20 de outubro de 2020

Opinião – “Bangla” de Phaim Bhuiyan

Sinopse

Escrito, realizado e protagonizado por Phaim Bhuiyan, é uma obra ficcional inspirada na vida do realizador e tem sido comparada ao trabalho de Nanni Moretti pelo seu tom mais irreverente. Bangla é uma primeira obra divertida e encantadora sobre integração e identidade.

Opinião por Artur Neves

Phaim Bhuiyan é neste seu primeiro trabalho de longa metragem, um completo “One Man Show”, considerando que além de realizar e protagonizar o filme, também escreveu o argumento com base na sua experiencia pessoal e completa o quadro, como narrador das motivações da história, bem como, das suas próprias reflexões sobre os eventos que nos vai mostrando, olhando-nos nos olhos sem reservas, a nós espectadores.

É um claro trabalho de baixo orçamento mas que não deixa de levantar questões sociais conflituantes que até ao presente não tiveram resposta absoluta, nem foram objeto de um debate sério. A questão de fundo que ele coloca no filme pode formular-se assim: Será curial e correto que a segunda geração dos emigrantes num qualquer país de acolhimento, seja obrigada a seguir e praticar a religião e a tradição dos seu progenitores?... ou deverá aderir à cultura do país onde nasceu, cresceu, vive e lhe proporciona um local de trabalho e perspetivas de futuro?...

Uma resposta apressada pode indicar que lhe cabe a ele decidir, mas tal como mostra esta história, a influência familiar, as instituições instaladas na comunidade e até o lugar onde vive, no meio de outros emigrantes seus semelhantes, constituem um significativo lastro a vencer para conseguir essa emancipação, até mesmo no caso de Phaim, que conscientemente questiona essas práticas e reflete sobre elas.

Phaim trabalha como vigilante num museu, constituiu uma banda que toca música do Bangladesh em festas e casamentos, frequenta a mesquita, não come carne de porco nem bebe álcool, mas caiu fulminantemente de amores por uma italiana, Asia (Carlotta Antonelli) bonita, desembaraçada, autónoma e progressista em termos de relacionamento amoroso, que esbarra na resistência de Phaim em seguir os seus impulsos à revelia da submissão à sua religião e às tradições dos seus pais.

Este relacionamento traz-lhe constrangimentos vários com a sua comunidade que ele não enjeita, dirime-os com graça em termos de comédia e tenta resolvê-los com um amigo que vende droga num banco de jardim e com os concelhos que procura junto do mullah da sua mesquita, o qual vimos a saber ter mais problemas do que ele nesta área dos sentimentos.

Dos pais, não obtém mais do que a intransigência da mãe, profundamente agarrada à tradição, o desinteresse do pai que vive alheado nas sua memórias e a competição da irmã mais velha, também a braços com problemas semelhantes mas que só podem ser abordados de outro ponto de vista por ser mulher.

A abordagem está engraçada, bem contada, maioritariamente de câmara na mão, tendo sido vencedor do Prémio do Público na última edição em 2019, da Festa do Cinema Italiano. Vai estrear em sala no próximo dia 22 de Outubro. Interessante.

Classificação: 6 numa escala de 10

 

16 de outubro de 2020

Opinião – “Bill & Ted Salvam o Universo” de Dean Parisot

Sinopse

Em todas as suas atribuladas viagens no tempo, nunca a dupla formada por Theodore "Ted" Logan (Keanu Reeves) e William "Bill" S. Preston (Alex Winter) teve tanto em jogo. Ainda com o seu destino como estrelas de Rock and Roll por cumprir, os dois amigos embarcam numa nova aventura quando uma visitante do futuro os avisa que só a música deles poderá salvar o universo tal como o conhecemos. Durante o caminho, vão ter a ajuda das filhas, de um novo conjunto de personagens históricas e de algumas lendas da música, na busca de uma canção que vai endireitar o mundo e trazer harmonia ao universo.

Opinião por Artur Neves

O presente filme continua a série, 30 anos depois, de; “A Fantástica Aventura de Bill e Ted” de 1989, em que sumariamente pode dizer-se que conta a história absurda de dois adolescentes (os mesmo de agora mas mais novos) aparentemente estúpidos, que partem em busca de elementos existentes no universo, com a ajuda de uma máquina do tempo instalada numa cabine telefónica, que lhes permita preparar a apresentação da história definitiva do universo.

Não satisfeitos com isso, voltaram à carga em 1991 com; “Bill e Ted no outro Mundo” contando outra história absurda de como um tirano com quem se cruzaram no futuro, no anterior filme, criou dois androides duplos de Bill e Ted e os enviou para o passado para eliminarem os Bill e Ted originais, que tinham entrado em conflito com ele.

Deve custar ao leitor que estas histórias possam ter continuação, mas tiveram, e em 2020 aparece este filme, cuja história está descrita na sinopse, em que Bill e Ted estão de volta como dois canastrões em crise de meia idade, como estrelas de rock falhadas que pudessem escrever uma música para unir o mundo numa paz duradoura. É-lhes concedido um tempo pré determinado para a composição, sob pena de colisão entre o passado e o futuro que fará colapsar o mundo.

Curiosamente estas barbaridades novelistas tiveram os seus fans no passado e provavelmente ainda hoje os têm, embora mais velhos, mas ainda com capacidade de se embevecerem com a loucura das suas aventuras em contraste com a lentidão com que os seus heróis se entregam a elas, mas em consciência, esta fórmula não funciona bem por ser demasiado esdrúxula.

Bill e Ted não mudaram nada desde a última vez que os enterrámos no século passado e é estranho ver Keanu Reeves, (Ted) mais conhecido pelas novas gerações como Neo, em “Matrix” ou mais recentemente como John Wick, do que regressar a mais um remake sem justificação para ter acontecido. Outro tanto não digo de Alex Winter, (Bill) que se tem dedicado a realizar documentários e series para a televisão, desconhecendo o que o levou a protagonizar este tão completo desconchavo cinematográfico. Nostalgia?... talvez!...

O argumento tenta atualizar a história introduzindo um robot inenarrável, mas a sua aparição só acentua ainda mais a falta de senso, com um enredo irrelevante que durante 90 minutos anda entre o presente, o passado e o futuro através da cabine telefónica de 1989 sem mudarem a sua essência nem o seu comportamento, desde que os deixámos cristalizados em 1991. A história é confusa levando-nos repetidamente para trás e para a frente no tempo ao encontro de Jimi hendrix em Londres em 1967, Louis Armstrong em 1922 em Nova Orleãs e Mozart em 1782 em Viena, para ajudarem a compor a tal música que há de unir o universo, interpretada por dois fracassados forçados a tocar com a sua banda em bares anónimos a dois dólares por noite.

Mesmo no aspeto formal detetam-se defeitos. Bill e Ted têm filhas; Billie (Brigette Lundy-Paine) e Thea (Samara Weaving) respetivamente, que parecem ter a idade das suas mães, pois estas não envelheceram desde 1991, denotando uma falha de caracterização a juntar a outras fragilidades estilísticas, tais como, referencias a eventos e personagens dos primeiros filmes, tornando difícil compreendê-lo na sua totalidade se essas referencias não forem claras na mente do espectador.

Compreende-se que poderá ser uma jornada nostálgica para os fans dos anos 80, mas nós não temos de levar com eles, nem são mostradas razões para conquistar novos aderentes.

