10 de janeiro de 2022

“Best-Sellers” de Lina Roessler

Sinopse

Lucy Skinner (Aubrey Plaza) herda do pai uma seleta editora, mas a ambiciosa aspirante a diretora quase afunda a empresa com uma série de péssimos livros que recebem críticas negativas. Quando descobre que Harris Shaw (Michael Caine), um escritor recluso, rabugento e entorpecido pelo álcool, que inicialmente pôs a editora no mapa, lhe deve um livro, vê nele a tábua de salvação, tanto comercial como crítica.

E o momento não podia ser mais perfeito. Harris deve dinheiro e tem um novo livro que ele próprio odeia. Lucy fica eufórica, até descobrir que o antigo contrato de Harris estipula que ninguém pode rever o seu trabalho. Porém, em troca, tem de fazer uma digressão para promover o livro. E assim nasce a digressão literária do inferno, onde a fama não é igual a fortuna, os seguidores do Twitter valem zero e o legado que se tenta defender pode ter nascido de mentiras que não poderão ficar guardadas no passado.

Opinião por Artur Neves

Este “Best Sellers” vale pela aparição de Michael Caine com os seus 89 anos bem medidos e bem usados nos seus mais de 130 filmes ne curriculum, em que presumo, deve dar-lhe o privilégio de trabalhar só quando o argumento o diverte e onde pode exibir ser prejuízo para o papel, o seu olhar descaído e o seu sotaque inglês de classe trabalhadora média baixa, algo diferente do Inglês tradicional de Londres, o seu sotaque cockney que já lhe serve com imagem de marca e de identificação de origem.

Em termos de atuação Harris Shaw (Michael Caine), traz o seu melhor para o personagem de um romancista britânico, velho, com pouco cuidado com a sua pessoa, forte consumidor de álcool enquanto fuma o seu charuto, recluso de memórias na casa desarrumada e em ruínas, em que vive e sofre a solidão pela morte da sua mulher, acompanhado de um gato que apesar da pouca atenção com que o trata é o único elemento vivo que o acompanha. Harris está zangado com tudo e com todos e mostra bem esse desagrado nos avisos que coloca na porta de entrada e nas traseiras para que se afastem todos os que o procuram.

Uma entusiasta do mundo dos livros Lucy Stanbridge (Aubrey Plaza) herdou de seu pai uma editora independente em Nova Iorque, (algo muito improvável hoje em dia) outrora promissora, mas agora com as múltiplas alternativas ao dispor para ler livros já teve dias melhores. Os jovens de hoje não entendem o valor dos livros, a importância de os folhear, de os conhecer na sua integridade, considerando que atualmente os meios eletrónicos e as redes sociais determinam o que se lê, o que é importante, o que marca, o que vale a pena, com duas palavras e pouco conteúdo. Ela porém, está determinada a salvar o legado de seu pai e a marca da livraria, pelo que entende que seria o aparecimento de um Best Seller o elemento capaz de operar o milagre. Para isso procura um êxito antigo e propõe-se encontrar o seu autor. Todavia, quando ela encontra a obra que tornou famoso o seu pai e projetou o autor do livro, fica horrorizada ao ver que ele se tornou um bêbado, velho, e mais famoso pelo seu comportamento excêntrico do que pelo seu valor literário. Porém a necessidade une-os, ela precisa de dinheiro e ele tem um novo livro chamado “The Future is X-Rated” que com alguma dificuldade e quezílias ela consegue que ele promova para o benefício de ambos.

Lina Roessler é uma realizadora de primeira viagem, uma estreia em longas metragens, tendo apenas até agora dado corpo a três pequenos filmes curtos, mas não se pode dizer que saia mal da empreitada. Apoiada por bons desempenhos anteriormente citados e um secundário de peso, Scott Speedman como (Jack Sinclair) que quer conquistar Lucy para a convencer a vender a editora, desenvolve uma história pouco verosímil mas com momentos doces entre Harris e Lucy que com a convivência a que a digressão literária promoveu, a diferença de idades faz despertar entre ambos sentimentos de pai e filha e as revelações que são proferidas por Harris fazem-nos descobrir a verdade sobre o seu pai e reconhecer os motivos de Shaw que justificam a sua posição de descrença e revolta. A história também refere algo interessante sobre a morte da alfabetização pelos livros e como do nada, nascem as celebridades nas redes sociais apenas porque são faladas e são os meios que os podem fazer nascer e acabar. O final é com uma surpresa adequada á temática e se não houver mais nada para fazer, porque não vê-lo?...

Estreia em sala no dia 13 de Janeiro

Classificação: 5 numa escala de 10

 

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