8 de setembro de 2017

Opinião – (MOTEL/X) – “The Untamed” de Amat Escalante


Sinopse

Uma jovem dona de casa vive com dois filhos e o marido numa pequena cidade mexicana onde também vice o seu irmão. As vidas provinciais deles são perturbadas pela chegada de uma misteriosa mulher que lhes fala da existência de uma cabana isolada nos bosques, onde se encontra algo misterioso com propriedades milagrosas. Algo a que não se consegue resistir e com o qual se deve estabelecer a paz para evitar ser-se vítima da sua ira.

Opinião por Artur Neves

Não basta a exibição de cenas que nos remetem para temas fraturantes, tais como; sexo explícito hétero e homossexual, maus tratos domésticos, pobreza de meios, crianças ao abandono e… a cereja em cima do bolo; fantasias languidas com entidades extraterrestres multípedes que habitam uma casa na floresta e em que o seu contacto transmite paz e felicidade e nos liberta de todas as tensões espirituais, que corporiza por si só um filme, de terror??? ou de outro género qualquer.
Para que surja uma história com sentido é fundamental a existência de coerência e de ligação definida entre todos os elementos mostrados, com a particularidade de deverem ser os atos a antecipar-se às ações e às decisões e não o contrário (exceto no caso de recurso a flashback o que não acontece) como neste filme de Amat Escaldante, realizador mexicano vencedor do Leão de Prata no último Festival de Veneza, mas que não pode ter sido com este filme.
Muitas cenas não apresentam sequência coerente, alguns atos são mostrados desinseridos do contexto e sem motivo que previamente os justifique, são simplesmente colados em sequência na história, outros por seu lado, são pura e simplesmente revelados sem que nada indicie a sua ocorrência ou que, aquela revelação seja importante. Para mim significou um projeto falhado, onde apenas ressalta o grotesco de algumas cenas, mas que não eram precisos 100 minutos para dizer só isto.

Classificação: 0 numa escala de 10

7 de setembro de 2017

Opinião – (MOTEL/X) – “Kaleidoscope” de Rupert Jones


Sinopse

Um ano após ter saído da prisão, Carl Woods (Toby Jones) de meia-idade, conseguiu adaptar-se ao mundo exterior. Encontrou emprego e um apartamento e aventura-se agora na sua primeira saída noturna com uma mulher em mais de 50 anos. Este evento coincide com o reaparecimento da sua mãe ausente e com as tentativas dela no sentido de apaziguar as diferenças que tão violentamente os afastaram. Enquanto Carl tenta suportar as influências nefastas do seu passado, sente-se cada vez mais atraído pelos pensamentos negros do seu vórtice psicológico.

Opinião por Artur Neves

Em primeiro lugar esclareço que um caleidoscópio é um instrumento ótico que opera segundo o princípio da reflexão múltipla, em que, duas ou mais superfícies refletoras inclinadas formando ângulos agudos entre si e fechadas no interior de um tubo, em que numa extremidade existe um dispositivo rotativo que suporta vidros coloridos transparentes. Na extremidade oposta é possível olhar para o seu interior e observar-se a geração de imagens múltiplas com um padrão regular mas em constante mudança.
Tal como os padrões mutáveis do caleidoscópio, assim observamos o comportamento de um homem perturbado por uma educação deformada de uma mãe austera e de um pai fraco que tal como ele, foi toda a vida dominado pelo seu despotismo da sua vontade determinística.
Rupert Jones, irmão do ator principal deste filme, Toby Jones, tem experiencia em série televisivas e curtas-metragens tendo-se agora lançado em obras mais arrojadas das quais este filme é um bom exemplo da sua capacidade de realização. Com significativas influências do mestre Hitchcock, mas também de Roman Polansky em “O Inquilino” de 1976, Rupert Jones constrói aqui uma personagem perturbada pelas suas obsessões, falhanços de vida, embora reconhecidos e já expiados e o fracasso como pessoa, em especial no que toca aos relacionamentos com as mulheres como uma projeção do profundo ódio que nutre pela mãe.
O personagem construído por Toby Jones e da sua personalidade paranoica, embora obstinada, em torno da qual todo o filme se desenvolve é consistente e credível, nos pormenores das suas manias, nos seus sonhos sempre perturbados, nas suas ações erráticas e precipitadas, na relação com a mãe sempre conflituosa, na relação com uma companhia de ocasião que traz para casa sem todavia conseguir consumar os seu desígnios por desconfiança e por projeção do ódio pela mãe que lhe condicionou toda a vida num caleidoscópio de emoções constantemente mutáveis e diferentes tal como as cores e os padrões observados através do caleidoscópio que o pai lhe oferecera em criança.
Sem se poder considerar um filme de terror típico, “Kalaidoscope” consegue criar uma atmosfera de tensão crescente que nos agarra á ação e às vicissitudes daquele ser que sentimos consumir-se no fogo agitado da sua personalidade perturbada. Recomendo

Classificação: 8 numa escala de 10

Opinião – (MOTEL/X) – “The Bar” de Alex de la Iglesia


Sinopse

Nove horas da manhã, algumas pessoas tomam o pequeno-almoço num café no centro de Madrid. Uma delas, um homem, está com pressa. Ao sair para a rua, um tiro atinge-o inesperadamente. Ninguém se atreve a ajudá-lo. Presos dentro do café, todos se apercebem rapidamente de que nem deles próprios estão a salvo…

