22 de janeiro de 2020

Opinião – “Ama Perfeita” de Lucie Borleteau


Sinopse

Quando Myriam (Leïla Bekhti), mãe de dois filhos, decide voltar a trabalhar apesar da relutância inicial do marido, o casal começa a procurar uma ama. Após um processo muito seletivo, encontram por fim a candidata ideal: Louise (Karin Viard), uma mulher de 40 anos muito bem preparada que faz sucesso imediato entre filhos e pais. Mas à medida que Louise se vai tornando indispensável à família, começa a revelar a sua autêntica natureza e o seu comportamento torna-se cada vez mais inquietante para quem a rodeia.

Opinião por Artur Neves

Esta história é baseada no romance “Chanson douce” de Leila Slimani, (nascida em Marrocos em 1981) vencedor do prémio Goncourt de 2016, o que fez da sua autora a mais jovem escritora a receber este galardão. O romance foi inspirado num caso real ocorrido em Manhattan em 2012 e até hoje envolvido num mistério difícil de explicar de maneira compreensível e razoável.
Lucie Borleteau, a realizadora francesa com alguns créditos no género, estabeleceu uma narrativa clássica para a história que mantém durante quase todo o filme numa expectativa latente sobre um sintoma psicológico de esquizofrenia do personagem principal, que se intui por inerência, mas que só posteriormente nos são dados sinais claros do que se trata, tornando o desfecho da história quase imprevisto até à sua concretização.
A história está bem resumida na sinopse e desenrola-se no seio de um casal adulto jovem que resolve contratar uma ama para assistir aos seus dois filhos, sendo Mila (Assya), de 5 anos e Adam, bebé com poucos meses de vida, que monopoliza totalmente a disponibilidade da mãe Myriam que reivindica o seu tempo para outras atividades diferentes de ser mãe a tempo inteiro. O pai Paul (Antoine Reinartz), tem por vezes um papel de bobo e de inepto, que quase o desqualifica como chefe de família, fazendo pensar se não existirá outra mensagem subliminar que a realizadora quis passar.
A seleção da ama Louise (Karin Viard) foi tão criteriosa e bem conseguida que somos informados que ela não só mostra extrema dedicação aos miúdos a cargo, como ao casal, substituindo-os na cozinha, chegando muito cedo para lhes preparar o café da manhã, limpando e arrumando a casa com perfeição e esmero, brincando com Mila a quem conta histórias e ministra uma educação pré escolar, bem como, atende a todas as necessidades de Adam e só abandonando a residência muito para lá do horário previsto.
A atitude de Louise é tão perfeita, tão adequada à função que o casal não se apercebe do seu ar sofrido, da sua alteração contida de humor quando algo acontece diferente do previsível, do seu ar afável que soa a forçado e resultando de um grande esforço de vontade, das suas brincadeiras com Mila, onde personifica um monstro ameaçador e que reage com inusitada secura e agressividade quando é confrontada com críticas, por mais leves e cordatas que sejam proferidas.
Borleteau apresenta-nos Myriam e Paul como cegos para o mundo em seu redor, usufruindo somente dos benefícios da liberdade recuperada sem se preocuparem com o modo e o motivo dessa recuperação, comportando-se como um casal parisiense livre e sem compromissos que inadvertidamente provoca os acontecimentos subsequentes e é o único responsável pelo desfecho dramático desta história, muito embora no íntimo de Louise germinasse uma frustração insuperável e um desejo secreto de se sentir útil a todo o custo para justificar a sua existência.
Louise ama aquelas crianças, dedica-se aquela família com todo o seu empenho, devolve ao casal a oportunidade de reativarem a sua vida amorosa e todavia continua a sentir-se como trabalhadora contratada apesar de ter sido convidada para passar férias com eles e de ter aproveitado o mar e o sol como se lhe pertencessem desde sempre. No seu íntimo porém, a ansiedade sobe sem controlo, a solidão adensa-se, pensamentos marginais ocorrem-lhe sem que ela os possa conter e o destino trágico está próximo.
É um retrato bastante realista de uma casal urbano, jovem, classe média, que tenta criar os filhos enquanto luta pela sua realização profissional e pela sua subsistência, mas que tem que ficar atento aos maravilhosos milagres que não existem.

Classificação: 7 numa escala de 10

21 de janeiro de 2020

Opinião – “Um Casamento a Mais” de Robert Luketic


Sinopse

Mara (Sarah Hyland)  é uma jovem despreocupada de 27 anos, com a aspiração de ser fotógrafa. Após conhecer Jake (Tyler James Williams) no Tinder, uma relação inesperada começa a formar-se. Tudo corre bem até que os convites de casamento começam a chegar. Um pesadelo para Mara, mas Jake está empolgado. Os namorados decidem a quais casamentos assistir e embarcam numa aventura de um ano juntos. Com o avançar da temporada, Mara encontra inspiração para as suas fotos. Sete casamentos depois, e aprofundada a relação, Jake pede-a em casamento mas Mara acaba a relação. Enquanto Jake constrói uma nova vida, Mara transforma finalmente a sua paixão pela fotografia numa carreira, mas sem esquecer Jake.

