história simples embora complexa, que justifica ficarmos atentos aos seus próximos trabalhos. Muito interessante.

NOTA: O poster publicado não é o oficial do filme, mas eu escolhi-o por representar com mais propriedade os dois elementos fundamentais da história.

Tem estreia prevista em sala dia 31 de Março

Classificação: 7 numa escala de 10

 

14 de março de 2022

Opinião – “X” de Ti West

Sinopse

X é o novo filme de terror do diretor Ti West. Na década de 1970, um grupo de filmmakers alugam uma antiga casa de fazenda no interior de uma cidade no Texas para gravar um filme pornográfico. Mas quando os dois idosos, anfitriões e reclusos da antiga casa os pegam em flagrante, o elenco logo se vê em uma luta desesperada por suas vidas.

Opinião por Artur Neves

Os filmes de terror pertencem a um subgrupo dos filmes de suspense frequentemente baseados em crenças, fantasmas, ou de algum modo, convicções do além que redundam sempre numa encarnação maléfica com poderes condicionados por qualquer processo acessível aos mortais que por eles são perseguidos. Neste caso não é bem assim e todo o terror, constituído por assassínio, é cometido pelos personagens que compõem o filme que entram em confronto por desacordo entre as convicções dos idosos donos da casa e as convicções da equipa de filmagem que alugou o espaço para realizar um filme pornográfico.

O referido desacordo só existiu, porque um dos produtores não declarou ao dono da casa os fins do aluguer da casa nem o número de ocupantes envolvidos, tentado com isso obter um menor valor de renda pelo tempo de ocupação. A casa alugada é separada da casa principal habitada pelo casal de idosos que a chegada da equipa causa um perturbação e desconfiança nas relações com tais pessoas. Ele recebe os hóspedes de carabina na mão, e ela espreitando por uma janela do 1º piso sente atração pelo fator “X” caraterístico de uma das personagens que compõem a equipa, que é a primeira a vê-la espreitar entre as cortinas numa atitude que lhe causa um arrepio de medo.

Eles são todos jovens, são constituídos por três casais, dos quais duas mulheres e um homem são os personagens do filme, o outro homem é um dos produtores e o chefe de equipa e o outro casal são o operador da câmara e a mulher que trata da captação do som que tem com o marido uma relação fixa, muito diferente da relação aberta entre os outros dois casais. Do lado do dono da casa, a mulher do casal que outrora também foi atriz, sente saudade e inveja da juventude que com ela coabita, fazendo-a lembrar-se dos tempos em que era preferida e amada pelo marido e cobiçada por outros homens que lhe reconheciam o fator diferenciador “X” que ela identifica numa delas.

O que se segue é o avolumar-se de questões baseadas no argumento do filme que levantam algumas questões curiosas, que de modo algum sem serem novas, nem o filme estar dedicado a analisá-las, levam às mortes de todos os elementos, que se movem sem compreender as diferenças fundamentais entre uns e outros. Ti West, um realizador independente nascido em 1980 nos USA, é o diretor e argumentista desta história que se pode descrever como uma mistura entre “Massacre no Texas” de 1974 e “Jogos de Prazer” de 1997, e que apesar de contar com várias realizações neste género à maneira clássica, resolveu reformular o tema e apontar o sofrimento e inadaptação de cada pessoas como responsável por tantas e tão violentas mortes que se vão sucedendo sem razão específica exceto a conceção de diferença individual quando não podemos concretizar os nossos desejos por incapacidade física.

Tem estreia prevista em sala dia 17 de Março

Classificação: 4 numa escala de 10

 

10 de março de 2022

Opinião – “Petit Maman – Mamã Pequenina” de Céline Sciamma

 

Sinopse

Nelly, 8 anos, acabou de perder a avó e está a ajudar os pais a esvaziar a casa de infância da mãe. Explora a casa e a floresta à volta, onde a mãe, Marion, costumava brincar e onde construiu uma cabana. Um dia, a mãe parte sem explicações. E Nelly conhece uma menina, mais ou menos da sua idade, na floresta. Está a construir uma cabana e chama-se Marion.

Opinião por Artur Neves

Céline Sciamma é uma realizadora de origem francesa que à sua responsabilidade apresenta até esta data 5 longas metragens, (além de 2 curtas e outras obras de escrita) das quais, a anterior a esta; “Retrato de uma Rapariga em Chamas” de 2019 já foi apreciado nestas crónicas e por mim mereceu rasgados elogios pelo seu conteúdo e pela forma arrojada, sensível e naquele contexto autenticamente delicada, defendeu o amor entre duas mulheres que se conheceram acidentalmente através de um contrato de pintura do retrato da dona da casa.