Opinião por Artur Neves

Este filme reúne um conjunto harmonioso de comédia negra, crítica social e thriller psicológico numa história que se desenvolve entre desconhecidos, mas que ao serem forçados a coabitar um mesmo espaço contra sua vontade, lhes faz perder as regras da convivência cerimoniosa que se pratica entre estranhos conduzindo-os numa espiral de desespero à mais completa desumanidade ente seres da mesma espécie.
Os factos que presenciaram causam-lhes estupefação, medo e insegurança. Nenhum dos presentes consegue interpretar com realismo e verdade a razão do que aconteceu, e de todas as hipóteses colocadas aleatoriamente geram-se modelos de comportamento que são imputáveis à vez, a uns, e aos outros quando as evidências ilibam os primeiros, ou quando a falência dos argumentos faz perder o fio da conversa em curso e partem para outras lucubrações tão impróprias como as primeiras.
Todos os diálogos estão impregnados do egoísmo que pauta as relações humanas numa demonstração crítica das convenções sociais, somente válidas quando beneficiam os “meus” interesses, desmitificando a naturalidade do respeito mútuo, da entreajuda generosa, e até do amor que parece florescer, embora timidamente, entre dois elementos deste microcosmos social, confinado á exiguidade do espaço do bar, que todavia se vem a revelar mais extenso do que inicialmente aparentava.
Alex de la Iglesia já possui créditos firmados no género no qual “O Dia da Besta” de 1995 constitui uma referência do autor e do seu argumentista de eleição; Jorge Guerricaechevarria, companheiro de vários projetos com igual sucesso.
“El Bar”, na versão Hispânica, constitui assim um documento valioso que ilustra a condição humana conflituosa e desconfiada quando os elementos se conjugam para alterar o que acreditamos, ou que pensamos que acreditamos, numa toada de diálogos cínicos embora reveladores das verdadeiras emoções que os inspiram, conduzindo-nos numa espiral de degradação que provocará ao espetador um sorriso amarelado, tão amarelado quanto reconheça na sua vida corrente uma aproximação, ainda que remota e diferenciada, às motivações dos personagens. Bom espetáculo, recomendo somente nessa condição…

Classificação: 7 numa escala de 10

6 de setembro de 2017

Opinião – (MOTEL/X) – “Super Dark Times” de Kevin Philips


Sinopse

Início da década de 90, num subúrbio dos USA, Zach e Josh, estudantes de liceu são os melhores amigos há muito tempo. Os dois partilham vários interesses incluindo a atração pela mesma colega Allison. No decorrer do que parecia ser um dia normal com os amigos, um trágico e sangrento acidente irá criar uma clivagem entre os anteriormente inseparáveis adolescentes.

Opinião por Artur Neves

Esta á a primeira longa-metragem deste realizador americano, autor de diversas curtas-metragens premiadas em diversos festivais na Europa e que com esta história entra no grande cinema dramático com uma realização auspiciosa para futuros empreendimentos que será justo esperar.
Aos amigos mencionados na sinopse, juntam-se mais dois, sendo sobre um deles que cai a tragédia perpetrada por Josh, num acidente dramaticamente infeliz, e que vai marcar para a vida todos os intervenientes, agora inevitavelmente cúmplices, bem como todos os que os cercam e que com eles partilham a vida quotidiana.
Uma determinada ação não afeta igualmente todos os que nela intervêm, mas sim de acordo com as suas sensibilidades, medos, e características pessoais. É pois da análise dessas diferenças que trata esta história, passada em ambiente urbano do interior dos USA, onde as convenções sociais, aliadas às vicissitudes de crescimento e aos seus naturais excessos de contestação e de sede de novas experiencias inerentes ao crescimento e à formação da personalidade, geram conflitos e desequilíbrios internos difíceis de gerir.
Para uns basta a assunção da culpa, para outros a pura negação do ocorrido e para outros mais sensíveis e responsáveis não podem viver com o remorso e tentam pelo menos, compreender as razões da culpa e as suas consequências, pelo que precisam comunicar.
O filme é totalmente realizado por atores estreantes, jovens, mas profundamente empenhados nos seus personagens transmitindo-lhes a densidade das suas preocupações, ou da sua ausência o que cria uma atmosfera, de relações controversas, dúbias, vistas com preocupação pelos adultos que os cercam, mas muito mais dolorosas para eles próprios e para as relações que despontam. Toda a linguagem utilizada é fortemente impregnada por uma sexualidade em evolução própria da época.
A história desenrola-se criando um ambiente de preocupação crescente que nos convence e arrasta. O realizador usa metáforas e sonhos para nos exprimir os pensamentos secretos dos personagens. A representação está bem defendida pelos atores escolhidos e pelas suas ações que nos transmitem as suas fraquezas e desesperos. Todo o filme está bem urdido e constitui um espetáculo agradável embora tenso e cheio de inquietação.

Classificação: 6,5 numa escala de 10

31 de agosto de 2017

Opinião – “O Guarda-costas e o Assassino” de Patrick Hughes


Sinopse

O maior assassino profissional do mundo decidiu sair da sombra e testemunhar contra o seu antigo patrão no Tribunal Internacional de Justiça em Haia. No entanto, este não foi um patrão qualquer, mas sim um corrupto e mortífero ex-Presidente de um país de Leste, que tem ao seu dispor um enorme exército de mercenários capazes de tudo para impedir que a testemunha apareça no julgamento. Para se defender, este ex-assassino contrata o mais famoso guarda-costas do mundo, e juntos terão de pôr de lado as suas diferenças e cooperar para conseguirem chegar a tempo ao julgamento.

Opinião por Artur Neves

Eis aqui um verdadeiro filme de verão com aventura, ação, comédia e claro está; amor de uma forma muito especial, tanto da parte do “assassino” como do “guarda-costas”, este mais tímido e contido em todas as suas titubeantes declarações ou em manifestações de carinho com a sua colega, por quem nutre uma saudável competição dos tempos em que ambos pertenciam ao mesmo departamento. Todavia ela não o esqueceu e é por sua intervenção que ele tem o ensejo de redenção e readmissão na organização de que tinha sido expulso.
A ação desenrola-se através das cidades europeias na viagem que o assassino tem de fazer entre Londres e Haia, para estar presente como testemunha de acusação de Vladislav Dukhovic (Gary Oldman) o tirano déspota que pretende dominar o mundo começando pelo seu país. As cenas de ação são muito bem conseguidas e variadas, tanto de automóvel, como de barco, mota e até a pé pelas ruas estreitas de Amsterdão velha onde nada pára no mesmo lugar depois da sua passagem.
Durante todo este caminho aparecem as oportunidades para a comédia em diálogos bem conseguidos de filosofia barata e de conselhos de amor entre o amante experiente (Samuel L. Jackson) e o jovem apaixonado (Ryan Reynolds) que não sabe como lidar com os seus sentimentos, criando-se cenas bem caricatas entre duas pessoas que não sabiam estar tão ligados entre si em anteriores eventos das suas vidas.
O verdadeiro amor canalha e apaixonado é demonstrado na relação entre Kincaid (Samuel L. Jackson) e Sónia Kincaid (Salma Hayek) cubana quente e apaixonada à primeira vista pelos dotes lutadores de Kincaid que a seduz para a vida ao primeiro encontro num bar repleto de perigos e de álcool. As suas manifestações de amor, mesmo separados pelas respetivas prisões onde se encontram, não são obstáculo suficiente para suspiros inflamados e manifestações de amor eterno.
Toda esta multifacetada história desenvolve-se numa dinâmica estonteante que nos arrasta em tempo de férias para a fantasia e o abandono das preocupações do tempo de trabalho. A história está bem estruturada, impossível qb, sem tempos mortos, com animação e intriga suficientes para podermos apreciar a dupla ligação perpetrada pelo Joaquim de Almeida, agente da CIA e colaborante dos vilões. Bom filme, distração garantida, recomendo.