Opinião por Artur Neves

Mais uma vez temos aqui uma comédia romântica que não constituirá referência no mundo da sétima arte, mas poderá ser interessante quando daqui a uns tempos passar numa sessão vespertina de cinema em televisão. Com dois anos de projeção em sala, ou menos, as distribuidoras tentam rentabilizar o investimento dessa maneira e aí poderá ser visto com alguma nostalgia, sonho e talvez, até interesse.
Mara, é uma jovem auto realizada que não teve no relacionamento dos seus pais um exemplo de sucesso, é uma moça extrovertida que tenta gozar a vida sem grandes preocupações nem compromissos, encontra Jake numa plataforma de encontros, com o objetivo deste lhe pagar um jantar que ela goste.
Porém, durante a conversa estabelecida entre ambos nesse encontro reconhecem pontos comuns nas suas visões sobre a vida, o futuro, os objetivos que perseguem e resolvem prolongar o seu conhecimento em dimensões mais íntimas, usufruindo os benefícios mútuos da relação mas sem estabelecerem quaisquer compromissos que os vinculem, situação que Mara encara como uma piada de mau gosto considerando o passado dos seus pais.
Jake, por seu lado, não tem nada a contrapor e deixa-se ir, vivendo despreocupadamente os dias até que Mara o convida para a acompanhar e uma série de casamentos de suas amigas que se realizarão sequencialmente nos meses seguintes. Aqui o filme ganha alguma dinâmica com a multiplicidade de situações criadas pelas pessoas e pelas suas escolhas, mas nada que empolgue o espectador, exceto, que a tão esperada “chispa do amor” finalmente salte entre ambos como que induzida pelas sucessivas experiências a que assistimos.
Creio eu que Robert Luketic, realizador Australiano, apenas pretendia com este filme uma história de entretenimento generosa, de humor fino, fluindo em bom ritmo em várias sub-histórias semelhantes às apresentadas até aqui na sua carreira, exceto em “21 – A Ultima Cartada” de 2008 com um cariz mais sério num ambiente de casino e jogos de azar mas igualmente com o mesmo espírito inocente dos ideais românticos.
Dito isto, não se pense que a nostalgia de um sentimento passado seja o único motivo para assistir a este filme, pois Mara apresenta-se como uma mulher decidida e madura, que sabe o que quer, rejeita liminarmente o pedido de casamento de Jake mas… depois, na solidão do seu espírito e fazendo o balanço de tudo o que lhe aconteceu e experienciou, ela procura uma razão para sabotar a apetência do seu relacionamento com Jake, mas sucumbe, aceitando o clichê do seu melhor amigo, gay, Alex (Matt Shively) que assume um casamento feliz.
No seu todo é um filme modesto, tem momentos cómicos, graça e encanto pelos personagens criados. Tem momentos emocionantes que parecem genuínos e conta uma história de vida que não constitui qualquer surpresa.

Classificação: 5 numa escala de 10

16 de janeiro de 2020

Opinião – “Instinto Predador” de Nick Powell


Sinopse

Um navio grego transporta perigosos animais exóticos da Amazónia, incluindo um raro jaguar branco. No mesmo navio, um assassino, que estava a ser extraditado em segredo para os EUA, consegue escapar e libertar todos os animais em cativeiro, deixando os tripulantes em perigo de vida.

Opinião por Artur Neves

Nicolas Cage é um ator que teve um bom começo de carreira, lembremo-nos de; “Morrer em Las Vegas” 1995, “A Cidade dos Anjos” 1998, “O Senhor da Guerra” ou “O Homem do Tempo” em 2005, que para mim foi o último filme “decente”, tendo a partir daqui entrado numa rampa acentuadamente descendente, recheada de maior quantidade de interpretações, mas com menos qualidade, continuando neste registo até este ano de 2020 em que já se noticiam cinco trabalhos em fase de filmagens ou em pós produção. Uma tão grande proliferação de trabalho, não pode dar bom resultado e é o que acontece neste filme.
Nesta história começamos por assistir a um caçador, Frank Walsh (Nicolas Cage) sentado numa árvore duma remota selva brasileira a fumar um charuto e a ler uma revista enquanto espera que uma rara onça branca conhecida como “El Gato Fantasma” caia na armadilha por ele montada para a caçar e transportar para outras paragens onde espera ganhar bom dinheiro com a sua venda.
Ele planeia transportar os animais de barco até um Zoológico nos arredores de Madrid, ou seja o Gato Fantasma, uma família de macacos aranha, pássaros exóticos e cobras produtoras de veneno letal, transportados em jaulas a bordo de um velho cargueiro, decrépito e húmido, que também serve de prisão provisória a um assassino louco, Richard Loffler (Kevin Durand) procurado pelos USA para o julgar por crimes contra a humanidade de que ele está acusado.
A partir daqui, em que o “caldeirão” já está preenchido com os ingredientes para o “cosido à americana” é que as coisas começam a descambar. Trata-se de um filme série B, de baixo orçamento e com um realizador estreante, cuja experiência mais significativa é ter sido coordenador de duplos e em que a sua primeira e única preocupação é encontrar maneiras de provocar suspense no maior número de cenas, sem contudo que para isso, tenha preparado o ambiente e o espectador para uma esperada surpresa. Assim, as cenas saltam como pipocas aqui e ali, por todo o interior do velho cargueiro que funciona agora como um universo fechado.
O assassino liberta-se em três tempos de uma jaula que parecia inviolável, sem que nenhum dos guardas pertencente ao grupo de operações especiais, façanhudos e destemidos o possa deter, liberta todos os animais selvagens como manobra de diversão e sequestra o comandante para alterar a rota do navio e garantir a sua fuga.
Com este ato temos uma “Arca do Noé do demónio”, todos querem matar todos e Richard Loffler trata de despachar animais selvagens a cada dois minutos de filme, enquanto Frank Walsh, que só queria passar uma viagem descansada a alimentar os animais tem de entrar neste jogo de gato, rato e onça, (o mais precioso dos animais raros) para tentar salvar o seu investimento de caça.
A história inclui mais personagens, como um médico, um advogado e uma criança cujo objetivo é ser colocado em perigo para provocar impacto, os outros deixam de existir sempre que ficam fora da objetiva e não se vê uma ligação credível entre eles. Frank só fala com o seu papagaio e a ação montada por Nick Powell é tão frouxa e instável que o momento mais emocionante ocorre quando Richard Loffler decide não lutar, porque a gente não acredita!...

Classificação: 4 numa escala de 10

Opinião – “Bad Boys para Sempre” de Adil El Arbi e Bilall Fallah


Sinopse

Os Bad Boys, Mike Lowrey (Will Smith) e Marcus Burnett (Martin Lawrence) estão de volta para uma última viagem juntos no muito antecipado “Bad Boys para Sempre”

