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3 de junho de 2020

Opinião – “Ema” de Pablo Larraín


Sinopse

Depois de um longo e penoso processo de adoção, Ema, uma bailarina de "reggaeton", e o seu marido, Gastón, ficam responsáveis por cuidar de Polo, um menino órfão que nunca conheceu a estabilidade de uma família. A adaptação revela-se mais difícil do que imaginavam e algum tempo depois, Polo provoca um acidente que fere gravemente a irmã de Ema. Este incidente terrível deixa marcas e faz com que Ema tome a decisão de devolver a criança. Isso vai mudar radicalmente a forma como Ema e Gastón se vêem um ao outro, a si mesmos e ao mundo que os rodeia.

Opinião por Artur Neves

A sinopse anterior descreve o essencial deste “Ema” realizado por Pablo Larraín realizador Chileno nascido em 1976 que inclui no seu curricula cinematográfico obras tão diferentes como “Não” de 2012, um filme sobre revolta e direitos humanos contra a ditadura de Pinochet, “O Clube” de 2015 em jeito de denúncia sobre pedofilia praticada por religiosos católicos, que representa o seu filme mais emblemático, ou “Jackie” de 2016 sobre Jacqueline Kennedy Onassis, em jeito de novela, apresenta-nos agora este “Ema” cujo enredo apenas serve para suportar as personagens que o desempenham em diferentes situações, as suas vivências, objetivos, filosofias de vida, não sendo a história o mais importante, que apenas serve como fio condutor dos eventos que nos vão sendo mostrados durante cerca de 107 minutos.
“Ema” estreou no Festival de Cinema de Veneza de 2019 e quem conhece Larraín através das obras anteriormente citadas ou de outras de relevo semelhante, como “Tony Manero”,de 2008, sobre a angustiante figura e personalidade de um dançarino clássico, vai estranhar esta incursão no mundo da dança moderna e do "reggaeton", uma dança popular imbuída de uma expressão corporal intensa e culto da figura, com a qual Larrain parece algo perdido e só remotamente parece conhecer na sua essência. Recorde-se ainda que Larrain pertence a uma família da classe alta do Chile que apesar de no tempo de ditadura terem apoiado Pinochet, não o impediu de realizar “Não”, que constituiu o mais popular libelo acusatório contra os anos de chumbo desse período histórico.
Ema (Mariana Di Girolamo) é uma jovem bailarina que exprime através dessa arte os seus desejos, frustrações e tendências pirómanas, que funciona como metáfora para a combustão das sua múltiplas paixões, (ela chega a dançar com uma garrafa de combustível ás costas e um lança chamas na mão que inclui na coreografia) revolta-se contra o facto do seu marido e coreógrafo Gastón (o mexicano Gael García Bernal) não ser capaz de a engravidar para lhe permitir ser mãe natural, o que justifica a adoção de Polo (Cristián Suárez) um órfão a quem ela transmite as desilusões da sua vida e promove uma educação disruptiva no sentido da promiscuidade e da auto destruição que vitimou a sua irmã com fogo e que neste filme se torna um elemento fundamental da narrativa.
Esse evento promove o abandono de Polo e a separação do casal, depois de diversas acusações mutuas em que se revelam coisas que não vimos, nem sabíamos até ali, mas que permitem por parte dos atores interpretações credíveis, intensas, com Ema a polarizar toda a ação, de olhos fixos no “inimigo” (para ela todos o são) cabelos constantemente oxigenados e penteado agarrado à cabeça, numa atitude pós adolescente agressiva, disposta a desafiar todos os que interferirem no seu caminho.
Na sua ânsia de agarrar a vida procura outro parceiro, que mais tarde viremos com surpresa saber de quem se trata, embora em todo o filme o universo da dança reflita bem o seu desejo incontornável por liberdade e por protagonismo na vida de todos os que a cercam.
Ela deseja ser livre com a mesma intensidade com que deseja ser mãe, não avaliando a incompatibilidade entre esses objetivos, porque o seu desejo de maternidade decorre da sua turbulência emocional vivida na infância, para a qual a piromania funciona como o meio de eliminar o passado que lhe é doloroso. É por tudo isto que “Ema” é estranho ao universo de Larrain, considerando que apesar de existir uma história, um substrato coerente emocionalmente válido e escorreito, ele deixa tudo nas mãos de um personagem tão indomável como indefinível que se consome no fogo que deliberadamente espalha.
“Ema”, está disponível nas plataformas Netflix por assinatura, ou em Filmin, pelo preço de €3,95, sem contrato nem fidelização durante 72 horas.

Classificação: 6 numa escala de 10

31 de maio de 2020

Opinião – “Presságio” de Alejandro Montiel


Sinopse

Nesta prequela de "Perdida" de 2018, a agente Pipa não só tem em mãos o seu primeiro caso policial importante, como também investiga o seu superior, que é suspeito num homicídio.

Opinião por Artur Neves

“Perdida” é um filme dramático argentino deste mesmo realizador, baseado no romance “Cornélia” da jornalista também argentina; Florence Etcheves onde aparece o personagem de “Pipa”, Pelari (Luisana Lopilato), uma agente de polícia que neste filme ocupa a categoria de estagiária, embora se deva a ela a solução do enredo criminoso que dá suporte à história.
No original, este filme designa-se por “Intuition” (Intuição) muito embora a história que nos conta só muito remotamente seja atribuível à perceção instintiva sem razão objetiva, que está na base das deduções por intuição, mas a Netflix é que sabe e na sua distributiva operação pelo maior número de países do mundo, encaixa no seu cartaz este “conjunto de episódios” de séries policiais, costurando-os numa narrativa sequencial que pretende ser um filme e não a manta de retalhos que me pareceu, nesta estreia em 28 de maio.
O filme começa num prólogo, á boa maneira dos filmes de super heróis, em que Francisco Juanez (Joaquín Furriel) o detetive responsável pelo caso do desaparecimento em série de meninas está conduzindo os seus colegas floresta a dentro até ao covil do presumível sequestrador, embora contra as sugestões dos seus mais diretos colaboradores, ao que Juanez responde com a sua indefetível “premonição” de que se encontra no bom caminho da detenção do criminoso e do resgate da ultima vítima em cativeiro.
Ainda o fumo dos efeitos especiais (que simulava o nevoeiro húmido da floresta onde entraram) não se tinha totalmente dissipado e já Juanez está incumbido do próximo caso que envolve o assassinato de uma moça, para o qual ele recebe como ajudante a jovem detetive “Pipa” que não mais deixaremos de ver a partir daqui.
O que Juanez não sabe, (nem intui) é que ela foi incumbida de investigar secretamente a eventual participação de Juanez no acidente rodoviário que vitimou mortalmente um jovem que pertencia a uma família de ciganos comerciantes de acessórios de automóvel que foram responsáveis pela morte da mulher de Juanez.
Ao longo dos 116 minutos de duração do videograma acompanhamos a evolução das investigações, saltando de uma para outra fazendo crescer todas quase em simultâneo com “Pipa”, inicialmente muito desconfiada do seu parceiro e chefe de investigação e aos poucos amolecendo a sua atitude decorrendo dos factos que vão sendo descobertos, até ao ponto de passar uma noite com ele, por motivos exclusivamente profissionais… claro…
Aqui chegados só me apetece citar; “… não havia necessidade…” de juntar tantos clichés e lugares comuns num argumento de pacotilha, que embora reúna algumas cenas de interesse não possui qualquer originalidade nem a garra necessária que permita tornar o personagem de Juanez num investigador credível e a história, num todo coerente.
Juanez e “Pipa” são uma dupla que deveria constituir uma relação de “professor e aluna” mas que devido à investigação subterrânea de “Pipa” mais parece um jogo de gato e rato que para se manter têm de se gerar muitos hiatos de colaboração e de movimentações na ação que se torna algo penoso durante todo aquele tempo em que começamos a perguntar como é que aquilo acabará, sabendo-se antecipadamente que só pode acabar bem para que possa existir uma sequela. Poucochinho!...

