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2 de abril de 2014

Opinião - Quantas Madrugas Tem a Noite

Título: Quantas Madrugas Tem a Noite
Autor: Ondjaki
Editora: Caminho

Opinião por Helena Isabel Bracieira:
"Sabes o que é não sentir o coração e sentir o coração, tud’uma batida só, sangue leve no peito e lágrimas limpas a escorrer? Faz conta foste na pesca, rede e tudo, e em vez do peixe grande meteste a rede na água e te veio uma nuvem? Se é impossível? Eu sei lá, avilo, eu sei lá… Desde cadengue que ando então a ver as nuvens dançar nas peles do mar, e me pergunto: assim calminho, liso tipo carapinha com desfrise, o mar não tem nuvens dele também? De onde eu venho é muito longe, por isso, juro mesmo, nasci de novo. Vou te confessar: espanto é só aquilo que ainda nunca tínhamos vivido com nossa pele!" – página 9

Assim começa este romance, produto da prodigiosa imaginação de Ondjaki, escritor angolano. Quando decidi ler este livro já sabia o autor tinha recebido vários prémios pela sua obra (Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2007, Prémio Jabuti na categoria juvenil e prémio Grinzane por melhor escritor africano de 2008), para além de ser considerado um dos melhores escritores da sua geração em África. Além disso já tinha lido e ficado agradada com O Assobiador (romance, 2002) e Há prendisajens com o xão (poesia, 2002), ambos presentes num livro que saiu na Colecção Frente e Verso da revista Visão. Deste modo, tinha motivos mais do que suficientes para esperar uma boa história, e não fiquei desapontada, antes pelo contrário, fiquei maravilhada.

A troca de cervejas, numa tarde e pela madrugada fora, alguém de muito, muito longe, de tão longe que parece que nasceu de novo, compromete-se a contar uma história. Num monólogo imenso, toda a narrativa se passa em Angola, mais precisamente na Luanda contemporânea. Inclui um conjunto de personagens fora do comum que se cruzam e entrecruzam em situações, no mínimo, surreais, remetendo-nos para o realismo mágico de que García Márquez é mestre: chuvadas apocalípticas; um cadáver que é roubado e que circula do tribunal para a polícia e da polícia para o tribunal num táxi devidamente convertido em carro da polícia pela colocação de um cartaz e de uma sirene; alguém que comanda e convive com abelhas como se delas fosse rainha; um cão assustadoramente aterrador, julgando-se até que poderá ser a encarnação do diabo; um cego que vê tão bem que até se esquiva de uma bala são alguns dos exemplos.

AdolfoDido é o morto. Os seus amigos preparam-lhe o funeral. Mas não é fácil... Disputado por duas mulheres, o seu corpo é apreendido várias vezes pela polícia, e não pára de circular de um lado para o outro. Ainda casado no papel com DonaDivina, vive com KiBebucha. A primeira só o desejou por interesse: pensado que AdolfoDido era influente por ter um primo do éme (Movimento Popular de Libertação de Angola), casa-se com ele esperando uma vida farta. Rapidamente se desilude. À segunda não lhe pode escapar, pois por detrás das suas seduções corporais, desconfiava-se que lhe arreava bem... Ficamos também a saber que, através de uma falcatrua, se disse antigo combatente (num país onde nunca houve guerra!), quando na verdade é demasiado novo para isso - ninguém se dá ao trabalho de o constatar. Por isso lutam as viúvas pelo seu corpo e, claro, pela pensão devida. Sempre se disse que o coração tem razões que a razão desconhece, não é?

BurkinaFaçam, o anão, sente muito a perda do seu grande amigo AdolfoDido, aquele que um dia lhe salvou a vida. Apoia a criação fictícia de um sindicato para as prostitutas para, por um lado, poder gozar de todas as regalias que as suas festas orgíacas podiam proporcionar e, por outro, para fazer felizes as suas amigas Eva e Madalena, também elas prostitutas. Tem um táxi, fundamental para o desenrolar da história, já que quase todas as personagens passam pelo seu interior, e servem-se dele para as suas movimentações. Jaí, o albino, professor e comunista, está grato a Burkina por o ter salvo de uma população sedenta da sua cabeça para a cura da sida - ai, as superstições! Conhece um grande amor no decorrer da história... Ambos são amigos de Adolfo e tentam por tudo poupar o que dele resta às inclemências das viúvas, da justiça, da população, das intempéries.