Opinião por Artur Neves

Este é o terceiro filme de uma mini série (mini se ficar por aqui, bem entendido) começada em 1995 com “Bad Boys” em que a dupla Will Smith e Martin Lawrence assenta arraiais e prossegue com “Bad Boys II” em 2003 repetindo a dose de aventura, pancadaria e muitos tiros, no combate aos malfeitores instalados no mundo da droga, ambos realizados por Michael Bay e produzidos por Jerry Bruckheimer que também produz os CSI’s, Las Vegas, Miami e outros filmes para televisão que eu caracterizo como “séries de filmes a metro”.
Desta vez retoma-se o tema mas com mais distânciamento, a idade já é outra, estão ambos mais próximos da reforma e embora a ação seja muita e o argumento apresente muitas notas de comédia e de verdades sobre a vida, sente-se o cansaço dos personagens. É como uma revisitação a um lugar onde ambos foram felizes, na esperança que esses momentos então vividos reapareçam, não obstante a predisposição já ser diferente.
Nesta história Mike Lowrey e Marcus Burnett estão ensaiando uma corrida em direção ao hospital onde está prestes a nascer o neto de Marcus, que agora se tornou homem de família ao lado da sua esposa Therese (Theresa Randle) e da filha Megan Burnett (Bianca Bethune), quando aparece uma mota em alta velocidade, cujo condutor dispara dois tiros em pleno peito de Mike que o conduzem ao hospital entre a vida e a morte.
Consternado, Marcus encomenda o amigo a todos os santos e ao próprio Deus, pedindo pela vida de Mike, que recupera seis meses depois e nos aparece com a mesma garra e os mesmos interesses de sempre, desejoso de fazer justiça e de reocupar o seu posto de polícia no ativo. Só que Marcus não está para aí virado e tenta convencer Mike a deixar esse trabalho para os atuais especialistas, Rita (Paola Nuñez) responsável por uma elite de investigadores com outros meios e outras técnicas diferentes das que eles estavam habituados.
O sempre irritadiço Captain Howard (Joe Pantoliano), não concorda com a ideia de ter Mike de volta à ação e só depois de um grande esforço deste, concorda em aceitá-lo mas como “consultor” e subordinado a Rita, coisa que nós logo compreendemos que não vais ser assim porque manifestamente não está na natureza de Mike. Entre os dois ainda surge uma chispa de olhares cúmplices mas cedo se percebe que é uma pista falsa para aquela história.
A busca pelo responsável do atentado a Mike começa e ficamos a saber que se chama Armando (Jacob Scipio) é filho de uma bruxa mexicana, Isabel Aretas (Kate del Castillo) que está obcecada em matar Mike por razões que constituem o twist principal da história com uma surpresa, que mantém a ação em bom nível, sempre com uma vertente de comédia que ameniza o ambiente.
Esta sequela é realizada por dois realizadores, nomeados como "Adil & Bilall", uma dupla de realizadores Belgas da nova geração que espalham adrenalina e cenas de família numa história com origem na “fábrica” de Bruckheimer que com certeza não a tinha pensado assim, mas convenções à parte, acaba por ser a sequela mais conseguida da mini série e considerando que o epítome “para Sempre” permite intuir um fim, ou uma constância de continuidade, ficaremos expectantes sobre qual das duas hipóteses se verificará no futuro.

Classificação: 6 numa escala de 10

13 de janeiro de 2020

Opinião – “J’Accuse – O Oficial e o Espião” de Roman Polanski


Sinopse

No dia 5 de Janeiro de 1895, o Capitão Alfred Dreyfus, um jovem soldado judeu, é acusado de espionagem para a Alemanha e condenado a prisão perpétua na ilha do Diabo. Entre as testemunhas está Georges Picquart, promovido para gerir a unidade militar de contra-espionagem. Mas quando Picquart descobre que informações secretas continuam a ser fornecidas aos alemães, é arrastado para um labirinto perigoso de fraude e corrupção que ameaça não só a sua honra, mas também a sua vida.

Opinião por Artur Neves

Este filme é cinema ao seu melhor nível como meio de contar uma história real que no final do século XIX, mais exatamente 1895 como refere a sinopse, desestabilizou o poder político em França e pôs em causa as chefias militares de primeiro nível, todas envolvidas num caso de espionagem internacional em que foi injustamente acusado um oficial judeu, o Capitão Alfred Dreyfus, (Louis Garrel) para ocultação da incompetência e do compadrio castrense que grassava nas forças armadas e na sociedade antissemita da época.
Goste-se ou não de Polanski é da mais elementar justiça reconhecer que ele continua sendo um mestre no seu ofício pela forma distinta como constrói a apresentação desta história. O cenário é irrepreensível, o guarda roupa, a direção de atores extraordinariamente cuidada e meticulosa, preenchida com todos os detalhes comportamentais da hierarquia militar da época que transmitem ao espectador uma completa imersão relativamente aos que nos é contado.
Baseado numa novela de Robert Harris que também colaborou no argumento e conta-nos a história deste “erro” judicial começando pela cerimónia de remoção das insígnias do exército a Dreyfus, no meio de uma manifestação antissemita em que ele grita para a multidão e para todos os presentes a sua inocência, acusando a França de o excluir por ser judeu e não por terem provas irrefutáveis contra ele. Georges Picquart (Jean Dujardin) está nesta altura do lado dos acusadores, foi professor de Dreyfus, mas nega que seja por diferenças de religião a sua acusação. Este caso porem, conduz Picquart à chefia do departamento de investigação militar e à sua promoção a coronel.
É nessa qualidade que ele se confronta com a dúvida da culpabilidade de Dreyfus, sendo também a partir daqui que o filme se desenvolve no interior de ambientes poeirentos e escuros, mostrando alguns episódios da propalada “inteligência militar” em interiores claustrofóbicos onde trabalham os agentes da violação de correspondência, ou da reconstituição de documentos rasgados fornecidos por informadores a soldo, intrigas palacianas que mostram o sentido de autenticidade de Polanski na caracterização dos círculos de incompetência de que ele se vai apercebendo. Na realidade Georges Picquart é um produto do sistema, educado e formado no meio e também eivado do mesmo antissemitismo, todavia a confrontação honesta com indícios da cabala que foi montada contra Dreyfus, levam-no numa jornada de autoconsciência dolorosa, em que os seus princípios não permitem o encobrimento dos erros do sistema, com os inerentes custos para todos e principalmente para ele e para a sua amante, Pauline Monnier (Emmanuelle Seigner) que se vê também envolvida.
Por outro lado, Polanski serve-se desta história para estabelecer um paralelo entre a sua condenação por abuso sexual de uma menor em 1977, em que ele se declarou culpado, foi preso e libertado sob caução, mas na iminência de nova detenção, tomou um avião para a Europa, encontrando-se desde então na situação de foragido da justiça norte americana, a que ele atribui uma componente de antissemitismo, tal como no caso de Alfred Dreyfus e assim esbata as diferenças entre o antissemitismo pessoas e institucional.
Ele faz isso muito bem lidando simultaneamente com uma narrativa de suspense executada por atores de elevada qualidade interpretativa que evoluem numa fotografia sóbria, por vezes em cores sépia que adensam a ação. Para lá de tudo isso, sente-se a “mão” de Polanski como a de um pintor conhecido num quadro seu, não só na construção da imagem, como na sua exposição no melhor ângulo em que ela pode ser vista, e ainda, considerando que se trata de uma mentira, de um embuste montado para prejudicar um determinado homem, contém algo de muito urgente a dizer sobre o mundo em que vivemos. Recomendo vivamente.