Classificação: 4 numa escala de 10

28 de maio de 2020

Opinião – “Give me Liberty” de Kirill Mikhanovsky


Sinopse

Vic, um jovem desafortunado russo-americano, conduz uma carrinha de transporte de pessoas incapacitadas em Milwaukee. Já atrasado, num dia em que começam protestos, e à beira de ser despedido, concorda, relutantemente, em levar o avô e vários idosos russos a um funeral. Quando pára num bairro predominantemente afro-americano para ir buscar Tracy, uma jovem com esclerose lateral amiotrófica, o dia de Vic vai de mau a pior.

Opinião por Artur Neves

Esta é mais uma obra apresentada no festival de Sundance Film Festival de 2019, essa montra generosa que privilegia filmes de baixo orçamento e produção independente, fundada em Agosto de 1978 por Robert Redford, na capital do estado do Utah, a cidade de Salt Lake City tendo cumprido até agora os objetivos propostos, apresenta-nos esta história dirigida por Kirill Mikhanovsky, um realizador russo que se inspirou nos seus tempos iniciais como emigrante em Milwaukee, em 1993, onde serviu como motorista de transporte de pessoas com deficiência, e se confrontou com situações caricatas mas de elevado conteúdo humanista que agora, num tom habilidosamente ligeiro transportou para cinema.
Vic (Chris Galust) está num dia complicado pelo atraso que já regista na sua volta programada devido a diversas manifestações públicas contra a ocorrência de um tiroteio policial num bairro negro, que o fazem procurar alternativas ao percurso estabelecido. Não obstante, os imigrantes russos que moram no prédio onde ele visita o seu avô, pedem-lhe para os levar ao cemitério para as exéquias de um falecido que pertencia à comunidade. Vic sabe que o transporte que os devia levar já sofre um significativo atraso pelo que ele assume mais essa tarefa de transportar o grupo.
A habilidade de Mikhanovsky leva-o a pegar em pessoas deficientes reais, membros da comunidade russa imigrante de Milwaukee, frequentadores regulares do Eisenhower Center da cidade, incluídos num grupo de apoio de pessoas com deficiência e transforma-os em atores que exibem com a genuinidade inerente os seus medos, fragilidades e carências que compõem esta comédia, refinadamente caótica e imprevisível.
São pessoas despojadas do glamour do palco que exibem as suas carências naturais de atenção, excesso de solidão e prioridades avulsas, mostrando com o realismo rústico da sua existência as dificuldades levantadas numa viagem, num dia particularmente intenso e frio do inverno do Wisconsin.
Vic tem de seguir, embora remotamente, o plano estabelecido pela empresa de transporte onde trabalha, as coisas já estão a correr suficientemente mal com o seu patrão para que ele, sempre que é contactado por este, refira que se encontra a 10 minutos do destino, quando em boa verdade, devido às alternativas de percurso que tem de encontrar, seja impossível calcular o tempo em falta.
A “cereja no topo do bolo” é Tracy (Lauren “Lolo” Spencer) que num desempenho digno de registo se assume como defensora de pessoas com deficiência tendo obrigações de horário a cumprir para ajudar um amigo, Steve (Steve Wolski), que vai a uma entrevista de emprego. Por outro lado quem mais ajuda Vic e desestabiliza o grupo, é um pugilista russo, desempregado, barulhento e brigão, Dima (Maxim Stoianov) que entra em conflito com Tracy, portadora de ELA e tem de manobrar a sua cadeira de rodas motorizada, no interior de uma carrinha lotada de pessoas que reclamam, protestam e cantam canções folclóricas russa acompanhadas por um acordeão que rouba espaço necessário à cadeira de rodas.
É mais um filme sem heróis, que se desenvolve notavelmente pela sua autenticidade. A deficiência não é usada como lamentação de pessoas incapazes e incompletas ou como compensação moral da ajuda prestada pelas pessoas saudáveis. Mikhanovsky, a maior parte do tempo de câmara na mão, assume o compromisso de mostrar um nicho de sociedade marginalizada, cujas reflexões sobre a vida e o amor recentram a história em padrões comuns que proporcionam lindos momentos de tranquilidade e repouso naquela atribulada viagem.
Disponível na plataforma Netflix desde 12 de maio. Muito interessante.

Classificação: 6 numa escala de 10

21 de maio de 2020

Opinião – “All Day and a Night” de Joe Robert Cole


Sinopse

Enquanto Jahkor (Ashton Sanders, de “Moonlight”), de fala mansa e gestos contidos, luta para manter seu sonho de se manter vivo no meio de uma guerra de gangues em Oakland, sua vida infeliz e as responsabilidades do mundo real levam-no cada vez mais além da linha do certo e do errado com trágicas consequências.
Depois de ser preso e de encontrar seu pai na prisão, JD (Jeffrey Wright, de “Westworld”), com quem ele nunca se quis comparar, Jahkor embarca numa improvável jornada de autodescoberta, explorando os eventos que os unem, na esperança de ajudar seu filho recém-nascido a quebrar um ciclo que parece inevitável.