Classificação: 3 numa escala de 10

 

15 de outubro de 2020

Opinião – “Mulheres ao Poder” de Philippa Lowthorpe

Sinopse

História verídica da interrupção do concurso de Miss Mundo, em 1970, pelo crescente Movimento de Libertação das Mulheres, um evento que foi notícia principal em todo o mundo. Durante um dos programas de televisão mais populares do planeta, assistido por 100 milhões de espectadores, o Libbers interrompe a transmissão afirmando que concursos de beleza infamam as mulheres. Assim, da noite para o dia, o Movimento ganha fama… e quando a ordem é restaurada a escolha da vencedora provoca um novo rebuliço. Não é a favorita sueca, mas sim a Miss Grenada, a primeira mulher negra a ser coroada Miss Mundo. Em questão de horas, uma audiência global testemunhou a expulsão do patriarcado do palco e o derrube do ideal ocidental de beleza.

Opinião por Artur Neves

Não posso deixar de iniciar esta crónica sem comentar o título que foi atribuído em Portugal a este filme, que sugere tratar-se de uma assunção de conflito, ou de domínio das mulheres sobre os homens, quando afinal não se trata de nada disso, mas tão somente da teatralização de um evento real acontecido no concurso de Miss Mundo em 1970, quando um grupo de mulheres organizadas assume uma atitude de “Mau Comportamento” ("Misbehavior",no título original) para os parâmetros comportamentais femininos na época. É mais um exemplo de distorção de contexto na atribuição de títulos de filmes em Portugal.

Posto isto, e tal como a sinopse reporta o filme conta-nos a história baseada em factos e personagens reais de como um grupo de mulheres organizadas, impugnou um concurso mundial de beleza feminina, que na opinião delas, objetivava as mulheres, comparando-as pelos seus atributos físicos e sexistas, de modo semelhante às avaliações de qualidade dos potenciais compradores numa “feira de gado”.

Esta opinião reúne atualmente um largo consenso, mas durante a primeira metade do século XX, os concursos de beleza foram apoiados e defendidos pelas entidades oficiais e pelos mídia como uma promoção da beleza feminina, sendo expressamente incluída a exibição de costas para a câmara, para que o público pudesse escrutinar as formas mais ou menos rotundas das meninas em bikini, com total aderência dos juízes e do publico presente no Royal Albert Hall de Londres, apresentado por um Bob Hope, (representado por Greg Kinnear) armado com um pacote de piadas cafonas, maliciosas e ridículas, mas completamente aceite e elogiado na época. No filme, o “boneco” nem está muito bem construído e a representação fica-se entre a imitação imperfeita e a caracterização incompleta, mas para o que é, serve.

Em 1970, embora lentamente, as coisas já começavam a mudar e para dignificar a prestação das debutantes, a organização promoveu o acompanhamento permanente das Miss em concurso por uma acompanhante cuja missão era fazê-las refletir sobre o concurso em si e sobre as mudanças que a participação naquele evento iria introduzir nas suas vidas, bem como a inclusão de duas Miss negras; Miss Granada (Gugu Mbatha-Raw) e Miss África do Sul (Loreece Harrison), como que a demonstrar a universalidade da competição, mas sem considerar a diferença de conceito que o concurso significava para raparigas de culturas tão diferentes da europeia, constituindo uma “emenda pior que o soneto”.

As manifestantes, encabeçadas por Jo Robinson (Jessie Buckley) uma ruiva irreverente e destemida, coadjuvada pela intelectual Sally Alexander (Keira Knightley) que nos primeiros contactos não compreendem a semelhança de objetivos, embora por caminhos diferentes, infiltram-se no espetáculo com o grupo de aderentes ao movimento, no propósito de exibir cartazes de protesto, e ruídos que perturbam a normal exibição do evento, embora este consiga terminar tal como esperado, com a indicação da vencedora surpresa para os 100 milhões de espectadores espalhados pelo mundo.

A causa do protesto é válida e embora algumas manifestantes sejam detidas não se tiram daí consequências sérias para as protagonistas e o filme consegue mostrar com realismo o desespero e a frustração das mulheres envolvidas no protesto, através das suas conversas sobre a revolução que apenas iniciaram e que deve continuar para atingirem os seus justos objetivos.

As performances estão em bom nível e só se lamenta que a esposa de Bob Hope, Dolores (Lesley Manville) tenha sido tão pouco utilizada, menorizada mesmo, quando personifica um elemento que dentro da organização já não apoia o evento com o entusiasmo dos primeiros tempos, tendo começado a sua luta separatista individual.

É um documento decisivo na história do movimento feminista a que vale a pena assistir para formação e conhecimento dos factos. Em exibição nos cinemas da NOS.

Classificação: 6 numa escala de 10

 

14 de outubro de 2020

Opinião – “Manual da Boa Esposa” de Martin Provost

Sinopse

Paulette Van Der Beck (Juliette Binoche) e o marido (François Berléand) dirigem há muitos anos a Escola de Gestão Doméstica de Bitche, na Alsácia-Mosela. O estabelecimento tem por missão formar adolescentes para se tornarem donas de casa perfeitas, numa época em que se esperava que as mulheres servissem subservientemente os maridos. Após a morte repentina do marido, Paulette descobre que a escola está à beira da falência e tem que assumir a responsabilidade da mesma.

Mas enquanto decorrem os preparativos na escola para o concurso televisivo de Melhor Gestão Doméstica, Paulette e as suas entusiásticas alunas começam a questionar os valores prevalecentes, na senda das transformações sociais provocadas pelos protestos nacionais do maio de 1968. Tendo reatado com André (Edouard Baer), o seu primeiro amor, e ajudada pela excêntrica meia-irmã Gilberte (Yolande Moreau) e pela rígida freira Marie-Thérèse (Noémie Lvovsky), Paulette junta-se às alunas para superarem o seu estatuto oprimido e se tornarem mulheres livres. "Manual da Boa Esposa" é uma visão humorística e satírica duma história universal sobre a solidariedade e a igualdade de género.

Opinião por Artur Neves

Estamos da década de 60, os fumos da segunda guerra já se extinguiram e com eles a sociedade emergente da década de 50. A reconstrução do pós guerra já está estabilizada e uma classe média burguesa, estabelecida à custa da dignificação do trabalho numa sociedade de industrialização crescente, produz filhos que começam a questionar a formatação da moral e dos bons costumes veiculada pelos seus progenitores.

Objetivamente a história deste filme centra-se em 1967 (eles desconhecem que Maio de 1968 já está próximo e quais as suas consequências) mas na Alsácia-Mosela, a Escola de Gestão Doméstica de Bitche segue o seu caminho na formação de boas esposas e donas de casa perfeitas, segundo um figurino ultrapassado que é silenciosamente rejeitado pelas alunas que a frequentam.

Nessa juventude já se fazem sentir os ventos de mudança, com os sonhos de independência, de autonomia sobre as suas vidas e o futuro de revolta contrariando frontalmente as lições da madame Paulette Van Der Beck, a excêntrica meia-irmã do marido dela, Gilberte, e a freira sargento Marie-Thérèse que adiciona à férrea disciplina que impõe às alunas, toda a sua crendice em mitos e fantasias populares sobre a verdade da natureza humana.

Toda a história é vertida em género de comédia inteligente que confronta muitas das ideias ainda hoje reinantes em muitos espíritos menos esclarecidos. Muitos espectadores poderão sentir-se confrontados e incrédulos em face de afirmações jocosas sobre comportamentos, que para eles serão perfeitamente normais, registando-se aqui a primeira fraqueza do filme na medida em que, apresentado verdades como fantasias fúteis e esconde o obscurantismo em profundidade que as justificou.