É na casa da Kota das Abelhas que se reúnem e onde ocorrem alguns dos momentos mais decisivos. Após ter «assassinado» a abelha-rainha e transformado a sua própria casa numa colmeia gigante na qual assumiu o papel de rainha passaram-na a chamar deste modo. Subsiste do mel que elas fabricam e utiliza-o em tudo: cremes regeneradores que mantêm a juventude e conservam os cadáveres (inclusive o de AdolfoDido), bolos, bebidas, etc. Vive com o Cão [cuja figura está presente na capa desta edição]: dono e senhor da sala, é um cão assustador que causa um terror imenso em quem se atreve a olhá-lo.

Retrato da coloquialidade angolana, a linguagem pode apresentar-se como um desafio a superar. Felizmente no final do livro há um glossário com o significado de quase todas as expressões utilizadas e, como elas são constantemente repetidas, no decorrer da leitura é fácil apreender o seu significado, ao ponto de se deixar de o consultar. Por exemplo, cumbú é dinheiro, ngaia é garrafa, entre outras. Nem por isso nos deixa de parecer poética e sedutora, onde cada palavra surge no local exacto. De qualquer forma, um pequeno truque que utilizei foi o de imaginar que me falavam com um forte sotaque angolano (qualquer pessoa já o ouviu, nem que fosse na televisão!), meloso pelas cervejas que se sucediam e pelo prazer de uma boa conversa.

Admiravelmente o narrador conhece todos os pormenores e nunca perde o fio à meada, ainda que os apartes sejam recorrentes. Apartes esses que não deixam de ser importantes e que, muitas vezes, contêm reflexões aparentemente tão simples, mas tão, tão bonitas:

"Há muitos teatros – pensas que é só com bilhete e cadeira sentada com mosquitos que vais no teatro? E a vida?, esqueceste esse palco puramente verdadeiro a acontecer todos dias, a se entornar nos teus olhos de lágrimas que nem vês?" – página 31

"Foram então procurar a KiBebucha, na casa dela da Ilha, onde ela gostava de não ficar dentro de casa, mas lá no quintal-rua, início do passeio da casa dela, onde espreitava o mar – vício dos olhos dela desde pequena. Num te falei?, isto é só grandes coisas, efeitos da natureza nas pessoas mesmo: céu, mar, lua, sol, coisas assim enormes não escapam nas vias do coração, meu. Qual é a tua inclinação? Nada, nada mesmo? Pra ti pôr do sol e pôr de merda nenhuma é a mesma coisa? E a lua de noite? Nada mesmo? Porra, meu, dás pena, quer dizer, estás neste mundo só pra o que der e vier, não queres meter o corpo e o coração nele?" – página 54

De um modo geral, alguns dos temas abordados são a corrupção e o poder das influências num país ainda marcado pela memória de guerras recentes, sejam elas contra o invasor branco ou de luta pelo poder; a superstição e a credulidade dominantes num povo simples; um sistema burocrático que nem sempre supre as falcatruas que vão surgindo, mas que nem por isso deixa de zelar por quem escuta e julga; a falsidade e o egoísmo; e, acima de tudo, a amizade pela qual ainda tudo é possível.

Porque, afinal de contas, nada do que foi contado são devaneios de um bêbado... Tudo pertence a uma África desconhecida, palpitante de vida. Desconhecida pois erradamente é-nos incutido que África não passa de um continente perdido, com uma população reduzida à miséria e à doença. Palpitante de vida, já que o seu povo, ultrapassando todo esse sofrimento, nunca deixou de sorrir.

25 de março de 2014

Passatempo - Labirinto de Mágoas - Vencedores

A D'Magia agradece a todos os participantes, infelizmente só 2 poderiam ser premiados.

E os vencedores são:
João Carvalho
Juliana Costa

Os vencedores serão contactados por email.
Parabéns aos vencedores e os votos de uma boa leitura.