Opinião por Artur Neves

Este trabalho de Joe Robert Cole, realizador americano negro que tem no seu curricula “Black Panther” de 2018 e a popular e muito aclamada série para a televisão; “American Crime Story” apresenta-nos agora o ator de “Moonlight”, filme premiado na cerimónia dos Óscares de 2016, em Jahkor, um personagem que conta uma dramática história de vida de um garoto abandonado, com pai desaparecido, educado por um padrasto violento, a cumprir uma pena de prisão perpétua, mas com uma determinação de não deixar replicar que os seus erros de ontem se transformem amanhã em tragédias do seu filho.
A história começa pelo brutal crime a sangue frio que impõe a narrativa e o levará a julgamento e posteriormente à cadeia onde se encontra, numa cela isolada, que lhe permite reviver todo o seu caminho até ali reconhecendo a brutalidade dos seus atos como reflexo da infância e juventude que viveu, numa história de amadurecimento envolvido numa meditação sombria e desconfiada sobre a identidade, intenções e masculinidade do americano negro.
Embora sempre acompanhado na infância pela sua mãe Delanda, (Kelly Jenrette) e sua tia Tommetta, (Regina Taylor) duas fontes de força e amor duro, sempre a instigá-lo para seguir um caminho contrário aos exemplos diários com que se confrontava na escola e com os amigos frequentes, tais como, o astuto TQ (Isaiah John) desde sempre inclinado para uma vida de crime e arrastando-o com ele e o otimista Lamark (Christopher Meyer) sempre pronto a congeminar a melhor maneira de cometer o crime e escapar dele.
Em todo o filme ele mantém um monólogo íntimo e recorrente em que descreve uma narrativa de luta de gangs, de tráfico de droga, de racismo diário nos mais vulgares eventos quotidianos que motivam a citação em forma de murmúrio; “A escravatura ensinou os negros a sobreviver, mas não a viver” que ele repete em todos os momentos em que procura o isolamento para compor música hip-hop para a qual se sente particularmente vocacionado, embora sem oportunidade para a desenvolver naquele meio.
No desenvolvimento da história, entre o presente estado de reclusão e a descrição das razões que o levaram aquele medonho crime, o filme recorre-se de múltiplos flashbacks, sempre suportados pela sua voz em off, desde as lutas no recreio da escola em que experimenta a primeira satisfação de ter vencido um dos colegas mais acintoso e de ter cumprido a recomendação do seu pai adotivo de responder à violência com violência. Esta conclusão tornar-se-á uma emoção permanente na vida à qual se habituou.
“Todo o dia e uma Noite” na versão portuguesa, é uma história de fatalismo constante que elimina a possibilidade de redenção do que nos vai sendo apresentado. Sabemos desde o primeiro momento o crime que cometeu e que vai ser preso, portanto as suas tentativas de compor hip-hop, a sua recusa ao consumo de droga, o encontro com Shantaye (Shakira Ja'nai Paye) a quem faz um filho, são percalços de uma vida que sabemos não terá futuro e que deixa ao espectador a única hipótese de se concentrar no modo como tudo aconteceu.
Mesmo que em algum momento, como no tempo do seu relacionamento com Shantaye, você sinta alguma comiseração e esperança que ele atine com a vida, o filme a seguir mostra-lhe claramente que isso não vai acontecer, pelo que uma alteração da montagem poderia contribuir para a manutenção da esperança que a história se encarrega de eliminar.
Para lá das explosões de violência este filme contém uma meditação sobre a vida e sobre os maiores riscos de ser destruída e isso justifica o seu visionamento. Está disponível desde 1 de maio na plataforma Netflix.

Classificação: 6 numa escala de 10

5 de maio de 2020

Opinião – “Furie” de Olivier Abbou


Sinopse

Inspirado em factos reais. Durante as férias de verão, Chloé (Stéphane Caillard) e Paul Diallo (Adama Niane) emprestam sua casa à babá de seu filho. Ao voltar da viagem, a família Diallo encontrou a porta fechada: as fechaduras haviam sido trocadas e os ocupantes declararam que estavam em casa. Para Paul, é o começo de uma luta que fará vacilar o seu casamento, os seus valores sociais e a sua humanidade.

Opinião por Artur Neves

Este “Furie”, de origem francesa, foi renomeado para Portugal como o nome; “Ultrage”, para não ser confundido com outro filme com o mesmo nome original e ano de publicação, mas de origem Vietnamita e com um argumento radicalmente diferente, causou-nos verdadeira surpresa pelo seu conteúdo contar uma história desconfortável para os padrões sociais europeus, sobretudo por anunciar que se baseia em factos reais, embora omita completamente a origem da sua fonte inspiradora.
Olivier Abbou é um realizador francês de 47 anos, nascido em Colmar no Alto Reno mas de origens familiares argelinas, o que penso, justificará em parte a devastadora violência gratuita incluída no filme sobre um ato que começa por se apresentar como justicialista mas que o filme deixa descambar para violência puramente gratuita. Já em 2011 ele realizou “Territoires” um filme que aborda os direitos humanos através de grande violência.
A história centra-se em torno do regresso de férias de um casal que terá emprestado a sua casa durante esse período à família da cuidadora do seu filho em idade escolar e que agora se recusa a devolver-lhe o domicílio, tendo mudado as fechaduras e assumindo os contratos de água e eletricidade que ela tinha e ao abrigo da lei francesa essa tomada de posse é suficiente para os direitos de possessão. Não tenho suficientes conhecimentos da lei francesa para ajuizar da veracidade deste ato, mas é por este caminho que a história nos conduz e com outro desenvolvimento do argumento o filme não perderia qualidade mesmo tratando-se de uma ficção.
Pela leitura da sinopse e do visionamento do trailer, o filme prometia uma história sombria, de contornos insidiosos que provocariam o eventual recurso à violência pontual em face de uma tão rotunda injustiça e perplexidade, considerando que a cedência teria sido a título gracioso e por simpatia e generosidade com os serviços anteriormente prestados.
A solução começa por ser a comunicação à polícia, a contratação de uma advogada e o seguimento dos trâmites legais para a denúncia daquela ocupação selvagem. Só que Olivier Abbou utiliza o caso para questionar a masculinidade de Paul Diallo (e a masculinidade em termos gerais no século XXI) incentivando-o ao ataque pessoal para afirmar os seus direitos, através de um contacto com Mickey (Paul Hamy) o porteiro do parque de campismo a que ele recorreu para estacionar a caravana que lhe serviu de habitação durante as férias e iria continuar a servir, decorrente da presente situação.
Mickey, um antigo colega de escola secundária da sua esposa Chloe, é um homem truculento, brigão por natureza, incluído num grupo de capangas semelhantes e detentores da mesma índole que imediatamente tentam absorver Paul (professor de História como profissão) para o seu meio e para as suas atividades muito próximas do ilegal. Paul deixa-se manipular pelo grupo e assume um papel de criança sofrida, umas vezes amuada outras zangada, deixando-se embarcar numa ação com pouco de viril e muito de idiota. Em toda a cena Chloe desempenha um personagem mais responsável e corajoso a enfrentar os problemas emergentes da situação, não só no presente como na evocação do passado com Mickey.
Quando o grupo passa ao ataque começa a descalabro do filme com violência gratuita que se aproxima do insuportável através da exibição da mais absoluta falta de humanidade à semelhança do que já tinha sido apresentado em “Territoires”. Parece que o argumento e o caso em apreço foram filmados para serem usados como pretexto para justificarem um final violento que exibisse a crueza humana sem pingo de humanidade, bestialidade pura.
Tudo se passa como se os valores humanos não existissem, nem polícia, nem justiça, nem estado, tendo sido deixados sós e abandonados aos elementos da selvajaria humana e que termina num final que se fica por isso mesmo, sem quaisquer consequências nem epílogo conciliador com o estatuto social existente.
Estreou no dia 1 de Maio na Netflix e podia ser melhor com o ambiente opressivo, angustiante e de injustiça que o argumento cria, mas fica-se somente pela violência.