Aborda fundamentalmente o movimento de emancipação feminina na década de 60 sob a forma de uma farsa galhofeira durante o percurso de deslocação a um concurso televisivo de escolas da mesma área de ensino em Paris, e apresenta o despertar visível da identidade de género no florescimento do amor proibido entre duas jovens.

Todos os personagens estão bem defendidos, com nota particular para Gilberte (Yolande Moreau) que já possui um histórico de trabalho com este realizador, bem como para Marie-Thérèse (Noémie Lvovsky) que nos apresenta uma freira sargento com todas as caraterísticas inerentes. Paulette (Juliette Binoche) está sempre bem, ou não fosse ela uma diva do cinema francês. É um filme com conteúdo, que se vê com agrado durante 110 minutos, e faz-nos sorrir.

Classificação: 5,5 numa escala de 10

 

10 de outubro de 2020

Opinião – “O Capital no Século XXI” de Justin Pemberton

Sinopse

Um documentário de fazer rodar a cabeça, baseado no livro do economista francês Thomas Piketty, transforma a história do capital nos últimos 300 anos numa história de detetive financeiro que expõe as justificações para a nossa crise atual.

Opinião por Artur Neves

A história contada neste filme, porque é disso que se trata, embora fortemente ligada aos modernos eventos do nosso tempo, tem origem no século XVIII, na transição entre a sociedade feudal e o início da era industrial e aborda em modo ligeiro mas com objetividade, um dos assuntos mais polémicos e importante da atualidade no que concerne à distribuição da riqueza, ou à falta dela, considerando que 70% dos recursos mundiais é detido por apenas 1% da população.

Com base nesta premissa, o autor do livro com o mesmo nome, publicado em frança em 2013, é também narrador do filme em conjunto com o realizador Justin Pemberton que reúne uma larga experiencia na realização de documentários desde 1999. Ele aponta o seu olhar para os últimos trezentos anos, descrevendo todo o percurso de onde viemos e para onde estamos indo do ponto de vista das políticas aplicadas ao capital, como elemento de poder, ou como motor social com capacidade de promover a evolução das sociedades no sentido do bem estar, que em abstrato, constitui o objetivo principal de justificação para os governos de todos os países.

Thomas Piketty, que pode ser classificado como um humanista, sem laivos visíveis de marxismo, e sem definição clara de “esquerda” ou de “direita”, nos sentidos convencionais dos termos, descreve a história que nos conta com o rigor analítico de um Paul Krugman, transformando o seu livro numa palestra ilustrada onde a riqueza material e o valor intrínseco da posse, (posse do dinheiro ou posse da terra) da propriedade em geral, aumentam e diminuem, mudando ciclicamente com o intervalo de tempo em análise e assim mostrando ao espectador, de uma forma consistente e clara porque estamos assim.

O filme começa nos senhores do poder da terra durante o domínio da aristocracia no século XVIII em que esse poder era transferido por herança e mantido através de casamentos entre pares da mesma classe. Avança para a Revolução Francesa que tentou corrigir esse círculo vicioso de poder e dinheiro, que foi mais teórico do que real pois a democratização nunca chegou às massas por essa via, e chegando à Revolução Industrial que através da indústria e da produção de bens transacionáveis, transformou o capital num elemento móvel, muito diferente da fixidez da terra, permitindo a sua rendibilidade através do investimento.

Estabelece a primeira noção de marketing para motivar a circulação do dinheiro com o aparecimento da moda de vestuário e apresenta os dois grandes colapsos do século XX, as duas guerras mundiais, como as grandes destruidoras dos anteriores paradigmas económicos que deram origem ao aparecimento de uma classe média assalariada mas forte e crescente que permitia às pessoas comuns, sem bens de raiz, sem terra, possuírem capital e poder relativo pela primeira vez na história.

Com uma sociedade fortemente dependente da indústria e do combustível que a fazia funcionar o declínio começa na década de 70 com as crises petrolíferas e a posterior globalização da economia que permitiu que o capital fosse de novo desviado e concentrado nas mãos da nova elite emergente, fruto da reinvenção do setor financeiro que utiliza o capital para comprar influência política, foge aos impostos, centra-se nos midia e na publicidade para divulgar os seus produtos, concentra a riqueza em grandes conglomerados e desvia os lucros e os dividendos da sua atividade para empresas de fachada offshore que voltam a ter a possibilidade de passarem naturalmente para a próxima geração que não despendeu qualquer esforço na sua obtenção.

É no fundo o que temos e o que conhecemos do dia a dia, que está já a acontecer e que continuará se não conseguirmos mudar o curso do futuro, para o qual Piketty não nos apresenta qualquer solução mas apenas deixa-nos o alerta de que além do capital perderemos também, e mais importante; a liberdade.

Apraz-me ainda registar que o filme recorre a excertos de filmes famosos, tais como; “Orgulho e Preconceito”, “Wall Street” e outros, como exemplos ilustrativos de épocas onde ocorreram grandes transformações, numa evidência clara que o cinema é a grande montra das mutações sociais e da vida tal como a conhecemos.

O filme terá estreia em sala em 22 de Outubro, embora tenha uma primeira exibição seguida de debate, no dia 15, no cinema São Jorge, no âmbito da 21ª Festa do Cinema Francês 2020. Recomendo vivamente.

Classificação: 8 numa escala de 10

 

8 de outubro de 2020

Opinião – “Listen” de Ana Rocha de Sousa


Sinopse

O filme conta uma história de ficção sobre o drama de uma família portuguesa emigrada no Reino Unido, em dificuldades e com trabalhos precários, que tenta recuperar a guarda dos filhos, que lhe foram injustamente retirados pelos serviços sociais ingleses por suspeitas de maus-tratos.

Opinião por Artur Neves

“Listen” que em tradução livre se pode assumir como; “Escute” é a primeira longa-metragem da atriz e agora também realizadora portuguesa Ana Rocha de Sousa que foi distinguida no Festival de Cinema de Veneza, em Itália com os prémios; “Leão de Futuro” para primeiras obras e o prémio especial “Horizontes” atribuído pelo júri. A sua estreia nas salas portuguesas está prevista para o próximo dia 22 de Outubro.

Além das nomeações mencionadas o filme recebeu também outros prémios paralelos, tais como; “Sorriso Diverso Venezia”, pela sua abordagem a questões sociais e o prémio “Bisato d’Oro de Melhor Realização”

Devo dizer ainda que embora classificando o cinema português como generalizadamente medíocre e provinciano, senti-me agradavelmente surpreendido (pela 2ª vez, registe-se, a primeira, foi com o também recente filme “O Ano da Morte de Ricardo Reis”) com a qualidade e dimensão humana desta história, na linha do argumento de Ken Loach, no seu “Eu, Daniel Blake” de 2016, mas com um “sabor” português, amistoso e envolvente, muito diferente da frieza crua e por vezes impessoal, do realizador britânico.

A história assenta numa alteração das leis britânicas em 2014, relativamente à criação de instituições particulares de solidariedade social (algo semelhante às nossas IPSS) a quem foi atribuída a incumbência da proteção de menores encontrados em situações de pobreza extrema e de maus tratos, com vista à sua adoção por famílias de acolhimento. O problema reside em que essas instituições assumem os custos da educação dos menores até à maioridade, através da participação financeira do estado Inglês, ficando eles a gerir as despesas e constituindo-se como empresas de adoção, criando condições em que o “superior interesse da criança” é o menos defendido e o mais afetado.

