Mostrar mensagens com a etiqueta Big Picture Films. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Big Picture Films. Mostrar todas as mensagens

22 de abril de 2019

Opinião – “Solum” de Diogo Morgado


Sinopse

Um programa de televisão numa ilha inabitada, onde oito concorrentes têm de lutar pela derradeira sobrevivência num terreno inóspito, torna-se mais do que parece. Solum não é só um jogo, é uma prova, uma seleção, um espelho que confronta a verdade da Natureza com a mentira da Raça Humana.

Opinião por Artur Neves

Um filme de ficção científica, português, era um objeto há muito pensado por mim, sobre quais seriam os motivos dos nossos agentes de produção e realizadores não terem ainda mostrado interesse neste género de trabalho. Entenda-se todavia, que para mim, ficção científica, significa contar uma história, cujo desenvolvimento recorre a meios de execução, equipamentos e ambientes que se situam para lá do estado tecnológica atual e como tal são gerados artificialmente pelos meios técnicos e computacionais da equipa de filmagem.
Como tal estava extremamente curioso e expectante para este trabalho de Diogo Morgado. A história começa pelo início de um reality show numa ilha desabitada, com os concorrentes a partirem para as suas tarefas individualmente. Algo parecido com os filmes “Maze Runner”, ou “Os Jogos da Fome” de 2014, 2015 e 2018, pensei eu na minha ingenuidade ainda expectante, mas não… Era apenas um filme Português de parcos recursos que punha oito pessoas a correr numa mata de uma montanha situada algures…
Depressa repeli este mau pensamento e auto aconselhei-me a contemporizar com a história que se desenrolaria a seguir. Tal como nos outros filmes anteriormente referidos, em que somos informados ao que veem as personagens, desenvolvendo-se a história, contrariando ou perseguindo os objetivos no contexto inicialmente anunciado, mas não… Aqui os concorrentes que foram colocados individualmente em diferentes pontos da ilha, depressa se juntam em equipa e fogem muito juntinhos de um “Robin dos Bosques” equipado com um arco e flechas, que depois de destruir os meios de contacto com a equipa de gestão do concurso, dá numa de caçador dos colegas concorrentes porque ele sabia mais coisas sobre os objetivos do reality show do que os colegas e do que nós, que estávamos a ver aquilo tudo, direitinho desde o princípio…
A partir daqui evaporaram-se-me as expectativas e perdi totalmente a esperança de assistir ao primeiro filme de ficção científica português, digno desse nome…
Não é que os atores sejam maus, ou que a representação dos personagens fosse defeituosa, eles e elas apenas seguiram o guião que lhes apresentaram. Muito embora as lutas corpo a corpo não estejam ao nível do que vemos nos filmes estrangeiros e os momentos de tensão e de desespero não aguentem um close-up da câmara de filmar, que imediatamente denuncia a sua artificialidade, são pormenores que atribuo a custos de pioneirismo e com o tempo eles hão de lá chegar.
Para mim contudo, o pior é a história que se remete para uma transcendentalidade mal-amanhada, de uns alienígenas que há muito estão disfarçados entre nós e agora resolveram punir-nos, escolhendo um elemento dos concorrentes ao reality show como o eleito entre todos os seres humanos já castigados por terem tratado tão mal o planeta que definha e fenece como resultado do aquecimento global, da poluição e da guerra.
Por amor da santa, tantas boas intenções, desembrulhadas a conta-gotas por uns rapazes a correr na mata evidenciando a beleza dos Açores para turista ver, não fazem um filme de ficção científica.

Classificação: 4 numa escala de 10

28 de março de 2019

Opinião – “O Dia a Seguir” de James Kent


Sinopse

O Dia a Seguir Passa-se na Alemanha do pós-guerra em 1946. Rachael Morgan (Keira Knightley) chega às ruinas de Hamburgo, num inverno rigoroso, para se reunir com o seu marido Lewis (Jason Clarke), um coronel britânico encarregado de construir a cidade destruída. Mas quando eles partem para a sua nova casa, Rachael surpreende-se ao descobrir que Lewis tomou uma decisão inesperada: o casal irá dividir a mansão com os seus anteriores donos, um viúvo alemão (Alexander Skarsgard) e a sua filha problemática. É nesta atmosfera pesada, que a inimizade e tristeza dão lugar à paixão e traição.

Opinião por Artur Neves

O tema não se pode considerar como inédito, já outros filmes utilizando diferentes abordagens têm contado histórias de amor em tempo de guerra e mesmo no pós-guerra como neste caso, só que os melhores não escolhem a saga novelesca, kirsch e previsível deste, pese embora a qualidade dos atores que desempenham os personagens envolvidos.
Por outro lado na nossa história há o facto insólito da partilha da habitação com o “inimigo” embora este “inimigo” se apresente educado, apresentável, civilizadamente sóbrio e de boas maneiras e assim ser capaz de somente com a sua presença e as suas palavras preencher o vazio deixado no casal pela morte de um filho de ambos, às mãos dos executores da doutrina que motivou a guerra e todo o sofrimento subsequente.
Claro que as prolongadas ausências de Lewis facilitam a aproximação entre Stephan (Alexander Skarsgard) e a sua linda esposa tornando o desfecho lamentavelmente previsível, apesar de ser um filme de época bem feito, envolvendo representações sólidas inerentes ao elenco de qualidade que o compõem com particular destaque para Rachael (Keira Knightley) que fica muito bem vestida com a moda dos anos 40 constituindo assim um dos polos de atração do filme embora insuficiente para o justificar.
Como facilmente se intui forma-se um óbvio triângulo amoroso estafado, que se desenrola à velocidade de uma tartaruga e que é apresentado ao espetador como o único caso importante, enquanto as mutações sociais, as ruínas que reduziram a cidade de Hamburgo a um monte de escombros como resultado de intensos bombardeamentos, os cadáveres a aguardar remoção e as feridas de guerra que transformam a vida na cidade, o filme não está particularmente interessado em mostrar, focando-se antes no “mel” que brota às golfadas entre os dois recentes amantes.
Compreende-se que a ideia que poderá estar na génese do argumento é a da reconciliação com os nossos inimigos e mesmo o perdão pelas perdas sofridas, todavia isso não pode resumir-se a uma cena de amor mais ou menos apaixonada, na cozinha, entre Stephan e Rachael enquanto Lewis, com paciência e dignidade de santo, trabalha para restabelecer a lei e a ordem numa Hamburgo destruída e sem regras. Como é que naquele ambiente, Stephan, um homem amargurado pela derrota, pode apresentar-se como um herói romântico e Rachael uma esposa egocêntrica que não se detém na análise do trabalho do marido, tentando pelo menos compreendê-lo?...
Enfim, com demasiada novela à mistura, pelo menos para o meu gosto, a classificação vai integralmente para o desempenho dos atores, para a fotografia, para o guarda-roupa e para o ambiente de época criado no filme.
Classificação: 5 numa escala de 10