Classificação: 4 numa escala de 10

29 de abril de 2020

Opinião – “Extraction” de Sam Hargrave


Sinopse

Tyler Rake (Chris Hemsworth) é um destemido mercenário do mercado negro, sem nada a perder, quando suas habilidades são solicitadas para resgatar o filho sequestrado de um lorde internacional do crime, preso. Mas no submundo sombrio dos traficantes de armas e traficantes de drogas, uma missão já de si mortal aproxima-se do impossível, alterando para sempre as vidas de Rake e do garoto.

Opinião por Artur Neves

Com indicação do título em português de; “Operação de Resgate” este filme disponível na plataforma Netflix conta a história do recrutamento de um mercenário Tyler Rake (Chris Hemsworth) para uma operação de recuperação de alto risco, do filho Ovi (Rudhraksh Jaiswal) de um barão da droga do Bangladesh, entretanto preso, por um grupo rival a operar na mesma área a fim de obter um resgate. Trata-se portanto de um filme de ação, com muitos tiros e combates corpo a corpo, muito embora também possua outros espetos que vou mencionar.
Tyler tem um grupo de apoio, que prepara antecipadamente o assalto e a subsequente extração do rapaz sequestrado e dele próprio, mas as coisa não correm tal como planeado e isso confere tempo de convívio entre Tyler e Ovi, um jovem ator de Mumbai que apresenta um bom desempenho durante todo o filme, dando vida a um personagem infantil, mas com capacidade de observação e teorização da sua situação. A sua expressão de surpresa pelo que lhe está a acontecer, os olhos esbugalhados, a pele morena sempre suada com postura retraída pelo medo, confere ao personagem verossemelhança que se vê e se acredita.
Entre os dois desenvolve-se uma química de confiança que faz Ovi teorizar que se assemelha a um pacote, que se sente mais como coisa do que como pessoa, decorrente de estar a ser disputado pelo seu salvador como a justificação de um pagamento (que não se realizou, mas que ele ainda não sabe) e dos inimigos do seu pai como moeda de troca para aumentarem a sua área de intervenção de distribuição de droga, para alimentarem uma sociedade faminta, onde não falta dinheiro para a satisfação dos seus vícios.
As cenas de luta são bem arquitetadas, combinando talento técnico com boa coreografia que embora rocem os limites do provável ainda se aceitam em certos meios como o Bangladesh. Para conferir mais realismo muitos dos diálogos são em Hindi e Bengali, com atores de Bollywood o que transporta o vulgar thriller americano para um ambiente mais exótico e menos visto noutros filmes do mesmo género.
Depois, não existe propriamente um herói na história, porque Tyler é um profissional desencantado com a sua atividade e que sofre os seus achaques tomando analgésicos com whisky, censurando-se por vezes e resmungando noutras contra as tarefas que lhe cabem, sempre complicadas e dolorosas, mostrando uma tendência da equipa de realização no sentido da humanização do personagem, em detrimento da pura exibição dos dotes físicos e atléticos. Tyler é um trabalhador contratado que trabalha em equipa e estabelece ligações exógenas com o objeto do seu trabalho. A sua equipa é solidária e todos preocupam-se com todos, com inteligência e dedicação.
O caos que nos é mostrado no desenvolvimento da ação, justifica a falência do objetivo de extração de Ovi e nos mostra um mercenário desgastado pela dureza da missão, uma criança assustada, embora consciente da sua posição, onde Tyler projeta a memória trágica do seu próprio filho. O plano de resgate corre mal e urge escapar de uma situação infernal, que lhe provocaram feridas graves e acenderam feridas emocionais que o tempo ainda não tinha sarado.
Embora com doses de violência de dimensão apreciável, é uma história com conteúdo que a torna visível, está disponível na plataforma Netflix desde 24 de Abril.

Classificação: 7 numa escala de 10

24 de abril de 2020

Opinião – “Earth and Blood” de Julien Leclercq


Sinopse

Saïd é dono de uma serração no meio da floresta, que ele decide vender. Mal sabe ele que um de seus aprendizes foi encurralado por seu irmão e forçado a esconder uma grande quantidade de cocaína dentro da sua fábrica. Quando o gangue a quem as drogas pertencem aparece, Saïd rapidamente percebe os quão determinados e impiedosos eles são. Embora em menor número, ele conhece a serração como ninguém. Forçado a defender-se para proteger sua filha Sarah, Saïd transforma a serração numa área de combate. E à medida que o número de vítimas cresce, cresce também a sede de vingança...

