2 de julho de 2020

Opinião – “Senhores do Crime” de Guy Ritchie


Sinopse

A história do expatriado americano Mickey Pearson um homem que construiu um império de marijuana altamente lucrativo em Londres. Quando se torna pública a notícia de que ele está a tentar lucrar com os negócios para se puder reformar, desencadeiam-se conspirações, esquemas, suborno e chantagem, com a única tentativa de sabotarem o seu domínio de luxo. Realizado por Guy Ritche (Snatch – Porcos e Diamantes; Um Mal Nunca Vem Só) e com Hugh Grant, Michelle Dockery e Charlie Hunnam.

Opinião por Artur Neves

Aí está a reabertura do cinema ao vivo, isto é, em sala… não se trata de uma televisão melhor ou pior, mas da sala escura, onde podemos viver emoções através do visionamento de uma história. Claro que para defesa das distribuidoras e também pela escassez de produção durante os tempos duros que atravessamos (porque a crise ainda não passou) as salas abrem com reposições e no presente caso; “The Gentlemen – Senhores do Crime” é uma reposição feliz por se tratar de um filme contado de uma forma particular por Fletcher (Hugh Grant) um investigador privado, contratado para investigar os negócios de Michael Pearson (Matthew McConaughey) que pretende vender o seu negócio de patrão da droga para se poder reformar e gozar o resto da vida com sua mulher Rosalind (Michelle Dockery) como que de um trabalhador regular se tratasse.

O problema não reside nos desejos de Michael Pearson (tratado carinhosamente por Mickey) mas antes nos potenciais compradores que rivalizam entre si a aquisição do império de Mickey que inclui o multimilionário americano Matthew Berger (Jeremy Strong) e o mafioso chinês Dry Eye (Henry Golding) que não olha a meios para conseguir o que ele já considera seu antes de o possuir.

Fletcher, amigo de longa data de Mickey, aparece em casa dele para uma longa conversa sobre o negócio em que dirime argumentos a favor e contra os potenciais adquirentes, transformando a história numa versão vintage no universo dos filmes de Guy Ritchie.

Este realizador britânico que teve um auspicioso início com filmes negros, ambientados em universos de crime e diálogos espirituosos que evidenciavam o sotaque da Inglaterra profunda e das docas, mudou-se a certa altura para os sucessos de bilheteira de Sherlock Holmes, 2009 e, pior ainda, Aladdin, 2019, para o qual escreveu o argumento, tenta agora redimir-se com esta nova comédia trágica no mundo da droga em Inglaterra, para a qual convida atores de nomeada e com larga experiência, para desenvolverem um trabalho tão árduo como inovador.

Os factos narrados por Fletcher, são visionados na tela como ilustração dos seus argumentos, mas nem sempre correm como previsto, porque Mickey já os antecipara e em certas situações até neutralizara os seus efeitos, mas os dados estão lançados e a narrativa prende o espectador a uma ação que é descrita por Fletcher de uma certa maneira e ocorrem com algumas nuances que estragam as melhores previsões. Deste modo, alguma ação é repetida em duas versões, enquanto Fletcher e Mickey manipulam a realidade sombria nas ficções de Fletcher o que torna o filme credor de alguma complacência do espectador durante os 113 minutos de duração.

No meu entender é por uma boa causa, pois assim transforma-se um nefasto submundo numa sofisticada comédia, polvilhada de piadas racistas sobre chineses cujo autor é o próprio Dry Eye. Mickey por seu lado revela-nos um Matthew McConaughey diferente daquele que conhecemos nos anos 90 e que lhe trouxe o Oscar em “O Clube de Dallas” de 2013, ou “Interstellar” de 2014. Mickey aqui é um sóbrio mafioso, pachorrento nas palavras, muito sentado e quieto, estranha-se, mas o personagem não pede mais.

Por outro lado, de Colin Farrell, aparece como um treinador de box num personagem absolutamente secundário mas animado de um frenesim e uma agitação que o argumento deveria incluir mais no enredo da história. No global é um filme que se vê com agrado, tem suspense e indefinição até ao final, constituindo uma boa opção para uma rentrée tão esperada.

Classificação: 6,5 numa escala de 10

27 de junho de 2020

Opinião – “O Resto de Nós” de Aisling Chin-Yee


Sinopse

Quando o ex-marido de Cami Bowden (Heather Graham), Craig, morre repentinamente de um ataque cardíaco, a vida perfeita que Cami criou começa a desfazer-se. No funeral de Craig, Cami e sua filha adolescente Aster (Sophie Nélisse) encontram Rachel (Jodi Balfour), a segunda esposa muito mais jovem de Craig, por quem ele deixou Cami, e Talulah (Abigail Pniowsky), a segunda filha de Craig, que está evitando o processo de luto. Rachel, tendo passado grande parte de sua vida adulta como esposa que fica em casa, revela a Cami que Craig escondeu uma infinidade de dívidas e que a casa deles terá de ser vendida - Rachel e Talulah ficarão sem casa ou com qualquer cêntimo em seu nome enquanto esperam que a apólice de seguro de vida de Craig se execute. Movida pela precária situação de Rachel, Cami oferece relutantemente a sua casa para ambas morarem temporariamente. Agora, juntas sob o mesmo teto, as mulheres processam a sua tristeza e raiva pela morte de Craig e procuram um significado e direção para as suas vidas. Durante este tempo, velhos segredos e conflitos de lealdade ameaçam fragilizar o tênue equilíbrio em torno deste grupo.

Opinião por Artur Neves

Aisling Chin-Yee cofundadora do movimento #MeToo é uma produtora e recente realizadora de origem chinesa, estabelecida em Montreal, Canadá que nos traz um argumento de Alana Francis e uma estreia destas duas colaboradoras em longas-metragens de cinema, adaptando o romance de Patrick Ness; “The Rest of Us just Live Here”, sobre um tema pouco explorado, talvez pela raridade de casos reais conhecidos e pelo criticismo inerente à situação de coabitação de duas mulheres casadas com o mesmo homem em tempos diferentes e atualmente viúvas, cada uma com a sua respetiva descendência.

Este tema, sobre o qual não me vou alongar considerando que a sinopse é suficientemente elucidativa, tem sido abordado de forma jocosa, como motivo de paródia da relação estabelecida e nunca com a generosidade comovente, engraçada e por vezes maliciosa de uma relação improvável entre duas mulheres e as suas respetivas filhas que apesar da diferença etária significativa que as separa, uma adolescente e outra infantil, competem entre si pelos seus direitos e com meios difíceis de imaginar á partida.

Observada globalmente, esta história pode descrever-se, como a influência de um homem, relacionado a diferentes níveis com cada elemento deste quarteto de mulheres em diferentes estágios da vida, e a importância para cada uma que ele teve durante o tempo de convívio, de época social, de preconceito, de convenção assumida no estilo de vida que todas viveram. Não se pense que é projeto fácil se for pretendida uma abordagem honesta e credível, sendo o primeiro defeito que lhe aponto a sua limitada duração de 80 minutos para desenvolver um quadro tão complexo de emoções contraditórias e de relações humanas.

Este facto faz com que a história apresente personagens de espírito ágil, com resoluções simplistas e breves para situações complexas sem deixar amadurecer as contradições que as repelem, ou as semelhanças que sem quererem admitir, as torna próximas entre si subordinadas a um modelo comum de relacionamento, todavia pela exiguidade do tempo disponível tudo tem de ser dirimido em tom breve e superficialmente.

Repare-se que Aster, por exemplo, tem um segredo que envolve o namorado e como tal distancia-se das opiniões de Cami, cedendo. Talulah por seu lado, na sua infantilidade, assume um estado de negação em relação à morte do pai que reproduz em certa medida a repulsa de Rachel à memória de Craig, responsabilizando-o pelo estado de pobreza em que ele as deixou, decorrente de vários negócios sem sucesso.