Classificação: 6 numa escala de 10

23 de agosto de 2017

Opinião – “Índice Médio de Felicidade” de Joaquim Leitão

Sinopse

2012, Portugal entrou em colapso e Daniel, como milhares de Portugueses, perdeu o emprego e deixou de poder pagar a prestação da casa. A mulher foi-se embora para a aldeia natal e levou os dois filhos com ela. Os seus dois melhores amigos encontram-se ausentes, Almodôvar foi preso quando, desesperado, procurava encontrar uma solução e Xavier está fechado em casa, profundamente deprimido porque o site que os dois criaram para as pessoas se entre ajudarem foi um absoluto fracasso. Mesmo assim Daniel não desiste de ter esperança…

Opinião por Artur Neves

Na sua essência o “Índice médio de Felicidade” é um conceito psicológico que pretende quantificar o grau de satisfação de cada individuo, consigo próprio e com a vida que leva, apreciando-o com nove parâmetros diferentes que vão variando em função da idade, formação, local de residência, estrato social e outras variáveis de estado, que não podem ser resumidas num número, como este filme nos apresenta, atribuído aleatoriamente por cada indivíduo, quase porque sim.
Todavia, deixando de parte esse “pormenor”, o filme baseia-se na história recente da crise monetária mundial e dos seus efeitos em Portugal, apresentada em forma de narração pelo protagonista da sua desdita, da infelicidade em ter de se separar da mulher e dos filhos, procurar desesperadamente emprego para tentar salvar a casa, da qual já deve algumas prestações e obstinadamente tentar seguir um plano que ele próprio já verificou ter falhado. Tudo á sua volta desaba mas ele segue a esperança vã de obtenção do sucesso á custa da continuação do seu plano estabelecido noutro contexto e noutro tempo.
No entanto a história é consistente, apresenta-nos personagens com quem nos poderemos cruzar na rua e inferir pela sua aparência o seu grau de disfunção social, mercê de uma direção de atores regrada e inteligente. Cada personagem está bem caracterizada e entregue a um ator que a trabalhou com competência. Porém a ideia geral da história é simples o que faz com que o filme se estenda para lá do razoável com cenas óbvias que funcionariam igualmente bem induzindo esse pensamento no espetador em vez de o mostrar, como para nos indicar que também o sabemos fazer.
O pedido de ajuda no site funciona assim como o switch de inovação, que baralha os dados tão porfiadamente estabelecidos até aqui e com alguma resistência surge a ideia da viagem para ajudar o próximo, uma entidade totalmente desconhecida, que funciona como motivo de abandono a todo o sofrimento vivido até então, como redenção para toda uma vida de falhanço e da “noite fez-se dia” e alegria, porque ajudar todos os que têm dificuldades é o nosso destino e a nossa missão nesta terra.
Bem… toda aquela euforia soa mais a falso do que a obstinada persecução de um esquema repetidamente falhado. A alegria estampada em todos os rostos, outrora fechados e amorfos, excede largamente toda a tristeza e desespero dos primeiros tempos e isso, surgido assim como um piscar de olhos “cheira-nos a esturro”, ou seja… os gajos passaram-se mesmo da marmita. No seu todo a história comove e diverte, embora me tenha perguntado várias vezes onde é que eles teriam carregado os smartphones, o tablet e o portátil ao longo de toda esta dramática história.

Classificação: 5 numa escala de 10

2 de agosto de 2017

Opinião – “Pedras Sombrias” de Eric D. Howell


Sinopse

Uma jovem e determinada enfermeira chega aos portões de um isolado castelo na Toscana, da década de 1950, para ajudar o herdeiro mudo que aí habita. A missão de Verena (Emilia Clarke, A Guerra dos Tronos, Exterminador: Genisys, Viver Depois de Ti) é trazer de volta ao mundo o silencioso menino Jakob. Mas, ao fazê-lo, vê-se cada vez mais envolvida nos segredos escondidos no castelo.

Opinião por Artur Neves

Normalmente os bons filmes começam por ter sido bons romances bem adaptados á linguagem cinematográfica. Ora o contrário também é verdadeiro, que é que se pode esperar de um romance de sala de espera de dentista, (romance Italiano: “La Voce della Pietra” escrito por Silvio Raffo) realizado por Eric Dennis Howell, cuja principal experiencia nesta área é a coordenação de duplos em diversos filmes e que agora decidiu lançar-se na realização.
A história baseia-se num convite a uma enfermeira especializada em casos de autismo, para se instalar numa velha mansão na Toscânia e iniciar o tratamento de um rapaz que se remete ao mais completo silencio após a morte de sua mãe. O convite é feito pelo pai, escultor de profissão que vive na casa com alguns fiéis criados. Vimos a saber depois que o filho se “comunica” com a mãe através das paredes da mansão e temos aqui a história toda.
A atris de serviço, Emilia Clarke (da qual já falei na crítica de “Viver depois de Ti”) não mudou nada ao que anteriormente lhe identifiquei; expressões faciais algo desconexas com a ação, maneirismos vários e desta feita a novidade de um arremedo de paixão fatal encenado no mais ridículo que se possa imaginar, sem razão, contexto ou sentido e apenas para encontrar um tema que se distinga do resumo anteriormente citado, para justificar esta pastelada história.
Plano após plano a mensagem é sempre a mesma, o miúdo silencioso a escutar às paredes, a enfermeira que o pretende tratar, o pai simulando preocupação num um ambiente gótico, sempre escuro para criar drama que não aparece, uma narrativa sempre constante, destinada a protelar o desfecho pífio que se vem a verificar, uns fantasmas ordeiros que nem disso merecem ser chamados porque não conseguem criar o ambiente místico anunciado através da narrativa. Lenta e custosamente a ação vai-se desenvolvendo sem novidade acrescida em cada novo plano, através dos mesmos diálogos entre personagens monodimensionais que se arrastam numa serie de clichés formais, sugerindo uma sobrenaturalidade material, esvaziada de conteúdo ou de espessura.
O final é mesmo a pior parte evocando a transmigração das almas entre mãe e filho como justificação para o seu mutismo eivado de misticismo, revela a sua natureza previsível, já indiciada durante toda a projeção, frustrante e maçuda de uma peça sentimentalona que nem consegue um desfecho coerente e digno desse nome. Um desastre.