Esta atitude apresenta-se com mais premência aos emigrantes, decorrente da sua situação de inferioridade no desconhecimento da língua e das leis vigentes no sistema social do Reino Unido, também ele com múltiplas fragilidades. O filme acompanha assim o drama de uma família portuguesa emigrada, a quem estas empresas, mandatadas pelos serviços sociais e com cobertura legal, lhe retiram os três filhos menores por alegadas suspeitas de maus tratos.

O que se segue é a tentava de corte dos laços familiares, com visitas curtas e fortemente vigiadas entre os pais e os filhos em processo de adoção forçada, reconhecida pela lei, onde discricionariamente se impõem regras impossíveis de cumprir mas que dão origem à interrupção compulsiva das visitas, acusações de maus tratos não fundamentadas, bem como uma série de barreiras que apenas servem para cortar os laços dos filhos cativos, aos seus progenitores. A esperança assenta numa organização clandestina encabeçada por Ann Payne (Sophia Myles) que promove a justiça nos casos atendíveis.

A família é composta por Bela (Lúcia Moniz) que defende muito bem o seu personagem, apresentando uma mãe visivelmente angustiada e perturbada com o destino dos seus filhos, o pai, Jota (Ruben Garcia) com um emprego precário e um verdadeiro estilo latino naquela situação, e os filhos, dos quais destaco Lu (Maisie Sly) uma criança surda muda de ar angelical que cumpre com segurança o seu personagem.

A representação é adulta, convincente, sem hesitações nem falhas que lhe tirem credibilidade antecipando outros voos se forem concedidas “asas” a esta promissora atriz que deixa aqui uma consistente prova das suas competências de realização. A história não é lamecha, contemplativa ou fatalista, como é apanágio de muitas das nossas realizações e em todo o tempo não deixa questões em aberto que não sejam respondidas. É cinema realista do melhor, gostei e recomendo sem reserva.

Classificação: 8,5 numa escala de 10

6 de outubro de 2020

Opinião – “Miss” de Ruben Alves


 

Sinopse

Alex (Alexandre Wetter), um menino delicado de 9 anos, que não sabe ainda bem se se sente menino ou menina, tem um sonho: ser um dia eleito Miss França. Quinze anos depois, Alex perdeu os pais e a autoconfiança e sente-se estagnado numa vida monótona. Um encontro imprevisto vem despertar esse sonho esquecido. Alex então decide concorrer ao título de Miss França, escondendo a sua identidade masculina. Beleza, excelência, camaradagem... Ao longo das etapas de um concurso implacável, ajudado pela sua pitoresca família que muito o apoia, Alex parte à conquista do título, da sua feminilidade e, acima de tudo, de si mesmo.

Opinião por Artur Neves

Tendo constituído em antestreia a abertura da 21ª edição do Festival do Cinema Francês que se realiza em cinemas de várias cidades do país durante o mês de Outubro, este filme foi inspirado na história verídica do seu ator principal, Alexandre Wetter que tal como descrito na sinopse, foi um menino que aos 9 anos manifestou o desejo de um dia ser eleito Miss França.

Na realidade o ator Alexandre Wetter que na sua profissão é também modelo, tanto passa com igual desenvoltura roupa feminina como masculina, tem uma aparência andrógena, imberbe, modos delicados e serviu na perfeição os objetivos de Ruben Alves, o realizador luso descendente de “A Gaiola Dourada” de 2013, para abordar duma maneira séria, embora com diversos elementos de comédia bem incluídos, o tema da identidade de género e a perseguição discriminadora da sociedade aos comportamentos humanos que se afastam da normalidade instituída.

Aliás, a ideia não é inédita, considerando que em fevereiro de 2018, Ilay Dyagilev, um modelo masculino do Cazaquistão ganhou o prémio; “Miss Virtual de Shymkent” por ter chegado à final de um concurso de beleza online, tendo-se feito passar por “Arina” e obtido mais de dois mil votos nas redes sociais onde publicou o seu “boneco”.

Por outro lado, constitui ainda uma apreciação crítica mordaz aos concursos de beleza tradicionais vistos do seu interior, aos milhões que esses eventos movem, enunciando sempre bons propósitos e defendendo boas causas humanitárias, ambientalistas, defensoras dos animais, à custa da exposição do corpo da mulher em sensualidade e potencial sexual da sua figura em múltiplas posições sempre associadas a marcas comerciais. Mostra-se também que muitas das concorrentes pensam que a aparência física é a coisa mais importante, tal como lhes é instilado durante a preparação para a final do concurso, embora a diretora do evento seja levada a concluir; “à força de nos preocuparmos tanto com o visual exterior esquecemo-nos do conteúdo humano”.

Alex vive entregue a si próprio em casas acolhimento, depois da morte dos pais num desastre de viação e hoje, com 24 anos, questiona-se sobre a sua verdadeira tendência de género. Faz biscates em vários locais, cuida de um clube de pugilistas de bairro e vive num quarto alugado já com alguns meses em atraso. A dona da pensão aloja no seu espaço outros hóspedes com dificuldades de dinheiro mas que partilham a renda com ele. Essa perda de privacidade fá-lo abrir-se à comunidade que o cerca, constituindo a sua atual família e ajudando-o a definir-se como pessoa num convívio truculento, diversificado em opções, mas humano e carente de atenção e afeto tal como ele.

Abordado com a dignidade que o tema merece, Ruben Alves apresenta-nos uma história cheia de realidade, sonhos perdidos e comédia que se vê com agrado, prevendo-se a sua estreia em sala para 5 de Novembro. Recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

1 de outubro de 2020

Opinião – “O Ninho” de Sean Durkin

Sinopse

Rory (Jude Law), um empresário carismático, muda a sua família para a Inglaterra na esperança de lucrar com a Londres em expansão, de 1980. Mas quando a sua mulher, Allison (Carrie Coon), sente dificuldades para se adaptar e a promessa de um começo novo e lucrativo começa a esfumar-se, o casal tem de encarar as verdades indesejadas que residem sob a superfície do seu casamento. O “Ninho” é o mais recente filme de Sean Durkin, vencedor em Cannes do Prémio Regards Jeune com o filme “Martha Marcy May Marlene” (2011).

Opinião por Artur Neves

A história que nos conta este filme situa-se na década de 80 e começa nos USA, sob a presidência de Reagan e Margaret Theatcher no Reino Unido. É a época de ouro dos yuppies, pessoas que jogavam na bolsa e ganhavam muito dinheiro que lhes perturbava o discernimento por confundirem oportunidades avulsas com sucesso e capacidade negocial. É o caso de Rory O'Hara (Jude Law) inglês de nascimento numa família modesta que seguindo o sonho americano conseguiu riqueza na bolsa, vive numa casa que é uma homenagem ao bom gosto, dois carros na garagem, a mulher Allison (Carrie Coon) é uma empresária de sucesso treinando cavalos e ministrando aulas de equitação. Têm dois filhos, Samantha (Oona Roche) do primeiro casamento de Allison é ginasta e Ben (Charlie Shotwell) filho do casal com 10 anos frequenta uma boa escola e joga futebol com o pai na beira da piscina.

Tudo corre bem, exceto o auto convencimento de Rory no seu sucesso infindável, que desafia Allison a mudarem-se para Inglaterra, com a promessa de um sucesso ainda maior, com o desejo de seguir o dinheiro antes que ele acabe nos USA, iniciando uma carreira no Reino Unido como continuação do contágio da atividade bolsista na Europa. Rory não se apercebe que apenas pretende limpar a imagem de fraqueza com a vida modesta que levava quando saiu uns anos antes. Naquela altura para ele, apenas a progressão financeira sem limites conta desvalorizando a felicidade que tem e a estabilidade sentida por todos os membros da família. Naquela altura apenas o seu umbigo conta, embora ele ainda não saiba.