Agora traz-nos esta história para crianças sobre uma menina que acompanhou à sua maneira a morte da sua avó e viaja com os pais para a casa dela situado no campo, que eles se propõem esvaziar. A menina; Nelly (Joséphine Sanz) circula por ali, (em vez de estar na escola, pois com 8 anos e no inverno seria o que me parece normal) pelas cercanias da casa e do bosque e dá de caras com outra menina Marion (Gabrielle Sanz) na difícil tarefa de construir uma casa de ramos junto a uma árvore. As duas tornam-se amigas (o que não é estranho porque ambas são irmãs gémeas na vida real) e ao visitar a casa de Marion observa que a casa dela é um espelho da sua.

Sem perguntar a que se deveriam as semelhanças entre as casas ela assume, através do que apreendeu das conversas entre os pais sobre a infância da mãe quando ela não existia e a avó era viva, que de alguma maneira Marion seria a mãe dela num tempo passado e logo ela seria a sua filha no futuro. Para lá das ternuras e afinidades entre as meninas eu pergunto se seria lógico este pensamento numa menina de 8 anos. Pergunto ainda para que crianças é que esta fábula se destina, pois se os adultos podem aceitá-la com um sorriso, introduzindo uma fantasia que a história não nos transmite, as crianças não sei como alcançarão este sentido. Todo o filme se passa no mesmo local, nos dias atuais e se embora introduzir-mos a fantasia dos “fantasmas vivos” ou outra apreciação criativa, a história poderia ter acontecido um pouco antes, o que não altera o fundamental.

Por outro lado, os personagens infantis, são ambos de uma correção absoluta, sem traumas, sem problemas que perturbem o seu comportamento ordeiro, seguindo uma narrativa que pode levar-nos a considerar que tudo se passa no espírito de Nelly, mas nada na história nos leva objetivamente a pensar isso, quando as suas falas e os seus raciocínios são avançados para a idade e não vemos quando ela frequentou ou se frequenta a escola. Assumo que seja defeito meu não compreender a sensibilidade da infância como Sciamma nos apresenta, pois no aspeto cénico a tomada de vistas é irrepreensível, elas são as personagens principais, sempre vistas de frente, ao nível dos olhos, para nos impressionar com a sua candura e humor natural dos seus verdes anos.

Talvez por serem irmãs gémeas a representação entre elas flua tão bem, sem qualquer sobressalto visível, num enquadramento perfeito em que tudo para além das meninas é deixado deliberadamente vago. As interpretações dos pais adultos são pontuais, aparecendo aqui e ali para que não pensemos que ficaram sozinhas, todavia as suas interações com elas são, breves, avulsas e mais uma vez distantes da sua manifesta sensibilidade. Esta história terá com certeza os seus apreciadores sobre a delicadeza da infância e a amizade que daí resulta, entre os quais não me incluo. Durante os seus 72 minutos de duração pareceu-me que falta assunto, ou pelo menos pistas para nos enquadrar na trama do argumento.

Tem estreia prevista em sala dia 17 de Março

Classificação: 4 numa escala de 10

8 de março de 2022

Opinião – “O Domingo das Mães” de Eva Husson

Sinopse

Num dia quente da primavera de 1924, Jane Fairchild (Odessa Young), uma empregada doméstica órfã, vê-se sozinha no Dia da Mãe. Os patrões, o Sr. e Sra. Niven (Colin Firth e Olivia Colman), estão fora e ela tem uma oportunidade rara de passar um bom bocado com Paul (Josh O'Connor), o seu amante secreto. Filho dos donos de uma mansão vizinha, Paul é a paixão de longa data de Jane, embora esteja noivo de outra mulher, uma amiga de infância que é filha de amigos dos seus pais. Mas eventos que nenhum dos dois pode prever virão mudar o curso da vida de Jane para sempre.

Opinião por Artur Neves

Esta obra é um exemplo acabado em como a edição (montagem das cenas filmadas) é de crucial importância para a sua qualidade, interesse e até inteligibilidade da história. Na descrição de uma qualquer história costuma também dizer-se, que mais importante do que a sequencia em que os eventos são contados, o importante é estarem lá todos e não serem perdidos no seu encadeamento descritivo e essa é a principal função e objetivo de uma competente edição tal como se pode observar neste filme.

“O Domingo das Mães”, no original; “Mothering Sunday” é um romance escrito em 2016 pelo autor inglês Graham Swift sobre o dia 30 de março de 1924 em Inglaterra, em que as famílias da classe alta realizam um encontro no campo para se confortarem da perda dos seus filhos mortos na Primeira Guerra Mundial e permitirem aos criados um dia de folga em que aproveitem visitar os sus parentes mais próximos, principalmente as suas mães também enlutadas pela morte dos seus filhos, e assim prestarem-lhe o conforto possível.