Classificação: 2,5 numa escala de 10

29 de julho de 2017

Opinião – “Baby Driver – Alta Velocidade” de Edgar Wright


Sinopse

Baby, um jovem e talentoso condutor, especialista de fugas em assaltos (Ansel Elgort), confia na batida da sua banda sonora pessoal para ser o melhor.
Quando encontra a miúda dos seus sonhos (Lily James), Baby vê nela a oportunidade de deixar para trás a sua vida de crime e sair de forma airosa desse universo.
Mo entanto, ao ver-se coagido para trabalhar para um chefe do crime (Kevin Spacey) e quando um golpe mal sucedido ameaça a sua vida, o seu romance e a sua liberdade, ele terá de optar pela música certa…

Opinião por Artur Neves

Esta história é uma lufada de ar fresco aos argumentos tradicionais de gangs de assaltos a bancos e embora contendo todos os elementos de violência, dureza e crime do género apresenta-nos os factos sob o manto diáfano da juventude, ligeireza e esperança no futuro, do motorista de fuga dos assaltos, o tal “Baby” do título, interpretado por Ansel Elgort que consegue um desempenho simpático, presumindo que o hard work a que o papel obriga é conseguido pelos muitos duplos referidos no genérico do filme.
Outra nota de diferenciação da história é a caraterística deste “motorista” cometer as maiores proezas e viver constantemente de auriculares colocados nos ouvidos, numa clara referência ao emergente “personal áudio”, através de todos os elementos capazes de processar música em formato digital, todavia ele vai mais longe, considerando que compõe e arranja, peças musicais sugeridas pelos ruídos do ambiente que o cerca no seu dia-a-dia de corridas de carro em fuga pela cidade.
Toda a história é construída em torno do crime e da sua postura naïf de jovem em crescimento, cuidador do pai adotivo e apaixonado fulminantemente pela empregada do snake-bar que o encantou ao som de palavras livremente trauteadas durante um fortuito primeiro encontro. Toda a música ocupa um lugar significativo na história, nos assaltos e serve como pano de fundo redentor para uma atividade que cedo nos parece que não pode acabar bem.
A ação mostrada em todo o filme está bem estruturada, credível e realista, com cenas de condução em cidade perfeitamente excecionais, considerando que a realidade que o cinema nos permite visionar, é uma realidade aumentada que constitui precisamente o seu papel na nossa vida, servindo para nos emocionar, divertir e fazer pensar nas diferentes nuances que o argumento nos apresenta para inferirmos como seria se de facto aqueles eventos se verificassem.
Edgar Wright realizador e argumentista desta história, Inglês de nascimento já com provas dadas no meio e no género consegue transmitir-nos a emoção dos assaltos e a inocência do amor emergente, o calculismo do “patrão”, interpretado por um Kevin Spacey, pesado e autoritário e a loucura submissa dos desvalidos da vida que os praticam, a compaixão pelos fracos e a sempre necessária esperança no futuro e na vida que nos espera depois de ultrapassado o presente que nos desagrada.
Este filme tem qualidade, é sério e divertido em simultâneo, recomendo

Classificação: 8 numa escala de 10

28 de julho de 2017

Opinião – “Assalto ao Shopping” de Alain Desrochers


Sinopse

Tudo o que Eddie Deacon queria era um emprego calmo que não desse chatices. Qualquer emprego servia. Mas ele escolheu o lugar errado e o dia errado.
Um segurança desarmado que trabalha no turno da noite num centro comercial arrisca tudo para proteger uma jovem inocente de um gang perigoso disposto a tudo para a impedir de testemunhar contra o seu chefe sociopata.

Opinião por Artur Neves

Lembram-se do “Assalto ao Arranha-céus” de 1988 com Bruce Willis ainda com cabelo, embora com umas grandes entradas que indiciavam a grande “bola de bilhar” que constitui hoje a sua cabeça?... pois bem a história que atualmente nos é contada tem muitas semelhanças. A grande diferença reside na ingenuidade com que a primeira nos foi contada na época, a lisura escorreita de toda a aventura onde transpirava um espírito naïf de justiça óbvia e sem mácula que não levantava qualquer dúvida entre os “bons” e os “maus”, nem sobre os seus métodos.
Nesta história o ambiente é mais sórdido em que nos é mostrada um noite de horror e de medo num shopping guardado por seguranças contratados, pessoas normais, donde sobressai o “herói” que vai resolver toda a situação. Mostra-nos também como vale tudo, como com os conhecimentos certos é possível fazer bombas com os materiais correntes do quotidiano comum, recordando-nos a herança deixada pelas atividades terroristas e mostrando-nos com toda a vida é agora mais perigosa.
António Banderas é o herói de guerra, desempregado, perturbado pelas vicissitudes da vida mas que vai ser o obreiro do plano de defesa da jovem testemunha, não tão inocente assim, contra uma “cavalaria” de vilões que a querem matar, capitaneados pelo inefável chefe interpretado por “Ben Kingsley” num papel ao seu nível e que lhe assenta bem, entre o déspota louco e o “Joker” de Batman, sem qualquer piedade nem contemplações mesmo para os seus próprios acólitos, desde que não cumpram na perfeição as suas ordens.
Outra mensagem que transparece é a fragilidade da tecnologia atual, que apesar de estar em consecutiva evolução não se liberta das suas imperfeições de génese que permitem a sua fácil inoperacionalidade nas situações em que seria mais necessária, bem como a vulgaridade com que é utilizada em brinquedos e dispositivos menores para nos servirem de forma adaptada.
Em toda a história perpassa um clima de ação, bem desenvolvido e trabalhado por Alain Desrochers, nascido e criado em França mas revelado nesta profissão nos USA em filmes de ação e outros, com carreira na televisão e que nos mostra de maneira clara como o terror pode ter diferentes construções e diferentes agentes desde que bem guiados por uma história de ficção embora consistente. O filme constitui portanto um espetáculo de diversão e de emoção que se vê com agrado.