De todas estas contradições, acusações mútuas, e os impasses daí decorrentes vai lentamente nascer um espírito de solidariedade comum nunca antes imaginado que promove um espírito de equipa e uma condescendência onde antes só existia azedume. Aster opta por proteger a sua meia-irmã quando antes a repelia. Cami verifica no estado de fragilidade emocional de Rachel um motivo para justificar a sua própria existência, numa altura em que Aster prepara a sua emancipação. São tudo processos que requerem tempo, não só para serem descritos como para serem ilustrados e não pode culpar-se o quarteto de atores que com toda a qualidade desempenham os personagens que lhe são confiados.

É pena… ainda assim, pode ser visto na plataforma de streaming; Prime Video – Amazon

 Classificação: 5 numa escala de 10


25 de junho de 2020

Opinião – “Matthias e Maxime” de Xavier Dolan


Sinopse

Quando uma amiga em comum pede a Matthias (Gabriel d’Almeida Freitas) e Maxime (Xavier Dolan), dois amigos de infância, para filmar uma cena de um beijo entre ambos para uma curta-metragem amadora, eles aceitam. O que não poderiam prever era que esse momento de intimidade tivesse tal efeito dentro de si, confrontando os dois rapazes com as suas preferências sexuais, e que alterasse tão completamente a forma de se verem um ao outro...

Opinião por Artur Neves

Este filme foi estreado no Festival de Cinema de Cannes de 2019, escrito, realizado e protagonizado por Xavier Dolan e só serviu para acentuar, mais uma vez, a sua própria escolha de orientação sexual, pois como abordagem e desenvolvimento do tema na análise profunda de uma tendência que se tende a normalizar com o passar do tempo e com a assunção de mais interpretes, nada de novo nos traz.

Xavier Dolan não é propriamente um estreante nestas andanças onde já apresentou em 2013 “Tom na Quinta” onde o desenvolvimento da homossexualidade está bem representada com os seus silêncios, frustrações e sonhos perdidos que nos deixa perplexos ao contemplar nesta história o apagamento dessa ansiedade, ainda genericamente não assimilada socialmente que neste filme se centram em diversas reuniões entre amigos, comes e bebes em família, onde paira um clima de vacuidade e suspensão, não diretamente induzido pela história, mas antes pelo que o espectador poderia esperar que ele fosse desenvolvido desde a primeira cena do beijo que dá motivo ao argumento.

Mas não, Matthias desenvolve um personagem equívoco, hesitante, sempre inadequado no sítio onde se encontra, com olhares furtivos e inexpressivos em diferentes direções e para diferentes intervenientes em ações avulsas cujos objetivos não são explícitos por tão inconsequentes que se apresentam.

Poe outro lado, Maxime já é um personagem mais presente, tanto no convívio com os outros como nas discussões com a sua mãe, a quem controla o dinheiro e os gastos de casa, recuperando alguns tiques do seu argumento para “Mamã” de 2014, embora noutro contexto. No seio da sua família ele usa a sua irmã mais nova, voluntariosa e perfeitamente integrada na “Geração Z”, bem como as tias e mães dos seus amigos como representantes do estereótipo de uma sociedade que não considera a sua geração como séria, mas não passa daí e se teve intenção de evoluir ou escamotear esse tema como direta incidência nas suas escolhas, não passou de intenção.

Assim, de reunião em encontro, esgotam-se duas semanas antes da partida de Maxime para a Austrália apresentadas em flashback (aqui também não se percebe o interesse da alteração temporal, considerando que este tema pretensamente construído com tensão crescente, teria mais sentido na sequência lógica dos eventos) onde nada de relevante se passa para o propósito da história sentindo-se um vazio total da narrativa que sem querer ser grosseiro, mas antes realista, classifico como um tempo de “encher chouriços”.

A amizade entre os dois foi afetada desde o início do filme e isso transformou a relação entre eles que deveria ter sido apreciada e desenvolvida ao longo da história entre os dois personagens, mas não, acentua-se o protelamento da situação que fica reservada para o jantar de despedida em que Matthias faz um discurso ininteligível, abandona o jantar subitamente, mas depois volta para nos apresentar uma cena de amor tórrido com Maxime, porém inconsequente e inconclusivo sobre as suas opções.

No dia da partida, cabe ao espectador decidir, escolher, o que seja, qual foi a decisão de Maxime… ora bolas para isso não devia ter sido necessário esperar 120 minutos. Uma desilusão…

O filme está em exibição no cinema Trindade, da cidade do Porto

Classificação: 4 numa escala de 10

20 de junho de 2020

Opinião – “Vítima e Carrasco” de Mário Martone


Sinopse

Quando sua mãe morre aparentemente feliz, mas em circunstâncias curiosas e surpreendentes, sua filha Delia viaja para Nápoles para assistir ao funeral. Permanecendo na cidade ela tenta compreender o que foi a vida recente de sua mãe, começando a confrontar memórias de infância e procurando os seus protagonistas para reconstruir, com um olhar adulto, o que foi a história de família.

Baseado no romance de Elena Ferrante, L'Amore Molesto foi um dos filmes mais marcantes do Festival de Cannes de 1995. Mario Martone mergulha nas ruas de Nápoles, cidade de muitas cores e contrastes, onde Delia vive um tempo entre o passado e o presente, entre uma realidade e a imaginação fundamentada na memória.

Opinião por Artur Neves

Mais uma vez, o título atribuído em Portugal a este filme não contempla a subtileza que o romance de Elena Ferrante aborda, na história de um amor submisso entre uma mulher e seu marido possessivo e dominador, que exibe um autoritarismo que revela a sua própria fraqueza e frustração perante si próprio e perante a sua arte de pintura, que permanece ignorada do grande público que ele pretende conquistar.

Na interpretação direta do título português podemos inferir que o “carrasco” é o agente que mata a “vítima” quando na realidade o “carrasco” mais não é do que um pobre pintor de arte, andrajoso e solitário que vive em condições precárias e frequentemente bêbado, quando é descoberto em Nápoles por Delia (Anna Bonaiuto) em demanda das suas memórias e que no auge da sua vida, quando Délia o recorda na sua infância, reconhecia sem admitir que possuía mais mulher do que ele era homem para ela.

Delia é uma artista gráfica napolitana que vive em Bolonha e recebe um telefonema estranho de sua mãe Amália (Angela Luce), rindo abundantemente e mostrando uma alegria para a qual Delia não encontra motivos diretos nem tão pouco nos ruídos ambientais circundantes de onde a mãe lhe telefona. A chamada é curta, sem assunto definido e acaba abruptamente entre risos que soam a impaciência e nervosismo. Delia facilmente depreende que algo aconteceu, ou está acontecendo e tenta reatar a chamada sem sucesso. A mãe não atende. Poucos dias depois recebe uma chamada de um amigo, Filippo (Gianni Cajafa) tio de Delia, participando-lhe o falecimento da sua mãe que lhe motiva a deslocação a Nápoles.

Durante o funeral, na companhia das irmãs e do tio que a avisou, observa uma discussão acalorada entre Filippo e a figura perturbadora de um homem idoso que não conhece, não se apresenta nem lhe permite aproximar-se dele para conversar. O tio acusa-o como responsável pelo até aqui, alegado suicídio de Amália e isso adensa o mistério sobre as causas da morte de Amália que Delia se propõe investigar, nos dias seguintes ao funeral.