Classificação: 8 numa escala de 10

11 de janeiro de 2020

Opinião – “1917” de Sam Mendes


Sinopse

Sam Mendes, o realizador vencedor de um Óscar® de 007: Skyfall, 007 Spectre, Revolutionary Road e Beleza Americana, traz a sua visão singular a este épico sobre a Primeira Guerra Mundial, 1917.
No auge da Primeira Guerra Mundial, dois jovens soldados britânicos, Schofield (George MacKay, Capitão Fantástico) e Blake (Dean-Charles Chapman, A Guerra dos Tronos), recebem uma missão aparentemente impossível. Numa corrida contra o tempo, têm de atravessar território inimigo e entregar uma mensagem que impedirá um ataque letal contra centenas de soldados, entre eles o irmão de Blake.
1917 é realizado por Sam Mendes, que escreveu o argumento com Krysty Wilson-Cairns (Penny Dreadful, da Showtime). O filme é produzido por Mendes e Pippa Harris (Revolutionary Road, Um Lugar para Viver) para a sua produtora Neal Street Productions, e por Jayne-Ann Tenggren (produtora associada, 007 Spectre), Callum McDougall (produtor executivo, O Regresso de Mary Poppins, 007: Skyfall) e Brian Oliver (Rocketman, Cisne Negro).

Opinião por Artur Neves

Literalmente e de acordo com o resumo reportado na sinopse, esta história trata-se de; “Levar a carta a Garcia”. Esta frase está ligada à guerra entre os Estados Unidos e Espanha por causa da renhida disputa sobre domínio da ilha de Cuba, em que o presidente norte-americano Wiliam Mckinley encomendou a um dos seus subordinados a tarefa de entregar uma carta ao comandante rebelde das forças de guerrilha, Garcia de seu nome, o que motivou ao militar ter de percorrer, montes, vales, selvas e praias para cumprir a empresa que o seu presidente lhe incumbiu. E é disto que trata este filme!...
Não se pense todavia, que por isso é um filme menor, não, longe disso. É uma história impressionante baseada num relato do avô do realizador, Alfred Mendes que participou na 1ª guerra mundial, sobre um aviso de emboscada às tropas inglesas, pelas tropas alemãs em retirada para a Linha Hindenburg, durante a operação Alberich, em Abril de 1917, em solo Francês.
Todo o filme reconstrói com bastante minúcia o ambiente vivido nesse conflito mundial de uma forma crua e realista através da magnífica fotografia de Roger Deakins que carateriza aquela paisagem árida, cheia de morte e desolação, com todos os tons possíveis de marron para nos fazer sentir o generalizado ambiente de abandono e morte, tanto na visão de uma guerra sombria e macabra, como na parte final, desesperada e alucinatória.
Inicialmente temos a caminhada sobre terra de ninguém, pelas trincheiras abandonadas e armadilhadas que iam custando a vida a Schofield. As casas abandonadas ao longo do caminho geradoras de medo pelo desconhecido, causando um horror casual e cuidados na sua progressão. A morte de Blake, quando este tentava socorrer um piloto de um avião alemão abatido, em que este lhe “paga” a ajuda com uma facada no ventre. É o horror da guerra e da desumanidade mostrando-nos que sempre que existam dois seres humanos geram-se diferendos.
Posteriormente o ambiente muda para uma neblina laranja, depois do encontro com uma aldeia em ruínas, um ferido alemão entrincheirado nas ruínas duma casa que dispara sobre Schofield e uma mulher que recolheu uma criança abandonada, embora sem meios para a alimentar, limpa-lhe as feridas. A fuga da aldeia, sob uma iluminação projetada de cima para baixo gerando sombras móveis das ruínas das casas destruídas assemelha-se a uma perseguição demoníaca. Não há qualquer lugar seguro, até as sombras são fugazes, não conferem qualquer proteção. Sam Mendes apresenta aqui uma realização técnica impressionante e um ambiente de holocausto muito bem conseguido, capturando todo o cenário assustador dos filmes de guerra.
Mais uma vez temos um filme que ilustra a futilidade da guerra, mas a guerra está na mente dos homens, faz parte da sua natureza e não são os 22 milhões que pereceram neste conflito que muda alguma coisa, ou sequer altera essa condição e com tal é útil ser lembrada, revisitada, com a proximidade deste filme que nos apresenta a banalidade dos seus objetivos.
Só que, Sam Mendes está a contar uma história do seu avô e conta-a de uma forma escorreita, direta, linear. Não á cortes da linha ficcional nem narrativas paralelas. É contada como se fossem criadas imagens ao sabor das palavras do narrador. É o que eu chamo; um filme para olhar. Quando acaba a história (quando a carta é entregue a Garcia) tudo se acaba. O próprio Schofield, consciente do dever cumprido senta-se junto de uma árvore nua a contemplar as fotos de família. Se não se registar algo na memória nada fica. É pouco para um globo de ouro, embora seja um filme de guerra de alta qualidade técnica.

Classificação: 8 numa escala de 10

6 de janeiro de 2020

Opinião – “A Despedida” de Lulu Wang


Sinopse

Nesta divertida e inspiradora história, baseada numa mentira de verdade, Billi (Awkwafina), nascida na China e criada nos EUA, regressa relutantemente a Changchun para descobrir que, embora toda a família saiba que a sua adorada avó Nai Nai tem poucas semanas de vida, decidiram em conjunto não contar nada à própria Nai Nai.
Para garantir a felicidade dela, reúnem-se sob a alegre fachada de um casamento acelerado, unindo membros da família espalhados pelo estrangeiro. Ao navegar pelo campo minado das expectativas e convenções da família, Billi descobre que há muito para celebrar: uma oportunidade para redescobrir o país que deixou em criança, o maravilhoso espírito da avó e os laços que se mantêm, mesmo quando muito fica por dizer.
A Despedida é uma celebração sincera, não só da forma como interpretamos a família, mas também da forma como a vivemos, construindo magistralmente uma representação delicadamente bem-humorada de uma boa mentira em ação.