Classificação: 5 numa escala de 10

21 de julho de 2017

Opinião – “Olha que Duas” de Jonathan Levine


Sinopse

Depois do namorado a deixar em vésperas de umas férias exóticas, a impetuosa e sonhadora Emily Middleton (Amy Schumer) convence a sua conservadora mãe, linda (Goldie Hawn) a viajar com ela para o paraíso.
Polos opostos, Emily e Linda percebem que trabalhar suas diferenças como mãe e filha – de forma imprevisível e hilariante – é a única maneira de escapar à selvagem aventura em que caíram.
Amy Schumer e Goldie Hawn protagonizam a hilariante comédia “Olha que Duas”, que também conta com Ike Barinholtz (“Neighbours”), Wanda Sykes (“Bad Moms”) e Joan Cusack (“Working Girl”).

Opinião por Artur Neves

Jonathan Levine deve ter apostado em ser engraçado a toda a força e como tal apresenta-nos esta história, no seguimento de outras do mesmo estilo, “Sangue Quente”, “A Ultima Noitada” e “Á Deriva” embora, claro, com argumentos diferentes, que quanto a mim têm desacreditado o estilo de comédia que tanta falta faz ao cinema e a outras áreas de entretenimento considerando ser o “tempero”, a “sobremesa” que nos permite desanuviar as complicações da vida… e se ela é complicada!...
Goldie Hawn tem muito boas interpretações de comédia na sua já longa carreira, em histórias de ficção bem estruturadas, “A Morte Fica-vos tão Bem” em 1992 e “O Clube das Divorciadas” de 1996, para citar somente dois exemplos, mas não é o facto da sua comprovada experiência nesse tema que faz que um argumento de fluidez forçada se comporte como uma comédia. Por outro lado, quando se utiliza um sequestro de turistas num potencial paraíso da américa latina, o riso daí resultante não depende somente da parvoíce demente dos seus perpetradores, do irmão e filho das raptadas, nem na inépcia das autoridades locais. A inspiração para o riso tem de surgir de referências muito mais profundas e inteligentes que transformem aquele potencial drama, numa coisa ligeira que nos divirta.
De Amy Schumer apenas refiro que a linguagem vernácula nem sempre assenta bem em todos os rostos para o que é preciso mais do que bochechas descaídas e expressão de jovem púbere em transição, figura para a qual o seu corpo não contribui. Os raptores feiosos, não são por serem feios e ineptos que fazem rir, devia ser por não conseguirem os seus intentos apesar de terem estruturado bem o golpe. Mas não, é tudo muito pobre.
Tudo o resto compõe as características anteriormente descritas de uma história mal-amanhada, filmada demasiado em planos escuros para o estilo e dinâmica que se pretende imprimir à ação de caça, rapto, fuga, confrontação com os captores e com um epílogo que não merece tempo suficiente para ser digerido.

Classificação: 3,5 numa escala de 10

8 de julho de 2017

Opinião – “Planeta dos Macacos: A Guerra” de Matt Reeves


Sinopse

Em Guerra, no terceiro capítulo do aclamado blockbuster, César e os seus companheiros são forçados a um conflito mortal com um exército de seres humanos liderados por um Coronal implacável. Depois de sofrer perdas inimagináveis, César luta com seus instintos mais obscuros entra numa missão para vingar a sua espécie. À medida que a viagem chega ao fim, César e o Coronel confrontam-se numa batalha épica que determinará o destino de suas espécies e do futuro planeta.

Opinião por Artur Neves

Esta saga do Planeta dos Macacos, em que pelos mais variados motivos os símios disputam a supremacia sobre os humanos, teve o seu início em 1968 e continuação em 1970; 1971 e 1973 com macacos educadinhos e humanos esfarrapados após um apocalipse na terra. Em 2001 voltou-se ao tema num “episódio único” com macacos e homens na sua forma comum disputando a supremacia de uma raça sobre a outra num ambiente de apocalipse. Em 2011 refundou-se o conceito e começou a saga atual, continuada em 2014 e neste filme de 2017, com o mesmo assunto resultante de um erro científico dos humanos que deu origem ao desenvolvimento de uma inteligência anómala nos símios que os levou a lutarem pelos seus direitos.
Matt Reeves, nascido em 1966 nos USA, foi o escritor, realizador e produtor desta história que continua o também seu argumento do filme de 2014, dando particular destaque a César (Andy Serkis) um símio sobredotado em inteligência e nobreza que se transforma em condutor do seu povo na luta insana com os humanos que os querem fazer escravos, além de lutarem entre si numa guerra fratricida que os levará à aniquilação total.
A história, embora seguindo um argumento já conhecido, está bem estruturada elegendo como principal inimigo dos macacos um Coronel renegado, (Woody Harrelson) com evidentes sinais de loucura, frieza, despotismo e indiferença pela condição humana ou pelas outras raças deste planeta, tirando prazer da possibilidade de tirar a vida a todos que o confrontem.
A oposição dos objetivos entre os dois formata o núcleo da história que se desenvolve em 140 minutos de ação, estratégia e luta sofrida confrontando conceitos como; honra, família, companheirismo e entreajuda entre os símios, como se de uma lição de humanidade se tratasse, vindo de onde menos seria expetável.
O filme é rodado em 3D, mostrando em visão estereoscópica as expressões de homens e macacos, transmitindo com isso uma densidade emocional que contagia o espetador e lhe mostra a verdadeira dimensão do cinema como veículo de entretenimento e transmissor de emoções que se busca na sala escura. Os efeitos de caracterização e o tratamento digital da imagem são verdadeiramente espetaculares e tornam obsoletas as máscaras usadas nas décadas de 60 e 70 dos primeiros filmes, muito embora constituam parte do caminho que percorremos até aqui. Em 3D toda a ação entra pelos nossos olhos e provoca-nos movimentos de defesa inusitados, provocados pela surpresa de uma imagem que nos persegue. Se tiverem possibilidade de ver este filme neste formato, recomendo.
Classificação: 7 numa escala de 10

