28 de novembro de 2010

Entrevista a Jorge Tinoco

Esta semana, trago-vos mais uma entrevista a um autor português, que simpaticamente se disponibilizou para nos dar esta entrevista. É ele, Jorge Tinoco.

Sobre o autor:
Jorge Tinoco nasceu a 12 de Janeiro de 1964, em Proselo, Amares. Frequentou os Seminários Maior e Menor de Braga. Ingressou, mais tarde, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Concluída a licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses), fez alguns cursos técnicos nas áreas sociais. É sobretudo neste domínio que tem exercido a sua vida profissional, sendo actualmente Presidente da Comissão para a Dissuasão do Toxicodependência do Distrito de Braga. Tem colaborado com diferentes rádios e jornais. Quanto a livros de sua autoria, viu publicado pela “Editorial Escritor” o volume de contos “Tudo menos Serafins”, actualmente esgotado. Publicou também, desta feita em edição de autor, um selecção de “Alguns Escritos” de sua autoria, incidindo sobre temas de cariz mais filosófico e espiritualista ou intimista. Baseado em relatos de idosos internados no Lar da Santa Casa da Misericórdia de Amares, escreveu ainda “Histórias de Vida”, um livro ilustrado com fotografias de Miguel Louro e editado pela Misericórdia amarense. A convite, integrou, juntamente com outros escritores minhotos, a colectânea “Contos do Minho”, sob a chancela da “Editorial Ave Rara”. Por opção, tem mantido alguns textos inéditos na gaveta, designadamente um romance. “O Mar de Paula”, lançado em ebook e em papel, pelas “Edições Vercial” é, por isso, o seu primeiro romance a vir a lume.


Entrevista:

Começaste a escrever com que idade?
Lembro-me de que, já na então chamada escola primária, a professora elogiava o modo como eu escrevia. Mais tarde, entrei para o Seminário Menor de Braga e fui granjeando igualmente o estímulo de quem aí me veio ministrando a disciplina de Português. Recordo sobretudo o grande carinho com que o Prof. António José Barreiros me apelidava exageradamente de “poeta”. Eu não era poeta nenhum nem sequer grande escrevinhador com rimas ou sem rimas – de maneira que tratarem-me assim constituía não mais que um acto gentil de considerável generosidade. O que é certo é que este apreço se veio consolidando no Seminário Maior, que depois frequentei durante um ano. Aí, tive como Professor de Jornalismo o Dr. Silva Araújo, então director do “Diário do Minho”. Como já na altura publicava alguns textos no “jornal de parede” do Seminário, acabei por ver dois ou três vindos a lume também naquele Diário. Acho que foi o momento em que saíram publicados, num sentido mais abrangente, os primeiros textos de minha autoria, talvez pelos meus 15 ou 16 anos, não posso agora precisar muito bem…