A sinopse descreve o fundamental do enredo, que pode entender-se como linear e simples como se apresenta, pelo que o importante e transforma esta história num documento sobre sentimentos, é a forma como Eva Husson (já nomeada para a Palma de Ouro por “As Filhas do Sol” de 2018) filmou o argumento bem elaborado por Alice Birch que foi capaz de capturar o poder literário do romance original, e Emilie Orsini que editou o material filmado de forma a oferecer-nos um filme repleto de surpresa, misturando notavelmente os eventos do romance de Graham Swift e fazendo com que o filme sugira ser uma memória emocional, em vez de um desdobramento da narrativa. Sem pontos mortos e principalmente recheado de pormenores íntimos de comportamentos da época em que não era espectável a revelação sincera das suas emoções, mas antes a submissão severa às regras convencionais de etiqueta que regulavam as relações sociais.

Todo o elenco está muito bem escolhido com particular destaque para os patões de Jane, Sr. E Sra. Niven (Colin Firth e Olivia Colman), que apesar de não serem figuras centrais na história mostram o sentimento compungido da época de luto, ele tentando amenizar o ambiente e facilitar a vida, embora com a consciência da superficialidade circunstancial das sua alusões, ela mantendo um ar de tristeza azeda em todas as situações compondo um personagem imbuído na dor que deve ter sido comum a muitos outros pais na época.

O filme move-se constantemente para a frente e para traz no tempo, mostrando-nos o passado órfão de Jane que justifica uma das premissas do romance; alguém sem passado só pode esperar um futuro melhor, pois não tem nada a perder. O passado com os jovens da casa que marca o início da sua relação com Paul (Josh O'Connor) e focando-se na sua vida de criada em que Jane assume uma postura de observadora atenta, que lhe potencia a ascensão social com o emprego numa livraria e a futura carreira de escritora de sucesso.

Não há dúvida que o profundo romance de Swift ao caraterizar os sentimentos humanos torna-se difícil de passar a filme. Literalmente os personagens serão descritos com mais vibração e apresentarão uma sensualidade erótica mais desenvolvida. O escritor tem outras formas de as descrever e nos fazer imaginá-las, mas Eva Husson, ou melhor, a três mulheres envolvidas na confeção deste filme conseguiram apresentar-nos uma adaptação decente e bem representativa de uma experiencia de vida emocionante. Gostei, recomendo sem reservas.

Tem estreia prevista em sala, dia 31 de Março

Classificação: 8 numa escala de 10

 

2 de março de 2022

Opinião – “The Batman” de Matt Reeves

Sinopse

Da Warner Bros. Pictures chega-nos “The Batman”, do realizador Matt Reeves, com Robert Pattinson no papel duplo de vigilante da cidade de Gotham e o seu alter ego, o multimilionário solitário Bruce Wayne. Dois anos a assombrar as ruas como Batman (Robert Pattinson), incutindo medo no coração dos criminosos, conduziram Bruce Wayne até às zonas mais sombrias da Cidade de Gotham. Com apenas alguns aliados de confiança - Alfred Pennyworth (Andy Serkis), e o tenente James Gordon (Jeffrey Wright) – entre a rede corrupta de funcionários e figuras proeminentes da cidade, o vigilante solitário estabeleceu-se como a personificação da vingança entre os seus cidadãos.

Opinião por Artur Neves

O homem morcego está de volta neste filme que pode ser uma reinicialização da saga e que promete sequelas com o final do filme indicia. Desta vez Batman, alternando com o seu alter ego Bruce Wayne é interpretado com relativo sucesso por Robert Pattinson que lhe transmite uma intensidade melancólica semelhante ao seu papel de vampiro na saga “Crepúsculo”. Batman é um vigilante que se propõe acabar com o crime que campeia em Gotham City que nos é apresentada numa noite constante que envolve a cidade. Toda a história decorre durante a noite de Gotham e os esparsos raios de sol que podemos ver pertencem a um tempo crepuscular que não rompe a escuridão nem a chuva constante que envolve a cidade, de acordo com a pretensão do realizador, para lhe imprimir o ambiente noir da banda desenhada inicial.

Nesta história o passado, o assassínio de Thomas e Martha Wayne na presença de Bruce na saída de um espetáculo, é uma obsessão de Bruce que o acompanha durante toda a ação, quando a realidade dos enigmáticos crimes que vão ocorrendo vão conduzindo para uma ligação à atividade da sua família, tradicionalmente respeitada e impoluta.