31 de janeiro de 2019

Opinião – “A Favorita” de Yorgos Lanthimos


Sinopse

Início do século XVIII, Inglaterra está em guerra com França. No entanto as corridas de patos continuam a prosperar e comem-se ananases ostensivamente. Uma frágil rainha Anne (Olivia Colman) ocupa o trono e a sua amiga mais próxima, Lady Sarah (Rachel Weisz), governa o país por ela e ao mesmo tempo cuida da saúde precária de Anne e gere o seu temperamento imprevisível. Quando a nova criada Abigail (Emma Stone) chega, o seu charme conquista Sarah que leva Abigail sob a sua asa e Abigail vê aqui uma oportunidade de voltar às suas raízes aristocráticas. Como a guerra acaba por consumir bastante o tempo de Sarah, Abigail entra em cena subtilmente para assumir o papel de dama de companhia da rainha. Esta ascendente amizade dá-lhe assim a hipótese de cumprir as suas ambições, não deixando nenhuma mulher, homem, político ou coelho ficar no seu caminho.

Opinião por Artur Neves

Durante muitos anos quiseram divulgar a ideia do comportamento impoluto das monarquias e dos seus representantes, reis ou rainhas, que governaram a Europa até aos nossos dias, publicitando uma imagem incorreta de lisura, perfeição e sabedoria em todos os seus atos de governo e pessoais. Os livros da escola pintaram as monarquias com cores de luxo e de circunstância e condicionaram a nossa imagem desses tempos a um conjunto de datas e de factos descontextualizados da verdade vivida.
Felizmente isso hoje já é passado e o realizador grego que vive em Londres; Yorgos Lanthimos, que tem no seu curriculum “Canino” (2009) e “A Lagosta” (2015), sobre deficiências humanas, apresenta-nos uma versão da realidade dos factos históricos neste excelente filme; “A Favorita”, sobre o reinado de Anna Stuart da Grã-Bretanha que foi rainha de Inglaterra, Escócia e Irlanda entre 8 de Março de 1702 e 1 de Agosto de 1714 e responsável pela união entre a Inglaterra e a Escócia.
De acordo com a história resumida na sinopse anterior, Lanthimos mostra-nos o interior da monarquia, as suas grandezas e misérias, (mais das segundas e menos das primeiras) pintando-nos um fresco de uma época que perdurará largo tempo na nossa memória e nos conduzirá e reflexões sobre o que foi e o que é, a organização social em que nos inserimos, para lá dos escandalosos desmandos da política atual em que podemos concluir que o mal já vem de longe, de muito longe mesmo...
O ambiente da ação criado no interior do palácio real, é filmado com lentes de deformação e iluminação por velas, de forma a criar os recônditos escuros e sombrios em ângulos surpreendentes. A decoração é barroca e pesada de forma a ocultar o triângulo amoroso de cariz sexual entre a rainha, Sarah e Abigail que se esforça entre a intriga, a denúncia e o mexerico, a expulsar Sarah para ocupar o seu lugar. Para atingir esse objetivo ela faz tudo, até tentativa de homicídio.
A rainha, auto piedosa, particularmente doente com variadas maleitas que lhe motivam a mobilidade no interior do palácio em cadeira de rodas, é excêntrica, neurótica e patética, incapaz para os assuntos de estado, precisa do amparo de Sarah, embora no seu espírito exista capacidade pensante. Neste personagem Olivia Colman está verdadeiramente sublime.
A vida na corte de Anna é povoada por exemplares excêntricos, vaidosos, demasiadamente pintados, com cabeleiras irreais executando passatempos frívolos, tais como, corridas de patos e atirando frutas podres a comparsas nus. Todas as suas atividades incluem conotações sexuais viciosas. A política de estado resume-se á obtenção de vantagens. Recomendo vivamente, é um filme imperdível, não é admiração ganhar o oscar.

Classificação: 9,5 numa escala de 10

7 de janeiro de 2019

Opinião – “Escape Room” de Adam Robitel


Sinopse

Escape Room é um thriller psicológico sobre seis estranhos que se encontram em circunstâncias fora do seu controlo e que devem usar toda a sua astúcia para encontrar as pistas… ou morrer.