Começa então a “via sacra” de percorrer os últimos dias de Amália, habitando a sua casa, analisando os seus pertences e procurando entre os objetos e as memórias que estes lhe suscitam, explicações para o sucedido. Visita o seu pai (Italo Celoro) que continua na sua situação de falhado e atualmente mais velho e sem esperança e finalmente cruza-se com Caserta (Giovanni Viglietti) a tal figura misteriosa que viu no funeral, testemunha dos últimos momentos de sua mãe, seu amante, seu confidente, seu companheiro e apoio em todas as loucuras que a personalidade exuberante de Amália teimava em prosseguir.

Toda a história é nos contada no presente e no passado correspondente e tem contornos de thriller que o realizador não soube ou não quis aproveitar por respeito à obra que lhe deu origem. Só que, no centro desta história estaria Amália com todo o seu exotismo, sensualidade e força de mulher que o realizador transpõe para Delia. Esta porém, vítima de uma infância modesta, sob o jugo de um pai autoritário, perde-se entre as perguntas que formula através das suas memórias e as respostas que não quer ouvir por demasiado dolorosas. Caserta não lhe conta mais do que ela já sabe e a fotografia de Luca Bigazzi, mais preocupado em mostrar a beleza de Nápoles e a sua atmosfera humana, bem como a musicalidade do dialeto local deixam em segundo plano um enredo que fica à espera de ser contado de outro ponto de vista.

É ainda assim um filme interessante que concentra em Delia, (vestida com o vestido de sua mãe e que ela não acreditava que fosse), que ao percorrer em exaltação os lugares mais significativos de Nápoles nos conta uma história que se adivinha mas de que pouco se vislumbra.

Disponível na plataforma Filmin por €2,95, pesquisável pela designação em português.

Classificação: 5 numa escala de 10

17 de junho de 2020

Opinião – “Irmãos de Armas” de Spike Lee


Sinopse

Do vencedor do Oscar, chega uma nova história oportuna e chocante de quatro veteranos afro-americanos; Paul (Delroy Lindo), Otis (Clarke Peters), Eddie (Norm Lewis) e Melvin (Isiah Whitlock, Jr.) que retornam ao Vietnam alegadamente, para procurar os restos mortais do seu líder de esquadrão caído em combate, Stormin Norman (Chadwick Boseman) e a promessa de recuperar o tesouro enterrado por eles na sequência da queda do avião que o transportava. Os nossos heróis são acompanhados pelo filho preocupado de Paul, David (Jonathan Majors), que os promete ajudar na força de combate entre o homem e a natureza, enquanto são confrontados pelos estragos duradouros, físicos e emocionais, da imoralidade e irracionalidade da guerra do Vietnam.

Opinião por Artur Neves

Com uma oportunidade digna de nota Spike Lee apresenta-nos um filme que resgata a participação dos negros americanos na guerra do Vietnam, numa altura das mais intensas manifestações anti racistas nos USA na sequência do assassinato do afro americano George Floyd às mãos (literalmente; sob o joelho) de um polícia de Mineápolis no dia 25 de maio de 2020. Este facto conduz a que este filme relembre a participação dessa população no conflito que traumatizou a América nos anos 60 e questiona a definição e o conceito de “supremacia branca”, e de “verdadeiros americanos”, quando homens e mulheres negras continuam a servir e a morrer pelo país noutros conflitos ao redor do mundo.

Com o resumo da história descrito na sinopse o filme começa com imagens reais de conflitos raciais anteriores, tal como a declaração de Muhammed Ali em 1978 de que “os vietcongs eram menos racistas do que o povo do seu próprio país” e que lhe custou o prémio de campeão de pesos pesados, seguindo com outras manifestações de protesto conhecidas à época e terminando com a morte de Martin Luther King Jr, como ensaio político sobre a violência histórica que a história pretende documentar.

Dos quatro amigos que se encontram na atual cidade de Ho Chi Minh, Saigão, cada um apresenta uma personalidade particular bem definida em que; Paul é um fervoroso adepto de Trump, Otis, o mais sério e responsável de todos, controla a aventura, Eddie, um empresário de sucesso (que posteriormente saberemos que não é bem assim) rico e gastador e Melvin que se apresenta como o mais apagado e indefinido de todos, constituem uma equipa de “irmãos de armas” cujas diferenças se vão acentuando ao longo da história de 154 minutos que não se sente tédio ao passar, decorrente da sua movimentada ação, sempre mostrando um frémito de energia e surpresa em cenas de elevado dramatismo.

O encontro entre os veteranos de guerra é de descontração, amizade e recordação à mesa de um bar chamado Apocalipse Now que nos trás memórias e sugere traumas. É o cinema a alimentar o cinema que só os bons realizadores sabem utilizar.

Os sucessivos eventos da história vão sendo apresentados tecendo uma intriga de textura multivariada de diálogos, gestos, atitudes e propósitos objetivos inconfessáveis, pondo em destaque a competência de Spike Lee para a ilustração de assuntos difíceis, já demonstrada nesse outro filme que também aborda o tema do racismo; “BlackKklansman” de 2018, em que os elementos de controvérsia política estão intrinsecamente unidos no diálogo entre a população de uma cidade e sua polícia local.

Com o desenrolar da ação vai-se tornando difícil distinguir a ironia entre amigos, da lealdade castrense e dos objetivos individuais que lentamente vão revelando a sua verdadeira natureza, graças aos extraordinários atores que desempenham personagens credíveis em fervor de conflitos e nuances de comportamento, manifestamente inspirados pelo sóbrio argumento escrito por Lee e Kevin Willmott, que nos trás outra leitura da guerra do Vietnam que nunca tinha sido abordada até agora, com muitas referencias explicitas ao legado americano em Saigão, tais como, os estabelecimentos de fast food, Pizza Hut, Rambo ou Chuck Norris como heróis remanescentes de uma guerra inútil.

“Da 5 Bloods” no título original, é uma experiência ainda desagradável da guerra do Vietnam que contém comédia, dor, morte e ganancia, como se uma guerra nunca terminasse depois de começada. Também tem alegoria à santidade, com a aparição do falecido Stormin 'Norman que perdoa Paul pela sua morte, como Cristo aos fariseus, mas fundamentalmente oferece-nos uma justificação condenatória sobre a relação entre racismo e guerra, com uma paixão alucinada de imagens e ideias fortes. Muito bom, recomendo.

Atualmente só pode ser visto na plataforma Netflix desde 12 de Junho.

Classificação: 8,5 numa escala de 10

13 de junho de 2020

Opinião – “Os Tradutores” de Regis Roinsard


Sinopse

Nove tradutores foram escolhidos por uma editora implacável e trancados em um bunker luxuoso para traduzir o livro altamente antecipado, de um autor famoso, em tempo recorde. Embora os tradutores estejam confinados e vigiados à vista para evitar qualquer tipo de fuga de informação por causa dos grandes riscos financeiros, uma crise irrompe quando alguém publica na internet as primeiras dez páginas do romance e chantageia a editora a pagar 5 milhões de euros.

Opinião por Artur Neves

No retorno possível e tímido às salas de cinema com todas as reservas impostas pela pandemia eis que temos este “Os Tradutores” estreado ontem, 12 de Junho, nos cinemas City, pela mão da distribuidora Cinemundo, no género thriller, bem ao jeito do cinema Hitchcockiano (se é que o conceito existe) por nos mergulhar num enigma aparentemente impossível de acontecer, considerando as condições reservadas aos tradutores que foram selecionados para fazer a tradução em várias línguas de “Dédalus” o ultimo volume de uma trilogia escrita por um autor francês que se remete ao mais completo secretismo da sua personalidade, publicitando somente o seu nome.