26 de maio de 2013

Descoberto inédito de Eça de Queirós, que vai ser agora publicado



Editorial Caminho – Novidade Editorial
22 Maio de 2013

Descoberto inédito de Eça de Queirós, que vai ser agora publicado

Trata-se de excertos da opereta A Morte do Diabo, composta em 1869 e que até agora era conhecida apenas por referências em textos dispersos dos seus libretistas Eça de Queirós e Jaime Batalha Reis. Foi descoberta no espólio do autor da música, Augusto Machado, na Biblioteca Nacional, numa partitura sem qualquer menção ao título nem aos autores. É esta a opereta inédita que agora se apresenta, com estudos de Irene Fialho (que a reencontrou), Mário Vieira de Carvalho e José Brandão. A Morte do Diabo mostra a expressão humorística dos seus autores, sobretudo de Eça de Queirós, numa faceta pouco conhecida, o verso cómico.

A obra é editada pela Editorial Caminho e estará à venda já na Feira do Livro de Lisboa, e em todas as livrarias, a partir do dia 4 de junho.

23 de maio de 2013

Passatempo - Labirinto de Mágoas

A D'Magia em parceria com a Caminho tem para oferecer dois exemplares de "Labirinto de Mágoas" de Daniel Sampaio.

Sinopse: 


Numa época como a nossa, em que cerca de metade dos casamentos terminam em divórcio, o problema torna-se sério e não deixa ninguém indiferente.
Pode dizer-se que todos nós, direta ou indiretamente, somos atingidos pelo fenómeno e pelas suas consequências, e que todos nós, ainda que em diferente medida, temos que o enfrentar. Que fazer então? Neste livro que agora entrega ao público - Labirinto de Mágoas. As crises do casamento e como enfrentá-las - Daniel Sampaio conduz-nos numa reflexão tão profunda quanto ampla sobre todos os aspetos da questão: como se manifestam, e quais são, os primeiros sintomas da desagregação do casal; como detetar esses sintomas e como adotar perante eles uma atitude crítica; como lidar com os filhos dentro de um casamento que se desagrega; que papel pode ter a família de cada um dos cônjuges; qual o papel e virtudes da terapia conjugal; como conduzir um divórcio (se for esse o caso) com o menor número de danos. No final de cada tema existe a rubrica.
O livro conta ainda com um capítulo dedicado aos conflitos próprios da conjugalidade gay e lésbica.

Para te habilitares a ser o vencedor responde às seguintes perguntas:

1 -  Qual
o problema que se está a tornar sério e não deixa ninguém indiferente?
2 -  Daniel Sampaio conduz-nos por onde?
3 -  O que existe no final de cada tema?





E envia os teus dados pessoais (incluíndo o nome e morada), com o assunto "Labirinto", até ao dia 16 de Junho, para literatura@dmagia.net.


Regras do passatempo:
1) Apenas participantes com moradas de Portugal.  
2) Apenas uma participação por cada nome e email.
3) Condições e Termos de Participação estão em www.dmagia.net/faq.html.

18 de março de 2012

Opinião - Memorial do Convento

Título: Memorial do Convento
Autor: José Saramago
Editora: Caminho

Sinopse:
Era uma vez um rei que fez promessa de levantar convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido.

Opinião por Juliana Ferreira:
Com este livro, vi quais eram os sentidos da vida num passado bastante distante, a vida complicada de uns em relação à escravidão e a vida complicada de outros que desejavam coisas que não tinham ou que eram obrigados a fazer. Era uma vida cheia de injustiças e com uma desigualdade social enorme. Existia muita riqueza mas era apenas na corte do Rei. Havia uma distinção enorme entre os pobres e os ricos, é notório em todas as descrições do convento e a pobreza de Baltasar e Blimunda ou os homens que carregavam as grandes pedras. As mulheres eram como um fardo para os homens e casava-me sem amor o que provocava o adultério. A religião escondia muitos segredos e Saramago não pouca criticas à mesma. Sem esquecer todos os sonhos que levam as pessoas a aventuras, como o sonho de voar do Padre Bartolomeu.