Os crimes são conduzidos por um serial killer, Edward Nashton (Paul Dano) que declara ser o seu objetivo a eliminação da elite corrupta que ocupa todos os lugares de administração da cidade. A investigação policial é conduzida por James Gordon (Jeffrey Wright) que pede a Batman que o acompanhe, o defende e justifica a sua presença quando a corporação a que pertence não compreende a sua inclusão. O primeiro crime ocorre na casa do prefeito da cidade e atual recandidato á reeleição e inclui um cartão do criminoso dirigido a Batman, contendo uma frase cifrada cuja resposta conduzirá ao criminoso. É essa a função de Batman, encontrar as resposta e elucidar a polícia, mas ele prefere continuar sozinho na sua busca pela justiça.

O personagem de Edward Nashton manifesta um maquiavelismo feroz, numa mente desequilibrada muito diferente do anterior Joker que em 2019 ganhou vida própria. Nashton atua sempre mascarado sem possibilidade de ser reconhecido, mas quando posteriormente é preso tem na cadeia o momento alto do seu personagem que nos faz lembrar John Doe em “Se7en” embora com uma temática de vingança significativamente diferente.

Na sua busca pela solução das pistas, Batman cruza-se com Selina Kyle (Zoë Kravitz) que embora não tendo poderes especiais defende-se muito bem em luta e possui conhecimentos de arrombadora de cofres o que constitui a hipótese de introduzir uma química de natureza amorosa com Batman numa história e num tema fundamentalmente masculino no qual as mulheres são meros adornos do ambiente e profissionais do sexo. Selina atua dentro de uma veste de cabedal negro e possui calendário próprio, embora ceda aos pedidos de colaboração com Batman, depois deste a encontrar em plena atuação na violação de um cofre. Ambos não têm a mesma visão dos acontecimentos por motivos que mais tarde saberemos, mas as suas preferências convergem.

“The Batman” é assim uma história filmada num ambiente sub iluminado sobre o personagem de Pattinson com uma identidade secreta e outra bem conhecida de empresário rico que herdou o império Wayne. Na versão secreta ele auto assumiu a sua cruzada de combate ao crime identificando-se como “Vingança” sentindo-se necessário a Gotham mas não amado ou reconhecido por isso e visto como uma aberração que lhe causa uma melancolia permanente a que ele sucumbe. Matt Reeves, o realizador americano que tem no seu portfólio dois “Planetas dos Macacos” de 2014 e 2017 e um excelente filme de vampiros “Deixa-me Entrar” de 2010 tenta elevar Batman à categoria de salvador através dos seus atos, mas ao contar-nos isso em 178 minutos, para alguns pode tornar-se chato, todavia é uma história bem estruturada, de caris fortemente policial com pistas cifradas que nos agarram, naquela cidade às escuras em noites muito chuvosa. É interessante e merece ser visto.

Tem estreia prevista em sala dia 03 de Fevereiro

Classificação: 7 numa escala de 10

 

28 de fevereiro de 2022

Opinião – “O Poder do Cão” de Jane Campion

NOTA: Este filme estreou inicialmente na plataforma de streaming Netflix e como tal já teve uma apreciação neste blogue, todavia as suas 12 nomeações para os Óscares da Academia Americana de 2022 e a estreia em sala pela mão da NOS Audiovisuais, justifica a sua republicação.

Sinopse

Severo, de olhos claros, bonito, Phil Burbank é brutalmente sedutor. Todo o romance, poder e fragilidade de Phil estão presos no passado e na terra: ele pode castrar um bezerro com dois golpes rápidos da sua faca; ele nada nu no rio, encharcando seu corpo com lama. Ele é um cowboy tão cru quanto as peles obtidas nas suas caçadas. Corre o ano de 1925. Os irmãos Burbank são fazendeiros ricos em Montana. No restaurante Red Mill, a caminho do mercado, os irmãos encontram Rose, a proprietária viúva e seu filho gentil, Peter.

Phil se comporta tão cruelmente que leva os dois às lágrimas, deleitando-se com sua dor e levando seus companheiros vaqueiros ao deleite dos brutos – todos exceto seu irmão George, que conforta Rose e depois volta para lhe propor casamento. Enquanto Phil oscila entre a fúria e a astúcia, sua provocação a Rose assume uma forma estranha – ele paira no limite de sua visão, assobiando uma música que ela não consegue tocar no piano que George lhe ofereceu. Humilha o filho dela de forma aberta, amplificada pelos aplausos dos vaqueiros ao serviço de Phil. Posteriormente, Phil assume voluntariamente a educação do menino sob sua responsabilidade. Este último gesto é a suavização de uma relação que deixa Phil exposto ou uma trama que se transforma em ameaça?