Deixo aqui uma nota especial para a atris portuguesa Maria Leite, que desempenha o papel da personagem escolhida para a tradutora de português. Não comento as caraterísticas da personagem em si, determinadas pelo argumento da história, acrescentando somente tratar-se de um personagem new wave não muito comum na sociedade portuguesa, particularmente neste ramo de negócio. Penso tratar-se do reflexo como os outros vêm a nossa cultura e o nosso povo. Do ponto de vista da representação, o personagem está muito bem conseguido e Maria Leite, que pertence ao quadro fixo de atores do Teatro Nacional São João no Porto, não ficou diminuída na confrontação com alguns consagrados.

Regis Roinsard o realizador francês responsável pelo projeto apresenta como antecedente “A Datilografa” de 2012, uma comédia romântica na área do trabalho de escritório em 1958, com todos os maneirismos e convenções da época, que não serve de indicativo para este filme que documenta a loucura do estado de desvario e obsessão com o roubo de direitos da indústria editorial, que se por um lado beneficiou com a desenvolvimento tecnológico, por outro, sofre horrores com a cópia pirata e com os royalties perdidos.

Nesta história cria-se o suspense pela forma como os acontecimentos que foram antecipadamente previstos e acautelados, ocorrem de surpresa, ainda com o processo de tradução a decorrer e com a revelação das dez primeiras folhas serem divulgadas na internet. Decorrente dessa ameaça todo o ambiente de rotina maçadora inerente ao trabalho de tradução é alterado e todos os eleitos passam a ser suspeitos da fraude, seguindo-se pela tentativa de descoberta do responsável.

Isso implica uma sequência agitada de denúncia, acusação, defesa e meios de segurança que nos parecem forçados para o tema abordado. A literatura nunca despertou emoção ou twists muito movimentados na sua confeção, pelo que apesar de toda a agitação, falta em adrenalina o que excede em complicação e formalismo, muito embora enfatize que apesar da implícita rotina do trabalho de tradução, escrever é um ato solitário em que se tenta condensar toda a criatividade na capa ou na imagem que representa a história.

O verdadeiro criador pode usar técnicas modernas que todavia não interferem com o ato de criação á moda antiga, por vocação, dedicação, sem olhar ao tempo dedicado á criação ou aos proveitos dela obtidos que tem como exemplo máximo Marcel Proust e o seu extenso “Em busca do Tempo Perdido” citado no filme pelo editor. O suporte em papel está na genética do livro. O suporte eletrónico, embora moderno e atual, propicia o roubo e a falsidade e no mundo atual em que o que existe tem de dar lucro para permitir ser continuado, a história de Regis Roinsard bem pode ficar por aqui, pois esgota-se no fogo que a consome e aos livros.

É daqueles filmes que nos prendem enquanto duram, mas no retorno ao grande ecrã e com uma história intrincada de crime e fuga só pode ser recomendável.

Classificação: 6 numa escala de 10

9 de junho de 2020

Opinião – “K.O.” de Fabrice Gobert


Sinopse

Antoine Leconte é um homem de poder - arrogante, dominante em seu ambiente profissional e vida pessoal. Admirado por alguns, odiado por outros, nada e ninguém resiste a ele ... Até o dia em que um de seus funcionários o ataca brutalmente. Quando ele recupera a consciência no hospital, nada é como era: Antoine se encontra no lugar de um homem comum, descendo a escada social e profissional - e ao seu redor, todos os papéis são invertidos. Isso é um sonho ou realidade? Uma conspiração? Um pesadelo? Esgotamento? ... Determinado a reerguer-se, Antoine terá que lutar para recuperar tudo o que perdeu, sonho ou realidade? Será uma conspiração contra ele? Ele está K.O.

Opinião por Artur Neves

Classificado como thriller, mas sugerindo um género na área do drama psicológico, este filme apresentado em antestreia na Festa do Cinema Francês de 2017, traz-nos uma história que dificilmente interpretamos como pertencendo à classificação atribuída, estabelecendo mais uma vez as significativas diferenças de conteúdo entre as cinematografias europeia e americana, que o nosso mercado tem tendência em nos servir sem distinção. O realizador Fabrice Gobert com uma ampla obra de argumentista e diretor de séries para televisão desde 2002, apresenta-nos aqui o seu primeiro trabalho para cinema muito bem conseguido.

Laconte (Laurent Lafitte) é um gestor de topo numa empresa de comunicações que age discricionariamente com todos os subordinados na perseguição voraz do sucesso absoluto que ele pretende alcançar para a empresa e para si próprio como objectivo último da sua passagem pela vida. Na sua vida privada, escassa e frugal, replica o mesmo comportamento reunindo-se de bens materiais avultados, onde desfruta de uma caricatura de vida sentimental, parca de afetos, na companhia da sua mulher, Solange (Chiara Mastroianni) que deambula solitária pela casa com muito pouca ligação com ele e com as suas necessidades, que ele satisfaz onde calha.

Porém, há sempre um dia em que tudo muda, e esse dia acontece quando na sequência de um enfarto ligeiro ele entra em coma e o seu cérebro letárgico reverte todos os conceitos estabelecidos fazendo-o “viver” uma vida oposta da que está convencido que é a que detém por direito, confrontando-o com a “vida” dos outros que ele subjuga.

Imobilizado na cama do hospital, o outrora poderoso Laconte, “faz-se” sofrer das dificuldades normais que provoca aos outros, como que vivendo a sua vida num espelho, que transforma a imagem simétrica do seu contrário, na realidade que ele é agora forçado a viver, coabitando e relacionando-se com todos os personagens da sua vida real, mas num patamar de igualdade que lhe é completamente estranho, contra o qual ele se revolta, e por isso luta com todas as suas forças remanescentes na memória passada.

Trata-se pois da luta interna deste homem, agora fragilizado pelo acidente vascular que sofreu, sendo confrontado com a sua fraqueza e normalidade humana que ele sempre recusou, que ele sempre escondeu sob o manto diáfano do despotismo em benefício de um bem maior, que subitamente, através de um evento violento o despoja das suas premissas e o confronta com uma vida e uma realidade que totalmente desconhece, embora sempre tenha vivido nela mas noutro contexto. Trata-se no fundo, do confronto connosco próprios para que possamos progredir para um nível superior de existência, se soubermos aprender e aceitar a oportunidade de redenção através do reconhecimento dos nossos erros.

Bem interpretado, escorreito no argumento, sem deixar pontas soltas e com uma história interessante sobre o verdadeiro “eu” de um personagem que se confunde entre a realidade, e a fantasia com que está sonhando, constituindo aqui um bom exemplo da cinematografia francesa moderna de qualidade. Recomendo.

Disponível na plataforma Filmin para o utilizador, pelo preço de €3,95 durante 72 horas.

Classificação: 7 numa escala de 10


3 de junho de 2020

Opinião – “Ema” de Pablo Larraín


Sinopse

Depois de um longo e penoso processo de adoção, Ema, uma bailarina de "reggaeton", e o seu marido, Gastón, ficam responsáveis por cuidar de Polo, um menino órfão que nunca conheceu a estabilidade de uma família. A adaptação revela-se mais difícil do que imaginavam e algum tempo depois, Polo provoca um acidente que fere gravemente a irmã de Ema. Este incidente terrível deixa marcas e faz com que Ema tome a decisão de devolver a criança. Isso vai mudar radicalmente a forma como Ema e Gastón se vêem um ao outro, a si mesmos e ao mundo que os rodeia.