Acho que o livro foi escrito para quem gosta de ficção e magia. A escrita não é de fácil compreensão e o pensamento não é coerente o que nos faz fazer um esforço maior ao ler este livro, não é uma obra fácil de ler com 16/17 anos. O livro afectou-me pois fez-me perceber que por muito que se diga que agora a vida está difícil com a crise, dantes era muito pior e as pessoas nem podiam reclamar. Fez-me entender o passado, fez-me entender as injustiças do passado mas mais que tudo fez-me acreditar que existem histórias em que se pode dar mais brilho, mesmo que seja com sonhos, ilusões ou esperanças. Não recomendaria este livro a toda a gente, por exemplo à minha mãe não recomendaria, não são temas que ela goste nem gosta da escrita do mesmo autor. As obras de Saramago na minha opinião trazem sempre algo novo à nossa vida e não consigo comparar a sua escrita com mais nenhum livro que eu já tenha lido.

19 de maio de 2011

Opinião - Evangelho Segundo Jesus Cristo

Título: Evangelho Segundo Jesus Cristo
Autor: José Saramago
Editora: Editorial Caminho

Sinopse:
"«É a obra mais polémica de José Saramago e aquela que, indirectamente, o levou a sair de Portugal e a refugiar-se na ilha espanhola de Lanzarote. Ficou para a história o desentendimento com o então subsecretário de estado da Cultura Sousa Lara, que considerou o livro ofensivo para a tradição católica portuguesa e o retirou da lista do Prémio Europeu de Literatura. Com um José destroçado por ter fugido e deixado as crianças de Belém nas mãos dos assassinos de Herodes; com uma Maria dobrada e descrita, logo no início do livro, em pleno acto de conhecer homem; com um Jesus temeroso, um Judas generoso, uma Madalena voluptuosa, um Deus vingativo e um Diabo simpático, não era de esperar outra reacção das almas mais sensíveis e mais devotas do catolicismo português. E verdadeiramente viperinas são as várias páginas onde o escritor português se entretém a descrever minuciosamente os nomes e a forma como morreram os mártires dos primeiros séculos do cristianismo. Assim se escreveram os heréticos Evangelhos segundo Saramago, para irritação de muitos e prazer de alguns. Como convém.» (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)"

Opinião por Joana Azevedo:
Este livro é uma criação do que poderia ter sido a vida de Jesus Cristo, seguindo os principais acontecimentos do Evangelho bíblico, mas numa perspectiva mais humanizada, não do ponto de vista de Deus mas do ponto de vista dos Homens, e em especial de Jesus e, claro, não poupando críticas às atitudes de Deus e à religião em geral.

Permitiu-me desfrutar da fabulosa escrita de Saramago, que tanto aprecio, e que, sendo tão certeira e incisiva não deixa de ser divertida. Algumas passagens são verdadeiras pérolas literárias.
Apesar de algumas partes serem um pouco maçudas, gostei bastante deste livro, nomeadamente da recriação da vida de Jesus que Saramago tão bem conseguiu fazer, da história magnífica que criou e das personagens que construiu com base nas personagens bíblicas.

29 de abril de 2011

Opinião - Caim

Título: Caim
Autor: José Saramago
Editora: Caminho

Sinopse:
Quem diabo é este Deus que, para enaltecer Abel, despreza Caim?
Se em O Evangelho Segundo Cristo José Saramago nos deu a sua visão do Novo Testamento, em Caim regressa aos primeiros livros da Bíblia. Num itinerário heterodoxo, percorre cidades decadentes e estábulos, palácios de tiranos e campos de batalha pela mão dos principais protagonistas do Antigo Testamento, imprimindo ao texto o humor refinado que caracteriza a sua obra.
Caim revela o que há de moderno e surpreendente na prosa de Saramago: a capacidade de fazer nova uma história que se conhece do princípio ao fim. Um relato irónico e mordaz no qual o leitor assiste a uma guerra secular, e de certa forma, involuntária, entre o criador e a sua criatura.