Opinião por Artur Neves

Com a história resumida na sinopse anterior, de cariz muito simples e direto para poder desdobrar-se posteriormente nas apreciações dos comportamentos e na análise das motivações que justificam o comportamento acima descrito, pensava eu, o filme opta por enveredar pela tradição que o sustenta concentrando-se na escritora chinesa / americana Billi Wang (Awkwafina) e na sua deslocação imprevista a Changchun para participar na piedosa mentira que toda a família orquestrou para a poupar, não à morte anunciada, mas ao medo que o seu passamento lhe provocará, como acerta altura justifica a mãe de Bili, filha de Nai Nai (Shuzhen Zhao) sobre as razões do procedimento familiar para esta mentira.
Assim, até à data do casamento, imposto para suportar a mentira, a história desfila as diferentes relações interpessoais no seio da família através da representação dos rituais familiares chineses que à cultura ocidental podem parecer estranhos, infantis, poereis e algo idiotas, como por exemplo a prolongada e insistente conversa do empregado do hotel para se penitenciar da avaria do elevador que provocava a sua imobilização.
Bili, a chinesa assimilada que vive em Bushwick, Brooklyn, a neta e a filha que nem os seus pais convidaram para tal empreendimento, assume-se como ocidental que não encaixa na tradição, nos rituais e nas idiossincrasias familiares de que ela se afastou na grande cidade, embora nutrindo um amor pela sua avó que a faz vacilar na sua determinação e encarar os vários mundos a que está ligada, um por nascimento, outro por opção.
A argumentista e realizadora Lulu Wang, que estudou no Boston College, serve-se deste filme para apresentar os detalhes do seu povo e da sua cultura, como o elevador avariado, os preguiçosos funcionários que servem o copo de água do casamento, a decoração do salão de massagens e o efeito da própria massagem que não é de todo o esperado em mais um ritual de pré casamento. Depois temos a cerimónia, em que os noivos cumprem uma tarefa em vez de rejubilarem de amor. No banquete há discursos para todos os gostos, até o de um ex-camarada de armas (Nai Nai foi na juventude um soldado do exercito de Mao) e este aproveita o encontro com ela para lhe revelar o seu secreto amor de antanho.
Todo o filme é um conjunto de quadros familiares e sociais, mostrando pratos típicos chineses, humor subtil e algum arrependimento melancólico dos ressentimentos sentidos entre os familiares. A morte é a conclusão inevitável da vida e é mais dolorosa para todos os que ficam com o sentimento de perda que a morte de alguém próximo implica, todavia, Lulu Wang revela no final do filme que Nai Nai ainda está viva, seis anos após o diagnóstico que motivou toda esta trapalhada, o que mais uma vez me faz concluir: “muito barulho para nada”!...

Classificação: 5 numa escala de 10

PS: A estreante atriz Awkwafina (Bili, neste filme) foi a vencedora dos Globos de Ouro de 2020 na categoria de “Melhor atriz de Musical ou Comédia” contra; Ana de Armas, Cate Blanchett ou Emma Thompson. Embora ela desempenhe um personagem muito abrangente e muito empenhado neste filme, penso que ainda não merecia este galardão.

4 de janeiro de 2020

Opinião – “Uma Vida Escondida” de Terrence Malick


Sinopse

Baseado em factos reais, Uma Vida Escondida, o novo filme do visionário realizador Terrence Malick, retrata a história verídica de Franz Jägerstätter, um camponês e objetor de consciência austríaco.
Franz leva uma vida simples, mas gratificante, na quinta da família na aldeia montanhosa de St. Radegund, quando em 1940 é convocado para o treino militar do exército nazi, no início da Segunda Guerra Mundial. Mas Franz é incapaz de dedicar a sua lealdade a uma causa que considera injusta. Uma posição que o colocará em conflito direto com os membros da sua aldeia, com a sua Igreja e até mesmo com a sua família.

Opinião por Artur Neves

Terrence Malick é no mínimo um realizador controverso, ou se gosta ou se abomina a sua obra de tão diferente que se apresenta a sua visão fílmica de assunto para assunto que merece a sua atenção. “A Barreira Invisível” de 1998, sobre a guerra e a impercetível linha que separa os cobardes dos heróis é o meu preferido, não só pelo tema, como pela narrativa intimista com que o aborda, já “A Essência do Amor” de 2012, ou o inefável “Cavaleiro de Copas” de 2015 são na minha opinião duas pessegadas de indescritível pasmaceira, que sob o manto diáfano da contemplação das atitudes humanas e da natureza, exprimem sentimentos.
Desta vez ele aborda um caso real de objecção de consciência de Franz Jägerstätter (August Diehl) um camponês austríaco que morava com sua esposa Fani (Valerie Pachner) e suas três filhas numa aldeia montanhosa que os isolava do mundo e lhes permitia viver idilicamente o seu recíproco perfeito amor, num estágio perpétuo de lua de mel.
A segunda guerra mundial vem gorar a sua felicidade ao convoca-lo para se alistar no exercito nazi. Ele recusa a convocação, bem como, o juramento de fidelidade à causa hitleriana, não obstante ser preso e arriscar a execução por enforcamento como traidor. A sua amada Fani, embora ficando em casa a trabalhar na fazenda, não se livra do escárnio dos outros moradores da aldeia, revoltados pela desobediência a que eles também se viram obrigados a cumprir.
Este é um tema metafísico de um homem comprometido com as suas crenças e com a sua devoção a Deus, que causa perplexidade, porque mais ninguém no mundo se importará com o seu sacrifício ou com a defesa das suas causas, porque a sua atitude não fará grande diferença no desígnio das coisas e até talvez Deus não valorize particularmente a sua postura moral, considerando que Hitler se propunha exterminar o povo judeu e todos os dissidentes dentro do sistema seriam bem vindos.
Aliás, o verdadeiro problema reside na assinatura de um papel em que ele prestaria um juramento de lealdade a Hitler, não o obrigava a lutar, ele poderia desenvolver outra actividade durante a sua permanência no exército, mas Franz recusa-se veementemente a comprometer as suas crenças enquanto a sua amada esposa e os seus filhos sofrem o ostracismo dos vizinhos e a impossibilidade de manter o trabalho na fazenda. Na estética religiosa qual será o maior pecado, assinar o papel e manter para si as suas convicções, ou permitir que Fani e os filhos sofram, pela fanática devoção às suas crenças?...
Todavia, Malick não se prende demasiado a estas devoções de fé e prefere mostrar-nos a beleza da montanha, as paisagens pastorais e a natureza na sua essência que quase se assumem como outro personagem do filme. Detém-se também no amor que os esposos nutrem entre si, nas cartas que escreve para sua esposa e lê em voz alta na prisão, bem como, nas respostas dela, numa comunhão etérea de amor, algo comovente e também pretensioso, porque inútil e irresponsável.
É isto que Malick nos oferece durante 180 minutos, que alegrará os fans, não duvido, mas aos outros, os profanos, onde irão buscar suporte e paciência cristã para o aturar. Que lhes reste a consolação que em 2007 o papa Bento XVI beatificou o verdadeiro Franz Jägerstätter pela sua conduta na guerra que é apenas um degrau abaixo da canonização.
Não poderemos desqualificar a fotografia do filme que é deveras fabulosa, particularmente se vista no cinema em ecrã de grande dimensão e para ela vai 80% da classificação indicada.