1 de julho de 2017

Opinião – “Homem Aranha: Regresso a Casa” de Jon Watts


Sinopse

Um jovem, Peter Parker (Ton Holland), que vimos já na sensacional participação em Capitão América: Guerra Civil, começa a conhecer melhor a sua recém-descoberta identidade como super-herói que dispara teias no filme Homem Aranha: Regresso a Casa. Entusiasmado com a sua experiencia com os Vingadores, Peter regressa a casa, onde vive com a tia May (Marisa Tomey), sempre debaixo do olhar vigilante do seu novo mentor, Tony Stark (Robert Downey, Jr.). Peter procura reintegrar-se na rotina diária, sempre focado no desejo de provar que não é a penas o super-herói simpático que vive nas redondezas, e assim sendo, Vulture (Michael Keaton) surge como o novo vilão, e tudo o que é mais importante para Peter fica ameaçado…

Opinião por Artur Neves

A saga do Homem Aranha começa na Marvel Comic Books em 1962 e tem a sua primeira aparição em cinema em 1977 tendo continuado com sucessivas sequelas justificadas com o sucesso de bilheteira que este trabalho tem apresentado em todas as suas versões. A história é simples, trata-se de um super-herói que combate o mal em defesa do bem, utilizando como arma a sua extraordinária agilidade, coadjuvada pela emissão em forma de jato de um produto (a teia da aranha) que manieta os adversários que tentam opor-se à sua cruzada, corporizando a ideia do herói que não mata, prende e reformula a maldade do seu antagonista.
Tem sido assim desde 1977, e pelos seis filmes que se seguiram, utilizando-se o conhecimento adquirido no filme anterior para continuar a aventura com novos vilões mas mantendo a candura naif do super-herói, que atua incógnito, sob disfarce e aparece sempre nos momentos mais críticos em que a vítima mais precisa dele ou que o vilão se prepara para nova malfeitoria sempre mais destruidora do que a anterior. É o guião clássico.
Desta feita porém a Marvel Studios foi mais longe e alterou um pouco os dados da equação, produzindo um Homem Aranha novo, ainda a frequentar o ensino secundário, à procura da sua identidade como super-herói, tendo de provar a sua competência e merecimento de usar o fato que já lhe conhecíamos, perante todos os outros super-heróis criados pela Marvel, sob a supervisão remota, mas não menos presente do Iron Man (Tony Stark) que intervém nas situações mais críticas em que o putativo aspirante a “Aranhiço” se envolve.
Os meios são fabulosos, o filme é rodado em IMAX 3D com toda a magnificência do formato e considerando que a história visa somente dar alguma justificação à ação, podemos deleitar-nos e apreciar as imagens computorizadas, fluidas, espetaculares, que vêm na nossa direção e se desviam no último momento. É o que pode chamar-se de um visionamento imersivo, de uma história renovada, com um novo vilão para um renovado super-herói, que inclui outros super-heróis igualmente conhecidos e nos transporta para o mundo mágico da justiça e da ordem exibindo uma modernidade que reconhecemos na atualidade real e enaltecendo os valores da família como o pilar da sociedade, incluindo mesmo a família do vilão.
É um filme divertido, para todas as idades, bem disposto, bem construído e tecnologicamente evoluído.

Classificação: 6 numa escala de 10

21 de junho de 2017

Opinião – “Assassino Contratado” de Jonathan Mostow


Sinopse

Quando decide que os seus valores são mais importantes que o contrato, Jules (Sam Worthington), um assassino profissional, vai contra as ordens dos seus chefes e acaba a proteger lealmente Ella (Odeya Rush), a jovem que tinha sido contratado para matar. Assinalados para morrer, Jules e Ella formam uma aliança insegura. À medida que na sua fuga Jules arrasta consigo o peso dos seus pecados e Ella é forçada a crescer numa situação impossível, o par é impiedosamente perseguido através da Europa. A sua única hipótese de sobrevivência é expor as pessoas responsáveis pelo brutal homicídio da família de Ella e levá-los à justiça. No entanto, com o custo de cada morte a pesar sobre os seus ombros, mesmo que sobrevivam, é possível que as suas almas não saiam ilesas deste confronto terrível.

Opinião por Artur Neves

Esta história pouco provável conta a odisseia de um assassino a soldo, viciado, doente, frio nas suas opções, que através de um ato de contrição por razões que o filme não revela expressamente, é assaltado por sentimentos de remorso e de redenção assumindo-se como defensor da vítima que teria sido contratado para matar.
Jonathan Mostow, realizador americano que soma trabalhos de sucesso, tais como; “Submarino U-571” (2000) e “Exterminador Implacável 3” (2003) entre outros títulos também notáveis, desenvolve este thriller de espionagem e ação por várias capitais europeias, onde o assassino e a sua presa, agora protegida, fogem ao assalto de outros assassinos contratados para cumprirem o contrato que ele, por cansaço, falta de objetivos, e desejo de redenção se recusou a cumprir.
Nessa fuga imparável vão-se revelando ligações imprevistas entre a alta finança, a política e a polícia e os anteriores amigos do assassino, sempre debaixo de uma tensão, que o filme consegue transmitir desde que o argumento revela ao que vem. Entre o assassino e a sua protegida, desenvolve-se um clima de suspeição, óbvio naquele contexto, sempre contrariado pelas atitudes deste, que com risco da própria vida salva Ella (Odeya Rush) através de perseguições a pé, de carro, de comboio, mantendo sempre o espetador interessado com o futuro daquela relação fundada no medo e na suspeição mas que continuamente vai adquirindo outros contornos acentuados pela expressão de Ella, que apesar de estreante nestas andanças, desempenha um papel escorreito, e exibe uma sensualidade contida e recatada à medida que a relação entre os dois se torna indissociável pela entre ajuda mútua nas vicissitudes daquela fuga.
O clima psicológico entre ambos é somente abordado superficialmente e é pena, pois se fosse mais desenvolvido teríamos uma história mais robusta, considerando que o concreto risco de morte, fundamentado na insegurança das contradições em que ambos sobrevivem e na personalidade fechada, de poucas palavras, do assassino, Jules (Sam Worthington), poderia conferir a esta história outro elam para lá das fugas e ciladas que nos são apresentadas.
Todavia merece ser visto, tem interesse e recomendo.