Mudam-se para uma propriedade rural no Surrey que Rory comprou, uma casa imponente mas sombria, quase uma velho castelo que transmite surpresas e mistérios das vidas passadas. Para aliciar a família comprou prendas extravagantes para todos. Para si guardou secretamente a possibilidade de provar que pertence a uma classe superior do que as pessoas pensavam dele quando saiu, sem discernir que a adaptação da sua família ao local e ao ambiente rural é penosa e está lentamente a provocar a sua desagregação e perda de sentido.

O que se segue é a queda ao abismo das emoções, muito bem construída por um argumento robusto escrito pelo realizador Sean Durkin que em cada cena, em cada gesto, em cada momento nos apresenta muitas coisas simultaneamente que correspondem a diferentes níveis de desestruturação duma relação que se desvanece em cada contacto.

Todos os personagens estão bem defendidos, mas destaco particularmente Allison (Carrie Coon) que sucessivamente se vai perdendo num devaneio privado e entre cigarros compulsivamente fumados, como no jantar de negócios em que deliberadamente se sente incapaz de suportar por mais tempo as bazófias do marido e o abandona à mesa, ou depois de sair do restaurante o seu auto aturdimento numa boite local entre dois vodkas e uma dança frenética pavoneando-se em círculos para reivindicar território e aliviar uma insustentável pressão que a asfixia. Rory (Jude Law) está igualmente bem num personagem entre o vitorioso e os destroços de um sonho, tem boa aparência e carisma para vender ideias e oportunidades, embora descuide os detalhes pela obsessão em se mostrar próspero, arrastando Allison e os filhos em apostas imprudentes em que só ele acredita.

Toda a história funciona num crescendo de ansiedade e no final tanto os personagens como o espectador já conhecem todo o figurino, permitindo que o desconforto se transforme num sentimento de aceitação do real. Nem a casa, nem a mudança, nem o ambiente são responsáveis pelos factos, apenas Rory tem de reconhecer e aceitar o seu falhanço para poder recuperar a sua vida. Os sinais de alerta estiveram visíveis para todos, somente Rory não os viu, ou pior, negligenciou-os, Nós entendemos isso e esperamos que Rory também o entenda. Muito interessante, bem conseguido, não se dá pela passagem de 107 minutos, recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

 

30 de setembro de 2020

Opinião – “O Sal das Lágrimas” de Philippe Garrel

Sinopse

As primeiras conquistas de um jovem e a paixão que tem pelo pai. Esta é a história de um jovem da província, Luc, que vai a Paris para se candidatar à Escola Boulle. Na rua, encontra Djemila, com quem vive uma aventura. De regresso a casa do pai, reencontra uma ex-namorada, Geneviève, enquanto Djemila alimenta a esperança de o rever. Quando recebe a notícia da entrada na Escola Boulle, vai para Paris e abandona a namorada que está grávida…

Opinião por Artur Neves

Philippe Garrel é sempre igual a si próprio. Atualmente com 71 anos ele continua a divertir-se em arranjar uma narrativa sobre os factos que apresenta numa história de amor cheia de percalços, que pode ser uma história que conheçamos pessoalmente, ou por interpostas pessoas, e deixa ao espectador a responsabilidade de a mastigar, digerir e julgar de acordo a sua experiencia de vida e as suas convicções, sem interferir com a sua visão pessoal que usa apenas para mostrar como as coisas se passaram. É isto o cinema de Philippe Garrel.

A preto e branco como é hábito, Garrel conta-nos uma história de juventude, de aprendizagem da vida de um rapaz Luc (Logann Antuofermo) criado na província e com educação limitada, que ama o pai, (André Wilms) marceneiro, por quem ele nutre forte amor filial e devoção pela sua entrega a uma arte que ele pretende seguir, depois de adquirir formação complementar em Paris, na Escola de Artes e Ofícios Boulle, onde ele se candidata como aluno.

Na grande cidade, que vai implicar uma grande transformação na sua vida para fazer o exame de admissão, ele confronta-se com o despertar do amor com Djemila (Oulaya Amamra) num namoro de juventude limitado pela exiguidade de tempo em que estão juntos e pela recusa dela ao primeiro encontro a sós. Depois do exame, volta a casa de seu pai e durante a realização de um trabalho num cliente encontra uma amiga de infância Geneviève (Louise Chevillotte) com quem enceta um namoro e uma relação de vida com propósitos de futuro, todavia abandona-a logo que recebe a confirmação de admissão na Escola Boulle, num ato chauvinista e arrogante de independência masculina, por não estar disposto a lidar com o futuro filho que vem a caminho.

Em Paris, com os novos amigos descobre o amor apaixonando-se por Betsy (Souheila Yacoub) que lhe sugere uma relação triangular com um anterior relacionamento, Paco (Martin Mesnier) que ainda mantém e que ele aceita numa coabitação temporária por tempo indeterminado. Luc e Betsy declaram mutuamente o seu amor, enquanto ela salta de cama em cama no mesmo quarto e na mesma noite. Quando se precisa de privacidade uma gravata pendurada na porta pelo lado de fora avisa do facto. Ela é transparente com ambos e convive com amor pelos dois sem abandonar nenhum, numa relação aberta, franca e assumida pelos três, embora diferenciando a sua preferência mais consistente por Luc.

É assim que Garrel nos apresenta o amor em 2020 para pessoas heterossexuais, brancas e europeias que apenas existem para amar e ser amadas, sem implicações sociais dos seus atos, ou conflitos políticos ou económicos que os condicionem. Garrel não nos indica qualquer dos caminhos, apenas os apresenta, captando os atos e as pessoas numa apresentação trágico cómica, (dependente do ponto de vista) do estereótipo burguês, citadino, sobre o amor e seus possíveis triângulos, ora tradicionais, ora inovadores ligados aos nossos tempos.

Garrel não cuida de qualquer dos personagens que são tomados e largados tal como nos foram apresentados, exceto de Luc e do seu pai, ocupando este um papel centralizador na vida de Luc de que ele tenta libertar-se, mostrando um distanciamento em relação à sua contribuição para este imbróglio que cabe ao espectador deslindar qual o sentido a dar-lhe na sua imagética pessoal e privada. Pelo meu lado também não vou dar qualquer contributo, apenas que veja e despenda algum tempo a pensar num assunto que afinal é de todos.

Classificação: 5 numa escala de 10

 

29 de setembro de 2020

Opinião – “I am Woman – A voz da Mudança” de Unjoo Moon

Sinopse

1966. Helen Reddy (Tilda Cobham-Hervey) chega a Nova York com a filha de três anos, uma mala e 230 dólares. Tinham-lhe dito que ganhara um contrato de gravação, mas a editora destrói-lhe prontamente as esperanças, dizendo que não precisa de mais cantoras femininas e aconselhando-a a divertir-se em Nova Iorque, antes de regressar à Austrália.

Sem visto, Helen opta por ficar em Nova Iorque de qualquer maneira, para tentar lançar uma carreira de cantora. Mal conseguindo pagar as contas e sustentar a filha, trava amizade com a lendária jornalista de rock Lillian Roxon. Esta torna-se a sua melhor amiga e inspira-a a escrever e a cantar a icónica canção "I Am Woman". Revelando-se um Hino para o Movimento Feminista, a canção estimula toda uma geração de mulheres a lutar pela mudança.