Opinião por Artur Neves

Jane Campion tornou-se notada quando em 1993 foi vencedora do Óscar da Academia Americana com o filme “O Piano” em que uma pianista muda, a sua filha e um piano de marca, são enviadas para Nova Zelândia, para ela casar com um fazendeiro abastado. Os problemas começam quando um trabalhador local se apaixona por ela. A pianista muda era Holly Hunter que tem aqui a sua ascensão ao estrelato através da direção de Jane Campion que faz dela um personagem ainda hoje inesquecível quando é nomeada pelas suas novas realizações, como neste filme em que o pormenor, a descrição lenta e porfiada da caraterização dos personagens os tornam reais, próximos de nós e convincentes nas atitudes que os vemos tomar na interpretação da história que os suporta.

A sinopse é suficientemente descritiva sobre o enredo da história pelo que vou voltar-me para o desenvolvimento dos personagens que é o que Jane Campion faz melhor, ao seu ritmo lento, pormenorizado, detalhando as diferenças significativas de uma história passada em Montana em 1925, em plena conquista do oeste americano, mostrando-nos que nem só de tiros, índios e cowboys se faz um western. O argumento foi baseado no romance com o mesmo nome, escrito em 1967 por Thomas Savage e o filme teve a sua estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Veneza em setembro de 2021 que lhe conferiu o Leão de Prata de Melhor Realização. O trabalho foi realizado na Nova Zelândia, numa zona montanhosa do país mas que não se parece com o estado de Montana, todavia as tomadas de vista panorâmicas, em jeito do que faria Terrence Malick, são impressionantes e atestam bem a maestria da autora.

As quatro personagens mencionados na sinopse são-nos meticulosamente apresentadas, começando por Phil (Benedict Cumberbatch), que se apresenta como um fazendeiro machista, duro, naturalmente agressivo, que esconde uma homossexualidade latente, menosprezando tudo e todos, bem como todas as atividades que não revelem a virilidade inerente à sua necessidade de a mostrar, para ocultar a sua fraqueza profunda e o seu segredo escondido entre ramos e folhas de árvores da floresta, onde periodicamente se recolhe para solitariamente apreciar em revistas fotográficas da época, corpos musculados de homens. Nesses momentos ele perde-se em fantasias homoeróticas e lembranças do seu mentor Bronco Henry falecido há cerca de 20 anos, de quem ele guardou um lenço que usa para se masturbar. Na realidade ele é apenas um ser sofrido pela sua condição, não é intrinsecamente mau, apenas sente necessidade de compensar a sua fraqueza com demonstrações violentas. O seu irmão George Burbank (Jesse Plemons) tem o comportamento oposto dele. É calmo, ponderado a falar com frases curtas e por vezes insuficientes para concretizar uma ideia, e para a necessidade de exuberância do seu irmão Phil, pelo que se torna o alvo das suas provocações, tratando-o sistematicamente por “gordo”, escarnecendo das suas premissas e da sua falta de apetência para a lidação com o gado. George tem estudos e outra visão da vida de que não abdica, como a constituição de uma família com a viúva Rose Gordon (Kirsten Dunst) dona do restaurante da cidade que o gere com a ajuda do seu filho Peter (Kodi Smit-McPhee), de aparência esguia, delicado, aspirante a médico, metido consigo e com os seus livros e com as suas habilidades manuais de fazer arranjos de flores em papel colorido que se destinam à decoração das mesas.

É com estes quatro elementos que Jane Campion desenvolve uma história de competição e confronto de personalidades. Quando George e Rose depois de casados coabitam com Phil a casa de família no rancho, Phil envolve-se em provocações psicológicas a Rose que integra muita emoção no papel do seu personagem, mas a força está com Phil. Peter por seu lado, observa, regista, mastiga as humilhações e com base na religiosidade da sua formação folheia o Livro de Oração, lê os Salmos 22:20 “Livra a minha alma da espada minha querida, e do poder do cão”, reflete, e sorrindo suavemente engendra um processo para castigar o pecador. Diabolicamente lindo, muito bem interpretado é merecedor de ser visto com tempo para o desfrutar ao longo dos seus 126 minutos. Recomendo sem reservas.

Em exibição em sala a partir de 03 de Março

Classificação: 7 numa escala de 10

 

25 de fevereiro de 2022

Opinião – “Competição Oficial” de Mariano Cohn, Gastón Duprat

Sinopse

Quando um empreendedor multimilionário decide impulsivamente criar um filme icónico, ele exige os melhores e recruta a conhecida realizadora Lola Cuevas (Penélope Cruz) para orquestrar a sua ambiciosa proposta. A completar um elenco de estrelas são escolhidos dois atores de enorme talento, e egos ainda mais colossais: o grande galã de Hollywood Félix Rivero (Antonio Banderas) e o radical ator de teatro Iván Torres (Oscar Martínez).

