22 de fevereiro de 2020

Opinião – “Verdade Debaixo de Fogo” de Todd Robinson


Sinopse

William Pitsenbarger (Jeremy Irvine) foi um herói da guerra do Vietname. Paramédico da Força Aérea, salvou pessoalmente mais de 60 homens numa das batalhas mais sangrentas daquele conflito. Tendo oportunidade de fugir do campo de batalha no último helicóptero, Pitsenbarger ficou para salvar e defender os soldados feridos, acabando por ser morto por uma bala inimiga. Pelos seus atos heroicos, é proposto para a mais alta honra militar que um soldado pode alcançar - a Medalha de Honra do Congresso. No entanto, antes de ser atribuída, a medalha é-lhe retirada por razões indeterminadas.
Chamado para investigar esta questão, o Inspetor Scott Huffman (Sebastian Stan) é obrigado a investigar os obscuros e corruptos meandros políticos por detrás dessa decisão.
Com um forte elenco onde se destacam Samuel L. Jackson, William Hurt, Bradley Whitford, Ed Harris, Diane Ladd, Sebastian Stan, Verdade Debaixo de Fogo é o último filme do ator Peter Fonda.

Opinião por Artur Neves

É curioso verificar como um conflito dos anos 60 e 70 (começou em novembro de 1955 e terminou em abril de 1975) que marcou tão profundamente a sociedade americana desde 1964, ano em que os USA aumentaram significativamente os efectivos no terreno e se envolveram profundamente no conflito cujo resultado se cifrou em mais de 360 000 baixas entre; mortos, feridos e desaparecidos em combate, ainda justifica abordagens justiceiras para repor verdades históricas escondidas.
A história que este filme nos traz, muito bem escrita e contada pelo realizador Todd Robinson apresenta-nos a verdade sobre a morte em combate de William H. Pitsenbarger cuja dedicação abnegada à sua missão de médico de resgate da força aérea, foi responsável pela assistência de primeiros socorros a 60 soldados de infantaria, que por um erro de informação de localização destes efectivos, resultou numa das mais sangrentas e estúpidas batalhas desta guerra indefensável e desnecessária na história dos USA.
Quando Scott Huffman foi investido na tarefa de investigar o que realmente aconteceu e motivou o protelamento de 32 anos na atribuição do mais alto galardão de mérito militar a Pitsenbarger, estava longe de supor a grande injustiça que iria desvendar, perpetrada pela mais alta hierarquia militar para esconder a culpa e a incompetência dos seus atos na Operação Abilene, na primavera de 1966, responsável pela morte 36 soldados e 71 feridos. Todavia, a imputação de responsabilidade não é completa nem detalhada.
Este filme de guerra insere-se no género de “O Resgate do Soldado Ryan” de 1998 ou o mais recente “O Heroi de Hacksaw Ridge” de 2016, onde se reportam atos heróicos debaixo de fogo, esquecidos pela história, ou meramente apagados e escondidos, que se afirmam como um dos capítulos mais significativos que emergiram da guerra do Vietname.
O argumento é inteligente, porque alterna entre as descobertas de Scott Huffman no seguimento das revelações que ele vai colhendo, e os flashbacks com as cenas de batalha angustiantes e brutalmente intensas que ilustram os factos que ele vai compilando no desenvolvimento da tarefa que lhe foi confiada. Todos os outros personagens são bem conseguidos, com atores sólidos e experientes que agrada ver em palco.
É também um filme de encomenda onde se pretende reactivar o orgulho americano nas suas forças armadas que não têm desenvolvido as melhores performances noutros conflitos mais recentes onde têm estado envolvidas e o final é o que se esperava, em apoteose, com todos em pé prestando a homenagem merecida ao herói reconhecido. Fazer desta proposta um filme atraente para 116 minutos é difícil, mas não defrauda totalmente quem o escolhe.

Classificação: 6 numa escala de 10

20 de fevereiro de 2020

Opinião – “Fátima – O Poder da Fé” de Marco Pontecorvo


Sinopse

FÁTIMA, um filme que relata o poder da fé...
Em 1917,Lúcia, uma pastora de apenas 10 anos, e os seus dois primos mais novos, Jacinta e Francisco, têm visões de Virgem Maria, que lhes surge com uma mensagem de paz. As suas revelações inspiraram dezenas de milhares de fiéis que se deslocaram até Fátima, na esperança de testemunhar um milagre, mas não agradaram a Igreja e o Governo de Portugal, que tentaram forçá-los a recontar a sua história.
O que se viveu em Fátima mudou para sempre as suas vidas...

Opinião por Artur Neves

Pode parecer estranho mas o realizador Italiano Marco Pontecorvo apresenta-nos este filme que relata os acontecimentos da aparição de Maria, aos jovens pastores; Lúcia (Stephanie Gil) Jacinta (Alejandra Howard) e Francisco (Jorge Lamelas), vividos na Cova da Iria em Março/Abril de 1917, durante o período da 1ª guerra mundial em que Portugal foi representado como uma país pobre, com um povo generalizadamente inculto e a braços com uma crise de fome real.
Como teve na sua origem a intenção de distribuição internacional o filme é falado em inglês e legendado em português como convém. Segundo o anúncio nas primeiras imagens o filme é baseado nas revelações da irmã Lúcia que serviram de base para a história escrita por Barbara Nicolosi.
O argumento é portanto conhecido pela maioria dos portugueses, as aparições de Maria (Joana Ribeiro) aos três pastores que são reveladas às famílias e por estas ao povo da aldeia e do país (curiosamente, na altura, sem Internet nem meios de comunicação “decentes” mas mesmo assim isso não impediu que a mensagem fosse amplamente divulgada) justificando a peregrinação de uma multidão que se reuniu para assistir às aparições anunciadas por Maria com hora e data marcadas.
O filme começa pela entrevista do Professor Nichols (Harvey Keitel) à irmã Lúcia (Sónia Braga) já adulta e em clausura, cujo diálogo é suficientemente assético para poder dizer-se que o filme não é beato. Limita-se à representação dos factos, à intervenção do “Father” Ferreira (Joaquim de Almeida) o padre da aldeia que num primeiro tempo tenta que Lúcia se cale e confesse que estava a mentir, bem como, Artur (Goran Visnjic) o mayor da aldeia que chega a mandar fechar a igreja, seguindo ordens superiores de Lisboa, mas deixa ao espectador o livre arbítrio de assumir que se está em presença de um ato divino só acessível pela fé, de negar frontalmente o que lhe estão a apresentar se for ateu, ou pura e simplesmente observar com o distanciamento do agnóstico, que espera uma prova racional e objetiva para os acontecimentos em presença.
É pois um filme de apresentação factual, segundo a descrição da irmã Lúcia, que analfabeta como era na juventude não terá tido muita capacidade para os avaliar e descrever. Mostra também o efeito do “sol a dançar” e de seguida alguém refere que o mesmo já terá sido apreciado noutros locais, portanto milagres só para quem os quiser aceitar como tal e isso será da sua inteira responsabilidade, o que eu reputo de muito positivo pois é um elemento que poderia conduzir à transcendência fácil.
O filme foi rodado nas cenas de aldeia, na Tapada de Mafra e as aparições, nos terrenos circundantes do Santuário de Fátima, os cenários são convincentes, assim como o guarda roupa adequado à época, mas decorrente do seu conteúdo já bem conhecido pela generalidade das pessoas a história perde-se em surpresa, emoção e desfecho, por serem demasiado esperados. É um déjà vu completo, sem gerar polémica.