Opinião por Artur Neves

A sinopse anterior descreve o essencial deste “Ema” realizado por Pablo Larraín realizador Chileno nascido em 1976 que inclui no seu curricula cinematográfico obras tão diferentes como “Não” de 2012, um filme sobre revolta e direitos humanos contra a ditadura de Pinochet, “O Clube” de 2015 em jeito de denúncia sobre pedofilia praticada por religiosos católicos, que representa o seu filme mais emblemático, ou “Jackie” de 2016 sobre Jacqueline Kennedy Onassis, em jeito de novela, apresenta-nos agora este “Ema” cujo enredo apenas serve para suportar as personagens que o desempenham em diferentes situações, as suas vivências, objetivos, filosofias de vida, não sendo a história o mais importante, que apenas serve como fio condutor dos eventos que nos vão sendo mostrados durante cerca de 107 minutos.
“Ema” estreou no Festival de Cinema de Veneza de 2019 e quem conhece Larraín através das obras anteriormente citadas ou de outras de relevo semelhante, como “Tony Manero”,de 2008, sobre a angustiante figura e personalidade de um dançarino clássico, vai estranhar esta incursão no mundo da dança moderna e do "reggaeton", uma dança popular imbuída de uma expressão corporal intensa e culto da figura, com a qual Larrain parece algo perdido e só remotamente parece conhecer na sua essência. Recorde-se ainda que Larrain pertence a uma família da classe alta do Chile que apesar de no tempo de ditadura terem apoiado Pinochet, não o impediu de realizar “Não”, que constituiu o mais popular libelo acusatório contra os anos de chumbo desse período histórico.
Ema (Mariana Di Girolamo) é uma jovem bailarina que exprime através dessa arte os seus desejos, frustrações e tendências pirómanas, que funciona como metáfora para a combustão das sua múltiplas paixões, (ela chega a dançar com uma garrafa de combustível ás costas e um lança chamas na mão que inclui na coreografia) revolta-se contra o facto do seu marido e coreógrafo Gastón (o mexicano Gael García Bernal) não ser capaz de a engravidar para lhe permitir ser mãe natural, o que justifica a adoção de Polo (Cristián Suárez) um órfão a quem ela transmite as desilusões da sua vida e promove uma educação disruptiva no sentido da promiscuidade e da auto destruição que vitimou a sua irmã com fogo e que neste filme se torna um elemento fundamental da narrativa.
Esse evento promove o abandono de Polo e a separação do casal, depois de diversas acusações mutuas em que se revelam coisas que não vimos, nem sabíamos até ali, mas que permitem por parte dos atores interpretações credíveis, intensas, com Ema a polarizar toda a ação, de olhos fixos no “inimigo” (para ela todos o são) cabelos constantemente oxigenados e penteado agarrado à cabeça, numa atitude pós adolescente agressiva, disposta a desafiar todos os que interferirem no seu caminho.
Na sua ânsia de agarrar a vida procura outro parceiro, que mais tarde viremos com surpresa saber de quem se trata, embora em todo o filme o universo da dança reflita bem o seu desejo incontornável por liberdade e por protagonismo na vida de todos os que a cercam.
Ela deseja ser livre com a mesma intensidade com que deseja ser mãe, não avaliando a incompatibilidade entre esses objetivos, porque o seu desejo de maternidade decorre da sua turbulência emocional vivida na infância, para a qual a piromania funciona como o meio de eliminar o passado que lhe é doloroso. É por tudo isto que “Ema” é estranho ao universo de Larrain, considerando que apesar de existir uma história, um substrato coerente emocionalmente válido e escorreito, ele deixa tudo nas mãos de um personagem tão indomável como indefinível que se consome no fogo que deliberadamente espalha.
“Ema”, está disponível nas plataformas Netflix por assinatura, ou em Filmin, pelo preço de €3,95, sem contrato nem fidelização durante 72 horas.

Classificação: 6 numa escala de 10

31 de maio de 2020

Opinião – “Presságio” de Alejandro Montiel


Sinopse

Nesta prequela de "Perdida" de 2018, a agente Pipa não só tem em mãos o seu primeiro caso policial importante, como também investiga o seu superior, que é suspeito num homicídio.

Opinião por Artur Neves

“Perdida” é um filme dramático argentino deste mesmo realizador, baseado no romance “Cornélia” da jornalista também argentina; Florence Etcheves onde aparece o personagem de “Pipa”, Pelari (Luisana Lopilato), uma agente de polícia que neste filme ocupa a categoria de estagiária, embora se deva a ela a solução do enredo criminoso que dá suporte à história.
No original, este filme designa-se por “Intuition” (Intuição) muito embora a história que nos conta só muito remotamente seja atribuível à perceção instintiva sem razão objetiva, que está na base das deduções por intuição, mas a Netflix é que sabe e na sua distributiva operação pelo maior número de países do mundo, encaixa no seu cartaz este “conjunto de episódios” de séries policiais, costurando-os numa narrativa sequencial que pretende ser um filme e não a manta de retalhos que me pareceu, nesta estreia em 28 de maio.
O filme começa num prólogo, á boa maneira dos filmes de super heróis, em que Francisco Juanez (Joaquín Furriel) o detetive responsável pelo caso do desaparecimento em série de meninas está conduzindo os seus colegas floresta a dentro até ao covil do presumível sequestrador, embora contra as sugestões dos seus mais diretos colaboradores, ao que Juanez responde com a sua indefetível “premonição” de que se encontra no bom caminho da detenção do criminoso e do resgate da ultima vítima em cativeiro.
Ainda o fumo dos efeitos especiais (que simulava o nevoeiro húmido da floresta onde entraram) não se tinha totalmente dissipado e já Juanez está incumbido do próximo caso que envolve o assassinato de uma moça, para o qual ele recebe como ajudante a jovem detetive “Pipa” que não mais deixaremos de ver a partir daqui.
O que Juanez não sabe, (nem intui) é que ela foi incumbida de investigar secretamente a eventual participação de Juanez no acidente rodoviário que vitimou mortalmente um jovem que pertencia a uma família de ciganos comerciantes de acessórios de automóvel que foram responsáveis pela morte da mulher de Juanez.
Ao longo dos 116 minutos de duração do videograma acompanhamos a evolução das investigações, saltando de uma para outra fazendo crescer todas quase em simultâneo com “Pipa”, inicialmente muito desconfiada do seu parceiro e chefe de investigação e aos poucos amolecendo a sua atitude decorrendo dos factos que vão sendo descobertos, até ao ponto de passar uma noite com ele, por motivos exclusivamente profissionais… claro…
Aqui chegados só me apetece citar; “… não havia necessidade…” de juntar tantos clichés e lugares comuns num argumento de pacotilha, que embora reúna algumas cenas de interesse não possui qualquer originalidade nem a garra necessária que permita tornar o personagem de Juanez num investigador credível e a história, num todo coerente.
Juanez e “Pipa” são uma dupla que deveria constituir uma relação de “professor e aluna” mas que devido à investigação subterrânea de “Pipa” mais parece um jogo de gato e rato que para se manter têm de se gerar muitos hiatos de colaboração e de movimentações na ação que se torna algo penoso durante todo aquele tempo em que começamos a perguntar como é que aquilo acabará, sabendo-se antecipadamente que só pode acabar bem para que possa existir uma sequela. Poucochinho!...

Classificação: 4 numa escala de 10

28 de maio de 2020

Opinião – “Give me Liberty” de Kirill Mikhanovsky


Sinopse

Vic, um jovem desafortunado russo-americano, conduz uma carrinha de transporte de pessoas incapacitadas em Milwaukee. Já atrasado, num dia em que começam protestos, e à beira de ser despedido, concorda, relutantemente, em levar o avô e vários idosos russos a um funeral. Quando pára num bairro predominantemente afro-americano para ir buscar Tracy, uma jovem com esclerose lateral amiotrófica, o dia de Vic vai de mau a pior.