Embora sejam lendários no ramo, os dois não são propriamente grandes amigos. Sujeitos por Lola a uma série de testes cada vez mais excêntricos, Félix e Iván têm de se confrontar não só um com o outro, como também com os seus próprios legados. Qual deles restará quando a câmara começar finalmente a filmar?

Opinião por Artur Neves

Os realizadores Mariano Cohn, Gastón Duprat têm como antecedente de referência um filme muito interessante também interpretado por Oscar Martínez com o nome de “Cidadão Exemplar” em que ele, um escritor de renome há muito tempo afastado voluntariamente da sua terra natal na Argentina, propõe-se lá voltar depois de ser agraciado com um prémio Nobel que distinguia a sua obra e, na sua opinião, o valorizava aos olhos dos seus conhecidos na sua terra de origem.

Como pode pensar-se, as coisas não se passam assim e tal como neste filme, em que dois nomes sonantes da sétima arte são contratados para corporizarem o legado de um milionário farmacêutico em empo de reflexão sobre a vida, eles preocupam-se antes em desenvolverem o seu personagem melhor do que o outro, preocupando-se mais com a competição entre si. que normalmente tende a não produzir destaque a uma das partes, do que na canalização de esforços comuns para que o resultado, o filme, seja uma obra-prima como o produtor pretende.

Para que tudo corra pelo melhor o produtor não se escusa a esforços para contratar o melhor realizador da época, Lola Cuevas (Penélope Cruz) que depois de conhecer a história e integrar o tema na sua complexa e excêntrica maneira de ser e sensibilidade esotérica, evidenciada nas suas esdruxulas posições de descontração e de meditação, sente que precisa de se orientar pela busca da verdade e explorar as mais excitantes possibilidades de ambos os atores convidados; Félix Rivero (António Banderas) e Iván Torres (Oscar Martínez) para que eles possam dar o melhor de si e que por ego, ou vaidade masculina, eles não pretendam ofuscar-se mutuamente. Para conseguir isso, Lola submete-os aos mais duros ensaios, durantes as fases de preparação das filmagens, de leitura dos textos, de composição das cenas como maneira de eles esgotarem os seus impulsos primários e trabalharem coordenadamente.

Portanto a história deste filme reporta-se á confrontação de dois colegas de profissão de forma satírica e altamente competitiva tendo com pano de fundo a pretensão cínica do mecenato cultural que mantenha para a história o bom nome do seu financiador. Em boa verdade, a Humberto Suárez (José Luis Gómez) o mecenas bilionário, não lhe interessa o enredo do filme de cujo livro em que é inspirado lhe custou elevada quantia e que ele nem percebe bem. A sua preocupação real é aos 80 anos reconhecer que apesar de toda a sua fortuna não deixa atrás de si algo de valor autêntico ou de utilização e consequências duradouras.

É pois um filme com um sentido de humor indireto, baseado na sensibilidade estética do local dos ensaios e nos pormenores de preparação das cenas e do guarda-roupa dos dois atores para o qual foi utilizado um carinho especial para não prejudicar os personagens, muito embora as suas cenas e os seus diálogos possam surgir como ridículos. “Competição Oficial” é um filme diferente do comum onde tudo se passa antes do início das filmagens e foi o Filme de Abertura do Festival de Cinema de San Sebastian e foi ainda Seleção Oficial quer do Festival de Cinema de Veneza quer do Festival de Cinema de Toronto. Contendo cenas “bem apanhadas”, um twist inesperado no final que não engana Lola Cuevas, define-se como interessante e recomendável.

Tem estreia prevista em sala dia 03 de Março

Classificação: 6 numa escala de 10

 

24 de fevereiro de 2022

Opinião – “Drive my Car” de Ryûsuke Hamaguchi

Sinopse

Dois anos após a morte de sua esposa, Yusuke recebe uma oferta para dirigir uma produção de Uncle Vanya num festival de teatro em Hiroshima. A produção designa Misaki, uma jovem taciturna para conduzi-lo no seu amado Saab 900 vermelho. À medida que a estreia da produção se aproxima, as tensões aumentam entre o elenco e a equipe, principalmente entre Yusuke e Koji Takatsuki, um ator de TV que compartilhava uma ligação indesejada com a falecida esposa de Yusuke. Assim, este é forçado a confrontar verdades dolorosas levantadas do seu passado, e começa – com a ajuda da sua motorista – a enfrentar os mistérios assombrosos que sua esposa deixou para trás

Opinião por Artur Neves

O cinema Japonês ainda é para alguns de nós uma fonte de surpresa decorrente da relativa ignorância que temos acerca da sua filosofia de vida, da sua moral e dos seus costumes sempre aparentemente reverenciais para com o outro. No caso presente, os seus 180 minutos de duração pode constituir um fator dissuasor, que desde já aviso, não deve ser tido em conta. Baseado num conto da coleção de Haruki Murakami; “Homens sem Mulheres” sobre as barreiras e os segredos mais íntimos que existem entre pessoas ligadas, esta história é multifacetada, progredindo em diversos assuntos que se entretecem com muita coerência sem deixar pontas soltas, apesar de nos surpreender logo desde as primeiras imagens com um fluxo de ideias que àquela altura se apresenta como um mistério impenetrável, decorrente das escassas informações que possuímos.