Classificação: 5 numa escala de 10

17 de fevereiro de 2020

Opinião – “SEBERG - Contra todos os Inimigos” de Benedict Andrews


Sinopse

Jean Seberg (Kristen Stewart) é já uma conhecida atriz e apoiante do movimento pelos direitos civis, quando se envolve por Hakim Jamal (Anthony Mackie), um carismático ativista do movimento Black Power, e o seu relacionamento rapidamente passa de político para romântico. Esse envolvimento fazem dela um alvo do FBI, e os agentes Jack Solomon (Jack O'Connell) e Carl Kowalski (Vince Vaughn) tudo fazem para documentar esta relação.
Jack torna-se obcecado e atraído pela presença luminosa de Jean, o que a leva a perceber que está a ser seguida, tornando-se cada vez mais psicologicamente instável.
Empenhados em desacreditar Jean e o próprio movimento, o FBI lança informações escandalosas que dilaceram a família de Jean e erguem uma barreira entre ela e as suas paixões. Horrorizado com o impacto desta ação e envergonhado pela sua participação nela, Jack embarca numa missão de salvação e redenção que o coloca por momentos em contacto direto com Jean. Para ele, é simultaneamente um confronto com a sua obsessão e um ponto de viragem moral. Para Jean, é a confirmação de que foi vítima de um sistema corrupto e um reflexo do papel que desempenhou no seu próprio desenlace.

Opinião por Artur Neves

Com a extensa sinopse anterior enviada pelo distribuidor, a história de Jean Dorothy Seberg fica contada pelo que a seguir ficamos com a oportunidade de nos dedicarmos ao filme que Benedict Andrews nos apresenta. Realizador australiano nascido em Adelaide em 1972, e educado no Flinders University na Austrália, que não conta no seu histórico profissional com trabalhos de relevo, para o qual este biopic de Jean Seberg poderia ser a sua rampa de lançamento.
Poderia, mas definitivamente não é!... A história é boa, apresenta potencial de desenvolvimento noutras mãos que lhe saibam conferir a denúncia pública de interferência abusiva da poderosa organização de investigação americana, FBI, na vida particular e íntima de uma cidadã americana cuja verdadeira culpa é o desejo de igualdade entre as pessoas independentemente da sua cor de pele, contribuindo para essa causa com o seu dinheiro e a sua pessoa, imbuída de um espírito de justiça ingénuo, impróprio para a luta pelo poder, pensando que toda a sua vida pode continuar igual ao que era, apesar de se ter apaixonado pelo líder da organização Black Power e de permitir que a própria organização utilize as suas doações para fins diferentes dos inicialmente anunciados; a educação de crianças e jovens com vista a um mundo melhor (já nos cruzámos com isto tantas vezes!... que até doi…).
O que Benedict Andrews nos mostra é uma narrativa sem alma, dececionante e baseada em clichés sobre a vida da atriz, fantasiando a existência de um agente “bonzinho”, Jack Solomon, que tem muita pena e sente-se muito mal com o que está fazendo sem contudo deixar de continuar a praticar o mesmo registo e que num momento de remorso insuportável subtrai clandestinamente o dossier da atriz dos arquivos e leva-o para o mostrar a Jean Seberg numa atitude de patético arrependimento que não contribui literalmente para nada, nem para a justiça, nem para a condenação do Black Power, nem para a sua redenção ao serviço da torcionária organização, nem para a sua própria vida pessoal, já parcialmente desfeita com sua esposa Linette Solomon (Margaret Qualley) que suspeita que ele tem um caso decorrente do seu mutismo, tristeza e abandono em casa. Daqui, o sobre título do filme: “Contra todos os Inimigos”. Não há evidências históricas sobre este personagem, nem tão pouco que o FBI tenha sido acometido de alguma “dose de arrependimento” depois da sua intervenção.
Quanto aos outros personagens, Benedict também não os trata bem, são figuras menores, mostrando somente a sua relação com a atriz, sem “espessura”, sem a densidade dramática que a luta contra a segregação nos USA sempre motivou. São pouco mais do que folclóricos.
Salva-se Kristen Stewart que apresenta um bom desempenho como Jean Seberg, não só constituindo uma escolha feliz considerando as suas semelhanças físicas com a atriz, como mostrando que ainda se está revelando e tem muito para dar. Depois da saga Twilight em três partes que a projetou ao estrelato do público mais jovem e da sua boa prestação em “A Vingança de Lizzie Borden” de 2018 (já comentada neste blogue) temos aqui uma representação madura que só peca pelo que a narrativa não soube explorar, para ela vai toda a classificação a seguir indicada.

Classificação: 6 numa escala de 10

15 de fevereiro de 2020

Opinião – “Retrato de uma Rapariga em Chamas” de Céline Sciamma


Sinopse

1770. Marianne é pintora e tem de pintar o retrato de casamento de Héloïse, uma jovem que acaba de sair do convento. Héloïse resiste ao seu destino de esposa, recusando posar. Marianne tem de a pintar em segredo. Apresentada como dama de companhia, observa-a todos os dias.