Opinião por Artur Neves

Poderíamos pensar que “Saw” com todas as suas sequelas e versões em 3D teriam esgotado o assunto de que este filme se serve para nos pôr a saltar da cadeira e a torcer por esta ou aquela ação, o que não acontece, porque a história apresenta um fio condutor coerente que muito me apraz registar, num exercício destinado a tirar-nos do sério enquanto dura.
O início é completamente intrigante com as cenas que nos apresentam sobre uma fuga impossível mas que iremos compreender ao longo da história que se desenrola em torno dos 6 desconhecidos que são convidados para um desafio que não lhes é explicado nem informado acerca do seu desenvolvimento.
Curiosamente dentro de um argumento generalizadamente conhecido, este filme não se caracteriza pelo choque que outros tentam provocar no espetador através de mortes violentas, com muito sangue em cenas de crueldade, mas antes através do suspense causado pela busca de uma solução para um enigma. Pena é que não haja tempo para que o espectador seja igualmente “convidado” a participar na descoberta através de mais dados e mais tempo conferidos a cada enigma.
Ao ritmo da sucessão dos eventos que lhes são apresentados, eles vão-se apercebendo que estão em presença de um jogo de morte e começam a surgir naturais divergências entre eles, particularmente quando começam a compreender que o autor do jogo é alguém que os conhece bem, ao nível de acontecimentos passados experimentados por eles, onde o facto de serem de alguma forma sobreviventes, não lhes confere qualquer estatuto edificante que lhes granjeie a confiança dos outros.
Adam Robitel, realizador americano nascido em Boston em 1978, responsável por outros filmes de suspense, tais como: “A Possessão” em 2015 e “Insídius: A Ultima Chave” em 2018, já comentado neste blog, traz-nos desta vez uma história implacável mas menos sádica, permitindo através de confissões dos personagens conferir um sentido às “provas” a que são sujeitos e assim envolver toda a ação num ambiente de susto e de medo, mas também heroísmo e generosidade raramente encontrados em filmes deste género.
Todavia é uma história que se esgota no tempo da sua apresentação pouco ficando para lá da contagem dos mortos e dos sobreviventes. Robitel porém, promete-nos mais, pois no final uma sequela se perfila no horizonte para dar resposta a alguns elementos da história que ficam pendentes e até poderá ser bem aceite se cumprir o formalismo agora apresentado. A experiência porém, diz-nos que não é bem assim, esperemos que Adam Robitel nos surpreenda também nesse aspeto.

Classificação: 6 numa escala de 10

23 de novembro de 2018

Opinião – “Parque Mayer” de António Pedro-Vasconcelos


Sinopse

Lisboa, 1933. Deolinda, uma jovem da província que tem o sonho de ser artista no Parque Mayer, apresenta-se num casting para coristas para a nova revista no teatro Maria Vitória. Durante os ensaios, apaixona-se por Mário, o encenador, mas este está fascinado por Eduardo, a estrela da revista que, por sua vez, tenta seduzir Deolinda… Ao mesmo tempo o Estado Novo começa a apertar o cerco e a liberdade está cada vez mais limitada… Uma homenagem divertida e emocionante ao teatro de revista e a todos os que no Parque Mayer lutaram pela Liberdade.

Opinião por Artur Neves

Pode dizer-se que se trata de um filme de época!… Recente, obviamente e bem próxima de muitos dos leitores desta crónica. Tem como virtude o revivalismo de um estilo de representação que fez escola em Portugal; o teatro de revista que com todas as virtudes e defeitos que lhes atribuem, constitui um meio de diversão popular, generalizadamente bem aceite e que serviu durante muitos anos como arauto e divulgador de uma certa crítica social e política impossível de outra maneira e fortemente punível pela polícia política de então. Por muito que não se aprecie o género, deve-se a este teatro uma forma de resistência que constituiu durante muitos anos o único meio de denúncia da ditadura em Portugal, á custa do risco e da segurança dos próprios intervenientes.
António-Pedro Vasconcelos, o decano dos realizadores portugueses atuais presta assim homenagem a um género de espectáculo que para além do “glamour” inerente ao espectáculo em si mesmo, suporta-se de uma intriga amorosa triptica, através da paixão da corista pelo encenador que por sua vez se apaixona pelo ator principal, conferindo assim um refrescamento nos “segredos” da época, pois a homossexualidade latente não é exclusivo dos tempos modernos e sim ancestral como a própria humanidade.
Os ambientes estão bem recriados, assim como os personagens representados no filme, para quem como eu os conheceu no seu tempo e os reconhece agora numa atmosfera credível e autentica do meio artístico do género.
Com atores novos e outros pertencentes ao meio, estão lá todos tipificados, os atores de revista, os que servem a história do filme e os figurões que apimentam a história tal como no tempo em que o Parque Mayer era um polo incontornável de diversão e convívio, sem esquecer o “tirinho ao prato” para ganhar um boneco sem valor real. Para muitos será um filme revivalista, para outros a apresentação de uma memória que os enriquecerá com a informação fornecida. Diverte, está bem feito, recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

8 de novembro de 2018

Opinião – “Widows” de Steve McQueen


Sinopse

Do galardoado ator Steve McQueen (Vencedor do Oscar com “12 Anos Escravo”) e da autora do best-seller “Em Parte Incerta” Gilian Flynn, chega-nos um thriller intenso com o pano de fundo do crime, paixão e corrupção. “Viuvas” conta a história de quatro mulheres sem nada em comum, exceto uma dívida deixada pelas atividades criminosas dos seus maridos falecidos. Em plena Ghicago, no meio do tumulto, as tensões aumentãm quando Verónica (Viola Davis), Alice (Elizabeth Debicki), Linda (Michelle Rodriguez) e Belle (Cynthia Erivo) assumem o destino nas suas próprias mãos e planeiam construir o seu futuro nos seus próprios termos. “Viuvas” é também protagonizado por Liam Neeson, Colin Farrell, Robert Duvall, Daniel Kaluuya, Lukas Haas e Brian Tyree Henry.