Foi fácil te lançares no mundo literário?
Acho que nunca é fácil (e nem sei se estou ou alguma vez estarei lançado no mundo literário). Sobretudo quando se tem a perspectiva de que a produção literária não pode deixar-se seduzir pelos apelativos critérios do mercado, sob pena de em grande parte perverter-se ou até prostituir-se. Mas houve circunstâncias que me vieram ajudando a caminhar sem abdicar destes princípios. No Porto, por exemplo, já na Universidade, senti um grande apoio por parte do Prof. Arnaldo Saraiva, que lia com imensa receptividade, paciência e prestabilidade os meus textos e me incentivava a continuar, afirmando que, ao nível da prosa, eu possuía as características necessárias para um dia “dar o salto” e sair do anonimato. Por sua sugestão, cheguei a publicar alguns artigos num jornal portuense e na revista da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras. A seguir à Faculdade, colaborei de perto com a Associação Cultural e Literária “Autores de Braga”, onde conheci um excelente amigo que veio a olhar para os meus trabalhos quase como se fossem seus. Refiro-me a Cláudio Lima, que, sabendo de um volume de contos que eu pretendia publicar, remeteu o inédito para a “Editorial Escritor”, tendo vindo a ser aceite, publicado e depressa esgotado. Foi o primeiro livro que publiquei, de seu nome “Tudo menos Serafins”, com prefácio do próprio Cláudio Lima. Esse livro recebeu, de resto, várias referências laudatórias, quer em jornais da especialidade, quer por parte de outros autores, de que lembro com especial saudade as palavras amigas e cheias de entusiasmo de Maria Ondina Braga. Depois, surgiram convites para colaborar em rádios e jornais, bem como para um livro muito denso e volumoso sobre “Histórias de Vida”, baseado em relatos e memórias de idosos internados no Lar da Santa Casa da Misericórdia de Amares e publicado por esta Instituição. Entretanto, já me haviam incluído também, entre outros escritores minhotos, numa “Colectânea de Contos do Minho”, sob a chancela da “Editorial Ave Rara”... Aos poucos veio surgindo a incursão pelo romance, com a escrita de uma obra que tenho optado por manter inédita, na gaveta. De seguida, voltei-me para “O Mar de Paula”, que sai agora pelas “Edições Vercial”, quer como ebook, quer em edição impressa. É um romance em relação ao qual, mesmo nesta fase incipiente, vem aparecendo já a amabilidade de honrosos elogios, designadamente por parte de José Leon Machado, Cláudio Lima e Agostinho Domingues, entre outras personalidades. De maneira que é assim: talvez ainda não muito lançado, mas vai-se fazendo caminho, “dando os passos em liberdade… sem angústia e sem pressa”, como diria o Torga. Sempre sem viver para a fama e sempre sem fugir a ela se o tempo a trouxer, desde que não ofusque a lucidez e a humildade. O essencial, no fundo, é escrever: e, citando um outro autor, Mário de Andrade, “para mim basta o essencial”…

Onde vais buscar a tua inspiração?
Inspiro-me essencialmente nos olhares sobre a vida, com todos os seus contrastes e policromias. Muitas vezes em experiências da minha vida, que depois são ficcionadas, ao ponto de resultar algo que pode parecer nada ter a ver comigo. Mas, na génese, no primeiro impulso, esteve algo de vivido ou de alguma maneira experienciado. Creio que preciso desse lado: de me sentir implicado, para que o texto ganhe intensidade e sentimento. Só escrevo com emoção: seja ela um acto de amor, um sorriso de ternura, uma comunhão com a natureza, um momento de raiva ou um grito de revolta. Do centro deste vulcão, tantas vezes de extremos e contraditórios, é que vai surgindo a obra: algo que de início é um ponto concreto mas que depois se vai expandindo, até acabar amiúde com diferenças substâncias e até impensáveis ou indecifráveis no inicialmente pensado. E a inspiração, em larga medida, também nasce do gozo ou do desafio deste arrostamento constante com a surpresa, de que se faz e refaz a fermentação das personagens, dos enredos e dos livros...

Como é o teu processo criativo? Tens algum ritual?
É muito irregular o meu processo criativo. Até tendo em conta esse lado de assentar em muito nas emoções. Normalmente há alguma coisa que despoleta esse processo. Sem essa qualquer coisa, muitas vezes acontece-me estar parado longo tempo, ainda que no subconsciente já algo possa estar a ser construído. O grande ritual não é sentar-me e dizer todos os dias “hoje tenho de escrever”: é sobretudo estar receptivo e sensível à hora certa, ao ponto de sentir que, depois de talvez semanas sem escrever, “hoje não posso perder esta oportunidade em que a palavra me quer conduzir ao grande Monte da Transfiguração”. Daí que passe por períodos de semanas sem qualquer página e depois surjam ocasiões em que escrevo páginas e páginas seguidas, que posteriormente edito e revejo, aproveitando umas e desaproveitando outras tantas. Há um texto em que digo que a escrita é uma gravidez de risco: nasce de um momento de emoção, depois é preciso cuidá-la até que se forme um corpo no seu todo – mas o certo é que nunca sabemos previamente como será em rigor a criança nem sequer se chegará a vingar ou a ter grande carreira pela frente…