Opinião por Artur Neves

Céline Sciamma, autora e realizadora francesa nascida em 1980, mostra-nos este drama humano de sensualidade reprimida situado na frança do século XVIII, que se assume como um manifesto feminista corajoso e direto contra o sexismo patriarcal da época, mas que ainda hoje se pode entender como atual.
O filme foi nomeado para competir no Festival de Cannes de 2019, tendo ganho o Queer Palm sendo o primeiro filme com este galardão realizado por uma mulher. Céline Sciamma ganhou o prémio de melhor argumento e numa primeira apreciação posso dizer tratar-se de um filme magnífico, considerando a subtil delicadeza com que a autora nos consegue transmitir a indução amorosa estabelecida entre duas mulheres. O resumo do argumento está bem condensado na sinopse deste filme, só de mulheres e em que os homens são totalmente secundarizados e circunscritos a interpretações marginais absolutamente descartáveis.
A história real do filme é o desenvolvimento do amor devastador, absoluto e completo que desponta entre Marianne (Noémie Merlant) e Héloïse (Adèle Haenel) muito embora ambas saibam ser impossível por corporizar um casal incompatível com as convenções da época. Embora numa primeira fase elas tentem ignorar a atração irresistível que experimentam no amor proibido, a paixão é mais forte e os corpos sucumbem ao desejo que as consome.
Céline Sciamma sabe mostrar-nos os artifícios dos olhares roubados, dos silêncios plasmáticos, que servem para reter a imagem a representar na pintura, mas nós o que vemos é o exercício de observação de Marianne, que observa Héloïse, que observa Marianne num crescendo de interesse mútuo, de erotismo, de sensibilidade feminina contida pela conveniência das posições que cada uma ocupa e da coragem individual para revelar as suas pulsões, mas que o público fica completamente informado aonde isso levará.
Sciamma não está só, pois a diretora de fotografia Claire Mathon que a acompanha, sabe extrair das imagens toda a sinceridade do amor descoberto, que conferem à história uma fluidez e uma beleza visual que se adapta perfeitamente à placidez do relacionamento entre uma aristocrata e uma pintora contratada pela futura sogra, La Comtesse (Valeria Golino) para lhe fazer um retrato que será apresentado ao futuro marido de quem ela apenas sabe, ser natural de Milão.
Para lá do assunto central temos ainda a jovem criada da casa Sophie (Luàna Bajrami) grávida não se sabe de quem, mas que pretende interromper a gravidez e é levada a correr a “via sacra” das parteiras e curandeiras da vila com a complacente ajuda de Marianne e Héloïse, conferindo ao papel de Sophie uma dimensão maior no lugar destinado às mulheres na sociedade daquele tempo que só adiciona valor ao propósito que motivou Sciamma a desenvolver este argumento.
O guarda-roupa de Dorothée Guiraud é igualmente impressionante conferindo aos personagens a dignidade das suas posições sociais, sem adornos supérfluos e com uma precisão minimalista, austera, convincente e real. “Retrato de uma Rapariga em Chamas” faz parte de uma cinematografia sensual que se afirma por amor silencioso e olhares tristes e profundos, desempenhado por mulheres lindas no corpo de atrizes ótimas. Gostei e recomendo.

Classificação: 8 numa escala de 10

14 de fevereiro de 2020

Opinião – “Sonic – O Filme” de Jeff Fowler


Sinopse

Baseado no videojogo da Sega, sucesso à escala global, Sonic – O Filme conta a história do ouriço mais rápido do mundo a partir do momento em que este chega à sua nova casa – o planeta Terra. Nesta comédia e aventura live-action, Sonic e o seu novo melhor amigo Tom (James Marsden, da série de TV “Westworld”) juntam-se para defender o planeta do génio do mal, o Dr. Robotnik (Jim Carrey), e dos seus planos para domínio do mundo. Um filme para toda a família que conta ainda com Tika Sumpter e Ben Schwartz (voz de Sonic).

Opinião por Artur Neves

Sonic the Hedgehog é um personagem criado pela Sega em 1991 e que ficou sendo a sua mascote identitária na área dos jogos de computador. Chega agora ao cinema numa demonstração da sua capacidade principal – a velocidade – que usa contra o seu arqui-inimigo o Dr. Robotnik. O seu aparecimento corporizou a resposta da Sega ao sucesso do Super Mário da Nintendo, pela mesma época, em que já vendia abundantemente as aventuras de Mário no reino fictício do cogumelo.
Considerando que os jogos de computador privilegiam a resposta mecânica e a agilidade digital no acionamento de botões de um comando que interage com uma plataforma virtual, pode inferir-se que as questões colocadas na plataforma e que motivam a ação do jogador são muito simples, diretas e obvias que se completam com os cliques no comando. Assim sendo, a história do filme (tal como as histórias dos jogos) são praticamente iguais a zero.
Deste modo, esta conversão em cinema de um personagem carismático dos jogos de computador mais não é do que um tributo aos fans do género, na senda de obter na bilheteira um ganho adicional que potencie o franchaise do personagem em áreas ocupadas pelo Super Mário. Vendo o filme todo, mesmo até depois dos créditos finais, vemos o vilão, vencido pelo nosso ouriço veloz, perdido na Cogumelândia (Mushroom Hill como é conhecida nos jogos) prometer que estará de volta pelo Natal, portanto preparem-se porque um mal nunca vem só.
A juventude que cresceu com o personagem deve sentir-se honrada pela homenagem ao seu herói de eleição, porém todos os outros devem achar algo estranho o relacionamento de um ouriço com os humanos, para lá de que, até agora, as adaptações de jogos de computador ao cinema perdem a interação com o jogador, objetivo fundamental do jogo, e com isso, nunca se consegue constituir uma narrativa cinematográfica interessante.
Ainda assim, a melhor performance vem do Dr. Robotnik (Jim Carrey), que andava á algum tempo afastado dos ecrãs. Desempenha um génio louco, histriónico mas agradável q.b. que o coloca noutro patamar dos seus coadjuvantes, interpretando as melhores piadas do filme.
No aspeto técnico o filme é impecável, grande ecrã, cores vivas e muito realistas, combinação de atores humanos com banda desenhada, que apesar de não constituir novidade tem sofrido grande evolução bem visível neste filme. Muita ação, sem tempos mortos nem surpresas, porque, por mais poderoso que o Dr. Robotnik possa ser, Sonic encontra sempre um meio de o desfeitear até o transmutar para outra dimensão de espaço e tempo. Se é fan, este é o seu filme, caso contrário procure outra solução.

Classificação: 4 numa escala de 10

12 de fevereiro de 2020

Opinião – “Gretel & Hansel” de Oz Perkins


Sinopse

A história que todos conhecemos esconde um segredo sinistro. Há muito tempo, numa distante terra de contos de fadas, Gretel conduz o irmão para um bosque escuro em busca de comida e trabalho, encontrando em vez disso o caminho para um mal aterrorizador.
Do visionário realizador Oz Perkins, chega-nos uma nova e aterradora abordagem a um conto clássico, protagonizada por Sophia Lillis (It).