Opinião por Artur Neves

Goste-se ou não de Steve McQueen, é insofismável que ele deixa uma marca de relevo no cinema americano com temas fortes e personagens ricos em sofrimento e mortificação do corpo e do espírito. Em “Fome” de 2008, “Vergonha” de 2011 ou “12 Anos Escravo” de 2013, que lhe valeu o primeiro Oscar, McQueen apresento-nos sempre personagens que sofrem a fome, os seus vícios, ou a submissão por outros à escravatura da vontade e da liberdade. Em “Viúvas”, ele como que distribui por quatro mulheres o sentimento primário de medo, numa história de sofrimento, duro, violento mas revestido de um cinismo que nos agrada e em certas situações até se torna divertida.
Elas são todas pessoas de bem, os maridos é que nem tanto e quando a carrinha de Harry (Liam Neeson) é destruída numa forte explosão e com ela, os dois milhões de dólares que ele e os seus companheiros tinham roubado tudo muda para aquelas mulheres, que são responsabilizadas pela reposição do dinheiro pelos chefes do assalto, sendo confrontadas com situações imprevistas para elas até então. Verónica (Viola Davis) está soberba, como aliás já nos habituou noutras interpretações, no sofrimento, na dor, e nos momentos de memória do seu carinhoso marido antes do assalto.
Mas é necessário sair do impasse, urge encontrar uma solução para as ações punitivas do chefe do gang e se essa solução for tanto mais completa, que de alguma maneira ainda lhes assegure a independência, tanto melhor, e é aqui que entra a trama política e a chantagem com fotografias comprometedoras para obter o que pretende, que é tão-somente a liberdade do medo sentido nos últimos tempos.
Esta história apresenta elementos que seriam mais úteis e funcionais numa série de televisão, do que nos 129 minutos de duração do videograma, mas McQueem esbanja recursos e talentos em todos os personagens criados e nós só temos de agradecer.
O enredo está bem conseguido podendo ser tomado como exemplo, de como histórias de crime e de drama podem ser também divertidas, ao mesmo tempo que nos mostram que tudo depende de nós e da nossa capacidade de raciocínio nos momentos de tensão e desespero. Muito boas interpretações de todos os personagens femininos criados que bem podem ser chamadas de “Oceans Four” com mais propriedade do que as “Oceans Eight” recentemente apresentadas nas salas do país. Estas pelo menos têm razões de sobrevivências para atuarem, recomendo.

Classificação: 8 numa escala de 10

5 de novembro de 2018

Opinião – “A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha” de Fede Alvarez



Sinopse

Lisbeth Salander, a figura de culto e protagonista da aclamada série “Millenium” criada por Stieg Larsson, volta ao cinema com A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha, do recente best-seller mundial escrito por David Lagercrantz. A vencedora do Globo de Ouro Claire Foy, atriz em “The Crown” interpreta Lisbeth Salander sob a realização de Fede Alvarez, realizador do thriller “Nem Respires” de 2016; argumento adaptado por Steven Knight, Fede Alvarez e Jay Basu.

Opinião por Artur Neves

Stieg Larsson, jornalista sueco já falecido, autor da Trilogia “Millennium” já transposta para o cinema noutros tantos filmes que podem ser enquadrados no género thriller, destacaram o personagem de Lisbeth Salander, uma hacker de elevada competência (interpretado por Noomi Rapace, cujo notório desempenho a conduziu ao estrelato), foram como que “repescados” pelo escritor também sueco David Lagercrantz para continuar a anterior série de sucesso, donde resultou este 4º filme. Muito embora a história não tenha qualquer ligação com as histórias veiculadas na trilogia, exceto a personagem de Lisbeth e o seu amigo jornalista Mikael Blomqvist, que neste filme apresenta-se mais inepto do que nos mostrou na serie, o tema da violência sexual contra as mulheres continua a ser abordado, em linha portanto com o movimento #meToo.
A história que agora nos trazem é um thriller de suspense, rodado nas paisagens frias da Suécia, bem ao nível do anterior Mlennium, mostrando uma Lisbeth Salander (Claire Foy) bem ao nível punk da anterior, ornamentada de piercings, tatuagens e fatos negros, perfeitamente focada no seu objetivo de desmantelar uma organização sinistra chamada “The Spiders”, contratada por vilões que mais tarde saberemos, que pretendem obter o programa Firefall, capaz de assumir o controlo de todos os sistemas de defesa anti míssil em todo o mundo e fazer com eles o que muito bem entenderem.
Fede Alvarez, Uruguaio de nascimento, em 1978 e autor do recente filme; “Nem Respires” em 2016, utiliza aqui todos os seus talentos de bom construtor de ambientes sombrios para nos cativar neste filme tecnológico, com profusa utilização da Internet que todos conhecemos, mas levada ao extremo das suas potencialidades reais, incluindo a invasão ao computador de um agente americano da NSA que detinha o programa e que posteriormente parte em sua perseguição.
Para amenizar a história criou-se um drama familiar com a desaparecida irmã de Lisbeth na forma de uma rivalidade entre irmãos decorrente de um pai abusador, mas no geral não paira muita emoção por ali. Fede Alvarez projetou e realizou um competente filme de ação, pegou bem na atmosfera fria de Millennium, sempre em tons cinzentos azulados para acentuar a solidão dos espaços mas esqueceu-se de conferir espessura humana aos personagens que nos estimule alguma emoção diferente da tensão natural do filme de ação.
Todo o filme apresenta-se fluido e coerente, com meios técnicos de bom nível que nos mantêm a atenção e o interesse numa história de espionagem global com a segurança do mundo inteiro em jogo, embora lhe falte algo mais.

Classificação: 6 numa escala de 10

26 de outubro de 2018

Opinião – “Bohemian Rhapsody” de Bryan Singer


Sinopse

Bohemian Rhapsody é uma celebração vincada da banda Queen, da sua música e do seu extraordinário vocalista Freddie Mercury, que desafiou os estereótipos e quebrou as convenções para se tornar um dos artistas mais amados do mundo. O filme conta a história por detrás da ascensão brutal da banda através das suas canções icónicas e sons revolucionários. Relata também a quase implosão da própria banda graças ao estilo de vida corrosivo de Mercury, e da sua reunião triunfante na véspera do Live Aid, onde Mercury, lutando contra uma doença mortal, guia a banda por uma das maiores atuações da história do rock. É durante este processo, cimentando o legado de uma banda que sempre foi uma família, que se continua a inspirar sonhadores e amantes da música até hoje.