Opinião por Artur Neves

O eixo principal da história desenvolve-se no interior da serração na forma de um thriller que se foca na criação de um ambiente de suspense num espaço fechado com muitos possíveis esconderijos para quem não conhece o meio como é o caso do líder dos assaltantes Adama (Ériq Ebouaney) que pretende resgatar a sua mercadoria que foi desviada pela equipa ao seu serviço, implicada no assalto à esquadra que guardava oito quilos de cocaína apanhada pela polícia numa investigação.
Saïd (Sami Bouajila) que se vem a revelar um assíduo colaborador de Julien Leclercq noutras obras recentes deste realizador é o destemido e silencioso defensor dos seus bens, da sua casa e da sua filha adolescente Sarah (Sofia Lesaffre) portadora de uma deficiência quase total de audição, que há de justificar o seu sacrifício para assegurar a sua autonomia e o seu bem-estar futuro.
A cena inicial do assalto é indicadora da dureza que o filme quer imprimir à história com um grupo de indivíduos afro-franceses, mascarados, tensos e vigilantes que aguardam dentro de um automóvel a oportunidade de iniciarem o assalto, sob uma chuva torrencial a que eles se mostram totalmente indiferentes. A entrada na esquadra está de acordo com o planeado, porém dois dos elementos do grupo envolvem-se num tiroteio fatal, imprevisto e indesejável para os objetivos traçados, embora os outros dois sobreviventes consigam fugir com a droga.
É a partir daqui que os traficantes de cruzam com a vida pacata de Saïd, porque um dos sobreviventes, Medhi (Redouanne Harjane) que planeou um destino diferente para o resultado do assalto, é irmão de Yanis (Samy Seghir) que está em liberdade condicional e foi admitido como trabalhador na serração de Saïd em período acompanhado de recuperação, pede-lhe para esconder lá o produto do roubo, já que o assalto é amplamente divulgado com pormenores nos meios de comunicação.
É a partir daqui que o filme ganha tensão emocional, embora sem ser suficientemente engenhoso e capaz de criar um clima que nos faça pensar o que será que o argumento nos espera nas próximas cenas, considerando que sem muito grau de incerteza o desfecho é medianamente previsível, dando a impressão que nem Leclercq nem os argumentistas; Guez e Matthieu Serveau, se preocuparam muito em escamotear as razões da propensão para a violência de Saïd, bem como, as razões que o deixaram naquela situação de cuidador da filha que tem para ele uma postura de confiança e de agradecimento, sim, mas evidenciando por vezes alguma agressividade que poderia trazer ao filme um conteúdo familiar mais dramático e dinâmico.
Por outro lado, a personalidade dos agressores também se apresenta muito plana. Eles são vilões, agressivos, mas sem muita inteligência que possa potenciar como uma vantagem a sua superioridade numérica no assalto que estão cometendo num local que completamente desconhecem. Todos apresentam expressões carrancudas e armamento suficientemente poderoso mas o seu efeito é reduzido, exceto no consumo desregrado de munições disparadas aleatoriamente pelas suas AK-47.
Constitui portanto um filme que resume a história ao essencial, que aposta em muita adrenalina em tempo real e que se situa uns “furos” acima de outros congéneres, mais impessoais e mais exibicionistas de força bruta, só por ela mesmo.
Em exibição na plataforma Netflix desde 17 de Abril.

Classificação: 5 numa escala de 10

21 de abril de 2020

Opinião – “Sergio” de Greg Barker


Sinopse

Carismático e complexo, Sergio Vieira de Mello (Wagner Moura) passou a maior parte de sua carreira como um diplomata da ONU trabalhando nas regiões mais instáveis do mundo, alcançando habilmente acordos com presidentes, revolucionários e criminosos de guerra para proteger as vidas de pessoas comuns. Mas, assim como se prepara para uma vida mais simples com a mulher que ama, Carolina Larriera (Ana de Armas), Sergio assume uma última missão no Iraque, em Bagdad, recém mergulhada no caos após a invasão americana. A tarefa deveria ser breve mas acabou, quando a explosão de uma bomba fez ruir o edifício da sede da ONU tendo ele sido arrastado pelo desmoronamento, a que se seguiu uma emocionante luta pela vida sob os escombros. Inspirado num personagem real e no evento que o vitimou, “Sergio” é um drama abrangente focado num homem levado aos seus limites físicos e emocionais ao ser forçado a confrontar as próprias escolhas em relação a ambições, família e capacidade de amar.
Em exibição na plataforma Netflix desde 17 de Abril.

Opinião por Artur Neves

Esperado com alguma expectativa, considerando que saía das mãos de um documentarista consagrado, já conhecido pelos seus múltiplos trabalhos neste género, tanto para cinema como para televisão, este biopic hagiográfico resume-se a uma rotunda deceção, não só na sumária descrição dos factos, como na tentativa bacoca de transformar um homem bom, um diplomata competente e astuto num beato santificável por qualquer igreja cristã, retirando-lhe qualquer hipótese de autenticidade na sua atividade profissional.
Após uma breve introdução a história começa com o ataque à sede das Nações Unidas no Iraque, ordenada por Abu Musab Al-Zarqawi, líder da Al-Caeda na altura, que apesar de ter sido desmantelada pelo exército americano deu origem à organização terrorista Estado Islâmico (ISIS). O colapso da parede frontal e da estrutura de betão do Hotel Canal arrastou para a cave alguns ocupantes, entre os quais Sergio Vieira de Mello, que ficou preso sobre os escombros.
É nessa agonia sob o peso das pedras que o retém que Sergio recorda em flashback a sua vida passada, que o filme não respeita a dimensão do diplomata, e afoga as suas revelações políticas em sentimento perdendo-se em múltiplas e recorrentes divagações sobre o seu romance com Carolina (uma economista da ONU de nacionalidade argentina) em todas as latitudes para onde ele se deslocou e teve intervenção.
Conheceram-se no Rio de Janeiro, mas se o argumento nesse ponto pelo menos for fiel ao original, ela acompanhou-o por todos os locais, ou pelo menos encontraram-se em todos os locais onde ele procurou cumprir a sua missão defendendo os direitos humanos. Aliás isso nem sequer é estranho, Sergio estava separado legalmente há mais de quinze anos da sua ex-mulher Annie com quem teve dois filhos, portanto era normal que quisesse refazer a sua vida com quem se identificasse com ele, mas o filme, com Wagner Moura, um ator brasileiro muito frequente em telenovelas a interpretar Sergio, só podia descambar para o romance fácil de cariz telenovelesco.
As missões no Camboja, onde foi o único representante da ONU a estabelecer relações com o Khmer Vermelho, Ieng Sary, (na realidade eles não foram colegas na Sorbonne, como o filme reporta, nem tão foi fácil alcançar o acordo) tendo chegado a um acordo de repatriação de refugiados, ou quando se mostra inflexível contra o branqueamento dos crimes do governo indonésio em Timor Leste, o filme dedica-lhes passagens de raspão, adocicadas mais uma vez pela presença de Carolina e do romance de ambos, onde reafirmam o seu amor com um beijo sob uma chuva torrencial.
Sobre as missões no Bangladesh em 1971, no Sudão e em Chipre, após a invasão turca em 1974, ou em Moçambique, durante a guerra civil que se seguiu à independência do país, em 1975, ou ainda quando integrou a primeira força de paz na Croácia e na Bósnia e Herzegovina, durante as guerras da Jugoslávia, nem uma palavra ou sequer uma menção, provavelmente porque Carolina ainda não estava envolvida com ele e o foco do filme está na história de amor, mais suscetível de render créditos de bilheteira.
Além disso a narrativa do argumento mostra-se frágil, quando não valoriza os múltiplos atentados no Iraque, depois da truculenta intervenção americana que gera clara tensão relacional entre Sergio e Paul Bremer (Bradley Whitford) que representava o presidente George W. Bush no Iraque, devido às profundas divergências de conceito sobre o papel da ONU no conflito.
Sergio não compreende o excesso de utilização da força armada que provoca a violação dos direitos humanos, em confronto com a diplomacia que ele se propõe exercer, e o desenvolvimento desta relação conflituosa poderia ter conferido ao filme a componente intelectual de que tanto necessita.
Esperemos por um futuro remake, que dignifique esta personalidade mundial, ímpar. Por agora fica apenas uma história “em modos de assim…”.