Opinião por Artur Neves

“Hänsel und Gretel” é um contro da tradição oral alemã, escrito pelos Irmãos Grimm e publicado pela primeira vez em 1812 como sendo uma versão esterilizada para a classe média do século XIX com a intenção de ilustrar a dureza da vida na Idade Média, devido à fome e á miséria generalizada, em que um casal profundamente carente de comida para se alimentar, abandona os filhos ao seu destino na floresta, para os salvar de serem comidos por eles próprios, se não pudessem resistir a essa tentação.
Nas suas deambulações pela floresta os dois irmãos encontram uma casa que pertence a uma bruxa que os alicia e entrar apresentando-lhes uma mesa com as maiores iguarias que eles alguma vez tinham visto, mas cuja verdadeira intenção era comer o pequeno Hansel, convencendo Gretel a ajudá-la a preparar a refeição.
Osgood (Oz) Perkins, ator e realizador americano, adapta este conto a um filme de terror, o que já anteriormente tinha sido realizado com mais espetacularidade, mas sem tanta intensidade dramática e elegância formal submetida à frugalidade da época em que a história se desenrola tornando este filme austero e sombrio.
Não se percebe a inversão dos nomes considerando que a história é praticamente a mesma da original. A caminhada pela floresta dos dois irmãos é longa e descritiva, recheada de revelações introspetivas daqueles dois seres ligados familiarmente mas que a carência alimentar e a fome que os assalta lhes provoca a visão sonhadora de outros seres e de outras realidades em que a presença das árvores somente acentua a sua solidão e isolamento.
O filme anima um pouco depois do encontro com uma misteriosa casa triangular situada na floresta. É a casa da saciedade com tantas e tão boas iguarias com que Holda (Alice Krige), a bruxa, alicia Gretel (Sophia Lillis) e Hansel (Samuel Leakey) e entrarem em casa para desfrutar do manjar que lhes é servido. A casa apresenta exteriormente uma forma aparentemente normal mas a sua dimensão interior é infinita, com uma cave onde cabem todas as magias e feitiços seguindo a fantasia de um argumento que se afirma numa estética baseada em cenários impressionantes e grotescos.
É a fase da consciencialização de Gretel e da responsabilização pelo seu pequeno irmão apesar de intimamente o acusar como responsável por se encontrarem ambos naquela situação e do ressentimento moral por ter recusado uma proposta anterior, atualmente vista com outros olhos.
Como fantasia, o filme segue os cânones do conto de fadas embora transformando inteligentemente a história original. Como filme de terror, o realizador procurou intensificar o sinistro que se adivinha e a inquietação subtil que perpassa em quase todas as cenas, do que o gore tradicional deste género, como tal, pode ser aceitável para um público que prefere o racional perturbador, em vez da morte gratuita e do sangue a jorros. Se não preferir a magia dos contos de fadas há melhores sugestões em cartaz.

Classificação: 5 numa escala de 10

6 de fevereiro de 2020

Opinião – “Diamante Bruto” de Josh e Benny Safdie,


Sinopse

Dos aclamados cineastas Josh e Benny Safdie, (Irmãos Safdie) surge este eletrizante thriller policial sobre Howard Ratner (Adam Sandler), um carismático joalheiro de Nova Iorque sempre à procura do próximo grande sucesso. Quando ele faz uma série de apostas de alto risco que podem levar à sorte de uma vida inteira, Howard deve executar um ato precário, equilibrando negócios, família e atacando adversários por todos os lados, na sua busca incansável pela vitória final.

Opinião por Artur Neves

Mais uma grande realização de cinema independente que estreou em 31 de Janeiro na Netflix e que foi ignorada para os Óscares pela Academia Americana por preconceito, digo eu, pois Adam Sandler um habitual ator de comédias tem aqui a interpretação de uma vida no desempenho do personagem de Howard Ratner, o dono de uma joalharia situada no quarteirão de Manhattan conhecido como Diamond District onde estão localizadas as mais famosas lojas de artigos de luxo no ramo da relojoaria e das joias de mão, pulso ou pescoço. Consta que o seu número total é de cerca de 2600 lojas e todas competem acerrimamente entre si pelo maior volume de vendas.
Howard Ratner, para lá de joalheiro é um jogador de apostas inveterado que utiliza todo o tipo de esquemas, dos mais ilegais aos mais imorais para obter dinheiro que satisfaça o seu vício inultrapassável de apostar. Ele não é um vencedor, joga muito e ganha menos do que perde, pelo que para saldar as suas dívidas ele precisa que o dinheiro circule a todo o custo, para continuar a ter dinheiro que permita satisfazer a sua necessidade.
A história que suporta o filme é simples. Um joalheiro obtém um diamante em bruto e quer vendê-lo pelo maior preço para satisfazer o seu vício de jogo e as suas dívidas. O importante aqui é o personagem criado por Adam Sandler que se move em meios distintos, apresentando-se de camisa de seda rosa, ou dentro da sua jaqueta de couro folgada e amassada por muitos anos de uso, percorrendo a terra de ninguém do comércio legal e fraudulento, onde as marcas ocupam o objetivo principal dos clientes sejam verdadeiras ou contrafeitas pelos falsificadores locais. Tudo se vende, tudo serve para obter dinheiro, muito dinheiro.
Os irmãos Safdies que realizaram o filme, estudaram o local durante 2 anos, registaram o ambiente real, contactaram os vendedores locais ao ponto de alguns deles entrarem no filme e colocaram Howard Ratner no centro de uma tempestade implacável de relações humanas com fins comerciais que demonstrou a extraordinária capacidade de Sandler de assumir esse personagem maior do que o normal, mas incrivelmente humano, casado com uma mulher que não acredita num cabelo que lhe pertença, um filho que ele adora e uma amante que é simultaneamente sua secretária e confidente, de quem necessita como de dinheiro, mesmo ela não sendo tão fiel como ele desejaria.
As suas dívidas justificam o grupo de malfeitores que anda atras dele a exigir-lhe dinheiro e de quem ele não foge, nem se afasta porque um deles é o seu próprio irmão, judeu como ele, que entre duas idas à igreja e o jantar do dia de ação de graças o pressiona para que pague o que deve. Ele deposita toda a confiança na opala em bruto que obteve e na fixação de Kevin Garnett, ex-jogador da NBA, pela pedra cintilante que lhe quer comprar e que ele quer vender por um valor que o retire do sufoco em que vive com os seus credores.
Entretanto, ele ainda tem planos a cumprir no âmbito do vício do jogo e na forma como a venda da pedra lhe poderá render vantagens marginais. Um excelente filme e uma magnífica interpretação de um ator em que a Academia não reparou.