Opinião por Artur Neves

Bohemian Rhapsody, a canção, é uma referência na história dos Queen desde o início do grupo da década de 70, tendo sido finalizada em 1975, muito embora já andasse na cabeça de Freddie Mercury desde os anos 60 e tivesse tomado a forma como foi apresentada no álbum da banda britânica “A Night in the Opera”, incluindo a participação de outros membros do grupo que nela colaboraram. Como tal, é compreensivo que o seu nome figure como ex-libris de um grupo tão significativamente famoso no mundo do hard rock ou Rock progressivo como também é denominado.
Assim, o biopic que nos é apresentado neste filme que conjuga a banda com o homem que melhor a representou, suportou e constituiu a sua essência, parece-nos estranho no corpo de Rami Malek que nos mostra apenas uma silhueta menor desse grande intérprete e criador que foi Freddie Mercury com uma vida emocional sombria e complexa. O que Malek nos apresenta é um desempenho superficial, embora nos consiga galvanizar em certas passagens de concertos, devido possivelmente a uma mistura digital da voz de Mercury e da música dos Queen, mas de qualquer modo falta-lhe substancia que credibilize a sua apresentação.
Todavia, Remi Malek (que está muito bem na personagem de Louis Dega em “Papillon”) não pode ser culpado disto, pois nem todos podem ter a extraordinária voz de Mercury, só que isso significa que não será ainda agora que conseguimos ter o verdadeiro biopic desta banda que em 1985, no concerto Live Aid, galvanizou uma enorme assistência constituída por quase dois milhões de pessoas. Ainda assim, esta é a melhor parte do filme, que nos permite ouvir as músicas intemporais dos Queen e concluir que eles, com a voz de Mercury, foram os maiores do seu tempo.
Bryan Singer, que foi substituído a três semanas do final da produção por Dexter Fletcher, não trata com realidade a sexualidade de Mercury. Ele assumiu frontalmente a sua homossexualidade, tendo tido diversos parceiros sexuais masculinos, dos quais o mais permanente foi Jim Hutton que o acompanhou até à morte em 1991, vítima do vírus da SIDA, mas o filme não assume francamente essa faceta deixando para o espetador a suspeita dos factos referindo-se a eles vaga e superficialmente.
Embora com falhas é um musical grandioso que merece atenção, vê-se com agrado e permite recriar momentos inesquecíveis. Recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

11 de outubro de 2018

Opinião – “Sete Estranhos no El Royale” de Drew Goddard


Sinopse

Sete estranhos, cada um com um segredo por enterrar, encontram-se no El Royale de Lake Tahoe, um hotel decadente com um passado sombrio. Durante uma noite fatídica, todos terão uma última oportunidade de se redimir... antes que tudo corra mal. Jeff Bridges, Chris Hemsworth, Jon Hamm, Dakota Johnson e Cynthia Erivo fazem parte deste elenco de estrelas em “Sete Estranhos no El Royale”.

Opinião por Artur Neves

Muito se tem escrito como sendo o modo correto de contar uma história, mas realmente o mais importante é todos os elementos constarem da narrativa, numa ordem que pode não ser sequencial e até, serem apresentados mesmo depois do aparecimento dos eventos a que se reportam e que os justificam. É o caso desta história, bem simples por sinal, mas decorrente do modo como nos é apresentada, mantém o espetador de surpresa em surpresa a observar o desenrolar dos acontecimentos, aparentemente sem relação entre si. Parabéns ao editor que tem aqui um excelente trabalho de montagem que consegue fixar a atenção do espetador em todos os movimentos por mais inesperados que sejam.
Escrito e realizado por Drew Goddard, nascido em 1975 em Los Alamos, Novo México, onde cresceu e estudou, este homem tem no seu curriculum obras como “Sete Palmos de Terra”, série de muita qualidade, “Perdidos”, série, “10 Cloverfield Lane” de 2016, e outros, com propensão para um estilo de tensão, enredo e suspense semelhantes ao que se encontra no presente filme, que embora podendo classificar-se como thriller não descarta uma componente fantástica a um nível aceitável, que se reconhece e nos convence.
No início, entre eles, não se conhecem nem estabelecem qualquer relação para lá da convivência cerimoniosa. São apenas diferentes pessoas que no mesmo tempo procuram alojamento no mesmo hotel. Todavia, neste primeiro contacto, o hotel começa a assumir-se também como uma personagem, tal é a sua organização arquitectónica, a solidão reinante e o mistério que transmite, bem como o facto de estar aberto mas sem ninguém disponível no balcão central, nem em qualquer das outras utilidades que se vão descobrindo em redor do Lobby.
Pelas conversas que entabulam começa a perceber-se os diferentes objectivos de cada um, bem como, as sua personalidades individuais, as suas fraquezas e desejos, muito embora durante quase metade do filme não saibamos com clareza ao que vêm. Porém, as informações fornecidas em flashback, vão começando a compor a história na nossa memória e lentamente tudo começa a fazer sentido, concluindo-se ser uma história de crime e de perdão, de convicções frustradas, de raiva, de submissão, de fuga também e de redenção para crimes do passado que se querem esquecer sem sucesso.
Os maiores culpados são os que se assumem como anjos salvadores na demanda por uma salvação utópica e castradora e tudo se revela coerentemente numa pequena história, passada num hotel pintado com cores quentes, num dia ensolarado e numa noite de chuva que se vê com agrado, sem pontas soltas, culmina com um epílogo de esperança num amor futuro. Constitui um agradável espectáculo de cinema mistério que recomendo sem reservas.

Classificação: 7 numa escala de 10

2 de outubro de 2018

Opinião – “Venom” de Ruben Fleischer


Sinopse

Um dos personagens mais enigmáticos, complexos e intimidadores da Marvel chega ao cinema protagonizado pelo ator nomeado ao Oscar® Tom Hardy, como Venom, o protetor letal.