Opinião por Joana Pereira:
Em mais um brilhante texto, Saramago conta-nos a história da vida de Caim, personagem bíblica amplamente conhecida por ter matado o seu irmão, Abel. Apesar de ser já uma história conhecida, senão por todos, pelo menos por alguns, Saramago consegue recontá-la, inventando diálogos, penetrando nos pensamentos das personagens e ironizando as situações mais dramáticas, daquela forma fantástica que lhe é peculiar e que torna a sua escrita ímpar.
O autor começa por nos apresentar os seus pais, Adão e Eva, e a sua vida no Jardim do Éden, onde estes desfrutam de uma vida simples e fácil, com abundância de água e de alimentos, apesar de não existirem grandes trabalhos a realizar nem grandes distracções, a não ser as esporádicas visitas do Senhor, que aparece normalmente vestido como um rei e ora fazendo-se anunciar com um grande estrondo de trovões ora aparecendo de mansinho.

Uma das poucas ordens que este lhes deu foi que não comessem os frutos da árvore do conhecimento, para que não soubessem o que era o bem e o mal. Contudo, Eva, por sugestão de uma serpente, acaba por colher um dos frutos e prová-lo, convencendo Adão a fazer o mesmo. Quando o Senhor descobriu ficou furioso e expulsou ambos do Jardim, ameaçando-os de que iriam certamente morrer á fome, à sede e ao frio, pois lá fora toda a terra era árida e a água e os abrigos escasseavam.

Uma vez no exterior, Eva e Adão confirmaram que as palavras do Senhor eram verdadeiras, pois embora tivessem encontrado uma caverna onde se abrigaram e um riacho quase seco, não vislumbraram uma única árvore de frutos, nem sequer um animal que pudessem matar e comer ou um terreno que pudessem tentar cultivar. Quando já estavam quase conformados de que iam morrer Eva tem a ideia de voltar ao Jardim e pedir ao querubim que o Senhor tinha colocado na entrada com ordem para os matar se eles tentassem entrar lá outra vez que os ajudasse, permitindo-lhes regressar ou dando-lhes alguns alimentos. Face á recusa pronta de Adão, Eva acabou por ir sozinha e, com muita insistência, conseguiu que o querubim lhes desse alguns alimentos. Compadecendo-se deles ou por outro motivo, mandou que, á noite, acendessem uma fogueira, que seria vista por caravanas que costumavam passar por ali e, certamente, iriam ajudá-los, dando-lhes trabalho e abrigo.

Graças a este querubim, que, como o escritor afirma, foi mais cristão que o seu Deus, puderam recomeçar a sua vida, estabelecendo-se numa aldeia e trabalhando como agricultores. Tiveram três filhos, entre eles Abel e Caim.

Apesar de os irmãos a princípio serem amigos inseparáveis, ao longo da sua juventude, a sua relação deteriorou-se. Quando queimavam animais para os oferecer ao Senhor, o fumo da fogueira de Abel subia direitinho em direcção ao Céu, prova de que Deus aceitava o seu sacrifício, enquanto o fumo da fogueira de Caim se dispersava a poucos metros do solo. Ao invés de consolar o irmão, Abel troçava dele, humilhando-o vezes sem conta, o que levou a que um dia Caim o atraísse para fora da aldeia e aí o matasse. Acto contínuo, o Senhor apareceu e censurou Caim, ameaçando-o de o condenar à morte. Caim acusou o Senhor de também ser culpado da morte de Abel, provocando a sua ira ao não aceitar as suas oferendas e tendo aparecido apenas depois de Abel estar morte, podendo impedir que este morresse se tivesse aparecido um pouco antes. Então, o Senhor condenou Caim a vaguear pelo mundo durante toda a sua vida, mandando-o abandonar a aldeia imediatamente.

Nesta permanente viagem, Caim atravessa não só locais, mas também vários tempos diferentes, peregrinando, de uma forma que escapa à nossa compreensão e à de ele próprio, através do passado e do futuro, ou, já que isto é tecnicamente impossível, através de vários presentes, passados em alturas diferentes. Vive um romance tórrido, quase chega a ser rei de uma pequena mas rica cidade e, sobretudo, espanta-se com as atitudes do senhor Deus, que muitos veneram, mas que Caim sabe ser capaz de uma crueldade quase gratuita, como ter ordenado a um pai que matasse o seu filho ou ter dizimado populações inteiras.