Classificação: 8 numa escala de 10

5 de fevereiro de 2020

Opinião – “Especiais” de Olivier Nakache e Éric Toledano


Sinopse

Bruno (Vincent Cassel) e Malik (Reda Kateb) vivem num mundo diferente durante vinte anos: o mundo das crianças e dos adolescentes autistas. Responsáveis por duas organizações sem fins lucrativos (The Hatch e The Shelter), eles proporcionam formação a jovens de zonas desfavorecidas para que estes possam ser cuidadores em casos extremos recusados por todas as outras instituições. Trata-se de uma parceria excecional, à margem dos parâmetros tradicionais, para personagens bastante extraordinárias.
“Especiais”, da dupla de realizadores franceses Olivier Nakache e Eric Toledano que alcançaram o êxito com o filme ‘Amigos Improváveis’, (2012), foi o filme escolhido para o encerramento do 72º Festival de Cinema de Cannes.

Opinião por Artur Neves

A história deste filme corresponde ao relato diário da vida de duas instituições francesas dedicadas ao apoio voluntário a deficientes de autismo profundo sem quaisquer meios de apoio do estado Francês e perseguidos pela inspeção do Ministério da Saúde e de outras autoridades legais, por não terem licença oficial para exercer a atividade a que se dedicam.
Adicionalmente, Bruno, consegue um 2 em 1, isto é, considerando a ausência quase total de meios de apoio à atividade, Bruno convida ex-drogados, delinquentes em liberdade condicional e outros desvalidos da sociedade como adjuntos, para apoiarem individualmente os deficientes profundos assumidos pela instituição. Obviamente que eles não possuem formação específica e muitos deles nem a querem adquirir, mas têm ali uma oportunidade de valorização, de redenção para os delitos anteriores que a sociedade “normal” os acusou e marginalizou.
A organização de Bruno instila-lhes a possibilidade de serem úteis à sociedade, a necessidade de integração e de pertença à custa do seu recrutamento para dedicação exclusiva a um deficiente, de forma a ganhar-lhes a sua confiança exclusiva, como único meio de conseguir que essas pessoas, para as quais os parâmetros de convivência em sociedade são diferentes ou até opostos ao comum, remetendo-os a um mutismo e isolamento cognitivos que em situações de stress pode levá-los à violência extrema, contra si mesmos ou contra quem está mais próximo deles, independentemente dos laços que os liguem.
Como eles não devem ficar confinados a um espaço e pelo contrário devem habitar espaços amplos onde possam libertar a sua energia auto acumulada pela inação ou pela não coordenação da sua mente no aspeto da socialização, é Malik que ajuda Bruno, com a sua furgoneta pertencente a outra associação, a transportá-los e aos cuidadores pessoais nas saídas, viagens e ocupações lúdicas, tão vitais para a sua integração social.
É através do acompanhamento dos casos extremos de cuidadores e de deficientes que o filme nos mostra a o trabalho extraordinariamente meritório das duas associações; The Hatch e The Shelter, na sua luta pela dignificação e ajuda ativa de pessoas que habitam as margens da sociedade, quer por defeito congénito, quer por queda na marginalidade, no abandono e descriminação social a que nenhuma instituição pública efetivamente se dedica.
O exemplo acabado reside na conversa entre Bruno e os inspetores que mais uma vez lhe querem fechar a instituição. Acatando as determinações do relatório da inspeção, ele declara que abandonará a atividade no exato momento em que o Instituto da Segurança Social vier buscar os deficientes que acompanhámos mais de perto durante o filme. Isso é quanto basta para que seja aprovado um decreto governamental que publica uma licença oficial extraordinária para a continuação da atividade da instituição The Hatch, agora legalizada. No fim das contas, nada de novo.

Classificação: 6 numa escala de 10

1 de fevereiro de 2020

Opinião – “Corpus Christi – A Redenção” de Jan Komasa


Sinopse

O filme conta a história de Daniel, um jovem de 20 anos, preso num centro de detenção juvenil que, após uma experiência espiritual transformadora, pretende dedicar a sua vida à igreja e servir como padre. No entanto, por causa do seu antecedente criminal, esse desejo é praticamente impossível de concretizar.
Quando Daniel sai do centro de detenção é contratado para trabalhar na serração de uma pequena aldeia, onde chega vestido com o hábito de padre e, quase acidentalmente, toma posse da paróquia local. A presença de um jovem e carismático orador é a oportunidade para a comunidade local começar o processo de cura depois da tragédia que aconteceu lá.
Este é um dos filmes nomeados na categoria de Melhor Filme Internacional da edição de 2020 dos Oscars® da Academia.
Em Portugal, o filme tem data de estreia confirmada a 6 de Fevereiro.

Opinião por Artur Neves

Da Polónia chega-nos uma história arrebatadora de várias convenções de comportamentos humanos, particularmente os ligados à fé e à prática católica, numa comunidade rural que vive o tempo presente amarrada ao cisma dogmático de uma religião, que acusa, condena e espartilha os seus fiéis, em vez de perdoar, agregar e conciliar as atitudes desviantes a que o espírito humano está sujeito.
O filme é livremente adaptado de um caso real ocorrido na Polónia, em que um leigo faz-se passar por padre durante algum tempo, numa paróquia rural. No filme, Daniel (Bartosz Bielenia) assume esse papel quando se dirige para uma serração de madeira para cumprir o período de liberdade condicional e pára numa igreja para refletir sobre a epifania que sentiu na última missa em que assistiu o padre Tomasz (Lukasz Simlat) na sua função de acólito. Por mero acaso ele vê-se nessa situação, que se complica quando o padre da vila cai enfermo numa cama por excesso de álcool e lhe pede para assumir temporariamente as suas funções.
Daniel, entre o constrangimento e a felicidade de realizar o seu sonho, aceita o encargo. Ele é um condenado jovem e simultaneamente um convertido que assume uma mentira e constrói um personagem ambíguo que tenta reinventar-se noutra dimensão, ao mesmo tempo que a sua consciência o impele a compensar a mentira com a prestação de um serviço útil aos fiéis.
O povo é simples, crente e segue a determinação da igreja em modo de ovelha obediente, sem questionar, sem contrapor o que facilita a aceitação de Daniel no seu seio, através do seu carisma, das suas alegações inovadoras, da sua bela voz ao cantar hinos de redenção e da sua palavra que vem dar corpo à crescente apatia social com a religião tradicional, com a hipocrisia e a corrupção na igreja a que se juntam os casos de abuso sexual de menores e o recente problema do celibato dos padres, que embora neste filme sejam abordados de “raspão”, não deixam de constituir o “elefante na sala”.
A pessoa corresponsável pela confusão em que ele está metido é Eliza (Eliza Rycembel), filha de Lídia (Aleksandra Konieczna) a conservadora da igreja e cuidadora do pároco. Entre Daniel e Elyza desenrola-se uma tensão sexual desde o primeiro encontro que vem a consumar-se depois mostrando que homens e mulheres foram feitos para se encontrarem sem condições prévias, porém, na fé católica quando um homem adota a via clerical, abdica da sua natureza humana por obediência a um Deus castrador.
Ao manter a sua mentira continuadamente Daniel desafia não só a fé, mas também a autoridade civil da povoação, habituada a controlar ordeiramente o pastor do rebanho e o que começou como um impulso de fé transforma-se em algo mais sério e mais difícil de gerir quando ele se apercebe que o povo da vila está profundamente dividido e ainda sofre a dor causada por um dramático acidente ocorrido anos antes que dividiu as pessoas em duas fações antagónicas, que ele se desafiou em conciliar.
Na sua essência este filme tem uma história simples, que cedo se percebe ser muito mais do que isso e que além de cativante, pelos rostos, olhares penetrantes e expressões dos personagens entre si, exalta uma vivência assustadora que perdurará na nossa memória para lá dos 115 minutos de duração. A cena crucial final, que faz lembrar, noutro contexto, a violência final de “No Coração da Escuridão” de 2017, exprime a devastação e o desinteresse a que a sociedade devota os seus membros. Muito bom.