Opinião por Artur Neves

Esta é mais uma obra apresentada no festival de Sundance Film Festival de 2019, essa montra generosa que privilegia filmes de baixo orçamento e produção independente, fundada em Agosto de 1978 por Robert Redford, na capital do estado do Utah, a cidade de Salt Lake City tendo cumprido até agora os objetivos propostos, apresenta-nos esta história dirigida por Kirill Mikhanovsky, um realizador russo que se inspirou nos seus tempos iniciais como emigrante em Milwaukee, em 1993, onde serviu como motorista de transporte de pessoas com deficiência, e se confrontou com situações caricatas mas de elevado conteúdo humanista que agora, num tom habilidosamente ligeiro transportou para cinema.
Vic (Chris Galust) está num dia complicado pelo atraso que já regista na sua volta programada devido a diversas manifestações públicas contra a ocorrência de um tiroteio policial num bairro negro, que o fazem procurar alternativas ao percurso estabelecido. Não obstante, os imigrantes russos que moram no prédio onde ele visita o seu avô, pedem-lhe para os levar ao cemitério para as exéquias de um falecido que pertencia à comunidade. Vic sabe que o transporte que os devia levar já sofre um significativo atraso pelo que ele assume mais essa tarefa de transportar o grupo.
A habilidade de Mikhanovsky leva-o a pegar em pessoas deficientes reais, membros da comunidade russa imigrante de Milwaukee, frequentadores regulares do Eisenhower Center da cidade, incluídos num grupo de apoio de pessoas com deficiência e transforma-os em atores que exibem com a genuinidade inerente os seus medos, fragilidades e carências que compõem esta comédia, refinadamente caótica e imprevisível.
São pessoas despojadas do glamour do palco que exibem as suas carências naturais de atenção, excesso de solidão e prioridades avulsas, mostrando com o realismo rústico da sua existência as dificuldades levantadas numa viagem, num dia particularmente intenso e frio do inverno do Wisconsin.
Vic tem de seguir, embora remotamente, o plano estabelecido pela empresa de transporte onde trabalha, as coisas já estão a correr suficientemente mal com o seu patrão para que ele, sempre que é contactado por este, refira que se encontra a 10 minutos do destino, quando em boa verdade, devido às alternativas de percurso que tem de encontrar, seja impossível calcular o tempo em falta.
A “cereja no topo do bolo” é Tracy (Lauren “Lolo” Spencer) que num desempenho digno de registo se assume como defensora de pessoas com deficiência tendo obrigações de horário a cumprir para ajudar um amigo, Steve (Steve Wolski), que vai a uma entrevista de emprego. Por outro lado quem mais ajuda Vic e desestabiliza o grupo, é um pugilista russo, desempregado, barulhento e brigão, Dima (Maxim Stoianov) que entra em conflito com Tracy, portadora de ELA e tem de manobrar a sua cadeira de rodas motorizada, no interior de uma carrinha lotada de pessoas que reclamam, protestam e cantam canções folclóricas russa acompanhadas por um acordeão que rouba espaço necessário à cadeira de rodas.
É mais um filme sem heróis, que se desenvolve notavelmente pela sua autenticidade. A deficiência não é usada como lamentação de pessoas incapazes e incompletas ou como compensação moral da ajuda prestada pelas pessoas saudáveis. Mikhanovsky, a maior parte do tempo de câmara na mão, assume o compromisso de mostrar um nicho de sociedade marginalizada, cujas reflexões sobre a vida e o amor recentram a história em padrões comuns que proporcionam lindos momentos de tranquilidade e repouso naquela atribulada viagem.
Disponível na plataforma Netflix desde 12 de maio. Muito interessante.

Classificação: 6 numa escala de 10

22 de maio de 2020

Opinião – “100% Camurça” de Quentin Dupieux


Sinopse

Georges, recentemente divorciado, sente uma enorme dificuldade em adaptar-se à nova vida. A enfrentar uma espécie de crise existencial, esforça-se por ultrapassar a angústia que teima em não passar. Um dia, compra um casaco de camurça numa loja em segunda mão. O que vem a descobrir assim que o veste é que esse casaco concede estranhos poderes ao seu proprietário. Obcecado com a nova peça de vestuário, Georges muda radicalmente a forma de ver e sentir o mundo.

Opinião por Artur Neves

Quentin Dupieux é um realizador francês nascido em 1974 do qual, quase conheço uma sua realização de 2010; “Rubber – Pneu”. Se digo que “quase conheço”, é porque contactei com ele num videoclube, aluguei o videograma, comecei a vê-lo e ao constatar que se tratava da história de um pneu filósofo!… sim, um pneu que falava e que tinha vida própria rolando sozinho, acorreram-me imediatamente outras ideias de coisas mais uteis para fazer e interrompi o visionamento cerca de 15 minutos após o seu início. Devolvi o DVD e nunca mais pensei no assunto.
Nesta fase de confinamento em que procuramos ocupações para o tempo em excesso dei de caras na plataforma FILMIN com este “Le Daim” de 2019, no título original, escrito e realizado pelo mesmo senhor Quentin Dupieux e em consideração aos atores; Jean Dujardin e Adèle Haenel, de quem tenho algumas boas referências noutras interpretações, resolvi conferir-lhe o benefício da dúvida prometendo a mim próprio assistir a todos os 77 minutos de duração do filme.
Georges (Jean Dujardin) que só de raspão sabemos que ele é um divorciado recente (pelo desenrolar da história e do seu comportamento assumimos que a senhora terá tido todas as razões para se separar deste maluco) tem uma fixação intelectual num blusão de camurça com franjinhas, umas tiras fininhas também de camurça que pendem da parte de cima do peito, das costas e das mangas, com quem ele fala, tece considerações filosóficas sobre a sua aparência vestido com ele frente ao espelho e se propõe torná-lo o único blusão “vivo” através da liminar destruição de todos os blusões com que ele se cruze ao chegar aquela pequena cidade do interior americano, de carro, vindo não se sabe de onde nem porquê.
Ao chegar aqui lembrei-me logo do pneu a rolar isolado pela estrada e a comentar a sua existência, mas continuei a ver o filme, pois afinal tinha formulado um compromisso para 77 minutos o que até nem é muito…
Georges, porém, tem ainda outra fixação, assume-se como realizador de cinema para o que empunha constantemente uma máquina de filmar, uma Handycam da Sony de uso doméstico (pelo que me pareceu) e com ela motiva Denise (Adèle Haenel) a formar uma equipa de filmagem, depois de esta, na receção do hotel em que se alojou, lhe ter confessado que também gostava muito de cinema e tinha propensão para editora de filmes e que a atividade de edição preenchia completamente a sua veia artística.
Posso vislumbrar nesta obsessão pela filmagem uma crítica alusiva à multiplicidade de pessoas que de telemóvel em punho filma e fotografa tudo o que lhe aparece pela frente para posterior publicação nas redes sociais, mas daí até fazer como ele, de filmar e matar a tiro todas as pessoas que vestiam blusões, para lhos tirar e enterrar, para que só restasse o seu, o único blusão de camurça, vai um abismo de razoabilidade e de sentido.
Não quero revelar o final da história, mas a bem da lei e da ordem, um individuo que mata tão impunemente outras pessoas por um motivo tão fútil, só pode ter um fim semelhante às mãos de um sobrevivente que desempenhou um personagem ainda mais indefinido do que os participantes principais no enredo do filme… assim, tout court, sem mais nem menos... tiro e queda!...
Igualmente, sem me querer arvorar em detentor da verdade absoluta, informo que no IMDb (International Movie Data base) este filme tem a classificação de 6,8 num total de 4009 utilizadores, dos quais 34,5% atribuíram a classificação de 7, o que significa que outras pessoas tiveram opinião diferente da minha, todavia, declaro também que a minha classificação se destina totalmente aos atores e nada ao argumento, que reputo de fútil, desconchavado e idiota.