Esta foi uma obra que eu gostei de ler por vários motivos. Antes de mais, permitiu-me conhecer alguns aspectos do Velho Testamento que eu ouvia falar mas que desconhecia quase por completo. Além disso, é sempre um prazer ler Saramago e este livro não foge á regra. A sua linguagem irónica e divertida fez com que o lesse quase todo com um sorriso nos lábios. Por outro lado, a história, propriamente dita, de Caim é muito interessante e tem um final surpreendente, que eu adorei.

Numa perspectiva mais alargada, penso que este livro poderá ser uma alegoria do combate entre os fanáticos religiosos e os que contra as suas injustiças lutam, em que sempre há vítimas de ambas as partes e em que todos acabam por cometer erros que comprometem a vida de inocentes.

Opinião - Levantado do Chão

Título: Levantado do Chão
Autor: José Saramago
Editora: Caminho

Sinopse:
"«A transformação social. A contestação. Personagens em diálogos. As cruentas desigualdades sociais. Surgem as perguntas proibidas. Vai-se adquirindo consciência e espaço, para que tudo se levante do chão. Um livro composto por 34 capítulos. No 17.º está a tortura e a morte de Germano Santos Vidigal. Germano, o nome que significa irmão, o homem da lança. Apesar de vencido, o sacrifício da sua vida indica o caminho. ""Já o encontraram. Levam-no dois guardas, para onde quer que nos voltemos não se vê outra coisa, levam-no da praça, à saída da porta do sector seis juntam-se mais dois, e agora parece mesmo de propósito, é tudo a subir, como se estivéssemos a ver uma fita sobre a vida de Cristo, lá em cima é o calvário, estes são os centuriões de bota rija e guerreiro suor, levam as lanças engatilhadas, está um calor de sufocar, alto. ""As mulheres são também chamadas à primeira linha das decisões neste belo romance de Saramago. O diálogo monossilábico entre marido e mulher da família Mau-Tempo vai-se alterando. Interessante observar uma narrativa que vai da submissão ao sentido de libertação, através de gerações.» (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)".

Opinião por Joana Pereira:
Como meio de espelhar a realidade do Alentejo no tempo narrado, o autor conta-nos a história da família Mau Tempo ao longo de três gerações, desde o avô Mau Tempo, mau marido e mau trabalhador até ao neto, passando pelo filho, João Mau Tempo, que tem mais destaque ao longo do texto devido ás suas actividades políticas, estes últimos mais dedicados ao trabalho, mas nem por isso conseguindo escapar à miséria que atravessa a classe camponesa alentejana.

Ao longo da leitura, o autor vai-nos expondo a miséria reinante nos latifúndios da região, derivada dos baixos salários e do desemprego, que contrastam com a abundância em que vivem os latifundiários e os membros do clero.

Estes extremos são-nos apresentados ao mais alto nível de Saramago, com um estilo brilhantemente irónico e mordaz, recorrendo a personagens tipo para caracterizar a insensibilidade e desumanidade da classe privilegiada, apoiada pela guarda nacional. Esta cooperação entre as partes, no sentido de acumular privilégios e dominar o povo remete-nos para a trilogia Estado, Igreja e Latifúndio, apelidada de Santíssima Trindade Terrena.

Na minha opinião, é um livro genial, que vale a pena ler e reler pela eximidade da escrita de Saramago, a interacção entre o narrador e o leitor, a crítica social fulminante, revestidas da mais sublime ironia, cujo enredo nos prende e recheado de surpresas de linguagem. Em poucas palavras, este livro deixou-me com dois pensamentos: “como é que Saramago consegue fazer isto com as palavras?” e “como é que é possível haver situações tão injustas?”.

Numa perspectiva mais alargada, a obra levanta questões que ultrapassam os limites do Alentejo. Percebemos claramente que uma situação tão sustentada pelas instituições nacionais tem que se verificar também nas outras regiões do país e interrogamo-nos durante quanto tempo terá ocorrido, sendo certo que, de uma forma mais leve e menos evidente, se verifica ainda nos nossos dias.