Classificação: 6 numa escala de 10

3 de janeiro de 2020

Opinião – “O Informador” de Andrea Di Stefano


Sinopse

Após ser dispensado honrosamente do serviço de Operações Especiais, o ex-soldado Peter Koslow (Joel Kinnaman) vê o seu mundo virado do avesso quando é preso depois de uma luta para proteger a sua mulher (Ana de Armas).
No entanto, é contacto por dois agentes do FBI (Rosamund Pike e Clive Owen), que lhe oferecem a possibilidade de lhe comutar a pena, mediante a condição de se tornar informador e usar os seus talentos numa operação para derrubar o mais poderoso senhor do crime de Nova Iorque, conhecido por O General.
Quando a operação resulta na morte de um polícia, Koslow acaba por ficar no fogo cruzado entre a máfia e o FBI.
Num mundo de escolhas impossíveis, Peter Koslow tem de regressar à prisão, onde é obrigado a formular um plano para escapar às garras das três organizações mais poderosas de Nova Iorque – a máfia, a polícia e o FBI – para assim se poder salvar a si e à sua família.

Opinião por Artur Neves

De acordo com o resumo da história referida na sinopse, este filme teria tudo para ser um sucesso, para lá dos carismáticos atores que integra e da intriga que constrói no seio da inerente rivalidade entre duas forças policiais que se querem afirmar como mais importante do que a outra, quando a vingança da morte de um dos seus membros está em causa.
O argumento do filme tem como base o romance do Sueco Stieg Larsson “Three Seconds” que só por si seria uma excelente referência de origem, (Stieg Larsson é o autor da trilogia “Milenium”) mas o ator e agora realizador Andrea Di Stefano não teve “mãos” para o projecto que apesar de apresentar uma duração normal para o género, 113 minutos, fica-lhe a faltar massa crítica para uma história com múltiplos twists em várias plataformas (FBI, NYPD, máfia da droga) que mereceriam mais detalhe, atenção e descrição de pormenores para tornar credível a acção que se desenrola numa sucessão de equívocos.
Compreende-se a disputa entre o FBI e NYPD mas perde-se a postura e as motivações de Montgomery (Clive Owen) para as suas atitudes, particularmente este personagem com este ator que normalmente impregna de dura personalidade tão profundamente os personagens que encarna, como em; “Infiltrado” de 2006, “A Organização” de 2009, ou “Anon” de 2018, para só mencionar três exemplos, aqui mal tem tempo para aparecer e para nos dizer ao que vem e muito menos porque vem.
Di Stefano preocupa-se mais em nos mostrar a célula familiar constituída por Peter Koslow (Joel Kinnaman) um bom pai de família que teve azar numa luta de bar mas que só pretende uma vida pacata com a sua mulher, Sofia Hoffman (Ana de Armas) e a filha de ambos, em que Ana de Armas com o seu rosto bonitinho e corpo roliço, não exprime a angústia inerente aos acontecimentos nem a força necessária para lhes resistir e os seus grandes olhos e boca carnuda em demorados close ups constituem um fait divers para o espectador, em algumas cenas de tensão e angustia.
O argumento está construído com cruzamentos duplos e triplos, é coerente e movimentado e bem ao nível do género, mas parece que o realizador teve pressa em acabar a tarefa e não nos dá tempo, nem meios, para ajuizarmos as situações antes das mesmas serem descritas, ou comentadas, pouco depois pelos personagens. Falta intensidade dramática, falta envolvimento e sobretudo, numa das cenas finais, falta mostrar como Kinnaman, na sequência da cena mais empolgante do filme que lhe permitiu uma astuciosa fuga da prisão, mal tratado e queimado num incêndio, reverte a acção a seu favor dentro da ambulância contra três enfermeiros policias que o guardavam. Uma pena!...

Classificação: 5 numa escala de 10

27 de dezembro de 2019

Opinião – “The Grudge: A Maldição” de Nicolas Pesce


Sinopse

“The Grudge: A Maldição” é protagonizado por Andrea Riseborough Demián Bichir, John Cho, Betty Gilpin, Lin Shaye e Jacki Weaver. Baseado no filme “Ju-On”, escrito e realizado por Takashi Shimizu, “The Grudge: A Maldição” é produzido por Sam Raimi, Rob Tapert e Taka Ichise.

Opinião por Artur Neves

The Grudge, que significa realmente maldição tornou se um franchise de terror desde 2002, data em que foi realizado por Takashi Shimizu o primeiro filme com o nome “Ju-On”. Seguiram-se duas sequelas em 2004 e 2006, realizadas pelo mesmo autor e com um argumento muito semelhante, considerando que a maldição desperta em todos os locais onde se consuma um assassinato com raiva e se manifesta como uma criança demoníaca.
Em 2009 apareceu uma versão americana da autoria de Toby Wilkim e agora em 2020 (ano de estreia) aparece esta versão também americana realizada por Nicolas Pesce que está em apreciação nesta crónica. Adicionalmente, com origem também nos USA, apareceram dois filmes com o mesmo argumento do “The Grudge”, batizados de “The Ring” (O Anel) o que significa que esta história tem os seus admiradores fiéis em pessoas que procuram uma exaltação constante de medo e surpresa.
É o que se passa neste filme. A história começa pelo anúncio de um crime numa casa também envolvida num assassinato semelhante anos antes. Esse crime, ainda não resolvido provocou sequelas psicológicas nos detetives envolvidos na investigação, um dos quais, Officer Michaels (Bradley Sawatzky) foi apanhado pela maldição, o que lhe causou perturbações mentais ao ponto de ter sido substituído pela Detective Muldoon (Andrea Riseborough) uma agente que perdeu o marido recentemente e procura nova vida para ela e para o filho noutra cidade, um novo recomeço, pensava ela, antes de lhe entregarem e ao companheiro de equipa, Goodman (Demián Bichir) este caso que lhes motiva a visita á casa dos mortos com elevada relutância de Goodman.
Muldoon, na tentativa de vencer este novo desafio posto no seu caminho, voluntaria-se para efetuar a visita à casa, onde encontra Faith Matheson (Lin Shaye, a veterana atriz da série de filmes “Insidious”, 1, 2 e 3, que prova que isto anda tudo ligado) e o cadáver do seu marido já em prolongado estado de decomposição como só o cinema sabe fantasiar e produzir.
Segue-se a descoberta de um automóvel batido contra uma árvore à beira da estrada, onde jaz um corpo indefinível, também em elevado estado de decomposição, bem como, rostos ensanguentados no escuro, ou através do seu reflexo em espelhos, ou movendo-se na sombra, criando no espectador estupefação e surpresa por parecerem eventos isolados e desconexos e são nos realmente, até o realizador porfiadamente os ligar através de flashbacks que compõem meticulosamente a linha do tempo e da história que lhe deu origem sem deixar pontas soltas.
É pois terror de bom nível ao estilo tradicional, suportado por bons efeitos especiais de caracterização, bom ritmo de surpresa e capaz de entusiasmar os mais jovens que ainda se prendem nestas histórias de fantasmas e de mortos que procuram a luz para cativar os vivos para o seu mundo. Vale enquanto dura e a memória dissipá-lo-á com a mesma vertigem com que entrou, recordando-se apenas que com aquele fim é mais do que certo que nova sequela já está em gestação.