Classificação: 2 numa escala de 10

NOTA: Para quem quiser esclarecer as dúvidas que a minha crónica possa ter levantado, informo ainda que este filme está disponível na plataforma FILMIN, de origem espanhola e internacionalizada desde Novembro de 2016 no México e em Portugal, por €3,95, durante 72 horas, sem fidelização ou contrato, bastando apenas a inscrição no site.

21 de maio de 2020

Opinião – “All Day and a Night” de Joe Robert Cole


Sinopse

Enquanto Jahkor (Ashton Sanders, de “Moonlight”), de fala mansa e gestos contidos, luta para manter seu sonho de se manter vivo no meio de uma guerra de gangues em Oakland, sua vida infeliz e as responsabilidades do mundo real levam-no cada vez mais além da linha do certo e do errado com trágicas consequências.
Depois de ser preso e de encontrar seu pai na prisão, JD (Jeffrey Wright, de “Westworld”), com quem ele nunca se quis comparar, Jahkor embarca numa improvável jornada de autodescoberta, explorando os eventos que os unem, na esperança de ajudar seu filho recém-nascido a quebrar um ciclo que parece inevitável.

Opinião por Artur Neves

Este trabalho de Joe Robert Cole, realizador americano negro que tem no seu curricula “Black Panther” de 2018 e a popular e muito aclamada série para a televisão; “American Crime Story” apresenta-nos agora o ator de “Moonlight”, filme premiado na cerimónia dos Óscares de 2016, em Jahkor, um personagem que conta uma dramática história de vida de um garoto abandonado, com pai desaparecido, educado por um padrasto violento, a cumprir uma pena de prisão perpétua, mas com uma determinação de não deixar replicar que os seus erros de ontem se transformem amanhã em tragédias do seu filho.
A história começa pelo brutal crime a sangue frio que impõe a narrativa e o levará a julgamento e posteriormente à cadeia onde se encontra, numa cela isolada, que lhe permite reviver todo o seu caminho até ali reconhecendo a brutalidade dos seus atos como reflexo da infância e juventude que viveu, numa história de amadurecimento envolvido numa meditação sombria e desconfiada sobre a identidade, intenções e masculinidade do americano negro.
Embora sempre acompanhado na infância pela sua mãe Delanda, (Kelly Jenrette) e sua tia Tommetta, (Regina Taylor) duas fontes de força e amor duro, sempre a instigá-lo para seguir um caminho contrário aos exemplos diários com que se confrontava na escola e com os amigos frequentes, tais como, o astuto TQ (Isaiah John) desde sempre inclinado para uma vida de crime e arrastando-o com ele e o otimista Lamark (Christopher Meyer) sempre pronto a congeminar a melhor maneira de cometer o crime e escapar dele.
Em todo o filme ele mantém um monólogo íntimo e recorrente em que descreve uma narrativa de luta de gangs, de tráfico de droga, de racismo diário nos mais vulgares eventos quotidianos que motivam a citação em forma de murmúrio; “A escravatura ensinou os negros a sobreviver, mas não a viver” que ele repete em todos os momentos em que procura o isolamento para compor música hip-hop para a qual se sente particularmente vocacionado, embora sem oportunidade para a desenvolver naquele meio.
No desenvolvimento da história, entre o presente estado de reclusão e a descrição das razões que o levaram aquele medonho crime, o filme recorre-se de múltiplos flashbacks, sempre suportados pela sua voz em off, desde as lutas no recreio da escola em que experimenta a primeira satisfação de ter vencido um dos colegas mais acintoso e de ter cumprido a recomendação do seu pai adotivo de responder à violência com violência. Esta conclusão tornar-se-á uma emoção permanente na vida à qual se habituou.
“Todo o dia e uma Noite” na versão portuguesa, é uma história de fatalismo constante que elimina a possibilidade de redenção do que nos vai sendo apresentado. Sabemos desde o primeiro momento o crime que cometeu e que vai ser preso, portanto as suas tentativas de compor hip-hop, a sua recusa ao consumo de droga, o encontro com Shantaye (Shakira Ja'nai Paye) a quem faz um filho, são percalços de uma vida que sabemos não terá futuro e que deixa ao espectador a única hipótese de se concentrar no modo como tudo aconteceu.
Mesmo que em algum momento, como no tempo do seu relacionamento com Shantaye, você sinta alguma comiseração e esperança que ele atine com a vida, o filme a seguir mostra-lhe claramente que isso não vai acontecer, pelo que uma alteração da montagem poderia contribuir para a manutenção da esperança que a história se encarrega de eliminar.
Para lá das explosões de violência este filme contém uma meditação sobre a vida e sobre os maiores riscos de ser destruída e isso justifica o seu visionamento. Está disponível desde 1 de maio na plataforma Netflix.

Classificação: 6 numa escala de 10

13 de maio de 2020

Opinião – “Clara e Claire” de Safy Nebbou


Sinopse

Para espiar o amante Ludo, Claire, uma mulher de 50 anos, cria um falso perfil nas redes sociais. Transforma-se em Clara, uma belíssima jovem de 24 anos. Alex, amigo de Ludo, sente-se imediatamente atraído. Claire, prisioneira do seu Avatar, apaixona-se loucamente. Mesmo que tudo aconteça virtualmente, os sentimentos são reais.
Uma história vertiginosa em que a realidade e a mentira se confundem.

Opinião por Artur Neves

Não posso deixar de referir a proximidade em que se situam ambas as histórias contadas neste filme e no anteriormente publicado “Rainha de Copas”. São ambas, resultados de casos de assédio de mulheres de 50 anos, por um adulto jovem no caso deste filme e de um adolescente no caso do “Rainha de Copas”, as suas trajectórias, comportamentos e contextos é que são substancialmente diferentes, embora a sua raiz de solidão seja comum.
Com o enredo sumariamente descrito na sinopse, encontramos Claire (Juliette Binoche) no consultório da sua psicóloga Dra. Bormans (Nicole Garcia) tentando recompor-se do trauma de ter sido abandonada pelo seu marido (que a trocou por uma jovem que só posteriormente saberemos quem é) e pelo seu amante de ocasião, Ludo (Guillaume Gouix) que ela pretende perseguir através de interposta pessoa, para o que constrói um perfil falso numa rede social, com o qual pretende seguir os passos de Ludo através de Alex (François Civil), seu companheiro de quarto.
A relação estabelece-se no universo virtual e Alex e Clara (o perfil falso de Claire) estabelecem uma relação escaldante que do lado de Clara a transporta para a concretização dos seus desejos mais íntimos e para um amor a que ela não pensou inicialmente que sucumbisse, considerando os objetivos iniciais do seu projeto de seguimento de Ludo.
O drama romântico de Clara é nos apresentado por Claire em sucessivas sessões com laivos de suspense dignos de um thriller, incluindo ainda alguns dotes de comédia onde ela descreve e desafia a Dra, Bormans a comentar, a sua versão do amor vivido com Alex procurando conciliar os sentimentos de culpa e frustração, bem como, alimentar a sua carência de companhia e de amor que ela procurou através de uma mentira consumada nas redes sociais.
O silêncio circunspecto da psicóloga reflecte o olhar do espectador que se tenta defender da personagem apresentada por Claire, por pressentir que está sendo manipulado com uma história dentro da história que nos permite ajuizar a seriedade dos atos praticados por Clara ou por Claire, tal é o jogo de espelhos entre a realidade e o desejo do personagem ou do seu avatar.
Clara enreda-se assim nas suas próprias contradições assumindo como punição não permitir qualquer felicidade para si mesma, conduzindo Claire a uma instituição de doenças mentais para tentar reconstruir as partes em que se fragmentou, em que a intervenção da Dra Bormans é fundamental.
Esta troca de personagens on line é um fenómeno definido por catfish que Safy Nebbou, um realizador francês com origens argelinas, utiliza para nos avisar de um fenómeno real construído por pessoas que habitam este espaço virtual em busca de compensação física e emocional através da obtenção de likes que lhe criem a ilusão de viver relações reais, num meio virtual, onde cada um pode reinventar-se à sua maneira.
Nesta sua sexta longa metragem, Safy Nebbou adapta o romance de Camille Laurens "Celle que vous croyez", (“Aquela que vocês crêem que seja”, em tradução livre) utilizando a emblemática atriz de; “O meu belo Sol Interior”, Juliette Binoche, em mais uma magnífica interpretação do personagem dentro da personagem, sem receio de se mostrar como está, evidenciando toda a frescura remanescente dos seus 50 anos reais, a iluminação do seu rosto e do seu olhar que preenchem a tela. Embora sem o mesmo brilho próprio, este facto constitui outro ponto de contacto com a personagem de “Rainha de Copas” quando ela se aprecia frente a um espelho. A diferença fundamental entre as duas reside na tentativa de dissociação em que Claire se enreda, contra a acção que Anne projecta e deliberadamente pratica, todavia, ambas sofrem da mesma ausência que lhes traz solidão. Muito bom, recomendo.
Este filme está disponível na plataforma digital FILMIN por €3,95 ficando disponível para visionamento durante 72 horas.