Opinião por Artur Neves

Sob a classificação de: acção / terror / ficção-científica a Sony Pictures Entertainment prepara-se para nos apresentar um novo personagem autónomo da Marvel, de características muito particulares de que o primeiro filme estreado entre nós nos mostra as origens.
Inicialmente começou como sendo um poderoso antagonista do Homem-Aranha, tendo feito a sua aparição em “Homem-Aranha 3” de 2007 com o pretexto de revitalizar a sequela. A partir daqui a Sony sempre apoiou vários projectos sobre este personagem mas que só agora vieram a concretizar-se em associação com a Marvel, segundo um argumento escrito em Fevereiro de 2015 por; Scott Rosenberg e Jeff Pinkner, com datas de estreia previstas para 4 e 5 de Outubro 2018, em Portugal e nos USA respectivamente.
A história assenta no trabalho de investigação jornalística de Eddie Brock (Tom Hardy, cuja escolha para o papel foi como “um amor à primeira vista”) sobre o misterioso trabalho de um cientista suspeito de utilizar cobaias humanas em experiencias proibidas. Durante a investigação ele entra em contacto com um ser alienígena utilizado nas experiencias, donde resulta a simbiose com a espécie humana e Eddie torna-se Venom, com poderes físicos extraordinários que nem ele sabe como conter ou controlar.
Sem ser, nem pretender ser, um filme cómico algumas cenas iniciais antes da transformação de Eddie em Venom conseguem provocar alguns sorrisos, mas depressa se entra na parte “séria” da ficção científica em que se concretiza a simbiose de Venom que se apresenta como o ser terrífico capaz das maiores atrocidades mas com uma personalidade mista de “Mr. Hyde and Dr. Jekyll” que lhe confere características de justiceiro e carniceiro em situações alternativas mais sombrias da história.
Num filme desta estirpe são fundamentais os efeitos especiais de acção como de caracterização, apresentando-se estes últimos como soberbos nas múltiplas transformações de Eddie em Venom e vice-versa. Para a acção, sempre muito movimentada e em diferentes ambientes a utilização dos efeitos computorizados é competente e credível não havendo nesta área qualquer evento que defraude o espetador.
Tom Hardy, ator nomeado para 1 Oscar e muitas outras nomeações por todos os festivais mundiais foi uma excelente escolha para este papel, pela sua entrega, dedicação e capacidade de interpretação de um personagem que dá a gora os primeiros passos numa saga que se prevê longa considerando os super-heróis e anti-heróis já conhecidos. Tornou-se notado como estrela de primeira grandeza em “Locke”, 2013, tendo sido nomeado como melhor ator no British Independent Film a partir do qual não mais foi esquecido pelo grande público. Tem agora a oportunidade de criação de um personagem que se lhe “cola à pele”, num filme interessante, sem uma história inédita reconheça-se, mas com largos motivos de interesse e de espectáculo durante os 112 minutos de duração. Recomendo.

Classificação: 7 numa escala de 10

11 de setembro de 2018

Opinião – “O Predador” de Shane Black


Sinopse

Dos confins do espaço às ruas das pequenas cidades dos subúrbios, a caça chega em pleno na explosiva reinvenção de Shane Black. Agora os caçadores mais letais do universo estão mais fortes, mais inteligentes e mortais que nunca, aperfeiçoados geneticamente com o DNA de outras espécies. Quando um rapaz acidentalmente desencadeia o seu regresso à terra, apenas uma tripulação disfuncional de ex-soldados e um professor de ciências descontente pode impedir o fim da raça humana.

Opinião por Artur Neves

Podemos considerar esta sequela como “O Predador 4” reportando-nos ao inicio da série como “Predador” de 1987, seguido de “Predador 2” em 1990 e “Predadores” em 2010, excluindo dois filmes que combinam predadores com aliens usando o franchising dos dois modelos existentes para criar um filme de acção. No conceito inicial, “Predador” corporiza uma entidade vinda do espaço exterior, chegando à terra por engano ou deficiência da máquina que o transporta, tendo de lutar pela sua sobrevivência num mundo que lhe é estranho e hostil. Apresenta espectaculares características de combate, mas apesar disso sucumbe no confronto com os terrestres que o combatem.
Nesta sequela, embora mantendo o seu poder destruidor, o primeiro Predador que chaga à terra vem avisar-nos do perigo que corremos com a chegada dos “Predadores maus muito maus” e deixar-nos uma arma (que cai nas mãos de uma criança que a toma como um jogo de computador de ultima geração) para ajudar a nossa defesa, pois com os nossos recursos no tempo presente ainda não somos suficientemente capazes para lutar de igual para igual com a superior tecnologia que eles possuem.
Para coordenar o combate ao alienígena constitui-se uma equipa militar de marados, cada um mais marado do que o outro, uma equipa de cientistas que não se compreende de que lado estão, se do lado da ciência ou do lado de ???... e uma investigadora em biologia que se sai melhor como lutadora de wrestling, do que como a pretendida bióloga especialista, convidada pelos cientistas para analisar o primeiro Predador capturado.
É assim que neste argumento bagunçado, complicado sem explicação e caótico que personagens sem expressão de combatentes, mas apenas lutadores entre si e por inerência, “carne para canhão” do Predador, vociferam altercações mútuas para nos fazer rir, enquanto combatem os Predadores e os seus animais de estimação, da mesma estirpe dos predadores dos quais nunca se saberá a sua origem, procedência ou género.
A história defende o conceito de família, fazendo o rapaz que possui o equipamento especial, filho do líder da equipa militar, que luta também para o proteger e à mãe de quem está separado. Nenhuma das personagens possui espessura suficiente para se tornar credível, nem toma decisões coerentes, andam todos envolvidos numa enérgica confusão de lutas com meios tecnologicamente sofisticados, numa corrida frenética para justificar acção e ocupar os muitos duplos contratados. No fim lamenta-se que a mística do “Predador” de 1987 tenha irremediavelmente sucumbido a um guião constituído por personagens estranhas e tolas, sem qualquer honra ou glória, e que nos deixa um sentimento de deceção. Salvam-se os efeitos especiais e para eles a classificação atribuída.