Classificação: 8,5 numa escala de 10

30 de janeiro de 2020

Opinião – “Amor à Segunda Vista” de Hugo Gélin


Sinopse

Quando Raphaël (François Civil) conheceu Olívia (Joséphine Japy) no secundário, foi amor à primeira vista. Após 10 anos de casamento feliz e uma carreira próspera como autor de best-sellers, Raphaël tem tudo – ou pelo menos assim o pensa.
Após uma enorme discussão entre o casal, Raphael acorda numa vida paralela onde é solteiro, jogador de pingue-pongue e professor do ensino secundário, com uma vida pouco interessante e demasiado colada à do seu melhor amigo de infância.
Percebendo que Olívia era tudo para si, Raphael terá de fazer o impossível para reconquistar o amor de sua vida – que neste mundo não faz a mínima ideia de quem ele é.

Opinião por Artur Neves

Este filme combina comédia romântica com ficção científica na qualidade de realidade paralela que na minha opinião “não bate a bota com a perdigota”. Comédia romântica é o género normal de filmes com adolescentes embevecidos com a descoberta do amor e das suas revelações no contexto que valem por si próprias. Realidade paralela é um tema ainda com conceção abstrata no âmbito da teoria de Einstein que tem pouco a ver com romantismo, exceto para Hugo Gélin, o realizador francês nascido em Paris em 1980, que nos apresenta a história resumida na sinopse.
Quem está familiarizado com comédias românticas, e reconheço com todo o respeito que existe um público dedicado ao género, é fácil aceitar que os produtos saídos de Hollywood são mais emocionantes do que os europeus, muito particularmente os de origem francesa, normalmente com histórias mais rebuscadas do que os primeiros. Todavia neste caso, Hugo Gélin consegue “tricotar” com assinalável desenvoltura um caso de amor à primeira vista entre dois personagens; Raphaël e Olívia que nos transmitem toda a simplicidade, a beleza do primeiro amor vivido intensamente e para a vida, consumado no casamento perfeito.
Porém, como a vida não é perfeita contagia o amor da sua imperfeição com os objetivos para atingir, os compromissos profissionais, as contas para pagar, as diferenças individuais que inevitavelmente agudizam a relação e o afastamento surge, como aconteceu com os nossos amantes perfeitos. Isto é normal, humano, real, está a acontecer a alguém ou já nos aconteceu a nós próprios na nossa realidade pessoal. É reconhecível a todos os níveis.
No limite as pessoas separam-se, vão cada uma para seu lado mantendo ou não o contacto entre si, é opcional. Em muitos casos começa aqui a saga da reconstrução, do reencontro e nas comédias românticas como já sabemos que os dois acabarão juntos o mais interessante é saber como foi, como superaram as suas diferenças, como cederam mutuamente nas suas premissas iniciais, donde normalmente resultam boas histórias de vida.
Mas Hugo Gélin meteu a “bucha” da realidade paralela, ele passou a viver noutro mundo (que se existisse alguns já teriam passado para lá porque este já vai ficando saturado) ela deixou de o reconhecer mesmo olhando para ele e falando-lhe, ele deixou de fazer o que fazia e infantilizou-se, esqueceu-se de si e caiu numa vida que já não era a sua (curiosamente, não esqueceu Olívia nem o amigo do peito Félix - Benjamin Lavernhe) e procura recuperar a sua amada noutro dia de nevão igual ao dia em que a perdeu. Lindo!...
Consegue isso reescrevendo todo o romance em que no final, (teria bastado reescrever somente o final… não?...) mata a sua companheira, avatar de Olívia, que deu origem a esta trapalhada.
Uma boa comédia romântica deve contar uma bela história de amor, creio que o leitor concorda comigo, e esta até tem um grande amor, comédia, alguma surpresa e é bem disposta, mas a “bucha” da realidade paralela, neste contexto, dá me volta ao estômago. Uma pena!...

Classificação: 5 numa escala de 10

28 de janeiro de 2020

Opinião – “Ladrões com Arte” de Matt Aselton


Sinopse

Ivan (Theo James), um ladrão de arte bem-sucedido, herda a vida de crime do pai, mas ao contrário de muitos ladrões, Ivan adora tanto a arte como a arte de roubar. Anseia por se livrar do mundo do crime, mas está de tal maneira envolvido nele que pode nunca conseguir sair. Até que conhece Elyse (Emily Ratajkowski), uma atriz e vigarista que tenta fugir ao seu próprio passado caótico. Juntos, vão realizar o derradeiro golpe, que não vai deixá-los ricos, mas sim libertá-los.