Classificação: 7 numa escala de 10

10 de maio de 2020

Opinião – “Rainha de Copas” de May el-Toukhy


Sinopse

Anne, uma bem-sucedida advogada, vive numa belíssima casa modernista com as suas duas filhas e o marido Peter. Quando Gustav, o filho problemático de Peter, fruto de uma relação anterior vai viver com eles, Anne cria uma relação íntima com o jovem que põe em risco a sua vida perfeita. E aquilo que parecia inicialmente um acto de libertação, transforma-se numa história de poder, traição e responsabilidade, cujas consequências são devastadoras.

Opinião por Artur Neves

Pela mão de May el-Toukhy, uma realizadora dinamarquesa de origem egípcia, que igualmente participou em conjunto com Maren Louise Käehne na construção final do argumento, temos este excelente filme, vencedor do Prémio do Público no Festival de Sundance em 2019 e indicado pela Dinamarca para os óscares na categoria de Melhor Filme Estrangeiro que a Academia Americana se apressou a eliminar liminarmente, nem sequer o citando como candidato, considerando que a história aborda o assédio sexual de uma mulher a um rapaz de 17 anos seu enteado, o que iria frontalmente contra os ventos da época, engajados nos movimentos Time’s Up e #MeToo acérrimos promotores das denúncias de assédio sexual e moral a senhoras impolutas.
Sem prejuízo da aplicação da justiça ao mais famoso indiciado nessas práticas; o magnata Harvey Weinstein, fundador com o seu irmão da produtora Miramax, o filme ilustra como o assédio é um assunto transversal a ambos os sexos não havendo justificação objetiva à demonização do sexo masculino com a consequente vitimização do sexo feminino.
Anne (Trine Dyrholm, uma das mais conceituadas atrizes dinamarquesas) advogada da área familiar sobre casos de abuso e violência doméstica, vive com o seu marido Peter (Magnus Krepper) um médico de Estocolmo, viciado em trabalho, de trato rude e frequentemente ausente da maravilhosa casa onde o casal habita, situada em meio rural, circundada por árvores esguias de troncos nus e pouco frondosas mas que servem de filtro esparso à luminosidade do verão nórdico em fim de tarde e propiciam o tapete de folhas no solo que convida a passeios nostálgicos e mergulhos ocasionais na lagoa próxima.
Gustav (Gustav Lindh) é um jovem de rosto duro, revoltado com sua situação, fruto do primeiro relacionamento de Peter e que provisoriamente veio habitar com eles por desavenças com sua mãe, mas que estabelece excelente relação com as gémeas filhas de Anne, Fanny e Frida que podem ser representadas pelos personagens fictícios do romance de Lewis Carroll “Alice do Outro lado do Espelho” considerando a sua proximidade constante, sempre vestidas de igual, recebendo presentes iguais e ambas praticando equitação, com uma apetência cultivada pela mãe. Aliás, Anne também possui uma irmã, que neste contexto pode ser comparada à rainha má do mesmo conto e com quem não possui uma relação amistosa, decorrente das várias diferenças de sucesso alcançado profissionalmente por cada uma.
Os povos nórdicos têm esta tendência de submeter às suas tradições o seu modelo de vida atual, como forma de validação das suas premissas.
Anne, de rosto calmo com rugas de expressão, habita um palácio de cristal (a casa está repleta de amplas superfícies vidradas) num ambiente paradisíaco, de natureza, silencio e comodidade onde se sente demasiadamente só. O seu casamento já terá atingido a fase do apaziguamento da paixão embora ela incentive o seu marido a outros voos que são delicadamente suspensos pelas ocupações diárias e pelo cansaço. Eles reúnem frequentemente amigos em casa para passar a ideia de perfeição e felicidade, como é apanágio frequentemente reconhecido na sociedade dinamarquesa, quando o que realmente perdura é a monotonia e a solidão. Eles estão reféns da salvaguarda dos seus papéis sociais e absorvidos pelas aparências. Refletindo sobre si, ela desnuda-se em frente do espelho e exibe todas as suas rugas e estrias de um corpo de meia idade e sem ser uma femme fatale, longe disso, reúne espiritualmente todas as condições para amar e ser amada e da capacidade erótica de cativar o outro num amplexo amoroso.
O clique com Gustav dá se num banho na lagoa em que ambos se molham furiosamente, espargindo água num despique de inconsequente aproximação. Ela está reconhecida a Gustav pela companhia que faz às filhas e pergunta-se secretamente se lhe poderá também fazer companhia a ela e daí, como consequência do seu desejo de fuga à solidão acende-se o seu desejo sexual por Gustav, consumado numa noite de insónia em que deliberadamente o procura no seu quarto.
O filme é bastante completo na complexidade da temática que aborda e a realizadora não nos apresenta personagens unilaterais, pelo contrário, todos os personagens podem ser analisados nas suas múltiplas facetas e se as cenas entre Anne e Gustav representam a libertação das convenções e o amor, a relação entre Anne e Peter está eivada da dificuldade que ela sente na cama em se submeter ao marido assumindo uma atitude agressiva, representando a perda que o poder do homem, no conjunto do casal, se tem vindo a verificar através dos tempos devido á progressiva autonomização da mulher.
Todavia, nesta história não há culpados, há apenas seres que sofrem e se enredam na ilusão do amor total cometendo erros, e seres em formação, inconscientes do poder dos seus sentimentos que desmentem o chavão de que o envolvimento entre mulheres adultas e adolescentes jovens é mais romântico do que a relação que se estabelece entre mulheres adolescentes e homens adultos. A finalizar não quero deixar de referir a excelente banda sonora de Jon Ekstrand que prolonga e intensifica a ansiedade produzida pela história, ora frenética, ora colérica. Muito bom, completo, sem falhas.
O filme está disponível nos video clubes das televisões nacionais; MEO, NOS e Vodafone e pode ainda ser visto na plataforma eletrónica FILMIN Portugal pelo preço de €3,95, estando disponível para visionamento durante 72 horas.

Classificação: 9 numa escala de 10

NOTA: O filme está referenciado negativamente por uma cena de sexo explícito durante 4 segundos, mas na minha interpretação trata-se de uma simulação praticada com um vibrador ou com um brinquedo sexual semelhante. A história tem suficientes motivos de interesse por si mesma, para necessitar desses subterfúgios que não acrescentariam qualquer valor ao filme.