Quais são as tuas referências literárias?
Cada um com seu estilo e dentro de cada género, há tantos autores maravilhosos. Uns de expressão lusófona, outros das mais diferentes Línguas. Uns da poesia, outros da prosa. Em todo o lado, em todos os géneros e em todas as épocas há excelentes referências. E nem precisam de ter escrito muito num determinado género para se constituírem como uma referência nesse domínio. Sendo referência noutros géneros, a David Mourão-Ferreira, por exemplo, bastou-lhe escrever “Um Amor Feliz” para também no romance se tornar incontornável. De maneira que isto de referências é sempre muito amplo e poderia levar-me a cometer injustiças. Até porque as referências de alguém podem assentar mais numa questão de gosto estético, o que é subjectivo, do que propriamente em valor estético, esse sim objectivo. Ou seja, eu poderia referir um autor porque gosto e depreciar outro porque não gosto tanto, mas que até poderá ter literariamente bem mais valor. Mesmo assim, embora não querendo dizer que me fez apreciar menos outros, confesso que há um autor que me marcou muito, que é o Gabriel Garcia Marquez.

Fala-nos um pouco desta tua última obra. O que podem os teus leitores esperar de diferente em relação aos outros livros?
“O Mar de Paula” é um romance de desconstrução da própria história que veio sendo construída ao longo das páginas. Julgo que será por isso que Cláudio Lima se interroga se não será antes “um anti-romance, uma denúncia dos conteúdos e processos diegéticos de que a ficção, apesar das tentativas de ruptura e inovação, ainda não veio conseguindo até hoje libertar-se”. Para além desse mérito que lhe reconhecem, julgo que é essencialmente um livro de trama familiar e psicossocial bastante densa, retratando a várias vozes e sob vários ângulos, quer circunstâncias e sonhos da Humanidade de sempre, quer realidades intrínsecas e peculiares da sociedade actual. Daí que possa tornar-se num livro apreciável tanto sob o ponto de vista sociológico, como no plano de romance psicológico, escrito numa linguagem bastante fluida e poética, com momentos de grande carga erótica e emocional. Além disso, tem sido relevado também o facto de ser uma obra inédita no que toca ao ponto de ser escrita com capítulos intermitentes de narração, ora pela personagem masculina, ora pela feminina. As críticas e opiniões têm sido muito boas: mas cada um verá por si, porque cada leitor é um reconstrutor - e as páginas estão ávidas de quem as interpele, interprete e reconstrua…

De todas as tuas obras com qual é que te identificas mais? E porquê?
Não sendo muitas as obras, são já suficientes para terem todas pedaços de mim e ser difícil a resposta. Mas diria que “Tudo menos Serafins” reflecte bem uma fase da minha vida, sobretudo por ter passagens ficcionadas de vivência do Seminário.

Qual o teu livro preferido?
“Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez

Qual a tua citação preferida?
“Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive!”, de Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa.

Qual foi o último livro que leste?
Um que já deveria ter lido há muito, sendo que apenas perdi por ter estado tanto tempo sem o ler, pois é muito bom: “Levantado do Chão”, de José Saramago.

Quais são os teus planos e objectivos para o futuro?
Viver e escrever quando tiver vontade. Sem me preocupar se é para vir a lume ou meter na gaveta. Alguém dizia: “não faças demasiados planos para a vida porque podes estragar os planos que a vida tem para te dar”. Vamos vendo, sem deixar de ser proactivo e estar atento ao que possa ser útil. Só sendo útil vale a pena fazer alguma coisa, sonhando e contribuindo um pouco para um mundo melhor…

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