Opinião por Artur Neves

“Ladrões com Arte” é um filme espirituoso, agradável de ver, com graça subtil em algumas cenas, muito por causa do carisma do seu personagem principal Ivan (Theo James), que desenvolve uma boa química com Elyse (Emily Ratajkowski), depois de acidentalmente se conhecerem numa festa em que qualquer dos dois não engana o outro sobre os seus verdadeiros objetivos e os leva a brincar entre si duma maneira elegante e cúmplice.
O filme começa com a citação de um provérbio curioso que não resisto em reproduzir; “Quando um ladrão te beijar, conta os dentes” que encerra em si todo o argumento. Isto é, mesmo para aqueles em quem confias não deixes de estar atento ao próximo movimento, pois pode não corresponder ao esperado. É assim que se desenrola toda a dinâmica entre Ivan e Elyse num meio em que ambos tentam sobreviver com os seus próprios recursos mesmo que não sejam os mais honestos.
O realizador americano Matt Aselton, que também escreveu o argumento em conjunto com Adam Nagata mostra-nos uma ficção de um ladrão experiente e inteligente, que usa meios técnicos sofisticados para subtrair aos ultra ricos obras de arte valiosas, cobiçadas por outros colecionadores, que encomendam os seus desejos a Dimitri (Fred Melamed) que por sua vez usa meios de persuasão sobre Ivan para que ele os roube para ele. O falecido pai de Ivan era um viciado em apostas e jogo e tem uma dívida não saldada para com Dimitri que este usa para forçar Ivan a trabalhar para ele. Elyse também tem dívidas para um produtor de cinema que a ameaça com o fim da sua carreira se não lhe pagar. Assim a aliança entre Ivan e Elyse começa por ser baseada numa mútua ajuda para a resolução dos problemas de ambos mas depressa passa para outro nível como é de esperar nestas aventuras ligeiras.
O argumento é escorreito e está bem contado sendo as cenas dos furtos suficientemente emocionantes, explicadas com pormenor em flashback e complementadas por uma banda sonora eletrónica, entrecortada e nervosa que confere uma certa tensão às cenas de furto. Toda a ação é credível e desenvolve-se em ambiente calmo sem tiros nem violência, prosseguindo ao jeito de “O Grande Mestre do Crime” de 1968, sem a aura de Steve McQueen e Faye Dunaway bem entendido, mas bem entregue ao ponto de constituir um filme digno.
No fundo eles roubam porque gostam e precisam e nós gostamos de os ver roubar daquela maneira elegante e airosa a quem não merece ser poupado a esse roubo. É também um filme que ensaia atitudes desviantes, sem dúvida, mas simultaneamente inofensivo, inteligente, que combina comédia ligeira com ação, drama e romance que se adivinha, com destreza fluida em 100 minutos. Gostei e recomendo.

Classificação: 6 numa escala de 10

Opinião – “Calafrio” de Floria Sigismondi


Sinopse

Há mais de cem anos que se conta uma história assustadora que deixa aterrado quem quer que a ouça. "CALAFRIO" leva-nos até ao Maine, a uma mansão rural misteriosa, onde Kate, a nova ama, está encarregada de cuidar de dois órfãos perturbados, Flora e Miles. Mas Kate depressa se apercebe que as duas crianças e a casa albergam segredos tenebrosos e que as coisas poderão não ser aquilo que parecem.

Opinião por Artur Neves

Os filmes declaradamente feitos para desestabilizarem as nossas emoções e provocarem medo, terror, necessitam criar uma narrativa envolvente e detalhada que nos introduza na história de tal modo que nos faça sentir as dores do personagem mais ameaçado, ou mais fraco, ou de alguma maneira a vítima eleita pelo poderoso mal que discricionariamente tem o poder de fazer sofrer o personagem com que o espectador se identifica.
Em “Calafrio” falta tudo, falta a vítima, que em princípio nos é apresentada como sendo a nova ama Kate Mandell (Mackenzie Davis) que vai substituir a que vemos fugir desordenadamente logo no princípio do filme.
Falta o “poderoso mal”, que nos é apresentado como uma sombra de um preceptor de Flora Fairchild (Brooklynn Prince) e Miles Fairchild (Finn Wolfhard) aparecendo em imagens esfumada em espelhos pela casa e presumidamente provocando ruídos lascivos em cenas que não nos são mostradas.
Flora e Miles, que constituem o motivo de permanência da nova ama, ocupam uma posição dúbia de “vítimas” que sabem mais do que dizem, recaindo sobre Miles a responsabilidade de, proteção da irmã, por ser mais velho. Miles tem 15 anos e estudava num colégio interno que por razões mal explicadas foi expulso e como tal regressa a casa por onde deambula sem qualquer ocupação específica, exceto, formular expressões duras com uma cara de menino mimado, rico e problemático, que só uma estudada iluminação nos pode levar a pensar ser o elo de ligação com o “poderoso mal” que ensombra a casa e ameaça Kate.
Mas Kate não tem nada que a prenda ali, tem um carro no exterior e pode sair quando muito bem entender ou quando já não suportar aquele ambiente opressivo. Mrs. Grose (Barbara Marten) a governanta da casa que toma conta da família por várias gerações, das quais não há relato nem memória no filme representa um personagem desagradável sim, mas não associado ao “poderoso mal” que nos quer assustar.
Aliás, quando a realizadora Italiana Floria Sigismondi já não precisa dela, provoca-lhe uma queda desamparada que lhe causa morte imediata, praticada pela sombra do “poderoso mal” que até agora tinha coexistido com ela sem qualquer rebuço.
O que temos a ligar tudo isto é a repetição sucessiva dos sustos e das sombras tradicionais de uma casa velha, embora imponente, pejada de carrancas tanto no exterior como no interior e de sons súbitos que nem sobressaltam nem assustam, sem continuidade, enquadramento ou justificação que parecem ser pedaços perdidos de outros filmes que a realizadora insere na história porque os tem.
O argumento baseia-se numa novela de Henry James, escrita em 1898 que já teve uma primeira aparição em cinema em 1961, “Os Inocentes”, em que Deborah Kerr desempenhava o papel de uma governanta que cuidava de duas crianças numa casa que ela suspeitava estar amaldiçoada, mas nesta versão nada pode salvar a narrativa que oscila entre o incompreensível e o instável, culminado por um clímax que nos faz sentir arrependidos do tempo despendido por termos aturado tanto disparate. A mim apeteceu-me dizer: WTF…

Classificação: 2 numa escala de 10

26 de janeiro de 2020

Opinião – “Mulherzinhas” de Greta Gerwig


Sinopse

A realizadora e argumentista Greta Gerwig (Lady Bird) apresenta uma versão de “Mulherzinhas” que se baseia não só no romance clássico de Louisa May Alcott, como também nas notas deixadas pela autora. Esta história, vai desdobrando-se no alter ego da autora, Jo March, à medida que esta leva a sua vida real para a sua obra ficcional. Na opinião de Gerwig, a adorada história das irmãs March - quatro jovens determinadas a viver a vida à sua maneira - é intemporal e oportuna. Retratando Jo, Meg, Amy e Beth March, este filme é protagonizado por Saoirse Ronan, Emma Watson, Florence Pugh, Eliza Scanlen, com Timothée Chalamet no papel do seuvizinho Laurie, Laura Dern como Marmee e Meryl Streep como tia March.