Classificação: 4 numa escala de 10

8 de setembro de 2018

Opinião – “Pesquisa Obsessiva” de Aneesh Chaganty


Sinopse

Depois da filha de 16 anos de David Kim desaparecer, é aberta uma investigação e atribuído um detective ao caso. Mas após 37 horas sem uma única pista, David decide procurar no único sítio em que ainda ninguém tinha procurado e onde actualmente estão todos os nossos segredos: no computador da sua filha. Num thriller inovador contado através dos dispositivos tecnológicos que diariamente usamos para comunicar, David segue as pegadas digitais da filha antes que ela desapareça para sempre.

Opinião por Artur Neves

Por várias vezes, o festival de Sundance e o Sundance Institute (promovido e fundado por Robert Redford no estado do Utah/U.S.A, com o intuito de ajudar cineastas e cinematografias independentes) tem surpreendido a comunidade cinéfila por histórias e realizações inovadoras, quer no aspeto temático como na forma como visualmente se apresentam. Este filme é um desses casos, incluído na selecção oficial do festival de 2018 e vencedor do premio de audiência, por constituir uma forma inédita de apresentação da história que nos quer contar.
Por outro lado, constitui uma excelente apresentação para os menos avisados, quanto ao potencial que têm em mãos, ao manipular um smartphone ou qualquer dispositivo de comunicação ligado à Internet com acções de partilha com outros dispositivos, bem como, a irrevogabilidade de tudo quanto publicamos e partilhamos nas redes sociais com a mais inocente disponibilidade de comunicar aos outros as nossas novidades.
A história é bem simples, uma família em que a mãe morre por doença, um pai ocupado com o seu trabalho e uma filha em idade escolar que subitamente desaparece durante uma semana sem qualquer motivo que o justifique, salvo, desastre, fuga deliberada ou rapto. Só que, para tentar superar a dor provocada por este evento inesperado o pai senta-se à secretária e vasculha em todos os lugares ao seu dispor; Facebook, Twiter, Instagrama, WatsUp, mensagens de comunicação telefónica, arquivos que a filha tinha no computador, ligações suspeitas pelos mais diversos indícios, “krakandopasswords, de encriptação de ficheiros e de contas pessoais, para entrar em contacto com pessoas e factos até então totalmente desconhecidos para ele, que preocupado com a sua atividade profissional tinha-se “esquecido” de conhecer a filha.
Claro que numa situação destas há intervenção policial e acções de campo, mas são-nos todas apresentadas em forma de notícia, ou de filme captado por câmaras de vigilância, integradas na rede de comunicação que envolve a sociedade tecnológica em que vivemos. Não se pense que isso atenua o drama e a dor da perda de David Kim (John Cho), implícitos na história do desaparecimento de Margot (Michelle La) pois estão todos lá, pela mão de Aneesh Chaganty, argumentista e realizador que de forma notável, nos apresenta este primeiro thriller de Hollywood dirigido por um ator asiático-americano.
O grande destaque desta realização é a sua execução visual, quase totalmente apresentada através da captação de imagens de computador e de smartphones que interligam os factos significativos da história de forma mutável, dinâmica e com os necessários twists que mantêm vivo o interesse do espetador e a surpresa até ao final. É uma nova linguagem em cinema, uma novidade, recomendo.

Classificação: 7,5 numa escala de 10

24 de agosto de 2018

Opinião – “Alpha” de Albert Hughes


Sinopse

Uma aventura épica passada na Idade do Gelo. ALPHA conta uma história fascinante e visualmente deslumbrante que ilumina as origens do melhor amigo do homem. Durante a sua primeira caçada com o grupo de elite da sua tribo, um jovem é ferido, devendo então aprender a viver sozinho no deserto. Nesse caminho confronta-se com um lobo solitário abandonado pela sua alcateia que acaba por tornar-se um aliado improvável. No processo de domação do lobo pela sua alcateia, o par aprende a confiar um no outro, ultrapassando inúmeros perigos e adversidades, a fim de encontrar o caminho de volta para casa.

Opinião por Artur Neves

No alvorecer da humanidade, na Europa paleolítica, sem nações, á 20 000 anos atrás, isenta da presença humana em plena Idade do Gelo decorre esta história que nos pretende mostrar o início da ligação entre homens e cães, através de uma fábula de um rapaz perdido e ferido e de um lobo abandonado à sua sorte depois de uma tentativa de ação de caça, da alcateia a que pertencia.
A paisagem é completamente desolada, terra infinita sem qualquer vestígio de habitação onde os animais existem no seu estado natural e onde impera a lei do mais forte como única regra para a necessidade de subsistência. Os elementos naturais do terreno, ora acidentado, ora plano, o sol e o vento conferem matizes de cor e de formas que a fotografia artística de Martin Gschlachat potencia em maravilhosas tomadas de vista de uma Europa que nenhum de nós jamais viu. Mesmo as tempestades, os mares gelados e os intensos ventos predominantes naqueles tempos, estão bem retratados na sua violência devastadora que podemos aceitar como válida, considerando os desmandos climáticos que atualmente conhecemos em todo o mundo.
A história gira em torno de uma tribo de caçadores, e da família do chefe, Tau (Jóhannes Jóhannesson) que prepara a emancipação do seu filho Keda (Kodi Smit-McPhee) para a futura liderança da tribo. Aqui começam para mim os grandes problemas deste filme pois as suas expressões faciais são compatíveis com as de um barbudo empregado bancário para o Sr. Tau e de um jovem adolescente prestes a entrar na universidade para Keda. 20 000 anos atrás do nosso tempo corresponde á época do Pleistoceno Superior, no período Quaternário da escala de tempo geológico. Nesta época dá-se a evolução do Homo erectus que apareceu no Pleistoceno Médio, para o Homo sapiens Neanderthalensis, anterior ao período do Holoceno onde está contida toda a história evolutiva do ser humano moderno referido como Homo Sapiens Sapiens, mas ainda assim, um primata de feições simiescas e não os rostos “docinhos” de feições corretas como são apresentados neste filme.
Por outro lado os comportamentos sociais nesta época deveriam estar ligados ao grande desafio da sobrevivência e da estrita manutenção das necessidades básicas, muito diferentes das preocupações que nos são apresentadas para a família nuclear desta história. Este filme tenta reportar-nos a origem dos animais domésticos na vida dos humanos e seja qual for a verdade, a fábula que nos é contada pode em alguns pontos tocar nessa verdade o que já será muito bom, mas por favor contem-nos isso através de personagens credíveis se faz favor, 51 milhões de dólares mereciam ser gastos com maior rigor.