14 de abril de 2011

Opinião - História do Cerco de Lisboa

Título: História do Cerco de Lisboa
Autor: José Saramago
Editora: Editorial Caminho

Sinopse:
"«Há muito que Raimundo Silva não entrava no castelo. Decidiu-se a ir lá. O autor conta a história de um narrador que conta uma história, entre o real e o imaginário, o passado e o presente, o sim e o não. Num velho prédio do bairro do Castelo, a luta entre o campeão angélico e o campeão demoníaco. Raimundo Silva quer ver a cidade. Os telhados. O Arco Triunfal da Rua Augusta, as ruínas do Carmo. Sobe à muralha do lado de São Vicente. Olha o Campo de Santa Clara. Ali assentou arraiais D. Afonso Henriques e os seus soldados. Raimundo Silva ""sabe por que se recusaram os cruzados a auxiliar os portugueses a cercar e a tomar a cidade, e vai voltar para casa para escrever a ""História do Cerco de Lisboa"". Uma obra em que um revisor lisboeta introduz a palavra ""não"" num texto do século XII sobre a conquista de Lisboa aos mouros pelos cruzados.» (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)"

Opinião por Isabel Azevedo:
Raimundo Silva sempre foi um revisor editorial dedicado, imparcial e competente… pelo menos até ter sido encarregue de rever o ensaio histórico “História do Cerco de Lisboa”, o livro que alterou radicalmente a sua vida. Já terminado o trabalho, não consegue resistir a um inesperado e irracional impulso de colocar a palavra “não” na frase “os cruzados auxiliaram as tropas de D. Afonso Henriques na conquista de Lisboa aos mouros”. Descoberta a sua falha, a editora propõe-lhe que reescreva a história da conquista da cidade com base nessa premissa: os cruzados não auxiliaram os portugueses. Assim, a acção vai alternando entre o século XII e a actualidade.

Adorei o livro! Parte de uma ideia bastante original: o narrador mostra-nos as consequências que um simples "não" escrito por impulso tem, não só na Historia de Portugal, como na vida da personagem principal. O enredo está magnificamente construído, articulando-se na perfeição os dois planos da narrativa.

Este livro é uma das provas de que é um mito a ideia normalmente difundida de a escrita de Saramago ser densa e complexa. Está pontuado de diálogos e situações simultaneamente hilariantes e susceptíveis de reflexões profundas. A forma como está escrito, repleto de ironias, é maravilhosa, bem dentro do estilo de Saramago. Este toque humorístico de sátira que Saramago sempre confere às suas obras, fez-me gostar ainda mais da história.

Opinião - Vinte e Zinco

Título: Vinte e Zinco
Autor: Mia Couto
Editora: Editorial Caminho

Sinopse:
Numa pequena cidade do Moçambique colonial a violência sustenta um mundo dividido - o dos naturais, em baixo, e, sobre ele, o peso do opressor. De súbito, lá longe, na capital do Império, a terra treme, o pilar da sustentação abate-se, e na pequena cidade colonial o efeito é catastrófico. Das profundezas ergue-se o novo mundo. Do velho salvar-se-á alguém?

Opinião por Catarina Passão:
A história decorre numa pequena vila colonial de Moçambique, nos dias imediatamente antes e logo após o 25 de Abril de 1974. A notícia da revolução ocorrida em Lisboa vai representar uma pedrada no charco, que vai abanar completamente a rotina dos habitantes desta pequena vila e fazê-los trocar instantaneamente de posições. Os moçambicanos vêem as suas esperanças de um Moçambique independente e livre crescerem exponencialmente, enquanto os poucos colonos brancos se interrogam sobre o que fazer face à perspectiva de uma onda de violência ou simplesmente desaparecem de mansinho. A queda do regime da Metrópole afecta especialmente Lourenço Castro, o inspector chefe da PIDE local, e a sua família.

Esta leitura revelou-se muito interessante, não só pela temática da queda do Estado Novo, que é um assunto que me agrada bastante, como pela belíssima linguagem deste escritor. As várias personagens tecem uma rede de contrastes. O inspector, sério e implacável durante o dia, que tem um cavalinho de madeira de brincar no quarto e não consegue dormir sem apertar nas mãos um pedaço de pano. Também o desprezo pela cultura africana de Lourenço contrasta totalmente com a vontade da sua tia Irene de entender a religião e os costumes dos indígenas e de absorver a sua cultura. Contrastam igualmente a esperança de alguns, como o mecânico Marcelino, na independência de Moçambique, e a tenacidade que empregam nas actividades nesse sentido, com a apatia do seu tio, que considera absurdo tentar mudar o mundo pois “O céu nunca pousará na terra nem a montanha descerá ao vale”.