Ainda em Nova Iorque, também conhece Jeff Wald (Evan Peters), um jovem aspirante a manager de talentos que virá a ser seu agente e marido. Jeff ajuda-a a chegar aos tops, mas é viciado em droga, o que acaba por tornar tóxica a relação entre eles. Presa num rodopio de fama e dependência de Jeff, que lhe gere a vida pessoal, Helen encontra forças para recuperar o controle da sua carreira e continuar a tentar concretizar os seus sonhos.

Opinião por Artur Neves

Parece estar na moda, filmes sobre a vida de figuras destacadas da música mundial, tais como “Judy” sobre Judy Garland interpretada por Renée Zellweger, Freddie Mercury em "Bohemian Rhapsody" representado por Rami Malek que nestas crónicas eu já discordei da escolha do ator, ou Elton John em "Rocketman" representado por Taron Egerton e desta vez temos Helen Reddy a ser homenageada neste “I am Woman” representada por Tilda Cobham-Hervey uma atriz australiana, tal como Helen que para lá da música se destacou como a autora de uma canção que foi adotada como hino da emancipação feminina nos Estados Unidos, funcionando assim como a recuperação de um icon quase esquecido (em Portugal não me lembro da citação do seu nome, talvez devido à política da época) mas perfeitamente justo considerando a influencia agregadora para o movimento feminista de segunda onda que começou nos USA em 1960, durou duas décadas e espalhou-se pelo mundo ocidental com o objetivo de estabelecer uma verdadeira igualdade de oportunidades entre homens e mulheres.

Nesse campo “I am Woman” distingue-se dos seus congéneres anteriormente citados, até porque a projeção mundial de Helen Reddy foi mais modesta como cantora, sendo a sua obra mais significativa construída por raiva contra o marido e os homens em geral, numa altura em que o vício da droga exibido por este, já causava sérios danos à relação do casal.

Tal como a sinopse amplamente descreve o estrelato de Helen deveu-se à sua persistência assente no grande espírito de sacrifício em compor e cantar canções doces e suaves em bares quase desertos, numa altura em que o mundo estava voltado para os Beatles, Rolling Stones e outros intérpretes masculinos de música mais moderna que a sua.

Para o bem e para o mal conheceu o seu marido Jeff Wald (Evan Peters), numa altura em que este também procurava o seu lugar no mundo, era empreendedor, amaram-se e constituíram uma dupla em que ela era o “show” e ele o “business” e lutaram contra as gravadoras que lhe davam prémios, chamavam-lhe de “querida” mas tratavam-na com desdém e negavam-lhe a tão desejada gravação que só Jeff Wald conseguiu. Aliás Wald era um lutador, não fosse o vício da cocaína que o traiu e acabou com seu o casamento com Helen, em 1975 a sua empresa de gestão de carreiras agenciou figuras como; Miles Davis, Marvin Gaye, Sylvester Stallone, Donna Summer e Mike Tyson, entre outros. Com os novos tempos a Sony comprou a empresa de Wald, embora ele tenha continuado ao leme até 1991.

Atualmente Helen Reddy tem 79 anos, sofre de Alzheimer e vive num lar rodeada de conforto, atenções e cuidados, mas a estreia do filme em 2019 e o seu visionamento motivou-lhe memórias que a fizeram exibir um sorriso que aos filhos e aos mais próximos lembraram o seu sorriso de sempre, muito embora sem ter articulado qualquer palavra referente à época.

A performance de Tilda Cobham-Hervey é consistente e agradável de ver, personificando uma Helen que não vacila nem se deixa abater contra as contrariedades da vida e da família, todavia o argumento não esclarece o que aconteceu à sua carreira para terminar tão completamente em 1983 e porque o seu legado é generalizadamente desconhecido do público de hoje, sendo constituído por músicas intemporais, em que “I am Woman” só identifica a estrela mas não conta a história da mulher. Interessante no género.

Classificação: 6 numa escala de 10

 

23 de setembro de 2020

Opinião – “Antebellum” de Christopher Renz, Gerard Bush


 Sinopse

"Antebellum" centra-se na personagem de Veronica (Janelle Monáe), doutorada em sociologia e autora de livros de sucesso sobre o tema da privação de direitos dos negros nos EUA, há muito inscrita de forma profunda no país.

Veronica deixa o marido, Nick, e a filha, Kennedi, para viajar até Nova Orleães, onde fará uma palestra. Na cidade do sul, as suas palavras recordam ao público que chegou a hora de os afroamericanos se fazerem ouvir. No entanto, Veronica ainda não percebeu que o mesmo destino que a escolheu para nos salvar do passado também a ligou a uma mulher escravizada dos tempos da Guerra Civil, Eden (também interpretada por Monáe), que trabalha num campo de algodão entre o calor sufocante enquanto o fantasma do conflito cresce ao redor dela e de outros que também sobrevivem em circunstâncias desumanas. Através do tempo e de diferentes mundos e eras, Eden e Veronica encontram-se em circunstâncias que alteram para sempre as suas vidas

Opinião por Artur Neves

Este filme apresenta-se como uma história mística envolvendo algum terror sobrenatural, mas deve mesmo ser classificado como filme de terror puro e duro, não pelo seu conteúdo, mas pela forma esdruxula como aborda os factos que quer contar.

Não é que os problemas sobre a descriminação racial que têm como expoente relevante a escravatura nos estados do sul dos Estados Unidos da América no final do século XIX, que deram origem à guerra da secessão entre 1861 e 1865, numa altura em que a morte de George Floyd acendeu inflamadamente as questões do racismo que não pertencem ao passado mas que continuam entre nós e na ordem do dia, e como tal não podem ser esquecidas, mas sim relativamente à forma como são apresentadas neste filme de cultura pop que mostra a raça negra como meros corpos em vestes esfarrapadas sem qualquer respeito pela sua identidade e por tudo o que a seguir se mostra.

O filme começa com as cenas tradicionais da escravização dos negros numa plantação sulista de algodão em que se destaca uma escrava, Eden (Janelle Monáe) perseguida por um sádico capitão sulista e capataz da fazenda, Captain Jasper (Jack Huston) que decreta a regra de absoluto silencio entre os escravos e captura Eden que havia tentado escapar. Ela é arrastada até uma cabana onde um general (Eric Lange) a marca selvaticamente com um ferro em brasa e lhe bate até a prostrar, numa cena que nos lembra a arrogância histórica de “12 Anos Escravo” e o conteúdo barato de pornografia com tortura, por cerca de 40 minutos.

Depois consuma-se o descalabro da história, toca um telemóvel e Eden, com o nome de Veronica, acorda em 2019, na sua cama com o seu envolvente marido, Nick (Marque Richardson) e a sua filha Kennedi (London Boyce) na sua casa de luxuoso conforto de classe média alta a preparar-se para viajar até New Orleans onde vai participar numa conferencia sobre o seu livro recentemente publicado.

Na receção do hotel mostram-nos o disfarçável desprezo da rececionista branca pela sua pessoa, bem como na indicação de uma mesa junto á cozinha no restaurante, por uma empregada, tentando mostrar que a condição de mulher negra na américa não mudou muito até agora mas sem qualquer análise nem nota crítica que fundamente ou sequer aponte o motivo da descriminação. Afinal ela não é uma negra qualquer e para os que se destacam a américa tem outro figurino de comportamento.