Opinião por Artur Neves

Este é o oitavo filme sobre o romance clássico de Louisa May Alcott numa realização salpicada de reflexos #Metoo, considerando a modernidade com que o argumento é abordado transformando as meninas que atingiram a maioridade em 1860 apenas dedicadas ao lar e à vida doméstica da época, em raparigas modernas, conscientes de si e das suas vontades e do seu desejo de independência e autonomia em relação aos costumes e tradição com que foram educadas.
Alcott escreveu o romance por encomenda do seu editor e impregnou-o da sua autobiografia de tal modo que Jo é um personagem baseado em si mesma e com a mesma ânsia de se tornar escritora e através disso afirmar-se na sociedade do seu tempo.
Greta Gerwig, atriz e realizadora americana que já nos deu “Lady Bird” em 2017 e o excelente desempenho de Frances em “Frances Há” em 2012 pega nesse facto logo no início do filme, mostrando-nos Jo March (Saoirse Ronan, fabulosa como sempre) entrando nos escritórios de uma editora em Nova Yorque para apresentar o seu primeiro trabalho que é imediatamente corrigido com desdém pelo responsável, embora veja nela o potencial de escritora que se vem a revelar posteriormente.
A partir daqui o filme recua e avança no tempo mostrando-nos a Jo do passado e a sua vida em casa, com as irmãs e o pai ausente na guerra da secessão e a mãe Marmee March (Laura Dern) que desenvolve um personagem cheio de força e de carácter, embora doce e silencioso nas ocasiões de sofrimento e drama, como o esteio que mantém a família unida.
Este modo inovador de apresentar a história é sem dúvida o resultado de um rasgo de inteligência de Greta Gerwig que com indicações subtis nos posiciona antes e depois, entrelaçando os factos identitários de cada tempo e de cada local. Tem como contra, o facto de exigir mais atenção do espectador para não se confundir no tempo com os factos apresentados. A nota que sublinha o classicismo da época coube à tia March (Meryl Streep) que sem qualquer disfarce para a sua idade real é a única que recomenda às sobrinhas que se casem com um homem rico para assegurarem a sua subsistência financeira, exemplificando com a sua vida celibatária, só possível devido ao dinheiro que já possui.
Por outro lado a modernidade de abordagem de um romance do século XIX revelada neste filme, faz-nos sentir que os personagens têm carne e sangue em alvoroço nas suas veias, assemelham-se a pessoas reais, nossos colegas, nossos vizinhos, pessoas que conhecemos e dos quais conhecemos a história, muito diferente das meninas bem comportadas de antanho tradicionalmente apresentadas. Para mim é a melhor das oito adaptações existentes e muito embora a representação da sociedade de uma época clássica se mantenha, está despida do servilismo e obediência submissa que a caracterizava.

Classificação: 7 numa escala de 10

23 de janeiro de 2020

Opinião – “Jojo Rabbit” de Taika Waititi


Sinopse

O escritor e realizador Taika Waititi (“Thor: Ragnarok”, “Hunt for the Wilderpeople”), traz-nos o seu habitual humor e dedicação no novo filme “Jojo Rabbit”, uma sátira sobre a Segunda Guerra Mundial, que conta a história dum solitário rapaz alemão (Roman Griffin Davis) cujo mundo foi virado avesso quando este descobre que a sua mãe (Scarlett Johansson) esconde no sótão uma jovem judia (Thomasin McKenzie). Apoiado apenas pelo seu amigo imaginário, Adolf Hitler (Taika Waititi), Jojo é obrigado a confrontar-se com o seu nacionalismo cego.

Opinião por Artur Neves

Não sei se será boa ideia misturar holocausto com comédia, sobretudo porque se trata de comédia fantástica em que o próprio Adolf Hitler é o amigo imaginário de Jojo Betzler “Rabbit” (Roman Griffin Davis) um garoto alemão de 10 anos com um amor fanático pela causa Hitleriana e que tem o próprio Hitler como seu mentor espiritual e hóspede dos seus pensamentos e dos seus desejos.
Este filme estreou em 2019 no Festival de Cinema de Toronto e recebeu o galardão “People's Choice Award” por ter sido escolhido pelo público, tendo descartado; “História de Casamento” e “Parasita”, pelo que causou alguma estranheza considerando que este galardão já premiou algumas obras que posteriormente se vieram a revelar merecedoras do Oscar.
O humor utilizado emprega muitas piadas repentistas e diretas que nem causam muito riso porque se fundamentam ou na inépcia de Jojo, que se fere gravemente num treino de campo da juventude Hitleriana, quando auto inflamado pela doutrina nazi, sofre o rebentamento de uma granada que ele próprio tinha atirado, ou na grotesca assistente Fraulein Rahm (Rebel Wilson) do Capitão K (Sam Rockwell) que só pelo seu aspeto e atitude, pretende evocar o riso quando serve o Capitão K, um militar expulso do exército principal por andar sempre bêbado, a quem deram a missão de formar os novos recrutas. Não há elevação nos diálogos, nem subtileza nas conversas, nem qualquer segundo sentido nas alusões. Rosie (Scarlett Johansson) que faz de mãe de Jojo, constrói um personagem esteriotipado pouco convincente.
“Jojo Rabbit” baseia-se num romance de uma autora belga / neozelandesa, Caging Skies e não é uma história cómica, nem inclui Hitler como modelo ideológico de Jojo, sendo esta uma ideia peregrina (acho eu) do realizador Taika Waititi, descendente de maori, judeu e irlandês e que se descreve como “judeu polinésico”, que assumiu esse papel construindo um “Hitler”, em versão maníaca, meio idiota e infantil, muito distante do arquétipo que a juventude Hitleriana deveria inculcar nas mentes em formação dos seus membros e impossível de ter sido concebido pela mente de um miúdo de 10 anos, fanático pela doutrina e pelo personagem. Esta é portanto uma gritante discrepância que contrasta com o contexto sombrio do personagem real, tornando o resultado algo excêntrico.
Jojo é um rapaz preocupado com a guerra, com o seu resultado, com o futuro, com os nazis que matam pessoas nas ruas da sua cidade e que mataram a sua mãe e que neste sentido pode ser encarado como o despertar da inocência de uma criança. Os torcionários, a polícia política, são representados como palhaços estúpidos, mas não nos esqueçamos que eles não foram inofensivos, foram eles que executaram o Holocausto, que está subjacente na judia Elsa (Thomasin McKenzie) de 16 anos, que Rosie abrigou no sótão de sua casa e que por isso morreu quando foi denunciada.
Pode também considerar-se que “Jojo Rabbit” é um filme ousado por abordar de forma ligeira a questão mais dramática do século XX, mas a sua ausência de condenação explícita, numa narrativa de banalização do Holocausto, não previne nem erradica a sua indesejada repetição e neste aspeto não é feliz no seu argumento.

Classificação: 5,5 numa escala de 10