12 de outubro de 2019

Opinião – “Um Passado em Segredo” de Bart Freundlich


Sinopse

Isabel (Michelle Williams) dedicou a sua vida a gerir um orfanato num bairro-de-lata de Calcutá. O financiamento é escasso, e Theresa Young (Julianne Moore), uma milionária com um império de comunicação, contacta Isabel, pedindo-lhe que viaje até Nova Iorque para lhe apresentar pessoalmente o projeto. Inicialmente revoltada com a exigência de uma potencial doadora que ainda não se comprometeu, ela acaba por ceder e viaja até à cidade da qual tinha escapado há 20 anos atrás.
Uma vez em Nova Iorque, e sentindo-se muito desconfortável, Isabel dirige-se à residência da possível benfeitora. Enquanto Isabel pensa que em breve regressará ao seu querido orfanato, Teresa tem outros planos. Ela insiste que Isabel fique para o casamento da sua filha, na propriedade da família. Mas o alegre evento rapidamente se transforma num catalisador de uma revelação que vem transtornar a vida das duas mulheres e das pessoas que mais as amam.

Opinião por Artur Neves

O filme que hoje temos em apreciação é um remake da obra com que a realizadora dinamarquesa Susanne Bier, quase conseguiu obter o Oscar em 2007 para o melhor filme de língua estrangeira da Academia Americana. Bart Freundlich, realizador americano, casado na vida real com Julianne Moore, concebeu uma alteração de personagens na história original, mantendo todavia o enredo que nos mostra neste filme. Na origem, ambos os filmes têm o mesmo nome (After the Wedding) sendo posteriormente adaptados os “gosto” de cada país, como vem sendo normal em toda a cinematografia que nos chega de fora.
A alteração do género dos personagens principais tem pelo menos o mérito de tornar a atual versão mais aguda do ponto de vista emocional e com isso poder transformar esta versão num melodrama mais profundo no aspeto dos afetos, para os quais contém todos os elementos para ter sucesso, mas… fica-se pela tentativa, depois de ultrapassado o choque da surpresa pelos “segredos” que nos são revelados, fruto de vários twists que a história contém.
Isabel, ao viajar da Índia para Nova Iorque, por solicitação de Theresa Young, não sabe completamente ao que vem, nem esta sonha com o que despoletou, ao requerer a sua presença para ajuizar melhor o destino do donativo que está prestes a conferir-lhe e por dificuldades de agenda, em convidá-la, para o faustoso casamento da filha Grace (Abby Quinn), na casa de família em Long Island.
Tanto Isabel (Michelle Williams) como Theresa Young (Julianne Moore), são competentes no trabalho que desempenham criando personagens credíveis. Os seus diálogos e as suas intervenções recíprocas em diferentes situações e com outros personagens estão adequadas ao contexto embora ajam como “personagens silenciosos” e as consequências dos seus desacordos são sempre leves e cordatas para a gravidade dos factos e intensidade do drama. Parece-me que a história poderia ter sido mais ousada no aprofundamento das consequências de uma relação que se afigura tensa entre Isabel, Theresa e o marido Oscar (Billy Crudup), mas não… se atinge alguma tensão, mais pelo efeito da surpresa das revelações, logo se desmobiliza e fica completamente frouxa na parte final.
Esta história daria para desenvolver relações obscuras e íntimas, diálogos cortantes e ambientes gelados, como os construídos em “Perto Demais” de 2004 por exemplo (uma quadrangulação de relações humanas) mas presumo que o realizador preferiu enfatizar o lado mundano dos personagens citadinos, utilizando uma filmagem com drones para aproximação a uma realidade mais abrangente e o diretor de fotografia Julio Macat preferiu filmagem manual e Steadicam, que permite fotos suaves e estáveis mesmo quando a câmara se move no exterior ou sobre superfícies irregulares, acalmando todos os tumultos. Ainda assim vale a pena ver, a história é boa embora só sumariamente aproveitada.

Classificação: 6 numa escala de 10

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