Classificação: 4 numa escala de 10

26 de dezembro de 2019

Opinião – “The two Popes” de Fernando Meirelles


Sinopse

Por trás dos muros do Vaticano, o conservador Papa Bento XVI e o futuro liberal Papa Francisco devem encontrar um terreno comum para criar um novo caminho para a Igreja Católica.

Opinião por Artur Neves

Este é terceiro filme da plataforma Netflix que coleta 6 nomeações na categoria de melhor filme para os Golden Globe Awards de 2020, realizado por Fernando Meirelles, realizador brasileiro que já nos deu “Cidade de Deus” em 2002 e “Ensaio sobre a Cegueira” em 2008.
Desta vez apresenta-nos um drama biográfico baseado na obra teatral de Anthony McCarten; “O Papa” de 2017, que foi adaptada para cinema pelo próprio autor e que relata um encontro fictício no Vaticano entre Bento XVI e o então cardeal Mário Bergoglio, futuro papa Francisco I, em que são abordados os atuais problemas da fé, por dois homens que se apresentam como pessoas comuns, com dúvidas, fraquezas e vacilações.
A narrativa que nos é apresentada sobre a conversa entre os dois homens, pode considerar-se uma visão criativa do estado atual da igreja católica, onde a fé já não se aceita como o dogma inspiracional que deu origem a essa crença que deve ser seguida sem questionamento nem prova, numa altura em que são revelados crimes tão zelosamente guardados pela oligarquia do poder espiritual, numa desesperada atitude de manutenção do status quo que os protege.
Entre outros assuntos, nessa conversa, o Papa Bento XVI, Cardinal Ratzinger (Anthony Hopkins) revela o seu desejo de resignação do cargo por "falta de força da mente e do corpo" devido à idade, ao cardeal Jorge Mario Bergoglio (Jonathan Pryce) que o incentiva a continuar na função, referindo-lhe ser o primeiro papa em quase 600 anos de vida da igreja que usa esse argumento para deixar de ser o representante de Pedro na terra.
A igreja de Bento XVI está pejada de escândalos e ele não sente capacidade para os denunciar ou reverter, as pressões são demasiadas para as suas débeis forças. Bergoglio assume-se como crítico da gestão de Bento XVI e para não entrar em choque com ele solicita licença para aposentação, que não lhe é concedida. Desse diferendo resulta uma série de discussões e discordâncias filosóficas sobra a natureza do dogmatismo da fé, do pecado e do perdão e em que direção a igreja deve seguir para manter a relevância da sua atividade num mundo que parece estar apostado em prescindir dela.
O êxito do filme assenta na exímia performance dos dois atores que defendem duas personagens ostensivamente opostas. Bento XVI é um teólogo conservador, fechado na sua torre de marfim, avesso às questões mundanas que desviem o seu pensamento da academia da fé e que falhou ao permitir o encobrimento de alegações de abuso sexual de crianças por alguns clérigos. Bergoglio, pelo contrário é um cardeal do povo, que o filme mostra em vários flashbacks quando jovem e na década de 70 na Argentina, quando foi acusado de mostrar alguma aceitação pela ditadura militar responsável pela morte de milhares de pessoas. Todavia, ele vive entre o povo e com o povo e desmultiplica-se por variadas ações de cariz social e ecuménico que lhe conferem idoneidade e presença.
Em última análise Anthony Hopkins e Jonathan Pryce posicionam-se como os atores de uma comédia de amigos incompatíveis e são extraordinários nos seus papéis. Hopkins constrói um Bento arrependido por nunca se ter aberto ao mundo o que contradiz a sua retórica conservadora tradicional, da igreja católica e Pryce oferece-nos um personagem encantador, expressando provocação e inteligência desafiadora das premissas de Bento. Para o excelente desempenho de ambos vai toda a classificação indicada a seguir.

Classificação: 9 numa escala de 10

20 de dezembro de 2019

Opinião – “Dark Waters: Verdade Envenenada” de Todd Haynes


Sinopse

Baseado numa história verdadeira e um forte candidato aos Óscares. Robert Bilott (Mark Ruffalo) é um advogado de defesa que confronta a empresa química DuPont para expor um horrível segredo de poluição ambiental.