A história brevemente descrita na sinopse percorre um caminho de amor, perda, aceitação, paz e redenção num novo amor, atravessando um mar de tristeza profunda que se move em ritmo glacial (daí a sua extensa duração) e nos mostra comportamentos e conceitos de alma como poucos filmes se atreveram a fazer. Todo o enredo gira em torno da obra de Chekhov “ Tio Vanya” que envolve todos os personagens, incluindo a defunta esposa Oto Kafuku (Reika Kirishima) de Kafuku (Hidetoshi Nishijima) que criava histórias sempre que eles faziam sexo. Oto tinha esse fetiche, até ao ponto de derivar sobre as falas da peça de Ghekhov durante o ato e ler para gravar em cassete toda a peça, exceto as falas de Kafuku. Ele levava e ouvia a peça quando viajava ao volante do Saab 9000 e completava os espaços em branco milimetricamente deixados no suporte para a sua intervenção. Por outro lado Kafuku não se sentia capaz de assumir o papel em público por não se sentir ao nível de interpretar o papel do Tio Vanya que ele conhecia de cor ao longo de toda a peça.

O filme é dividido em partes, sendo os primeiros 40 minutos a apresentação de Kafuku e dos mistérios que envolvem o seu relacionamento com sua esposa. Ele é um ilustre diretor de teatro em Tóquio dirigindo produções multilingues com dialetos do Japão e dos países vizinhos e é convidado para dirigir em Hiroxima uma parceria nos mesmos moldes da mesma peça de Chekhov que ele conhece como ninguém e que para ele tem um significado ainda desconhecido decorrente dos mistérios construídos por Oto. Ela produz estranhas ideias para história após o coito, narrando-as para ele no período de recobro. Tudo isto acontece depois de ele a ter encontrado tendo um caso com um ator, em sua própria casa, no regresso de uma viagem imprevistamente adiada. Essa visão, essa confirmação da traição não lhe provoca qualquer reação ou comentário, apenas o motiva para obter uma justificação para o seu comportamento. No dia em que prometeram falar sobre assunto, ele ao chegar a casa encontra-a morta no chão, vítima de um AVC.

Esse hiato criado na sua mente, nas suas expectativas para encontrar uma razão, vai condicioná-lo no seu trabalho em Hiroxima. Todos os dias ele é compelido a percorrer o seu estranho passado com sua esposa na companhia de uma condutora ao volante do seu carro que a produção do festival lhe impõe a presença por segurança e que por inerência vai-se inteirando das suas mais profundas preocupações e revelando igualmente a sua conturbada existência.

Este drama japonês vem colecionando elogios da crítica e venceu três prémios no festival de Cannes 2022, incluído o de melhor argumento adaptado, justificando-se plenamente o tempo utilizado por Hamaguchi para nos introduzir numa problemática de suspensão do espírito quando somos surpreendidos por um ato de todo inesperado. O tempo é necessário não só para compreender os personagens, mas para que sintamos uma imagem do que cada um deles sente no seu posicionamento da história que se insere na peça de Chekcov e nos mistérios de Oto Kafuku. Recomendo vivamente, sem reservas…

Tem estreia prevista em sala dia 10 de Março

Classificação: 8 numa escala de 10

 

18 de fevereiro de 2022

Opinião – “Belfast” de Kenneth Branagh

Sinopse

Belfast narra a vida de uma família protestante da Irlanda do Norte da classe trabalhadora da perspectiva de seu filho de 9 anos, Buddy, durante os tumultuosos anos de 1960. O jovem Buddy (Jude Hill) percorre a paisagem das lutas da classe trabalhadora, em meio de mudanças culturais e violência extrema. Buddy sonha em um futuro melhor, glamoroso, que vai tirá-lo dos problemas que enfrenta no momento, mas, enquanto isso não acontece, ele se consola com o carismático Pa (Jamie Dornan) e a Ma (Caitríona Balfe), junto com seus avós (Judie Dench e Ciarán Hins) que contam histórias maravilhosas. Enquanto isso, a família luta para pagar suas dívidas acumuladas. Pa sonha em emigrar para Sydney ou Vancouver, uma perspectiva que Ma encontrou com aflição. No entanto, ela não pode mais negar a opção de deixar Belfast à medida que o conflito piora e Pa recebe uma promoção e um acordo de moradia na Inglaterra de seus empregadores.