Classificação: 3 numa escala de 10

17 de abril de 2020

Opinião – “Fractured” de Brad Anderson


Sinopse

Voltando para casa depois de um fim de semana tenso de férias com seus sogros, Ray Monroe (Sam Worthington), um homem de família bem-intencionado, mas oprimido, entra numa área de descanso com sua esposa Joanne (Lily Rabe) e a filha Peri (Lucy Capri). A viagem piora quando Peri se aleija num acidente e a família corre para um hospital próximo, administrado por uma equipe com intenções duvidosas. Depois de serem enviados para outros testes, Peri e Joanne desaparecem e todos os registros de sua visita não se encontram. A preocupação de Ray transforma-se numa corrida sem fim à vista para tentar encontrá-los.

Opinião por Artur Neves

Das piores angústias que um ser humano pode sentir é a sensação de dúvida de interpretação dos que os seus olhos veem, isto é, perante um evento real e concreto, a mente não o reconhecer diretamente e interpretar o facto através da criação de versões alternativas da realidade, que a espaços, preenchem a consciência sem nunca ser fiável o reconhecimento que se faça da situação real.
É sobre este trauma que trata o filme “Fraturado” (título em tradução livre) da plataforma de streaming Netflix que está disponível desde Outubro de 2019, mas que não merece pressa em ser procurado.
A história começa no retorno de uma visita aos sogros de Ray, no dia de Ação de Graças que nos USA corresponde ao ritual cumprido na nossa Páscoa, em que Joanne recrimina e desconsidera Ray em diálogos expositivos cheios de tensão, mas desajeitados não só pela forma como os profere mas também pelas respostas e postura de Ray, interpretado por um ator (Sam Worthington), com uma expressão dura mas estática que dificilmente deixa transparecer as emoções que naturalmente seriam provocadas pela conversa acusatória de Joanne. Nós não os conhecemos mas aqueles diálogos acrescentam muito pouco a esse conhecimento.
Como se pretendo criar um ambiente de suspense, a bomba de gasolina onde param e onde ocorre o acidente é assistida por uma funcionária com cara de facínora que sem qualquer motivo aparente mostra uma expressão agressiva e displicente ao cliente, Ray, que se apresenta apenas interessado em cumprir os pedidos que a sua família lhe encomendou.
Depois do acidente com Peri, segue-se uma louca corrida automóvel em busca de um hospital de que Ray se lembrava ter visto um aviso, poucos kms antes. Ao chegar lá desenvolve-se uma crítica razoável aos serviços hospitalares públicos, que no caso dos USA tem toda a componente de comprovação da existência ou não de seguro, que define o grau e a complexidade do atendimento de socorro. Nesta parte a história vale pela denúncia que insere comprovadamente ao sistema, introduzindo aqui, talvez abusivamente, a suspeita de existência de negócios paralelos com transplante de órgãos humanos.
Depois, segue-se a angustiosa confusão mental de Ray, tal como refiro no primeiro parágrafo deste texto, com o potencial desaparecimento da sua esposa e filha que ele tenta a todo o custo encontrar, transportando-o pelos sinistros corredores do hospital onde habita um ambiente de assustador pesadelo. Porém, é tudo feito tão sem personalidade visual que a sensação de pavor perde-se numa sucessão de rostos anónimos que contradizem a versão de Ray e que o espectador, sem nada a que se agarrar fica a espera de uma miraculosa reviravolta.
Brad Anderson, não é propriamente um novato nestas andanças e a comprová-lo tem na sua carreira filmes como; “Sessão 9” de 2001 e “Transiberiano” de 2008, recentemente citado neste blogue, donde não seria de esperar a falta de jeito demonstrada para agarrar este tema que teria outro tratamento e projeção nas mãos de Carpenter ou de David Cronenberg, presumo eu, porque tal como está fica-se com a sensação de se ter assistido a uma fraude.
Quando a reviravolta surge é a desgraça total, porque todas as coisas que não faziam sentido antes fazem menos sentido agora e o alívio somente surge porque o filme se aproxima do fim e termina a sensação de perda de tempo. Uma pena!...

Classificação: 4 numa escala de 10

15 de abril de 2020

Opinião – “Love Wedding Repeat” de Dean Craig


Sinopse

Enquanto tenta garantir que o dia do casamento de sua irmã corra bem, Jack (Sam Claflin) encontra-se a fazer malabarismos de socialização com uma ex-namorada zangada, um convidado não convidado que aparece com um segredo explosivo, um sedativo fora do destinatário do sono e a garota que perdeu, devido à sua primeira declaração falhada de amor.
À medida que se desenrolam versões alternativas do mesmo casamento, Jack procura o seu próprio final feliz com o acaso ditando seu futuro e o de todos os presentes.

Opinião por Artur Neves

“Amor, Casamento, Repete”, numa tradução à letra do título original, é um filme que utiliza o artifício de voltar atrás no tempo para nos mostrar uma segunda versão da história inicialmente contada. Tem sido utilizado em vários filmes e do meu ponto de vista não acrescenta valor nem qualidade significativa à história, correspondendo a uma fantasia improvável, muitas vezes destinada somente a adicionar tempo à duração do filme.
O casamento em questão no filme é o de uma noiva inglesa; Hayley (Eleanor Tomlinson) irmã de Jack, com Roberto (Tiziano Caputo) italiano pertencente a uma família tradicional que à partida não vê com muito bons olhos aquele enlace, pelo que é importante que Hayley se afirme sem mácula naquele dia, para o qual ela pede ao irmão para zelar para que tudo corra o melhor possível.
Claro que tudo pode correr mal porque Marc (Jack Farthing), um ex namorado de Hayley, viciado em cocaína, está presente sem ser convidado, na tentativa de a reconquistar estando disposto a destruir toda a cerimónia com todos os meios ao seu alcance, para lá de um segredo que ameaça revelar. É para tentar neutralizá-lo que Jack mistura um soporífero forte ao champanhe de Marc, que por acidente vai ser bebido por Bryan (Joel Fry) a relutante “dama de honor” de Hayley que terá de fazer o discurso de casamento.
Para compor a cena temos ainda a ex namorada de Jack; Amanda (Freida Pinto) descontente com o seu novo e inseguro namorado Chaz (Allan Mustafa), a querer reconquistar Jack que desta vez não quer perder a oportunidade de revelar o seu amor a Dina (Olivia Munn) antes que seja tarde demais.
Nas situações mais decisivas surge a voz de um Oráculo a falar-nos em off sobre o amor, o acaso e a incerteza das decisões humanas, dependente por exemplo da troca dos nomes nos lugares das mesas, pelos miúdos traquinas que acompanham os pais naquela festa e nos faz reviver o mesmo dia do casamento com a mesa organizada de maneira diferente para conduzir a um resultado diferente sendo aqui que a repetição tem lugar.
Dean Craig que já nos mostrou o seu talento de argumentista em; “Morte num Funeral” de 2007 e no remake americano de 2010, tenta aqui uma variação esdrúxula da sua história de sempre não completamente conseguida, embora os assuntos desempenhados por personagens acessórios causem situações divertidas e peculiares em incidentes estudados para prenderem a nossa atenção em todo o filme que não passa de uma mediania vulgar.
Todavia, temos também de reconhecer que nestes dias sombrios não é má ideia fornecer-nos motivos de descontração e de brincadeiras alegres que nos façam esquecer, ainda que por breves momentos a monotonia dos dias mais iguais que outros anteriormente vividos. Esta comédia de constrangimento social pretende ser engraçada o suficiente, na sua simplicidade de tema, sobre um casamento complicado, realizado num pitoresco cenário italiano, acompanhado por peças operísticas de divulgação generalizada e piadas irónicas de diferentes géneros. Disponível na Netflix desde 10 de Abril.