Ainda no hotel, com as suas amigas há uma cena de invasão no seu quarto por uma menina muito loura de brancura caucasiana e voz de mel (Jena Malone) que produz um diálogo incómodo de cariz premonitório mais assustador, mas que em nada resulta porque não tem consequências diretas. Ela e as amigas saem do hotel para passar uma noite divertida e viajam em carros diferentes. No carro onde ela viaja, encontra o Captain Jasper que a rapta e envia de volta a 160 anos antes, para a plantação de algodão, com a diferença de agora levar o telemóvel que lhe permite enviar a sua localização para o marido e para a filha apesar de continuar lutar com os seus captores e a fugir aos seus torcionários.

“Antebellum”, que no final do filme ficamos a saber que se trata de um parque temático sobre o período da escravatura nos USA (os americanos encaram os seus esqueletos de frente e não são como nós que ainda não decidimos criar um museu do Salazarismo) acaba por ser uma viagem imprópria à violência histórica contra os negros, considerando que não tem nada a acrescentar à realidade racista de parte do povo americano.

Não sei o que é que os seus realizadores tinham pensado para esta história, mas para mim é um fracasso artístico de duas pessoas com um objetivo que superava a sua capacidade de atingi-lo, considerando as falhas estéticas e narrativas que apresentam num mundo sem lógica e com personagens tão superficiais e parcos na sua missão. A história não tem sentido e para ver este filme é necessário assumir que se vai adquirir um modelo de não cinema.

Classificação: 2 numa escala de 10

22 de setembro de 2020

Opinião – “Sempre o Diabo” de António Campos

Sinopse

Em Knockemstiff, no Ohio e nas redondezas, estranhas personagens - um falso pregador (Robert Pattinson), um casal de assassinos em série (Jason Clarke e Riley Keough) e um xerife corrupto (Sebastian Stan) - convergem em torno do jovem Arvin Russell (Tom Holland) enquanto ele luta contra as forças do mal que o ameaçam a ele e à sua família. Passado entre o fim da Segunda Guerra Mundial e o início da guerra do Vietname, o filme do realizador António Campos, apresenta um cenário ao mesmo tempo horrendo e sedutor que opõe justos e corrompidos. Adaptado do romance de Donald Ray Pollock.

Opinião por Artur Neves

A história deste filme adaptada do romance de Donald Ray Pollock, de 2011, com o mesmo nome, que também faz de narrador da acção, mostra-nos a vida da américa rural depois da guerra com o Japão em 1957, da qual o pai do protagonista Willard Russell (Bill Skarsgård) nos há-de apresentar memórias aterradoras de uma vida implacável, ornamentada de crueldade e miséria que serve de base e formação do seu filho Arvin Russell (Tom Holland) que nunca se libertará do sacrifício do seu cão Jack morto pelo seu pai como moeda de troca para Deus lhe conceder a ressurreição da sua mãe Charlotte (Haley Bennett) vitimada por um cancro sem cura. Todavia como ela inevitavelmente morre, ele tira a sua própria vida pelo insucesso da sua esperança num Deus misericordioso, que imprime em Arvin a noção elementar de acção - consequência.

Muitos outros males provocados por um Diabo omnipresente vão-se seguir ao longo dos 138 minutos deste filme, numa ladainha de horrores que mostram o mal como um veneno infiltrado na vida de todos os personagens, veiculado por uma fé cega em que se baseia a prática da sua religião, seja por zelo piedoso ou por pura perversão ancorada na ignorância e na vida limitada dos seus praticantes.

O realizador de origem latino-americana, nascido em Nova Iorque e autor do argumento em parceria como seu irmão Paulo Campos, mostra-nos que o mal está em todo o lado e sobrevive em todas as comunidades, transportado por hospedeiros humanos, desde que estes se disponham a disseminá-lo sobre o manto diáfano da fé num Deus castrador e impositivo, desde que a sua vontade não seja obedecida em conformidade com os cânones sociais que os divulgam.

“Sempre o Diabo” (The Devil all the Time no original) compõe-se assim de um conjunto de pessoas horríveis, ligadas pela fé, fazendo coisas terríveis uns aos outros para provar que a raça humana é a única que espalha o mal em torno de si própria sem qualquer razão para lá da sua vontade e interesse. Não quero revelar os personagens criados no filme porque cada um apresenta uma especificidade da maldade que exibe, mas estão todos bem conseguidos, credíveis e recriam o modelo gótico da sociedade sulista dos USA, sem subtilezas e acompanhados nos seus atos por canções pop vintage generalizadamente inocentes que se tem tornado frequente nos trabalhos recentes de David Lynch e Quentin Tarantino como pano de fundo para a violência mostrada.

Cedo, percebemos que o principal tema do filme é a religião, qualquer religião que promova o fanatismo pelas suas premissas, em semelhança com o fanatismo clubista no sentido de quem não está por nós está contra nós. É a negação da equidade e da tolerância através da vida quotidiana de três famílias influenciadas pela devoção cega numa crença que influencia todos os personagens ficando condenados a repetir os erros dos seus antepassados, por muito que se afastem dessa linha de comportamento.

O argumento é bom, graças à obra que lhe está na origem e se a narração de Donald Ray Pollock está adequada ao que as imagens não podem transmitir, conferindo-lhe engenho narrativo na maior parte do tempo, outras situações há em que Pollock antecipa o que posteriormente se irá ver, lamentando-se aqui que o benefício literário da sua exposição se transforme num inconveniente, porque no campo audiovisual as imagens não precisam do anúncio da sua exposição.

Contas feitas este é um filme da Netflix ao nível de “O Irlandês” “A História de um Casamento” ou mesmo “Joker” embora com significativas diferenças de contexto para este. Bem construído, convincente e bem interpretado está disponível na plataforma desde 16 de Setembro. Recomendo sem reservas.

Classificação: 8 numa escala de 10

 

17 de setembro de 2020

Opinião – “Summerland” de Jessica Swale

Sinopse

Alice (Gemma Arterton) é uma mulher muito independente, que, no seu escritório em Summerland, investiga e desmascara mitos, recorrendo à ciência para refutar a existência da magia. Consumida pelo trabalho, mas também profundamente só, Alice vive atormentada por um caso amoroso que viveu.

Quando Frank (Lucas Bond), um irrequieto rapaz evacuado de Londres aquando de um ataque durante a II Guerra Mundial, lhe vai parar a casa e ela se vê obrigada a cuidar dele, a inocência e curiosidade deste acordam em Alice emoções que ela julgara estarem enterradas. Aceitando a milagrosa imprevisibilidade da vida, Alice descobre que as feridas podem ser curadas, que há segundas oportunidades, e que, talvez… a magia afinal exista. Uma paixão, uma amizade, um verão inesquecível: esta é a história de Summerland.

Opinião por Artur Neves

A história que temos aqui é bem curiosa, mesmo apesar de a partir de certa parte do argumento tudo seja desvendado, embora já subliminarmente esperemos esse desfecho. Alice Lamb (Gemma Arterton em mais um bom desempenho das caraterísticas humanas) é uma escritora reclusa na sua própria casa totalmente dedicada ao seu objetivo de procurar os factos por detrás dos mitos e do folclore populares, numa missão de desmontagem de crenças.

O local é a costa litoral do condado de Kent, com as suas arribas cortadas a pique sobre o atlântico norte, numa pequena vila em que os seus habitantes não compreendem a atividade de Alice e pensam nela como espia a soldo dos alemães e os mais jovens consideram-na bruxa. Na realidade o seu comportamento social é desbragado e rude, completamente desapiedado dos mais velhos e repulsiva para os mais novos.