Opinião por Artur Neves

Kenneth Branagh é natural de Belfast, onde nasceu em Dezembro de 1960 pelo que seria expectável ter competência para nos mostrar os duros anos da guerra “santa” na sua terra entre protestantes e católicos se ele e a sua família não tivessem imigrado para o sul de Inglaterra, para Londres quando ele tinha 9 anos para evitar os tumultos que se vieram posteriormente a verificar. Ainda assim, isso poderia ser uma vantagem, se a história que nos é contada reproduzisse com seriedade os vários episódios de conflito entre as populações católicas e protestantes, atualmente denominados “republicanos e legalistas” respetivamente, e nos apresentasse a sua visão sobre as raízes do conflito mais importante denominado por “Troubles”, que se manifestou desde 1960 até 1998, considerando que a história do filme começa em 1969 quando as fações em confronto se designavam por “nacionalistas e sindicalistas” sendo os protestantes os mais aguerridos e mais adeptos da ideia de “sindicato” que despontava na época.

Mas nada disso se verifica, Branagh opta por nos contar um drama com laivos autobiográficos centrado no ponto de vista obviamente distorcido de Buddy (Jude Hill), uma criança irlandesa de uma família protestante que vive num bairro católico com os seus pais e avós tal como descrito na sinopse, estabelece os seus contactos na escola e na rua sem ligar de perto ás tendências dos seus colegas, muito particularmente à católica colega de classe Catherine (Olive Tennant), inteligente e delicada que lhe motiva todas as atenções e preferências da sua puberdade em formação.

Adicionalmente a isto Kenneth Branagh começou a sua vida artística pelo teatro clássico e começou a ser notado no cinema num filme baseado na adaptação feita por ele, de uma peça de William Shakespeare; “Muito Barulho para Nada” de 1993, tendo continuado em todos os filmes em que se empenhou a fundo a tentar fazer a junção do teatro ao cinema sem considerar que ambas as artes têm uma linguagem próprias e vinculadamente diferentes. Em ambas as artes representa-se, sim, mas de maneira diferente. Aliás, refira-se ainda que as suas incursões pelos contos de Agatha Christie adaptados por ele para o cinema; “Um Crime no Expresso do Oriente” de 2017 e o recente “Morte no Nilo” de 2020 atualmente em exibição, em que ele usurpa o papel de Hercule Poirot, documenta a maneira prática de destruir a mística de um conto policial teatralizando-o de forma despudorada.

Posto isto, não percebo como uma história com tantas vítimas que durante tanto tempo deixou marcas indeléveis na cultura e na sociedade inglesa, possa ter obtido tantas nomeações para ser um dos candidatos aos Óscares de 2022 e ficar ao lado de por exemplo; “O Poder do Cão” uma história poderosa já apreciada neste blogue. Assim sendo e para continuar a falar do filme em si, posso dizer que o nosso herói Buddy (Kenneth Branagh, criança) mora num bairro “misto” e fica admirado com a ocorrência de um motim organizado por protestantes, que ele conhece, são seus amigos e regateiam a sua colaboração na pilhagem de um supermercado de bairro. Ele só tem interesse por futebol e histórias de quadradinhos, e fica muito impressionado quando é convidado a servir-se sem pagar nos despojos de uma loja arrombada durante um motim. Em casa os pais preocupam-se com a sua falta de dinheiro e a nostalgia da história é usada para evitar a contextualização dos problemas que justificam aquele conflito de 30 anos, de caris fundamentalmente social, e que no filme se resume a um vago problema de “religião violenta”.

Depois de uma primeira tomada de vistas por um drone sobre a Belfast atual, o filme desenvolve-se a preto e branco na rua onde mora Buddy fixando a ação às “quatro paredes” do “palco” formadas pela rua e pelas transversais acima e em baixo onde os motins, filmados de perto, retiram boa parte da tensão que deve ter sido viver num sítio daqueles. Aqueles conflitos tiveram contornos de limpeza étnica, mas o filme transforma-os em sentimental e nostálgico, seguindo Buddy para a escola a e para a igreja ou Buddy assistindo ao “Star Trek” na televisão manipulando a dureza daqueles tempos que dividiram e continuam a separar o Reino Unido, mesmo após a solução de Boris Johnson para a concretização do Brexit.

Nada do que é mostrado nesta história nos acrescenta algo ao que aconteceu em Belfast nos anos duros da guerra, que Kenneth Branagh transforma num conto pessoal de agradecimento com tons de rosa à cidade, aos amigos e aos pais. Serve para ele, para mim fica muito aquém das expectativas.

Tem estreia prevista em sala dia 24 de fevereiro

Classificação: 4 numa escala de 10