Classificação: 5,5 numa escala de 10


19 de março de 2020

Opinião – “Lost Girls” de Liz Garbus


Sinopse

Quando Shannan Gilbert, de 24 anos, desaparece misteriosamente certa noite, a sua mãe Mari (Amy Ryan) inicia um percurso obscuro onde tem de encarar difíceis verdades sobre a sua filha, sobre si própria e ainda a indiferença da polícia.
Determinada a encontrar a sua filha, Mari Gilbert revisita os últimos passos conhecidos de Shannan, levando a cabo a sua própria investigação que a conduz a uma comunidade fechada nos arredores de Long Island. As suas descobertas obrigam as autoridades e os meios de comunicação a revelar mais de uma dezena de homicídios de profissionais do sexo por resolver - vidas de jovens que Mari não deixará que caiam no esquecimento.
Inspirado no livro "Lost Girls: An Unsolved American Mystery", de Robert Kolker.

Opinião por Artur Neves

Nestes dias estranhos o streaming da Netflix é uma opção para a ocupação do tempo que nos resta e no caso do presente filme trata-se de mais uma teatralização da vida real com base numa história verídica, que infelizmente não é nova, ao ponto de já pertencer a um livro que não permite que estes casos caiam no esquecimento.
A história que este filme nos conta é real e sombria e relata o mistério do desaparecimento de uma profissional do sexo de 24 anos que sendo perseguida na noite do dia 1 de Maio de 2010 e apesar de conseguir realizar uma chamada para a linha de emergência e de pedir socorro, não foi atendida e a polícia demorou dias antes de organizar uma investigação, depois da comunicação de desaparecimento feita pela sua mãe e após transcorrido o prazo legal para que a sua ausência seja considerada desaparecimento, a partir da data da denúncia.
No telefonema ela ainda conseguiu gritar “eles estão tentando matar-me” mas a hora avançada e o local da chamada, indiciavam uma atividade censurável muito comum da zona que implica um estigma social. Só uma mãe lamenta a sua filha desaparecida, seja ela trabalhadora do sexo ou não, e sabe que ela nunca será considerada como; “amiga, filha, irmã” de alguém, mas sempre e só, com o estigma da sua atividade.
Embora a história reporte um caso de polícia o argumento faz da mãe de Shannan Gilbert a protagonista, com o sabor amargo de ser também corresponsável pela atividade profissional da fila decorrente do abandono a que a votou, na sequência do seu divorcio, crise de bebida e droga e abandono pessoal.
Hoje Mari já está recuperada, procura a redenção através da sua luta diária em manter a estabilidade social e suprir as necessidades das suas duas filhas mais novas, através do trabalho que desenvolve em dois empregos modestos em Ellenville, Nova York. Todavia isso não lhe alivia o remorso das muitas coisas que ela não sabia, ou que recusava saber, sempre que pedia dinheiro a Shannan Gilbert para satisfazer os seus vícios.
É também a história de uma mulher com raiva de si, que não pode aceitar sozinha o remorso da sua culpa, tentando incluir a sociedade que igualmente não lhe foi favorável. Ela acusa a polícia de inação e desinteresse, afirma que fez tudo pela filha, sem acreditar no que diz e movida pela vergonha, organiza uma manifestação de protesto com as mães das outras raparigas, cujos cadáveres foram encontrados pela polícia na mesma área, quando finalmente se decidiram iniciar uma investigação. Mari (Amy Ryan) constrói aqui um personagem credível de meia idade, com um rosto duro e sem brilho, emoldurado por uma cabeleira loura que contrasta com a sua expressão de raiva e remorso.
É pois uma história multifacetada que apresenta uma atitude defensiva e reacionária da polícia, que se opõe à angústia de mães enlutadas, em luta contra a proteção das autoridades aos ricos e poderosos que embora suspeitos, não passam dessa condição. Aliás, Richard Dormer (Gabriel Byrne) encarregado da investigação é um homem cansado, vencido pela vida e à beira da reforma que ele não pretende complicar. Interessante e emotivo, vale a pena ver.

Classificação: 6 numa escala de 10

7 de março de 2020

Opinião – “All the Bright Places” de Brett Haley


Sinopse

Baseado no romance best-seller internacional de Jennifer Niven, “All The Bright Places” conta a história de Violet Markey (Elle Fanning) e Theodore Finch (Justice Smith), que se encontram e mudam a vida, um do outro para sempre.
Enquanto lutam com as cicatrizes emocionais e físicas de seu passado, os dois adolescentes lidam com problemas pessoais e criam uma forte ligação, enquanto embarcam numa viagem para documentar os locais mais deslumbrantes do estado de Indiana.