O governo inglês tem receio dos bombardeamentos alemães sobre Londres e promove a deslocação dos mais jovens para a província, a cargo de casais que se voluntariem para os aceitar temporariamente enquanto dure a guerra, permitindo-lhe estudar e cumprir a escolaridade da forma mais normal possível. Mesmo sem se ter candidatado, calha a Alice a custódia de Frank (Lucas Bond) cujo pai é piloto da RAF e a mãe funcionária do ministério da defesa, não podendo afastar-se da capital.

Embora muito contrariada e sem esconder o seu desagrado Alice recebe Frank, com o qual, lentamente vai estabelecendo uma relação de amizade, de companheirismo para amenizar a sua solidão ao ponto de ter com ele conversas do seu foro íntimo como a pergunta que formula se ele acharia estranho o amor entre duas mulheres. Frank responde que desde que haja amor é sempre preferível a uma ligação entre um homem e uma mulher sem amor. Percebe-se a intenção no contexto da história mas constitui uma resposta improvável na década de 40, de um miúdo de 10 anos, mesmo sendo filho de uma casal nessa situação.

Através de fragmentos em flashback ficamos a saber que o desequilíbrio emocional de Alice decorre dela ter perdido há muito tempo a mulher que amou, Vera (Gugu Mbatha-Raw que igualmente defende muito bem o seu personagem). Os seus encontros entre as duas guerras são tão encantatórios e delicados como passageiros, pois Vera tem um desejo de realização tão grande como o seu amor por Alice, mas não abdica dele.

Escrito e realizado por Jessica Swale que se estreia aqui na sua primeira longa metragem (até agora só tinha realizado curtas e filmes para a TV) a história do filme é doce, bucólica, bem interpretada e convincente em todos os seus personagens, quer sejam principais ou secundários, decorrente do seu excelente elenco. Possui alguns twists de probabilidade duvidosa mas que se aceitam no contexto da história. Como filme em ambiente de guerra que se preza, tem de ter tragédia e dor, mas conduz-nos a um final gratificante, coerente e agradável, pese embora que depois de apresentadas todas as características rezingonas de Alice, a figura materna que nos é mostrada é relativamente improvável. Ainda assim, vê-se com agrado

Classificação: 6 numa escala de 10

 

15 de setembro de 2020

Opinião – “O Ano da Morte de Ricardo Reis” de João Botelho

Sinopse

O Ano da Morte de Ricardo Reis, é a adaptação para cinema, do romance homónimo de José Saramago. Entrelaçando os fios da ficção e da História, o escritor concebeu um encontro particular, entre o defunto Fernando Pessoa, o criador, com uma das suas criaturas, o heterónimo Ricardo Reis, regressado ao país ao fim de 16 anos de exílio no Brasil. 1936 é o ano de todos os perigos, do fascismo de Mussolini, do nazismo de Hitler, da terrível guerra civil espanhola e do Estado Novo de Salazar. Pessoa e Reis são dois lúcidos observadores da agonia de um tempo, tão similar ao que vivemos. Nessa relação intrometem-se duas mulheres, Lídia e Marcenda, as paixões carnais e impossíveis de Ricardo Reis.

Opinião por Artur Neves

Fernando Pessoa o nosso mais enigmático e ilustre poeta, ensaísta e escritor do princípio do século XX, defensor acérrimo da Língua Portuguesa construiu a sua obra através de vários heterónimos, em cada um dos quais ele abordava as questões da vida, do amor, da sociedade com linhas diferentes de pensamento como que de pessoas efetivamente diferentes se tratassem. Na realidade seriam mesmo diferentes e viveriam como que em universos paralelos, dentro da mesma pessoa, fingindo a sua independência parcial e ajudando-o assim a sobreviver à solidão depressiva do seu verdadeiro “eu”.

José Saramago, o nosso 2º prémio Nobel, pegou num dos heterónimos de Fernando Pessoa, que não tinha data de falecimento definida, Ricardo Reis e concebeu um encontro da criatura com o seu criador, para entabular conversas e debates sobre o mundo, o país, e os conceitos de vida, morte e amor num romance que pode ser encarado como sendo; Fernando Pessoa visto por José saramago.

Em boa verdade a ideia é brilhante, e o romance adaptado ao cinema por João Botelho segue rigorosamente este, segundo declaração do realizador, constituindo assim em 1984, data da publicação do romance, a visão que Fernando Pessoa teria da nossa época extrapolada das suas conversas ficcionadas consigo próprio em 1936, onde analisa os tempos conturbados da ascensão dos regimes autoritaristas que começavam a despontar por toda a Europa naquele ano. A atual estreia do filme também se justifica pela evolução da direita e da extrema direita a que temos assistido, um pouco por todo o lado, nesta mesma Europa.

A história para suportar este estranho encontro é o regresso do Brasil de Ricardo Reis (Chico Díaz) que fica hospedado no Hotel Bragança na Rua do Alecrim, inaugurado em 1924 por Mário Xara Brazil, investidor brasileiro na época, cujo hotel atualmente se denomina desde 2014 por “LX Boutique Hotel”. (A realidade dentro da ficção fantástica).

Nesse hotel Ricardo Reis, começa a receber a visita do seu criador Fernando Pessoa (Luís Lima Barreto) recentemente falecido, mas ainda dentro do tempo que ele atribuía ao tempo de memória dos familiares, amigos e conhecidos, nove meses, tal como o tempo de gestação de uma vida até ao nascimento. O personagem de Fernando Pessoa parece-nos estranho por não corresponder ao arquétipo que generalizadamente nos é apresentado em fotografias, magro, esquálido, silencioso e metido consigo. A explicação apresentada pelo realizador é que Pessoa, tendo efetivamente morrido aos 47 anos, apresentava um aspeto físico compatível com uma idade de 70 anos, donde a escolha deste ator.

Nesses encontros entre Pessoa e Ricardo Reis são então abordados os grandes temas da vida, (que no romance devem ter servido a Saramago para desenvolver pequenos ensaios literários), sobre a vida, a morte, o estado do país, a consolidação do regime de Salazar e a sua providência social com a criação da “Sopa dos Pobres”, o Estado Novo e a sua recém criada polícia política PVDE, que em tudo se intermete e intervém, bem como os grandes movimentos mundiais da época como o fascismo de Mussolini, o nazismo de Hitler e mais próximo de nós, o início da guerra civil espanhola.

O amor também é abordado nas conversas, onde Pessoa elogia e inquire as caraterísticas românticas de Ricardo Reis com Lídia (Catarina Wallenstein) a criada de quarto que se apaixona pelo Dr. Ricardo e que constitui o seu amor carnal com quem se relaciona sexualmente e Marcenda (Victoria Guerra) uma filha de família que todos os meses fica com o pai no hotel para comparecer a uma consulta médica que não traz melhoras para o seu mal, mas que o contacto com Ricardo Reis e o amor platónico desenvolvido entre ambos lhe confere uma noção de maioridade negada no seio familiar.

O filme foi rodado a preto e branco para enfatizar o contraste entre o claro e escuro dos ambientes onde os personagens se movem com diferentes preocupações, embora para mim isso constitua apenas uma desculpa. É igualmente possível criar os mesmos ambientes a cores, bem como as mudanças de cena, que são executadas com o fecho progressivo da iris do obturador, como se fazia no cinema mudo. Todavia, estas idiossincrasias do realizador não interferem na história, que apesar de um certo desligamento entre cenas, tão característico do cinema português, constitui um bom espetáculo e merece ser visto durante todos os seus 130 minutos. É uma oportunidade para ver chover a sério em Portugal. Recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10