Classificação: 6 numa escala de 10

14 de junho de 2017

Opinião – “O Muro” de Doug Liman


Sinopse

“O Muro” é um thriller psicológico que acompanha dois soldados americanos encurralados por um sniper iraquiano, com apenas um muro desmoronado a separá-los. O combate transforma-se numa guerra de vontades, inteligência e precisão letal. Realizado por Doug Liman (“Mr. & Mrs. Smith”, “Identidade Desconhecida”, “No Limite do Amanhã”). “O Muro” conta com as interpretações do vencedor de um Globo de Ouro; Aaron Taylor-Johnson (“Animais Noturnos”, “Kick-Ass”, “Selvagens”, “Godzilla”, #Vingadores: A Era de Ultron”) e a estrela da WWE, Jonh Cena (“Descarrilada”, “Pai há só Um!”).

Opinião por Artur Neves

Doug Liman afasta-se um pouco do seu registo mais frequente de filmes de ação e traz-nos uma história, vivida em clima de guerra, durante a última invasão do Iraque por tropas dos USA, mas na vertente psicológica presente em todos os conflitos e em todas as batalhas. Nem sempre é o mais forte a ganhar a guerra mas antes o mais inteligente que consegue capitalizar a força do seu adversário em benefício próprio.
É o que se passa nesta história, em que “Juba” (Laith Nakli, nunca veremos os eu rosto na tela, apenas a sua voz no rádio) o sniper Iraquiano com fama de assassino pelo sucesso obtido em combate, depois de atingir um dos soldados americanos, que confiando na sua superioridade abandona o esconderijo violando normas de segurança e se aproxima do campo de morte que deveria ter protegido, tenta estabelecer comunicação via rádio, com o outro soldado em modos amistosos como se quisesse tornar-se seu amigo improvável naquele inóspito deserto.
É aqui que reside a verdadeira história deste filme, no modo subtil como “Juba” inicia a conversação, sem pressas, em tom coloquial, primeiro fazendo-se passar pelo “salvador” que o americano pretendia contactar, depois de descoberto, como o “amigo” que poderia ter encontrado no centro comercial mais próximo, ali ao virar da esquina do deserto. O diálogo que se trava é inteligente, culto e coerente da parte de “Juba” e errático, desconexo, sem seguimento da parte do americano que não apresenta discernimento para ripostar, nem para engendrar um plano que possa equilibrar a situação crítica em que ele e o seu camarada se encontram.
A história mostra-nos também que os sofisticados meios técnicos ao dispor, de pouco servem se não os soubermos pôr a funcionar, sendo naquele ambiente inóspito que a serenidade, o sangue frio e a presença de espírito mais falta nos fazem. Características essas presentes no diálogo de “Juba”, aliado ao conhecimento profundo do inimigo, nas suas causas pífias, na sua confiança no seu poder, na sua fraqueza pessoal e nos medos que ele explora, através de um diálogo insinuante com que pretende “adormecer” a resistência do americano.
“Juba” tem os americanos à sua mercê, mas estrategicamente mantem-nos agonizantes, inseguros, temerosos, com a esperança de uma salvação que virá dos céus, porque a pátria e o seu comandante nunca os abandonará e de facto ela chega, mas o resultado prático é que é muito diferente do esperado. Este filme enquadra-se portanto no thriller psicológico em ambiente de guerra, com alta intensidade dramática, credível que merece ser visto.

Classificação: 6 numa escala de 10

10 de junho de 2017

Opinião – “Girls Night” de Lucia Aniello


Sinopse

No filme “Girls Night”, uma comédia picante, cinco melhores amigas do tempo de escola – Scarlett Johansson, Kate McKinnon, Jillian Bell, Ilana Glazer e Zoë Kravitz – reúnem-se 10 anos mais tarde para uma despedida de solteira selvagem em Miami.
A festa louca sofre uma reviravolta inesperada quando as cinco amigas matam acidentalmente um stripper. Por entre loucas tentativas de decidirem o que fazer, elas deparam-se durante a noite com inesperadas situações hilariantes que acabam por as unir mais do que nunca.

Opinião por Artur Neves

Lucia Aniello transporta-nos neste filme para a loucura da juventude americana na transição para a idade adulta, com uma história duma despedida de solteira com contornos verdadeiramente picarescos e humorísticos, através dos quais é traçada uma radiografia, algo forçada, mas também realista e genuína da sociedade atual, na qual se libertaram as amarras da contensão e do ser sem necessidade de parecer, independentemente de toda compostura a que tradicionalmente nos habituaram a aceitar como imutável e imprescindível.
Nesta área, a linguagem tem um papel fundamental, pois é através dela que todas as emoções, desejos e projetos são partilhados com as pessoas que nos rodeiam e é essa mesma linguagem que nos mostra a transformação das relações sociais de que aquelas cinco amigas estão imbuídas convidando-nos a aceitar esta “nova ordem”. Pouco “nova” porque representa afinal um regresso ás origens do nosso ser e sem realmente ser uma “ordem” porque é mais a adesão ao movimento imparável de alteração de costumes de que a civilização ocidental está animada.
Para as nossas amigas vale tudo e quanto pior, melhor, pelo que a organização do evento reveste-se de particularidades formais nos mais ínfimos pormenores, em todos os adereços escolhidos, e nos espaços e “estrelas” contratadas. Tudo conduziria a uma festa de arromba se não fosse o choque com a realidade ocorrida com a morte acidental do “contratado” que não tinha mesmo outro lugar para ter um acidente, provocado pela “gula” de uma das companheiras, senão naquela festa onde tudo foi meticulosamente previsto para ser memorável.
A partir daqui o roteiro altera-se um pouco e embora a loucura continue, ficará condimentado com laivos de responsabilidade, verdade na confrontação dos diferentes pontos de vista, medo do comprometimento, revelações surpreendentes, declarações recalcadas que vêm ao de cima, numa amálgama de amizades antigas que se confrontam num ambiente estranho. É aqui que a história tem o seu ponto alto como montra social das relações humanas e Lucia Aniello consegue mostrar-nos diversidade nos comportamentos, mantendo toda a loucura dos personagens em confronto.
Curioso é ainda, observar a diferença apresentada entre a festa de despedida de solteira das raparigas e a festa de despedida de solteiro dos rapazes… as “coisas” estão mesmo a mudar. Claro que o espírito de comédia e de crítica não se perdem em toda a história e no final tudo acabará justificadamente bem como é tradição. É um filme divertido, bem feito, com bons momentos de gargalhada e sério nos quadros de vida representados. Uma recomendação caro espetador, veja todo o genérico final, pois durante e após este, são apresentadas duas cenas de epílogo da história.