Opinião por Artur Neves

Este é mais um filme da plataforma Netflix que está a introduzir alguma revolução no modo de ver cinema e de encarar o próprio espetáculo em si mesmo. Se até agora o cinema de estreia só estava acessível em sala dedicada, escura e com o ambiente adequado como norma, com esta plataforma pode assistir-se aos mesmos conteúdos num pequeno ecrã de 83” e 16x9, num pequeno tablet ou smartphone apoiado no colo, ou mesmo na velhinha televisão de tubo de raios catódicos se complementada por uma TVBox equipada com saída AV.
Obviamente que em cada uma das situações não temos a mesma experiência mas é o que o futuro nos trouxe e significa uma evolução tecnológica que cabe a cada um decidir se adere, em melhores ou piores condições, com incidência direta na sua carteira.
No caso presente a Netflix renomeia este filme para Portugal como; “Fala-me de um Dia Perfeito” e trata-se de uma história de amor romântico entre dois jovens perturbados psicologicamente por eventos anteriores que vamos conhecendo ao longo da história. Eles andam na mesma escola e só falam diretamente um com o outro quando Finch encontra Violet sobre o parapeito de uma ponte com intenções de se suicidar. A razão de Finch se encontrar naquele local, aquela hora, também não é a melhor mas o facto de ter convencido Violet a voltar para um lugar seguro, dá a ambos uma perspetiva renovada dos seus próprios problemas.
Finch é um aluno problemático, frequentemente envolvido em lutas e disputas físicas com raiva violenta que o tornam sinalizado para ser acompanhado num apoio psicológico especializado que ele aceita com desinteresse e um largo sorriso de desafio. Violet que já tinha sido uma borboleta social entre as suas colegas, estava agora remetida ao mutismo de uma solidão autoimposta pelo remorso de culpa no envolvimento da morte da irmã.
Brett Haley tenta assim uma adaptação difícil do drama escrito por Jennifer Niven, envolvendo os dois candidatos a apaixonados a sucessivas camadas de tristeza, suicídio (Finch autoflagela-se em sucessivas tentativas de suspensão da respiração por longos momentos na banheira e na piscina) e doença mental ao mesmo tempo que nos conduz ao aparecimento do amor límpido entre dois jovens perturbados.
Os trabalhos escolares motivam a insistência dele para que ambos constituam um grupo de trabalho, contra a relutância dela em aceitar a proposta, porém, depois de ter aceitado a sugestão, a recolha de dados implica a deslocação de ambos para diferentes locais do estado de Indiana (“Todos os locais Brilhantes” na referencia original do nome do filme) o que aumenta o conhecimento mútuo e constitui um objetivo real para a vida, para lá de Violet se interessar por Finch e de se pretender constituir como sua salvadora, como ele inicialmente fez com ela e ela não conseguiu ser para a sua irmã falecida.
Assim, o realizador apresenta-nos uma abordagem diferente ao comum amor jovem e romântico. Existem muitas dificuldades de relacionamento entre ambos numa ligação de amor em que a inspiração de morte está sempre presente. Os acontecimentos vão-se sucedendo e a relação torna-se dúbia, colocando a história num patamar de mistura entre trevas e luz a caminho do desequilíbrio, que não vou revelar para não estragar o interesse do filme.
Tal como na vida real as coisas podem ser muito desafiadoras ou desanimadoras e até totalmente desprovidas de esperança, mas vale sempre a pena procurar os lugares claros nos tempos sombrios, (no sentido original do título) ou procurar os momentos perfeitos nos dias sombrios (no enfoque do título para Portugal) para permitir que alguém à nossa volta se sinta menos isolado, e os 107 minutos de filme justificam essa premissa.

Classificação: 6 numa escala de 10

6 de fevereiro de 2020

Opinião – “Diamante Bruto” de Josh e Benny Safdie,


Sinopse

Dos aclamados cineastas Josh e Benny Safdie, (Irmãos Safdie) surge este eletrizante thriller policial sobre Howard Ratner (Adam Sandler), um carismático joalheiro de Nova Iorque sempre à procura do próximo grande sucesso. Quando ele faz uma série de apostas de alto risco que podem levar à sorte de uma vida inteira, Howard deve executar um ato precário, equilibrando negócios, família e atacando adversários por todos os lados, na sua busca incansável pela vitória final.

Opinião por Artur Neves

Mais uma grande realização de cinema independente que estreou em 31 de Janeiro na Netflix e que foi ignorada para os Óscares pela Academia Americana por preconceito, digo eu, pois Adam Sandler um habitual ator de comédias tem aqui a interpretação de uma vida no desempenho do personagem de Howard Ratner, o dono de uma joalharia situada no quarteirão de Manhattan conhecido como Diamond District onde estão localizadas as mais famosas lojas de artigos de luxo no ramo da relojoaria e das joias de mão, pulso ou pescoço. Consta que o seu número total é de cerca de 2600 lojas e todas competem acerrimamente entre si pelo maior volume de vendas.
Howard Ratner, para lá de joalheiro é um jogador de apostas inveterado que utiliza todo o tipo de esquemas, dos mais ilegais aos mais imorais para obter dinheiro que satisfaça o seu vício inultrapassável de apostar. Ele não é um vencedor, joga muito e ganha menos do que perde, pelo que para saldar as suas dívidas ele precisa que o dinheiro circule a todo o custo, para continuar a ter dinheiro que permita satisfazer a sua necessidade.
A história que suporta o filme é simples. Um joalheiro obtém um diamante em bruto e quer vendê-lo pelo maior preço para satisfazer o seu vício de jogo e as suas dívidas. O importante aqui é o personagem criado por Adam Sandler que se move em meios distintos, apresentando-se de camisa de seda rosa, ou dentro da sua jaqueta de couro folgada e amassada por muitos anos de uso, percorrendo a terra de ninguém do comércio legal e fraudulento, onde as marcas ocupam o objetivo principal dos clientes sejam verdadeiras ou contrafeitas pelos falsificadores locais. Tudo se vende, tudo serve para obter dinheiro, muito dinheiro.
Os irmãos Safdies que realizaram o filme, estudaram o local durante 2 anos, registaram o ambiente real, contactaram os vendedores locais ao ponto de alguns deles entrarem no filme e colocaram Howard Ratner no centro de uma tempestade implacável de relações humanas com fins comerciais que demonstrou a extraordinária capacidade de Sandler de assumir esse personagem maior do que o normal, mas incrivelmente humano, casado com uma mulher que não acredita num cabelo que lhe pertença, um filho que ele adora e uma amante que é simultaneamente sua secretária e confidente, de quem necessita como de dinheiro, mesmo ela não sendo tão fiel como ele desejaria.
As suas dívidas justificam o grupo de malfeitores que anda atras dele a exigir-lhe dinheiro e de quem ele não foge, nem se afasta porque um deles é o seu próprio irmão, judeu como ele, que entre duas idas à igreja e o jantar do dia de ação de graças o pressiona para que pague o que deve. Ele deposita toda a confiança na opala em bruto que obteve e na fixação de Kevin Garnett, ex-jogador da NBA, pela pedra cintilante que lhe quer comprar e que ele quer vender por um valor que o retire do sufoco em que vive com os seus credores.
Entretanto, ele ainda tem planos a cumprir no âmbito do vício do jogo e na forma como a venda da pedra lhe poderá render vantagens marginais. Um excelente filme e uma magnífica interpretação de um ator em que a Academia não reparou.

Classificação: 8 numa escala de 10