Classificação: 5 numa escala de 10

17 de agosto de 2018

Opinião – “Slender Man” de Sylvain White


Sinopse

Numa pequena cidade do estado de Massachusetts, USA, quatro raparigas do ensino secundário decidem fazer um ritual na tentativa de desmascarar o mito de Slender Man.
No meio do ritual, uma das raparigas perde-se misteriosamente, fazendo com que as colegas acreditem que esta foi, de facto, a última vítima de Slender Man.

Opinião por Artur Neves

De todas as assombrações que pululam na sociedade dos Estados Unidos da América (a presidência de Donald Trump é apenas a mais recente embora noutro contexto) o mito do “The Tall Man” já deu origem a várias realizações em cinema, sendo a última de 2012, rebatizada em Português com o nome; “O Homem das Sombras” mas corporizando a mesma história de um ser longilíneo, com movimentos lentos, misto de humano e vegetal que encanta crianças e jovens para posteriormente os abduzir, do meio a que pertencem.
Desta vez, que em Portugal foi adotado o nome original do filme; “Slender Man” (Homem Alto, no sentido de bem proporcionado, esbelto) conta-se a mesma história, modernizando-a com as novas tecnologias, tais como, um vídeo através do qual se faz a cativação das jovens, troca mensagens de telemóvel entre as jovens e uma conta desconhecida mas conotada como o “Slender Man”, uma bateria de vídeos descoberta na internet que documentam anteriores abduções, no sentido de criar o ambiente propício para a evocação do mal e das suas consequências.
A banda sonora, elemento fundamental na criação do ambiente conduz-nos igualmente à atmosfera de terror que se pretende criar, só que, tomando como seus todos os truques e twists de argumento estafados noutras apresentações, que normalmente têm conduzido à inquietação e suspense do espetador, transmite-nos aqui uma sensação de déjà vu, em vez de inquietação. Os efeitos especiais utilizados também já os vimos noutros contextos e noutras histórias não acrescentando por aí qualquer valor a uma história que se fundamenta num mito sem qualquer explicação, nem que seja esotérica, e que se afirma apenas porque sim, na cabeça das púberes meninas do secundário que por não serem convidadas para a festa dos rapazes da sua preferência, reúnem-se na casa de uma delas e entretêm-se com a evocação desta entidade mítica.
É com esta história simples que Sylvain White, nascido e criado em Paris, formado na Sorbonne (quem diria!...) e posteriormente graduado em produção de cinema em Los Angels, autor de alguns filmes interessantes, tais como; “La Marque des Anges Miserere”, em 2013 e “The Americans”, 2017-18, mini serie de 2 episódios para a televisão não estreada em Portugal, nos apresenta a sua versão deste mito urbano que acrescenta muito pouco ao cinema de supense e de terror que tem os seus pergaminhos para manter os aficionados do género. É uma estória, com pouca história, para fazer história, veja se quiser, está por sua conta.

Classificação: 4 numa escala de 10

21 de julho de 2018

Opinião – “Hotel Transylvania 3: Umas Férias Monstruosas” de Gendy Tartakovsky


Sinopse

No novo filme da Sony Pictures Animation, Hotel Transylvania 3: Umas Férias Monstruosas, Mavis surpreende Drac com uma viagem de família num luxuoso cruzeiro para que ele possa ter uma pausa de gerir as férias dos outros no hotel e os restantes monstros não resistiram e juntaram-se.
Todos estão a ter umas ótimas férias, aproveitando as ofertas divertidas do hotel, desde voleibol para monstros a enormes buffets e excursões exóticas, mas o inesperado acontece quando Drac se apaixona pela intrigante e perigosa capitã do navio.
Gerir família, amigos e um novo romance pode ser demais, mesmo para o vampiro mais poderoso.

Opinião por Artur Neves

Este Hotel Transylvania é a continuação da saga iniciada em 2012, continuada com uma sequela em 2015 e prolongada com a atual história vivida num cruzeiro que nos traz de novo todo o grupo de familiares e companheiros do Drac a viverem uma nova aventura sobre as ondas do mar. Não é nada de novo é apenas diferente e resume, se assim se pode chamar, a série em curso nos USA com o mesmo título e que já vai com 8 temporadas. Em série ou em filme vemos sempre os mesmos personagens e o propósito é divertir-nos com as reações de vampiros e monstros aos problemas do dia-a-dia respeitando as idiossincrasias particulares de cada personagem.
 Se nas versões anteriores a historia se centrou na família e nos problemas familiares emergentes de Drac e da ligação da filha com um humano, desta vez extrapola para o arqui-inimigo e caçador de vampiros; Van Helsing que sem ele saber habita o navio de cruzeiro e utiliza os encantos da sua filha, capitã do navio, para mais uma vez tentar caçar o vampiro mais desejado da sua coleção.
Todavia entre os dois surge uma chispa de romance e o amor, sempre ele, transforma os planos de caça noutra coisa diferente, sempre com a intervenção dos familiares e amigos de Drac, construindo uma trama de mistério e thriller que nos entretém durante 97 minutos de boa disposição e engraçados gags.
É o típico filme de verão para miúdos e graúdos, escrito e realizado por Gendy Tartakovsky, tal como nas versões anteriores, com Adam Sandler, Andy Samberg e Selena Gomes nos principais papéis que merece ser visto se não tiver uma ocupação mais interessante para fazer, seja como for, diverte e recomendo.

Classificação: 6 numa escala de 10