Opinião por Artur Neves

Este filme conta uma história verdadeira e atual que ainda continua em tribunal na discussão do valor de indemnização a pagar às vítimas da intoxicação provocada por contaminação da água dos rios e da água distribuída aos habitantes da pequena cidade da Virgínia Ocidental durante décadas. O argumento foi baseado no artigo do New York Times; “O advogado que se tornou o pior pesadelo da DuPont” e reporta-se à luta entre “David e Golias” em que a figura central é o advogado Robert Bilott (Mark Ruffalo) que empenhando a sua própria carreira, a sua estabilidade financeira e a sua saúde, desenvolve um processo contra a gigante da química, DuPont, em busca da justiça e da verdade, que a empresa conhecia mas ocultava, na busca do lucro.
O filme conta assim uma perturbadora história de horror sobre a má conduta corporativa da DuPont, permitindo a Todd Haynes construir um thriller de direito e tribunal, dando ênfase à promiscuidade existente entre os grandes monopólios industriais e os governos que pactuam dissimuladamente com as suas atividades.
A história começa pelo pedido de intervenção de Wilbur Tennant (Bill Camp), um fazendeiro proprietário de uma quinta na vizinhança da casa da sua avó, para que o defenda na luta contra a empresa que ele crê ser a responsável pela estranha morte de centenas de cabeças do seu gado. Os animais adoecem lentamente, tornam-se vacilantes, por vezes violentos, atacando sem razão o fazendeiro, que em algumas situações é obrigado a matá-los para sua própria defesa.
Tennant possui um registo videográfico do comportamento dos animais doentes e vários órgãos completamente anormais dos animais mortos, após a autópsia a que ele os submeteu. Com base nessas evidências, Robert Bilott desenvolve a investigação, confronta a DuPont obrigando-a a ceder a documentação relativa aos seus parâmetros de produção e conclui que o problema é mais vasto do que inicialmente previra, considerando que as pessoas da cidade são igualmente afetadas pela intoxicação.
Robert Bilott (Mark Ruffalo) tem um desempenho sóbrio como o advogado que embora sem discursos teatrais, cumpre zelosamente a sua tarefa, porfiando os indícios e coletando provas que exibe discretamente mas com firmeza em tribunal, mesmo contra a vontade dos sócios do seu escritório, encabeçados por Tom Terp (Tim Robbins) que constrói um personagem inteligente e árbitro, entre a justiça e o interesse dos sócios, que receiam não conseguir entrar no circulo restrito dos contratados da grande indústria.
Sarah Bilott (Anne Hathaway) no papel de esposa de apoio de Robert, desempenha com competência o que lhe mandam fazer e mais não faz porque o argumento não lhe dá essa oportunidade. Temos assim uma história que combina drama com biografia e jornalismo, apresentada de uma forma escorreita que nos mostra os perigos que desconhecemos e a que estamos sujeitos, bem como, que apesar de vivermos em sociedade e pagarmos impostos, estamos entregues a nós próprios.

Classificação: 6,5 numa escala de 10

18 de dezembro de 2019

Opinião – “O Irlandês” de Martin Scorsese


Sinopse

O Irlandês conta a história de Frank Sheeran "The Irishman", um sindicalista e veterano da Segunda Guerra Mundial que se torna num assassino a soldo para a máfia. Agora velho, e incapacitado numa cadeira de rodas, Sheeran começa a refletir sobre os eventos que definiram a sua carreira no mundo do crime organizado, no seu envolvimento com a família Bufalino, e nas suas escolhas e ações que tiveram um papel decisivo no desaparecimento do seu amigo de longa data, o líder trabalhista Jimmy Hoffa.

Opinião por Artur Neves

Mais um filme que só pode ser visto na plataforma de streaming Netflix. Até agora já conseguiu 5 nomeações ao prémio de melhor filme na categoria de “drama”. No conjunto de 3 das suas realizações para a cerimónia 77º dos Golden Globe Awards, de 5 de Janeiro 2020, conta já com 17 nomeações para a mesma categoria, sendo o terceiro filme; “The two Popes” a estrear em 20 de Dezembro no Reino Unido, merecedor de 6 nomeações. Isto pode significar uma mudança de paradigma para a indústria da sétima arte, que não é um mal em si mesmo, mas que exige alguma adaptação dos espectadores e de outros meios técnicos para usufruir de idêntica qualidade de visionamento numa sala de cinema.
A história é contada como sendo as memórias de Frank Sheeran (Robert de Niro) no final da sua vida, retido numa cadeira de rodas numa casa de repouso, em que ele se confessa a um padre ou fala para si, não interessa, porque o importante é o facto dele, agastado pela idade e sem interesse em ser considerado como herói ou vilão, recorda a sua vida duma maneira que compreendemos que interferiu na vida de todos os americanos sem que na altura eles se tivessem apercebido.
Como certa crítica internacional tem referido, este é o filme cúpula da obra de Scorcese, ao que eu me permito discordar, considerando antes a ilustração do prazer perverso que ele tem em mostrar o pecado humano, bem como, a sua consequência na alma humana, (veja-se “Taxi Driver”) construindo inexoravelmente um ato final assombrado pela velhice, pela incapacidade física e pelo arrependimento, com a mesma indiferença com que cometeu os atos agora recordados.
A história do filme decorre durante uma viagem de Sheeran e Bufalino (Joe Pesci) com as suas esposas para um casamento em Detroit em 1975, enquanto em longos flashbacks e paragens em lugares significativos para ambos, conhecemos a lenta ascensão de Frank Sheeran na irmandade mafiosa em que Bufalino era o seu mais destacado representante. O filme conduz-nos como observadores discretos ao longo da vida destes dois homens, dando-nos todos os elementos significativos, sem sobressaltos nem violência excessiva, mostrando-nos também a facilidade com que Martin Scorcese manipula com suavidade os elementos do cinema, tornando a narrativa totalmente absorvente.
É fácil imaginar que ambas as linhas da história hão de encontrar-se algures, mesmo após a entrada de Jimmy Hoffa (Al Pacino) o chefe dos Teamsters Union (sindicato dos motoristas dos USA e Canadá) que comportamentalmente se situa nos antípodas de Frank e Sheeran. Hoffa é truculento, excessivo, extrovertido, fácil de irritar tanto por amigos como por inimigos e todavia muito chegado a eles. É Frank que estabelece uma ponte de ligação com o sóbrio Bufalino (como o poster do filme pretende representar) apesar de ter estabelecido com Hoffa uma sólida amizade baseado no respeito mútuo e na entreajuda.
A história baseia-se no livro "I Heard You Paint Houses", de Charles Brandt (Eu ouvi você pintar casas) que se refere à primeira conversa entre Frank Sheeran e Hoffa, que segundo um código da máfia significa; “ouvi você matar pessoas” sendo a “tinta”, as pingas de sangue nas paredes resultantes do disparo de balas contra um corpo. Todavia, Scorcese não está muito interessado em contar-nos o desenrolar desses eventos que tiveram uma investigação detalhada no caso do assassinato de Jimmy Hoffa e um processo legal longo, mas antes mostrar-nos o apagamento lento da humanidade do personagem “O Irlandês” (Frank Sheeran) e dos seus colegas de organização do crime, homens sem consciência que dificilmente merecem a classificação de homens. Isso é magistralmente conseguido neste filme por Frank que, de zeloso e competente encarregado de missões de morte, se transforma num ser mecânico obediente, sem alma, sentido crítico ou humanidade. Muito bom, recomendo vivamente.

Classificação: 9 numa escala de 10