Em suma, gostei deste livro e recomendo. Será sem dúvida uma boa leitura, neste mês de Abril.

Opinião - As Intermitências da Morte

Título: As Intermitências da Morte
Autor: José Saramago
Editora: Caminho

Sinopse:
«No dia seguinte ninguém morreu.»
Assim começa este romance de José Saramago. Colocada a hipótese, o autor desenvolve-a em todas as suas consequências, e o leitor é conduzido com mão de mestre numa ampla divagação sobre a vida, a morte, o amor, e o sentido, ou a falta dele, da nossa existência.

Opinião por Joana Azevedo:
Este é um livro maravilhosamente original. A história começa quando, num determinado país, após a passagem de ano, ninguém morre. No primeiro dia do ano o facto causa estranheza e, nos dias seguintes, quando se confirma, provoca a euforia da generalidade da população. Apesar de a imortalidade ser desde sempre um dos sonhos da espécie humana, o autor mostra-nos, desde logo, a preocupação e mesmo aflição que assaltou alguns grupos da sociedade.

O governo do país começou logo a prever os enormes problemas com que se veria a braços se a morte cessasse definitivamente a sua actividade. A Igreja entrou imediatamente em pânico, uma vez que era na morte que assentava todo o seu “negócio”: sem morte não haveria ressurreição nem medo de morrer e sem estes não haveria religião. Antecipou, assim, a perda da influência que detinha no país, pois, como Saramago colocou na boca do próprio cardeal, “A Igreja, parecendo governar o que está lá no alto, governa o que está cá em baixo”. Outros grupos que sobreviviam graças à morte não tardaram a apresentar os seus protestos ao governo, nomeadamente as agências funerárias e as seguradoras. A estas juntaram-se os hospitais e os lares, cujo funcionamento assentava na rotação entre os que morriam e os que chegavam. Não houve outra solução, para aliviar a sobrelotação destes, que enviar os doentes a quem já nada poderia ser feito nos hospitais, aqueles que estariam a morrer, se houvesse morte, para casa, para que as suas famílias cuidassem deles. Estes rapidamente se tornaram num transtorno imenso para os seus parentes e, ainda por cima, um transtorno eterno. Deste modo, as pessoas rapidamente perceberam que o facto de não haver morte não era tão bom como parecia no início. Esta situação levaria também à falência da Segurança Social, havendo uma multidão sempre crescente de idosos, que o trabalho dos mais jovens não conseguiria suportar muito tempo.

No entanto houve grupos que aproveitaram o caos reinante para tirar benefícios, como sempre tem havido nas situações dramáticas. Um deles foi o dos Republicanos (o país era uma Monarquia Constitucional) que utilizaram a situação para argumentarem que os contribuintes não poderiam sustentar uma multidão de reis que se iam sucedendo uns aos outros mas que nunca morriam. Outro destes grupos foi a máfia, que ofereceu os seus serviços às famílias para levar os seus doentes a morrer à fronteira, o que se tornou numa moda que a todos beneficiava.

Ao longo da obra acompanhamos também a personagem principal – a morte, isto é, uma das mortes. Esta surge-nos de múltiplas formas, nomeadamente na de um esqueleto coberto de um lençol preto e acompanhada de uma gadanha, como tem sido retratada inúmeras vezes. Apesar do seu poder ilimitado no que toca a dispor da vida humana, a morte apresenta emoções que a apresentam dos seres humanos.

Além de uma história interessante e muito curiosa, é uma reflexão acerca sobre o sentido da vida e da morte. Comporta ainda uma crítica social bastante vincada, ao pôr a descoberto as relações entre o poder político, a máfia e a Igreja, bem como a falta de valores que muitas famílias revelaram. Um dos aspectos que marca todo o texto e que me fascinou, a par da originalidade, foi a escrita genial a que Saramago nos habituou, a forma como inclui o leitor na obra e a ironia certeira de algumas passagens. Em suma, eu adorei este livro.