Classificação: 7 numa escala de 10

9 de junho de 2017

Opinião – “Rei Macaco” de Tian Xiao Peng


Sinopse

O Rei Macaco é baseado num dos principais personagens da mitologia chinesa, Sun Wukong, um macaco que mesmo após de ter sido coroado rei, aspirava ser igual aos deuses e tornar-se imortal. Como não lhe concederam esse desejo ele revoltou-se, e o resultado foi ser condenado pelos deuses a permanecer enterrado na Montanha dos Cinco Elementos. Ficou lá durante 500 anos até ser acidentalmente libertado por Liuer, um jovem órfão.
Liuer, fugia da sua aldeia que fora assaltada por Ogres das Montanhas em busca de crianças para oferendar ao Senhor do Mal, levava consigo uma menina pequenina que salvara das garras dos ogres. Liuer, que se tinha perdido, pede ao Rei Macaco que o ajude a encontrar o caminho para casa. O Rei Macaco, agora em liberdade, hesita se deve ou não ajudar Liuer. A persistência deste acaba por convencê-lo e acompanhados de um Porco multifacetado e cómico, partem numa aventura para vencer os Ogres e o Senhor do Mal.
Um filme que é uma aventura e a descoberta do herói que existe em cada criança.
Sun Wukong é o personagem inspirador da série japonesa Dragon Ball, sendo nome do personagem principal da série (Son Goku) que corresponde à tradução de Sun Wukong em japonês.

Opinião por Artur Neves

Esta incursão na mitologia chinesa, estranha na nossa sociedade, mas suficientemente descrita na sinopse que acompanha este filme, leva-nos ao mundo da fantasia para nos certificar que seja qual for o povo, credo ou nação, a coragem, a determinação e o coração limpo das boas ações são sempre elegíveis e impulsionadas para a glória dos seres humanos que as defendem.
Os deuses estarão sempre do lado dos bons e são estes os preferidos para sempre. Com uma imagem clara, luminosa mesmo, suportada pelos grandes meios tecnológicos de animação este filme envolve-nos no prazer de ver a evolução dos heróis e dos tiranos (sem os segundos não existiriam os primeiros) partilhando connosco as suas aventuras, os sucessos dos primeiros e o castigo dos segundos em atribulados movimentos nos espaços em que se move a ação.
Longe vai o tempo da banda desenhada, animada em 2D, com fundo parado, cor única ou até sem cor, e movimento à vez dos personagens, que nos fazia sonhar com uma boa história e a virtude dos personagens. A computorização veio conferir uma vida reforçada a este meio de comunicação para o qual tudo é possível oferecendo-nos o prazer de ver eventos e ações inimagináveis ou nem sequer provavelmente abordados pelos nossos pensamentos, portanto caro espectador este é um filme de família dedicado à fruição da magia e do puro espetáculo, para além de contar uma história que se insere na mitologia chinesa, que provavelmente não conhecia. Recomendo.

Classificação: 6 numa escala de 10

6 de junho de 2017

Opinião – “A Missão” de Walter Hill


Sinopse

Depois de acordar e descobrir que foi submetido a uma cirurgia de mudança de sexo, um assassino procura encontrar o médico responsável.

Opinião por Artur Neves

Mais uma vez em Portugal a denominação dos filmes que nos chegam de fora reportam-se a aspetos mal identificados com o contexto da história que nos é contada. No caso presente a situação é particularmente complicada considerando que na origem esta película já foi nomeada como sendo; “The Assignment” na versão Americana e “Revenge”, na Europa sendo na nossa opinião o ultimo título o que melhor lhe assenta, e o pior a denominação Portuguesa, que o remete para um desígnio que dificilmente se descortina nesta história.
Walter Hill realizador e produtor americano, tem créditos firmados no meio e experiencia reconhecida nesta área,
“atraente” em algumas cenas.
O transformismo a que “John Kitchen” é submetido é-nos contado e justificado por uma médica interpretada por Sigourney Weaver, madura, segura de si e que constitui outra boa escolha para contracenar como o nosso “herói” desenvolvendo as considerando toda a série “Alien” e outros filmes de reconhecida qualidade, do ponto de vista de bilheteira e de entretenimento para uma larga faixa de público que tem no cinema um meio de distração e de cultura, pelo que que para já pode concluir-se que estaremos bem servidos.
No caso presente, cuja sinopse resume a história de uma forma bastante redutora, a ação, desenvolve-se ao estilo de “Sin City”, com separadores em banda desenhada, (em fotogramas sem animação) apresenta uma boa fotografia onde se destaca o desempenho de Michelle Rodriguez no papel de “John Kitchen” tanto na versão masculina, como na versão feminina do personagem, constituindo uma boa escolha para ambas as situações, considerando ser uma mulher com características pouco femininas, mas que o tempo tem conseguido amenizar desde os primeiros filmes em que entrou, tornando-se até razões que a levaram a praticar a operação efetuada (demasiado bem executada para a época em que vivemos, mas estamos num filme) abordando os constrangimentos psicológicos e os motivos porque foram infligidos nesta pessoa que agora sofre a dicotomia do “ser” homem em corpo de mulher.
“John Kitchen” evidencia em todos os seus atos esse desconforto, esse trauma que lhe foi infligido aparentemente sem razão e que ele procura por todos os meios descobrir através da descida aos infernos do meio onde habita, descobrindo que foi atraiçoado por alguém em quem instintivamente confiou e se afeiçoou, sofrendo assim duplamente a sua condição e alimentando um inaudito e imparável desejo de vingança, como único sentido para a sua vida agora estéril e sem retorno nem esperança.
Esta história propiciava uma reflexão sobre a duplicidade do género humano e em parte, fugazmente, ela é abordada mas Walter Hill quer é mostrar-nos, sangue, morte, tiros, toda a ação que provoque sobressalto no espetador, como se o problema humano ali tão bem criado pertencesse ao domínio de outro filme ainda não realizado… opções, no cômputo geral todavia este é um filme aceitável.

Classificação: 5 numa escala de 10